terça-feira, 16 de julho de 2019

Músicas Gêmeas - Ed Sheeran x Marvin Gaye

Ainda que esteja em pleno processo de divulgação de seu mais recente trabalho - o morno Nº 6 Collaborations Project -, o cantor Ed Sheeran não tem tido vida fácil, já que desde 2016 está em curso um processo de plágio envolvendo o artista. Na época, o compositor Ed Townsend encontrou similaridades entre as canções Thinking Out Loud de Sheeran e Let's Get It On de Marvin Gaye, canção que foi composta em parceria com Townsend. Confesso que, sim, há algumas similaridades entre as canções, a ambientação, a melodia, mas não considero o episódio tão, assim, escancarado.O imbróglio deve se resolver ainda neste ano e enquanto isso não ocorre, convidamos vocês a tirar a prova real, sobre mais esse caso de cópia (ou não).


Tesouros Cinéfilos - Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru)

De: Hirokazu Koreeda. Com Masaharu Fukuyama, Machiko Ono, Keita Nonomiya, Lily Franky, Yoko Maki e Shogen Hwang. Drama, Japão, 2013, 121 minutos.

O prolífico diretor japonês Hirokazu Koreeda é um mestre na utilização dos conflitos familiares, como matéria-prima para a elaboração de seus filmes. Obras como Ninguém Pode Saber (2004), Depois da Tempestade (2016) e, mais recentemente, o indicado ao Oscar Assunto de Família (2018), frequentemente utilizam a dinâmica que envolve pais, mães, tios, filhos e sobrinhos, como forma de estabelecer um microcosmo que parece pronto a ruir ao menos sinal de instabilidade, rompendo com o tecido social estabelecido. Bom, esse também é o caso de Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru), que gera tensão a partir de um episódio inusitado: quando dois casais recebem um chamado do hospital em que nasceram seus filhos para explicar que, seis anos atrás, seus bebês foram trocados na maternidade. E, pior: aparentemente de forma deliberada.

Em meio a conversas com advogados que brigarão por possíveis indenizações, ambos os casais resolvem efetuar a troca aos poucos para que o trauma não se transforme em algo ainda maior. Assim, o jovem Keita (Keita Nonomiya), que convivia com os pouco amorosos e excessivamente práticos pais Ryota (Masaharu Fukuyama) e Midori (Machiko Ono), em um lar com muito conforto e segurança financeira, mas também muito frio, passará a conviver com os amorosos e extrovertidos Yudai (Lily Franky) e Yukari (Yoko Maki), além de dois irmãos, em um ambiente bem mais modesto, mas muito mais vivo e colorido. Ao mesmo tempo, o pequeno Ryusei (Shogen Hwang) será enviado para a casa dos primeiros. Se na sua casa "oficial", Keita precisava se preocupar com uma agenda que lhe transformava em um pequeno adulto - com direito a aulas de piano não muito desejadas -, na sua outra moradia ele podia brincar e receber um carinho quase inesperado. De outro lado, a sisudez, especialmente de Ryota, deixará Ryusei claramente desconfortável.


De certa forma, o filme faz uma crítica aos pais que "despejam" filhos no mundo, mas que não reservam tempo para eles, tratando-os com distanciamento, e colocando-os sempre em segundo plano. Em uma das mais arrebatadoras sequências, Yudai pergunta a Ryota os motivos de ele não ser um pai mais presente para o seu filho, ao que o segundo responde que "não pode ser substituído no trabalho". Em seguida, ele ouve como tréplica o fato de que ele TAMBÉM não pode ser substituído como pai - por mais que o próprio Yudai pudesse ser um candidato natural ao "cargo". Outra cena definitivamente comovente envolve o momento em que Yukari dá um caloroso abraço em Keita que, desacostumado com esse tipo de manifestação de carinho, parece não saber exatamente o que fazer com os braços, já que o seu pai sequer lhe tocava quando lhe reencontrava após um dia de trabalho.

Será nessas interações meio tortas, difusas, com crianças perdidas em meio a convivência entre duas famílias diametralmente opostas, que num momento brigam e noutro se querem bem, que se estabelecerá a dinâmica do filme. A impressão que temos é a de que todos se complementam e, por mais que haja uma crítica mais forte ao pai excessivamente deslumbrado com o capitalismo, também ele terá o seu momento de redenção, em que confronta um passado (e uma infância) em que também permaneceu, na condição de criança, em segundo plano. É uma obra que pode soar meio arrastada para alguns "paladares" mas que, com grandes interpretações, e uma atenção minuciosa para a construção da narrativa, se transforma em um verdadeiro tratado sobre o valor da conexão entre pais e filhos - e sobre como estas definirão quais adultos que aquelas crianças serão. Premiado pelo Juri no Festival de Cannes daquele ano, Pais e Filhos conferiu ainda mais robustez a filmografia de Koreeda, que transforma cada filme que é lançado por ele, em verdadeiro objeto de culto pelos cinéfilos.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Cinema - Divino Amor

De: Gabriel Mascaro. Com Dira Paes e Júlio Machado. Ficção Científica / Drama, Brasil / Uruguai / Dinamarca / Suécia / Chile / França / Noruega, 2019, 102 minutos.

A ideia para o filme Divino Amor é absurdamente original. A trama viaja para o futuro para imaginar um Brasil do ano de 2027. Nele, o Estado definitivamente deixou de ser laico, a família tradicional está estabelecida exclusivamente no padrão homem, mulher e filho, a burocracia é galopante e o Governo funciona num misto de opressão religiosa e conservadorismo extremo. Enfim, é o tipo de distopia tão verossímil nesses recém-iniciados anos de Bolsonaro, Damares, Olavo de Carvalho e Alexandre Frota que a sensação, na verdade, é a de que não estarmos necessariamente vendo o futuro e, sim, o presente. Afinal de contas, hoje em dia, homem deve vestir azul e mulher deve vestir rosa. O Estatuto da Família busca restringir a sua composição a heteronormatividade. Deputados da bancada evangélica rezam o Pai Nosso na Câmara, em dia de votação de pautas. E por aí vai. Esse é o nosso Brasil da atualidade. Retrógrado. Cafona.

Em 2027 esses aspectos parecem apenas ter se ampliado. Ou se legitimado pelo voto - e aqui cabe saudar o diretor Gabriel Mascaro (Boi Neon) por ser uma espécie de visionário com esta pequena obra, que foi produzida e concluída antes das últimas eleições. No universo que ele concebe não existe mais o Carnaval, que foi agora substituído por um tipo de rave gospel em que fundamentalistas religiosos aguardam pela chegada do Messias. Pessoas que precisam de conselhos de algum pastor podem acessar uma espécie de drive thru da salvação em que liturgia e música sacra se misturam para expiação das dores dos fiéis. A tecnologia serve as instituições e para identificar pessoas pelo seu Estado civil - solteiro, casado, divorciado e, no caso das mulheres, se estão grávidas ou não. É o tipo de opressão que não é necessariamente escancarada, mas que estabelece rótulos e que busca uniformizar uma sociedade que, consequentemente, perde a sua identidade. Tudo é sombrio, triste, desolador.


A protagonista Joana (Dira Paes, em ótima performance) é uma escrivã de cartório profundamente religiosa, devota à idéia de fidelidade conjugal e que tenta evitar que casais se separem. Sim, é um dos objetivos do Estado impedir que uma de suas instituições máximas - no caso, o matrimônio - não seja arruinada. Que os casais continuem. Persistam. Sejam felizes na marra e superem as "fases ruins". Mas o que fazer quando ela própria tem as suas convicções questionadas, a partir de um evento que modificará a sua vida e a de seu marido Danilo (Julio Machado) para sempre? Incapazes de ter filhos, eles procuram todo o tipo de solução médica e tecnológica, com direito a cenas constrangedoras de busca de "fertilidade". Mas, e quando o milagre acontece, mas não é bem como se esperava, como lidar?

O filme, que mais parece uma espécie de apocalipse enfumaçado em cores neon, procurará lidar com essas questões, ao passo que mostrará as interações de Joana e Danilo na entidade que dá nome ao filme e que busca algo como "a ressignificação do casamento" por meio de terapia - o que deverá ocorrer com muito sexo entre os envolvidos, mas apenas como forma de estímulo, sem amor (o que dá conta da hipocrisia das famílias de bem que não se furtam em pular a cerca, tal qual ocorre na metafórica sequência de um cachorro no cio ainda no primeiro ato). Utilizando-se de longos planos, Mascaro inundará a tela de cenas em que os dogmas religiosos são desconstruídos, com os sujeitos se vendo reféns da mesquinharia que rege a grande maioria das igrejas, que jamais almejam o bem estar coletivo e, sim, apenas a satisfação individual de poucos, numa espécie de hedonismo às avessas.


Pecando apenas por não ampliar o contexto político/social/religioso, o filme acaba "pegando leve" ao não mostrar possíveis focos de resistência em um Governo totalitário (não seria interessante o submundo dos divórcios obtidos no mercado negro?) ou mesmo as outras formas de opressão do Estado, possíveis em um universo em que absolutamente TUDO gira em torno da religião. Por exemplo, as pessoas ouvem música gospel porque as outras não são permitidas? E como seria o comportamento da imprensa nesse cenário apocalípitico? Seria chapa branca? Panfleto do Governo? Haveria outros partidos políticos? Outras possibilidades? A tecnologia não avançou tanto por quê? Há equipamentos proibidos (não se vê nenhum celular em cena)? A meu ver, ao limitar a obra para os limites daquilo que acontecia no entorno da família protagonista, muitos aspectos que enriqueceriam a experiência foram deixados de lado. Ainda assim trata-se de um filme superior, visionário e essencialmente plausível diante desse cenário catastrófico que se encontra a nossa política.

Nota: 8,5

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Na Espera - Ad Astra (Filme)

Ainda é cedo pra falar em Oscar, mas uma coisa é certa: Ad Astra deverá estar entre os indicados em boa parte das categorias técnicas na próxima edição da maior premiação do cinema, afinal de contas, quem resiste a um filme de ficção científica bem feito? Dirigida por James Gray (Z - A Cidade Perdida) e com estreia prevista para o dia 19 de setembro, por aqui, a obra narra a história de um engenheiro especial que possui um leve grau de autismo e que, a despeito da doença, resolve empreender a maior jornada de sua vida: viajar para o espaço, cruzar a galáxia e tentar descobrir o que teria acontecido com o seu que pai, um astronauta que, vinte anos atrás, teria se perdido em meio a uma expedição ao planeta Netuno.


O elenco tem bons nomes, entre eles Brad Pitt, um dos produtores executivos, que interpreta o protagonista Roy McBride. Completam o elenco Tommy Lee Jones, Ruth Negga e Donald Sutherland. Já o trailer tem aquele clima de ficção científica clássico, com imagens do espaço, explosões no vácuo (e sem som!), um leve caráter existencialista e um personagem atormentado em busca de alguma resposta para as suas angústias. Se vai emplacar ou não, saberemos daqui pouco mais de dois meses. Por aqui, já estamos Na Espera!

Novidades em Streaming - The Black Keys (Let's Rock)

Não chega a ser exaaaatamente uma novidade: já faz duas semanas que o The Black Keys lançou seu mais novo registro (o novo da carreira). E como hoje é o Dia Mundial do Rock - essa data enfadonha que costuma ser celebrada por senhores reacionários e conservadores que escutam Born To Be Wild do Steppenwolf, enquanto saboreiam alguma cerveja artesanal de sua preferência -, nada mais justo que comemorar ouvindo um disco que se chama Let's Rock! E se tem algo que o Dan Auerbach e companhia sabem fazer de maneira satisfatória, é aquele rockão garageiro meio alternativo, meio eletrônico, que nos faz abrir aquele sorriso sem muito esforço. Não, não é a salvação da lavoura - aliás,  beeem longe disso. Mas para um estilo que tem sido sinônimo de jaqueta de couro empoeirada, guarnecida por uma dúzia de bolas de naftalina, poder ouvir um álbum que ecoa a juventude perdida de algum tempo que não volta mais, misturando o clássico e o moderno em igual medida, já nos faz manter a esperança. Bora clicar?



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Tesouros Cinéfilos - Culpa (Den Skyldige)

De: Gustav Möller. Com Jakob Cedergren, Jessica Dinnage e Jakob Ulrik Lohmann. Suspense, Dinamarca, 2018, 85 minutos.

Interessante notar como um filme de estrutura bastante hollywoodiana, como é o caso do dinamarquês Culpa (Den Skyldige), é percebido com um outro tipo de severidade quando se trata do cinema europeu. Tudo parece ser mais naturalista, com os personagens surgindo na tela como figuras absolutamente verossímeis, possíveis de existir. Se há tensão, ela é palpável. Se há sofrimento, a dor salta da tela. Talvez seja algum tipo de distanciamento, que resulte nesse sentimento. A fotografia granulada. A luz ambiental. A música quase inexistente. Não sei. Tô viajando aqui, ao mesmo tempo em que já sei que os americanos farão uma versão deles dessa pequena joia do cinema dinamarquês. E que haverá Jake Gyllenhall no papel principal - o de um policial que está sob investigação e que é "rebaixado" ao cargo de atendente de ligações de emergência na delegacia em que trabalha.

Bom, no original dinamarquês, dirigido pelo estreante Gustav Möller, o protagonista é Asger Holm (Jakob Cedergren). Em meio a ligações com pedidos de socorro os mais variados - desde quadas de bicicleta, até relatos de pequenos furtos -, Asger atende uma ligação de uma mulher que, aparentemente, está sendo sequestrada. Ao telefone, ela finge que está falando com a sua filha, como forma de despistar o sequestrador e facilitar a logística que poderá levar a polícia até a autoestrada em que está a van do criminoso. Intercalando chamadas direcionadas a outras delegacias de Copenhague, a policiais rodoviários e até a amigos policiais mais próximos (que, a paisana, também poderiam ajudar), Asger vai montando uma espécie de quebra-cabeças para que ele consiga, mesmo a distância, solucionar o caso.


Só que há um aspecto que o protagonista não parece colocar na balança nessa situação toda: o da imprevisibilidade. O apoio dos policiais de campo levará a descobertas nauseantes, aumentando a angústia não apenas de Asger, mas também do espectador, que acompanha tudo com a câmera praticamente colada na do policial. Hábil na construção de um cenário claustrofóbico, Möller realiza todo o filme no cubículo da delegacia, fazendo com que o espectador escute vozes, barulhos, passos, suspiros, choros e outras reações que ocorrerão do outro lado do telefone em nenhuma chance de reação e que transformarão a película em uma experiência não menos do que sufocante. Assistir a dor do policial que, longe, não consegue ajudar como desejaria, ao passo que ele mesmo lida com os seus próprios demônios - parece haver segredos do passado prontos para vir à tona - tornam a obra uma gratíssima surpresa dentro do gênero suspense.

Com apenas um ator aparecendo praticamente o filme inteiro, essa obra de pouco mais de 80 minutos é a prova viva de que não são necessárias explosões, efeitos especiais de última geração e outras trucagens para a composição de uma obra satisfatória: basta uma boa ideia. E que ela seja bem executada - já que, certamente na mão de outro diretor talvez o filme beirasse o delírio histrionista e irresponsável. Discutindo ainda o conceito de culpa (e seus atenuantes em crimes variados), bem como o nosso ímpeto natural de ser juiz em causas que não são nossas, o filme, enviado pela Dinamarca para a categoria Língua Estrangeira no último Oscar, ainda reserva para o terço final uma impactante reviravolta, que deixará o espectador estarrecido no sofá. Nesse sentido trata-se de um filme completo: tenso, urgente, com ótima interpretação do protagonista e uma resolução surpreendente. Não era necessária uma versão de Hollywood, definitivamente.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Cinema - Fora de Série (Booksmart)

De: Olivia Wilde. Com Kaitlyn Dever, Beanie Feldstein, Billie Lourd, Skyler Gisondo, Jessica Williams, Lisa Kudrow e Will Forte. Comédia, EUA, 2019, 105 minutos.

Devo admitir que sempre fico meio desconfiado dos filmes que tratam do universo dos adolescentes - especialmente pela dificuldade que muitos diretores têm de escaparem dos estereótipos. Do jogador de futebol americano popular, bonito e tosco, passando pela nerd que não é padrão de beleza (mas é muito inteligente), até chegar ao introspectivo dark ouvinte de The Smiths, o caso é que muitas obras reduziram os adolescentes a figuras exclusivamente maniqueístas, sem nenhum senso de vida em comunidade ou empatia. E que respondiam apenas de uma forma: com maldade ou bondade excessiva, de acordo com o papel que lhes foi atribuído na trama. Aliás, é assim até hoje e vamos combinar que as historinhas meio bobas, sobre adolescentes querendo perder a virgindade ou sobre moças românticas sonhando com príncipes encantados inexistentes, em meio a um festival de piadas machistas e misóginas, nunca contribuiu muito.

E quando li o resumo desse Fora de Série (Booksmart), sobre duas amigas com quase nada de vida social e que sempre foram muito focadas em tirar as melhores notas (o estereótipo das CDFs), mas que resolvem correr atrás do prejuízo na última noite de festa antes da formatura do Ensino Médio, confesso que não me animei muito. Mas esse filmezinho adolescente, pasmem, está entre os 25 melhores do primeiro semestre, de acordo com o site Metacritic (que compila notas de críticos dos mais diversos veículos). Então resolvi encarar a sessão, até mesmo porque queria algo mais leve, sem muita pretensão. E é preciso admitir: trata-se de uma gratíssima surpresa.


A quebra de estereótipos acontece já nos primeiros minutos do filme, quando as protagonistas Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein) se dão conta que os colegas que passaram a vida inteira na zoeira, entrarão em universidades tão majestosas quanto as delas. Sim, porque, por incrível que possa parecer, é possível SIM aproveitar a vida, curtir, namorar, ir para as festas, beber e transar e TAMBÉM ir para uma faculdade legal, estudando, se focando. Há momento para tudo. E uma coisa não exclui a outra. É a mesma lógica que vale para a dificuldade que Hollywood tem para aceitar que, nas comédia românticas, uma mulher possa casar (se assim desejar) e TAMBÉM ter uma carreira, um trabalho. Bom, quando nos primeiros minutos de filme essa ficha cai para nós, junto com uma das protagonistas, a película da diretora estreante Olivia Wilde já ganha um bom punhado de pontos.

Sim, os skatistas não precisam ser necessariamente os maconheiros burros, os ricações não precisam ter um bando de bajuladores à sua volta, os populares não precisam ser antipáticos e os nerds não precisam ser pretensiosos. É da vida real que estamos falando, e Olivia apresenta as características de cada adolescente - suas inseguranças, medos, desejos, anseios - com uma naturalidade comovente. Não estamos falando que não haverá "tribos", cada grupo interagindo mais com quem tem mais afinidade. Mas não é possível que todos curtam juntos? E é nesse aspecto tão prosaico que o filme nos arrebata. Quando Amy e Molly chegam a tão desejada festa, o "medo" inicial - de serem ridicularizadas, por nunca terem sido muito sociais -, dá lugar a outros sentimentos (euforia, paixão, desilusão). E a fluidez com que tudo acontece nos emociona e nos faz rir em igual medida.


É um filme tão simples, que é quase inacreditável. Se passa todo em uma madrugada, com Amy e Molly indo de festa em festa em busca da tal festa do Nick (a balada "oficial" da noite). Uso de drogas, ingestão de álcool, amizades, sorrisos, galinhagens, primeiras vezes desajeitadas (e totalmente compreensíveis), tudo estará lá, bem como as piadas sexuais engraçadas e os comentários sociais inteligentes, travestidos de piadas (como não sorrir um sorriso amarelo quando o motorista do Uber se revela o DIRETOR DA ESCOLA!) ou não (caso da onipresente mensagem sobre feminismo e de respeito às diferenças). Com uma sequência toda na piscina que, desde já, está entre as melhores do ano, Fora de Série ainda tem uma trilha sonora daquelas pra marcar época, com artistas como Perfume Genius, LCD Soundsystem, Rhye e Anderson .Paak dando ainda mais vida a cada sequência dessa pequena joia. Há esperança na geração Millenial. E os filmes já os têm tratado com um pouco mais de respeito e menos presunção. Que bom.

Nota: 8,5

Cinema - Eu Não Sou Uma Bruxa (I Am Not A Witch)

De: Rungano Nyoni. Com Maggie Mulubwa e Henri B. J. Phiri. Drama / Fantasia, Reino Unido / Zâmbia / França / Alemanha, 2018, 92 minutos.

Se no "democrático" Brasil de Bolsonaro a junção de fanatismo religioso, sociedade patriarcal e Estado autoritário já tem produzido, em apenas seis meses, resultados devastadores, o que dizer de países ainda mais fechados? No inacreditável Eu Não Sou Uma Bruxa (I Am Not A Witch), somos apresentados à dura realidade cultural das mulheres que nascem em países como Zâmbia ou Gana e que, por motivos variados - seja morarem sozinhas, não terem emprego ou um companheiro ou estarem na rua -, podem ser acusadas de bruxaria. O que faz com que passem a viver, a partir de então, em isolados campos de concentração como propriedade do Estado, tendo limitado o seu direito de ir e vir. Ou sendo ainda apresentadas como aberrações para turistas ávidos por selfies - mas sem nenhum espírito humanitário ou qualquer tipo de empatia pelos vulneráveis.

É exatamente essa a realidade da jovem Shula (Maggie Mulubwa). Com pouco mais do que oito anos de idade, ela é tomada como bruxa após cruzar o caminho de uma mulher que carrega um balde de água que acaba despencando de sua cabeça. Sim, um acaso fortuito é o suficiente para que uma jovem errante seja entregue ao Governo por praticar bruxaria - na teoria ninguém pega mais água porque Shula derruba os baldes. E, para ter certeza de que a menina é MESMO uma bruxa, durante uma reunião na comunidade, um homem aparentemente bêbado fala a respeito de um sonho que teria tido com a jovem - ocasião em que esta decepava a sua mão. Sim, um sonho. Bom, as decisões jurídicas sobre a questão da bruxaria são meio injustas em certos países africanos. Bom, as decisões jurídicas podem ser injustas em qualquer País, se não obedecerem um mínimo de regras em que se estabeleça, de fato, a justiça.



Estabelecida como bruxa, Shula é entregue a comunidade das bruxas, que lhe festejam com cânticos de louvor (numa das tantas belas sequências da película). A jovem passa a trabalhar como escrava na lavoura, usando uma espécie de cordão (a rédea), que lhe impede de sair dos limites estabelecidos pelo Governo. Em meio a tudo, participa de atos públicos, caso de uma espécie de julgamento em que um homem também é acusado injustamente de ter praticado roubo. É nesse momento que Shula se aproximará ainda mais do tutor governamental Sr. Banda (Henri B. J. Phiri), passando a morar com ele e sua esposa, se tornando responsável por rituais variados, como a dança da chuva e a consequente promessa ao Estado, de uma safra satisfatória.

É um filme duro, árido, tratado pela diretora Rungano Nyoni (que acompanhou tribos em que a cultura da bruxa existe, como estudo para seu filme de estreia) com um caráter documental, sendo quase raros os momentos em que a câmera se afasta de Shula (e dos demais). Lírica, a obra transborda beleza e desolação em igual medida, evocando sensações diversas no espectador. Não por acaso, sequências como a que mostra um caminhão com diversos carretéis de rédeas rompidos ou mesmo a do Sr. Banda e de Shula participando de um programa de televisão mexem conosco, nos geram desconforto e estranhamento, paradoxalmente, mantendo um fiapo de esperança. O mesmo valendo para as cenas em que as bruxas realizam seus rituais, com cânticos em meio a um cenário sombrio/avermelhado e de contraste.


Por fim, trata-se de uma obra de grande sutileza, que faz a crítica, mas sem esfregar aquilo que está propondo na cara de ninguém. Nas entrelinhas é possível ver temas como descaso dos governos com as minorias, preconceito e xenofobia, machismo, patriarcalismo, excessos do mundo capitalista (as cenas com os turistas beiram o constrangimento) e até fanatismo religioso, abordados em meio a sequências devastadoramente oníricas, funcionando quase como pesadelos áridos, cinzas, e que são fruto de um mundo em que a desesperança é a ordem do dia. Eu Não Sou Uma Bruxa foi o enviado do Reino Unido para a categoria Filme em Língua Estrangeira no último Oscar. Pode não ter se classificado para a final, mas faz com que a nossa atenção se volte para os absurdos cometidos por culturas retrógradas, preconceituosas e ultrapassadas, que costumam utilizar o medo do diferente como moeda de troca.

Nota: 8,5

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Intriga Internacional (North By Northwest)

Cena: Uma perseguição pelos rostos esculpidos do Monte Rushmore

Não é fácil fazer um Grandes Cenas do Cinema com o clássico Intriga Internacional (North By Northwest), afinal de contas a obra-prima de Alfred Hitchcock possui uma verdadeira coleção de sequências memoráveis. Aliás, o filme todo parece uma "grande sequência memorável" - com um roteiro excentricamente divertido (e rocambolesco), atores abusando de uma canastrice irresistível e um romance capaz de combinar ingenuidade e malícia em igual medida. No filme em si acompanhamos o publicitário Roger Tornhill (Cary Grant) praticamente em fuga durante mais de duas horas. Ele é confundido com um agente secreto e acaba envolvido em uma trama de espionagem, com tudo piorando quando ele é injustamente acusado de assassinato, tendo de fugir não apenas da polícia, mas também dos capangas que planejam assassiná-lo.

Até chegar a derradeira cena em que Roger e Eve (Eva Marie Saint) empreendem uma espetacular escapada pelo Monte Rushmore, a obra nos diverte e nos deixa tensos com outros tantos momentos inesquecíveis e cheios de ação. Em uma das tantas fugas de Roger, ele é perseguido por um avião que despeja agrotóxicos (sim, acredite, em 1959 isso já existia), em meio a um milharal no meio do nada. Em outra, ele avacalha um leilão, com o objetivo de despistar os criminosos, saindo gloriosamente nos braços da polícia. Há ainda a sequência em que Eve "esconde" Roger no compartimento de bagagens de um trem ("eu quero azeite de oliva se for para me comportar como uma sardinha") e outra em que a dupla forja um assassinato em meio a um restaurante lotado. Sim, vale qualquer estratagema para tentar sair ileso - e fazer com que esse romance meio torto entre a dupla de protagonistas funcione.



Mas a película é uma graça só e a meu ver só funciona porque é muito mais divertida do que tensa! Os personagens são ambíguos, as tiradas do protagonista são impagáveis, a mãe de Roger é uma figura que desconfia das ações do próprio filho (e é curioso como lá pelas tantas ela simplesmente SOME) e Hitchcock ainda utiliza a metáfora de um trem entrando em um túnel, para fazer o espectador entender que, bem, as pessoas foram fazer sexo. Mas é provável que nada se compare a inesquecível sequência no Monte Rushmore, com direito a Eve fugindo de salto alto (que quebra, no meio do caminho) e um Roger desesperado em meio a rostos, narizes e bocas, suas curvas e pedras duras, tentando evitar uma tragédia que se aproxima. Quando ambos estão próximos da queda, o protagonista ainda tem a presença de espírito de fazer uma espécie de "proposta de casamento" em forma de mensagem cifrada, para Eve.

Sim, o filme tem esse charme meio cínico, com Roger estando entre a vida e a morte, mas sempre disposto a tecer algum comentário inesperadamente divertido, capaz de modificar a lógica daquilo que assistimos (como no caso da cena em que ele agradece a polícia por ter vindo lhe prender). Talvez Intriga Internacional não seja o melhor filme do Mestre - foi produzido entre Um Corpo Que Cai (1958) e Psicose (1960) -, mas, por conta de suas tantas sequências inesquecíveis e seu elenco recheado de estrelas - com nomes como Martin Landau e James Mason -, é geralmente lembrado com carinho pelos fãs. Até os créditos iniciais de Saul Bass e a trilha concebida por Bernard Hermann contribuem para que este seja o combo perfeito. A obra-prima é a 40ª melhor da história de acordo com o American Film Institute (AFI). Não é por acaso.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Tesouros Cinefilos - Tangerine (Tangerine)

De: Sean Baker. Com Kitana Rodriguez, Mya Taylor, James Ransone e Karren Karagulian. Drama / Comédia, EUA, 2015, 85 minutos.

Existe uma cena do clássico cult Tangerine (Tangerine) que nos dá a medida exata de como as portas do mercado de trabalho estão fechadas para as trans - e para o público LGBTQI em geral. Mas, especialmente, para as trans. Uma das protagonistas, Alexandra (Mya Taylor), irá se apresentar em um clube noturno de West Hollywood, em Los Angeles, cidade que é palco do filme. Lá pelas tantas, depois da belíssima apresentação de uma canção romântica, descobrimos que Alexandra PAGOU para subir ao palco. Para mostrar seu trabalho. Ou seja, na busca de uma oportunidade que não seja o inevitável universo da prostituição - e da esteira de violência, drogas e agressões de todos os tipos que invariavelmente o acompanha -, ela prefere entregar o seu suado dinheiro para o dono da boate. Uma espécie de investimento que mantém viva a esperança de que as pessoas possam olhá-la como uma artista. E não como alguém que queira necessariamente fazer sexo, ou "vender o corpo", o tempo todo.

Sim, porque esse é o olhar que, infelizmente, boa parte da sociedade - e todos estamos incluídos nessa - tem a respeito do universo das trans. São apenas "objetos" que servirão para algum tipo de satisfação pessoal. Sem sentimentos, sem medos, sem objetivos, sem sonhos. É como se, por serem inevitavelmente prostitutas, elas se tornassem imediatamente figuras dissociadas de outros aspectos de sua humanidade. Corpos que estarão ali para satisfazer senhores, inclusive os "bem casados" das famílias de bem. E, no fim das contas, é esse tipo de crueza, de aspereza que acompanhamos na rotina de Alexandra e da (quase) inseparável companheira Sin-Dee (Kitana Rodriguez). Na jornada em busca de um namorado traidor - o trambiqueiro Chester (James Ransone) -, a dupla atravessará a cidade, transformando a película em um conto de Natal as avessas. O conto de Natal dos excluídos, dos vulneráveis, das minorias, que muitas vezes são ignoradas pelos demais.


Aliás, na simplicidade da narrativa - a busca pelo já mencionado namorado traidor (quer algo mais "mundano"?) -, surge o modus operandi completamente oposto. Filmado com três celulares iPhone e apenas R$ 320 mil de orçamento, a obra tem um caráter documental palpável, meio de "guerrilha", como se cada cena gravada nos aproximasse ainda mais daqueles que assistimos. A gritaria das brigas, as confusões involuntárias, os momentos de serenidade e de reflexão, a trilha sonora que equilibra momentos de calmaria, com outros muito mais urgentes, dinâmicos, formam o combo de uma película que ganha pontos por dar visibilidade a quem não aparece. Por transformar em gente como a gente (a seu modo, claro), figuras tão carismáticas como Sin-Dee e Alexandra. Suas lutas, a gente sabe, são maiores do que a busca por um grande amor. Refere-se a busca por um grande amor em um mundo de preconceito, de ódio, de intolerância.

E esse preconceito pode até demorar a aparecer, mas aparece, seja no grupo de playboys (votantes do Bolsonaro) que joga um saco de mijo na cara de Sin-Dee ao abordá-la, seja na beligerante sequência em que a sogra de Razmik (Karren Karagulian), um taxista casado, pai de família em uma tradicional família da Armênia, vai confrontá-lo. Aliás, este é mais um aspecto abordado "de passagem" pelo filme: o da hipocrisia de uma sociedade incapaz de lidar com a quebra de tradições conservadoras, relegando os seus sujeitos a vidinhas ordinárias em que não conseguem ser o que efetivamente desejariam ser. Tangerine, com sua fotografia alaranjada, sua ambientação cáustica, seus contornos imprevisíveis, pode até ser um filme pequeno na metragem e na concepção. Mas é grande no que se propõe, abrindo portas para que Sean Baker (seu diretor), brilhasse ainda mais em Projeto Flórida, um de seus elogiados trabalhos seguintes.


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Cine Baú - Sem Destino (Easy Rider)

De Dennis Hopper. Com Peter Fonda, Dennis Hopper, Jack Nicholson e Phil Spectos. Drama / Aventura, EUA, 1969, 95 minutos.

Muito antes das motos da Harley Davidson, da jaqueta de couro e do rock clássico (ou farofa) de bandas como Steppenwolf serem associados àquele tiozão reaça que você conhece, o clássico da contracultura Sem Destino (Easy Rider) prestou uma verdadeira homenagem aos desajustados, aos hippies e as figuras excêntricas que vivem a margem da sociedade. Com moto, com jaqueta, com rock, com tudo. Ainda que o Flower Power ganhasse força como ideologia contrária ao uso da violência, nos Estados Unidos do ano de 1969 - período em que o republicano Richard Nixon assume a presidência - ainda parecia pairar uma certa desconfiança no ar, em relação aos rumos do País. Temas como a Guerra do Vietnã e a corrida espacial estavam em voga, o que parecia abrir espaço para um legítimo desejo de liberdade, que representasse efetivamente uma fuga das amarras do conservadorismo e do "sonho americano".

Talvez por isso essa obra tão pequena - a estreia de um ainda jovem Dennis Hopper na direção -, seja ainda tão representativa do espírito libertário daquele período, que transformava em "mocinhos", inesperadas figuras de cabelos compridos, colares indígenas e ambições de liberdade. A bordo de suas motos, tudo o que Wyatt (Peter Fonda) e Billy (o próprio Hopper) desejam é chegar à Nova Orleans para participar do Mardi Gras - a maior festa de carnaval americana. Para alcançar este objetivo, perpetram uma ação de tráfico de drogas na fronteira com o México que lhes rende muita grana. A partir daí partem em uma jornada que durará três dias e que desnudará o melhor e o pior dos americanos, seja no encontro absurdamente saboroso com uma comunidade de artistas hippies, seja no latente preconceito de um bando de caipiras da família de bem, que não conseguem se acostumar com a ideia de que homens possam adotar cabelos compridos - ou mesmo uma postura que fuja do padrão.


Mas certamente o melhor encontro será com o advogado George (Jack Nicholson), que auxiliará a dupla protagonista a sair da prisão após um episódio de "perturbação da ordem pública" (na verdade eles avacalharam um desfile). Na companhia de George, farão divagações sobre a presença de extraterrestres na terra e sobre as implicações da busca pela liberdade (naquela que, ideologicamente, é uma das principais sequências da película). Em meio a paisagens deslumbrantes e muito uso de drogas, o trio mergulhará nas entranhas de uma América conservadora, ao som de clássicos de artistas como Jimi Hendrix, The Electric Flag e Roger Mcguinn. Não haverá necessariamente uma história com começo, meio e fim - não ao menos nos moldes que conhecemos hoje -, mas até mesmo o roteiro e a montagem eventualmente desordenados e com uma lógica bastante particular, também funcionarão como pequenas subversões que pontuarão a película.

Recheado por grandes cenas, como a do banho pelado em uma piscina natural ao som de Wasn't Born To Follow do The Byrds, a da viagem de ácido em um cemitério (uma colagem de imagens quase nauseante) e a da violenta sequência final, Sem Destino é aquele filme que fica por ser uma espécie de líbelo da juventude que busca seu lugar no mundo ao mesmo tempo em que questiona o status quo e as convenções impostas pela sociedade. Premiado em Cannes na categoria Diretor Estreante, o filme, que completa 50 anos de seu lançamento neste mês, foi escolhido o 88º Melhor da História, de acordo com votação feita por integrantes do American Film Institute (AFI). Lançado no mesmo ano de Butch Cassidy, Meu Ódio Será Tua Herança, Perdidos na Noite, Z e Kes, também figura em outras listas valiosas, como a dos 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer e até na dos 100 Melhores Cult Movies de todos os tempos, o que dá conta de sua importância.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Lado B Classe A - Rhye (Woman)

Registros como Woman da banda canadense Rhye são daquele tipo capaz de expandir a importância do sussurro. Que tornam ampla a sutileza. Que transformam o minimalismo em matéria-prima para composições que, ainda que doces, resguardam força. Para a banda menos é mais e é na irresistível economia que o trabalho se sobressai. Para quem gosta do R&B anos 90, tente pensar num Everything But The Girl sem os excessos eletrônicos. Ou numa Lisa Stansfield sem o sintetizador que vibra no ritmo da pista de dança. Uma guitarrinha melódica aqui. Um tecladinho ali. Tudo posicionado de forma branda, trazendo calmaria para o coração e transformando a voz do vocalista Mike Milosh (sim, acredite, trata-se de um homem) no principal "instrumento musical" do registro, um amálgama de emanações vocais que ficam no limite entre o etéreo e o sensual, entre o melancólico e o luxurioso.

É um álbum agradável de se ouvir e, ainda que beba de fontes já há tanto exploradas na década já citada - é impossível não lembrar de artistas como Sade ou Des'ree, por exemplo - é impressionante o frescor trazido pelo disco. É como se todos aqueles referenciais que a gente já conhece fossem enfiados dentro de um liquidificador, para resultar num caldo que foi devidamente depurado, decantado, para que o melhor seja "bebido". Em uma playlist digamos, mais quente, o trabalho não faria feio ao lado de outros contemporâneos, como The xx, Cigarettes After Sex, Jessie Ware ou Miguel ainda que, com personalidade própria, as canções ecoem suas próprias angústias existencialistas. Dilemas do homem moderno distribuídas em pequenas doses, para serem saboreadas com calma, sem pressa - assim como provavelmente será um jantar romântico, com o melhor vinho e a melhor companhia.


Peça central do trabalho, a sinuosa segunda composição do disco, chamada The Fall, servirá como uma espécie de guia natural para as idas e vindas que encontraremos na audição do material. Com seu teclado angustiado, até meio apressado, o vocal de Milosh se torna o contraponto discreto, que acalma, que coloca as coisas no lugar, em maio as confusões imprevisíveis do coração. Oooh, faça amor comigo / Mais uma vez, antes de você ir embora / Porque você não pode ficar? praticamente suplica um eu lírico dolorido, que mostra que o amor tem suas complexidades, formatos difusos. O mesmo tipo de expediente é repetido em canções levemente mais animadas, como Hunger (Eu não estou sozinha / Só me sinto como uma sombra) ou na inaugural Open (Quero fazer isso dar certo / Oh, eu sei que você está desbotando).

Após o lançamento de Woman, o Rhye, como que enfeitiçado pelo trauma das bandas que surgem para o mundo com um grande álbum de estreia, jamais conseguiu repetir o feito nos registros seguintes. Se o trabalho inaugural foi saudado pela crítica - o Pitchfork lhe concedeu uma nota 8,5, considerando-o um material "gentil, suave e fácil de se perder" e "que tem arranjos e canto que raramente se elevam acima do nível de uma conversa" - Blood (2018), o trabalho seguinte, chegou a público de forma bastante discreta. O mesmo valendo para o pequeno EP Spirit (2019), lançado em maio desse ano. Mas nada que apague o que Pilosh alcançou com o classudo álbum de estreia. Uma obra que materializa musicalmente os tapetes felpudos e acolhedores, os abajures de luz ambiente e os lençóis de cetim que, certamente mais tarde, serão bagunçados.


quinta-feira, 27 de junho de 2019

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Timbuktu (Mauritânia)

De: Abderrahmane Sissako. Com Ibrahim Ahmed, Toulou Kiki e Layla Walet Mohamed. Drama, Mauritânia / França, 2014, 96 minutos.

Em uma das tantas cenas desoladoras do melancólico Timbuktu (Timbuktu) um grupo de crianças joga futebol. Mas com um detalhe: sem a bola. Dezenas de crianças e adolescentes com abrigos falsificados da Adidas e camisetas de craques como o Messi correm desvairadamente em uma espécie de balé em que o esporte mais popular do planeta é apenas um faz de conta. A bola foi confiscada pelos militares, afinal de contas é proibido jogar futebol no norte de Mali, local ocupado por extremistas religiosos jihadistas e onde ocorre a ação do filme. Aliás, não é só o futebol que é proibido. Ouvir (e produzir) música também é. Fumar. Enfim, existir. Para as mulheres é ainda pior: além de terem de conviver com uma sociedade patriarcal que lhes determina praticamente tudo que ocorre em suas existências - do casamento arranjado até o que elas devem vestir -, ainda há o risco de morrer em caso de tentativa de fuga desse sistema.

Não é preciso ser um especialista em contextos político/religiosos/sociais de países africanos para saber que a equação fanatismo religioso mais militarismo dificilmente dá certo em algum lugar. E se esses seis meses de Bolsonaro já nos deram uma mostra do que é um Governo ditatorial - com imprensa sendo censurada, políticos de outras correntes sendo ameaçados de morte e cortes generalizados em políticas públicas e programas que destroçam as camadas mais vulneráveis da população -, o que dizer de um povo em que quase a totalidade de seus habitantes vive abaixo da linha da pobreza, muitos deles morando em regiões áridas que, de quebra, ainda são controladas por militares? A situação parece ser ainda mais crítica ao norte onde milícias armadas tornam o local uma espécie de terra sem lei - ou melhor, com o Islã (e o que determina Alá) e os jihadistas sendo a lei.


Sobre o filme, é preciso salientar que não há um protagonista específico, havendo um núcleo em que a morte "acidental" de uma vaca se torna o principal episódio. Só que Kidane (Ibrahim Ahmed) o proprietário do rebanho que teve a vaca sacrificada resolve ir tirar satisfação com o responsável pela morte do animal. Resultado: após uma briga entre os dois sujeitos, o reclamante mata o outro. E, tomado como assassino, ele fica a mercê das duras leis locais, que prevem pena de morte para esses casos. Não adianta ter esposa, ter uma filha e estar arrependido do ocorrido. Está tudo nas mãos de Alá e, Alá, tal qual o Deus do Velho Testamento, parece gostar é de ver sangue derramado. E enquanto o julgamento do protagonista não ocorre, outros pequenos episódios vão se descortinando, caso da morte por apedrejamento de um casal adúltero, da punição a um homem que jogou futebol e de uma sequência infinita de chibatadas para um grupo de jovens que INVENTOU de tocar violão e percussão.

O filme é dolorido porque mostra que nessas terras sem lei, a lei na verdade é subjetiva, como atesta a cena em que um dos líderes dos militares aparece fumando (o que é proibido). E se o adultério é proibido, por que pessoas ligadas a autoridades religiosas locais insistem em assediar Satima (Toulou Kiki) uma mulher casada? Na obra, pequenos momentos de resistência - como o da mulher que pede que suas mãos sejam cortadas (ela se recusa a usar luvas) ou de uma mãe que nega entregar a sua filha para ser desposada por um desconhecido - são apenas pequenos respiros que, de forma circular, farão com que a ponta mais fraca dessa equação acabe sofrendo as consequências mais adiante. No fim o que fica nem é tanto a crítica à ocidentalização dos países islâmicos e sim a interminável guerra entre diferentes vertentes religiosas do islã. No diálogo inicial entre Kidane e Satima as dúvidas sobre o futuro, sobre fugir desse local, sobre se libertar - o que de maneira simbólica é, de alguma forma, alcançado na espetacular sequência final desse poético e arrebatador filme.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Lançamento de Videoclipe - Emicida (AmarElo feat. Majur e Pabllo Vittar)

Se depender daquilo que assistimos no espetacular clipe de AmarElo, lançado hoje pelo Emicida, é possível afirmar que vem disco FODA do rapper pela frente. A canção integrará o terceiro registro de inéditas do paulistano, que deverá chegar no começo do segundo semestre, interrompendo um pequeno hiato desde Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015). O vídeo, dirigido por Sandiego Fernandes, tem participação especial da baiana Majur e de Pabllo Vittar. Nele, o compositor inicia com um sampler da música Sujeito de Sorte, que integra o disco Alucinação (1976) do Belchior, para espalhar (e até ampliar) ideias otimistas de superação de dificuldades, disseminadas pelo artista há mais de 40 anos. "A nossa intenção é a de que as pessoas observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam", destacou Emicida, no material de divulgação do vídeo, que teve como uma de suas locações o Complexo do Alemão.



Novidades em DVD - O Gênio e o Louco (The Professor and The Madman)

De Farhad Safinia. Com Mel Gibson, Sean Penn, Natalie Dormer, Jennifer Ehle e Eddie Marsan. Drama / Biografia, EUA, 2019, 125 minutos.

Filme que passou meio despercebido pelas salas de cinema do País, O Gênio e o Louco (The Professor and The Madman) é daqueles que merece ser (re)descoberto na telinha. Não apenas por reunir dois astros do calibre de Sean Penn e Mel Gibson em grandes interpretações, mas também por apresentar ao mundo uma excelente história: a do ambicioso projeto iniciado em 1857, que visava à criação da primeira edição do Dicionário Oxford de língua inglesa. Um trabalho árduo, longo, exasperante, que contou com a colaboração de dezenas de pessoas até a sua conclusão, mais de 70 anos depois, com mais de 400 mil verbetes inclusos. Em cena, duas figuras que realmente existiram: o professor James Murray (Gibson) e o doutor W.C. Minor (Penn), traumatizado veterano de guerra que comete um crime logo no começo da película, ao confundir a vítima com outra pessoa.

Enviado para uma espécie de sanatório para criminosos, Minor tenta superar o sentimento de culpa, ao passo em que se aproxima da viúva Eliza (Natalie Dormer) que, agora sem o marido, luta para sustentar os seis filhos. Já Murray, se oferece para a laboriosa tarefa do dicionário - e a angústia em evoluir apenas na letra "A" já dá uma boa dimensão da dificuldade enfrentada pelo grupo que se empenha na atividade. O cenário muda quando Murray resolve convidar, literalmente, qualquer pessoa que esteja disposta a auxiliar na elaboração dos tomos. Uma dessas cartas chegará até Minor que encontrará nesta tarefa uma forma de se ocupar, enviando milhares de verbetes para o dicionário que se constituía. Ali nasce uma amizade. Uma amizade entre dois sujeitos que têm suas vidas ligadas pela ambição, pela loucura e pelo desejo de concluir algo nada menos do que genial.


Nesse sentido, o filme do estreante Farhad Safinia se consiste em uma verdadeira homenagem aos vocábulos, com seus significados saltando da boca dos protagonistas, escapando pelos ares, fazendo curvas e retornando - e nos fazendo pensar no quão lindo pode ser o estudo da linguagem, a constituição de sentido ou a revelação de sinônimos. Metaforicamente, palavras como "Arte" aparecem como sendo daquelas de difícil fruição, com mais exigências, mais revisões e mais reencontros com volumes do passado, que poderão auxiliar na questão. É uma obra que homenageia as letras, o simbolismo da importância da leitura e que é representada não apenas por personagens que presenteiam outros com livros, mas que também sugerem ensinar um ao outro a ler (que é o caso de Minor, que propõe o tutoramento a Eliza como uma forma de se redimir da culpa carregada e de tentar fazer com que a jovem lhe perdoe).

A propósito do perdão, a obra também trata deste tema. E da amizade. Na aproximação de Murray e Minor, uma excêntrica parceria (e os poucos encontros entre os dois sujeitos se constituem de pontos altos). Já Eliza aparece, inicialmente, como uma figura naturalmente amargurada, mas que aos poucos vai dando espaço para a absolvição de Minor - especialmente ao descobrir que ele sofre de um severo caso de esquizofrenia. Com bom desenho de produção, que recria de forma fidedigna a segunda metade do século 19, uma fotografia acinzentada (que dá conta da melancolia que rege a existência daqueles que assistimos em cena) e ótimos e carismáticos atores em papeis secundários (Eddie Marsan e Jennifer Ehle, especialmente), O Gênio e o Louco é um filme gostoso de assistir e que, provavelmente, seria ainda melhor se fosse uns 20 minutos mais curto (às vezes tudo se torna meio arrastaaaado). Mas nada que comprometa.

Nota: 7,5

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Picanha.doc - Democracia Em Vertigem

De: Petra Costa. Documentário, Brasil, 2019, 119 minutos.

Em uma das tantas passagens marcantes do incrível Democracia em Vertigem da diretora Petra Costa, a presidente Dilma Rousseff está em vias de sofrer o impeachment. Diante de um bando de "homens de bem", defensores da família engravatados, uma estadista de cabeça erguida afirma que sentiu medo da morte apenas duas vezes na vida: quando foi torturada durante a Ditadura Militar e quando padeceu de um câncer, cerca de 10 anos atrás. "Hoje, eu só temo a morte da democracia", finaliza ela. Esse momento hoje já clássico da nossa política moderna, talvez seja o resumo perfeito do espírito que rege o documentário: o de perceber como a nossa ainda jovem democracia pode estar, diante de tantos desastrosos eventos recentes, sucumbindo. O que nos direciona, nas palavras da própria Petra, "para um futuro tão sombrio quanto o nosso passado mais obscuro e que faz cair a máscara da civilidade".

Para narrar essa história da derrocada da democracia como a conhecemos, a documentarista traça um paralelo em que a sua vida pessoal e a de sua família se cruzam com os eventos políticos recentes. O que humaniza (ainda mais) a obra, afinal de contas a história de esperança dela, poderia ser a história de esperança de cada um de nós. Tomando como ponto de partida as eleições que culminariam no primeiro governo do presidente Lula - ocasião em que Petra votou pela primeira vez -, a diretora recorda, com vibrantes imagens de arquivo, as manifestações dos metalúrgicos do ABC em 1979 e as sequenciais derrotas em pleitos até que, em 2002, ocorre a primeira vitória de Lula nas urnas. As conquistas sociais, com famílias vulneráveis saindo da linha de pobreza extrema, o desemprego em apenas 4% e estabilidade econômica também são recordados. Ao mesmo tempo, o filme não ignora eventos como o Mensalão - que prendeu líderes do PT -, e as alianças com desastrosas siglas, ligadas à velha oligarquia do País, caso do PMDB que, no fim das contas, culminaria no Golpe.


Todo esse didatismo da diretora, é apresentado com grande riqueza de imagens de arquivo, conversas de bastidores, entrevistas variadas e mesmo belas tomadas de câmera (especialmente aquelas de Brasília vista de cima, desde a sua construção, até os dias de hoje). Petra adota um tom melancólico em sua narrativa e chama a atenção para questões que passaram despercebidas por todos nós - caso do "abismo" que havia entre Temer e Dilma quando da posse da segunda como presidente ou mesmo episódios constrangedores como o dos procuradores da Lava-Jato admitindo não haver provas contra Lula em relação a ele ser proprietário do triplex, fazendo ao mesmo tempo a opinião pública acreditar que a ausência de provas seria a prova em si. (e, nesse sentido, não poderia haver melhor timing para o lançamento da obra do que esta ocorrer na mesma semana em que tiveram início os vazamentos de documentos do Intercept, que comprovam a farsa da operação como um todo).

Durante o filme, a diretora repassa diversos episódios recentes e marcantes de nossa política, caso dos protestos pelo aumento das passagens em 2013, dos equívocos - especialmente na seara econômica - da Dilma, da ascensão de uma extrema-direita difusa e incendiária (que gestaria Bolsonaro) e da vergonha que perpetrou um impeachment baseado em "pedaladas fiscais". No decorrer da narrativa, Petra obtém ricas entrevistas - especialmente com Dilma que recorda, de forma comovente, a prisão e a tortura durante a ditadura (impossível não se emocionar na cena em que ela "explica" como aguentava as agressões de seus torturadores), a resistência em se tornar candidata a presidência e a forma como recebeu a notícia de que estava sendo destituída do cargo. Tudo se descortinando sem sensacionalismo, de forma naturalista, com a câmera próxima do rosto dos envolvidos, o que confere um espírito de cumplicidade ainda maior com aqueles que assistimos.


Utilizando-se de citações à Kafka (O Processo) e Shakespeare e com trilha sonora que conta com composições como Canto de Ossanha, do Vinícius de Moraes, Petra Costa constrói um verdadeiro documento de nosso tempo, que apresenta a democracia conquistada como uma espécie de "sonho efêmero". Recheado por frases fortes, imagens impactantes (e revoltantes) e eventos marcantes, a película dá conta de um País que se mostra atualmente dividido, com seu tecido social fissurado e com pouquíssima possibilidade de conciliação. "Democracias frágeis tem uma vantagem sobre as sólidas: elas sabem quando acabam", narra Petra sem esconder o desalento. Ainda é cedo para saber se a nossa, de fato, acabou, mas seguimos esperando que a primavera chegue e assim se acabe a matança de rosas. E o que esse filme monumental - que já tem sido apontado como um dos possíveis candidatos para a categoria Melhor Documentário no próximo Oscar - consegue, é nos fazer prestar ainda mais atenção nisso tudo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Novidades em Streaming - Democracia em Vertigem (Filme)

Os leitores do Picanha têm nos parado nas ruas e ABARROTADO as nossas caixas de e-mail para perguntar "tá, e aí, cadê a resenha do Democracia em Vertigem"? Sim, não estamos em um universo paralelo de desinformação ou mesmo alheios à obra da diretora Petra Costa - que está sendo contada, inclusive, para a próxima edição do Oscar, como projetou o site Indie Wire -, mas, o caso é que ainda não assistimos à película, o que deverá ocorrer neste final de semana. E, assim que assistirmos, evidentemente faremos as nossas considerações! De qualquer maneira, uma obra que trata do colapso da democracia que viria a gestar tempos tão sombrios como estes que estamos vivendo, é o legítimo caso de "nem vi, já gostei". E, enquanto não fazemos a nossa análise da obra que está disponível lá na Netflix, convidamos vocês a prestigiar o o ótimo texto do nosso parça Carlos Eduardo Lima, lá no Célula Pop, que analisa os acontecimentos vistos em tela. Vale conferir!


Grandes Filmes Nacionais - Cinema, Aspirinas e Urubus

De: Marcelo Gomes. Com João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes e Irandhir Santos. Drama / Aventura, Brasil, 2005, 101 minutos.

Uma velha caminhonete cruza o sertão nordestino. Em meio a estradas curtas e arenosas o barulho de motor se mistura com o zumbido dos insetos. O calor escaldante é palpável. A aridez é opulenta, em meio a uma vegetação rala, disforme, sem vida. O suor que escorre do rosto. A água e a gasolina escassas. A caminhonete e seu motorista - um alemão de nome Johann (Peter Ketnath) que está no Brasil para fugir dos horrores da Segunda Guerra - persistem. Tentam chegar em algum lugar, em meio ao nada. E no nada encontrarão um caroneiro. Na forma que o diretor Marcelo Gomes apresenta o preâmbulo do espetacular Cinema, Aspirinas e Urubus, há uma palpável sensação de desalento que percorrerá toda a película. Um Nordeste difícil, seco, distante. Tão distante que a "guerra não alcança", como constatará mais tarde Ranulpho (João Miguel), o seu involuntário parceiro de negócios (e de viagem). O caroneiro em questão.

Septuagésimo quinto melhor filme brasileiro da história, de acordo com votação feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), Cinema, Aspirinas e Urubus é uma obra sobre amizades improváveis, que podem brotar em locais mais improváveis ainda. Mas é também um filme sobre resiliência (ou perseverança) em tempos difíceis. E até mesmo sobre a esperança por dias melhores. E, talvez ainda e em menor medida, essa verdadeira obra-prima do nosso cinema nacional possa ser considerada uma verdadeira homenagem a sétima arte em si. E não apenas pela película possuir uma atmosfera artisticamente superior, mas também pelo caráter mágico que se estabelece na relação entre os moradores dos pequenos povoados visitados por Johann e Ranulpho, quando colocados diante dos filmes publicitários que pretendem vender a aspirina - uma novidade que, aos poucos, começava a chegar ao País.


É muito provável que muitos moradores gastassem os seus parcos contos de réis em um remédio que prometia milagres, muito por conta da comoção causada pelos filmes publicitários exibidos por Johann - esse, no caso, é o "Cinema", do título. E, não por acaso, considero bastante comovente a sequência em que um morador de um dos tantos povoados visitados pela dupla protagonista, solicite que o filme seja repetido, de tão maravilhado que este está (e a homenagem ao cinema prossegue nas cenas em que, secretamente, Ranulpho investiga os equipamentos utilizados por Johann em suas exibições, os rolos de filme, o cinematógrafo, entre outros). São instantes em que pequenos choques de realidade se estabelecem de forma contrastante, assim como é contrastante o cenário de guerra que ocorre na Alemanha, com a aridez do Nordeste, a fome, a sede, a falta de provisões.

Nesse sentido, o filme se estabelece como uma série de instantes em que, de povoado em povoado, Johann e Ranulpho conhecerão outras pessoas, que lhes ajudarão nos momentos de dificuldades (como na cena em que o alemão é picado por uma cobra), lhes darão de comer, lhes bajularão (sempre haverá um empresário ambicioso de olho no negócio) e lhes "amarão". No meio do caminho um encontro com a retirante Jovelina (Hermila Guedes), pequenas mudanças de rota, idas e vindas e a certeza de que uma amizade se fortalece em meio a um cenário inóspito. E tudo isso, é preciso que se diga, dá conta da força de um filme que parece pequeno, mas que fala "grande" quando o assunto é a abordagem do absurdo da guerra - que faz com que um alemão prefira se esconder nos confins do Brasil, já que ali não "caem bombas".


Com uma verdadeira coleção de músicas de artistas como Carmen Miranda e Francisco Alves (impossível não se comover enquanto a desalentadora Serra da Boa Esperança é tocada), a obra ainda diverte ao trazer boletins de rádio do Repórter Esso, exibidos na época - e que, de forma surpreendente, abordam a participação "involuntária" do Brasil na Segunda Guerra, quando do episódio do bombardeio de submarinos brasileiros no litoral de Pernambuco. Trazendo ainda a ufanista mensagem que faz com que carreguemos um eterno "complexo de viralata" (repare no desdém de Ranulpho com os próprios moradores do Nordeste), o filme ainda conta com interpretações naturalista (João Miguel é destaque sempre) e um desenho de produção tão crível, que temos a real impressão de estarmos em meio ao Brasil da Era Vargas. Um filmaço que merece ser (re)descoberto e que está disponível na Netflix.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Lançamento de Videoclipe - Dingo Bells (Tudo Trocado)

A gurizada gente fina da Dingo Bells lançou recentemente um clipe para a canção Tudo Trocado - música que faz parte do álbum Todo Mundo Vai Mudar (nosso terceiro colocado na lista de melhores nacionais de 2018). Parte da série Videoclipers, organizada pelos cineastas Léo Longo e Diana Boccara (da produtora Couple Of Things), o vídeo, gravado todo em um plano-sequência, tem como cenário o espaço cultural Vila Flores, complexo arquitetônico que congrega artistas, produtores e outros em Porto Alegre. O clipe, bastante colorido, é pura diversão e brinca com a ruptura proposta pela letra (o que pode ser visto nos figurinos excêntricos e no comportamento das personagens). "Quisemos nos desafiar a fazer algo que nos tirasse da zona de conforto e digamos que dançar uma coreografia foi como um arremesso pra fora dessa zona", comentou o vocalista/baterista Rodrigo Fischmann. O resultado pode ser conferido abaixo, então, bora clicar!

7 Discos que a Crítica Odeia (Que Nós Amamos)

Resolvemos aproveitar ofato de que parte da crítica está descendo a LENHA no novo álbum da Madonna - Madame X -, para fazer um pouco de justiça nesse mundo musical. Afinal de contas, não é porque os especialistas não referendaram, que necessariamente é ruim. Aqui para nós, importa menos a opinião do Pitchfork e muito mais o que a gente tá sentindo, ao escutar aquele disco que tá sendo esculachado em resenhas maldosas mundo afora. Eis a nossa listinha com os 7 Discos que a Crítica Odeia (Mas Que Nós Amamos).

#1 Keane (Hopes and Fears): acredite, o disco de estreia dos ingleses recebeu uma inacreditável nota 2,8 do Pitchfork, que o chamou de "imitação pálida do Coldplay" ou da "banda que tocou naquele casamento do seu primo" (por conta da formação que conta apenas com vocal, teclado e bateria, como se isso por si só fosse um demérito). Nós, do lado de cá, não cansamos de ouvir nunca a banda capitaneada por Tom Chaplin. São desse disco hits imperdíveis como Somewhere Only We Know, This Is The Last Time e Everybody Is Changing, entre outros. Equilibrando a melancolia e as letras tristonhas, com um clima de festa febril repleta de sintetizadores, o álbum é uma rara proeza que faz os fãs cantarem desavergonhadamente todas as canções, berrando os refrões grandiosos, crescentes, retumbantes. Pode até soar kitsch, mas é um kitsch com estilo.


#2 Moby (18): eu sinceramente não entendo qual é o RANÇO que o Pitchfork tem com o Moby. Absolutamente NENHUM disco do artista recebeu uma nota muito superior a cinco e este trabalho aqui, que orgulhosamente, já figurou no nosso Lado B Classe A, recebeu um inacreditável 2,6 do crítico David Pecoraro. "Há muito mais para não se gostar em 18, como as batidas monótonas de baterias eletrônicas já datadas, a natureza dolorosamente repetitiva de tantos desses sons, ou o teclado simplista no fundo de metade dessas músicas. Ou (ainda) as letras inconsequentes como aquelas na faixa de abertura", tascou o crítico, no texto publicado no site. Bom, nós discordamos com TODAS as forças, afinal de contas, como não gostar de um disco que possui verdadeiras gemas da música eletrônica/ambiental/etérea/futurosta, como, In My Heart, In This World e One Of These Mornings?

#3 The Gaslight Anthem (Get Hurt): mais um disco achincalhado pelo pessoal do Pìtchfork, que resolveu dar uma sonora nota 3,0 a Brian Fallon e companhia. Em seu texto, o crítico musical Ian Cohen faz duras críticas à mudança de rota da banda, algo que poderia até soar engraçado se a própria banda encarasse tudo como uma brincadeira. "Com cada tentativa frustrada de pop, metal ou pop-metal, Get Hurt apenas reescreve seu próprio pior cenário", escreveu o crítico, que ainda pontuou o fato de o registro ser uma maçaroca que mistura Bruce Springsteen e Jon Bon Jovi, mas sem nenhuma autenticidade. É claro que aqui no Picanha a gente discorda frontalmente disso tudo, como atesta o apaixonado texto que figurou num longínquo 2016 no nosso Lado B Classe A. Para nós esse é um trabalho tocado com paixão, com garra, nos moldes do rock americano de raiz, com guitarras no talo e que traz de volta uma nostalgia e uma vontade de percorrer novamente uma estrada em que não sabemos exatamente onde vamos parar.


#4 Muse (Black Holes and Revelations): em geral parece haver uma certa pré-disposição geral da crítica em falar mal da banda de Matt Bellamy e companhia - e, em muitos casos, nem o seu disco mais popular escapa. "Soando como um tributo ao Radiohead", tascou a Spin. "O que o Muse não tem de carisma, ele tenta compensar em volume", destacou o Pitchfork, que não teve nenhuma pena de dar uma nota 4,2 para o registro (e não vou deixar de admitir que o parágrafo em que o crítico Sam Ubi fala de Knights Of Cydonia é realmente engraçado). Mas a gente gosta do Muse. E gosta desse álbum, que tem algumas das melhores faixas formuladas pela banda, casos de Starlight, Supermassive Black Hole e Map Of The Problematique. Vem ni nóis excessos modernosos, crítica ao uso da tecnologia e vocal em falsete. Aqui não recusamos banda, só porque ela soa exagerada.


#5 Of Monsters and Men (My Head Is An Animal): é inacreditável como alguns críticos conseguiram ser maldosos com esse trabalho absurdamente imperdível. "Existe talento aqui. Só foi uma pena que ele não foi combinado com ideias originais", afirmou o crítico da Q. "Esse álbum de estreia é vazio demais para excitar, com seus momentos mais estranhos e calmos sendo sufocados pela rocha ventosa", retrucou o Observer. "Imitação emocional do Mumford & Sons", comparou a Uncut. É claro que nem tudo foi tragédia - e, curiosamente, a nota geral do registro no Metacritic é 66 (baixa, mas não tenebrosa). Só que como gostamos muito do som dos islandeses, achamos que eles mereciam mais. É um trabalho descaradamente pop, com refrões grudentos, palminhas, lalalás e toda a parafernália de arranjos naturalmente acessíveis e que nos acertam em cheio o coração. Um disco irresistível, como comprovam hits do quilate de King and Lionheart, From Finner e Little Talks.


#6 Imagine Dragons (Evolve): o Imagine Dragons é uma das bandas mais legais do planeta - só tá faltando a crítica descobrir isso. No Metacritic, que condensa notas dadas pela crítica musical em uma única avaliação, nenhum dos discos do coletivo alcança aquilo que seria uma honrosa nota 6,0. E, pior, este terceiro trabalho, que possui grandes hits como Believer, Whatever It Takes e Thunder possui média geral de 4,7. QUATRO VÍRGULA SETE. Vocês sabem o que é todos os sites do mundo avaliando e a nota geral não passar disso? Em meio a comparações como a de um Michael Bolton dançando para o Justin Timberlake em um casamento de família (feito pela Classic Rock Magazine), a gente prefere lembrar daquilo que a banda sabe fazer de melhor: rocks de arena meio à moda antiga e com imperdíveis refrões ganchudos.


#7 The Killers (Hot Fuss): vamos combinar que a banda de Brandon Flowers e companhia nunca empolgou muito a crítica. Quando do lançamento do disco de estreia, o Pitchfork concedeu uma pálida nota 5,2 ao registro - até hoje lembrado pelos fãs por hits como Mr. Brightside, Smile Like You Mean It, On Top e Jenny Was A Friend Of Mine. "Apenas a banda mais recente a nascer muito rápido dentro do vácuo da música popular, onde as expectativas de acessibilidade ampla matam o potencial dos garotos para uma criatividade mais profunda", descreveu, de forma assombrosamente ferina, o crítico Johnny Loftus. A despeito de ser um álbum tão querido pelo público, o registro foi totalmente ignorado em uma lista que compilou os 1001 discos para se ouvir antes de morrer - o que dá conta do desprezo generalizado dos especializados, por esse incrível trabalho.

E pra você, quais os discos mais injustiçados pela crítica?

terça-feira, 18 de junho de 2019

Tesouros Cinéfilos - Nós (Us)

De: Jordan Peele. Com Lupita Nyong'o, Winston Duke, Elizabeth Moss, Anna Diop e Evan Alex. Suspense / Terror, EUA, 2019, 116 minutos.

Nas aparências, Nós (Us) é um terror/suspense de estrutura bastante convencional. Em cena assistimos uma família tradicional americana indo passar as férias em uma casa de praia. Há algum trauma relacionado ao passado e não demora para que pai, mãe e os dois filhos passem a ser assombrados por seres do mal, vindos sabe-se lá de onde. Mas o caso é que este é um filme do Jordan Peele - o primeiro depois do sucesso alcançado com o espetacular Corra! E, portanto, por baixo do véu de normalidade dentro daquilo que se espera em uma película do gênero, parece haver uma análise muito mais aprofundada das estruturas que regem a sociedade americana, seus dilemas morais, suas feridas abertas e o mal-estar generalizado que parece sustentar um tecido social em que se sobressai o individualismo, a falta de empatia e, em até certo ponto, a falência do capitalismo como modelo.

As pessoas que atacam a família protagonista moram nos subterrâneos - e atuam como se fossem a sua sombra, reivindicando o seu lugar de direito. Reivindicar o seu lugar, especialmente para uma família negra, dá conta de algo muito maior do que o "vocês estão aí vivendo no bem bom, enquanto nós estamos no submundo, a margem da sociedade". Tem a ver com história, com a escravidão dos negros e a luta por um sistema mais igualitário. Com uma dívida difícil de ser quitada por séculos de atraso e de injustiça racial. O fato de a família acossada pelos seres "do mal" ser também negra - na realidade trata-se de seus duplos - força o espectador a interpretar este simbolismo para algo muito além da simples desigualdade entre brancos e negros (algo que era mais nítido em Corra!), mas para a percepção de que as diferenças estruturais da nossa sociedade são muito mais amplas, com pobres e ricos em lados opostos e uma permanente sensação de medo de alguma coisa (não se sabe o quê) que, em muitos casos, parece acompanhar as classes mais abastadas.


Diferenças sociais. Medo. Paranoia. As classes altas, a gente sabe bem, temem a revolta popular. A "ameaça comunista". Uma tomada de poder. De seus bens. De sua vida luxuosa, hedonista e individualista. E vamos combinar que iniciativas como o Hands Across America - citada no começo da película e que tinha o nobre objetivo de juntar dinheiro para o combate à fome, na África -, não passam de formas de garantir a manutenção do status quo. Por um lado eu faço a caridade e sou bem visto pelos meus pares, pela comunidade. Por outro, vocês continuam pobres. Miseráveis. E não é por acaso que os seres das sombras não têm voz - repare no espetacular trabalho de Lupita Nyong'o na composição de Red e no contraste que se estabelece com Adelaide, a sua versão "família de bem". É o que acontece com os vulneráveis, invisíveis para a sociedade. Falta ser ouvido.

Afora todo o contexto social estabelecido pela película - e, vamos combinar que nada é definitivo nessa análise, já que uma obra dessa envergadura parece abraçar muita coisa ao mesmo tempo, nos fazendo refletir bastante -, o filme também funciona muito bem como suspense. Das sequências de invasão da casa, a tentativa de escapada da família, com direito a busca de ajuda nos vizinhos (que são assassinados pelos seus duplos) há uma série de vertiginosos (e vigorosos) pequenos instantes em que acompanhamos a luta de todos pela sobrevivência. Com ótima trilha sonora, movimentos de câmera e enquadramentos inteligentes e excelentes interpretações dos atores centrais - vamos combinar que não é nada simples compor personalidades totalmente distintas em um mesmo trabalho - Nós passa o recado de forma sutil, fazendo pensar sem esfregar na cara. Já dizia Jeremias 11:11: "eu vou trazer um desastre do qual eles não podem escapar. Apesar de eles chorarem para mim, eu não irei ouvi-los". Sim, tá lá na Bíblia. E a hipocrisia religiosa, de ir à missa aos domingos ao passo que se ignoram os problemas sociais existentes, também está inserida nesse contexto.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

Cinema - Obsessão (Greta)

De Neil Jordan. Com Isabelle Hupert, Chloë Grace Moretz, Maika Monroe e Stephen Rea. Suspense, EUA / Irlanda, 2018, 96 minutos.

Histórias de stalkers que perseguem suas vítimas levando-as à exaustão física e psicológica não chegam a ser exatamente uma novidade no cinema. De pequenos clássicos modernos como Atração Fatal (1987) e Louca Obsessão (1990), passando ainda por alternativos como O Talentoso Ripley (1999) não foram poucas as vezes em que acompanhamos personagens com algum tipo de trauma, que as levam a se tornar obcecadas por outras pessoas, seus comportamentos ou estilos de vida. Para nós, espectadores, obras desse subgênero também parecem ser capazes de nos levar a algum tipo de catarse em que se sobressai um tipo de suspense muito mais psicológico do que aquele que apela para os sustos mais "fáceis". Não é diferente com o recém-chegado Obsessão (Greta), mais recente trabalho do diretor Neil Jordan (do surpreendente Traídos Pelo Desejo) e que representa a entrada da veterana Isabelle Hupert no universo dos perseguidores psicologicamente alterados.

O filme começa com cenas prosaicas da vida da jovem Frances (Chloë Grace Moretz), que trabalha como garçonete em um luxuoso restaurante de Nova York e divide um apartamento com a amiga Erica (Maika Monroe). Em um certo dia, voltando do trabalho, Frances se depara com uma bolsa que está perdida em um banco do metrô. Ao recolher o acessório e identificar a sua dona, após a verificação dos documentos, ela vai até o endereço para a entrega do objeto. No local lhe atende uma simpática senhora de nome Greta (Isabelle Hupert), que lhe oferece uma xícara de chá em agradecimento. Tudo corre relativamente bem: Greta é viúva, tem uma filha que não mora com ela, gosta de tocar pequenas árias ao piano... e se torna uma amiga involuntária de Frances, convidando-a outras vezes para a sua casa, para visitas ou mesmo para jantar.


Em um desses jantares, Frances faz uma descoberta dentro de um armário da casa de Greta, que lhe faz perceber que a bolsa "perdida", não passava de um estratagema para atrair pessoas para perto de si. De preferência jovens garotas que atendessem a um certo perfil, que tivessem perdido a mãe ou que tivessem dificuldades de relacionamento com os familiares. É quando Frances assustada tenta se afastar da mulher de todas as formas, que o seu calvário começa: ligações e mais ligações em seu celular, mensagens na secretária eletrônica, uma conversa sobre a necessidade de serem amigas como forma de substituir outras pessoas que não estão mais em suas vidas, aparições em lugares inadequados (em frente ao seu trabalho, no corredor do prédio em que mora)... enfim, Greta passa a transformar a vida de Frances em um inferno. E ao chamar à polícia, a jovem enfrenta a burocracia de um sistema de segurança que não lhe ouve e, pior: não vê crime na "mera perseguição".

Ainda que não traga alguma novidade no que diz respeito ao gênero, Neil Jordan entrega uma obra correta, com boa atmosfera, excelente trilha sonora e detalhes que tornam agradável a experiência. Da vizinhança decrépita de Greta (ponto pro criativo desenho de produção), às pequenas nuances do olhar ou da inflexão de voz que alteram o comportamento de Isabelle de "velhinha querida" para "demonho em pessoa", a película tem na presença da premiadíssima veterana uma de suas atrações - e talvez o filme nem funcionasse tanto, se não fosse a presença magnética da atriz, que encarna com naturalidade a maluca que ataca violentamente a sua vítima, enquanto dança ensandecidamente ao som de Chopin. Com uma pequena reviravolta nem tão surpreendente no final, a obra tem estrutura convencional, mas cumpre seu papel, com um suspense crescente e uma permanente sensação de que algo está prestes a sair do controle. O que em filmes sobre stalkers, é tudo o que precisamos.

Nota: 7,5

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Na Espera - Keane (Disco)

Uma de nossas bandas preferidas, o Keane, finalmente está de volta! Depois de um hiato de sete anos desde Strangeland, a banda anunciou na última semana o disco Cause and Effect - que tem data de lançamento prevista para o dia 20 de setembro. No registro serão onze canções inéditas, entre elas The Way I Feel, que recebeu videoclipe e vem sendo trabalhada como single. A canção, pelo que se pode perceber num primeiro momento, mantém o clima pop roqueiro, com pitadas ensolaradamente eletrônicas e o tradicional vocal "aberto", prontinho pra ser cantado a plenos pulmões pelos fãs.


Outra boa notícia que envolve o grupo capitaneado por Tom Chaplin é que ela já está em turnê pela Europa, com temporada em países como Holanda, Portugal, Inglaterra e Espanha. A expectativa para o segundo semestre é de que a banda possa incluir a América do Sul na sua agenda, assim como ocorreu em 2013, ano da última apresentação dos caras por aqui. É aguardar!

Cine Baú - Tootsie (Tootsie)

De: Sydney Pollack. Com Dustin Hoffman, Jessica Lange, Teri Garr, Bill Murray e Geena Davis. Comédia / Drama / Romance, EUA, 1982, 116 minutos.

Em uma recente pesquisa feita pela revista britânica Time Out, atores de 20 países diferentes votaram nos melhores filmes de todos os tempos. O resultado: Tootsie (Tootsie) do diretor Sydney Pollack encabeçou a lista dos 100 mais, desbancando outros clássicos que costumam figurar nas primeiras posições. Difícil atribuir quais os aspectos que possam ter contribuído para a expressiva votação, mas é possível conjecturar alguns deles. Em primeiro lugar é um filme metalinguístico, sobre um ator perfeccionista mas de temperamento difícil (um inspiradíssimo Dustin Hoffman) que tenta se adequar a um sistema em que ninguém lhe quer contratar. Depois, há o carismático elenco, que conta com nomes como Jessica Lange, Bill Murray, Geena Davis e Teri Garr, além do já citado Hoffman e do próprio diretor Sidney Pollack, que interpreta o empresário sincerão do protagonista.

Há também um roteiro inteligente, conduzido de forma dinâmica e com uma criativa edição: quando Michael Dorsey (Hoffmann) percebe que a sua carreira pode estar sendo comprometida por conta de sua personalidade difícil, ele resolve se vestir de mulher, dando vida à Dorothy Michaels, na tentativa de obter um papel para uma novela matinal (as conhecidas soap operas americanas). Aliás, que ela consegue, claro! E há ainda um palpável debate sobre o feminismo que perpassa todo o filme e que ganha força quando Dorothy começa a questionar algumas decisões do roteiro da atração que protagoniza, alterando falas inteiras, improvisando e redefinindo as questões de gênero. Afinal de contas, agora, na pele de uma "mulher", Michael perceberá que a vida delas nesse meio é ainda pior, com assédios de todos os tipos, submissão e estereótipos, como o da mulher sendo o "sexo frágil".


E é muito provável que, por tudo isso, o filme envelheça tão bem. Talvez a exceção da anacrônica trilha sonora - impressionante como os filmes dos anos 80 são ultrapassados nesse sentido -, essa pequena joia mantém o seu charme levemente subversivo, seja nos diálogos divertidos, no figurino e na maquiagem excêntricas ou no respeito que a narrativa mantém por sua personagem principal, jamais tratando-a como uma caricatura. E o melhor, mesmo nas sequências mais sérias, como no caso em que Jeff (Bill Murray) faz uma piadinha ao surpreender Dorothy sendo violentamente assediada por um colega de elenco, Hoffman - agora já com a voz de Michael - olha-o com severidade lembrando-o "não, Jeff, estupro não tem graça". Bom, nunca é demais lembrar também que Julie (Jessica Lange, que ganhou o Oscar por sua caracterização) interpreta uma atriz que é mãe solo - em uma época em que esse conceito era ainda muito pouco conhecido. Mais um tema tabu, incluído com sutileza na trama.

Mas no fim das contas, são muitos os aspectos que tornam o filme divertidíssimo - que já começa engraçado com uma festa surpresa em que Michael conhece apenas cinco dos mais de cinquenta convidados. E o que dizer das divagações de Jeff nessa mesma festa? Ele que preferiria que os teatros abrissem somente à noite, porque ele aí saberia que os verdadeiros fãs de teatro, os resistentes com suas capas de chuva, é que estariam lá. Há a relação conturbada de Michael com Sandy (a inesquecível Teri Garr), as conversas impagáveis com o empresário (você era um tomate!), a paixão impossível por Julie e as tentativas de Dorothy em tornar o programa matinal menos quadrado do que é, em meio a uma equipe machista, com um diretor idem. Tudo ocorrendo de forma fluída, com edição ágil, o que faz com que nem percebamos o tempo passar. Não por acaso, o filme foi escolhido o 62º melhor da história, em votação feita em 1998 pelo American Film Institute (AFI). Mais do que justo.