segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Pérolas da Netflix - Um Banho de Vida (Le Grand Bain)

De: Gilles Lelouche. Com Mathieu Amalric, Guillaume Canet, Virginie Efira e Benoit Poelvoorde. Comédia, França, 2018, 122 minutos.

Taí um filme completamente despretensioso, daqueles que tu não dá absolutamente nada, mas que te conquista já nos primeiros minutos e vai te ganhando cada vez mais, conforme a projeção avança. Sim, Um Banho de Vida (Le Grand Bain) Pode até ser apenas uma comédia divertida sobre homens de meia-idade que resolvem formar um coletivo de nado sincronizado - e foi justamente a excentricidade do tema que me atraiu para a obra do diretor Gilles Lelouche (do péssimo Os Infiéis). Mas o que parece uma mera bobajada, aos poucos vai se transformando em um filme tocante sobre a importância da amizade e, especialmente, sobre o valor das pequenas coisas. Sabe aquele seu hábito que não tem nenhuma importância para a demais pessoas - pode ser jardinagem, frequentar um clube de mães, andar de bicicleta, ir ao teatro -, mas que para você pode ser TUDO na vida? Ou algo minimamente relevante? Bom, esse pequeno achado perdido lá na Netflix te faz refletir sobre isso.

A ideia de participar de um time de nado sincronizado surge meio que por acaso na vida do desempregado Bertrand (o sempre ótimo Mathieu Amalric) - quando ele vê uma propaganda no clube local. A despeito do suporte de sua devotada esposa Claire (Marina Foïs), Bertrand está deprimido pelos dois anos sem trabalho. Assim, treinar nado sincronizado, fazer algo diferente, gastar energia e extravasar dentro da piscina, se torna uma alternativa para não enlouquecer. No local, conhece seus companheiros de nada sincronizado, sujeitos tão derrotados quando ele. Há um empresário que está indo a bancarrota, um músico decadente que não agrada nem tocando em bingos da terceira idade, um homem de personalidade violenta que está sendo abandonado pela mulher e pela filho, um outro que não leva nenhum jeito com as mulheres. E entre eles, até a professora Delphine (Virginie Efira) tem os seus "demônios": atleta de ponta, se tornou alcoólatra após a separação de sua antiga companheira de esporte, sendo o trabalho como treinadora uma forma de se reconectar ao nado.


Sem soar excessivamente melancólica, a narrativa vai revezando as histórias de cada uma das personagens que assistimos em tela, o que faz com que a gente compreenda a importância do grupo de nado, que torna uma espécie de "rede de apoio" para todos os envolvidos. Apesar das dificuldades (e diferenças de personalidade), todos se apoiam, se sobressaindo o companheirismo que vai sendo reafirmado conforme as aulas avançam - e o número exibido por eles vai ganhando força, especialmente após o "surgimento" da enérgica professora Amanda . Até o momento em que eles decidem participar de uma espécie de campeonato europeu de seleções - um tipo de prova definitiva que, inevitavelmente, servirá como uma metáfora para suas próprias vidas. Em um esporte raramente masculino, afinal, não será necessário superar apenas o preconceito, mas também as demais adversidades, sendo hora de levantar a cabeça e dar a volta por cima.

Com leveza, o filme se vale de sua fotografia levemente granulada para conferir naturalidade ao projeto. Há boas piadas e não serão poucos os momentos em que nos pegaremos rindo do inusitado - como na sequência em que o grupo tenta decidir qual será o nome do time - ou do absurdo da condição humana (há uma ótima e tocante cena de discussão no mercado). Mas há também relevância na abordagem de seus temas. A trilha sonora é apropriada, envolvente e eventualmente nostálgica - como não sorrir ao escutar já nos primeiros minutos Everybody Wants to Rule The World do Tears For Fears -, sendo a película um verdadeiro elogio ao poder da amizade, da perseverança e da força de vontade, que é capaz até de fazer o impossível se tornar possível. Um pino redondo pode entrar em um buraco quadrado e vice-versa? Sim, pode. E você que não duvide disso.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Picanha em Série - Fleabag (1ª e 2ª Temporadas)

De: Phoebe Walter-Bridge. Com Phoebe Walter-Bridge, Bill Paterson, Olivia Colman e Sian Clifford. Comédia, Grã-Bretanha / Irlanda do Norte, 2016 / 2019, 320 minutos (aproximadamente).

Fleabag (Fleabag) é a série mais cinicamente divertida dessa temporada e isso, por si só, já é motivo suficiente para darmos atenção a ela. São apenas duas temporadas que totalizam doze episódios com vinte e poucos minutos cada - disponíveis no serviço de streaming da Amazon. Ou seja, dá pra maratonar de boas em no máximo um fim de semana e ainda por cima sem aquele sentimento de "meu Deus como estou perdendo tempo com essa série arrastada que não avança" como é o caso de MUITAS da Netflix. Dilemas da vida adulta, frustrações, relacionamentos fracassados (ou não), feminismo, luto, quebra de paradigmas e muito sexo descompromissado e descolado poderiam representar uma espécie de resumo das digressões propostas pela série - e pela protagonista -, que é vivida com intenso carisma por Phoebe Walter-Bridge, que também criou o show.

Na trama acompanhamos as desventuras da Fleabag do título. Ela é dona de uma cafeteria que vai mal das pernas, tem um ex-namorado meio grudento, uma melhor amiga que surge em flashbacks e que parece ter morrido, uma irmã que é o completo oposto a ela (certinha, casada e frustrada), um cunhado babaca, um pai separado e uma madrasta de grande sensibilidade artística, mas completamente debochada (interpretada pela Olivia Colman, em papel bem diferente daquele que lhe deu o Oscar por A Favorita). Em meio a corrida rotina de luta pela sobrevivência, a complexidade das relações vai sendo revelada em pequenas doses, com o espectador se surpreendendo aqui e ali com a falta de lógica do comportamento humano - e se reconhecendo, em muitas ocasiões, na tela, afinal de contas também nós estamos em busca de ser felizes, tentando fazer o melhor, errando, acertando, chorando e se reerguendo. E isso a obra de Phoebe faz como poucas.


Principal recurso técnico, a quebra da quarta parede - quando o personagem "fala" conosco -, é utilizado de forma criativa, corrosiva, podendo ser sutil ou expansiva, dentro de contexto ou até fora dele. Não são poucas as vezes que Fleabag nos olha apenas com o canto do olho, como se estivesse buscando o nosso aval em determinada sequência. Em outros momentos, os comentários mordazes da protagonista em relação aqueles que lhe rodeiam, servem como divagações perspicazes que nos transformam em secretos confidentes dela. Mas há ainda outro mérito: Fleabag não se considera alguém superior por suas opções ou estilo de vida. Sabe que tem fraquezas, que há feridas relacionadas ao passado que serão difíceis de ser curadas, mas está ali, de corpo e alma, tentando, persistindo. Aliás, suas escolhas na atualidade também serão reflexo daquilo que ela é - como nos mostrará a sua excêntrica relação com um padre, já na segunda temporada.

Utilizando o sexo como uma forma de tentar superar esses traumas, Fleabag parece não ter ninguém ao seu redor que não seja "nós" mesmos - e seremos nós a tentarmos compreendê-la em suas imperfeições, que riremos, choraremos e nos compadeceremos dela e de suas desesperadas tentativas de sobreviver. É um tipo de vida real mais real que a vida e ainda por cima com um charme inglês que a eleva a um outro patamar. Engraçada, tocante, depravada, a série tem uma coleção de personagens tão detestáveis, que acabamos gostando - talvez porque percebamos um pouquinho de nós em cada um deles. É o tipo de série em que rimos do improvável: seja um homem cheio de dentes, uma estátua que passa por "altas aventuras", um retiro espiritual para reconexão ou uma vernissage em que aparece uma "parede de pênis". É o absurdo do mundo. E nós estamos nele. Que venham mais temporadas!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Cine Baú - Viridiana (Viridiana)

De: Luiz Buñuel. Com Sílvia Pinal, Fernando Rey, Margarita Lozano e Teresa Rabal. Drama, México / Espanha, 1961, 91 minutos.

Em entrevistas, quando perguntado sobre sua religião, o diretor Luiz Buñuel costumava dizer que era "ateu graças a Deus". Nesse sentido, não foi por acaso que diversas de suas obras evidenciaram a hipocrisia dos cristãos que até frequentavam a igreja, mas não abriam mão de ter garantida a manutenção do status quo. Mais ou menos como a lógica que estabelece os bons samaritanos como pessoas caridosas, mas distantes de uma real solução para as questões sociais. Em 1961, quando Buñuel lançou Viridiana (Viridiana), a Espanha ainda padecia da Ditadura Militar do General Franco - que duraria até 1975. A Igreja Católica, como não poderia deixar de ser, estava do lado do Regime. Foi nesse País cheio de contradições, que o diretor encontrou o cenário perfeito para a história de uma jovem prestes a se ordenar freira, que desiste após um episódio trágico.

A jovem em questão é Viridiana (Sílvia Pinal) que, por sugestão de sua Madre Superiora, resolve visitar o tio Don Jaime (Fernando Rey), semanas antes de a religiosa fazer em definitivo os seus votos. A protagonista nunca teve muito contato com o tio, mas é grata a ele por ter sido ele ter lhe ajudado financeiramente em sua formação, no passado. Por conta da semelhança de Viridiana com sua falecida esposa, Don Jaime fica obcecado pela jovem. Mantendo-a presa em sua ampla propriedade - no local vivem apenas uma governanta e sua filha, mais um empregado -, o homem acaba dopando a sobrinha com a intenção de estuprá-la. No último instante ele desiste e, tomado pela culpa, comete suicídio. Incapaz de conviver com o remorso, Viridiana desiste da ordenação e passa a morar na propriedade do tio, que deixou a mansão parte para ela, parte para um filho que teve fora do casamento.


É nesse instante que ocorre uma pequena reviravolta na trama, que mais parece dividida em dois capítulos bem distintos. Disposta a fazer o bem, Viridiana arrecada um grupo de bêbados, prostitutas, mendigos e aleijados para lhe auxiliar em tarefas variadas na propriedade, alimentando-os e preparando-os para a vida em sociedade. Tudo vai por água abaixo quando os novos moradores ocupam a sala de jantar da família, transformando uma noite prosaica em um evento grotesco e caótico, que se transforma em uma iconoclasta releitura de A Última Ceia de Da Vinci. Não bastasse a tragédia da falta de efetividade do programa que buscava assistir os vulneráveis, Viridiana ainda é estuprada pelas próprias figuras sujas e decrépitas que abrigara. A descrença total na vida em sociedade e o mal-estar estabelecido pelas diferenças entre classes se encerra na cena final em que uma Viridiana entorpecida pelo absurdo do comportamento humano, se entrega a uma espécie de "orgia familiar" - com as cartas de um baralho servindo como metáfora.

Proibido na Espanha franquista durante muitos anos, Viridiana ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, sendo lembrado pelos fãs como um dos pontos altos de Buñuel. Rico em imagens icônicas, da jovem que pula corda embaixo da árvore em que Don Jaime se enforcou, passando pela abelha que, dentro de um tonal de água, luta para sobreviver, até chegar ao grosseiro grupo de desajustados que se movimenta como uma massa disforme (e tosca) em direção a mansão - estabelecendo um curioso contraste, o filme é valioso por não fazer concessões naquilo que se propõe. Amarga, eventualmente cínica e inegavelmente bem humorada, a obra permanece como uma das mais importantes na análise psicológica dos personagens, não havendo limites para o conflito deflagrado pelo instinto. Ele surge de forma diferente em cada classe social, mas opera de igual maneira.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Novidades em DVD/Now - Deslembro

De: Flávia Castro. Com Jeanne Boudier, Sara Antunes, Jesuíta Barbosa e Eliane Giardini. Drama, Brasil / França / Qatar, 2019, 95 minutos.

"Aqueles que não conhecem a sua história estão fadados a repeti-la". Não deixa de ser curioso pensar que essa frase, tão relevante nos tempos sombrios que vivemos em nosso País, seja atribuída ao teórico político Edmund Burke, filósofo conservador que foi um grande crítico da Revolução Francesa. Em nosso contexto, especialmente se pensarmos na Ditadura Militar - e no aparente desejo de muitos de simplesmente "deletar" esse período traumático de nossa história recente -, ela soa atualíssima. Nesse sentido, quando nos deparamos com um esforço artístico que, de alguma forma, resgata aquele momento, ele já nasce digno de nota. E é exatamente este o caso de Deslembro, de Flávia Castro - obra que nos joga de volta para o final dos anos 70 (no período que em que foi decretada a Lei da Anistia), para contar a história de uma família de exilados, que está voltando para o Brasil.

Mas o retorno ao nosso País tropical não será fácil. Especialmente para a jovem Joana (Jeanne Boudier) que, após ter passado toda a sua infância e adolescência em Paris, na França, reluta em retornar com a família para a terra natal da mãe. A sensação de desconforto da menina irá para além do estranhamento natural de se estar em um novo lugar em que não se tem amigos e os antigos colegas ficaram para trás: haverá alguma coisa incômoda nesse novo cenário que, aos poucos, virá a tona, revelando traumas do passado que pareciam "escondidos" na memória da adolescente. E é impressionante notar como Flávia é hábil na construção de uma narrativa que sufoca mesmo nas cenas mais prosaicas - como um piquenique em família na floresta (que não dá muito certo) ou em eventuais flashbacks em que seu pai, um ativista de esquerda, reaparece em cenas embotadas, tensas, confusas. E eu fiquei particularmente maravilhado com a habilidade da diretora no uso de vozes, barulhos e outros sons que surgem no formato de sussurros, como rimas sonoras ou zumbidos que ligam um frame a outro, ampliando a sensação de crescente desconforto.



Já que está de volta ao Brasil, Joana encafifa com o passado do pai biológico (Jesuíta Barbosa), sujeito que teria desaparecido e sido assassinado pelo Estado durante o regime. Montando um quebra-cabeças ela reencontra uma antiga casa que era ocupada por um grupo de resistência do qual seu pai fazia parte e entra também em contato com a sua avó - a mãe de seu pai (vivida com ternura por Eliane Giardini). Em meio a um universo de incertezas que geram um tipo de suspense involuntário de que simpatizo muito - será que o pai dela não estaria vivo? Ela poderia encontra-lo até o final da película? - a jovem vai amadurecendo, descobrindo o amor e funcionando como uma adolescente como qualquer outra, que briga com a mãe Ana (Sara Antunes), que sofre, que fuma maconha, que gosta de ir a praia, que absorve a cultura a sua volta e que tem consciência do significado da luta de seu pai (ainda que utilize justamente este fato para "atacar" sua mãe em certa sequência).

É uma obra familiar, que apresenta com eficiência o contexto político da época - ainda que alguns excessos didáticos pudessem ter sido evitados. É o caso dos jovens que, invariavelmente levam o nome de proeminentes figuras políticas de esquerda (Ernesto, Leon, etc) ou mesmo o instante em que Joana chama um vizinho exaltado de fascista, para ele responder um onipresente "vai pra Cuba!". Ainda assim, como diz o Henrique, meu parça aqui do Picanha, as vezes mesmo o ÓBVIO necessita ser esfregado NA CARA - e é por isso que este fato não compromete a apreciação do filme. Colocando volta e meia a luta política e a necessidade de exumar os "esqueletos do armário" como condição básica para a felicidade familiar, a película é hábil ao captar os eventos do período de forma sutil, econômica, mas, altamente relevante. Joana, a seu modo, se esforça para pertencer aquele universo que, agora, lhe é novo. E ela só conseguirá fazer isso se deixar o passado para trás, não desejando JAMAIS repeti-lo.

Nota: 8,5

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Na Espera - Coringa (Filme)

Desde o inesquecível Coringa interpretado por Heath Ledger em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) criou-se uma mística ainda maior pelo perturbador personagem. O nível de interpretação foi tão alto que qualquer um que viesse a encarnar o próximo teria grandes chances de falhar miseravelmente - como aconteceu com Jared Leto no duramente criticado Esquadrão Suicida (2016). Ficou a cargo do polêmico e excelente ator Joaquin Phoenix (Ela, O Mestre, Johnny and June, Vício Inerente, dentre outros) dar vida ao primeiro filme dedicado exclusivamente ao personagem.


Após o lançamento do trailer oficial ficou claro que, muito além de um filme de super-herói, a obra Coringa (Joker) parece mais um drama psicológico com toques de suspense sobre a personalidade do notório vilão. Para completar, a interpretação de Phoenix vem recebendo elogios entusiasmados da crítica que já cogita a sua atuação como uma das favoritas ao Oscar 2020. Dirigido por Todd Phillips (da franquia Se Beber Não Case) o filme venceu o Leão de Ouro em Veneza este ano - algo inédito para um personagem de quadrinhos - o que credencia a película como uma das grandes favoritas às premiações de final de ano. Quanto a nós só resta ficar Na Espera da estreia deste filmaço nos cinemas brasileiros.


10 Filmes com Temática LGBTQI+

Vivemos tempos difíceis, de ódio, intolerância, autoritarismo. A mais nova façanha do ano de 2019 foi do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que mandou censurar uma HQ da Bienal do Livro onde aparecem dois rapazes se beijando. Então, para auxiliar o prefeito na divulgação de obras com temática LGBTQI+, trazemos uma lista de 10 filmes sobre o assunto que merecem ser vistos. Bora resistir!


#1 Azul é a Cor Mais Quente


Famosa por sua longa e gráfica cena de sexo entre as duas atrizes principais a obra é, muito além da cena citada, uma visceral história de amor e um estudo de personagem sensível que acompanha, ao longo de suas três horas de duração, a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), sua rotina do acordar ao fim do dia, até o momento em que cruza seu caminho Emma (Léa Seydoux) e a inevitável paixão que brotará a partir dali. Com um naturalismo impressionante, o filme faz com que as sensações do amor e as dores decorrentes deste sentimento sejam vivenciados pelo público. Uma experiência ousada, em uma entrega pelas atrizes poucas vezes vistas na história do cinema.


#2 Me Chame Pelo Seu Nome


Baseado no livro homônimo de André Aciman, o filme narra a história de amor entre Elio (Timothée Chalamet), um rapaz de 17 anos, e Oliver (Armie Hammer), um homem mais velho que vai se hospedar na casa do seu pai durante um verão na Itália dos anos 80. Com belas paisagens e de forma muito sensível, a obra mostra a descoberta das inclinações sexuais e amorosas de Elio e, consequentemente, as marcas que um grande amor pode deixar naqueles que o vivenciam. Contando ainda com um monólogo final arrebatador e uma trilha sonora lindíssima (composta pelo músico Sujfan Stevens), Me Chame Pelo Seu Nome é um tratado incrível sobre o amor em todas as suas formas, independente de orientação sexual. Qualquer pessoa que já tenha vivido uma grande paixão certamente irá se emocionar.


#3 Priscilla, a Rainha do Deserto


Filme de muito sucesso nos anos 90, Priscilla, a Rainha do Deserto, é um road movie que mostra a trajetória das personagens Tick (Hugo Weaving), uma drag queen, Bernadette (Terrence Stamp), uma mulher trans, e Adam Whitely (Guy Pearce), drag queen que, a bordo do ônibus Priscilla, atravessam o deserto australiano levando seu show para uma população que, por vezes, os recepcionará de maneira hostil. Apesar de momentos dramáticos, a leveza do filme vem do carisma de seus protagonistas e também da trilha sonora que conta com músicas de Gloria Gaynor, Village People, ABBA, entre outros, o que fez com que diversos espectadores do mundo todo se familiarizassem com a cultura queer.


#4 O Segredo de Brokeback Mountain


Uma das mais tristes e emocionantes histórias de amor do cinema, o premiado filme do cineasta Ang Lee narra a história de dois cowboys que, ao passarem um período na montanha do título afim de trabalhar lidando com um bando de ovelhas, acabam se apaixonando. Sim, o estereótipo do machão americano - que toma um trago e fala grosso - também possui sentimentos. Pra complicar ainda mais ambos são casados e estão vivendo na década de 60. O poder da obra vem da representação deste amor que, mesmo sendo considerado proibido, atravessará o tempo - e as atuações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são maravilhosas em demonstrar o júbilo e a tragédia deste sentimento inevitável e que será vítima, como tantos outros casos, da intolerância de uma sociedade.


#5 Carol


Premiado em diversos festivais, o filme do diretor Todd Haynes conta a história de duas mulheres: a jovem Therese Belivet (Rooney Mara), que tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos, e a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. As duas se aproximarão em uma época - no caso a Nova York dos anos 50 - em que o papel da mulher na sociedade deveria ser apenas o de esperar o marido no fim do dia com o jantar pronto e a casa arrumada. Absolutamente charmoso, o filme tem a sua força nas sutilezas, nos detalhes, nos gestos e na voz tranquila. E nas interpretações magníficas da dupla de protagonistas.


#6 Moonlight: Sob a Luz do Luar


Película desenvolvida de forma fluída, sem exageros, nos mostra três momentos da vida de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami. Do bullying da infância, passando pela crise de identidade da adolescência e a tentação do universo do crime e das drogas, essa verdadeira obra-prima moderna, realiza um belo estudo de personagem. Nunca estereotipado, Chiron é mostrado como alguém que alcança certo status, mas que guarda para si uma série de segredos, resultado de uma sociedade preconceituosa e racista. O terço final, absolutamente poético e romântico, está entre os grandes momentos do cinema moderno. Talvez para eternidade o filme sempre seja lembrado pela confusão gerada ao final da cerimônia do Oscar daquele ano. Mas, justiça seja feita, Moonlight é MUITO MAIS FILME que La La Land.


#7 Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


Poucos filmes serão mais tocantes e afetuosos na abordagem do amor do este belo exemplar de nosso cinema. A trama é centrada em Leonardo (Guilherme Lobo), adolescente cego que, ao mesmo tempo em que tenta lidar com a mãe superprotetora, tenta obter a sua independência. A chegada de um outro menino a cidade, de nome Gabriel (Fabio Audi) fará com que novos sentimentos surjam em Leonardo, modificando totalmente a sua percepção sobre a sexualidade. Com ambientação extremamente naturalista, a obra alterna momentos divertidos, dramáticos e românticos em igual medida, transformando a película em um verdadeiro tratado geral sobre a adolescência, apresentando um viés muito mais romântico do que, necessariamente, engajado (o que não é um demérito, nesse caso).


#8 Tudo Sobre Minha Mãe


É até difícil escolher apenas um filme do Almodóvar para figurar nessa lista, já que não são poucos os que, de alguma forma, abordam a temática LGBTQI+ - sendo Má Educação (2003) um dos mais provocativos e o recente Dor e Glória (2019) um dos mais poéticos. Neste, acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê. O filme é uma jornada divertida e comovente, voltada a "todas as mulheres".



#9 Milk: A Voz da Igualdade



Filme que deu a Sean Penn a estatueta do Oscar na categoria Melhor Ator na cerimônia de 2009, a obra de Gus Van Sant retorna aos anos 70 para contar a história do ativista gay Harvey Milk, primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos. A trama começa com Milk se mudando para San Francisco ao lado do namorado Scott (James Franco), onde abre uma loja para a revelação de filmes fotográficos. Enfrentando o preconceito e a intolerância que marcam o período, o protagonista passa a buscar direitos iguais para todos, sem discriminação sexual. Trata-se de um filme vibrante, que marca o esforço de um sujeito que enfrenta a violência e que conta com o apoio de amigos e voluntários para alcançar os seus objetivos.



#10 Traídos Pelo Desejo



Café da Manhã em Plutão (2005) pode até ser o filme mais contundente do diretor Neil Jordan sobre a temática, mas dificilmente algum será mais surpreendentemente inesquecível do que a obra lançada em 1992. Na trama, um soldado inglês vivido por Forest Whitaker é sequestrado pelo IRA, mas desenvolve uma curiosa amizade com o guerrilheiro (Stephen Rea) encarregado de vigiá-lo. Quando o soldado morre, o guerrilheiro resolve ir atrás de sua ex-mulher para comunicar o ocorrido - mas acaba se apaixonando por ela. Misturando política, ataques terroristas e romance LGBTQI+, o filme reserva para seu segundo ato uma sequência que pegará o espectador de "surpresa", numa obra que subverte estereótipos, sendo extremamente original (não por acaso, seu Roteiro foi o vencedor no Oscar).

Bom, é óbvio que existem muitos outros filmes sobre o tema mas, o que acharam da lista? Deem suas opiniões!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Cinema - Bacurau

De: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Udo Kier, Sônia Braga, Karine Teles e Barbara Colen. Aventura / Mistério / Ficção Científica / Faroeste, Brasil / França, 2019, 131 minutos.

Eu teria tudo para odiar Bacurau, longa-metragem dos diretores Kleber Mendonça Filho (dos maravilhosos O Som ao Redor e Aquarius) e Juliano Dornelles. Sou homem, heterossexual, branco, de sobrenome alemão, classe média. Moro na região sul do país, que deu aproximadamente 70% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições, uma região que se acha tão autossuficiente que possui um movimento para se emancipar do resto do país. Uma região que recebe aqueles que não deseja na bala e de relho. No meu estado tem "justiça" que prefere retomar antigo nome de uma avenida - que possui termos como "legalidade" e "democracia" - para homenagear general ditador. Como diria o hino riograndense, "sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra" (#SQN). Na minha cidade tem movimento neofascista querendo censurar evento jornalístico, e também tem vereadores destilando desinformação, homofobia, e acusações sem provas. Aqui pertinho tem gente que não respeita a arte e a cultura, que não suporta a livre manifestação e a crítica. Tem gente que se acha superior ao resto do país devido ao suposto sangue europeu de seus antecessores. Tem gente que certamente vai odiar com todas as forças Bacurau. Não foi o meu caso.

Em um futuro não muito distante o povoado da cidadezinha nordestina de Bacurau (cujo nome remete a um pássaro de hábitos noturnos que, quando aparece, significa mau presságio) está velando a avó de Teresa (Colen), que está retornando à localidade para se despedir trazendo consigo um lote de vacinas e medicamentos. A partir da morte da matriarca somos apresentados lentamente aos personagens do vilarejo - cuja maior característica é o senso de comunidade - em toda a sua diversidade e peculiaridade. Tudo muda no momento em que um casal de turistas supostamente fazendo trilha pelo local altera a rotina dos moradores, quando estes descobrem que a cidade não faz mais parte do mapa (mais especificamente, do Google Maps - sim, a cidade é pobre, mas neste futuro a tecnologia está disponível para todos em seus smartphones). A partir daí as tensões aumentam (uma característica do cinema de Mendonça Filho) levando a desfechos violentos e inesperados. Se você é ligado em cinema já deve ter lido muito sobre o filme e até ter sido vítima de alguns spoilers, portanto não nos aprofundaremos na trama visto que a melhor parte da experiência é ir descobrindo o filme aos poucos e, de preferência, na tela grande.


Ao abrir com um plano brilhante em sua ironia junto ao uso da trilha sonora, percebemos que não estamos diante de um filme convencional. Vender o filme como sendo de ação, ficção científica e faroeste foi uma estratégia poderosa para atrair os espectadores ao cinema. Espectadores que, lamentavelmente, ainda enxergam com preconceito as produções nacionais - uma das mais versáteis e originais do mundo. A julgar pela recepção calorosa do público (que vem lotando salas e mais salas) e a empolgação da crítica (quase unânime em reconhecer os méritos da obra), Bacurau já é um dos filmes mais comentados e hypados dos últimos tempos no Brasil - e também no mundo. E não é pra menos: muito além do cinema de gênero, os diretores entregaram aqui um produto que não fica nem um pouco a dever a produções internacionais. Referências mil respingam pela rede, e uma das que me saltou aos olhos foi o faroeste El Topo, de Jodorowsky, pela lisergia e o alto teor alegórico. Mas tem muito mais: tem ação, suspense, terror, tiroteio, efeitos especiais e, principalmente, RELEVÂNCIA.

São raros os filmes que captam o espírito de seu tempo e, a julgar os acontecimentos atuais no país, o B de Bacurau pode muito bem ser, em seu microcosmo, o B de Brasil. O que vemos em tela é uma alegoria perfeita: as escolas sucateadas, os políticos que só aparecem em época de eleição e exploram seu povo, a animalização do diferente, a exploração de áreas pertencentes a outras pessoas em benefício próprio, o extermínio do povo negro e pobre, o abandono das crianças, a legitimação da violência, o entretenimento a qualquer custo, a frustração do homem branco e a fetichização das armas, o fascismo, a RESISTÊNCIA. Resistência esta que brota das minorias, das mulheres, dos homossexuais, dos trans, dos negros, dos nordestinos, de tudo aquilo que mais irrita os reacionários de plantão. Enquanto a escola é o último refúgio das crianças para sobreviver, é no museu da cidade onde repousa a memória do cangaço - e é justamente esta memória que poderá salvar uma população em risco de extinção.


Premiado internacionalmente (o mais notório deles o Prêmio do Júri do Festival de Cannes), Bacurau é uma bofetada bem dada na cara da elite mesquinha brasileira, do vira-lata, daquele que "se acha" mais importante ou superior que o resto do país, dos que perderam a humanidade, dos que avalizaram tudo de absurdo que acontece dia após dia nesse governo imbecil. Daqueles que preferem se anestesiar e continuar (como uma cena brilhantemente sugere) tomando no cu. Porque todos são o povo, quase ninguém é elite - mas tem muita gente que pensa que é. Se alguma cena peca pela falta de sutileza em sua crítica, creio que este seja um dos maiores méritos do filme: vivemos em tempos em que o óbvio PRECISA ser dito. Que as memórias e as feridas do passado precisam ser revistas para que o terror não volte a ocorrer. E se há algo de aterrorizante em sua emblemática cena final é a certeza de nunca estarmos a salvo do gene da barbárie.

Eu teria tudo para odiar Bacurau. Felizmente, desde cedo, minha família sempre me colocou em contato com a arte. O cinema, a música, o teatro, a dança, são as formas mais eficazes de desenvolver a empatia por nossos semelhantes. Quando digo semelhante, quero dizer a humanidade. Que ela possa conviver e aceitar as diferenças entre si é um imperativo do sucesso civilizatório. Todo governo autoritário deixa de financiar a arte, a cultura e a educação pois sabe que não há arma maior contra a tirania do que o conhecimento. E é por isso que todo mundo deve assistir Bacurau. Porque é um filme espetacular, DO CARALHO. E porque está fazendo história. Em tempo real.

Nota: 10

Cinema - Retrato de Amor (Photograph)

De: Ritesh Batra. Com Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra e Farrukh Jaffar. Romance / Drama, Índia / Alemanha / EUA, 2019, 109 minutos.

Retrato de Amor (Photograph) pode até ser um filme de estrutura convencional - talvez até previsível -, mas é contado com tanta sensibilidade e sem floreios, que se torna uma sessão imperdível. E, de quebra, ainda nos faz conhecer um pouco mais da cultura indiana e seus hábitos, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos. Na trama, um homem de trinta e poucos anos, é pressionado pela sua família (materializada por sua avó) a se casar. O homem é o fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que passa os dias nos arredores de Mumbai tentando comercializar fotografias da região para turistas ou visitantes. Em uma de suas investidas fotografa a jovem Miloni (Sanya Malhotra). Ao entregar a foto, vem com ele um inesperado convite: fazer de conta que é a sua noiva durante a visita da avó, que está para acontecer. Tímida, a moça reluta. Mas, no fim, aceita a ideia.

Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que a aproximação entre Rafi e Miloni, inicialmente completos desconhecidos, se transformará em um algo a mais no decorrer da história. Do silêncio e das poucas palavras iniciais - quando ainda da montagem do estratagema que engambelará a avó - até o final da história, a dupla se tornará mais íntima, encontrará pontos em comum, fará amizade e em algum momento romperá. Aliás, o tipo de estrutura típica das comédias românticas americanas. Poético, o filme utilizará a metáfora da fotografia, o instantâneo que captura a imagem, memorizando-a, para falar de permanência e materialização de uma realidade que dura por apenas um segundo, mas que poderá ser eternizada em um clique. Desajeitada, a dupla sustentará o seu segredo, sendo esta uma das maiores diversões do filme: assistir as interações da avó, que avança sobre a dupla, eventualmente desconfiada, mas invariavelmente divertida.


Não é um filme ostensivo naquilo que ele se propõe. Ao contrário, todas as suas eventuais mensagens são sutis, sugeridas. Miloni, por exemplo, é estudante e de uma família mais abastada, como percebemos nas interações dela com as empregadas da casa. Já Rafi estaria na classe social oposta, com amigos barulhentos, histriônicos, lutando dia após dia para, com as suas fotos, poder botar comida na mesa. Esses contrastes surgem de forma eficiente, no comportamento de cada personagem, sem a necessidade de se esfregar nada na cara do espectador.  E talvez por isso o esforço de Rafi para conseguir um tipo particular de bebida, uma das preferidas de Miloni, como assistimos no terceiro ato, é tão comovente. É o valor das pequenas coisas: um sorvete na rua, uma correntinha dada de presente por um parente, um filme assistido (nem que já se saiba o final).

Divertido, dramático e até romântica em doses parecidas, o filme ainda aproveita ao máximo a presença luminosa da veterana do cinema indiano Farrukh Jaffar que, aos 85 anos, transforma a avó (a Dadi), numa figura ao mesmo tempo histriônica e enigmática, engraçada e sisuda. Seja na cena em que ela tira uma foto do casal, dizendo para eles se aproximarem ("ela não é um arame farpado"), ou nos momentos em que ela se diverte (e é ranzinza) no albergue que Rafi divide com os amigos, cada sequência em que ela aparece, se torna especial. O que faz com que compreendamos, inclusive, a devoção (e o respeito) do neto em relação a idosa. Com um divertido final metalinguístico - um dos melhores do ano, diga-se - Retrato de Amor jamais será aquele filme inesquecível. Mas, tal qual um retrato valioso, deixará a sua marca por algum tempo.

Nota: 8,0

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Novidades em Streaming - Lana Del Rey (Disco)

E eis que temos mais um disco para entrar diretamente na nossa listinha de cinco melhores internacionais do ano, até o momento. Aqui no Picanha a gente sempre gostou da Lana Del Rey e a impressão que temos é de que ela melhora a cada registro. Em Norman Fucking Rockwell o estilo retrô/enfumaçado/romântico/lânguido permanece o mesmo de seus trabalhos anteriores - com o ápice alcançado no disco Lust For Life, não por acaso o nosso terceiro na relação de grandes álbuns de 2017. No novo trabalho, uma elegância elevada, evocativa, que desconstrói o "sonho americano" já no seu título (Rockwell foi retratista de presidentes americanos como Richard Nixon), enquanto Lana sussurra seus versos de forma provocativa, fragmentada. Há espaço para o pop, como comprovam as candidatas a hit California e a irônica Next Best American Record. Mas o álbum é mais do que isso, e quem tiver a paciência de encarar os seus mais de 60 minutos com as letras a tiracolo, se surpreenderá ainda com o refino de seus versos - ao mesmo tempo autoindulgentes e sarcásticos. Vale cada segundo.


Tesouros Cinéfilos - Dor e Glória (Dolor y Gloria)

De: Pedro Almodóvar. Com Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Penélope Cruz e Leonardo Sbaraglia. Drama, Espanha, 2019, 103 minutos.

Vamos dizer que Dor e Glória (Dolor y Gloria) talvez seja um filme muito mais bonito do que profundo. Mais sensível, mais leve. Menos impactante ou provocativo - como eventualmente ocorre na carreira de Pedro Almodóvar. Mas isso não é nenhum demérito. Olhar com carinho para o passado, fazer um filme com ares autobiográficos, que homenageia o cinema e outras artes, também é afagar o espectador. De vez em quando a gente quer uma película que nos envolva, sem necessariamente nos intrigar de maneira comovente. E esta obra parece fazer isso sem forçar a barra, na base da gentileza, da graça. Continua sendo um legítimo Almodóvar - estão lá o uso de cores vivas e a fotografia saturada, Antonio Banderas e Penélope Cruz interpretando, um roteiro com algum grau de mistério cheio de idas e vindas e, claro, as paixões que não olham cor, gênero, tipo físico ou idade. O tipo de obra perfumada pela experiência, talvez. E que por isso tão bela, tão introspectiva.

Na trama, Banderas é Salvador, um decadente diretor de cinema cheio de ideias nunca postas em prática que seguem guardadas em seu computador e que, agora, a convite da cinemateca espanhola, revisitará uma de suas primeiras obras, de nome Sabor, que está para completar 30 anos de seu lançamento. Viajar até o passado para reencontrar esse filme, também será confrontar com um antigo ator que trabalhou com ele em tal película e que, por ter modificado completamente a personalidade do personagem que Salvador havia escrito, se tornou seu desafeto. O ator em questão é Alberto Crespo (Asier Etxeandia), sujeito recluso, intenso usuário de drogas e que anda afastado do mundo das artes. Do reencontro entre ambos os homens surge uma curiosa amizade. E também uma oportunidade para que Alberto "renasça": ele se convida para levar aos palcos uma das tantas ideias deixadas de lado por Salvador em seu notebook - uma peça que lhe comove profundamente.


Muito mais do que homenagear o meio em que vivem estes homens, Dor e Glória também é uma ode ao passado, às escolhas que fazemos e sobre como elas definem quem seremos no futuro. Com  muitas idas e vindas no tempo, conheceremos um Salvador ainda menino (o ótimo Asier Flores), sua relação com a mãe Jacinta (Penelope Cruz) e seu esforço na direção transformadora do aprendizado - sendo particularmente comovente o instante em que o garoto de apenas oito anos passa a ser o professor de Albanil (César Vicente), pintor e instalador que trabalha na "casa" do jovem - e que lhe permitirá descobrir a homossexualidade. Nas sequências que mostram Salvador adulto, vemos um sujeito fragilizado, adoecido e hipocondríaco, que esconde suas vivências em textos nunca revelados, mas que tem uma grata surpresa quando reaparece um antigo amigo/namorado do passado, um certo Federico (Leonardo Sbaraglia). Aliás, difícil não se emocionar com a sequência em que ambos contracenam: uma cena profunda, dolorosa, comovente. Ainda que eventualmente otimista, à sua maneira.

Em linhas gerais o filme não possuirá uma reviravolta ou algum tipo de arco dramático bem estruturado entre começo meio e fim. Alberto levará a peça aos palcos, Salvador recordará do passado. Confrontará este mesmo passado no presente. Perdoará, mais de uma vez. Seguirá adiante, curando as feridas não apenas da alma, mas também físicas. Mestre em utilizar gráficos, montagens e outras trucagens visuais em seus filmes, Almodóvar transforma a sequência em que Salvador fala de todos os males que lhe afligem em um curioso tour de force das dores do mundo - o que se desenvolve de maneira curiosamente divertida. Assim como é divertida a "descoberta" tardia da heroína, como uma alternativa para aplacar essas mesmas dores vividas pelo protagonista. Em uma obra que utiliza as cores não com um propósito específico, mas para salientar a importância delas nas artes, na vida, no redescobrir do mundo, o que fica docruzamento entre passado e presente são as experiências, afinal. E, assim como um belo desenho impregnado em nossa memória, elas jamais podem ser apagadas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Cinema - Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time in... Hollywood)

De: Quentin Tarantino. Com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie e Al Pacino. Comédia dramática / Policial, EUA, 2019, 165 minutos.

Opinião sobre filme do Tarantino é que nem c*: todo mundo tem a sua. Seja na mesa de bar (pseudo)cinéfila ou em fóruns gloriosos de redes sociais, cada um de nós tem seu pitaco a dar. "É o filme menos Tarantino do diretor", "ele fez uma ode ao cinema", "as referências à cultura do final dos anos 60 conferem um charme a mais", "é cinema mais arrastado e menos violento". Sim, você vai ouvir um pouco de tudo sobre Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time in... Hollywood) e tudo tem, sim, um tanto de sentido - a despeito do pedantismo dos fãs do diretor, quando resolvem discorrer sobre sua obra. É, como todos os filmes do Tarantino, um bom filme. Cheio de diálogos divertidos, situações imprevisíveis, metalinguagem e também aquela que tem sido uma de suas marcas, em seu cinema mais recente: subverter a lógica de eventos reais do passado, reimaginando-os em um novo contexto. E isso ele faz de forma avassaladoramente maluca, curiosa, excêntrica.

A trama nos joga para o ano de 1969. O cinema de faroeste está em queda e com isso uma de suas grandes estrelas, o astro Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), vê as oportunidades em Hollywood rarearem. Papéis para ele, agora quase um veterano, apenas de vilão para mocinhos que serão os novos astros da Meca do Cinema. Ao seu lado, para lá e para cá, anda o inseparável Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê e, digamos, amigo, a despeito do contraste que há em suas vidas - enquanto um curte um drink na piscina ao final de um dia de trabalho, o outro vai para o trailer decadente comer um miojo grotesco, enquanto alimenta um cachorro com comida sabor "rato" (um dos tantos detalhes divertidos, com a marca do diretor). O contraste não está só nisso. Está nas mudanças que ocorrem no mundo e qua perfumam a trama com um panorama político que coloca hippies de um lado, yuppies do outro, que movimenta o cinema, a percepção do público sobre ele e, consequentemente, seus astros.



Sharon Tate (Margot Robbie), por exemplo, surge como a vizinha de Rick. Em um "relacionamento sério" com Roman Polanski - ela havia filmado com ele o ótimo A Dança dos Vampiros (1967) -, viria a morrer em 1969, história conhecida por todos, a partir de um ataque perpetrado por sádicos seguidores de Charles Manson (um crime amplamente coberto pela mídia na época). O que a obra faz é retornar no tempo, para os meses que antecedem este episódio - utilizando a própria Hollywood, o conceito do filme dentro do filme e da solução para um "confronto final" contra vilões, algo tão típico no cinema do período (especialmente nos faroestes), como a matéria-prima para esta obra. O que resulta em uma saborosa experiência cinematográfica, cheia de participações especiais - de integrantes do Mamas and The Papas, passando por Steve McQueen, até chegar em Bruce Lee. Aliás, desde já a sequência em que Lee desafia Cliff para um "duelo" está entre as melhores e mais inacreditáveis do ano.

Ainda que siga um fio narrativo, o filme muitas vezes mais parece uma grande colagem de eventos aleatórios, uma colcha de retalhos que envolvem não apenas os bastidores do cult movie Arma Secreta Contra Matt Helm (1969) - que estava sendo gravado à época -, mas também as tentativas de Rick Dalton de se manter na indústria a despeito de suas inseguranças, as festas animadas, a presença dos hippies, da contracultura e dos seguidores de Charles Manson, fora o emaranhado de referências à filmes, séries, músicas e publicações do período, que funcionam como um grande arquivo nostálgico de uma época de transformações. Não por acaso, a cena em que uma menina de oito anos dá sugestões à Dalton sobre leitura, interpretação de texto e caracterização de personagens, serve como metáfora para tudo aquilo que vemos: o velho ficando para trás, ultrapassado, o novo chegando para "substituir" - personificado também em Tate. E o mundo em ebulição, efervescente, buscando novos ídolos para "cultuar". Usando-os como desculpa até para matar.


E como se não bastasse a obra trafegar de forma fluída e descompromissada entre gêneros - é possível rir e se emocionar em poucos minutos (e até se assustar!) -, o filme ainda é um primor do ponto de vista técnico. O desenho de produção é caprichado e o próprio Tarantino admitiu em entrevistas que se valeu não apenas da pesquisa, mas também de sua memória afetiva (novidade!) para inserir um sem fim de pôsteres, propagandas de revistas, programas de TV, outdoors e outros que rolavam na época e que evocam o período. O mesmo vale para a fotografia num amarelo saturado, empoeirado e para os figurinos. Talvez não seja o melhor filme do Tarantino e nem era essa a intenção: mas é o que mais parece se importar com seus personagens, em fazer com que transmitam mais com menos, se valendo de diálogos e gestos relevantes. É filme grande e que, muito provavelmente, estará na próxima cerimônia do Oscar, em busca de estatuetas. É aguardar pra ver.

Nota: 8,5

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Lado B Classe A - Taylor Swift (1989)

Talvez seja um dos maiores clichês da crítica especializada musical - nós não nos incluímos nela, só pra constar -, falar em maturidade do artista, conforme seus discos vão sendo lançados. Sim, é uma coisa meio óbvia pensar que éramos uma pessoa aos 20 anos e que, muito provavelmente seremos outra aos 30. E mais ainda outra aos 40. O tempo passará e com ele virão as experiências que nos formarão. Que servirão de aprendizado. E que darão sentido à nossa existência. Se para nós, reles mortais, esse lugar-comum é algo um tanto inevitável, é possível afirmar que para cantores/compositores isso também seja uma possibilidade. E, no caso da norte-americana Taylor Swift, uma análise de sua discografia - ela acaba de lançar seu sétimo álbum de estúdio, chamado Lover - também nos permitirá essa conclusão. Há 13 anos, quando lançou seu primeiro disco - na ocasião uma jovenzinha de 17 anos -, Taylor era uma. Agora, perto dos 30, certamente é outra.

Bom, nós não queremos com esse post falar de Lover - você lerá resenhas bem escritas nos mais variados sites de cultura e entretenimento (a gente indica o baita texto do nosso CHAPA CEL, do Célula Pop) - e, sim, do ponto de ruptura para Taylor, o que ocorre com o álbum 1989 de 2014. Daquele momento em que ela deixa de ser a menininha sofrenilda que pega seu violão na mão para compor um amontoado de músicas sobre como a vida lhe é dura, sobre como é difícil ser rejeitada, ser esquisita. Ser traída. Do homônimo álbum de 2006 até o bom Red (2012), a cantora transformava o seu trabalho em uma forma de exorcizar os dramas dos relacionamentos juvenis fracassados - o que, de forma simbólica, também aparecia em uma certa insipidez da melodia, quase sempre era um country/folk doloroso, de refrão autoindulgente onde a paisagem sonora que mais se destacava era a de um violão definitivamente bem tocado, mas eventualmente pálido. O sofrimento pálido da garota branquela de classe média também pálida.


Bom, sobre a chegada de 1989, é a própria Taylor quem admite, na época em que o álbum foi lançado, esse novo deslocamento de sua sonoridade - "esse é meu primeiro álbum oficialmente pop", publicou no material de divulgação, à época. E você, atento leitor do Picanha, poderá eventualmente perguntar o que há de maduro em, finalmente, ser pop? Se pensarmos do ponto de vista de gênero musical, talvez pudéssemos dizer, com alguma sinceridade, que NADA. Mas nesse caso, a mudança representava uma quebra de paradigma que viria a ser implementada por um coletivo de produtores como Shelback e Ryan Tedder. E foram justamente eles que viriam a incorporar ao cancioneiro de Taylor os sintetizadores mais efervescentes, os acordes de baixo palpitante, os vocais de apoio bem pontuados, uma percussão menos óbvia. Saía assim de cena o violãozinho insípido da garotinha tímida, para surgir em cena uma nova figura agora transformada, arejada e disposta a, de forma orgânica, produzir um "novo" tipo de som. Mais forte. Menos minimalista.

Mas o processo de "ruptura" talvez não seria totalmente possível se as letras, sempre sobre relacionamentos, também não passassem por uma repaginada. Se em canções como o single You Belong With Me, presente no disco Fearless, ela era a garota simples de coração bom, que usava tênis e camiseta, mas que estava sempre atrás da "líder de torcida", em Blank Space, single presente em 1989, ela toma as rédeas de quem está pronta pra mostrar "coisas incríveis ao seu parceiro", talvez sendo ela a figura paranoica que lhe faria uma espécie de contraponto anos atrás (o que também é atestado pelo ótimo videoclipe da música). Essa Taylor forte, que passou por vários relacionamentos fracassados, que cresceu, que amadureceu, reaparece em outros momentos do álbum, seja na noventista/festiva Welcome To New York (Todo mundo aqui era outra pessoa antes / E você pode querer quem você quiser) e All You Had To Was Stay (Pessoas como você sempre querem de volta / O amor que jogaram fora), que mais parece uma música do M83, fase Hurry Up We're Dreaming (2011).



Divertido, festivo, heterogêneo, o álbum nunca deixa a peteca cair. Ao não fazer mais o mesmo disco de sempre, Taylor não abandona completamente suas origens - é possível perceber elementos de sua discografia anterior aqui e ali, seja num refrão grudento, seja num comentário debochado sobre o absurdo dos relacionamentos amorosos juvenis e suas nuances. Mas, determinadamente, ela evolui, incorpora outros elementos, acrescenta camadas e, assim, uma maior densidade. Músicas como Out Of The Woods e Wildest Dreams, por exemplo, aproximam a artista muito mais de contemporâneas como Jessie Ware, do que necessariamente de Katy Perry. É música pop, mas nunca óbvia - e que pavimentaria o caminho para seus dois trabalhos seguintes, Reputation e o já citado Lover. Bem recebido pela crítica, o registro tem média geral de 76 no Metacritic - que compila notas da crítica especializada, com nota máxima de 100. O que também justifica a sua audição.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Novidades em DVD/Now - Casal Improvável (Long Shot)

De: Jonathan Levine. Com Charlize Theron, Seth Rogen, Andy Serkis, O'Shea Jackson Junior e Bob Odenkirk. Comédia romântica, EUA, 2019, 125 minutos.

Não há premissa mais básica para que uma comédia romântica funcione do que a existência de uma boa química entre o casal protagonista. É preciso que torçamos por eles, que desejemos efetivamente que eles superem as adversidades e consigam ficar juntos. Mas infelizmente não é o que acontece no irregular Casal Improvável (Long Shot), a mais nova bobajada estrelada por Seth Rogen. Quem acompanha a carreira do ator sabe que, em seus filmes, ele quase sempre faz o mesmo papel: o do adulto nerd infantilizado que, perto dos 40 anos, continua sendo... o mesmo adulto nerd infantilizado. Aqui, ele é o jornalista Fred Flarsky, sujeito que trabalha em um site de ideais progressistas, que é comprado por um conglomerado de mídia comandado pelo conservador Parker Wembley (Andy Serkis em ótimo papel).

Insatisfeito com os rumos tomados pela empresa em que trabalha, Fred pede demissão e, numa noitada para "celebrar" essa nova fase - ele vai a uma festa com seu amigo Lance (O'Shea Jackson Junior) - ele acaba reencontrando a sua babá da adolescência. Detalhe: a babá em questão é a atual Secretária de Estado norte-americana Charlote Field (Charlize Theron), que deverá concorrer à presidência nas próximas eleições. Um encontro desajeitado entre ambos na festa, motiva Charlote a contratar Fred para a sua equipe de comunicação. Com a qualidade apresentada por seus trabalhos na imprensa, ele é incumbido de escrever os discursos da líder, que faz campanha por todo o mundo, com a intenção de colocar em prática uma agenda ambientalista. Não demora para que ambos engatem um romance - mesmo não tendo absolutamente NADA a ver.


Pra mim o absurdo de um casal formado por Seth Rogen e Charlize Theron nem está tanto na discrepância entre a beleza de ambos. O caso é que Fred é uma figura totalmente sem graça. Simplória. Sem profundidade. O seu comportamento de jornalista ligado aos temas sociais soa forçado - e mesmo em uma sequência efetivamente engraçada, como a dos neonazistas, ele parece apenas um estagiário boboca, atrás de uma boa matéria. A gente não acredita nele. Não acredita no que ELE supostamente acredita. Assim como é bobo ele não possuir uma roupa que preste, não sabendo o que usar em um evento mais formal. E o que Charlote enxerga nele não fica exatamente claro. Algum tipo de nostalgia juvenil que remete aos primeiros relacionamentos? Uma saudade do que não se teve? Ela é uma poderosa mulher, que tem lá suas ambições: por que ficaria com um sujeito que anda de boné e jaqueta surrada pra lá e pra cá, cujo assunto principal é Game Of Thrones? E que é totalmente brega na abordagem? Autenticidade? Huum, não me convence. É possível quebrar o status quo de outras formas.

Do ponto de vista do debate político, o filme até se esforça: há boas piadas e comentários sociais sobre feminismo e igualdade de gênero e sobre o absurdo da misoginia em um ambiente povoado por homens brancos e héteros. Há também algumas boas alfinetadas no Governo Trump - a cena em que Lance revela à Fred ser um republicano é disparada uma das melhores. E, não por acaso, o personagem de Bob Odenkirk (que vive o atual presidente), parece uma pessoa desprezível, interessada apenas em aparecer na TV e satisfazer seu ego. Aliás, uma outra boa sequência é quando o sujeito esbraveja por algum motivo no Salão Oval apenas para revelar, segundos depois, que se preparava para um teste para um papel. Mas mesmo esses momentos razoáveis não salvam a película daquilo que ela prometia. O discurso no fim das contas soa oco, quando a gente assiste as mesmas piadas escatológicas de sempre, sobre diarreias e masturbação e que Rogen e sua trupe parecem sempre achar engraçado. Mesmo não sendo. Bom, eu também sou filho de Deus e, de vez em quando, só quero uma comédia romântica pra desopilar: infelizmente essa não me fez rir. E o casal ainda era nada a ver.

Nota: 4,0

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Tesouros Cinéfilos - Animais Noturnos (Nocturnal Animals)

De: Tom Ford. Com Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Laura Linney e Aaron Taylor-Johnson. Drama / Suspense, EUA, 2016, 115 minutos.

Atire a primeira pedra quem nunca tomou decisões erradas na vida, das quais se arrepende amargamente. Sim, todos nós já passamos por isso e, de alguma forma, uma das tantas subtramas contidas no enigmático Animais Noturnos (Nocturnal Animals), do diretor Tom Ford, trata desse tema. Mais especificamente da tentativa de continuar a vida a partir de escolhas que poderiam ter sido melhor pensadas. Vai saber. Mas o filme também é sobre exorcizar demônios, especialmente a partir da criação artística. E, estes aspectos, somados a outros, tornam esta não apenas uma excelente obra de suspense, mas também uma importante reflexão a respeito de nossas atitudes. Na trama, Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gyllenhaal) são divorciados. Ela, uma artista plástica com alguma reputação - sua nova (e provocativa) instalação acaba de ser lançada. Ele, um escritor que tenta de todas as formas lançar algum livro que emplaque no mercado editorial.

Em comum o fato de ambos estarem tentando seguir em frente, a partir de um término aparentemente traumático - os fatos que resultam da separação descobriremos mais tarde. No começo do filme, Susan recebe de Edward uma espécie de manuscrito com a sua nova obra. Intitulada Animais Noturnos e dedicada a ex, contará a história de um casal que sai de férias, acompanhado da filha. O que era pra ser uma noite tranquila, se torna uma experiência de terror: eles encontram uma espécie de gangue na estrada, que inicia uma série de jogos sádicos com a família, após o veículo destes ficar com um pneu furado. Os longos minutos de sofrimento e de violência, terminam com esposa e filha sequestradas, com o protagonista do livro, em desespero, tentando localizá-las de todas as formas. Para isso contará com a ajuda de um misterioso detetive - vivido pelo sempre competente Michael Shannon.


O que acompanhamos no filme, na verdade, é a leitura que Susan está fazendo do livro - e Ford, um estilista que se tornou diretor de cinema, é inteligente ao replicar a visão de mundo da protagonista, para aquilo que vemos encenado em tela. Por exemplo, o pai da família dentro do livro, um sujeito de nome Tony Hastings, tem a fisionomia do ex, ao passo que a esposa se parece com ela (mesmo sendo vivida por Isla Fisher). Os eventos trágicos serão descortinados aos poucos, condição em que será possível perceber um sem fim de contrastes: Edward parece finalmente ter encontrado a sua maestria artística com o seu talentoso livro. Já Susan, apesar de rica, parece frustrada. A espiral de decadência burguesa se completa com um relacionamento frio - seu marido Walker (Armie Hammer), sequer participa da vernissage de lançamento de seu trabalho (uma sequência inesquecível vista no começo da película). E logo parte em viagem. Onde encontra uma amante.

Parece meio confuso, mas não é. Susan, assim como sua família (a única participação de Laura Linney como a mãe da artista plástica é ótima), sempre foi ambiciosa. Isto fica presente nas entrelinhas, nas conversas com amigos e pessoas ligadas ao meio em que vive. E o casamento com um postulante a escritor pobretão - por mais que se tratasse de um sujeito romântico, sensível e dedicado -, nunca representou o tipo de status que ela desejaria. Só que o caso é que a leitura e, especialmente, a conclusão do livro que lhe foi remetido, não lhe farão perceber que não apenas ela mudou. Ou se arrependeu. Ele também está mudado. E o momento em que ele afirma que escreve para "manter as coisas vivas, coisas que morrerão um dia" pode até parecer um contrassenso: mas representa, na verdade, alguém que está seguindo em frente. E que utiliza uma novela fictícia como representação desse sentimento. Isso se pensarmos que efetivamente foi ESSE o sentido que Edward quis dar a sua publicação.



Com desenho de produção e fotografia espetaculares - gosto dos contrastes entre as cores dos objetos, como na cena em que um sofá vermelho aparece em meio ao deserto amarelado e suarento -, o filme ainda utiliza os flashbacks de forma inteligente para que conheçamos um pouco mais da história do casal, do declínio da relação e de quais os caminhos que os fizeram chegar até o estágio atual. Reflexão valiosa sobre comportamento, sobre tentativa de mudança e sobre a produção de sentido na arte, a obra mantém a expectativa até a última sequência, jamais abandonando o clima de noir misterioso, sofisticado, que pode ser percebido na elegância dos figurinos e ambientes requintados, que surgem como um contraponto da violência animalesca produzida pelas figuras "noturnas", suas roupas sujas e seus modos agressivos. Filmaço.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Os Brutos Também Amam (Shane)

Cena: uma perseguição desesperada a SHAAAAANEE!!

Para muitos, uma cena absurdamente comovente. Para outros, uma das mais irritantes. Mas para todos os que assistiram Os Brutos Também Amam (Shane), a sequência do menino Joey (Brandon de Wilde) correndo desesperadamente atrás de Shane (Alan Ladd), quase ao final do filme, gritando pelo seu nome, é uma das mais inesquecíveis da história do cinema. E se torna mais impactante ainda pelo fato de que o menino desejava apenas pedir desculpas. O Shane de Ladd era um sujeito misterioso, um pistoleiro "aposentado" que chega ao rancho de Joe Starrett (Van Hefflin) meio que por acaso e fica para ajudá-lo nas lidas da pequena propriedade. Sujeito de modos calmos e olhar tranquilo, o homem logo chama a atenção do filho do anfitrião, o já citado Joey que, não é exagero dizer, se "apaixona" por Shane - ou talvez pela ideia de segurança, de suporte físico e emocional que ele passa a representar para a família, que é completada por Marian (Jean Arthur).

Como era de praxe nos faroestes, o filme é bastante conservador, ressaltando a importância da família, de Deus e do direito à propriedade, como valores caros à sociedade (especialmente naquela época, com os Estados Unidos tentando superar os eventos ocorrido na Guerra Civil). Mas, de alguma forma, surpreendem algumas quebras de paradigmas dentro do estilo - com direito até mesmo, pasmem, a um tom pacifista no discurso, o que pode ser percebido pela baixa quantidade de tiros disparados durante a película ou até mesmo pelas longas divagações a respeito do absurdo de se empunhar uma arma (esse contraponto personificado, em muitos casos, por Marian, que se horroriza em certa sequência em que Shane ensina o pequeno Joey a manipular o revólver).


Já Ryker é um vilão um pouco diferente, já que representa os grandes latifundiários - sendo Starrett e os demais moradores da comunidade o seu contraponto (pequenos produtores com pequenas faixas de terra). Será nessa luta por ocupação de espaço - e por criação e gado e de renda - que se estabelecerá o arco dramático. Ryker é o opositor que se vangloria de já ter expulsado daquela região - o Estado do Arkansas -, os índios e os aventureiros, ao passo que a família protagonista (que mantém Shane abrigado), só deseja produzir para sobreviver, para o autoconsumo. Um tipo de debate que estabelece, já naquele ano, o agronegócio como o antagonista da ideia da pequena propriedade, com as famílias rurais cultivando alimentos e ocupando a terra para a sobrevivência. O que em um filme de faroeste, mesmo em um de aparência antiquada, cafona como é o caso de Os Brutos Também Amam, é algo a ser celebrado.

Com Shane vivendo diariamente junto à família, é estabelecida uma curiosa dinâmica. Há uma tensão (sexual ou não) entre a figura vivida por Ladd e Marian (repare como Joe os observa com certa reserva na cena em que se comemora o 4 de julho), ao passo que todos os seus integrantes sabem de sua importância ali para a sua continuidade, a sua sobrevivência. Com muito menos cenas de luta e de tiroteios, e muito mais reflexões sobre moral, ética e costumes, a obra pode soar meio enfadonha para aqueles que preferem os roteiros mais "movimentados". Mas no contexto do filme dirigido por George Stevens (Assim Caminha a Humanidade, Um Lugar ao Sol), aquilo tem sentido: Sane está tentando deixar para trás o seu passado obscuro e encontra no acolhimento da família uma espécie de alternativa à isso. Mas quando ele volta a matar, friamente, o algoz daqueles que ali vivem, ele percebe que a sua essência não vai mudar. E que, consequentemente, de nada adiantará o jovem Joey lhe chamar desesperadamente. Ele já foi. Antes mesmo de ir.

Infelizmente revirei o Youtube para encontrar a cena do menino correndo do protagonista pelas pradarias aos gritos por Shane, mas não encontrei. De qualquer maneira a sequência final, após a "batalha" decisiva, funciona quase como uma extensão daquela aqui mencionada. E vale a pena ser recordada.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Foi Um Disco Que Passou em Minha Vida - Os Paralamas do Sucesso (O Passo do Lui)

Por que você não olha pra mim? Ô ô
Me diz o que é que eu tenho de mal ô ô
Por que você não olha pra mim?
Por trás dessa lente tem um cara legal.

Pra quem cresceu usando óculos, como foi o caso deste que vos escreve, poucas músicas foram mais simbolicamente relevantes quanto aquela que abre o disco O Passo do Lui, d'Os Paralamas do Sucesso. Quando escutava ela no rádio em meados dos anos 80, ainda não sabia direito o que ela significava, em sua magnitude. Mas era uma canção que afagava aquele menino de apenas seis anos que, inesperadamente, se tornava o mais novo "quatro olhos". Óculos, até hoje, é uma das músicas nacionais preferidas da vida. Sou capaz de colocá-la na mesma "prateleira" de Construção do Chico Buarque ou de Tropicália do Caetano Veloso. Há um clima primaveril da juventude efervescente nela, amparado pelo divertido contraponto entre ser esnobado pelas gurias do Leblon e fazer "charme de intelectual" para conquistá-las. A canção começa com um suingue ensolarado, uma guitarrinha e uma percussão sacana, que explodem no refrão. E que fazem qualquer guri que "não nasceu assim" sorrir de orelha a orelha, por se sentir representado por um dos caras mais legais do rock brasileiro.

O Passo do Lui foi lançado em 1984. E, evidentemente, ele não era apenas Óculos. O Brasil estava próximo da abertura política, com os compositores se sentindo mais à vontade para escrever músicas sobre os dilemas da juventude, suas frustrações amorosas, a busca da felicidade e valorização das coisas simples. Já havia sido assim um ano antes, quando Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone surgiram para o mundo com o modesto Cinema Mudo. O disco não chamou tanto a atenção, ainda que Vital e Sua Moto - o primeiro sucesso da carreira - trouxesse algum tipo de divagação bastante semelhante àquela vista em Óculos: a do jovem buscando a felicidade, que poderia ser simbolizada pelo "sonho de metal" (ou pelas meninas que olhassem para o eu lírico que andava por aí de óculos). Herbert Vianna se transformaria assim numa espécie de voz daquela juventude classe média, relativamente politizada, com suas letras cheias de referências ao cinema, a literatura e ao simbolismo da liberdade alcançada numa moto, num óculos, em um romance bem sucedido.


Nesse sentido, talvez não tenha sido por acaso que o registro fez tanto sucesso. Seus hits - Meu Erro, Romance Ideal, Ska, Mensagem de Amor - tocavam a exaustão nas rádios. Os Paralamas do Sucesso foram tocar no Rock In Rio no ano seguinte, o que contribuiu para que o álbum se espalhasse com mais força. A mistura saborosa de ska, dubstep, reggae e música pop, os refrões ganchudos, urgentes, tudo contribuiu para que o trabalho se tornasse um dos mais inesquecíveis da história. Só fui conseguir comprar o álbum bem mais tarde. Mas aquelas músicas já estavam todas impressas na minha mente: fosse na rodinha de voz e de violão do colégio, com a moçadinha cantando a letra de Meu Erro de cabo a rabo - travestida de uma autoridade sobre relacionamentos que ainda estava bem longe de existir (se é que HOJE existe) -, fosse no isolamento do quarto, cantarolando para si próprio os versos de Óculos, na tentativa comovente de acreditar que, sim, não há nada de mal em usar aquilo.

O Passo do Lui certamente pavimentou o caminho para que Os Paralamas se tornassem a maior banda nacional que existe - bom, é a minha preferida desde sempre. Discos como Selvagem (1986), Os Grãos (1991) e Nove Luas (1996), despejaram DEZENAS de hits, como, Alagados, Tendo a Lua, Caleidoscópio, Melô do Marinheiro, O Beco, Trac Trac, La Bella Luna, Loirinha Bombril, entre tantas outras, que foram acolhidas com devoção pelos fãs. Mesmo o acidente com um ultraleve em 2001, que tirou a vida da esposa de Herbert, Lucy, tornando-o paraplégico, não o impediu de trabalhar. Ao contrário, a impressão que se tem é a de que a sinergia entre banda e público só aumentou de lá para cá. O Passo do Lui completa 35 anos agora em setembro. Eu estou com 38. E nunca canso de ouvi-lo. Ele me ajudou na minha formação. E até na minha compreensão do mundo: hoje eu o enxergo muito melhor. Com meus óculos.



terça-feira, 20 de agosto de 2019

Lançamento de Videoclipe - Luiza Lian (Mil Mulheres)

Lançado no ano passado, o álbum Azul Moderno da paulistana Luiza Lian foi o sexto melhor na nossa lista de 25 grandes registros nacionais de 2018, aqui no Picanha. E a obra, que mistura religiosidade e experimentalismo pop de forma delicada, etérea e sensorial segue rendendo bons materiais de divulgação, como é o caso do videoclipe para a canção Mil Mulheres, disponibilizado na última semana. Dirigido pela dupla DIABA (Camila Maluhy e Otávio Tavares) o filme retrata, de acordo com o material de divulgação, "uma relação afetiva que oscila entre os sentimentos de amor e de distância, onde os protagonistas fundem seus corpos e se separam na geografia da cama". É uma das melhores canções do disco e que ganha um clipe a altura. Bora clicar e conferir.

Picanha.doc - Privacidade Hackeada (The Great Hack)

De: Jehane Noujalm e Karim Amer. Documentário, EUA, 2019, 114 minutos.

Já deve ter acontecido muitas vezes com você, leitor do Picanha: você entra em um site qualquer, atrás de algum produto. Digamos, um tênis novo. Zapeia, olha os modelos, navega por algum tempo. Abandona a ideia. Resolve entrar um pouco nas suas redes sociais. Lá está um banner com os mesmos tipos de tênis que você estava buscando. Com promoções de 20, 30% de desconto. Atrativo. Colorido. A propaganda se repete. Por dias. Surge em posts patrocinados. Reaparece em outros aparelhos que estejam conectados a mesma rede. Incansavelmente aquilo martela na sua mente. E martela. E martela. E martela. De uma forma que talvez você se sinta influenciado. Ou não. Digamos que essa seja uma tentativa "prosaica" de comercialização de produtos, por parte de alguma empresa, a partir de informações que você mesmo forneceu. Mas e se, ao invés de um tênis, um pacote de viagem ou um perfume, alguém tentasse lhe vender "ideias"? E o pior, tendo acesso a dados e informações sobre você, que você NÃO AUTORIZOU conceder?

Bom, essa é a ideia por trás do imperdível documentário Privacidade Hackeada (The Great Hack), que mostra como grandes empresas de tecnologia podem estar por trás de resultados ocorridos nas últimas eleições americanas ou mesmo na campanha leave.com, que levou os britânicos a optarem pelo "sim", no plebiscito sobre o Brexit. Digamos que é algo que a gente já desconfiava - e se você é minimamente ligado, certamente já ouviu falar da gigante Cambridge Analytica que, aliada ao Facebook, obteve dados de mais de 87 milhões de usuários da rede social, com o objetivo de traçar perfis psicológicos, que poderiam (re)definir a personalidade de eleitores americanos - especialmente os indecisos, no caso das eleições que tornaram Trump presidente. Sabe a vizinha da tia Célia, aquela que não sabia bem em quem votar no ano passado, mas ficou horrorizada quando viu o Haddad com uma mamadeira de piroca na mão? Era esse eleitor - os chamados "persuasíveis" - que eles buscaram em uma complexa rede de análise de dados e, consequentemente, de estímulos.


Nesse ponto, você leitor poderia argumentar: "é, mas mesmo com obtenção de dados e de informações sobre a personalidade das pessoas, quem ainda toma a decisão é o eleitor". Sim, é. Mas acontece que, como parte da campanha, houve um massivo processo difamatório de Hillary Clinton, com utilização de muitas fake news que lhe transformavam em uma espécie de vilão comunista, que deveria era estar atrás das grades. Fazer a América grande de novo também era "fuzilar" os adversários políticos. Aniquilá-los. Aliás, qualquer semelhança com o que ocorreu no Brasil não é mera coincidência: a ampla campanha caluniosa que transformaria o Brasil em uma Venezuela caso Haddad ganhasse, com médicos cubanos tirando o jaleco para iniciar uma guerrilha, vendendo kits gays nas escolas, enquanto alunos pelados preparavam coquetéis molotov também pode ter a ver com tudo isso. Aliás, o filme aborda a questão "Brasil" de passagem, nos deixando com a pulga atrás da orelha.

Por trás dos investimentos feitos nas campanhas das eleições americanas eu que acarretaram o Brexit - e outras ações em países como Itália, Nigéria, Quênia, Gana e Argentina - um grupo de milionários com interesses próprios e um investimento de US$ 1 milhão por dia em propagandas de todos os tipos, cores e tamanhos, atacando adversários não apenas no Face, mas em outras redes como Instagram, WhatsApp e Youtube. Aliás, pasme: durante a campanha favorável a Trump foram mais de 5,9 milhões de anúncios - contra apenas 66 mil acenando a Hillary. Como forma de juntar as peças desse quebra-cabeças, os diretores Jehane Noujalm (do premiado The Square) e Karim Amer ouvem jornalistas, especialistas e ex-funcionários da CA, em especial Brittany Kaiser, que tem papel fundamental na condução do processo erguido pelo professor David Caroll, que pretende obter na justiça os seus dados de volta (é o ponto de partida da obra).



É um filme absurdamente bem construído e editado, com direito a efeitos especiais criativos, que nos deixa ligados o tempo inteiro e que nos permite refletir sobre como a tecnologia, uma ferramenta que surge para nos aproximar, nos conectar, pode estar sendo utilizada não apenas para nos afastar, mas para disseminar sentimentos como ódio, preconceito racial e xenofobia. E o pior, sem que eu e a vizinha da sua tia Célia saibamos. O que é muito grave! Ser bombardeado por promoções de tênis nas redes sociais quando você visita um site, interessado em uma compra, já é algo bizarro. Que porra é essa que esse algoritmo faz? Mas e ser bombardeado por ideias que alienam, que espalham notícias falsas, que promovem a intolerância? Não parece uma guerra fácil de "vencer". Os bilionários continuam existindo e, cada vez mais, interessados em um modelo de mundo que atenda os seus anseios. Resta a nós, aqui do outro lado, reivindicar os nossos dados como um direito só nosso. Ou, no mínimo, averiguar quando recebemos uma foto de um candidato a presidente com uma mamadeira de pênis na mão, antes de reenviá-la pelas redes.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Cine Baú - Kes (Kes)

De: Ken Loach. Com David Bradley, Colin Welland, Lynne Perrie e Freddie Fletcher. Drama, Irlanda do Norte / Grã-Bretanha, 1969, 110 minutos.

O cinema de forte cunho político, com ampla discussão de temas sociais - uma das marcas da filmografia do diretor Ken Loach -, talvez não fosse ainda tão presente quando ele lançou, há 50 anos, o comovente Kes (Kes). Ainda assim, as injustiças de um mundo nada acolhedor para aqueles que convivem com a vulnerabilidade, já podem ser percebidas na história do menino Casper (David Bradley), que encontra refúgio na "amizade" com um falcão, que ele resolve adestrar. Casper é pobre a ponto de ter de dividir uma pequena cama de solteiro com o Jud (Freddie Fletcher), seu irmão encrenqueiro. Com uma mãe não muito presente e uma escola punitivista, cheia de colegas violentos, praticantes de bullying, o jovem divide seu tempo entre o trabalho como entregador (sim, ele tem responsabilidades de adulto) e os momentos em que se encontra com a ave, com quem interage, treinando-a, dando comida e procurando alguma abstração da pesada realidade.

É uma obra bastante poética, bonita. Mas também dura, desoladora. Casper é provocado o tempo todo. Por ser pobre, por ser um aluno desligado, por ter uma mãe separada que, vejam só, resolveu ter um novo namorado. E quando encontra na vizinhança, em uma espécie de construção abandonada, o falcão de quem se aproxima curioso, tem de "brigar" para conseguir um livro de instruções que lhe ensine alguma coisa sobre como lidar com esse tipo de pássaro. E, nesse sentido, cada avanço obtido pelo menino é celebrado pelo espectador, que acompanha as bucólicas cenas em que a ave voa, em meio a natureza verdejante, mesmo em dias cinzentos, de frio calejante. A fotografia granulada, "setentista", contribui para que se estabeleça um caráter quase documental na película. Estamos ao lado desse menino que aparece praticamente o tempo todo em cena - entregando, diga-se, uma atuação apaixonante, que mistura inocência e astúcia em igual medida.


Ainda que seja um filme pesado do ponto de vista das injustiças sociais - estamos em uma Inglaterra industrial, com as camadas mais pobres encontrando trabalho em setores ligados à produção de carvão e outros minérios -, há espaço para uma leveza que é alcançada na descoberta juvenil do prazer proporcionado pelas pequenas coisas. Pelo reconhecimento das pequenas conquistas. A cena em que o jovem relata o processo de adestramento do falcão na sala de aula começa como uma pequena provocação até avançar para um tratado apaixonado sobre um hobby valioso. Só que Casper não sabe o que é um hobby - como podemos perceber na sequência em que ele, distraído, vai a uma entrevista de emprego. Ele está interessado apenas no falcão e na sua interação com ele. Um livro e um pássaro. O aprendizado num microcosmo, que acaba sendo muito maior do que na escola que não lhe acolhe ou na família distante.

Aliás na tentativa de mostrar um educador excessivamente exigente, Loach entrega uma cena absurdamente hilária: a de um professor (Brian Glover) que joga futebol com os alunos, mas não sabe perder. A sequência é tão divertida quanto patética, com o homem - na faixa de seus trinta e muitos anos - gritando com as crianças, correndo atrás delas aos berros, repetindo o pênalti que foi defendido pelo goleiro, instruindo de forma alvoroçada. Mas esse razoável alívio cômico - ainda que bem-vindo -, é só uma pequena ponta, quando percebemos que a realidade dura de Casper retorna de forma cruel para a sua vida, no último ato. Na metáfora da ave que nunca voou para longe, selando o seu destino, fica a reflexão para o próprio menino: em um mundo de poucas oportunidades para as famílias pobres, há que se aproveitar qualquer brecha que surja para um voo mais alto.