segunda-feira, 20 de maio de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Tatuagem

De: Hilton Lacerda. Com Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia e Ariclenes Barroso. Drama / Comédia, Brasil, 2013, 110 minutos.

Verdadeiro caldeirão artístico em que o teatro se mistura com música, a dança se funde com a literatura, resultando em uma manifestação cultural absolutamente simbólica, de grande riqueza poética e amplamente profunda em sua abordagem: dessa forma seria possível resumir, ao menos em partes, a importância de Tatuagem, do diretor Hilton Lacerda - certamente um dos mais valiosos filmes nacionais desse milênio. A impressão durante a apreciação do longa é a de estarmos mergulhados em um universo frequentemente festivo, anárquico, colorido, em que o vaudeville francês se mistura com o kitsch regionalista. Não há limites para a abordagem das artes na obra, que vai no limite do corpo e do sexo como representação política, para formar um panorama de resistência ante a uma ditadura que se avizinha de forma irreversível. Sim, é aquele filme que fará as "famílias de bem" regurgitarem, certamente.

A trama se passa em 1978, no Recife. De um lado, a trupe teatral Chão de Estrelas, coordenada por Clécio (Irandhir Santos), prepara um novo espetáculo em que o deboche e as cenas de nudez são utilizados com a intenção de incomodar, de quebrar paradigmas e de fugir do lugar comum. De outro lado, o jovem Fininha (Jesuíta Barbosa) está no exército, em um período em que a opressão dos militares era o padrão - estávamos nos Anos de Chumbo do Governo Geisel. Fininha é o cunhado da expansiva Paulete (Rodrigo Garcia), uma das estrelas do coletivo e acaba conhecendo este universo, no dia em que vai visitar a irmã da namorada para lhe entregar uma encomenda. Fininha é gay e a convivência com um grupo livre de preconceitos fará com ele se permita mais, iniciando um relacionamento com o próprio Clécio. Mas e como fica o dia a dia no exército? Como lidar com aquilo que está sentindo e, consequentemente, com o bullying (e a hipocrisia) dos colegas?


A gente sabe que, em algum momento, estes universos tão antagônicos poderão entrar em ebulição. Mas a riqueza de Tatuagem não está exatamente nesse arco dramático até certo ponto previsível - e que, não surpreende, dialoga com o nosso contexto político/social/cultural atual -, e, sim, em outros aspectos, como é o caso da abordagem do amor sem falso moralismo, de forma verdadeira e com grande respeito. Assistir as interações dos integrantes do Chão de Estrelas é estar diante de uma espécie de apresentação permanente de teatro em que a ficção sai da tela dando lugar a uma realidade festiva, tropicalista, humana. De pessoas que se querem bem independente de cor, de sexo, de altura ou de conta bancária. Não é que não haja problemas. Mas são problemas reais e maiores do que homens se relacionando com homens: há o medo da censura, o dinheiro que está minguado, as paixões que geram ciúmes, as preocupações com o futuro dos filhos. É o Brasil real, mas o Brasil que se diverte, que debocha das instituições, que é iconoclasta e livre para se expressar.

E há um grupo de atores claramente dedicado a entregar o melhor desse universo que, em alguns instantes chega quase a beira o delírio onírico - como quando das apresentações da infatigável Polca do Cu. Se por um lado, Barbosa aposta na sutileza como matéria-prima para trafegar em universos bastantes distintos (repare o quanto comunica o seu olhar, quando ele está pela primeira vez no Chão de Estrelas), por outro, Garcia chega a beirar o histrionismo, transformando Paulete na personagem de Almodóvar, que veio parar em um filme brasileiro. Irandhir equilibra tudo, sem afetação, sem caricatura, imprimindo grande profundidade a um personagem que, no fim das contas, precisa manter o foco para que nada desabe. As vezes pode parecer até meio bobo, ainda que nunca infantil: mas uma provocação dessa envergadura, que ainda coloca em cheque o comportamento truculento de regimes totalitários (que muitas vezes escondem jovens perturbados e que tem dificuldades em lidar com a própria sexualidade), não é pouco. O filme foi o 73º da história em uma votação feita recentemente pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Não é pouco.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

Na Espera - Divino Amor (Filme)

Desde que foi liberado o teaser de Divino Amor ele se tornou, para nós aqui do Picanha, o filme mais aguardado de 2019! Aliás, esqueça só por um momento o Tarantino ou o Scorsese - que geram expectativa com O Irlandês e Era Uma Vez Em... Hollywood - e preste atenção em Gabriel Mascaro que, com o ótimo Boi Neon, já tinha realizado uma das melhores películas nacionais desse milênio. Em seu novo filme, assistimos uma realidade distópica em um Brasil do ano de 2027. Um Brasil em que não mais existe o carnaval, entrando em seu lugar a "Festa do Amor Supremo" em que se espera a volta do Messias. E em que claramente o fanatismo religioso, o preconceito e a intolerância funcionarão como um verdadeiro espelho da nossa sociedade atual ficando a inevitável pergunta sobre o que queremos, de fato, para o futuro.


A trama, de acordo com o que foi divulgado, envolve uma devota religiosa que, no cartório, se trabalha para dificultar os divórcios, enquanto espera algum tipo de sinal divino de reconhecimento aos seus esforços. Só que o seu casamento entrará em crise e como fica esse contexto perante Deus? Só que o trailer, num estilo kitsch-modernoso, nos dá conta de algo muito maior, mais iconoclasta, mais contestador e com uma nada velada crítica aos absurdos vividos no governo Bolsonaro - ou em governos conservadores como um todo. Mascaro parece tentar adivinhar o futuro, olhando para aquilo que acontece agora. E o resultado, sinceramente, é de arrepiar. Não sou de fazer isso nos posts aqui do Na Espera, mas, chega logo 15 de agosto. Precisamos assistir a esse filme!

Cinema - O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation Of cameron Post)

Com Chloë Grace Moretz, Emily Skeggs, Forrest Goodluck, Jennifer Ehle e John Gallagher Jr. Drama / Romance, EUA, 2018, 90 minutos.

Pela temática bastante parecida, O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation Of Cameron Post) poderia muito bem ser exibido como uma sessão complementar de Boy Erased: Uma Verdade Anulada. E, numa boa: em um mundo com tantos retrocessos - com um avanço universal e inexplicável de uma extrema-direita odiosa, que tem dificuldade de conviver com aquilo que é diferente ou que foge do padrão -, mais serão bem-vindas obras que façam pensar, refletir, mesmo que com assuntos semelhantes. Pra falar a verdade, os temas nunca se esgotam sendo importante reforçá-los, afinal de contas, sempre haverá outras nuances e outras possibilidades de abordagens. Os filmes podem até não ser inesquecíveis ou grandiosos. Mas muitas vezes serão reflexo de seu tempo. É é justamente o caso dessa pequena e sensível película, que foi exibida no último Festival de Sundance.

Na trama, que se passa em 1993, a Cameron Post (Chloë Grace Moretz) do título original é uma jovem gay, que é flagrada pelo candidato a namorado, transando com a melhor amiga dentro de um carro de um estacionamento, em plena noite de formatura. Cameron perdeu os pais quando era mais nova, mas ainda assim é enviada pela devota tia a uma espécie de centro religioso que promete restaurá-la sexualmente - sim, as famosas clínicas para a cura gay que, pasmem, ainda existem nos Estados Unidos. No local ela terá contato com todos os clichês metodológicos que prometem uma vida próxima de Deus, longe do pecado e adequada as famílias de bem. Em meio a jogos lúdicos e canções sacras, a busca por compreender a si própria, tentando entender onde ocorreu o "desvio" que lhe fez preferir mulheres ao invés de homens. Corridas? Uma excessiva aproximação com o pai? A metáfora do iceberg - que esconde muito mais por baixo das águas - será o guia para aquilo que, já sabemos, não dará certo.


Só que diferentemente do que ocorre com Boy Erased, Cameron realmente tem dúvidas a respeito de sua condição. Se sente inadequada - "com nojo de si mesma", com ela diz. Por mais que em uma escapadela ela transe com uma colega de reformatório e se aproxime dos amigos Erin (Emily Skeggs) e Adam (Forest Goodluck) - com quem fuma maconha escondida e pratica outras "subversões", como ouvir músicas de bandas como 4 Non Blondes e The Breeders -, a jovem convive em um universo de incertezas. Ela poderia efetivamente se curar, assim como ocorreu com o reverendo Rick (John Gallagher Jr.)? Será nessas idas e vindas, sem o apoio dos pais - que aparentemente teriam um pensamento mais progressista - que Cameron procurará lidar com seus próprios medos, anseios e dúvidas. A juventude já não é um período fácil. Pra quem acha que está doente por amar/gostar/ter desejo por pessoas do mesmo sexo, certamente será pior.

Nesse sentido, a obra funciona como uma grande coleção de pequenos recortes, feitos com alguns silêncios e um clima "pastoril" em que momentos mais leves se alternam com outros mais pesados. A luta contra o pecado ou contra a "confusão de gêneros" se apoia em comparativos curiosos, com o no momento em que a doutora Lydia (Jennifer Ehle) pergunta aos alunos se eles permitiram uma passeata de drogados. Todos parecem empenhados em trazer o assunto à tona, mas sem ofender, sem aprofundar o debate o que, inevitavelmente, Boy Erased faz com mais qualidade. Dá pra soar mais panfletário sem pesar a mão ou sem ser excessivamente maniqueísta e, nesse sentido, parece faltar ainda um pouquinho de engajamento à essa película. Ainda assim o propósito é válido e quanto mais filmes sobre assuntos que confrontam, que tiram do lugar comum e quebram a hegemonia do status quo, melhor.

Nota: 7,5




terça-feira, 14 de maio de 2019

Disco da Semana - Tiago Iorc (Reconstrução)

Pessoal, vamos deixar uma coisa combinada quando o assunto foi o Tiago Iorc: nem oito nem oitenta. Nem tanto ao céu nem tanto ao inferno. Nem o "novo Belchior" como chegou a ser sugerido - muito mais por conta de seu sumiço antes de ressurgir com um novo álbum, do que pelos seus dotes artísticos -, nem um compositor meia boca que não lança nada que presta. Acho que é possível um meio termo. Mas um meio termo que olhe com carinho para o artista que, com Reconstrução lança, disparadamente, o seu melhor trabalho. Trata-se de um registro maduro, mas nem por isso quadrado. Que flerta com os mais variados estilos - indo da eletrônica, ao indie, passando pelo samba com escala na MPB - mas de uma forma dinâmica, coesa, heterogênea. A cada canção que se descortina uma nova possibilidade para o ouvinte, um caminho diferente em um álbum que, vamos combinar, cresce a cada audição.

O mistério sobre o lançamento bom, esse pelo visto continuará sendo um mistério. Fora os sites de fofocas que falam sobre mensagens enviadas por Bruna Marquezine ao cantor na noite de lançamento do registro, poucas informações. O ano sabático, de acordo com matéria do Globo teria começado ainda lá em janeiro de 2018. Uma troca de gravadora, a saída das redes sociais, uma ou outra aparição pública tornaram Iorc uma figura quase excêntrica, aumentando o culto dos fãs que, desde sucessos como Amei Te Ver e Coisa Linda, o perseguiam como se este fosse algum tipo de divindade religiosa. Só que trabalhando assim, meio mocozeado - como se diz aqui nos pampas - o artista pôde entregar um trabalho totalmente novo, todo de uma vez, com videoclipes para todas as canções. Se a estratégia de marketing funcionou? Bom, as treze canções do disco entraram TODAS DE UMA VEZ, no Top 50 do Spotify Brasil. Não é pouco.



Aliás, uma audição do trabalho permite perceber que este é, literalmente, um álbum de reconstrução. De ruptura. De algo que fica para trás e que representa, a partir de agora, um recomeço. E isso fica ainda mais claro quase no final do disco, quando na 12ª canção - a inacreditavelmente linda Bilhetes - o astro canta repetidamente, como se fosse um mantra "tudo vai recomeçar" - não sem antes falar, metaforicamente, em chuvas que passam e erros que servem de aprendizado. O expediente da renovação surge em outras músicas como em Laços (Gota de lágrima, trovão que vem do mar / Revolução e a chance pra recomeçar / Quero a sorte / De reaprender / Essa vida) ou na sinuosa A Vida Nunca Cansa (Quero viver, quero mudar, motivo não há / E lá fora o mundo volta a girar / Se é só o tempo, então releva / Já não há nada que possa evitar).

Livre das amarras de gravadoras ou de outros produtores, Iorc pôde também experimentar no que diz respeito à sonoridade. Se Faz, com sua letra sexy, mais parece um encontro do Muse com o St. Vincent, Nessa Paz Eu Vou é a música que o Armandinho adoraria ter feito na última década. A candidata a hit Hoje Lembrei do Teu Amor tem refrão tão grudento e pop, que mais parece uma canção do Troco Likes perdida nesse trabalho. Já Fuzuê é o artista tentando fazer uma espécie de samba rock com letrinha sapeca, batida rápida, urbana, urgente. Há ainda outros momentos sublimes, em que os temas preferidos do compositor - romances urbanos, existencialismo em meio ao caos da modernidade e reflexões cotidianas sobre paixão e sexo - reaparecem com força, equilibrando caos e lucidez, desordem e clareza em igual medida, é o caso de Tangerina e Tua Caramassa. É um disco muito legal. Acima da média. E que reposiciona Iorc como um dos grandes nomes de sua geração.

Nota: 8,0


segunda-feira, 13 de maio de 2019

Pérolas da Netflix - Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls)

De: J.A. Bayona. Com Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson e Geraldine Chaplin. Drama / Fantasia, EUA / Espanha / Reino Unido, 2016, 108 minutos.

Que agradável surpresa esse Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls). Aquele tipo de filme "pequeno", que a gente não dá muito, mas que se revela uma experiência cinematográfica revigorante que, de quebra, ainda conta com uma série de mensagens edificantes, apresentadas sem um pingo de pieguice. Na trama, o jovem Conor (Lewis MacDougall) precisa lidar com um terrível fato: a sua jovem mãe sofre de um câncer terminal. E como desgraça pouca é bobagem, ainda há um pai ausente, uma avó um tanto linha dura e os colegas de aula que lhe incomodam. Impactado por uma vida real que é um saco, Conor tem o mesmo sonho todas as noites. Nele, aparece uma árvore gigante disposta a lhe contar histórias se, em troca, o garoto lhe contar a sua história. Na curiosa interação poderá estar a chave para solucionar o recorrente pesadelo que o menino tem: o de ver a sua mãe morrendo, em meio a uma fantasiosa tempestade.

Bom, não será preciso ser nenhum gênio para compreender que os sonhos de Conor nada mais serão do que a manifestação do seu inconsciente em um processo de readaptação da vida real - o que inclui aí as histórias contadas pela árvore (que tem a voz do Liam Neeson). Em cada narrativa, uma reviravolta, uma surpresa. E a descoberta de que nem tudo é o que parece, o tempo todo. E que os sentimentos que temos por aqueles que amamos, podem se alterar de acordo com as variáveis. Ver um parente sofrendo por causa de uma grave enfermidade, se preparar para o inevitável processo de luto, superar a tristeza que parece ser o fundo do poço... em cada uma das histórias da árvore, com reis, rainhas, exércitos que derramam sangue, bispos e feiticeiros, as metáforas inadiáveis para tudo aquilo que Conor precisará passar. E que o fortalecerá, ao final.


E, nesse sentido, um filme que fala de morte, de dor e de luto de uma forma tão adulta e inteligente merece todos os elogios do mundo. Ainda que o protagonista seja um menino de 12 anos, não há nada de infantiloide na abordagem e mesmo os desenhos que representam os coloridos contos da árvore - completamente sinuosos, eventualmente surrealistas, com traços e cores fortes, amparados por uma trilha sonora evocativa - são trazidos de forma orgânica, guarnecidos pela voz de barítono de Neeson. É tudo muito bonito. Eventualmente lúdico. Mas cheio de significados, em meio a simplicidade e a completa ausência de maniqueísmo. O que faz com que a gente compreenda as motivações de praticamente todas as pessoas que vemos na tela - bem como seus anseios, angústias e tristezas.

Com um elenco que ainda conta com Sigourney Weaver, como a avó que mostra os lados megera e carinhosa em igual medida, e Felicity Jones, como a mãe, J. A. Bayona mantém a boa média - depois de bons filmes como O Orfanato (2007) e O Impossível (2012). Aliás, após um suspense e um filme-catástrofe, a aposta na fantasia é um verdadeiro atestado da versatilidade do espanhol, que não se furta em utilizar uma série de rimas visuais como forma de evidenciar os seus propósitos - como é o caso, por exemplo, da sequência em que Conor "destroi" parte da casa de sua avó (o que inclui um relógio), como a representação de um ponto de ruptura, de quebra, para a necessidade de se deixar algo para trás, aceitando o que está por vir. É cinema de "gente grande" travestido de obra que brilha na Sessão da Tarde. Os cinéfilos agradecem.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Alien: O Oitavo Passageiro (Alien)

Cena: adivinhe quem vem para jantar...

Um dos grandes filmes de ficção científica / suspense da história, Alien: O Oitavo Passageiro (Alien) possui, a meu ver, a mais surpreendentemente aterradora sequência de todos os tempos no cinema. Sem exagero! Esqueça baboseiras como Atividade Paranormal e outros derivados que apostam em sustinhos jumpscares - aquela cena da bigorna caindo ou do gato que surge do nada. Aqui temos a construção de uma atmosfera que envolve todo o filme e que culminará na famosa cena do jantar em que, com quase uma hora de filme, a tripulação da Nostromo passa a ter uma ideia REAL do perigo que estão passando. A sequência é primorosa por subverter completamente a lógica e apostar no inesperado como matéria-prima. Ao menos foi assim que me senti a primeira vez que assisti a essa obra-prima do Ridley Scott - em seu segundo filme - sem saber o que iria ocorrer!

Para quem não lembra da cena, a equipe da Nostromo está retornando para casa após uma missão de coleta de material especial, quando recebe algum tipo de comunicação vinda pelo receptor da nave. Após um pouso meio arriscado no planeta de onde parte o sinal, parte da equipe é surpreendida com a existência de um ninho com ovos de que parece ser de uma espécie alienígena. É neste momento que Kane (John Hurt) é atacado no rosto por uma espécie alienígena que se gruda nele. Em coma após o ataque e, ainda com o "bichano" no rosto, Kane é levado de volta para a nave. Após algum tempo o ser se desgruda, morre e Kane volta a vida, com muita sede e com muita fome. Todos estão animados no jantar, rindo e fazendo projeções para o futuro - e acho que para mim é isso que pega nessa sequência em que Kane passará mal, revelando o fato de que, na verdade, estava gestando em seu corpo um ser de outro planeta.



A sequência é absurdamente sangrenta, dolorida, comovente. Sem reação, os companheiros assistem Kane definhar com o ser que salta de seu peito, praticamente estraçalhando seu corpo já fragilizado. O alienígena foge para o seu canto e, bom, todos sabem o quão tensa será aquela hora final, em que Ripley (Sigourney Weaver) e companhia precisam lidar com esse "probleminha". Bom, é preciso que se diga aqui o óbvio: o filme não se resume somente a essa cena. E se ela funciona tão bem é porque há toda uma construção de clima por trás. O desenho de produção, por exemplo, é arrebatador, tornando a nave um espaço claustrofóbico em que a textura de suas engenhocas chega a se misturar com a própria figura do vilão. Já a edição de som, com o uso do som diegético, com correntes, água que pinga e outros barulhos, também contribui para a formação de uma atmosfera de tensão permanente. Enfim, a gente sabe que algo de ruim está para acontecer a qualquer momento. Valendo o mesmo para a cena do jantar em que todos alegres, confiantes no retorno para casa, percebem que a viagem será (ainda) mais longa do que imaginavam. De arrepiar!


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Disco da Semana - O Terno (atrás/além)

Tenho de confessar uma coisa a vocês: não pude esconder uma certa surpresa nas primeiras audições do novo disco d'O Terno, afinal, onde estava aquela banda descaradamente juvenil dos trabalhos anteriores? Onde teria ido parar aquele coletivo que desavergonhadamente misturava Jovem Guarda, eletrônica, samba e música alternativa nos mesmos registros? Sim, tive dificuldade em aceitar que, em seu quarto trabalho, Tim Bernardes, Gabriel Basile (bateria) e Guilherme d'Almeida (baixo) amadureceram. Cresceram. Já não são mais aqueles guris que pareciam debochar do MUNDO em digressões divertidas como Zé, Assassino Compulsivo, Bote Ao Contrário ou até Culpa - pra citar canções que se espalham pelos três discos anteriores. E quando finalmente eu entendi isso, bom, eu consegui apreciar com um pouco mais de calma esse novo (atrás/além), percebendo que é um disco tão (ou até mais) relevante, que os anteriores.

A verdade é que, vamos combinar, não tá tendo muita graça o tal do Brasil. Tá meio difícil até de se divertir descompromissadamente ou de rir de qualquer situação que não seja de nós mesmos e da nossa existência patética nesses anos de Bolsonaro, de cortes em todas as áreas e de predileção pelo ódio, pelo preconceito e pela intolerância. E, nesse cenário, é muito provável que O Terno não visse mais sentido em fazer música mais engraçadinha - ainda que, paradoxalmente, esse tipo de material possa servir para que nos sejam amenizadas as dores da vida. Do mundo. "É a conclusão de um grande ciclo, o fim de uma juventude", relatou Bernardes, em entrevista ao jornal O Globo. A saída da casa dos pais, o fim de um relacionamento, as responsabilidades da vida adulta, também parecem ter pesado nesse processo. "É um disco de desapego do que passou e de um salto para o que pode vir", salientou em outra entrevista, esta para o Correio Braziliense.



E junto com este amadurecimento - que claramente tem início no trabalho solo de Bernardes, o delicado Recomeçar (2017) - há também a proposta de trabalhar o álbum com um conceito bem definido, de idas e vindas, de folhas a serem preenchidas e de ideias que devem ser maturadas e que flanam de forma natural, quase orgânica, em cada melodia minuciosamente arranjada pelo coletivo. Há uma riqueza de detalhes que parece flutuar em meio a justaposição dos versos claramente existencialistas e na disposição instrumental limpa e sutil, que nos fazem compreender esse outro (e novo) momento, absorvendo-o com mais calma - como se o disco clamasse por um pouco menos de pressa, ou de urgência. "(O álbum) é sobre essas vontades contrastantes do jovem que hoje quer tudo e que, de alguma forma pode tudo, mas está meio saturado. Sabe aquele cardápio da Netflix que você fica duas horas para escolher alguma coisa, mas não quer começar um filme de uma hora e meia porque é muito longo? É isso. A música é sobre esse cabo de guerra interno", compara Bernardes na mesma entrevista a O Globo.

Talvez não seja por acaso que já na abertura, com Tudo Que Eu Não Fiz, o compositor lembre a todos de que "Eu não sou mais criança, eu não sou mais adolescente / Eu quero me sentir exatamente onde eu estou". O expediente do ponto de "ruptura" que celebra um fim e um reinício repete-se em outras canções, como no caso do grudento single Pegando Leve: Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim / Recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu / Quero me encontrar, mas quero deixar fugir. Todo esse clima de nostalgia do que não foi, da imaturidade em contraposição a vida adulta, de descansar, mas sair, de trabalhar e se divertir, surgem como minuciosos antagonismos que reforçam as ideias espalhadas pelo registro. No meio do caminho, músicas que exalam otimismo (Eu Vou), saudade (Atrás/Além), amor idealizado (Pra Sempre Será) e aflições do mundo moderno (a ótima Volta E Meia, em parceria com Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto). Minucioso e agridoce do primeiro ao último instante, o registro percorre cada uma de suas esquinas sem medo de encarar a vida adulta, de fazer a crítica à geração millenial e de simplesmente se modernizar em relação ao material anteriormente apresentado. Um dos discos do ano.

Nota: 8,5



terça-feira, 7 de maio de 2019

Curta Um Curta - O Duplo

Diretora dos ótimos Trabalhar Cansa (2011) e As Boas Maneiras (2017) - ambos em parceria com Marco Dutra -, Juliana Rojas realiza, com o curta-metragem O Duplo (2012), um dos melhores filmes de sua carreira. A obra toma emprestada a lenda alemã do Doppelgänger, que seria um monstro ou ser fantástico que tem a capacidade de se tornar idêntico a alguém que ele passa a acompanhar. Mas esse idêntico é como se fosse um negativo, capaz de fazer coisas cruéis que as pessoas copiadas não fariam naturalmente. A trama se passa em 1845 e envolve uma professora que acredita ter enxergado o seu duplo, o que envolverá seríssimas consequências. O clima é absurdamente sinistro e os sustos são dignos dos melhores filmes de suspense - com direito a final chocante! A obra, premiadíssima no exterior, é o 37º melhor curta-metragem nacional da história, de acordo com eleição feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e vale cada segundo!

Picanha.doc - Cabra Marcado Para Morrer

De: Eduardo Coutinho. Documentário / Drama, Brasil, 1984, 119 minutos.

Em certa altura de Cabra Marcado Para Morrer uma notícia de jornal dá conta da apreensão, por parte do exército brasileiro, de latas de filme, tripés, refletores e megafone que estavam sendo utilizados na filmagem de um documentário. "Foi talvez na Galileia (no interior do Pernambuco) que foram recolhidos materiais valiosos do maior foco de subversão comunista" garantia a chamada da matéria. "O maior foco de subversão comunista" em questão era na verdade o documentarista Eduardo Coutinho, seu cinegrafista e um fotógrafo que estavam no Nordeste para gravar um filme sobre a vida de João Pedro Teixeira, um líder camponês da Paraíba que foi assassinado em 1962 por ter cometido a maior das insubordinações: ser um dos fundadores da Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco. Conhecida por "Liga", a entidade funcionava como uma espécie de Sindicato que reivindicava melhores condições de trabalho para os camponeses que trabalhavam em engenhos, combatendo ainda os abusos dos administradores dos latifúndios da região.

Era, portanto, uma figura que lutava por direitos. E que, consequentemente, era mal vista pelos militares que, à época, articulavam o Golpe Militar que eclodiria em 1º de abril de 1964. Coutinho pretendia "recriar" a história de Teixeira usando um outro ator em seu lugar e contando com a participação da verdadeira família do falecido líder - estando entre eles a viúva Elizabeth Teixeira -, além de amigos, vizinhos e outros conhecidos. Só que o documentarista conseguiu filmar apenas 40% da obra, que foi fortemente censurada nos conhecidos Anos de Chumbo. Manifestações artísticas ou culturais ou mesmo que valorizem algum outro tipo de educação - no caso, mais libertadora, pra citar Paulo Freire - normalmente não são bem vistas por um coletivo de reacionários toscos que iniciaria um intenso combate a uma "ameaça comunista imaginária" durante o Regime. Por lutar por direitos dos trabalhadores, aconteceu o óbvio: Teixeira foi acusado de comunista, de ter ligações com Cuba e com guerrilhas sulamericanas, tendo sido morto por milicianos comandados pelos senhores das terras.



Tudo isso está lá no documentário que, para falar a verdade, é construído de uma forma soberba, o que o transforma no melhor filme do estilo na história - de acordo com votação realizada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Com inacreditável perseverança, Coutinho retorna em 1981, após o começo da abertura política, a cidade de Sapé na Paraíba (onde iniciam as primeiras atividades das Ligas) e também ao Engenho da Galileia para retomar o filme de onde parou. No reencontro com os moradores, a mágica ocorre: ao se verem na tela dezessete anos atrás, aqueles atores "improvisados" se comovem, sorriem e se emocionam em um exercício metalinguístico que transforma Cabra Marcado Para Morrer não apenas em um documentário de "denúncia social", mas também em uma obra absurdamente comovente a respeito do poder transformador da arte e das múltiplas possibilidades alcançadas pelo cinema.

O diretor vai atrás das locações, de moradores que participaram das filmagens anos atrás e descobre que alguns já estão mortos e que mesmo o cenário pode ter se modificado com o tempo. Desaparecida por ter sido perseguida durante a Ditadura, Elizabeth agora está "exilada" no Rio Grande do Norte e pouco sabe do paradeiro dos mais de oito filhos que deixou para trás, com o objetivo de tentar sobreviver. Será na busca por cada uma dessas figuras, na escuta paciente, amparada por uma câmera semidocumental, que Coutinho irá no limite do "filme-reportagem", resgatando ele também a sua própria história, suas memórias, seus arquivos e a lembrança de anos que desejaríamos nunca mais precisar reencontrar.


A obra é uma joia que equilibra momentos mais melancólicos - como no terço final em que cada um dos filhos é reencontrado por Coutinho, com as memórias do passado evocando as mais variadas emoções - com outros de um inacreditável humor involuntário (como na sequência em que uma figura próxima de Teixeira relata ter sido questionado sobre a existência de "20 mil fuzis cubanos" nas matas nordestinas, em meio à Ditadura). É o filme raiz, seco, árido, nem sempre fácil, mas invariavelmente atual. E, mais incrível: também capaz de mostrar a força da articulação juvenil já que o filme foi patrocinado, inicialmente, pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). Hoje em dia sabemos: a Ditadura perseguiu, torturou e matou centenas de pessoas naqueles anos. Teixeira foi um deles, assim como outros de sua época (como mostra o filme). Tudo o que queriam? Mais justiça social e um melhor olhar para pessoas à margem da sociedade ou em vulnerabilidade social. Que isso suscite tanto ódio, tanta repulsa, tanta ojeriza, é algo que, para este blogueiro e jornalista, segue sendo um mistério. E que dificilmente será solucionado tão logo.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Cinema - Tudo O Que Tivemos (What They Had)

De: Elizabeth Chomko. Com Hillary Swank, Michael Shannon, Blythe Danner e Robert Forster. Drama, EUA, 2018, 101 minutos.

Lidar com familiares que convivem com transtornos degenerativos como o Mal de Alzheimer não é tarefa fácil e o cinema já tratou do tema por meio de obras igualmente sensíveis e dilacerantes como Longe Dela (2006) e Para Sempre Alice (2014), entre outras. O assunto volta à tona neste razoável Tudo O Que Tivemos (What They Had), da diretora Elizabeth Chomko. O filme começa com a idosa Ruth (Blythe Danner) acordando e saindo para caminhar em meio a madrugada, durante uma tempestade de neve - mais adiante saberemos que a sua intenção era pegar o trem para visitar a sua "mãe". A apreensão pelo resgate de Ruth mobiliza toda a família: do marido ranzinza (e amoroso) Burt (Robert Forster), aos filhos Bitty (Hillary Swank) e Nicky (Michael Shannon). Uma vez encontrada, um novo impasse: qual deveria ser o destino de Ruth? Continuar em casa? Ir para um lar de idosos onde possa receber um melhor tratamento ou mais atenção?

A obra gira em torno da diferença de pensamento entre os familiares que rodeiam Ruth. Burt, que conviveu com a esposa por décadas não admite simplesmente "largá-la" em uma casa geriátrica, por mais que ela esteja, aos poucos, esquecendo tudo. "É a minha garota", argumenta. O mau humorado Nicky acredita que o melhor caminho é investir na realocação da mãe - e claramente ele teme que episódios como o sumiço em meio a uma tempestade de neve possam voltar a acontecer. Entre seus argumentos, o fato de que sequer lhes reconhece - "ela me cantou, enquanto estávamos no carro", explica ao pai. Já Bridget, que não mora na mesma cidade dos demais familiares fica no meio de todos. Além de ter de lidar com a difícil filha Emma (Taissa Farmiga), que lhe acompanha na viagem, ainda tenta aconselhar os demais sobre o que fazer com suas vidas - ainda que a sua própria seja pura desorganização.



Em meio a todos Ruth é pura doçura e deboche, como se fosse uma jovem em corpo de velho (e provavelmente ela se reconhece assim). Ironicamente tem consciência de seu estado - como no caso do comovente instante em que confunde um grampeador com o telefone - se esforçando a todo momento para estar presente, a sua maneira. Só que, metaforicamente, quem parece perdido são os demais. Como organizar o futuro de um ente querido se a gente mal sabe o que será da nossa vida? Bitty está insatisfeita com o seu relacionamento, sem saber se "caga ou desocupa a moita", fora a completa inexistência de diálogo com a filha. Nicky está perto dos 50 anos e dorme no depósito de bar que ele mantém a muito custo, com dificuldade de lidar com impostos, aluguel e outras exigências. Ambos precisam - ou ao menos acham que precisam - tomar decisões sobre a vida dos pais. Mas e as suas? Em meio a isso tudo há um pai autoritário e religioso que não admite essas drásticas mudanças que os filhos pretendem.

Filmes assim mais intimistas geralmente tem a sua força no roteiro, nos diálogos e, especialmente, na composição dos personagens, com suas personalidades e comportamentos. Mas infelizmente é nessa parte que a obra peca. Há pouca profundidade no desenho de cada uma das figuras que vemos em tela, o que torna até difícil para o espectador torcer por este ou aquele desfecho. Burt decididamente quer a companheira a seu lado, mas eles eram felizes no casamento? O velho claramente é uma figura conservadora, daqueles que preza a família, mas lá pelas tantas alguém revela que Ruth era, vejam só... uma feminista? Mas se eles eram tão diferentes, como o casamento teria dado certo por tantos anos? Só pelo compromisso? Além disso, o clima bélico entre os irmãos nunca tem a sua motivação evidentemente esclarecida - ainda que as farpas que ambos trocam, repletas de um trocismo gostoso, debochado, seja um dos valores da película.


No fim das contas é um filme correto, que mescla humor, ternura e drama em igual medida, mas que dificilmente será inesquecível. O elenco abraça a "causa" com ternura, especialmente Forster, que poderia tornar o seu Burt uma figura intragável se pesasse demais a mão. E há ainda um arco dramático em que não há certo e errado: haveria motivações de ambos os lados e todas corretas sobre a decisão de manter Ruth em casa, ou conduzi-la a um espaço para um melhor tratamento. Mas isso no fim é o de menos: muitas vezes o que os parentes precisam é de uma boa sessão de lavação de roupa suja para que os seus demônios sejam definitivamente extirpados. E para que suas confusões interiores possam ser definitivamente confrontadas. Ruth não pode lutar contra a severidade de uma doença tão agressiva. Os demais ainda terão tempo. E é essa a lição.

Nota: 7,0

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Cine Baú - Laura (Laura)

De: Otto Preminger. Com Gene Tierney, Dana Andrews, Vincent Price e Clifton Webb. Suspense / Romance, EUA, 1944, 88 minutos.

Melodrama noir ou suspense romântico, Laura (Laura), do diretor Otto Preminger, é um dos mais surpreendentes filmes de investigação policial da história. Cheio de reviravoltas, de diálogos irônicos e de personagens de caráter duvidoso, a obra lançada 75 anos atrás ainda exala algum frescor - por mais batida que essa fórmula seja, hoje em dia - ao deixar o espectador com a pulga atrás da orelha a respeito do que terá de fato acontecido, na noite em que a protagonista é assassinada. Na trama acompanhamos todos os passos do detetive Mark McPherson (Dana Andrews), que interroga suspeitos, como o colunista de jornal Waldo Lydecker (Clifton Webb), que utilizou a sua influência nos meios de comunicação para funcionar como uma espécie de padrinho/mentor da publicitária Laura Hunt (vivida com graça e vivacidade por Gene Tierney).

Mas Waldo não é o único suspeito. Outras figuras, como o noivo de Laura, Shelby Carpenter (Vincent Price) - espécie de gigolô, que vide de rendas -, além da tia de Laura, Ann (Judith Anderson), mulher de muitas posses que está apaixonada por Carpenter, estão na mira do detetive. Mark vai de casa em casa, alternando hipóteses, fazendo conjecturas e tentando tirar a limpo a história que resultou na cruel morte de Laura, com um tiro no rosto. O tempo todo este ou aquele suspeito ganham força, o que é um dos charmes (e uma das diversões) da película. A gente pode até tentar adivinhar, mas a única certeza que temos é que o assassino parece ter sido motivado pela passionalidade. "O amor é mais forte que a vida. E vai além das escuras sombras da morte. As lágrimas e os risos não são duradouros. Tampouco o amor, o desejo e o ódio" divaga Waldo, a certa altura.


Aliás, Waldo, com suas tiradas irresistíveis e senso de humor meio "truncado" é um dos destaques da trama. Ele parece sempre pronto a provocar, a dizer alguma gracinha ou mudar o rumo da história, com algum comentário cheio de ambiguidades ou com algum sentido metafórico. Mas ele mesmo admite, já no começo do filme: era ele quem conhecia Laura melhor. "Se você sabe algo sobre rostos, olhe para o meu. Não pareço singularmente inocente nesta manhã?" provoca, em uma das primeiras conservas com Mark. Waldo no fim das contas é o responsável direto por tornar Laura famosa e reconhecida na área de design. Mas aos poucos transforma a vida da jovem em um inferno, já que se considera como se fosse "proprietário" dela. Especialmente no que diz respeito a eventuais futuros pretendes, sendo muitos deles descartados pelo caminho, com seus textos ferinos servindo de matéria-prima para a destruição de reputações.

Com fotografia espetacular - Joseph LaShelle recebeu o Oscar pelo trabalho -, o filme ainda utiliza o contraste entre o preto e o branco, o jogo de sombras, os reflexos nos espelhos e outras trucagens com o intuito de aumentar a sensação de sufocamento, quase de vertigem. Nesse sentido, vale observar o brilho no quadro em que Laura aparece, como se fosse uma espécie de emanação a observar a todos. Ou mesmo a persistência de Mark em utilizar um brinquedo que emula uma bola de beisebol sendo rebatida com precisão. A obra é cheia desses detalhes e ainda se vale do ótimo elenco para transformar essa história de amor - no fim das contas até Mark parece se apaixonar pelo "fantasma" da falecida, conforme avançam as investigações -, em uma das grandes obras do cinema noir dos anos 40. Lançado no mesmo ano de Pacto de Sangue - outro clássico do cinema noir - essa obra pequena pavimentou o caminho para um ainda estreante Otto Preminger que, mais tarde, brindaria o público com outras obras-primas, como, Alma em Pânico (1952) e Anatomia de Um Crime (1959).

terça-feira, 30 de abril de 2019

Lançamento de Videoclipe - Filipe Catto (Eu Não Quero Mais)

Certamente não foi por acaso que o gaúcho Filipe Catto lançou o provocativo videoclipe de Eu Não Quero Mais na última Sexta-Feira Santa. No vídeo, dirigido pelo Ismael Caneppele, o artista subverte a Santa Ceia, transformando-a em uma espécie de festividade LGBTQ+, que funciona como grito contra o conservadorismo e os retrocessos amplificados desde o resultado das últimas eleições. "Jesus esteve ao nosso lado o tempo todo. Lavou nossos pés, penteou nossos cabelos, comeu e bebeu com os nossos. Como poderia me odiar só por eu ser quem eu era? Ele era um de nós, um renegado que não frequentava palácios ou reuniões a portas fechadas. Brigava por emancipação espiritual, filosófica e, portanto, política. Um herói. [...] Era o diferente e por isso foi censurado, torturado, condenado e executado pelo Estado romano.", descreve Catto no material de apresentação do clipe. É a fé na arte, no corpo, na identidade e no direito de ir e vir de forma justa, amorosa e generosa - como pregava Cristo - resumida em cinco minutos de puro deleite. Ah, e no clipe ainda há a participação mais do que especial da nossa querida amiga Jan Koch. Bora clicar!

Grandes Filmes Nacionais - Os Famosos E Os Duendes da Morte

De: Esmir Filho. Com Henrique Larré, Tuane Eggers, Ismael Caneppele e Samuel Reginatto. Drama, França / Brasil, 2009, 101 minutos.

Poucas vezes o sentimento de não pertencimento a um determinado lugar foi tão bem retratado como no poético Os Famosos E Os Duendes da Morte, do diretor Esmir Filho. Baseado no livro homônimo de Ismael Caneppele - que também atua - o filme é absurdamente sensorial, funcionando como uma espécie de permanente devaneio de um jovem que deseja sair da pequena cidade de colonização alemã em que mora, no interior do Rio Grande do Sul, para "descobrir" o mundo (o que é simbolizado pela vontade de ir a um show do Bob Dylan). Nesse sentido, a obra faz um afago na juventude que vê a internet como uma espécie de janela para o universo: é nela que se navega e que se foge de um ambiente que parece meio parado no tempo e em que só o que se escuta é o canto dos grilos em meio à noite gelada e as notícias sobre falecimentos, que são destacadas em uma emissora de rádio local.

Aliás, para quem nasceu em uma cidade do interior gaúcho, meu caso, é simplesmente impossível não se identificar com aquilo que se vê. No contraste entre o convite dos avós para uma visita para comer uma galinhada e a casa de madeira pintada em um azul claro pouco definido, um outro lado em que a música, as artes e as redes sociais como Flickr e MSN quebram a barreira geográfica, encurtando distâncias, aproximando pessoas que não se conhecem pessoalmente - e que provavelmente desejariam muito se conhecer. Quem não passou alguma vez por isso morando em Lajeado, Estrela ou, mais ainda, Arroio do Meio, Muçum, Roca Sales ou outra, que atire a primeira pedra. A bergamota pode até ser a fruta oficial do inverno, mas e a vontade de consumir outras variedades? E como se alcança isso, sendo de uma família humilde, com condições modestas, morando em uma gélida cidade dos pampas?


O mundo é muito grande e o protagonista - que nas redes sociais se autointitula Mr. Tambourine Man (Henrique Larré) - mergulha nele postando divagações filosóficas em seu blogue e interagindo com outras pessoas, como a misteriosa Jingle Jangle (Tuane Eggers). Em uma verdadeira coleção de pequenos fragmentos, o filme vai no limite do fantástico para mostrar as interações entre ambos com o misterioso Julian (Caneppele). O clima é onírico e, em muitos casos, a impressão que dá é a de estarmos diante de um sonho - ou de uma espécie de fuga da realidade. Jingle Jangle e Julian aparecem nos campos gaúchos que margeiam a comunidade, como se fossem fantasmagóricas emanações: provocam, sorriem, demonstram medo e paixão, levando o Mr. Tambourine Man para um outro lugar, que não é ali. E a semelhança de Julian com Bob Dylan não é por acaso, já que, aparentemente, ele é a figura a conduzir o protagonista por esse universo sombrio e libertador em igual medida.

Com trilha sonora totalmente orgânica (de Nelo Johann) e fotografia rica, meio granulada, quase envelhecida em alguns momentos (cortesia de Mauro Pinheiro Jr.), a película também é um primor no que diz respeito às imagens que falam por si. Das estrelas vistas no teto do quarto do protagonista (há um universo real lá fora?), a borboleta que se debate até morrer, a obra investe em minúsculas abstrações que, curiosamente, também ampliam uma certa sensação de suspense. Quando Julian reaparece - "esse colono", reclamam os jovens - parece haver algum segredo relacionado ao passado de todos eles, pronto a vir a tona (o que torna esta também uma película de formação). E como esse clima de tensão é ampliado? Com o barulho ostensivo do mecanismo de uma geladeira, que irrompe na madrugada, por exemplo. Experimental, inevitavelmente bucólico e com uma linguagem pouco convencional, Os Famosos E Os Duendes da Morte completa 10 anos sem envelhecer nadinha: ao contrário, com o advento de redes como Instagram, os jovens estão cada vez mais vivendo um universo que não é o deles. E se exaurindo, assim como aqueles que assistimos nessa pequena joia do nosso cinema.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Cinema - O Ano de 1985 (1985)

De Yen Tan. Com Cory Michael Smith, Virginia Madsen, Michael Chiklis e Aidan Langford. Drama, EUA, 2018, 85 minutos.

Em uma das cenas de O Ano de 1985 (1985) os dois irmãos protagonistas conversam sobre música. Mais precisamente sobre a Madonna e seus provocativos trabalhos. Após o mais velho revelar que havia comparecido a Virgin Tour, o mais novo diz, não com certo desalento: "eu tinha o outro disco da Madonna, mas o pai encontrou a minha mochila e jogou ele fora". No mesmo diálogo o menino fala de um vizinho que possuía vários álbuns, mas que todos eles haviam sido queimados por recomendação de um certo Pastor John. Os dois irmãos são Adrian (Cory Michael Smith) e Andrew (Aidan Langford). O primeiro está morando em Nova York e vem para a casa dos pais para passar o Natal, onde encontra o segundo. Os pais são figuras extremamente religiosas e, consequentemente, conservadoras. O que explica, por exemplo, o asco em relação aos ousados discos da "rainha do pop". Sim, as famílias de bem, todos sabemos, não toleram nada que seja diferente. Especialmente nas artes.

Assim vir para casa, para Adrian, se torna um verdadeiro suplício. Algo que ele faz meio a contragosto, mas também para agradar a mãe - que se esforça na aproximação com o filho (uma aproximação meio torta, excessivamente "gastronômica"). Com o pai o distanciamento é ainda maior. Veterano de guerra, acredita que os filhos devem ser criados para ser "homens". E, portanto, ele estranha o trabalho de Adrian - algo relacionado a criação de vídeos publicitários. Pior: fica ainda mais constrangido quando este lhes presenteia com roupas e outros objetos caros, no Natal. Há uma gritante diferença geracional que, aqui no Brasil, poderia ser traduzida pelos pais que votaram no Bolsonaro, que acreditam que bandido bom é bandido morto e que não admitiriam filho gay, como um contraponto a filhos com a mentalidade mais progressista, com um bom nível de empatia, uma maior tolerância e uma especial atenção aos problemas sociais.



Dentro da casa o clima é de opressão, com a película do diretor Yen Tan se desenrolando de forma vagarosa, mas nunca cansativa. A fotografia em preto e branco, levemente escurecida, acentua o clima de melancolia familiar meio generalizada - todos se espiam pelos cantos, como se estranhos fossem, sendo obrigados a conviver. E o pior: conforme os dias passam entre o Natal e o Ano Novo, percebemos que Adrian possui um segredo que certamente será de difícil digestão para pais tão antiquados. O apoio da ex-namorada Carly e do próprio irmão tornarão a estada de Adrian menos dramática. Mas o encontro com um ex-colega de aula, que hoje é gerente de um supermercado local, também dá conta do abismo existente entre as visões de mundo de ambos: definitivamente, Adrian não pertence mais aquele local.

Nesse sentido, a obra se insurge como uma verdadeira coleção de pequenos momentos, que servem apenas para validar nossas convicções (e eu confesso que recebi tudo isso de coração aberto, não por acaso considerando este um dos grandes filmes do ano). Em uma sequência, por exemplo, é possível perceber o constrangimento de Adrian ao ter de cantar os cantos durante uma missa. O pai que presenteia a mãe com um eletrodoméstico. A mãe que confessa não ter votado em Reagan (um republicano a favor da guerra, claro) nas últimas eleições. E um pai que insiste em achar que o filho pode contar com ele, sendo que sabemos que, não, ele não pode, formam o combo de grupo de um sujeitos que se vê obrigado a conviver, única e exclusivamente pela existência de laços de sangue. E, ainda assim, não deixa de ser comovente a promessa de Adrian a seu pai, na última cena em que estão juntos e que busca, exclusivamente, confortar o coração de seu genitor. Uma película tão pequena - são poucos mais de 80 minutos - com tantos subtextos ricos, é aquilo que costumamos considerar um achado. É simplesmente imperdível.

Nota: 9,0

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Disco da Semana - Djonga (Ladrão)

Recentemente o rapper Djonga esteve envolvido em uma polêmica: se recusou a fazer uma apresentação em Vitória, no Espírito Santo, após descobrir que integrantes da produção do evento estavam supostamente envolvidos em um caso de estupro. O artista soube da história por meio dos fãs. E tomou a sua decisão, sem pensar nos prejuízos acarretados por ela. Porque acima da figura que precisa ganhar dinheiro para se sustentar, está o sujeito, suas convicções, suas visões de mundo - e a visão de mundo de Djonga é aquela mesma que olha com carinho para a periferia, para as minorias ou para aqueles que vivem à margem da sociedade ou em vulnerabilidade (como é o caso das pessoas que sofrem violências de todo o tipo). É o rapper, com seus três assombrosos álbuns, que dá voz à comunidade, suas conquistas (ainda pequenas mas importantes), seus anseios, suas angústias e seus medos. E a comunidade negra, pobre e pouco assistida tem sim muito medo em um País em que o racismo estrutural é a ordem do dia. Ordem agora lamentavelmente legitimada pelo voto e pela ascensão de um reacionarismo descabido, quase pornográfico.

Mas a força da arte de Djonga está nas palavras - e ele certamente tem muito a dizer. Ele precisa dizer. São elas que cortam, oferecem resistência e que, eventualmente gritadas, ecoam a voz daqueles que nem sempre falam. Que se resguardam. Que se resignam. Desde pequeno geral te aponta o dedo /  No olhar da madame eu consigo sentir o medo / Você cresce achando que é pior que eles / Irmão quem te roubou te chama de ladrão desde cedo narra o artista na autorreferencial Hat-Trick, que abre o disco Ladrão. Mas o tom nesse terceiro trabalho dificilmente será de autopiedade ou de excessos comiserativos. Djonga certamente tem consciência de seu papel nessa luta e não por acaso lembra do porvir da resistência como algo real e palpável em Deus e O Diabo Na Terra do Sol, feita em parceria com Felipe Ret: As grades prendem homens, não ideias / E a ideia certa chefe até nas ruínas floresce.


Estou mais preocupado em ser ouvido pelas pessoas e que meu trampo dê vontade a elas de falar. Acho que todo mundo está precisando falar bastante, pois estamos cheios de coisa no peito. Então, se meu trampo for ouvido e der vontade do cara falar, nem que seja para discordar de mim, já está bom, destacou o rapper em entrevista ao site Reverb, como que resumindo o conceito central do registro, que dá sequência aos soberbos Heresia (2017) e O Menino Que Queria Ser Deus (2018). Não é por acaso que as canções do mineiro abordam não apenas as questões raciais como uma ferida histórica, mas também celebra as conquistas dos negros, a superação das dificuldades do dia a dia - não apenas do artista e ela está espalhada por toda a parte (Você piscou e eu já tô no terceiro), mas do trabalhador que tem ônibus pra pegar, conta pra pagar e filho pra criar. Eu tiro onda, porque mudo paradigmas / Meu melhor verso só serve se mudar vidas / Pois construi um castelo vindo dos destroços narra na ótima Ladrão.

Musicalmente o registro é um verdadeiro caldeirão de referências culturais com citações a Pantera Negra, Che Guevara, Queen Latifah, Oscar Niemeyer, Malcom X, Mickey, Antônio Conselheiro e Kendrick Lamar e sonoras, numa mescla absurdamente fluída de trap, hip hop, R&B, jazz e música urbana. Djonga está atento ao mal estar da modernidade e por mais que isso seja clichê, representa um reflexo de nossos tempos. Nesse sentido, não são por acaso que menções a Sérgio Moro como um falso justiceiro ou a famosa facada que elege presidente. É claro que em meio ao engajamento, ao espírito de empoderamento, também há espaço para o amor, para o sexo e para o corpo como processo de desconstrução - como comprovam as sinuosas Leal e Tipo. Com estilo mais cru e um flow com pequenas variações em relação aos registros anteriores, Ladrão, com seu ainda impressionante projeto gráfico, consolida Djonga como um dos mais importantes nomes do rap nacional. E o principal: sem a necessidade de precisar mudar para agradar alguém. Abram alas pro Rei!

Nota: 9,3


Músicas Gêmeas - Rihanna x Vaya Con Dios

Quem já viu o encarte do álbum Anti, da Rihanna, garante: não há NENHUMA menção a qualquer tipo de sampler da música What's A Woman?, lançada em 1990 pelos belgas do Vaya Con Dios, nos créditos de Love On The Brain, que viria a se tornar um dos principais singles do registro. Plágio? Homenagem? Foi sem querer? O caso é que a balada de Rihanna, influenciada pela soul musica dos anos 50/60, lembra muito a melodia, pontuada pelo baixo, da canção do Vaya Con Dios. Bom, ninguém reclamou e muita gente até nem percebeu. A exceção dos nostálgicos, que ouviram doses cavalares de Antena 1 na juventude e agora ficam comparando duas músicas que se assemelham. Ou não.



quarta-feira, 24 de abril de 2019

Pérolas da Netflix - Durante a Tormenta (Durante La Tormenta)

De: Oriol Paulo. Com Adriana Ugarte, Chino Darín, Javier Gutierrez, Álvaro Morte e Nora Navas. Drama / Suspense, Espanha, 2019, 128 minutos.

Já se vão quase 35 anos desde aquela vez em que Marty McFly voltou ao passado a bordo de um DeLorean para alterar a linha do tempo e quase comprometer a sua própria existência. Quem assistiu a De Volta Para o Futuro - alguém não assistiu? - tem até hoje a imagem do personagem vivido por Michael J. Fox literalmente desaparecendo, enquanto sua futura mãe tem uma série de desencontros com aquele que viria a ser o seu pai. E se ele não nascesse? Era uma comédia, divertida, leve, inesquecível. E que, agora, nostalgicamente, reaparece assim que começamos a assistir ao ótimo espanhol Durante a Tormenta (Durante La Tormenta), que bebe da fonte da película de Robert Zemeckis, mistura elementos de outros filmes de ficção científica - como Efeito Borboleta e Interestellar -, e nos entrega como resultado um suspense cheio de personalidade, vigoroso e que nos prende do começo ao fim.

Na trama também haverá uma alteração da lógica temporal, motivada por um episódio que ocorre no futuro, mas que afeta o passado. O filme começa em 1989. Em cena vemos o jovem Nico, que executa uma versão de Time After Time da Cindy Lauper, ao mesmo tempo em que faz uma gravação caseira de si próprio tocando guitarra. Após a mãe do rapaz sair para trabalhar, Nico presencia, a partir de sua janela, uma discussão entre vizinhos que resulta em uma morte. Ao sair correndo de casa para buscar ajuda, Nico é atropelado e morre. A obra salta para 2019, onde Vera (Adriana Ugarte) e David (Álvaro Morte) estão comprando a casa que foi de Nico e de sua mãe 30 anos atrás - o que percebemos quando o casal descobre, em um cômodo, a TV, a câmera de vídeo e o videocassete antigos. Será ao ligar o aparelho em uma noite mal dormida de tempestade, que Vera conseguirá "conversar" com Nico, em 1989, impedindo a tragédia que lhe seria o seu destino. A TV, catalisada pelos raios e trovões, funcionará como um portal, que modifica o passado. E também o presente/futuro.


Tudo muda na vida de Vera. De enfermeira ela passa a médica, David não é mais o seu marido e o pior drama para ela: a sua filha pequena não existe mais. O crime do passado aconteceu, mas Nico está vivo e seu paradeiro é um mistério. Só que tudo isso contribuiu para que tudo se alterasse no futuro. Assim, Vera luta para provar que não possui problemas psicológicos, se empenha em desvendar os mistérios do assassinato ocorrido no passado e tenta, de todas as formas, alterar novamente a lógica de espaço/tempo, para que a sua filha reapareça no mundo (ela sumiu, assim como McFly quase desaparece na De Volta Para o Futuro, citado ali no começo). Sim, parece meio complexo e talvez inicialmente até seja: mas a obra do diretor Oriol Paulo (do curioso Um Contratempo) é muito bem montada e a cada ida e vinda no tempo as peças do quebra-cabeças vão sendo fechadas. Não sem algumas reviravoltas - algumas previsíveis, outras nem tanto, claro.

Em geral trata-se de um filme leve de assistir, com um bom suspense, daqueles que não cansam jamais. Vale a pena fica atento a detalhes, como uma simples caixa de fósforos, que podem representar alguma mudança de perspectiva no desenrolar da trama. O mesmo vale para personagens chave, como uma outra vizinha, Clara (Nora Navas), que é mãe de um dos melhores amigos de Vera, Aitor (Miquel Fernández) e que, no mundo modificado, possui grande proximidade do assassino visto no começo do filme. Se há um pecado no filme é o fato de tudo ser redondinho demais, já que a gente sempre espera que em filmes de ficção científica a distopia cruel supere a "realidade", mesmo quando as coisas comecem a afunilar. Mas não é nada que comprometa.


terça-feira, 23 de abril de 2019

Tesouros Cinéfilos - Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre)

De: Pedro Almodóvar. Com Cecilia Roth, Marisa Paredes, Penélope Cruz e Antonia San Juan. Drama, Espanha / França, 1999, 101 minutos.

Ao final de Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre) um letreiro indica que a obra é dedicada a "todas as atrizes que viveram atrizes. A todas as mulheres que representam. Aos homens que representam e se tornaram mulheres. A todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe". Nesse sentido, não é demais lembrar que o cinema de Pedro Almodóvar sempre foi pródigo em sua análise do universo feminino - com as mulheres sustentando as mais variadas tramas -, e é muito provável que com esta película este nostálgico "fetiche" tenha atingido o seu ápice. Em tela mulheres de todos os tipos: apaixonadas, vigorosas, empáticas e humanas buscando se encontrar em um mundo em que tragédia e riso caminham lado a lado, sendo sempre possível, a despeito das peças pregadas pelo destino, seguir em frente, perdoar e, enfim, recomeçar.

Na história acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Após assistirem uma encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo (foi o presente de aniversário da mãe), Esteban se esforça para pegar um autógrafo da atriz Huma Rojo (Marisa Paredes) - que interpreta Blanche Dubois -, correndo atrás do táxi que lhe conduz pelo subúrbio. Por uma fatalidade, ele é atropelado e acaba falecendo. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê.


Em sua jornada, Manuela reencontrará a antiga amiga Agrado (Antonia San Juan) e conhecerá a jovem freira Rosa (Penelope Cruz), que se tornará sua protegida após esta descobrir uma inesperada gravidez. E já que coincidência pouca é bobagem, Manuela começará a trabalhar para Huma, após um curioso (e revelador) encontro entre ambas. O filme se desenrola a partir desses pequenos recortes que envolvem o convívio de todas elas, suas idas e vindas, suas tentativas de resolver as angústias que não lhes deixam acalmar o coração. Luto, uso de drogas, HIV, dissimulação da Igreja Católica e prostituição são assuntos que funcionam como fios condutores da narrativa que, ao fim do cabo, discute a importância da sororidade, da absolvição e da compreensão das diferenças. É uma obra colorida, alegórica, de gargalhada e de choro em igual medida e de um olhar carinhoso, especialmente para aquelas figuras que vivem a margem da sociedade.

Tido pela crítica como o melhor filme de Almodóvar - não por acaso faturou o Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira na cerimônia do ano 2000 - a película ainda é um requinte no que diz respeito às suas referências, que vão da já citada peça de Tenessee Williams ao filme A Malvada (1950) - e aqui vale prestar atenção no aspecto metalinguístico da narrativa, com Manuela "substituindo" pessoas em vários momentos e em vários papeis, tal qual a Eve Herrington, vivida de forma impressionante por Anne Baxter, no clássico estrelado por Bette Davis. Com um elenco recheado de estrelas e inspiradíssimo, a obra conta com várias cenas inesquecíveis, como na parte em que, após apanhar na rua, Agrado se olha no espelho e diz estar parecida com o Homem Elefante, por causa de seus hematomas. Em tempos em que o preconceito, a ódio e a intolerância andam em alta - motivados por uma inexplicável ascensão de alas conservadoras de direita - os filmes do Almodóvar são um verdadeiro respiro, nunca sendo demais recordá-los.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Pérolas da Netflix - Temporada

De: André Novais Oliveira. Com Grace Passô, Russo APR, Rejane Faria e Hélio Ricardo. Drama, Brasil, 2019, 113 minutos.

Temporada é aquele tipo de filme que parece sobre o nada mas que, na verdade, é sobre tudo ao mesmo tempo. Não por ser algum tipo de projeto ambicioso e hiperbólico e sim por apostar na sutileza como forma de abordagem para temas relacionados a diferenças sociais, a solidão e a busca pela felicidade. É o filme sobre o cotidiano. Sobre a vida real. Sobre errar e acertar. Ou sobre deixar o passado para trás para tentar tudo de novo. E novamente. E o pior: em um País que não costuma olhar com carinho para as classes menos favorecidas ou vulneráveis. Na trama acompanhamos a jornada de Juliana (a espetacular Grace Passô) que está se mudando de Itaúna para a periferia de Contagem, em Minas Gerais, para trabalhar como agente de controle da dengue na região. No local, enquanto se ambienta a sua rotina e aos novos colegas de trabalho, ela tenta se "acertar" com o marido, que ignora todas as tentativas de contato.

E o filme é mais ou menos isso. Ou parece só isso. No final de semana uma ou duas cervejas, no dia a dia o trabalho, os encontros com pessoas conhecidas e desconhecidas, o cotidiano, a brasilidade. O flerte com algum colega. As roupas simples e os diálogos idem. A fotografia quente da cidade periférica. Os corpos fora do padrão - especialmente os de Hollywood - que se assemelham ao meu e ao seu, que lê esse texto. Uma das críticas à Temporada é que, no filme, não há um arco dramático mais aprofundado, mais bem definido. Mas é o filme político, sem ser panfletário, sem precisar esfregar nada na cada. Há, aqui e ali, uma discussão sobre precárias condições de trabalho, sobre salários baixíssimos (mesmo pra quem é concursado), sobre as dificuldades para que as contas fechem e os sonhos permaneçam.



E como o diretor André Novais Oliveira (do premiado Ela Volta na Quinta) faz isso? Com sequências como aquela em que vemos Juliana e Hélio (Hélio Ricardo) sentados diante de uma espécie de estação de tratamento de esgoto. No lugar de belas paisagens cotidianas, a realidade nua e crua, feia. As edificações acinzentadas e disformes. Sem lógica. Paupérrimas, como a casa adaptada por Juliana, que se vira como pode e aceita a condição que lhe é imposta. O mesmo valendo para o trabalho e para as reações diversas das pessoas que recebem os agentes - mal humoradas, tristes, solitárias, benevolentes. Há uma curiosa mistura de tudo nessa obra absurdamente naturalista em que não sabemos exatamente para o que torcer, como ficar ou de que forma olhar, sendo que só o que conseguimos sentir o tempo todo é empatia por aquele coletivo torto, que pega ônibus, que come no dogão, que fala em um linguajar cheio de gírias, que procrastina e que vai no pagode.

E há ainda o personagem Russão (Russo APR), com o seu inacreditável carisma, que sonha em poder abrir uma barbearia pra levantar uma grana extra, que possibilitará melhores condições para o filho. É o dia a dia da informalidade, livre, direta, que representa uma ruptura justamente por não ser óbvia, como em qualquer outra obra. Com longos planos sequência, o filme centra a sua força nos diálogos e nas atuações - rudes e comoventes em igual medida -, que atingem seu ápice em uma comovente aparição de Dona Zezé (a falecida mãe do diretor), que interpreta uma senhorinha querida, que oferece bolo e café para Juliana, lembrando a ela que "saco vazio não para em pé". Na nebulosidade do Brasil que perde o seu encanto, ainda há a cordialidade a ser encontrada, o anseio de vida no riso e no choro. O mesmo riso e o mesmo choro que o espectador alternará, desavergonhadamente, ao assistir a essa verdadeira pérola do cinema nacional.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Cinema - Em Trânsito (Transit)

De: Christian Petzold. Com Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese e Barbara Auer. Drama, Alemanha / França, 2018, 101 minutos.

Só a sutileza com que o diretor Christian Petzold (Phoenix) aborda o avanço do nazismo (ou do fascismo) na modernidade já torna Em Trânsito (Transit) um filme digno de nota. Para falar de cerceamento da liberdade, de cassação de direitos e de injustiças sociais, não há volta no tempo, não há trens levando judeus para campos de concentração ou quaisquer outras cenas de maus tratados ocorridas no holocausto. Não há fotografia empalidecida ou saturada ou trilha sonora que dialoga com o período. A película se passa em algum ponto da modernidade, com desenho de produção em que se veem carros, construções e rodovias atuais, o mesmo valendo para figurinos e outros objetos cênicos. O que não muda nesse contexto? Somos apresentados a um grupo de pessoas que está em fuga de uma França pronta a ser sitiada pelo exército, que pretende iniciar um "trabalho de limpeza" no País.

Nesse sentido, Em Trânsito é uma espécie de distopia daquelas típicas da ficção científica, em que a sociedade moderna, eventualmente decadente, se choca com um passado de opressão e de censura (e medo) do diferente. No microcosmo proposto por Pletzold, seria como se o nazismo estivesse para acontecer na atualidade, em uma capital como Paris, motivada por uma política conservadora e ditatorial que se avizinha. E, assim as pessoas precisam fugir - e não é por acaso que, logo no começo do filme, a proprietária de uma hospedaria trata com desconfiança o protagonista Georg (Franz Rogowski). No mesmo hotel Georg pretende entregar documentos a um autor, de sobrenome Weidel, que ele descobre ter se suicidado. Antes de abandonar o local, ele se apropria de manuscritos do escritor falecido, assumindo, após uma viagem a Marselha, a sua identidade.


Na verdade a película é uma obra sobre pessoas tentando encontrar o seu lugar no mundo, mas em um mundo doente, boçal, em que prevalecem os preconceitos e a intolerância. Não é por acaso que um autor se mata, já que os artistas muitas vezes são os primeiros perseguidos em ditaduras. Em Marselha, Georg conhecerá Marie (Paula Beer), que por conta de uma daquelas incríveis coincidências é a viúva do falecido Weidel. Marie acredita que o homem está vivo, já que muitas pessoas afirmam ter visto ele - na embaixada, nas cafeterias em setores do Governo. Mas na verdade trata-se de Georg que está utilizando a identidade do escritor para forjar uma ida para o México onde, em exílio, poderá escapar da guerra. E é aí que entra o componente romântico, com Georg convidando Marie para lhe acompanhar já que, claro, ele se apaixona por ela.

Não bastassem as dificuldade naturais dos envolvidos, ainda há uma mãe imigrante, com o seu filho - o que não deixa de ser uma forma de atualizar para os dias atuais o tema da perseguição político/religiosa às minorias. Como em qualquer "guerra", a violência está logo ali ao lado, com integrantes do exército invadindo casas e levando na marra àqueles que são considerados subversivos, não restando para quem sente medo, a opção exclusiva de fugir. Trata-se de uma obra moderna, que joga algum frescor no tema da guerra, ao fugir do óbvio, esfregando em nossas caras que a perseguição e o medo, travestidos de "intervenção militar" pelo bem da sociedade, podem ser a pior escolha. Cabe a nós decidir pelo nosso futuro. Ao menos enquanto somos uma democracia.

Nota: 8,5


terça-feira, 16 de abril de 2019

Pérolas da Netflix - Girl

De: Lukas Dhont. Com Victor Polster, Ariel Worthelter, Katelijne Damen e Valentjin Dhaenens. Drama, Bélgica, 2019, 104 minutos.

Quando Girl começa e a jovem Lara (Victor Polster) surge em cena pela primeira vez, jamais temos dúvida de estarmos diante de uma garota: seu sorriso delicado e suas feições suaves são o complemento para uma identidade totalmente feminina. Sim, trata-se de uma mulher que nasceu com corpo de homem mas que, com apenas quinze anos, tem consciência de suas escolhas e do que deseja para sua vida. Apoiada de forma comovente pelo pai (Ariel Worthelter), Lara está fazendo um tratamento com hormônios, enquanto aguarda uma cirurgia para readequação de gênero. Sim, não bastassem todos os dilemas, anseios, dúvidas, descobertas e inseguranças da juventude, Lara é uma garota trans em um mundo em que o ódio, o preconceito e a intolerância parecem sempre prontos à vir a tona por meio de, entre outros, o "cidadão de bem" - aquele inexplicável sujeito que se preocupa mais com a sexualidade dos outros do que com a própria.

Bom, talvez como forma de deslocar um pouco essa realidade avassaladora, o diretor Lukas Dhont aposta na empatia, evitando assim o clichê da história de superação. O drama de Lara é outro: é o da pressa da juventude, é o da urgência de ver o seu corpo "acontecer" como de fato ela deseja - com seios, com uma vagina no lugar do pênis e com a plenitude de poder, enfim, ser ela mesma. É claro que o preconceito inevitavelmente surge aqui e ali - como na sequência em que um professor pergunta em sala de aula se as colegas se importarão com o fato de Lara usar o banheiro feminino. Mas o acolhimento diante da causa é maior, com a família, os médicos e os psicólogos empenhados em ver o objetivo de Lara finalmente alcançado. E não é por acaso que são tão comoventes as cenas em que a jovem se olha no espelho, tentando identificar se os seios de fato cresceram alguma coisa. O mesmo valendo para as sequências que mostram uma "gambiarra" feita com fita adesiva para esconder os genitais.


Lukas Dhont banha tudo com um naturalismo impressionante. A câmera simplesmente "cola" no rosto de Polster que surge praticamente em todas as cenas, sem nunca apostar em uma caracterização caricatural. Pelo contrário é na economia de palavras, no olhar meio de lado, no sorriso constrangido que a jovem comunica tudo - de tristezas como um episódio de bullying envolvendo as colegas de balé - à pequenas euforias, como no momento em que uma professora pergunta a ela se ela é a irmã mais velha de seu aluno. E, aqui, cabe um parêntese sobre o fato de Polster não ser uma atriz trans (ao contrário, trata-se de um ator cisgênero): sua atuação é soberba, cheia de sutilezas, o que lhe fez faturar com justiça o prêmio de Melhor Ator na mostra Um Certo Olhar do último Festival de Cannes. Aliás, ainda sobre Cannes, a película faturou outro prêmios como o Câmera de Ouro de Primeiro Filme para Lukas Dhont.

E há ainda em meio a tudo o já citado balé - que surge como exercício metafórico para a transformação do corpo. Nas exaustivas tentativas de replicar os movimentos, não são poucas as cenas em que surgem diante de nós os pés machucados de Lara. E quanto mais ela se esforça, mais ela se machuca, sendo que a dor que ela sente diante de todo aquele contexto é muito mais do que física - é também emocional. Não é por acaso que o desmaio diante de uma dor extrema ocorre justamente quando ela está mais fragilizada pela angústia de ter de aguardar o resultado de seu tratamento, que possibilitará tomadas de decisões futuras. Não é um filme fácil, mas haverá em cada canto da fotografia granulada típica do cinema europeu ou da trilha sonora urgente, um palpável otimismo que nos fará torcer o tempo todo por Lara e por todos aqueles que lhe querem bem. Uma obra sensível que está lá, disponível na Netflix.

Lançamento de Videoclipe - Marcelo Jeneci (Aí Sim)

Finalmente a notícia que os fãs do Marcelo Jeneci esperavam chegou: após um hiato de seis anos desde o lançamento de De Graça (2013) vem aí um novo registro de inéditas do artista! A princípio programado para o fim de maio, o trabalho começou a ser gestado em julho de 2017, com produção de Wladimir Gasper e coprodução de Lux Ferreira e do próprio Jeneci. Como forma de anunciar o novo álbum, o compositor divulgou na última semana um vídeo para a música Aí Sim - primeiro single do disco. A faixa, a exemplo de outras, como, Café Com Leite de Rosas e Longe foi composta em parceria com Arnaldo Antunes. O clipe, bastante gracioso, foi dirigido por Chlöe de Carvalho e tem locações no Nordeste, que combinam bem com o clima regionalista da canção, que tem instrumental leve que forma a base perfeita para o vocal limpo de Jeneci.





segunda-feira, 15 de abril de 2019

Tesouros Cinéfilos - Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk)

De: Barry Jenkins. Com Kiki Layne, Stephan James, Regina King, Teyonah Paris e Colman Domingo. Drama, EUA, 2018, 119 minutos.

Parece inacreditável que, nos dias de hoje, episódios como o do assassinato do músico Evaldo dos Santos, há pouco mais de uma semana, ainda ocorram. Na ocasião, uma ação absurdamente destemperada de um Exército racista e despreparado foi o gatilho para o disparo de 80 tiros de fuzil contra a família do homem, que retornava de uma festa. O que fez a corporação diante desse episódio nefasto? Divulgou uma nota, no dia seguinte, que garantia que Evaldo havia atirado primeiro contra os militares, que apenas teriam agido em legítima defesa. Nas imagens divulgadas na internet e no relato de testemunhas não há nada que confirme a desvairada versão da polícia. Foi execução pura e simples. Talvez motivados por "violenta emoção" ou "surpresa" - pra ficar nas palavras do Pacote Anticrime do Sérgio Moro - os militares agiram, confirmando aquilo que as estatísticas não deixam mentir: a política pública de segurança é racista já que de cada dez mortes, sete são de pessoas negras.

Bom, se hoje é assim - e o caso de Evaldo é UM CASO, em meio a centenas que ocorrem somente no nosso País - o que dirá em tempos passados, muito mais segregacionistas e preconceituosos? Na abertura do filme Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk), um letreiro do autor James Baldwin diz que "toda a pessoa negra nascida na América nasceu na Rua Beale, no bairro negro de uma cidade americana, seja em Jackson Mississipi ou no Harlem em Nova York. A Rua Beale é o nosso legado". Essa sentença é uma forma de dar conta, metaforicamente, de uma história de preconceito, de racismo e de abusos de autoridade. Se por um lado a Rua Beale - localizada em Nova Orleans - é barulhenta e o berço do jazz, por outro ela também é o local em que a violência contra os negros acontece, legitimada por aqueles que deveriam ser os responsáveis por defender o cidadão, independente de sua raça. É assim em qualquer lugar do mundo. É assim em Guadalupe, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, com a família de Evaldo dos Santos.


Na trama, acompanhamos a jornada da jovem Tish (Kiki Layne), que luta para livrar o marido Fonny (Stephan James) de uma acusação criminal, aparentemente injusta, de estupro. Cumprindo pena enquanto aguarda o desenrolar jurídico do episódio - o que envolve uma tentativa de localizar a suposta vítima, que teria fugido para Porto Rico -, Fonny descobre que Tish está grávida. E como se não bastassem os problemas relacionados à prisão do homem, as famílias de ambos ainda "batem cabeça" encontrando espaço para desavenças religiosas - o que envolve uma maravilhosa cena em que todos estão reunidos (pais mães, irmãos), bem no começo da película. Provar a inocência de Fonny não será tarefa fácil: há um advogado caucasiano que se empenha no caso, mas parece haver sempre uma desconfiança no ar, em relação as suas reais intenções. O que é reforçado pela morosidade para qualquer tipo de resolução.

A despeito da "morosidade", o filme poderá soar levemente arrastado para o espectador que não está tão habituado a uma linguagem cinematográfica com uma fluidez mais lenta, quase lânguida. Mas a obra é muito bonita, quase nos remetendo àqueles antigos filmes apaixonados dos anos 40. Há uma forte carga romântica - reforçada pela bela trilha sonora - que faz com que torçamos o tempo todo pelos protagonistas. Mas o que a gente sabe de antemão é que tudo é mais difícil quando estamos falando de provar a inocência de um negro. A família de Fonny fará de tudo para que isso aconteça - entre elas a sua sogra, vivida por uma Regina King assombrosa em caracterização que lhe deu o Oscar. Mas há um outro lado também machucado, dolorido: o de uma mulher que foi estuprada e, traumatizada, pode ter confirmado aquilo que não era verdade. A dúvida permanece até o final, ainda que a presença de policiais racistas, de entes políticos cheios de preconceitos e de um Estado que não olha para as minorias, posso indicar aquilo que, afinal de contas, todo mundo já sabia: Fonny era inocente. E, assim como Evaldo, não merecia a sentença que lhe foi dada.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Disco da Semana - Matheus Brant (Cola Comigo)

Quando lançou o disco Assume Que Gosta (2016), o musico Matheus Brant deu carta branca para que os hipsters tivessem um disco "carnavalesco" para chamar de seu. O registro, divertido até dizer chega, era um convite nostálgico para um encontro entre a música alternativa e ritmos como o arrocha, o axé, a marchinha, o sertanejo universitário e o pagode. Sim, em cada coraçãozinho indie que pulsa a cada novo lançamento da Grimes ou do Arcade Fire há alguém disposto a cantar a plenos pulmões o refrão de Abandonado, do Exaltasamba (que o artista incluiu naquele trabalho). Sim, o encontro entre ritmos mais comerciais com violõezinhos estilo MPB, alguma dose de psicodelia e toneladas de sintetizadores resultou em músicas que caíram no gosto tanto do fã do programa do Rodrigo Faro, quanto do admirador de cada episódio do Greg News.

Assim, havia muito expectativa para o novo registro de Brant que, intitulado de Cola Comigo, chega dando aquela abraço carinhoso no pagode dos anos 90 - sim, aquele mesmo que crescemos escutando nas tardes do Domingo Legal, onde uma dúzia de pagodeiros cantavam sorridentes, enquanto estalavam os dedos e faziam dancinhas estranhas, em meio aos piores playbacks da história. Só Pra Contrariar, Soweto, Negritude Junior, Karametade, Os Travessos, Katinguelê... há uma pitada de cada um desses coletivos no trabalho que exala um frescor impressionante, jamais parecendo apenas uma simples homenagem ou uma mera caricatura. Com personalidade, Brant se leva a sério - sem perder o senso de humor, claro -, dialoga com o lirismo poético do samba e perfuma cada canção com cores próprias e com um verniz que revitaliza o estilo que se desgastou, assim que o novo milênio surgiu.



Em entrevista concedida ao site Revista Arte Brasileira, o instrumentista disse sentir falta na nova MPB, no samba e nos artistas indie em geral de uma certa vitalidade nas composições - uma comunicação direta com o público. "Essas eram justamente as características presentes no pagode. Assim, pensei que aproximar esses dois universos poderia resultar em algo interessante. De um lado o pagode com a coloquialidade e a espontaneidade muitas vezes consideradas de mau gosto e de outro o indie, a nova MPB, com seu apuro técnico, arranjos e sonoridade contemporâneos, muitas vezes definidos como bom gosto" enfatizou. Não é por acaso que ele mesmo, ao definir o seu estilo musical, o classifica como "pagode indie" - um tipo de música espontânea, sem qualquer trava intelectual e recheada por emanações vivas, cotidianas e eventualmente sofisticadas.

Saboroso de ouvir, o registro tem produção limpa com a voz do artista - que também é advogado e escritor - se sobressaindo em meio a ruídos eletrônicos, cavacos, surdos, pandeiros e muito lalaiá, palminhas e outros efeitos. Basta ouvir o refrão grudentíssimo de Preta (executado num daqueles típicos coros do pagode que não fariam feio em algum registro do Chico Buarque) ou letras irrepreensíveis como a de Tudo no Menu - Eu quero ter uma caminha bem macia / E a gente deita junto nela todo dia / Fim de semana até parece com a Bahia / A gente pode se encontrar - para ficarmos absolutamente arrebatados. Não demora e o preconceito vai se embora num instante. Brant tem dito em entrevistas que Assume Que Gosta e Cola Comigo integrarão, futuramente, uma trilogia. Não faria mal se ele adotasse um estilo tão saturado, cansativo e marcado pelo hedonismo como o sertanejo universitário para jogar alguma luz. É possível falar de amor, sexo e vida cotidiana sem tanto ranço, como comprova esse gracioso álbum.

Nota: 8,5

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Grandes Cenas do Cinema - A Origem (Inception)

Filme: A Origem
Cena: Um pião que gira sem parar. Ou ele para?

Não houve absolutamente nenhum cinéfilo que, ao final de A Origem (Inception), de Christopher Nolan, não tenha se perguntado se Cobb, personagem de Leonardo DiCaprio, estava sonhando ou não na última cena do filme. As teorias são as mais variadas e em uma pesquisa rápida no Google será possível encontrar aqueles que acreditam se tratar de um devaneio e outros que creem estar diante da vida real. Eu mesmo acredito que ele estava sonhando, o que poderia ser comprovado pelos tipos de cortes utilizados na edição das sequências finais (eles mesmos brincam sobre o fato de nunca lembrarmos do começo de nossos sonhos), pelo fato de os filhos fazerem movimentos muito parecidos com aqueles que surgem nos sonhos e, especialmente, pelo fato de não ter havido um "chute", ao menos não visível para nós, que fosse capaz de retirar Cobb da quarta dimensão dos sonhos, onde ele encontrará Saito (Ken Watanabe).

Bom, o filme é uma obra-prima sobre os sonhos, com uma grande capacidade de tornar palpáveis ideias abstratas. E que tem, a meu ver, uma série de cenas antológicas que serão lembradas daqui a alguns pares de anos como algumas das mais inesquecíveis do cinema. E, para mim, a simples imagem do totem utilizado por Cobb - o famoso pião - no último instante, enquanto ele encontra os seus filhos, é daquelas que já tem a sua marca na história da sétima arte. A sequência é um primor de técnica, com a câmera saindo da imagem da família feliz que confraterniza ao fundo, para encontrar em um primeiro plano o pião que gira. E ele gira, tropegamente, para girar mais um pouco, mais um pouco e mais um pouco até que os créditos subam. E a gente fique com aquela cara de "caceta, o que foi que eu vi aqui?".



A questão envolvendo Cobb, a morte de Mal e a relação do casal com os seus filhos são parte importante da trama - e as seguidas "entradas" de Cobb no mundo dos sonhos para atividades de teste, fazem com que, não poucas vezes, realidade e ficção se confundam. Cobb integra uma equipe capacitada a invadir sonhos de pessoas importantes para, com o uso de uma tecnologia inovadora, roubar informações e segredos valiosos que estejam guardados no inconsciente das "vítimas". Após uma ação que não sai como o planejado, Cobb é contratado pelo magnata japonês Saito (Ken Watanabe) para entrar na mente de um herdeiro de um império econômico (vivido por Cillian Murphy) com a intenção de plantar uma ideia que o incentive a desmembrar os negócios da família - o que impediria o monopólio e a falência de outros conglomerados.

É uma trama nem sempre fácil de acompanhar e que provavelmente exigirá dos cinéfilos mais umas duas ou três revisões para uma plena compreensão daquilo que se assiste. Cobb conta com uma equipe - seu braço direito Arthur (Joseph Gordon-Levitt), a arquiteta Ariadne (Ellen Page), o mestre dos disfarces Eames (Tom Hardy) e o químico Yusuf (Dileep Rao) - para colocar o plano em prática. Em meio a execução, a imagem de Mal ressurge para "assombrá-lo", devendo ele recorrer ao pião como uma forma de compreender se está no mundo real ou não. A película é um espetáculo visual e sonoro (a gente nunca mais escuta a música Non, Je Ne Regrette Rein da Edith Piaf da mesma forma), não por acaso tendo sido premiada nas categorias Fotografia, Efeitos Visuais e Edição e Mixagem de Som, fora as outras indicações. Mas fora as premiações e o estupendo roteiro original, repleto de conceitos intrigantes e bem organizados, será a provocação final, aquela sobre o pião que roda, a que gerará as mais variadas conclusões. O que dá conta do potencial da cena, inesquecível desde o instante em que foi concebida.