quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Novidades em Streaming - Golda: A Mulher de Uma Nação (Golda)

De: Guy Nattiv. Com Helen Mirren, Liev Schreiber e Camille Cottin. Drama, EUA / Reino Unido, 2023, 103 minutos.

Em uma época em que todo o mundo se tornou, inesperadamente, especialista em Israel e em conflitos do Oriente Médio - da tia Nelci do zap ao vereador de extrema direita do pequeno município gaúcho -, um filme como Golda: A Mulher de Uma Nação (Golda) pode suscitar algumas paixões meio desmesuradas. Habituados a defesa cega do País - e até da política bizarra do primeiro ministro Benjamin Netanyahu - os conservadores e evangélicos poderão encontrar na ex primeira-ministra de Israel uma líder carismática e preocupada em defender sua Nação a qualquer custo. Nem que isso envolva um aparato bélico gigantesco, com o apoio inevitável dos Estados Unidos. "Israel acima de tudo", talvez dirão os mais emocionados. Para aqueles que repudiam fortemente a luta contra o terrorismo do Hamas como uma desculpa pra bombardear a tudo e a todos - de mulheres, crianças, civis e qualquer ser humano que se mova -, será meio difícil se comover com os esforços da líder que se vê em tela. Até mesmo pela sua história controversa.

Alguns poderão dizer que é um filme que sai na hora certa. Ou talvez seja na errada. Mas o caso é de que os conflitos na região se arrastam por décadas e certamente sem um historiador bem informado - com dados, documentos históricos e outros registros - sempre será difícil apontar o lado certo dessa disputa. Aliás, há lado certo? Em uma briga política e religiosa que busca ocupação de territórios, supressão de povos e outras medidas, no mínimo, questionáveis? Aparentemente, o que o diretor Guy Nattiv (do premiado curta Skin) tenta, com toda a força do mundo, é humanizar Golda (que sob a maquiagem carregada de Helen Mirren, parece ainda mais caricata). Nesse sentido, ela surge em tela como uma senhorinha de ombros curvados, que padece de um câncer, ainda que isso não a impeça de praticamente emendar um cigarro no outro. E enquanto ela lida com os problemas de saúde pessoais, precisa se ocupar de algo muito mais sério: no caso com os acontecimentos da Guerra do Yom Kippur, ocorrida há 50 anos.

 

 

Pra quem não está muito familiarizado - aliás, meu caso -, pode ser meio complicado entender os detalhes desse conflito. Ou mesmo as suas motivações. Em linhas gerais o que aconteceu à época foi uma batalha próxima do Canal de Suez, junto à fronteira do Estado de Israel com o Egito. A ideia do ex-presidente egípcio Anwar Al Sadat era invadir o País vizinho justamente durante o Yom Kippur, importante feriado para os judeus e que é conhecido também como o Dia do Perdão. E se não bastasse ter de lidar com o Egito por um lado, havia ainda a Síria tentando atacar por outro, junto às Colinas de Golã. Resumo da ópera: Israel pretendia preservar os territórios conquistados na Guerra dos Seis Dias, de 1967, mas os árabes não estavam muito satisfeitos. O resultado? Vinte dias de bombas, tiros, mortes e escolhas questionáveis, que desencadeariam ainda uma crise petrolífera no ocidente, com o aumentos dos preços dos barris. No fim, tudo é sobre dinheiro. Sobre economia. Sobre capital. Com a religião sendo um pano de fundo onipresente. Golda estava entrando nos anos finais de sua vida. O que não a impediu de mover as peças nesse complexo tabuleiro geográfico.

Ok, não se trata de um filme ruim ou desprezível. Há um grande empenho da produção em focar nos bastidores, nos diálogos feitos em gabinetes fechados, que envolvem tomadas de decisão complicadas e uma verborragia militarista que parece intensificar ainda mais o senso de ameaça. Mas talvez aqui o problema esteja no recorte excessivamente diminuto para uma obra que pretende levar o nome de Golda. Para o desavisado, talvez essa pudesse ser uma experiência mais ampla sobre a história de vida da líder política - aliás, a primeira (e única) mulher da história a ocupar o cargo em Israel. Até se tornar signatária pela independência de Israel ela moraria nos Estados Unidos, trabalharia como professora, se envolveria no movimento sionista trabalhista. Todos esses aspectos que adicionariam camadas à personalidade de Golda são ignorados no filme. Não há algo que a conecte com os judeus ucranianos da sua Kiev natal. Ou sobre a sua atividade como Ministra do Trabalho - o que envolveu um empenho em políticas habitacionais para os imigrantes judeus. Ou mesmo sobre controvérsias relacionadas a temas como racismo, xenofobia e mesmo políticas genocidas. Em tempos em que os olhos se voltam tão atentamente para Israel, talvez tudo isso fosse importante. Afinal, Golda não parece ser apenas uma idosa fragilizada a caminho da morte, que fuma compulsivamente. No limite, pareceu meio que isso.

Nota: 5,5


Pitaquinho Musical - Ducks Ltd. (Harm's Way)

"Estou aqui pensando que esse pode ter sido o ponto mais baixo de todos os tempos / Mas vocês está certa em apontar que eu sempre fui um idiota". Vamos combinar que existe uma certa ironia melancólica que parece combinar à perfeição com o jangle pop. Se por um lado as guitarras aceleradas e polidas acenam para um aspecto mais ensolarado da nossa existência, por outro as letras povoadas por metáforas existenciais e paradoxos humanos jogam o cenário para o espectro oposto, o dos tormentos da alma. É esse o caso, por exemplo, de Train Full of Gasoline, canção que está em Harm's Way, segundo trabalho do Ducks Ltd. - e que tem uma parte da letra na abertura dessa pequena resenha. É aquele tipo de situação em que a gente quer rir mas também chorar, como se vida ao cabo fosse essa série de acontecimentos meio aleatórios e que muitas vezes fogem do nosso controle.


 

O próprio vocalista e guitarrista Tom McGreevy explicou em entrevista ao site Under the Radar que músicas como Train Full of Gasoline partem de eventos reais - no caso aqui um desastre ferroviário ocorrido em Quebec quando um trem com 73 vagões cheio de petróleo se desgovernou atingindo uma cidade. E que refletirão, de forma alegórica, erros que se acumulam. E que resultam em catástrofes muito mais pessoais, que se manifestam onde a gente menos espera. Esse tipo de expediente é repetido em outros momentos, como no caso do single Catedral City, que coloca em lados opostos a cidade acinzentada e seus parques arbóreos (algo que pode ser visto em alguma medida na capa desse segundo disco), enquanto discorre sobre cidades típicas do Reino Unido, com suas voluptuosas catedrais. O que encontramos aqui é uma simplicidade comovente em que o brilho emerge em refrões grudentos, vozes duplicadas e melodias adocicadas. Mesmo que por dentro não estejamos nos melhores dias.

Nota: 8,0


terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Picanha.doc - Jon Batiste: American Symphony

De: Matthew Heineman. Com Jon Batiste e Suleika Jouaoud. Documentário / Drama / Biografia, EUA, 2023, 103 minutos.

Vamos combinar que histórias de personalidades que são selecionadas para virar filmes, muitas vezes são feitas de escolhas. Tomemos como exemplo o caso de Jon Batiste, que tem um pequeno recorte de sua vida apresentado no projeto Jon Batiste: American Symphony, um dos indicados ao Oscar na categoria Documentário. Ainda que meio desconhecido do público brasileiro, o carismático artista "ataca" nas mais diversas frentes. É cantor, compositor, instrumentista, líder de banda televisiva e uma espécie de ativista da música como expressão artística. Aliás, essa última parte foi aquilo que o fez criar, ao lado do saxofonista Eddie Barbash e do tocador de tuba Ibanda Ruhumbika, além do baixista Phil Kuehn e do baterista Joe Saylor o coletivo Stay Human - espécie de supergrupo que fazia performances improvisadas e efervescentes de R&B e jazz fusion nas ruas, no metrô ou onde fosse em Nova York. Tudo na crença de conectar pessoas com pessoas. De se elevar, de aproximar.

Nesse sentido, é preciso que se diga que só essa parte do Stay Human, de como ele surge, se consolida e pavimenta o caminho para que, mais adiante, Batiste se torne o diretor musical do Late Show com Stephen Colbert, já seria motivo suficiente para uma narrativa de excelência. Mas tem mais: como homem negro nascido em uma pequena cidade da Louisiana, certamente a trajetória até o ingresso no prestigiado conservatório Julliard, talvez não tenha sido tão simples. Especialmente pelo seu perfil descontraído, extrovertido - ainda que ele integre uma família de músicos de Nova Orleans e desde os oito anos tenha tido contato com percussão e piano. Talentoso, transcreveria trilhas sonoras de jogos de videogame como Street Fighter e Sonic. Tudo isso ainda na adolescência. É muita coisa. Aliás, muita coisa interessante que poderia ser melhor explorada - não apenas como uma nota de rodapé de um filme que aposta no melodrama meio novelesco como matéria-prima.

 

 

Ok, eu não quero reduzir as boas intenções da obra que está disponível na Netflix e que foi dirigida pelo premiado Matthew Haineman (de City of Ghosts, 2015 e Cartel Land, 2017). Ele sabe o que e como faz, é óbvio. Mas o caso é que tive um pouco de dificuldade de me conectar com a história de Batiste. Ou talvez com a parte que foi selecionada para virar filme - no caso um ano de vida ainda dentro da pandemia, no final de 2021, em que ele se empenha em gestar a sua primeira sinfonia para uma apresentação no Carnegie Hall. Como se já não bastassem os desafios da construção da peça musical em si, o artista ainda precisa lidar, de forma concomitante, com os esforços de sua esposa, a escritora, colunista, ativista e palestrante motivacional Suleika Jauouad na luta contra uma forma rara de leucemia - que retorna após dez anos de remissão. É um ano turbulento que é filmado em tomadas fragmentadas e bastante íntimas, que se alternam entre a vida doméstica (com vários momentos ao lado de Suleika) e os demorados ensaios de bastidores, com a construção dos trechos que formarão a sinfonia.

Evidentemente que, dada essa escolha, a obra parece querer condicionar o espectador à emoção, fazendo ecoar as notas emocionantes do trabalho de Batiste, ao mesmo tempo em que apresenta sequências em hospitais, consultórios, de exames médicos de outros procedimentos. E, aqui é importante afirmar: ninguém está minimizando a dor que envolve o tratamento de um câncer não apenas para quem padece da doença, mas também dos familiares. Mas o caso é que, em alguns instantes, ficou meio difícil não achar que o diretor estava dando uma forçadinha na barra para que o espectador fosse as lágrimas. Em tempo: Suleika está viva, após dois transplantes de medula óssea e tratamentos com células tronco. E há que se respeitar a sua perseverança e resiliência no tratamento. Já Batiste entregou o seu projeto - o que no filme funciona como uma metáfora para a ideia de sobrevivência como um ato criativo. Só que eu confesso que queria ver mais de outras partes da história do protagonista com a música. Como no caso da vitória no Grammy de 2021, desbancando grandonas do pop como Olivia Rodrigo e Billie Eilish. Ou mais sobre seus recorrentes ataques de pânico. Pena que tudo isso passe tão rapidamente no filme. Enfim, escolhas. Há que se respeitá-las.

 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Novidades em Streaming - Ficção Americana (American Fiction)

De: Cord Jefferson. Com Jeffrey Wright, Sterling K. Brown, Issa Rae e Leslie Uggams. Drama / Comédia, EUA, 2023, 118 minutos.

Ambientes domésticos inóspitos, infâncias difíceis, problemas relacionados ao uso de drogas, prostituição, violência policial - vamos combinar que o combo que reflete a experiência afroamericana na literatura dificilmente foge desses clichês. É uma coisa quase automática. Aliás, quanto mais próxima desse tipo de estereótipo, mais a obra parece adequada para que o branco médio disposto a consumi-la, se sinta absolvido de algum tipo de culpa. Especialmente no campo acadêmico progressista, onde demorados debates a respeito desses livros "viscerais, crus, realistas", parecem apenas uma forma de fetichizar os traumas negros, que ficam reduzidos a esses lugares comuns. Para a indústria e para as editoras, talvez essa seja uma forma de apelar para a suposta diversidade. Autores negros, lutando por representatividade, em um ambiente de branquitude reinante. Uma espécie de "pornografia da pobreza" travestida de ficção. Isso é salutar?

O caso é que tudo que o escritor Thelonious Ellison (Jeffrey Wright), o protagonista do indicado ao Oscar Ficção Americana (American Fiction), quer, é lançar um novo livro. E já há algum tempo ele tem se empenhado em tentar conseguir uma editora que tope publicar seu romance Os Persas - que tem encontrado uma série de barreiras por não ser um legítimo "livro de negros" (ou seja lá o que isso signifique). E como desgraça pouca é bobagem, ele acaba suspenso da universidade em que leciona, em Los Angeles, após uma discussão com uma de suas alunas. Para arejar um pouco a mente ele resolve retornar a sua Boston natal, onde visitará seus irmãos e sua mãe e também participará de um sarau literário. Ao cabo, Thelonious é até alguém respeitado em seu meio. É um novelista de estilo rebuscado, sofisticado. Só que suas obras não vendem. Ainda assim, o painel excessivamente esvaziado o surpreende. E não demorará para que ele entenda o motivo: um seminário concomitante com a escritora negra do momento, uma certa Sintara Golden (Issa Rae), que tem atraído a atenção do público com o seu pungente (e altamente estereotipado) "Nós vive no gueto" (sim, assim mesmo como está escrito), sua recente obra.

 

 

E para quem está tentando emplacar um novo romance, ver um produto que esvazia a pauta racial ao apelar para a vulgaridade empobrecida do chavão, é algo que o decepciona. E tudo piora com os problemas familiares que passam a surgir aos borbotões - que vão da irmã médica Lisa (Tracee Ellis Ross) que sofre um inesperado infarto fulminante à mãe Agnes (Leslie Uggams), que passa a padecer do Mal de Alzheimer. Enquanto tenta encontrar algum equilíbrio na vida doméstica, que envolve ainda o complicado irmão Cliff (Sterling K. Brown, nosso eterno Randall de This Is Us) e uma candidata a namorada, a advogada Coraline (Erika Alexander), Thelonious toma uma drástica decisão: escrever um romance satírico literário, que debocha de todos os clichês esperados na literatura negra. Sob o pseudônimo de Stagg R. Leigh, um suposto (e falso) fugitivo da polícia, constroi My Pafology. Que mais adiante simplesmente se chamará Fuck! Só que a ideia de zombar do mercado editorial dá meio errado, quando uma editora fornece um inacreditável adiantamento de US$ 750 mil ao autor. O que envolve ainda a aquisição de direitos que converterá o projeto em filme.

Sim, tudo soa meio exagerado, satírico, no filme de estreia de Cord Jefferson, que está disponível na Amazon Prime. Condição reforçada pelos diálogos ferinos, que não deixam de apontar a sua mira para a hipocrisia do mercado editorial, que utiliza a desculpa da diversificação do catálogo como uma mera ferramenta de marketing. Em certa altura, por exemplo, um editor conversa com Thelonious sobre a adaptação do livro para as telonas e se surpreende quando ele pede um vinho sofisticado. Ou simplesmente não conversa como um mano da quebrada. Em alguma medida o filme está sempre brincando com esses clichês de forma a subvertê-los. Em uma sequência, acreditamos que possa haver um episódio de violência quando o namorado de Coraline aparece. O policial que surge é gente boa. Os negros vistos em tela são bem sucedidos. O que não evitará o fato de eles precisarem enfrentar as expectativas do mundo que os rodeia. Engraçado, reflexivo e ousado, esse é aquele tipo de projeto que coloca o dedo na ferida quando o assunto é a complexidade das vivências e experiências negras - que, sim, são inegáveis vítimas dentro do tecido social. Mas que certamente tem mais para entregar para além dos estereótipos e do apelo a uma diversidade encapsulada e pronta para o consumo de brancos progressistas.

Nota: 9,0

 

Curta Um Curta - The Last Repair Shop

Um documentário em curta metragem sobre o poder transformador da música. Ou talvez uma pequena obra que nos faça lembrar a infinidade de histórias profundas, comoventes que, em muitos casos, podem passar despercebidas. Assim como em O ABC da Proibição de Livros, o pano de fundo de The Last Repair Shop tem a ver com o mundo das artes. Mas não exatamente com quem toca esse ou aquele instrumento musical ou integra uma banda. E sim com aqueles que estão por trás e que se empenham em, de forma anônima, abnegada, trabalhar pra que a coisa aconteça. Na trama dessa produção capitaneada pela dupla Ben Proudfoot e Chris Bowers, que venceram o Oscar por The Queen of Basketball, está o dedicado esforço de um coletivo de artesãos que se empenha em manter em bom estado de conservação, mais de 80 mil instrumentos musicais de um armazém de Los Angeles.


 

Sim, as quatro pessoas que conhecemos no curta - Dana Atkinson, Paty Moreno, Duane Michaels e Steve Bagmavyan - consertam instrumentos musicais gratuitamente para alunos de escolas públicas. Intercalando sequências dos próprios alunos -que tem suas vidas transformadas pelo simples contato com violões, saxofones e pianos - com as de suas vidas, compreendemos como a música pode ter sido espaço de abrigo para cada um deles, como no exemplo de Bagmanyan, um refugiado armênio do Azerbaijão, que vai parar nos Estados Unidos para fugir da guerra, e se torna técnico de piano. Closes e planos aproximados das estruturas de cada instrumento - com seus botões, texturas, cordas e outros -, majestosamente manuseados, contribuem para um senso de proximidade, que é ampliado pelos tons quentes da fotografia. Ao cabo trata-se de uma obra inspiradora e de grande beleza, que tem boa chance de sair com o Oscar em sua categoria.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Cinema - Eu, Capitão (Io Capitano)

De: Matteo Garrone. Com Seydou Sarr, Moustapha Fall e Issaka Sawagodo. Drama / Aventura, Itália / Bélgica / França, 2023, 121 minutos.

Vamos combinar que um filme como Eu, Capitão (Io Capitano) estar entre os indicados ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira só pode ter a ver com um lobby muito bem feito. Ok, a obra realizada pelo versátil Matteo Garrone - de Reality: A Grande Ilusão (2012) e Dogman (2018) - não chega a ser ruim. Mas o que incomoda aqui é aquele formato embaladinho, que dá uma suavizada em um tema sério como forma de tornar a experiência mais palatável pro espectador. Sim, porque todo mundo sabe dos problemas atuais que envolvem as crises imigratórias pelo mundo - ainda mais as que dizem respeito a saída de africanos em direção à Europa. E por mais sedutora que seja a boa e velha história de superação de dificuldades há que se observar os eventuais esvaziamentos de pauta. Que podem apenas banalizar a problemática a partir da mera espetacularização.

Falo isso especialmente em relação a uma sequência do terço final, em que centenas de africanos das mais variadas nacionalidades estão a bordo de um barco, cruzando o Mar Mediterrâneo, para tentar chegar até a Itália. Uma viagem longa, de mais de um dia, cansativa. E é exatamente nesse momento, que Seydou (o ótimo Seydou Sarr) se torna uma espécie de herói involuntário, que sai de alguém que é incapaz de navegar em alto mar, para um sujeito que precisa resolver absolutamente todas as pendengas do lugar. É mulher grávida, é gente passando mal, é falta de água e comida. E lá vai Seydou pra lá e pra cá, saltando por sobre as pessoas, buscando contato pelo rádio de forma desesperada, tentando algum socorro terrestre. Até o ponto em que, exaurido, ele garante, com a câmera em um contra plongée que o torna maior do que ele é, enquanto a trilha sonora sobe: "ninguém aqui vai morrer!". Será mesmo?

 

 

Sim, tudo ali parece ter uma certa beleza estética, a despeito do caos reinante na embarcação - um aspecto meio glamourizante da pobreza que, no mínimo, nos deixa com uma pulguinha atrás da orelha. Vale o mesmo para o início da produção, quando somos jogados para o Senegal natal de Seydou - que parece ser uma nação, sim, bastante pobre, mas também muito feliz. As roupas são coloridas, sua mãe é uma dançarina de ritmos locais, que participa de eventos festivos. Mas por quê Seydou quer tanto sair dali se a harmonia de tudo parece ser tão idílica? Ok, talvez haja um aspecto de não recorrer ao componente da miséria humana como motivador de tudo. Seydou apenas deseja ir pra França ao lado do seu primo Moussa (Moustapha Fall) para tentarem a sorte como músicos de rap. Para tentar vender a sua arte para os brancos daquele continente. E resolvem embarcar em uma jornada de vida ou morte que envolve a travessia pesada do deserto do Saara - com seus 1800 quilômetros escaldantes.

E como se já não bastassem os perigos do deserto em si - reforçados com imagens impactantes de cadáveres mortos que ficam pelo caminho -, Seydou e Moussa ainda precisam lidar com contrabandistas, milicianos, policiais corruptos e representantes de governos de índole questionável no caminho que passa por Mali, Nigéria e Líbia. O que envolverá uma série de violências - inclusive torturas. E aqui entra mais um probleminha que, a meu ver, me incomodou. E que teve a ver com certo maniqueísmo da história. Afinal de contas, a gente sabe que há um lado certo pelo qual somos direcionados a torcer. Mas precisava os sujeitos bons serem absolutamente bons o tempo todo? Nenhum desvio de caráter? Nenhuma decisão etica ou moralmente questionável? Já no lado dos vilões, como não poderia deixar de ser, todos são broncos, toscos, obtusos - o que é reforçado pelos seus comportamentos truculentos, suas expressões faciais brutas e seus figurinos de gângster de jogo de videogame.


 

Como eu disse ali em cima, creio que Eu, Capitão tem seu ponto - inclusive no final levemente ambíguo (que me agradou bastante). Afinal de contas uma jornada longa dessas, cheia de percalços e incertezas, não resolverá o problema em si. Aliás, uma questão que parece longe de qualquer solução - ainda mais se pensarmos em outros países como a Palestina e a Síria. Mas do ponto de vista fílmico não consegui me conectar com o idealismo dos personagens. Nem com suas motivações. E quando Garrone apela pra uma certa dose de realismo fantástico também não consigo compreender muito bem o seu uso. É uma forma de santificar, de glorificar ainda mais os seus protagonistas? Essas figuras que superam todas as suas fraquezas por um objetivo maior? Ok, talvez esteja cobrando uma verossimilhança que atravessa o fato de Garrone ser um realizador branco, ocidental, bem sucedido (por melhores que sejam suas intenções). Em um filme premiado - inclusive no Festival de Veneza. Ainda assim coloco essas questões. É pra refletir mesmo. E por isso estamos aqui.

Nota: 5,0

Pitaquinho Musical - Declan McKenna (What Happened to the Beach?)

Às vezes experimental, noutras acessível - mas sempre com aquele ar descolado, descompromissado. Talvez seja a pandemia que passou. Ou mesmo a expectativa por um mundo melhor - especialmente para alguém que mal completou 25 anos (ainda que já tenha uma carreira de mais de uma década, iniciada em um daqueles programas de novos talentos, da TV britânica). Mas a impressão que temos com What Happened to the Beach?, é a de um Declan McKenna mais leve, mais caloroso. Especialmente se comparado ao taciturno trabalho anterior, Zeros (2020). Tomemos como base o single Sympathy, uma peça festiva com palminhas otimistas, efeitos primaveris e uma vibração açucarada que culmina no refrão grudento que mais parece com o Animal Collective em uma parceria com o Vampire Weekend. Aliás, o tipo de canção que flui com uma naturalidade desconcertante.


 

O senso de humor meio psicodélico surge em outros instantes, como no caso do folk à Sufjan Stevens Mulholland's Dinner and Wine, que tem batida econômica e uma letra divertida e estranha sobre uma dupla criminosa saída de um desenho animado. "Os versos vieram de observações enquanto dirigia pelas colinas de Los Angeles no caminho para festas estranhas e descoladas", comentaria o artista no material de divulgação. Para McKenna parece haver algo de libertador na música - algo evidenciado nas baterias meio irregulares, nos efeitinhos nem sempre óbvios ou nas melodias volumosas. Ainda assim, não quer dizer que o cantor não fale sério, como no caso da ótima Nothing Works. O clima apressadinho estilo Blur em Parklife pode enganar, já que a letra fala justamente sobre se sentir encurralado ou preso às expectativas (Pra que me esforçar? / Não é como se eu ainda fosse novidade). Mas o recado é claro: todos podem (e devem) ser livres.

Nota: 8,5


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Livro do Mês - Velhos Demais Para Morrer (Vinícius Neves Mariano)

Editora Malê, 2020, 280 páginas.

"Em um mundo que luta contra o envelhecimento, falar sobre o passado é um ato de coragem".

Vamos combinar que a premissa de Velhos Demais Para Morrer, segundo romance do mineiro Vinícius Neves Mariano, não poderia ser mais interessante. Na trama estamos em algum lugar do futuro, em um período em que o número de idosos alcançou 50% da população total, o que instaurou uma crise econômica e social sem precedentes. E é nesse cenário de iminente catástrofe, que o governo estabelece uma política radical, que envolve um pacote de medidas de transição para a maturidade. Conhecido pela sigla TranMat e lançado naquele que ficou conhecido como Ano Anacrônico, o programa tinha como slogan "Maturidade para construir um novo futuro". Sim, o nome pode parecer até simpático em um primeiro momento. Mas nas entrelinhas está uma lógica quase perversa: em um mundo em que a medicina avançou e os idosos vivem mais é preciso estancar essa discrepância. Mas como suprimir idosos sem mais nem menos, sem que esse procedimento seja traumático para quem vai (e também para quem fica)?

Em tempos em que tantos tipos de preconceitos são discutidos, o etarismo também entra nesse combo. E na distopia exagerada mas nunca irreal de Mariano está nesse universo em que envelhecer é uma ofensa. "É mendigar arfando um resto de fôlego para alimentar os pulmões". E para que a transição para o ocaso da existência seja uma oportunidade para um gesto de altruísmo e de coragem, o governo oferece como caminho uma espécie de partida voluntária. Assim, quando chegam aos 65 anos, os idosos podem participar de uma cerimônia supostamente digna em uma das casas de Félix Mortem. Reunidos, familiares e amigos acompanham o último discurso daquele seu familiar que, sedado em três etapas, oferece seu corpo obsoleto para o alívio das finanças do Estado. O que garantirá estabilidade - e uma polpuda herança, chamada de Bônus Pelo Compromisso com a Nação - para que os mais jovens deem continuidade aquilo que os velhos, com suas carnes estafadas, não conseguem. Sim, os anciãos simplesmente se oferecem pra morrer. Em favor da população economicamente ativa.

 

 

E é claro que em um cenário tão apocalíptico não será fácil para a população simplesmente aceitar, na maior, essas duras medidas. Afinal, quem abriria mão da presença de seus parentes, de seus amigos, maridos e esposas, avós e etc para que a nação não definhe? Pior, quem se ofereceria? É nesse contexto que surge Piedade, uma professora grávida que já ultrapassou a idade limite e está em fuga, indo parar em uma espécie de comunidade de refugiados, conhecida apenas como Território Escuro - geralmente um espaço distante dos grandes centros urbanos que, agora, em muitos casos, não passam de cidades fantasmas. Em outra linha narrativa temos o pequeno Perdigueiro, um adolescente de treze anos que é obrigado pelo seu pai, com quem tem péssima relação, a caçar velhos para um grupo de milicianos. Em uma terceira linha acompanhamos Daren, um Faria Limer de 35 anos que trabalha para uma poderosíssima empresa de cosméticos - aliás, um ramo que cresce desenfreadamente em tempos em que a aparência pode, literalmente, salvar vidas.

Em cada um desses segmentos está a luta pela sobrevivência em um cenário onde todos sabem quando vão morrer. E em um mundo que estabelece um ponto final para a vida qual o sentido de tudo? De forma filosófica, o autor costura a sua prosa alternando as histórias de seus protagonistas que, por mais separados que estejam, parecem unidos na mesma jornada. Uma jornada de escapada da alienação e que possa acenar para mudanças sobre como as coisas se estruturam em relação ao envelhecimento. E por mais que os temas sejam pesados, reflexivos, é importante salientar que a obra, lançada pela editora Malê e finalista do Prêmio Jabuti, é um excelente entretenimento. E, como ficção científica, estabelece a possibilidade de reflexão sobre questões humanas sensíveis, sendo uma delas a forma como algumas sociedades da atualidade encaram o ato de envelhecer como um mal-estar. E a gente já faz isso, vamos combinar. O que torna esse livro ainda mais impactante.

Curta Um Curta - Paquiderme (Pachyderme)

"Não gosto quando meus pais me abandonam".

Vamos combinar que os medos infantis podem ser muito mais reais (ou concretos) do que abstratos ou sobrenaturais - ainda que, em muitos casos, as crianças sejam incapazes de compreender plenamente de onde vêm estes temores. E o curta-metragem Paquiderme (Pachyderme), um dos indicados ao Oscar em sua categoria, consegue um efeito extremamente potente em sua abordagem - ainda que a faça com sutileza, apostando em metáforas e simbolismos. Na trama, a pequena Louise vai, como sempre, passar a temporada de verão na casa dos avós, em um espaço bucólico, meio isolado e extremamente organizado. Como muitas vezes acontece nas residências mais antigas, Louise, que tem cerca de nove anos, precisa lidar com estampidos e outros barulhos da madeira, que perturbam seu sono. "O que pode te acontecer de mal?", questiona a avó, que insiste para que ela apenas durma.

 

 

Só que a pequena é perturbada constantemente, seja por olhos que parecem simplesmente "brotar" da madeira, como se a espiassem, ou mesmo pela sensação de que algo ou alguém está prestes a entrar no quarto. Tudo piora com a decoração do ambiente em que vivem os avós - no centro da sala, por exemplo, há um enorme chifre que, supostamente, é de um paquiderme morto pelo avô. Aliás, o mesmo avô que lhe leva para passeios na floresta durante o dia (onde ela deve ficar quieta para escutar os animais da floresta) e que, ao retirar as rodinhas de sua bicicleta a inventiva, diz que "agora ele é uma mocinha". Em alguma medida, dado o traço simples mas bonito de Stéphanie Clément, aqui temos uma ambientação meio que de conto de fadas, envolta em uma aura de mistério, ainda que a história tenha um peso doloroso. Ao cabo, as crianças deveriam poder confiar nos adultos. Mas nesse projeto tão desconfortável quanto profundo, esse inverno de libertação pode levar mais tempo para chegar.


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Cinema - Dias Perfeitos (Perfect Days)

De: Wim Wenders. Com Koji Yakusho, Tokio Emoto e Arisa Nakano. Drama, Alemanha / Japão, 2023, 124 minutos.

"Pássaros voando alto, você sabe como eu me sinto / Sol no céu, você sabe como eu me sinto / Brisa passando, você sabe como eu me sinto / É um novo amanhecer / É um novo dia / É uma nova vida para mim / E estou me sentindo bem". Um filme sobre rotina. Mas também sobre a alegria de simplesmente estar vivo. Assim pode ser resumida, em alguma medida, a experiência com o tocante Dias Perfeitos (Perfect Days) - filme do versátil Wim Wenders, que é o indicado ao Oscar pelo Japão. Na trama, acompanhamos o dia a dia do carismático Hirayama (Koji Yakusho), um senhorzinho de sessenta e tantos anos que se ocupa limpando banheiros públicos em Tóquio. Convivendo com a invisibilidade meio típica de seu serviço o idoso experimenta, aqui e ali, contatos esporádicos com outras pessoas, com as quais compartilha pequenos instantes que movimentam o seu cotidiano. Conferindo algum verniz para um estado de coisas que poderia apenas parecer banal.

O caso é que, por mais solitário que Hirayama seja, ele parece sempre disposto a reverenciar a chegada de um novo dia. Que normalmente se inicia com o barulho de uma vassoura repetitiva que vem da rua - indicando uma aurora sempre pontual. Escovar os dentes, molhar as plantas, preparar o café e a roupa que será utilizada. Tudo aquilo que pareceria apenas mecânico ganha outro sentido no olhar dócil do homem. Abrir a porta e respirar o ar da rua (ainda que este nem seja assim tão puro). Pegar um refrigerante gelado na máquina. Olhar para uma torre de radiodifusão altíssima que celebra a arquitetura oriental. Espiar o sol que busca algum espaço em meio à natureza frondosa - aliás, há até um nome que define essa entrada de luz filtrada pelas folhas das árvores, no caso o komorebi. Ouvir música - aliás, música boa - no caminho para o trabalho, em antigas fitas cassete. Um mendigo que dança. Ajudar uma criança. Explicar o funcionamento do banheiro a uma mulher estrangeira. Um carinho meio inesperado de alguém ainda mais inesperado. Uma volta de bicicleta em um dia chuvoso. A poesia pode estar nas coisas simples da vida? Talvez sim.

 

 

Em certa sequência, Hirayama toma um banho quente em uma espécie de banheiro público. A fumaça que emana do chuveiro enquanto ele se ensaboa parece tornar tudo ainda mais estranhamento agradável. Um aceno com a cabeça para um companheiro de sauna. E, mais adiante, um dia que se encerrará com uma cerveja em um mercado público, enquanto um jogo de beisebol passa na TV. Ao cabo, esse parece ser um projeto que está aqui para nos lembrar de como é linda a vida. E de como às vezes a gente se esquece disso na mecanicidade dos tempos. Como alguém adepto das artes, Hirayama parece sempre mais disposto a ir ao encontro dessa beleza mundana. Desse acaso que nos surpreende e nos arrebata. Lê Faulkner antes de adormecer. Coleciona filmes em VHS - aliás, parece alguém meio analógico. Ouve artistas como The Kinks, Van Morrison, Lou Reed, Patti Smith, The Animals e Nina Simone - que aliás, abre essa resenha com a onipresente e cheia de significados Feeling Good. Assim como na bela animação Soul (2020), da Pixar, aqui a beleza está na banalidade, no cotidiano, talvez até nessa segurança evocada pela repetição. Fazer um filme sobre nada em que tudo acontece? Mérito para poucos.

Hirayama tem um colega de trabalho - o jovem assistente Takashi (Tokio Emoto), que está empenhado em conquistar Aya (Aoi Yamada), mesmo sendo um pé rapado. E uma sobrinha distante e amorosa, que aparecerá de forma inesperada - seu nome é Niko (Arisa Nakano). São pessoas que, assim como a dona do restaurante, o garçom do bar ou um homem aleatório que dividirá com ele um cigarro, uma bebida e uma conversa descompromissada perfumarão seu dia, tornando-o pleno, completo. Hirayama talvez seja um sonhador, um homem utópico em um mundo tão apressado, tão urgente, tão tecnológico, tão inconstante. Em que tudo é agora, pra ontem, instantâneo. Sua câmera fotográfica parece ultrapassada. Até os seus sonhos fragmentados, abstratos, quase surrealistas, são em preto e branco. Acompanhando esse protagonista tão distinto foi impossível não lembrar, por exemplo, do casal de velhinhos de Era Uma Vez em Tóquio (1953), clássico de Yousujiro Ozu - aliás, a impressão que dá é a de que Wenders até presta tributo a Ozu com os enquadramentos que adota, muitos deles junto ao chão. Por outro lado, também pensei nas pessoas comuns retratadas no livro A Vida que Ninguém Vê, de Eliane Brum, que olha para a vida anônima em busca do extraordinário. Enfim, é muita coisa pra se pensar em uma obra singela, comovente e contemplativa, que permanece conosco por muito tempo, assim que sobem os créditos.

Nota: 9,5


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Novidades em Streaming - Pedágio

De: Carloina Markowicz. Com Maeve Jinkins, Kauan Alvarenga, Thomás Aquino, Aline Marta Maia e Isac Graça. Drama / Comédia, Brasil, 2023, 102 minutos.

Um filme que é um verdadeiro suco do Brasil urbano, conservador, evangélico, operário e repleto de contradições. Assim pode ser resumida a experiência com Pedágio, mais recente projeto da diretora Carolina Markowicz (de Carvão, 2022), que está disponível para aluguel nas plataformas de streaming Amazon e Now. Na trama, Maeve Jinkins é Suellen, mulher periférica que trabalha como cobradora em um posto de pedágio da região de Cubatão - que, com seu ar de metrópole apocalíptica e decadente, parece o cenário perfeito para uma narrativa atualíssima sobre preconceitos, dilemas familiares e angústias contemporâneas. Só que Suellen está exasperada com o comportamento afeminado de seu filho Tiquinho (Kauan Alvarenga), um adolescente que ocupa parte de seus dias gravando e publicando vídeos na internet, onde encarna divas sessentistas com direito a figurinos purpurinados e cenários coloridíssimos, no limite entre o brega e o moderno.

Só que o caso é que Suellen é uma mulher de hábitos mais tradicionais - pra não dizer antiquados. E, após dividir os seus problemas com a colega de trabalho Telma (Aline Marta Maia), está surge com a solução: um panfleto de divulgação de um curso em que um pastor de renome internacional se apresenta como alguém capaz de realizar a cura gay. Surpresa com o investimento necessário para a suposta qualificação - cerca de R$ 1.650 -, a protagonista resolve guardar dinheiro. O que envolve ainda a participação em um negócio escuso de roubo e repasse de joias, que é tocado por seu namorado/peguete Arauto (Thomás Aquino). Afinal de contas, no Brasil do trambique, em que muitos se pretendem paladinos da moral e dos bons costumes, não chega a surpreender a homofobia de uma mãe que, a despeito de seus esforços em um emprego cheio de complicações, prefere entrar para o mundo do crime do que ver seu próprio filho livre e feliz, independentemente de sua escolha sexual.

 

 

Em alguma medida, essa é uma obra exagerada, que condensa grande parte do mal estar da modernidade, que parece reforçado pela ascensão da extrema direita, do bolsonarismo e do combo que mistura milícias urbanas, religiosos mal intencionados e sujeitos de vida simplória em busca de alguma redenção. Assim, não surpreende que o pastor evangélico Isac (Isac Graça), surja como uma figura estereotipada, quase patética, daquele tipo que é capaz de censurar seus alunos por estes não conseguirem produzir uma "obra de arte" de gosto duvidoso, com massinha de modelar, no módulo de Significação da Genitália (sim, acredite). Em outro instante, um suposto curado aparece para valorizar o trabalho de ressignificação bioenergética proposto pelo pastor - ainda que o desconforto da situação como um todo seja palpável. "Queria muito colocar isso na tela de um jeito que fosse satírico, mostrando como a homofobia está tão absorvida pela sociedade, implicando de um jeito trágico na vida das pessoas", resumiu a diretora em entrevista à Revista Bravo!

O resultado desse conjunto é um intercâmbio de momentos risíveis, com outros mais reflexivos (ou dramáticos). A violência, ao cabo, parece estar sempre pelas bordas, pronta para eclodir - o que é reforçado pelo cinza melancólico dos cenários, dos ambientes. O que faz com que Tiquinho, por exemplo, viva pelas sombras, preferindo muito mais o silêncio e a troca de olhares como forma de comunicação - ainda que isso envolva uma série de confrontos com a própria mãe. Aliás, em certa altura Suellen chega a dar um ultimato no adolescente, que se recusa a passar pela tal terapia: ele só seguirá morando em sua casa se aceitar o tal tratamento alternativo. Complexo, excêntrico, moderno, kitsch e curiosamente engraçado, esse é aquele tipo de filme que entrega muito com pouco, discutindo temas variados sem nunca pesar a mão. "Muitos dos discursos e das práticas super violentas são reproduzidos por ignorância e não por ideologia. Nosso papel é capturar essas pessoas e tentar dar luz sobre a falta de entendimento das inúmeras possibilidades de existir no mundo", resumiu Jinkins em entrevista à Mídia Ninja, como que resumindo o propósito da obra.

Nota: 9,0


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Picanha.doc - A Noite que Mudou o Pop (The Greatest Night in Pop)

De: Bao Nguyen. Com Lionel Richie, Bruce Springsteen, Dionne Warwick e Cindy Lauper. Documentário, EUA, 2024, 97 minutos.

"Esta vai ser uma noite especial". A frase dita mais de uma vez por Lionel Richie durante a apresentação do American Music Awards de 1985 é meio que um chavão quando o assunto são as premiações. Nesses casos os hosts costumam usar esse tipo de clichê, com uma ou outra variação, como forma de reforçar o caráter espetacular daquele encontro. À época, o AMA costumava reunir as maiores estrelas da indústria da música. E não foi diferente naquele 28 de janeiro. Mas talvez no íntimo de Richie houvesse uma motivação a mais para aquela empolgação que ele demonstrava a todo instante. A cada novo ato ou distinção concedida - aliás, ele mesmo faturaria seis estatuetas no evento. Afinal, aquela noite também foi a escolhida para reunir 45 artistas norte americanos para a gravação de We Are the World, a clássica canção do coletivo USA for Africa, que tinha o objetivo de ajudar as vítimas da fome e de doenças no continente, especialmente em países como Etiópia.

E reunir tantas estrelas, a gente sabe, não é apenas um desafio logístico - um "pesadelo", como definiria uma das produtoras do encontro -, mas também a necessidade de lidar com egos e personalidades de figuras absolutamente distintas, como, Stevie Wonder e Bob Dylan, Cindy Lauper e Huey Lewis. Em uma época em que a organização de um encontro desse porte envolvia horas e horas ao telefone, choques de agendas em meio a turnês cansativas - como no caso de Bruce Springsteen, que recém concluía a maratona de apresentações do clássico álbum Born in the USA -, o AMA pareceu o momento ideal para a junção de tantas celebridades. Com um propósito tão nobre. Todos sem cachê em uma jornada tão improvisada quanto exaustiva. E que é narrada com irresistível carisma no documentário recém lançado pela Netflix, A Noite que Mudou o Pop (The Greatest Night in Pop).

 

Quem cresceu nos anos 80, se acostumou a ouvir (e a ver o clipe) daquela canção melodiosa, até meio brega, com um refrão grudento daqueles que fica na cabeça após duas ou três audições. Mas quando assistimos na tela astros como Dionne Warwick, Kenny Rogers, Paul Simon, Tina Turner, Kim Carnes, Diana Ross e Willie Nelson, nunca paramos pra pensar, de forma racional, o quão complexo deve ter sido tudo aquilo. Porque não basta apenas reunir os astros. Há um roteiro a seguir. Quem canta o quê. O encaixe das vozes - muitas vezes de perfis distintos. Uns mais roqueiros, outros mais trovadores. Alguns da música country, outros do R&B. Diferenças artísticas, culturais, até sociais. Sob coordenação do produtor Quincy Jones, Michael Jackson e Lionel Richie aceitaram o desafio. Inspirados por Bob Geldof e Harry Belafonte, que já possuíam uma história na música (e no ativismo social).

Na ocasião, durante mais de nove horas, enfrentando o calor, cansaço e um cronograma extenso, esses artistas do primeiro time se entregaram ao projeto, intercalando instantes bem humorados, com outros mais tensos. Como uma espécie de feel good movie inesperado, o documentário dirigido por Bao Nguyen se aproveita de uma série de imagens de arquivos e de bastidores, com entrevistas, erros (e acertos) de gravação e até insatisfações, que resultariam em abandonos no meio do caminho. Com inúmeros grandes momentos - como aquele em que todos ali se confraternizam, com direito a pedidos de autógrafos mútuos -, a obra humaniza seus protagonistas, evidenciando suas inseguranças, incertezas e medos (e nesse ponto é muito divertido ver o relato bastante sincero de Huey Lewis, por exemplo, que admitiria estar com as pernas tremendo diante de tanta gente importante). Por fim, a gente sabe que tudo sairia a contento, com o single tendo ótima recepção da crítica e do público, o que catapultaria as suas vendas, contribuindo para a causa original (e servindo de case para outros projetos do tipo).


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - De Quem É o Sutiã? (Azerbaijão)

De: Veit Helmer. Com Miki Manojlovic, Denis Lavant, Paz Vega e Chulpan Khamatova. Comédia / Drama, Azerbaijão / Alemanha, 2018, 91 minutos.

Uma experiência ousada, curiosa e divertida que, em alguma medida, ainda comove em sua análise sobre a solidão no mundo e a respeito da nossa eterna busca por algum tipo de conexão humana. Sim, talvez eu esteja dando uma exagerada nas minhas impressões a respeito da comédia De Quem É o Sutiã (The Bra), obra do Azerbaijão que está disponível na plataforma Belas Artes A La Carte. Na trama, que não possui uma linha de diálogo sequer - um recurso que parece funcionar muito menos como homenagem e sim como artifício que ajuda a contar a história (os silêncios que dizem muito) -, acompanhamos o maquinista veterano Nurlan (Miki Manojlovic), em vias de se aposentar. Cruzando diariamente uma comunidade montanhosa na região do Cáucaso (próxima a capital Baku), ele tem como tarefa complementar de sua rotina levar de volta para os moradores do local as peças de roupa que, porventura, resultem penduradas, por "acidente", no trem.

O caso é que o trem passa muitíssimo perto das casas (e dos habitantes), tanto é que um menino tem a curiosa incumbência de alertar as pessoas do entorno a respeito das idas e vindas da composição - o que ele faz com apitos, gritos e gestos exagerados, que espantarão os moradores para fora dos trilhos. Aliás, um tipo de risco meticulosamente calculado, pelo visto. Só que isso não evita roupas de cama e blusas que, penduradas em varais muito próximos dos trilhos, resolvam "pegar uma carona" na enorme condução. Nurlan, como perceberemos, é um sujeito bastante solitário. E encontra nessa rotina de devolução de objetos, uma forma de aproximação com desconhecidos. Só que tudo se complica em seu último dia: após passar o bastão para o seu substituto Kamal (Denis Lavant), o homem perceberá a presença de um sutiã azul enroscado no motor do trem. O que lhe mobilizará a empenhar uma verdadeira via crúcis em busca da dona da peça.

Em alguma medida, esse é o tipo de experiência que parte de um fiapo de história para tentar avançar para além do microcosmo - o que ocorre em outros projetos do cinema asiático, como no caso dos iranianos (e mais pesados) Tempo de Cavalos Bêbados (2000) e Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987). Especialmente no segundo caso, a história é minúscula e envolve um menino empenhado em levar um caderno perdido para o seu colega de sala de aula, para evitar que este seja punido por seu professor. Aqui não há necessariamente, uma motivação a mais para além da banalidade cotidiana, com o caráter documental do projeto o fortalecendo como uma produção naturalista. Por mais que o trem possa ser corpulento e exagerado, inclusive no que diz respeito à sonoridade de suas engenhocas, não deixa de ser interessante notar como o silêncio sepulcral forma um curioso paradoxo para o barulho exterior. Não há necessidade de diálogos para que tudo seja perfeitamente entendido.

Nas redes sociais, sempre prontas para aquela ação diária de cancelamento, foram criticadas algumas escolhas do diretor alemão Veit Helmer, especialmente por conta de uma suposta sexualização ou objetificação das mulheres. Afinal, nas andanças de Nurlan pela vila ele encontrará as mais variadas personalidades - que podem ser desde uma jovem carente, uma interessada dançarina, uma mulher de vida bastante humilde e uma casada que parece sempre estar sendo vigiada pelo marido opressor. Em cada encontro, uma tentativa de fazer ver se o sutiã serve ou não em cada uma delas, como um ideal talvez alegórico, metafórico do "par perfeito" (por mais que, evidentemente, nunca seja tão saudável tentar encaixar algo ou alguém em nossas vidas, forçadamente). Com ecos de Jean Pierre Jeunet e Jacques Tati, essa é uma obra carismática e eventualmente caricatural que, dado o seu tema, preserva uma ingenuidade e um senso de humor acachapantes. Condição reforçada por sua afetuosa conclusão.

 

Pitaquinho Musical - The Last Dinner Party (Prelude to Ecstasy)

Uma união da música clássica com a alternativa, com orquestrações épicas se intercalando com o indie moderno. Digamos que essa é uma tentativa bem pequena de resumir o tipo de som que fazem as britânicas do The Last Dinner Party - uma das sensações musicais desse começo de temporada. Com ecos de artistas distintos que vão de Kate Bush e Florence + The Machine, passando por Weyes Blood e Abba, o coletivo converte o seu disco de estreia Prelude to Ecstasy em uma coleção de canções divertidas, cinematográficas, poéticas e sacras - tudo com uma personalidade comovente. Em alguma medida, trata-se de uma mistura interessante que, por vezes, faz com que nos sintamos em uma espécie de filme de época dirigido pela Sofia Coppola ou em algum livro da Jane Austen. Ou em uma exposição de arte renascentista. É algo novo na música, por mais que tenhamos a impressão de já ter vivido isso em algum local.

Sobre as canções em si, elas transitam em vários gêneros do rock moderno, explorando temas variados, como a masculinidade frágil (Caesar on a TV Screen), a perda da inocência (Sinner), paixões adolescentes (My Lady of Mercy), privilégio masculino (Beautiful Boy) e relacionamentos tóxicos (On Your Side, uma das melhores). Essa união cheia de sofisticação que mistura viagens ao passado, com discussões poderosas de temas íntimos e atuais que conectam qualquer ouvinte, é o que torna esta uma experiência vigorosa, com brilho próprio. E há ainda Nothing Matters, o primeiro single, que foi lançado ainda no ano passado. Com seu refrão grudento, melodia otimista e letra descarada (e sexualmente) explícita (E você pode me segurar / Como ele segura ela / E eu vou te foder / Como se nada importasse) é a conclusão quase apoteótica, que começa devagar e cresce com todo mundo cantando junto. "Eu queria capturar essa sensação de amor desenfreado e indomável, que também é um pouco perverso", resumiu a vocalista Abigail Morris em entrevista à Dork. Imbatível!

Nota: 9,0


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Grandes Filmes Nacionais - Falsa Loura

De: Carlos Reichenbach. Com Rosanne Mullholand, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Suzana Alvez e Maeve Jinkins. Comédia / Drama, Brasil, 2008, 105 minutos.

"Como é aparentemente desconcertante isso que o homem chama de prazer! Que maravilhosa relação existe entre a sua natureza e o que se julga ser o seu contrário, a dor. [...] Procuremos um deles e estaremos sujeitos a encontrar também o outro." Mamma Bruschetta, Tiazinha do H, Léo Áquila, Maurício Mattar, Cauã Raymond como um roqueiro canastrão, Fellini, Almodóvar, um dia de princesa, musicais da Hollywood clássica e Sócrates - no caso o filósofo, não o jogador de futebol. Unir todos esses elementos que juntam o popular e o kitsch, com o cult e o erudito é o que o diretor Carlos Reichenbach fez com maestria em Falsa Loura, seu derradeiro filme, que está disponível para aluguel no Now. Uma experiência onírica, excêntrica, engraçada, capaz de evidenciar questões relacionadas à diferenças de classes e ao sonho de vencer na vida, com outros temas como o machismo e até mesmo a certa alienação juvenil.

Em linhas gerais, esse é o tipo de projeto que tenderia a irritar as pessoas, nos dias de hoje. Afinal de contas uma jovem operária muito consciente de sua beleza (vivida pela estonteante Rosanne Mullholand) em uma narrativa que tem como objetivo central conseguir ir a um show do artista popular do momento, não parece ter maiores atrativos. Mas essa me pareceu apenas uma desculpa bastante ousada do diretor para escancarar a misoginia que brota das periferias - e que pode ser ainda mais cruel com as mulheres pobres ou em condições mais vulneráveis. Ao cabo, como quase sempre na obra de Reichenbach, seus homens são rudes, broncos, toscos, entortados - meio incapazes de se comportar de forma decente, na presença de uma mulher. Esse é caso do roqueiro Bruno (Reymond), que se aproxima de Silmara (Mullholand) apenas porque ela é bonita e vai ser mais um trofeuzinho pra sua coleção. Mas também é o caso do pai de Silmara, um ex-presidiário cheio de contradições.

Sim, os homens podem não ter muita complexidade, mas a realidade é que eles são assim mesmo - vale a mesma regra pro malandrão Tito (Jiddu Pinheiro), um sujeito que beira o caricato não apenas no seu comportamento, mas nas vestimentas, no jeito de falar. Só que esse é um filme sobre mulheres e sobre a luta diária por ascensão, em um universo que parece valorizar certos padrões de beleza acima de tudo. E não por acaso em uma das primeiras sequências, Silmara arruma uma briga meio aleatória nos vestiários da fábrica em que trabalha, com a sua colega Briducha (Djin Sganzerla), a quem ela acusa de não se valorizar (mesmo tendo um corpo supostamente bonito). E o caso é que o comportamento meio avançadinho da protagonista faz com que ela seja acusada de se prostituir ou coisa do tipo. Até mesmo porque, vocês sabem, na cabeça doente desse mundo machista uma jovem não pode usar uma roupa curta, mais ousada ou o que quer que ela seja, sem ser taxada de... puta, claro.

Orbitando Silmara há ainda outras figuras, casos de Milena (Suzana Alves, a Tiazinha em pessoa), que parece adorar uma fofoca, de Regina (Luciana Brites), uma professora de dança insinuante e a vizinha Ligia (Maeve Jinkins), uma modesta professora, que também parece buscar um "lugar ao sol". Com uma paleta que se alterna entre o colorido cintilante e o cinza sorumbático (especialmente nas sequências que envolvem o pai de Silmara e seus relacionamentos escusos), a obra brinca com as possibilidades gramaticais do cinema, convertendo-o em uma fábula de gata borralheira moderna, urbana, de barulhos, movimentos e gentes diversas - com direito a karaokê brega, com as bolinhas pulando no acompanhamento da letra e mar fake, feito com uma lona plástica. "Você é mesmo operária? Poxa, mas você é tão linda", pergunta a empresária Cassandra (Deivy Rose), no terço final, como que antecipando a dor total de todas aquelas mulheres que, façam o que quiserem, parecerão apenas rodopiar indefinidamente no mesmo lugar. Especialmente em um cenário de tantos contrastes sociais como o nosso. Enfim, uma obra-prima que merece ser reconhecida!


Curta Um Curta - E Depois? (The After)

Vamos combinar que E Depois? (The After) pode até não ser nenhuma Brastemp, mas é um dos curta metragens live action que foi indicado ao Oscar em sua categoria e está lá na Netflix, disponível pra quem quiser conferir. O tema dessa pequena obra é a superação de traumas e os caminhos para tentar reconstruir a vida, especialmente quando tudo parece desabar diante da dor. Na trama David Odeloyo é Dayo, um motorista de aplicativo que sofre uma violência brutal, em plena luz do dia, que resulta na morte de sua esposa e de seu filho. Algo que talvez pudesse ter sido evitado se as coisas ocorressem de forma diferente? Seria possível reagir? Confrontar a violência que surge de forma inexplicável? Não há como saber. Assim como parece ser impossível dimensionar esse tipo de perda.

Dividido em dois blocos, o filme dirigido por Misan Harriman e também estrelado por Jessica Plummer e Amelie Dokubo inicia de forma movimentada e cruel. Dayo muda a sua agenda para ficar com a sua família. O cenário é uma espécie de parque ensolarado, aberto ao público. O que não impedirá a ação de um maluco que simplesmente esfaqueia seu pequeno filho. Em um segundo momento, mais introspectivo, o protagonista tenta retomar algum tipo de normalidade levando para lá e para cá seus passageiros - ouvindo de maneira indireta sobre suas vidas, seus problemas, suas angústias, seus medos. Ao cabo, essa parece ser uma experiência sobre valorizar aquilo que temos. Especialmente o que amamos. E é simplesmente impossível não se emocionar (e ter empatia) com o final comovente, visceral e extremamente profundo.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Tesouros Cinéfilos - A Vila (The Village)

De: M. Night Shyamalan. Com Joaquin Phoenix, Bryce Dallas Howard, Adrien Brody, Sigourney Weaver, William Hurt e Brendan Gleeson. Drama / Suspense, EUA, 2004, 108 minutos.

Lembro de não ter gostado de A Vila (The Village) quando o assisti a primeira vez no cinema, em um agora distante ano de 2004. E tenho a ciência de que, vinte anos depois, talvez ele pudesse ser um filme melhor do que efetivamente é. Afinal de contas, em tempos de avanço da extrema direita, de radicalização, de lavagem cerebral, de desinformação e da mistura cada vez mais "afinada" entre religião e política, a impressão que temos é a de que a obra de M. Night Shyamalan pisa apenas no rasinho, em sua abordagem da alienação e do medo do diferente. Só que este, como todos os outros projetos, é um trabalho de seu tempo. Que no caso é o tempo do começo do milênio - o que envolve Torres Gêmeas, guerra ao terror, tecnologia incipiente, crises ambientais e incerteza diante de tudo. E em meio a isso, também não podemos perder de vista um aspecto fundamental: do ponto de vista do suspense, esta segue sendo uma grande produção.

Aliás, hoje em dia o folk horror que abriga obras distintas como Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019) e Lamb (2021) pode até estar na moda, em alta, ocupando fóruns de discussão internet afora. Mas, naquele período, um thriller que nos apresenta aos terrores que emanam da luz solar claudicante, do dia - e não da noite, com seus porões, quartos escuros e florestas densas -, era mais raro. Uma frase de Zygmunt Bauman, que virou uma espécie de chavão adotado por palestrantes de autoajuda, diz que "em vez de construirmos muros, deveríamos construir pontes". Só que no universo de A Vila, os chamados "anciãos" acreditam que o caminho para a felicidade e para a união comunitária possa estar no isolamento. É dessa forma que, supostamente, preservam o bem-estar e a tranquilidade de sua aldeia remota. Com seus almoços festivos, convivência pacífica, ordem e equilíbrio. Assim vivem os cidadãos de bem. Sem saber o que acontece para além dos bosques circundantes.

E como forma de alimentar o medo dos moradores dali, os idosos garantem haver na mata fechada uma espécie de monstro meio humano meio bicho que eles sequer citam o nome - que se tornariam famosos em uma época pré-memes como "aqueles de que não falamos a respeito". E a suposta pacificação entre as criaturas da floresta e os moradores da vila envolveria o fato de uma não invadir o espaço da outra. Os limites são estabelecidos com grandes torres iluminadas, com lâmpadas a óleo (e capas amarelas). Além disso, evita-se a qualquer custo a cor vermelha - que chega a ser quase óbvia em seu aceno ao perigo (sem que para isso seja necessário recorrer à psicologia das cores). Só que a coisa começa a desandar quando um certo Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) pede autorização dos anciãos para cruzar as fronteiras da floresta para buscar medicamentos, após a morte de um jovem aldeão. Com tudo piorando quando Lucius resolve avançar mata dentro, o que traz com ele uma trilha de sangue que envolve a morte de animais e outros eventos violentos.

Todo esse cenário é construído por Shyamalan com grande devoção - seja por meio da trilha sonora muito apropriada de James Newton Howard (que chegou a ser lembrada com uma indicação ao Oscar), ou pelo desenho de produção que explora o caráter bucólico do local, com seus limites, bordas, plantas, hortas e outros ornamentos. Como se fosse a comunidade de O Homem de Palha (1973), o grupo de anciãos parece ter uma motivação genuína para o isolamento - o que, de forma paradoxal e em tempos de pós-pandemia, de guerras e de caos social, o conecta com os dias de hoje. Unido a esse aspecto há o componente sombrio, de revelações que ocorrem de forma paulatina e de surpresas eventuais que funcionam a contento. Aliás, o diretor indiano que ficaria famoso por filmes com finais de explodir a cabeça - casos de O Sexto Sentido (1999) e Corpo Fechado (2000) -, apostaria aqui em uma experiência muito mais sensorial que não busca o choque ou um clímax, orquestrando a obra como um tipo de alegoria prévia sobre o modo de vida americano, antecipando em alguma medida o que viria a ser a ansiedade dos tempos modernos. O que talvez explique o fato de ele ter sido eleito, à época, o quarto melhor do ano pela Cahiers du Cinema. Pra desespero dos detratores.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Pérolas da Netflix - Nimona

De: Nick Bruno e Troy Quane. Com Chloë Grace Moretz, Riz Ahmed e Eugene Lee Yang. Aventura / Comédia, EUA, 2023, 142 minutos.

Vamos combinar que animações que abordem temas atuais, sejam eles respeito às diferenças, igualdade entre gêneros, racismo, mudanças sociais e quebra do status quo, existem aos montes. Aliás, são justamente estas produções que aquele tiozão de extrema direita costuma chamar pejorativamente de "lacração". "Sim, porque não se fazem mais desenhos como antigamente", dirá o barbado de 38 anos, enquanto a sua mãe leva até o seu quarto o lanchinho da tarde - muito provavelmente composto de Toddy e Doritos. Só que, nesse cenário, o indicado ao Oscar Nimona parece dar um passo além. Porque confesso a vocês que poucas vezes vi um roteiro tão bem costurado, com tantos diálogos riquíssimos, que apresentasse seus argumentos de forma tão inteligente, respeitando não apenas os adultos, mas também os adolescentes que o assistem. Em resumo, é um filmaço, pelo qual desde já tenho profunda admiração. E que ficarei feliz se vencer a maior premiação do cinema em sua categoria.

Baseada em uma graphic novel de ficção científica do cartunista americano ND Stevenson - que não li -, a trama nos joga para uma espécie de reino que, há mil anos, é protegido por uma linhagem de cavaleiros nobres, que descendem da rainha Gloreth. Esta, teria derrotado uma ameaça conhecida como o Grande Monstro Negro, o que a fez construir um muro altíssimo nas cercanias do Império. Só que muito tempo se passou e hoje o reino é uma espécie de cidade futurista, que segue sendo defendida por estes cavaleiros de elite. Com a modernidade e o possível rompimento desse ideal mais antiquado, surge um certo Ballister Boldheart (Riz Ahmed), que está prestes a se tornar o primeiro plebeu da história a se tornar um cavaleiro. Só que tudo sai errado quando, na noite de coroação, Ballister acidentalmente assassina a própria rainha Valerin (Lorraine Toussaint). O que faz com que o sujeito se torne um pária, um fugitivo que passa a ser perseguido pela Instituição.

Vivendo no submundo e tentando reconstruir a sua vida, Ballister receberá a inesperada visita da Nimona do título (Chloë Grace Moretz), um ser metamorfo (capaz de se transformar em absolutamente qualquer ser vivo) e que tem um pendor para a vilania. Ela acredita que o protagonista tenha executado a rainha por gosto e que, assim, possa ser a companhia ideal para seus pequenos delitos. Só que o que interessa para Ballister é limpar a sua barra. E Nimona aceita ajudá-lo sob a desculpa de que este, mais adiante, a converta em uma espécie de braço direito. E eu admito que esse cenário inicial pode não parecer tão atrativo, mas não deixa de impressionar como a obra de Nick Bruno e Troy Quane vai ganhando força conforme avança. Em meio a discussões sobre diferenças de classes, sistemas totalitários, opinião pública e até lavagem cerebral, descobriremos mais sobre o passado de Nimona e de como ela se converte em alguém que precisa viver às sombras na sociedade. Simplesmente por ser uma jovem diferente do padrão que se espera.

De forma inteligente, as mensagens vão sendo entregues sem forçação de barra, sendo simplesmente impossível não se emocionar no terço final quando, evidentemente, todos perceberão que não é a aparência ou o estrato social que moldará o caráter dos sujeitos. [SPOILERZINHO] Especialmente depois que Ballister e Nimona descobrem uma grave traição que parte de dentro do próprio reino - uma sabotagem que resulta na já citada morte da monarca Valerin (alguém com uma mente mais aberta ou menos conservadora que seus antecessores). Divertido, alegórico, cheio de piadas espertas e com uma presença de espírito acachapante - observe como Nimoma adota a personalidade dos animais em que ela se metamorfoseia (ela roubando um pedaço velho de pizza na condição de ratinho de esgoto me derrubou!) -, a obra é um daqueles achados da Netflix, que talvez ficasse mais escondida se não fosse o fato de ter sido lembrada no Oscar. Alguém poderá dizer que não há grandes novidades aqui. Mas não podemos esquecer que esse é um projeto voltado à adolescentes de 12 anos. E nada melhor do que um conto de fadas as avessas pra nos fazer refletir sobre as transformações do mundo.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Cinema - Segredos de Um Escândalo (May December)

De: Todd Haynes. Com Natalie Portman, Julianne Moore, Charles Melton e Cory Michael Smith. Drama / Romance, EUA, 2023, 118 minutos.

Segredos de Um Escândalo (May December) é aquele tipo de filme que gera desconforto justamente por vermos a quebra das nossas convicções - aliás, em linhas gerais costuma ser muito cômodo ver as nossas crenças confirmadas em um filme. Validadas. Quando aquilo que acompanhamos diz respeito a exatamente o que pensamos. Vejamos, a obra do sempre competente diretor Todd Haynes (de Carol, 2015) é um exercício levemente metalinguístico, em que acompanhamos a atriz de baixo orçamento Elizabeth Berry (Natalie Portman) se aproximar de Gracie Atherton-Yoo (Julianne Moore) para uma pesquisa de campo para seu próximo papel. Gracie possui um passado controverso, pra dizer o mínimo, que envolve um crime sexual: em 1992, quando tinha 36 anos, foi flagrada fazendo sexo com um menino de apenas 13 anos, que era colega de escola de seu filho. Todos muito provavelmente concordarão se tratar de um delito bárbaro, certo? Sim, certo. Ainda que nem tudo pareça tão simples.

E, vá lá, talvez seja justamente ao adicionar complexidade ao que assistimos, que Haynes consegue fazer com que reflitamos um tantinho a mais sobre tais eventos. O caso é que desde os anos 90 já se vão mais de vinte anos e não apenas o menino violentado - seu nome é Joe Yoo (Charles Melton) - cresceu, como segue casado com Gracie. Ela já na faixa dos 60 anos. Ele ainda um rapaz de 35. A relação iniciada de forma condenável se converteria mais tarde em matrimônio (e, em juventude suprimida). Ainda que a criminosa tenha tido de passar alguns anos na cadeia - local em que, por sinal, deu à luz Honor (Piper Curda), o filho mais velho, que está na faculdade. E que é fruto justamente do abuso. Além dele, Gracie e Joe possuem mais dois filhos, um casal de gêmeos que está prestes a concluir o Ensino Médio. E, quando Elizabeth inicia as suas seguidas visitas à bela casa de campo da família, no Estado da Geórgia, toma também contato com a história de todos ali envolvidos. Fazendo com que nós também conheçamos melhor a própria Elizabeth. Que se torna a real protagonista.

 

Porque um filme sobre pedofilia e abuso sexual também pode andar numa linha muito tênue entre a condenação antecipada e a indignação justa. E, aqui, o balizador de caráter talvez devesse ser a personagem de Portman. Ao menos em teoria. E é justamente ao subverter essa lógica, que a obra se fortalece. Afinal, seria simplesmente óbvio demais uma Elizabeth que avança sobre o casal revelando novos segredos, eventos absurdos ou traumas do passado. Que revirasse gavetas e armários para descobrir que há ainda mais nos porões apodrecidos da América conservadora (com seus jardins vistosos e bandeiras dos Estados Unidos como enfeites). Mas o que está posto está posto - tanto que a produção é inspirada no famoso caso real de Mary Kay Letourneau (um episódio que, na época, recebeu atenção nacional, sendo inclusive romantizado em certas esferas midiáticas). E Elizabeth tem as suas vontades, seus desejos reprimidos - inclusive de fama e de ascensão na carreira -, que evidenciarão as suas próprias frustrações. Ela não está ali para julgar. E quem buscar uma espécie de "advogada" em construção no papel soberbo de Portman, certamente se decepcionará.

Como exemplo, vale citar o instante em que Gracie instrui Elizabeth sobre o estilo de maquiagem e de batom que utiliza - uma sequência de rima erótica que parece revelar um embate interno que vai no limite entre a empolgação e a repulsa. Em seu íntimo, talvez Elizabeth desejasse ser como Gracie? Gostaria ela de interpretar esse papel para além do campo da ficção? Vai saber. Ao se aproximar de Joe, ela simula certa ingenuidade de quem está ali apenas a trabalho - ainda que instantes antes o espectador tenha achado no mínimo curioso o sorriso com ares de flerte enviado a meninos adolescentes no corredor de uma escola, ou mesmo a naturalidade com que ela fala de "cenas de sexo" no mesmo educandário, em uma palestra com jovens. Essa ambivalência das intenções da personagem - uma figura multifacetada, nunca unilateral -, é o que movimenta as dinâmicas de poder entre todos. Sim, a gente sabe que de nada vai adiantar Gracie fazer de conta que é a dona de casa perfeita (com seus bolos de mirtilo e sua existência ordinária). Ou Joe mencionar que é feliz ao lado dela (ainda que seus ombros caídos, seu hobby excêntrico e seu olhar perdido digam o contrário). Isso fica claro - ainda que sob um manto de suposta perfeição. Mas é Portman quem faz a mágica, quem confunde e nos arremessa para todos os lados. Convertendo esta em uma experiência tão desconfortável quanto fascinante.

Nota: 9,0