sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Lado B Classe A - The National (High Violet)

Poucas bandas surgidas nos anos 2000 conseguiram manter uma coesão - não apenas de estilo, mas também de qualidade sonora - como o The National. Não à toa, não é tarefa fácil escolher apenas um disco do grupo, oriundo de Cincinatti, Ohio, para ilustrar a nossa segunda edição do Lado B, Classe A. Quadro que, apenas para lembrar, tem o objetivo de apresentar a vocês alguns dos nossos discos modernos favoritos, especialmente aqueles lançados na última década, de bandas que não são assim tão conhecidas do grande público. E que já podem ser qualificados na categoria de "clássicos da atualidade". Esse recorte, é preciso que se diga, poderá ser bem distinto, como vocês verão mais adiante, já que por aqui poderão passar desde o Deerhunter até o Arcade Fire.
Na verdade, o primeiro álbum que ouvi da banda capitaneada por Matt Berninger foi o também já clássico Boxer (2007) que, para muitos fãs do grupo, se constitui no melhor trabalho. O fato é que foi paixão a primeira "ouvida". Aqueles versos ao mesmo tempo soturnos e carregados de melancolia, amparados por um instrumental acústico, cru - bem distante das firulas computadorizadas de outras bandas da mesma geração (alguém aí falou em Muse?) - me arrebataram. Ainda que claustrofóbico, o trabalho era (e ainda é, claro!) repleto de refrões grudentos, daqueles para ficar na cabeça ainda algumas horas e dias após as audições. Quem já escutou canções como Fake Empire e Green Gloves, pra citar apenas duas, sabe do que estou falando. Bom, na ocasião o álbum permaneceu no repeat durante toda a noite. Aliás, lavar a louça da janta poucas vezes foi tão prazeroso como daquela vez.

A audição do Boxer serviu de porta de entrada para outros discos. O álbum anterior, Alligator (2005), se não é tão coeso como o seguinte, é igualmente belo, possuindo ainda duas das melhores canções do grupo: Secret Meeting e The Geese of Beverly Road. O mesmo valendo para o mais recente trabalho dos caras, intitulado Trouble Will Find Me, de 2013. Mas foi com High Violet (2010), que o quinteto atingiu a sua plenitude artística - se é que possível que a sua trajetória seja descrita dessa maneira. Com um pouco mais de apuro na parte instrumental, muito por conta da riqueza de detalhes alcançada pela dupla de guitarristas Aaron e Bryce Desner, o disco mantém o clima perturbador ao projetar em seus versos problemas do homem moderno, especialmente os da seara amorosa.
As letras são um verdadeiro espetáculo a parte. A abertura, com Terrible Love, utiliza uma metáfora ao comparar um amor complicado com o fato de se estar "caminhando com aranhas". As tristezas estão por todo o canto. Em Sorrow, Berninger lamenta: I live in a city sorrow built / It's in my honey, it´s in my milk. Já em Afraid of Everyone, a fuga, com base em medos cotidianos é tema: With my kid on my shoulders, I'll try / Not to hurt anybody I like. Os lamentos sussurrados, cantados de forma arrastada e melancólica, quase tornam "visível" a figura de um homem que sofre de amor, em algum subúrbio, enquanto entorna goles e mais goles de algum whisky barato. O disco não recebeu nota 8,7 do conhecido site Pitchfork à toa - recebendo na ocasião o selo de Best New Music. E nós, aqui do Picanha, o reconhecemos como um legítimo exemplar Lado B, Classe A.

Disco da Semana - Sleater-Kinney (No Cities to Love)

Já fazia dez anos que as garotas roqueiras do Sleater-Kinney não lançavam disco - o último foi o barulhento The Woods, de 2005. Mas se engana quem pensa que esse meio tempo tenha sido exclusivamente de descanso - uma filosofia que, é bom que se diga, nem combinaria com a proposta da banda. Uma das vocalistas, Carrie Brownstein, esteve envolvida em quatro temporadas da série Portlandia que, dizem, é uma das mais engraçadas da atualidade (alguém aí já viu?). Outra vocalista, Corin Tucker, trabalhou em carreira solo, tendo lançado o último disco em 2012.
Ocorre que o hiato parece ter feito muito bem para a banda de Olympia, Washington, que agora retorna com o ótimo No Cities to Love. O álbum, com 10 músicas e pouco mais de meia hora de duração, mantém a já tradicional visceralidade e a verve roqueira que sempre caracterizaram o grupo. Afinal, nunca é demais lembrar que se trata de uma banda que "opera" com duas guitarras e uma bateria. O que torna o som cru e até agressivo para ouvidos que talvez estejam mais acostumados a ouvir cantoras pop sussurrando versos românticos e melosos em canções prontinhas pra tocar em alguma rádio light.



Nunca é demais lembrar que o Sleater-Kinney faz parte do movimento das  Riot Grrrls que, nos anos 90, surgiu justamente como forma de protesto relacionado a um certo machismo no mundo da música. Diziam as integrantes do movimento, que os homens seriam incapazes de vê-las de forma igualitária, ou seja, como alguém que tem seus direitos, expressa suas opiniões e é capaz de tocar uma guitarra de forma furiosa. E esse estilo sempre resultou em letras ao mesmo tempo divertidas, sacanas, confessionais e diretas ao ponto, versando sobre temas os mais variados, como sexo casual, ditadura da moda, bebedeiras, entre outros.
A diferença desse para os discos mais recentes do trio, é que, ainda que o som continue ruidoso, como já dito antes, há que se destacar um aumento do caráter melódico das composições, fruto também de um esplêndido trabalho vocal. Se antes quase não conseguíamos encontrar refrões nas letras verborrágicas e furiosas - sendo talvez a única exceção o clássico álbum Dig me Out, de 1995 -, agora, eles estão em toda a parte. Portanto, não se surpreenda se você se pegar cantarolando, após ouvir duas ou três vezes canções como A New Wave, Bury Our Friends, Gimme Love e, especialmente No Cities to Love - que mais parece algum "lado B" do disco Show Your Bones do Yeah Yeah Yeahs. Enfim, um retorno que deve ser saudado.

Nota: 8,0

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Aquecimento para o Oscar - O Grande Hotel Budapeste

Se você é daqueles que até quer ver os filmes do Oscar, mas não sabe nem por onde começar, aqui está uma boa dica: O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2013, 100 minutos), obra de Wes Anderson indicada a nove estatuetas, já está disponível em DVD.O filme contempla o período entre as duas guerras mundiais e narra a história de um famoso gerente de um hotel europeu que conhece um jovem empregado, tornando-se seu amigo. É dessa amizade que surgem várias aventuras, envolvendo, entre outros, o roubo de um famoso quadro do período renascentista e a batalha pela fortuna de uma família.
De certa forma, não deixa de ser uma surpresa o fato de a obra ter recebido tantas indicações - e é preciso que se diga que, ainda que o filme seja uma divertida e colorida alegoria sobre as transformações históricas ocorridas durante a primeira metade do século XX, não chega a ser melhor do que Os Excêntricos Tennenbauns (2001) por exemplo, ótimo filme de Anderson que, na época, recebeu apenas uma mísera indicação na categoria Roteiro Original. O Grande Hotel... além de indicado a Melhor Filme, concorre nas categorias: Diretor, Roteiro Original, Desenho de Produção, Fotografia, Figurino, Montagem, Maquiagem e Trilha Musical. Lembrando que a cerimônia ocorre no próximo dia 22 de fevereiro!


Novidades em DVD - O Artista e a Modelo

De: Fernando Trueba. Com Jean Rochfort, Aida Folch e Claudia Cardinale. Drama, Espanha/França, 105 minutos.

Recém-chegado às locadoras, o filme O Artista e a Modelo (El Artista y la Modelo, 2013) é, à moda das obras europeias, uma película de silêncios, de longos planos, de reflexões. Na trama somos apresentados a Marc Cross (Rochfort), escultor octogenário já há tempos aposentado, que resolve voltar a ativa após a esposa Léa (Cardinale) oferecer abrigo a uma fugitiva (Folch) do regime de Franco, na Espanha. A jovem, de vinte e poucos anos, passa a morar no atelier de Cross que, pouco a pouco, recupera a vontade de trabalhar, utilizando a moça como modelo.
É deste improvável encontro que, a despeito de tantas diferenças, surgirá não apenas uma relação de "trabalho", mas também uma amizade. Enquanto Cross trabalha dias e dias a fio, de forma calma e paciente, aproveita os intervalos para "doutrinar" a sua modelo em assuntos relacionados às artes, especialmente a pintura. E, neste ponto, é especialmente tocante a parte em que ele explica um pequeno desenho de Rembrandt a jovem, com uma riqueza de detalhes tão interessante que, no fim, também nos faz pensar o quão pouco sabemos sobre o tema.


Filmado todo em preto e branco, em alguns momentos pode fazer lembrar algumas películas dos anos 60, período em que os filmes em cores ainda se constituíam em uma novidade que, aos poucos começava a ganhar espaço. E, a presença de Claudia Cardinale, que tantos filmes clássicos fez - como 8 1/2 de Fellini ou O Leopardo de Visconti, pra citar apenas dois - apenas reforça essa impressão, ainda que, atualmente, ela seja apenas uma senhora de 75 anos. E, evidentemente, não mais a jovem que, quando pós-adolescente, chegou a ganhar concursos de beleza - sendo esse o caminho para que iniciasse a carreira no cinema.
Nesse ponto o filme de Trueba - que faturou o Festival de San Sebastián, na categoria Melhor Diretor, estando presente também em outros festivais - também apresenta um valoroso recurso metalinguístico, já que Léa não demonstra o mínimo ciúme do marido - ao contrário, é uma incentivadora -, tão segura que está de sua estonteante beleza de outrora, reforçada em muitos momentos pelo marido artista. E, ainda que se refira a personagem, é impossível não pensar na atriz na vida real. Tendo a guerra como pano de fundo, a obra peca apenas por não dar uma maior profundidade aos personagens, sempre se limitando a apresentar poucos lados de suas personalidades. O mesmo valendo para os poucos personagens secundários que, no fim, acabam mal aproveitados.

Nota: 7,0




quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

10 Curiosidades Sobre o Oscar

1) Os filmes mais premiados da história do Oscar são Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003). Cada uma das produções faturou 11 estatuetas. Mas quem estraçalhou mesmo foi O Senhor dos Aneis, que conquistou todas as categorias em que havia sido indicado. Outra particularidade sobre a película de Peter Jackson: ele é o único da categoria Fantasia a faturar o prêmio, na história.

2) Por outro lado, os maiores derrotados entre todas as premiações foram os filmes Momento de Decisão (1978) e A Cor Púrpura (1986) que, a despeito das 11 indicações cada, saíram de mãos abanando.

3) Alguns dos maiores ícones da história do cinema jamais conseguiram faturar a tão cobiçada estatueta dourada. Os casos mais notáveis são os de Richard Burton, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock e Kirk Douglas, que recebeu apenas o Oscar honorável, em 1996, das mãos de seus filhos, entre eles Michael Douglas. O gênio Charles Chaplin também foi reconhecido da mesma forma, recebendo a honraria em 1972, aos 82 anos de idade.

4) Em toda a história, apenas duas pessoas receberam o Oscar póstumo, sendo o caso mais recente o do ator Heath Ledger, pela sua assombrosa interpretação do Coringa, em O Cavaleiro das Trevas, de 2009. O outro foi o ator Peter Finch, por sua interpretação em Rede de Intrigas de 1976. Outros cinco atores mortos receberam indicações, mas sem faturar o prêmio: Spencer Tracy, Massimo Troisi, Ralph Richardson, Jeanne Engels e James Dean.

5) Apenas três filmes atingiram a impressionante conquista das cinco principais categorias da Academia - Melhor Atriz, Melhor Ator, Roteiro (Adaptado ou Original), Melhor Diretor e Melhor Filme: Aconteceu Naquela Noite, em 1934; Um Estranho no Ninho, em 1975 e O Silêncio dos Inocentes, em 1990.


6) Apesar de impressionantes, as 19 indicações da atriz Meryl Streep, não chegam nem perto do número de nominações recebidas pelo falecido Walt Disney, o verdadeiro recordista: foram 59 indicações e 26 vitórias. O segundo colocado na lista é o compositor John Williams, que já esteve entre os finalistas 49 vezes, tendo ganho em apenas cinco oportunidades. Apenas para constar, Meryl ganhou apenas três estatuetas.

7) Na categoria Filme Estrangeiro quem domina o campinho é a Itália, com onze produções premiadas, estando entre elas três do diretor Federico Fellini: Noites de Cabíria (1957), 8 1/2 (1963) e Amarcord (1973). Na América do Sul, os maiores vencedores, como não poderiam deixar de ser, são os nossos hermanos argentinos, com duas conquistas. O Brasil, que nunca venceu, foi indicado em apenas quatro oportunidades.

8) A produção mais longa a levar o Oscar na história foi o clássico Guerra e Paz, de 1968. A obra, com mais de sete horas de duração, faturou a estatueta na categoria Filme Estrangeiro.

9) A mais jovem vencedora de um Oscar foi a pequena Tatum O'Neal, filha do ator Ryan O'Neal, que aos dez anos recebeu o premio como Atriz Coadjuvante no filme Lua de Papel, de 1974. A segunda mais jovem, a canadense Anna Paquin, só pôde assistir ao próprio filme cinco anos após sua produção. O filme O Piano, em que ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, era proibido para menores de dezesseis anos e ela só tinha onze.

10) E pra finalizar, uma curiosidade que tá mais pra uma divertida lenda, ainda que haja muitos sites que abordem o assunto. Uma das melhores histórias desses 86 anos de estatuetas, celebridades e tapete vermelho, envolve a vitória de Marisa Tomei em 1993. Corre nos bastidores que, naquele ano, a vencedora na categoria Melhor Atriz Coadjuvante deveria ser a Vanessa Redgrave por sua interpretação em Retorno a Howards End. Só que quando o veterano Jack Palance subiu ao palco para anunciar as indicadas, insistiu em fazê-lo sem os óculos. Resultado: na hora, ele até conseguiu ler no teleprompter, que tem letras maiores, todas as nominadas. Só que, no momento de revelar a vencedora, depois de abrir o envelope, não conseguiu enxergar! Para evitar a saia justa, já que o silêncio estava se tornando constrangedor, apelou de novo para o teleprompter, que ainda apresentava o nome de Marisa, última a ser chamada. Ninguém em Hollywood parece confirmar essa história, mas não deixa de ser curioso o fato de Marisa ter faturado o Oscar pela comédia Meu Primo Vinny.




Aguardemos outras histórias para a 87ª edição do Oscar, que ocorre no dia 22 de fevereiro.

Fontes das informações: megacurioso, guia dos curiosos, ccine e gq.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aquecimento para o Oscar - Virunga

Alguns filmes do Oscar 2015 já estão disponíveis para o espectador caseiro mesmo antes da premiação que acontecerá no dia 22 de fevereiro. Uma categoria pouco divulgada e apreciada por quem acompanha a premiação, mas não menos importante, é a de Melhor Documentário. Para usuários do serviço de streaming Netflix, o documentário Virunga, produzido pela própria empresa e tendo como um dos produtores executivos Leonardo DiCaprio, já pode ser assistido e é um dos fortes concorrentes ao Oscar.

O filme mostra a luta de guardas florestais na reserva de Virunga, no Congo, pela preservação da natureza local e sobrevivência dos Gorilas e outros animais que ali vivem. Com a chegada da empresa britânica SOCO ao país para exploração de petróleo, cuja área de perfuração compreende parte do território de Virunga, e através do apoio pelo grupo rebelde local M23 - disposto a ajudar a empresa na exploração de petróleo em troca de "comissões" - instaura-se um clima de tensão no local, tendo início um conflito armado. Toda a negociação é acompanhada de perto por uma jornalista francesa que, correspondente de guerra, colhe informações importantes que ajudam a desmascarar as "boas intenções" da corporação inglesa. Mostrando uma realidade paradoxal, onde incríveis belezas naturais contrastam com a miséria do país e a ganância imperialista, Virunga serve como denúncia contundente, funcionando como um thriller apavorante que, se fosse roteirizado, poderia soar implausível (coisa que, infelizmente não é o caso aqui), e também como um importante alerta sobre os danos que nosso planeta vem sofrendo e a participação dos humanos "racionais" nestes. Um filme necessário.

Pérolas do Netflix - Sin Nombre

De: Cary Jôji Fukunaga. Com: Paulina Gaitan, Edgar Flores, Marco Antonio Aguirre e Leonardo Alonso. México, Drama / Aventura, 2009, 96 min.

Depois de assistir a maravilhosa primeira temporada da série True Detective, fui logo correr atrás das produções do diretor americano de origem japonesa Cary Jôji Fukunaga. Pra minha surpresa, encontrei no Netflix o primeiro longa-metragem do diretor, o mexicano Sin Nombre. E a aposta foi certeira: assim como a supracitada série, este filme não decepcionou com seu drama violento de interpretações viscerais e narrativa idem.



Sem paz em um mundo de violência e lutas entre gangues, o mexicano em fuga Casper (Flores) irá encontrar, no topo de um trem recheado de imigrantes ilegais rumo aos Estados Unidos, a jovem hondurenha Sayra (Gaitan). Um acontecimento violento fará com que seus caminhos se cruzem e, a partir daí, o filme acompanha a dolorosa jornada de ambos através da fronteira em busca de seus destinos. Apesar do tema não ser novidade, o que torna o filme realmente especial são as atuações do jovem e desconhecido elenco, a fotografia de tirar o fôlego, a direção precisa de Fukunaga, e o roteiro recheado de cenas surpreendentes. 
O filme foi saudado pelo lendário crítico americano Roger Ebert como um dos melhores no ano de seu lançamento, sendo também sua direção e fotografia premiadas no festival de Sundance. Violento, pode ser considerado como uma espécie de Cidade de Deus mexicano, ou seja, não é um filme fácil de assistir. Mostrando uma realidade que muitas vezes prefere ser ignorada, é um filme sobre esperanças, falta de perspectivas e a violência gerada em função disso. A empatia criada pelos personagens torna esta uma experiência recompensadora, o que faz com que este filme seja considerado uma "pérola". 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Cinema - Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

De: Alejandro González Iñarritu. Com: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Zach Galifianakis. Comédia / Drama / Fantasia, EUA, 2014, 119 min.

É incrível o poder que a Arte tem de nos surpreender. Mesmo depois de diversos filmes assistidos, ao me deparar com uma obra como este Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), a sensação de arrebatamento foi imediata - e como é bom quando isto acontece! Mais surpreendente ainda, é perceber a guinada na já interessante carreira do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu, dos ótimos (e pesadíssimos) filmes Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. E é curioso perceber que a sua consagração vem exatamente em um filme rotulado como "comédia" - obviamente uma comédia pouco usual, de humor negro, com forte carga dramática e toques de fantasia.

Na trama, Michael Keaton (em atuação consagradora) interpreta o tragicômico Riggan Thomson, ator decadente que nos anos 90 fez sucesso interpretando o super-herói Birdman (alguém leu Batman aqui? lembrou de Michael Keaton interpretando o herói? pois é) e, atualmente, busca reerguer sua carreira fazendo algo que, segundo ele, seja relevante artisticamente - uma adaptação de uma peça de teatro para a Broadway. Paralelamente a isso, o ator tem que enfrentar problemas pessoais, com a filha (Stone), com o elenco, e com a produção da peça.


O que impressiona aqui é a incrível fluidez da narrativa, que dá a sensação de ter sido toda filmada em um único plano sequência - o que não é o caso - seguindo toda a movimentação dos atores, além dos saltos no tempo, tudo de forma extremamente orgânica e ritmada, acompanhada por uma extraordinária trilha sonora feita com sons de percussão. Os cenários são construídos de forma a dar a impressão de estarmos dentro de um labirinto cheio de nuances, luz e escuridão - exatamente como a mente de nosso personagem principal. O diretor consegue, ainda, extrair excelentes interpretações de todo o elenco, não a toa tendo sido grande parte dos atores indicados ao Oscar: Keaton, favorito ao prêmio de melhor ator, Emma Stone e Edward Norton, como atriz e ator coadjuvante, respectivamente. Norton, por sinal, está muito bem como um ator arrogante e complicado, tirando sarro da sua própria persona, visto que na vida real o ator tem a fama de "difícil" nos bastidores.

Com um roteiro riquíssimo e recheado de diálogos inspirados, Birdman traz uma série de tiradas geniais e divertidas, além de profundas reflexões sobre o fazer artístico e um desabafo frente ao mercado de entretenimento. Soma-se a isso uma inteligente crítica aos críticos de arte e uma declaração apaixonada aos atores que, numa época em que basta um "viral" para virar celebridade, ainda insistem em fazer aquilo no que acreditam, sem se submeter à descartabilidade de um mercado cada vez mais inescrupuloso e lucrativo. Indicado a 9 Oscar, incluindo melhor filme, Birdman é um filme ousado, original, profundo, que diverte, emociona e faz refletir -  é Arte com "A" maiúsculo. 

Nota: 10.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Lançamento de Videoclipe - Interpol (Everything is Wrong)

O Interpol lançou ontem (22/01) um videoclipe para a música Everything is Wrong, uma das faixas mais bacanas do álbum El Pintor, último dos norte-americanos, lançado em setembro do ano passado - e que por aqui ficou entre os nossos favoritos do ano! O vídeo, dirigido pelo vocalista Paul Banks, em parceria com Carlos Puga, é todo em preto e branco e mostra os integrantes em diversas situações cotidianas, em grande parte repleta de momentos agradáveis - com exceção daquelas vividas pelo próprio Banks, que não parece um cara de muitos amigos (ao menos no clipe)! No fim, todos se encontram para um show.


Disco da Semana - Belle and Sebastian (Girls in Peacetime Want to Dance)

Se existe uma banda que é um verdadeiro porto seguro para os fãs de música alternativa, esta é o Belle and Sebastian. Desde que lançaram o seu primeiro disco, o ótimo Tigermilk, no longínquo ano de 1996, os escoceses acumulam ótimos registros que, com certeza fizeram parte da formação musical de muitos adolescentes que tinham como única ferramenta de acesso a músicas mais "desconhecidas", o programa Lado B, da (finada) MTV.
De lá para cá foram nove discos de estúdio, além de singles, coletâneas e EPs, tendo como pontos altos, além do já citado Tigermilk, obras como If You're Feeling Sinister (também de 1996) e Dear Catastrophe Waitress (2003). Agora, com o recém-lançado Girls in Peactime Want do Dance (2015) o grupo, liderado por Stuart Murdoch dá continuidade ao processo de elaboração de canções com boa sonoridade, cheias de refrões assobiáveis e com ótimo trabalho instrumental e vocal.



Se por um lado sai um pouco de cena a "fofurice" dos primeiros registros, por outro a banda se apresenta madura e em nenhum momento cansativa ou repetitiva, como ocorreu no único disco realmente ruim dos músicos de Glasgow, Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant (2000). No atual registro, o décimo da carreira, a banda se apresenta mais produzida e alinhada a música eletrônica moderna, como em The Party Line, flertando também com a sonoridade do leste europeu, como no caso de The Evarlasting Muse (uma das melhores), que bem poderia estar em algum disco do Beirut.
Verborrágica, a banda segue construindo suas letras como se fossem verdadeiros sonhos, repletos de metáforas sobre lugares guardados em um passado distante, medos, mentiras e esperança por dias melhores. Um dos primeiros singles, Nobody's Empire, dá uma mostra desse estilo em versos como: Deitada ao meu lado você estava meio acordada e seu rosto estava cansado e amassado/ Se eu tivesse uma câmera eu tiraria uma foto sua agora, porque há beleza em cada tropeço. Muito provavelmente não será o disco do ano. Ainda assim consiste-se, novamente, em um belo registro, mantendo a já tradicional qualidade do grupo.

Nota: 7,9

Ouça:

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

10 Considerações Sobre o Show do Foo Fighters em Porto Alegre

1) Primeiro sobre o Kaiser Chiefs. Pois os ingleses fizeram um show vigoroso, barulhento e recheado de hits, como deve ser uma apresentação de abertura que não dura mais do que 40 minutos. É bem verdade que o foco principal foram as canções do álbum Education, Education, Education & War, lançado em março do ano passado - casos de Coming Home (um dos melhores momentos), Cannons e Misery Company, com o refrão da "risada macabra", que fechou a apresentação. Mas o público que aguardava a apresentação principal sacolejou mesmo foi com I Predict I Riot, Ruby - aquele momento em que todos do plateia se olharam e disseram em coro "oh, taí uma canção que conheço!" - e a melhor de todas as canções dos caras, chamada Never Miss a Beat - uma pérola presente no disco Off with Their Heads.

2) Ainda sobre o Kaiser, o vocalista Ricky Wilson esbanjou humildade e humor inglês ao afirmar com ar melancólico para uma plateia que ainda se acomodava no estacionamento da Fiergs: Oh, you guys are to see the Foo Fighters. De qualquer maneira, souberam brincar e aceitar bem o fato de serem a banda de apoio, com direito a coro junto com o público, que entoava o nome da principal atração da noite. Para quem gosta da banda, meu caso, ficou o gosto de "quero mais". Ainda mais com a ausência de petardos pop como The Factory Gates, Heat Dies Down e The Angry Mob.

3) Infelizmente não conseguimos ver a apresentação da Comunidade Ninjitsu, uma das favoritas aqui da casa. Enquanto aguardávamos na fila do lado de fora, podíamos ouvir o desfile de hits, como Merda de Bar. Parece ter sido um bom show. E, concordem ou não os fãs xiitas, bastante combinante com a noite.

4) As apresentações foram marcadas pela pontualidade. O Foo Fighters atrasou apenas cinco minutos. Mas quando entrou no palco, levou a plateia abaixo com um início de show irrepreensível, com as músicas Something From Nothing, The Pretender, Learn to Fly, Breakout, Arlandria, Generator e My Hero. Se fosse pra escolher a melhor sequência de sons da apresentação, na minha opinião seria essa. Uma abertura enérgica que fez todo mundo pular!

5) O espetáculo foi marcado por versões mais longas das canções, o que tornou alguns trechos do show um pouco mais cansativos - especialmente pra quem não é muito ligado em excessos de virtuosismo instrumental. Monkey Wrench, por exemplo, teve uma execução de cerca de 15 minutos, entre barulhinhos e firulas - chegou a parecer um pesado evento com o Pink Floyd em algumas horas. Isso explica, em partes, as quase três horas de apresentação.


6) Outro ponto que explica o tamanho do evento é o carisma de Dave Grohl. A vontade, bateu papo com o público, fez caretas, sorriu e brincou MUITO com a plateia. A cada vez que empunhava o microfone pra conversar soltava alguma pérola, como no momento em que disse que iriam tocar tantas canções, que tocariam até músicas do NONO álbum. Isto, apenas para, depois de ouvir a galera delirar, soltar um we don't have a nine record, arrancando risadas do público.

7) Além das músicas já citadas, a apresentação contou com outros hits do grupo, como Walk, I'll Stick Around, Times Like These, These Days e Rope - esta última uma boa surpresa já que, em algumas das exibições ela não tem sido tocada. Entre os covers estiveram Detroit Rock City do Kiss, Miss You dos Rolling Stones e Under Pressure do Queen com o David Bowie. O fechamento foi com Everlong.

8) Ausências sentidas foram de Big Me, This is a Call e The Feast and the Famine, canção do disco Sonic Highways que, inexplicavelmente, não tem entrado nos shows. Do disco lançado ano passado foram executadas, além da já citada Something from Nothing, Congregation, Outside e In the Clear.

9) A grande decepção da noite MESMO, foi o local dos shows. O estacionamento da Fiergs, por ser muito espaçoso, não parece contemplar de forma satisfatória a parte acústica. O som ficava espalhado e, curiosamente, até baixo, em alguns momentos. Durante o lento set acústico, em que tocaram Skin & Bones, Wheels e Times Like These, era mais possível ouvir a plateia conversando paralelamente do que ouvir Grohl cantando. Outro caos envolveu a saída. Com apenas uma porta para "desovar" mais de 30 mil pessoas, o processo foi lento, arrancando vaias, empurrões e gritos do público. No nosso caso, mesmo com a apresentação tendo terminado às 0h07 minutos, a saída do local ocorreu quase à 1h, com muito aperto e cotovelos nas costelas. A organização também falhou um tanto ao não disponibilizar uma segurança satisfatória ao local. Fora os preços impraticáveis. R$ 10 uma água de 500 ml? Tão de brinqueichon?

10 No mais, valeu muito curtir um espetáculo com uma das bandas que fez e faz parte da minha vida. Até lembrava ontem: o primeiro CD que comprei nessa minha existência foi o The Colour and the Shape, em 1996, quando tinha 15 anos. Poder ver os caras ao vivo quase 20 anos depois, não deixa de ser uma realização.


Lado B Classe A #1

Mansions - Doom Loop (2013)

Existem obras de arte que são inacreditavelmente ignoradas, seja por falta de sorte ou má divulgação. Outras por má qualidade mesmo. O quadro Lado B Classe A busca trazer a tona discos e filmes que, na opinião do Picanha, não tiveram o reconhecimento devido e achamos que pode agradar o público que nos acompanha. Verdadeiros tesouros escondidos que acabamos por conhecer graças a aquele amigo nerd que, por um acaso ou pesquisa aprofundada, acabou entrando em contato e repassando pro mundo.

Tempos atrás estava zapeando o Deezer e do nada me começa a tocar o terceiro álbum da banda MansionsDoom Loop. Até então nunca ouvira falar deste grupo de Seattle e, realmente, se forem fazer uma busca no Google, a informação é escassa. No entanto, o som que jorrou das caixas de som me obrigou a parar tudo e ver (ouvir) o que estava acontecendo. Uma barulheira infernal brotava na sala de casa e, antes que eu pudesse desligar o aparelho, aquela massaroca sonora começou a revelar um teor pop, harmonioso, melodias altamente assobiáveis e, pronto, estava eu fisgado. Resultado: fui parar somente na décima - e última - música do disco, pronto para o repeat. Daí que fui me dar conta: a primeira faixa, Climbers, seria uma música pop convencional a não ser pela sua produção que chama a atenção do ouvinte logo de cara (ei, me escute, estou aqui!) com sua bateria cavalar e distorções guitarreiras estilo My Bloody Valentine, Sonic Youth, e Jesus and Mary Chain. Mas, passado o estranhamento inicial, o que se revela é uma sucessão de hits que fariam o The Killers sentir inveja - dada a precariedade de seus últimos discos. A produção suja, mas bem produzida, continua por todo o álbum, porém a sensibilidade melódica vai sendo aguçada a medida em que o disco roda. Difícil escolher pontos altos devido a qualidade uniforme das faixas, mas arrisco a dizer que La Dentista e The Economist poderiam facinho figurar como destaques nas rádios do mundo todo.


Mansions

Escute o disco no player abaixo:

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Da Série Melhores Músicas de 2014 #10

Foo Fighters - The Feast and the Famine

Nós aqui do Picanha até sabemos que o álbum Sonic Highways não é nenhum The Colour and the Shape, mas é preciso que se diga: The Feast and the Famine, segundo single lançado pelo Foo Fighters para promover seu último disco, é um baita som! Pesado, emulando o punk e o hardcore dos anos 70, a canção tem refrão pegajoso e letra que remete aos já citados estilos musicais. Além disso, não poderia haver melhor maneira de fechar o nosso quadro especial com algumas das melhores músicas de 2014 do que com uma canção da banda capitaneada pelo simpaticíssimo Dave Grohl. Ainda mais levando-se em conta que o show do Foo Fighters em Porto Alegre é amanhã - e nós aqui do blogue somos só expectativa!


Nas próximas semanas iniciamos por aqui o quadro de resenhas com os principais discos que serão lançados durante o ano de 2015. E convidamos vocês a nos acompanhar! =)

Novidades em DVD - Se Eu Ficar

De: R. J. Cutler. Com Chlöe Grace Moretz, Mireille Enos e Joshua Leonard. Drama, EUA, 106 minutos.

Filmes com pessoas em coma existem um bom punhado e com ótimas histórias. Puxando pela memória, é possível lembrar os divertidos Fale com Ela (2002)  de Pedro Almodóvar e O Tigre e a Neve (2004) de Roberto Benigni ou mesmo os densos O Escafandro e a Borboleta (2007) de Julian Schnabel e Menina de Ouro (2004) de Clint Eastwood. Todos com boas credenciais para serem apreciados por qualquer fã de cinema que se preze. É diferente do que ocorre com este Se Eu Ficar (If I Stay, 2014) que, é preciso que se diga, deve ter escapado por pouco de ser indicado para o Framboesa de Ouro.
A obra do desconhecido diretor R. J. Cutler é um rocambole mal arranjado que mistura filme para adolescentes e religião, apostando nos mais variados clichês - como narração em off, câmera lenta, frases de efeito, estereótipos estudantis (e adultos), manipulação das lágrimas, entre outros. A trama gira em torno da Jovem Mia Hall (Moretz), musicista prodígio que precisa decidir entre a dedicação integral à carreira na famosa escola Julliard ou o amor de sua vida - no caso o jovem e inexpressivo Adam (Jamie Blackley). Tudo muda após ela sofrer um acidente, perder a família, entrar em coma e precisar decidir se fica no mundo, apesar de tudo que ocorreu, ou se escolhe o caminho da luz.
As idas e vindas no roteiro mostram como foi a vida de Mia até então - ao lado dos pais também ligados a música e ao irmão - dando o estofo para que ela consiga tomar a sua dramática decisão. Os personagens que estão vivos e ao seu lado - uma amiga, o candidato a namorado, os avós - conversam com ela auxiliando no processo. Sem entrar na questão religiosa, ainda que não tenha conhecimento sobre a possibilidade desse tipo de "decisão" quando se está em coma, o filme definha na forçação de barra das interpretações, nos diálogos amadores (o avô ausente se aproximando e falando os motivos para ela ficar são de deixar pasmo) e na falta de verossimilhança - onde já se viu uma menina bonita e inteligente ser a excluída da escola? Ainda assim a obra foi hit nos cinemas e deverá fazer boa carreira na telinha. Mas se você procura algo mais "adulto", bom, é só voltar lá pro primeiro parágrafo.

Nota: 2,7


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Cinema - Whiplash

De: Damien Chazelle. Com Mles Teller, J. K. Simmons e Paul Reiser. Drama, EUA, 2014, 107 minutos.

Histórias sobre professores sofrendo o diabo na mão de alunos pentelhos existem aos montes no cinema. Puxando pela memória é possível lembrar de, entre outros, Mentes Perigosas, Ao Mestre com Carinho, Entre os Muros da Escola. Situação inversa, com professores dominadores, ainda que ocorra em alguns casos, como no excelente alemão A Onda, já é um pouco mais raro de se ver. Assim, com argumento levemente diferente do convencional, a obra Whiplash - Em Busca da Perfeição (Whiplash) surge como uma saborosa história de amor e ódio entre professor - no caso o irascível Terence Fletcher (Simmons, soberbo) - e aluno - o determinado Andrew Neyman (Teller, visto em Divergente e Reencontrando a Felicidade).
Neyman sonha em ser baterista. E baterista dos bons e não da bandinha de rock do colégio, que ele fez com os amigos para tocar Strokes. Com esse objetivo em mente, entra para o conservatório de Shaffer, a melhor escola de música dos Estados Unidos, onde passa os dias ensaiando, tocando e batucando, repetidamente, por horas e horas. No tempo livre, escuta ídolos de outrora, como o baterista de jazz Buddy Rich, que, dotado de grande velocidade e habilidade, foi um dos melhores de sua geração. Numa dessas andanças pelos corredores da escola, Fletcher o encontra tocando e, encantado pelo seu estilo, o leva para fazer parte da orquestra principal do conservatório.


Só que aquilo que seria motivo de alegria, se torna um inferno quando o jovem toma conhecimento dos métodos agressivos adotados pelo maestro Fletcher, capaz de levar seus alunos ao limite, por meio de agressões físicas e mentais. Tudo para que os acadêmicos possam tocar as notas musicais, exatamente da forma como ele deseja. E, para que no futuro, possam se tornar virtuoses reconhecidos, capazes de ir para além do marasmo no qual a indústria musical se encontra no momento - de acordo com o professor. É dessa troca enérgica entre dois sujeitos querendo fazer o melhor um pelo outro, que se sobressai uma das relações mais curiosas e interessantes do cinema recente.
Simmons, espetacular no papel, ao mesmo tempo em que irrita o espectador com as humilhações e agressões cometidas contra seus alunos - com direito a cadeira arremessada em um deles - por outro parece fazer seu de tudo para que os estudantes saiam da mediocridade (e algumas de suas frases são impagáveis). Já Teller, se entrega ao papel de sua vida, encarnando um jovem autoconfiante que, para atingir seus objetivos na vida, é capaz de abrir mão de outras tantas conquistas que, em outros momentos, talvez pudessem ser importantes. Em alguns casos, a obra, que faturou vários prêmios em Sundance, mais parece um filme de suspense, com seus cenários claustrofóbicos e salas e corredores escuros. Tudo pra criar o clima de terrorismo vivenciado pelos estudantes de Shaffer.

Nota: 8,8


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sobre The Walking Dead, Zumbis, etc.

Há poucos dias finalmente comecei a assistir The Walking Dead.

Embora ache absurdo filmes e séries sobre zumbis, devo admitir que a questão do "e se acontecesse?" pode trazer reflexões e situações bem interessantes para serem exploradas. Estou gostando da série, bem produzida, personagens bem desenvolvidos, maquiagem realista (sem efeitos computadorizados identificáveis), enfim... estou dando o braço a torcer.

No entanto, um curta-metragem assistido tempos atrás me chamou especialmente a atenção. Se chama Cargo, tem apenas sete minutos e você pode assistir logo abaixo. Um filme simples com uma ideia genial e perfeitamente desenvolvida, tendo sido finalista do Tropfest, um Festival de Curtas realizado na Austrália. Assistam!

Melhores Letras de Música da História (ou não!) #1

Jorge Ben Jor - Taj Mahal

Que o Jorge Ben (Ou Jorge Ben Jor, dependendo da fase e/ou numerologia) é muito louco das idéias isso não é novidade. Suas letras tem uma peculiaridade incrível e por isso foi nosso escolhido para inaugurar este quadro. Difícil escolher entre tantas "pérolas" da poesia e do cancioneiro popular. Provavelmente outras canções do músico voltarão a aparecer por aqui (lembram-se do "bichinho bonito e verdinho que dá na água"?).

No entanto, a escolhida de hoje é o hit Taj Mahal. Quem nunca dançou esta música em algum baile de carnaval ou festa com os amigos? Mas vamos à análise da poesia da letra.

Um monumento ao amor

A introdução começa lentamente e já chama a atenção do ouvinte. Como um bom diretor de cinema, faz um gancho para algo importantíssimo que deverá ser relatado no ato seguinte:

Foi a mais linda história de AMO-OO-OO-OR
Que me contaram, e agora, eu vou contaaaaar...

Vamos lá, que já tô começando a ficar curioso: na parte seguinte ele especifica que a história na verdade é do amor do príncipe Shah-Jahan pela princesa Mumtaz Mahal. E tu fica naquelas de "nossaaaaaa, que demais deve ser essa história, digna das Mil e Uma Noites, tô louco pra ouvir como que foi que se conheceram, se foi pelo Feice, se foi na festa da empresa, ou por meio de um amigo que tirou foto com pau de selfie."

Do amor do príncipe
Shah-Jahan pela princesa
Mumtaz Mahal
Do amor do príncipe
Shah-Jehan pela princesa
Mumtaz Mahal...


Bacana, a curiosidade toma conta, queremos saber como foi essa história e... e... e...

e...

e...

e...

CADÊ???? WTF????

RÁÁÁÁ!!!! Pegadinha do Mallandro! Procura no Google Rapá!!!!

Tê Tê, Têtêretê
Tê Tê, Têtêretê
Tê Tê, Têtêretê
Tê Tê...
Uhou! Uhou!
Tê Tê, Têtêretê
Tê Tê, Têtêretê
Tê Tê, Têtêretê


E assim vai a música, até o final, em loop quase infinito de Tê Tê, Têtêretê. E a história qual era mesmo?


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

10 considerações sobre os indicados ao Oscar 2015

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou nesta manhã a lista de indicados para a 87ª edição do Oscar 2015, que ocorre no próximo dia 22 de fevreiro. Birdman e O Grande Hotel Budapeste foram os filmes com mais nomeações, figurando em nove categorias. A lista completa você confere no Cinema em Cena. E, nós aqui no Picanha, aproveitamos o clima da premiação para fazer uma lista com 10 considerações sobre o Oscar.

1) Esta é a primeira vez em que oito filmes são indicados na categoria principal, desde que as regras mudaram, em 2011, com a possibilidade de o número de indicados variar de cinco a dez. Este fato pode ser interpretado de duas maneiras diferentes. Ou a safra está muito boa, o que fez com que a inclusão de votos fique mais equilibrada. Ou, pelo contrário, a relação de filmes está mais fraca, o que não motivaria os "acadêmicos" a indicarem não mais do que oito obras. O que, vamos combinar, parece ser a realidade deste ano.

2) Para quem não quer perder nenhum detalhe sobre os filmes indicados na principal categoria da noite, mas não sabe bem por onde começar, a dica é assistir ao curioso O Grande Hotel Budapeste, do excêntrico diretor Wes Anderson. Esse é o único que já foi lançado em DVD por aqui.

3) Quem tiver sorte (e um bom cinema na cidade), poderá acompanhar os filmes Boyhood e Whiplash na telona. Por aqui, até o momento, nenhum dos dois deram as caras. Boyhood já teve resenha por aqui. E o Whiplash deverá ter seu texto publicado em breve.

4) Para quem gosta de filmes mais movimentados, com explosões e bastante ação, mas ainda assim não quer perder nada do Oscar, pode unir o útil ao agradável. Obras como Planeta dos Macacos: O Confronto, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e Capitão América 2: O Soldado Invernal já estão disponíveis em DVD. O mesmo vale para animações como é o caso de Como Treinar o seu Dragão 2.

5) No quadro Aquecimento para o Oscar, publicado no último dia 5 de janeiro aqui no Picanha, demos como praticamente certa a indicação do filme Foxcather na categoria principal da noite. Como diria o impagável Fausto, imitado pelo Pedro Smaniotto do Pretinho: ERÔOOOOOOOU!!!


6) Gostei da indicação do filme polonês Ida para Fotografia. É sempre legal ver obras estrangeiras nominadas em categorias que normalmente são polarizadas por americanos. E, para quem gosta de participar de "bolões", a nominação de um filme em língua não americana em qualquer outra categoria, sempre pode ser um indicativo de quem vencerá como Melhor Filme Estrangeiro.

7) Ainda sobre filmes estrangeiros, como nós aqui do Picanha já havíamos adiantado, a obra Relatos Selvagens é a América do Sul na Libertadores no Oscar. É difícil, mas desde já fica a torcida por essa pérola cinematográfica feita pelos nossos hermanos.

8) E a Meryl Streep hein? Já nem sei mais dizer quantas indicações a atriz já teve (nós por aqui perdemos a conta). Até quando o filme parece ser bem mais ou menos, como é o caso desse Caminhos da Floresta, ela conquista a nominação. No caso, como Atriz Coadjuvante.

9) Fico tentando imaginar a frustração da atriz Jennifer Aniston, que era dada como praticamente certa na categoria Melhor Atriz, pelo seu trabalho em Cake, após tantas indicações ao Framboesa de Ouro. Na última hora, quem pegou a quinta vaga foi a sempre talentosa Marion Cotillard, por Dois Dias, Uma Noite.

10) Por fim, atenção para as datas de lançamento de algumas das obras nominadas na categoria principal da noite: A Teoria de Tudo, Birdman e Foxcatcher estreiam no dia 22 de janeiro. O Jogo da Imitação na semana seguinte, no dia 29. E, por fim, o Sniper Americano, tem a estreia marcada para o dia 19 de fevereiro. É aguardar!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Da Série Melhores Músicas de 2014 #9

Beck - Say Goodbye

O cantor Beck lançou um discaço ano passado chamado Morning Phase. Apesar de meio ignorado pela crítica, o álbum foi incluído em boa parte das listas de melhores do final do ano, muito por conta da estrutura por vezes minimalista e melancólica, com canções repletas de cordas, bateria arrastada e melodias bem arranjadas. Bastante diferente do clássico Odelay (1996), no trabalho se sobressai uma atmosfera mais dramática e menos dançante. Mas igualmente bem orquestrada, como é de praxe na carreira do multi-instrumentista americano. Entre os destaques, a belíssima Say Goodbye, é daquelas com refrão grudento e letra inteligente que brinca, com jogo de palavras, sobre as diversas formas de "se dizer adeus". E que, aqui na nossa série de melhores do ano, é a penúltima a figurar.


Aquecimento para o Oscar - Sniper Americano

Faltando apenas um dia para a divulgação da lista de indicados ao Oscar 2015 - os nominados serão conhecidos a partir das 11h da manhã, no horário de Brasília - a expectativa por parte dos cinéfilos só aumenta! E um dos filmes que tem crescido na "bolsa de apostas" da premiação é o Sniper Americano (American Sniper, 134 minutos), mais recente empreitada do sempre respeitado diretor (e ator) Clint Eastwood, que estreia no Brasil no dia 19 de fevereiro. No caso, na quinta-feira que antecede o final de semana da grande noite do Oscar, que ocorre no dia 22 do mesmo mês.
A trama, adaptada do livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History, conta a história real de um atirador de elite das forças especiais americanas que, durante 10 anos, teria matado mais de 150 pessoas. Sendo inclusive condecorado por isto. O tenso trailer mostra o protagonista (vivido por Bradley Cooper, que foi quem comprou os direitos da obra), em um momento de indecisão diante de uma mulher e uma criança em atitude suspeita. Há uma tendência de que o filme seja indicado não apenas na categoria Melhor Filme, mas também na de Roteiro Adaptado (Jason Hall), Fotografia (Tom Stern), além de Mixagem e Edição de Som. Correndo por fora, o próprio Eastwood tenta abocanhar uma vaga na final. É aguardar!


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Cinema - Relatos Selvagens

De: Damián Szifron. Com Ricardo Darin, Oscar Martinez e Leonardo Sbaraglia. Comédia dramática, Argentina, 2014, 122 minutos.

Candidato praticamente certo a estar entre os cinco finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar - os indicados serão conhecidos na próxima quinta-feira (15/01) - o filme Relatos Selvagens (Relatos Salvages), pequena obra-prima em seis episódios do diretor Damián Szifron, surge nas salas brasileiras nesse final/início de ano para confirmar aquilo que muitos cinéfilos talvez até saibam, mas custem a admitir: a Argentina, atualmente, faz os melhores filmes da América do Sul. É só puxar pela memória: O Filho da Noiva, Nove Rainhas, O Abraço Partido, Leonera, Medianeras, Clube da Lua, O Pântano, XXY, O Homem ao Lado... são tantas as boas películas que daria para escrever um parágrafo inteiro apenas com elas.
E os nossos hermanos não apenas produzem bons filmes, como sabem vendê-los muito bem para o mercado estrangeiro. Sabendo do bom trânsito do diretor Juan José Campanella por Hollywood - muito por conta do seu trabalho na direção de séries como Law & Order, 30 Rock e House - encaminhou ao Oscar de 2010 o belo O Segredo de Seus Olhos, que tinha Campanella no comando. O resultado? Pra quem não lembra, a película argentina faturou a estatueta daquele ano, superando grandes produções como o francês O Profeta, de Jacques Audiard e o favoritaço da noite A Fita Branca, outra obra-prima moderna, esta dirigida por Michael Haneke. O Oscar não é muito famoso por zebras, mas, nesse caso, pode-se até dizer que ela passou pelo tapete vermelho. Mas uma zebra calculada, talvez.


Relatos Selvagens mantém a tradição recente de bons filmes do nosso país vizinho. A obra é uma espécie de coletânea de curtas, onde são escancarados boa parte dos problemas da sociedade moderna, estando entre eles, a intolerância entre os humanos, a burocracia governamental, a falência de instituições consagradas como o casamento, o individualismo, a impaciência, os julgamentos ao outro, o desejo de vingança... Enfim, um painel organizado no formato de pequenas peças que nos fazem refletir sobre nossas ações e que consequências elas poderão ter agora, mais adiante ou daqui há muitos anos. Seja ela terminar com o namorado(a) ou xingar um sujeito no trânsito por que (talvez) ele tenha te fechado.
É um filme que faz rir, mas não a risada gostosa de se estar assistindo a algum filme dos Irmãos Farrelly - ou do Chaplin, se for de sua preferência - mas é a risada de nervoso, de estranhamento, de curiosidade. Quase como estar assistindo a um filme dos Irmãos Coen feito na América do Sul. Sobre os argumentos de cada um dos episódios, acho válido para quem ainda não tenha visto - e corram, porque é só até amanhã, no shopping! - ir para o cinema sem saber de nada. É provável que o sabor dessa pérola cinematográfica seja ainda mais gostoso. Se vai ganhar o Oscar ou não, ainda não temos como saber - o favorito parece ser o polonês Ida. E o importante é estar na jogada. A nós, brasileiros,  resta nos perguntar como seria se tivéssemos enviado O Lobo Atrás da Porta. Enfim, é só um palpite deste jornalista e cinéfilo que vos escreve.

Nota: 9,6

Lançamento de Videoclipe - The Afghan Whigs (The Lottery)

Quem acompanha o Picanha sabe que o The Afghan Whigs é uma das bandas favoritas da casa. O novo clipe saído do álbum Do to the Beast é da faixa The Lottery. A música é uma das mais roqueiras do disco e sua sonoridade remete aos primeiros trabalhos do grupo.

O videoclipe é uma homenagem a Ryan O'Hara, engenheiro de som, que fica no backstage durante os shows controlando todos os detalhes para que as coisas corram conforme o esperado. No entanto, O'Hara costuma fazer seu showzinho particular nos bastidores, demonstrando todo o seu amor pela profissão e pelo grupo que acompanha nas turnês. Greg Dulli, líder da banda, na descrição do vídeo no Youtube relata que "(...) muitas vezes esqueço de cantar porque fico observando a sua performance (...) Isso é rock and roll! É o que nos faz seguir em frente".

Uma bela homenagem, e uma música para se curtir no último volume!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Premiações - Destaques do Globo de Ouro 2015

Na noite passada aconteceu a 72ª premiação dos melhores filmes e séries de 2014 pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), o Globo de Ouro.

O filme Boyhood - Da Infância à Juventude (clique AQUI para ler nossa resenha), de Richard Linklater, ficou com os prêmios mais importantes da noite (filme dramático e melhor diretor) além do prêmio de melhor atriz coadjuvante para Patricia Arquette.

Equipe do filme Boyhood

Na categoria comédia ou musical, a surpresa ficou por conta da premiação de O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, como melhor filme, superando o até então favorito Birdman, de Alejandro González Iñarritu.

Apesar de não ter ganho o prêmio principal na categoria, Birdman arrematou os prêmios de melhor roteiro original e ator de comédia/musical para Michael Keaton. Na categoria ator dramático, o prêmio ficou para Eddie Redmayne pela personificação de Stephen Hawkings em A Teoria de Tudo. Já os prêmios de atuação feminina foram entregues para Julianne Moore (atriz dramática, Para Sempre Alice) e Amy Adams (comédia/musical, Grandes Olhos).

Outro momento interessante da noite foi a premiação de atores veteranos como J.K. Simmons, melhor ator coadjuvante por Whiplash - Em Busca da Perfeição, e de Jeffrey Tambor, comediante que ganhou o prêmio de melhor ator em série de televisão comédia/musical por seu papel na série Transparent - vencedora também como melhor série na categoria. Tambor, emocionado com o prêmio, retrata na série uma personagem transgênero (uma espécie de Laerte da gringa), de forma sensível e humanizada. A Associação premiou também novidades como a série The Affair  (melhor série dramática e melhor atriz da categoria para Ruth Wilson).

Jeffrey Tambor em Transparent: Laerte?

Na categoria filme estrangeiro, outra surpresa: o drama político russo Leviatã venceu o até então favorito filme polonês Ida (resenha AQUI no blog).

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Um dos momentos mais divertidos da noite ficou a cargo das apresentadoras Tina Fey e Amy Poehler. Ao apresentar o prêmio Cecil B. DeMille ao jovem ator George Clooney, pelo conjunto de sua obra na televisão e cinema, as duas fizeram piada com a mais recente esposa do ator, a advogada Amal Alamuddin. Listando o elogiável currículo de Alamuddin - advogada dos direitos humanos responsável por ações na Síria e Faixa de Gaza - as duas brincaram com a idéia de o seu marido estar ali para receber o prêmio pelo conjunto da obra.

O casal Clooney e Alamuddin
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A lista de todos os indicados e premiações você pode conferir neste LINK.

Agora é esperar pelo Oscar 2015. O Picanha Cultural estará trazendo as novidades e comentando filmes e demais indicados. Quem você acha que estará na cerimônia do dia 22 de fevereiro? Escreva pra nós!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Cinema - O Abutre

De: Dan Gilroy. Com Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton e Riz Ahmed. Suspense/Drama, EUA, 2014, 117 minutos.

A palavra abutre está lá no dicionário Michaelis: nome comum das aves de rapina, que nutrem-se preferencialmente de animais mortos. E, nesse sentido, é preciso que se diga que, poucas vezes um título em português foi tão eficaz no cinema recente, como no caso desse O Abutre (Nightcrawler), já que, na película dirigida pelo estreante Dan Gilroy, acompanhamos a rotina do jovem e enigmático Louis Bloom - vivido de forma propositalmente inexpressiva por Jake Gyllenhaal - na busca por imagens de acidentes, incêndios, assassinatos e outros crimes, que poderão ser vendidas por uma grana preta para as emissoras locais. Algo como um verdadeiro banquete de sangue e vísceras que é daquilo que se alimentam, afinal, os programas sensacionalistas.
Até chegar a parte em que Gyllenhaal aparece como um verdadeiro "chefão do tráfico" de IBAGENS (Datena?) chocantes, o filme perde um pouco de tempo - e é aí que reside um dos únicos problemas da obra. Talvez não fosse necessário mostrar como Louis entra pra esse mundo e toda a sua caminhada até se "especializar" na área - de forma autodidata, com vídeos da internet. Ainda que uma das cenas iniciais protagonizadas por Dan, quando acompanhamos um roubo seguido de agressão a um policial, seja importante para que tenhamos conhecimento de seu caráter sociopata, capaz até das atitudes maia agressivas para atingir os seus objetivos. Por mais escusos que estes sejam.


Apostando em uma atmosfera permanentemente sombria - fruto do bom trabalho de fotografia - o filme raramente apresenta algum alívio. Ao contrário, sufoca o espectador que viaja constantemente com Dan e Rick (Ahmed) pelas ruas de Los Angeles e suas madrugadas pouco amistosas, na busca pelas melhores imagens, que se tornam conhecidas por meio de audições de rádio dos canais utilizados pela polícia. Nem sempre dá certo. Mas quando dá, Dan tem a oportunidade de vender seu material para uma pequena rede local - e não deixa de ser curioso notar como a diretora de redação vivida por Rene Russo também funciona como uma espécie de "carniceira", capaz de qualquer coisa na hora de barganhar o produto. Mesmo que isso represente alguns poucos números a mais nos índices de audiência.
Centrando fogo nos programas sensacionalistas que povoam a TV aberta - vamos combinar que, hoje em dia, até no Jornal Hoje da Rede Globo vemos imagens do tipo, diariamente - a obra do estreante Gilroy encontra eco em clássicos como A Montanha dos Sete Abutres (1951) de Billy Wilder ao questionar a manipulação da mídia não apenas das imagens, mas dos envolvidos nelas. Tudo pelos índices de audiência. Apesar das eventuais limitações, a película caiu no gosto da academia tendo chance, inclusive, de ser indicada na categoria Melhor Filme. O mesmo valendo para Gyllenhaal que entrega uma interpretação visceral para um sujeito com sérios problemas. É aguardar.

Nota: 7,6


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Da Série Melhores Músicas de 2014 #8

Lana Del Rey - West Coast

Se você curte rock mas é motivo de chacota por gostar de Lana Del Rey, não tem mais porque se envergonhar. Com o elogiado segundo álbum, Ultraviolence, a bela cantora mostra seu amadurecimento com uma perceptível evolução na sonoridade, caindo de vez no gosto da crítica e alcançando novos nichos - estando presente, inclusive, na lista de melhores discos do ano em diversas publicações de respeito. Com produção de Dan Auerbach, vocalista/guitarrista da banda Black Keys, o álbum traz um som mais cru e orgânico, com bateria, baixo, e diversos efeitos de guitarra fazendo a cama para os versos da cantora - diferentemente do som mais superproduzido do primeiro álbum, Born to Die, de 2012.

West Coast foi o primeiro single do disco, e representa bem a proposta do álbum. O videoclipe, que você pode conferir no vídeo abaixo, tem um clima noir, cinematográfico, e destaca todo o charme, romantismo e atitude da artista estadunidense que vem trazendo cada vez mais qualidade às paradas de sucesso, provando que a boa música pop nada tem de descartável.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Cine Baú: Crepúsculo dos Deuses

De: Billy Wilder. Com William Holden, Gloria Swanson e Erich Von Stroheim. Drama, 1950, 110 minutos.

Existem alguns filmes que são fundamentais para qualquer cinéfilo: Cidadão Kane, O Poderoso Chefão, Psicose, Cantando na Chuva, Casablanca, Luzes da Cidade... a lista é tão longa - muitos possivelmente ainda figurarão nesse quadro - que não caberia nesse texto! Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), lançado em 1950 pelo versátil diretor Billy Wilder, também é uma dessas obras-primas que devem ser vistas por qualquer pessoa que tenha a intenção de se aprofundar na arte da telona, indo para além dos filmes modernos. É um clássico no sentido mais amplo da palavra, não à toa, figurando na 16ª posição da lista de 100 melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute (AFI).


Tendo a indústria cinematográfica como alvo - aliás, interessante notar como este tema era recorrente nas obras da época - Wilder aponta sua câmera cortante, irônica e repleta de metalinguagem e cinismo para a decadente atriz do cinema mudo Norma Desmond (vivida de forma visceral por Gloria Swanson). Desmond passa seus dias em um casarão abandonado, que mais parece uma daquelas mansões mal-assombradas de filme de terror, aguardando pelo momento em que poderá voltar a ser a grande estrela que em algum momento do passado ela já foi - mais ou menos como a insana personagem de Bette Davis, no imperdível O Que Teria Acontecido a Baby Jane? de Robert Aldrich.
A "chance" literalmente bate a porta da atriz, quando o jovem e fracassado roteirista Joe Gill (Holden) aparece, meio sem querer querendo no local. É por meio dele que ela passa a acreditar poder voltar as grandes produções, com uma refilmagem da peça Salomé. À dupla se soma um sinistro mordomo vivido por Stroheim, que, como curiosidade, foi o primeiro marido de Swanson. Aliás, o filme é cheio de boas histórias de bastidores e de participações especiais de atores que, de fato, faziam interpretações na época do cinema mudo - a cena do jogo de cartas conta com a participação de, entre outros, Buster Keaton, um dos principais intérpretes cômicos dos anos 20.
A obra, riquíssima em seu roteiro, cheio de flashbacks, narrações em off e closes - numa espécie de homenagem aos atores do passado, marcados pelo uso intenso da expressão facial - segue sendo uma comédia dramática inovadora, mesmo tendo sido lançada há 65 anos, e que acerta em cheio na máquina recicladora de ídolos que vemos até hoje no cinema, na música e na televisão. Uma crítica feroz a indústria da qual, como consumidores, também fazemos parte. Essencial.


Novidades em DVD: The Rover - A Caçada

De: David Michôd. Com: Guy Pearce, Robert Pattinson e Scoot McNairy. Drama/Crime/Ficção, Austrália/EUA, 103 minutos.

Dez anos após um colapso econômico global, um homem, Eric (Pearce), pára seu carro e entra em um bar de beira de estrada no deserto australiano. No local, uma música oriental toca enquanto do lado de fora uma caminhonete com três integrantes de uma gangue capota. Ao sair do bar, o homem percebe que seu carro foi roubado pelas pessoas que deixaram a pick up abandonada. Eric decide, então, pegar o veículo e sair atrás dos criminosos para reaver o seu carro. A motivação do homem permanece obscura: Quem é ele? O que deseja? O ambiente é hostil e as (poucas) pessoas que se encontram pelo caminho pouco amigáveis, lutando pela sobrevivência. Na caçada, Eric acaba encontrando Rey (Pattinson), irmão de um dos integrantes da gangue, que acabara de ser baleado pelos próprios. O clima desértico é complementado por uma trilha sonora incômoda que pontua todo o filme, onde poucos diálogos se fazem presentes e explosões de violência podem ocorrer a qualquer momento. Falar mais sobre o (pouco) enredo é entregar o filme - o que não significaria muita coisa por sinal.

Robert Pattinson oferece, aqui, uma performance diametralmente oposta àquela que o levou para o estrelato, o Edward da saga Crepúsculo. Com diversos maneirismos de um homem com um tipo de déficit neurológico, o ator consegue ser um bom contraponto ao taciturno Eric, um homem de poucas expressões e olhar profundo. Beirando o experimentalismo, o segundo filme do diretor australiano David Michôd - o primeiro foi o elogiado Reino Animal, de 2010 - mantém o clima claustrofóbico e incômodo de seu primeiro filme, porém sem alcançar o mesmo sucesso. VioLENTO, The Rover - A Caçada pode fazer aqueles que esperam por um filme de ação torcerem o nariz. Muitos esperavam um filme no estilo Mad Max, porém de semelhança só o país de origem, o contexto pós-apocalíptico, e as locações. Existencialista até certo ponto, o filme tenta demonstrar profundidade, mas sem dizer exatamente a que veio, com cenas longas e poucos diálogos. É claro que a trilha sonora e a fotografia valorizam a película, dando um ar peculiar, mas nada que já não tenhamos visto com muito mais qualidade em filmes como Drive (2011) e Onde os Fracos Não Tem Vez (2007).

Valorizando muito mais o percurso do que o início e a chegada, o filme pode provocar reações extremadas do tipo "ame ou odeie", porém no meu caso ficou apenas uma sensação de vazio ao final. Uma proposta ousada, com qualidades estéticas e atuações curiosas, e pessimista em relação à natureza humana (não é por acaso que a cena em que a pureza de certo personagem é retratada soa tão deslocada dentro da história, demonstrando, numa grande sacada, o poder que a música pop tem sobre a esperança de dias melhores - unindo, por sinal, as duas coisas que motivam este site a existir), The Rover deixa a expectativa sobre o que o talentoso diretor virá a desenvolver em seu próximo filme tendo em mãos um roteiro mais elaborado.

Nota: 5,2.



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Da Série Melhores Músicas de 2014 #7

Damon Albarn - Mr. Tembo

Chega a ser até curioso o fato de que o vocalista do Blur - e do Gorillaz - Damon Albarn, jamais tivesse lançado antes um disco solo, até a chegada de Everyday Robots, no último mês de abril. Apesar dos quase 30 anos de carreira a frente das duas bandas e de todas as experimentações já realizadas, é interessante notar que, mesmo bebendo das distintas fontes já utilizadas anteriormente, o trabalho - que chegou a figurar em algumas listas de melhores do ano e com razão - aproxima o músico de outras possibilidades que, em linhas gerais, parecem resultar em uma mistura melancólica e robótica (como sugere a faixa título).
Nesse sentido, é interessante notar que Mr. Tembo é tudo aquilo que o restante do álbum não é: uma música quente, ensolarada, com groove de música gospel e refrão fácil - tão grudento quanto o de Seasons (Waiting On You) do Future Islands, que já figurou anteriormente nesse quadro. A curiosa letra fala sobre um elefante bebê da Tanzânia que, órfão, foi adotado por um grupo que o batizou de Mr. Tembo. Em entrevista à Revista Rolling Stone, Albarn contou que cantou a música meio de improviso para o bebê elefante, mandando o resultado, uma gravação via celular, para o produtor que trabalhava em seu disco. Talvez naquela hora, o músico inglês ainda não soubesse estar criando uma das faixas mais legais do ano!


Novidades em DVD - Era Uma Vez em Nova York

De: James Gray. Com: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner. Drama, 120 minutos.

O filme Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant, 2013), a julgar pelo título traduzido para o português, remete desde já a clássicos do cinema como Era Uma Vez em Tóquio (1953), Era Uma Vez no Oeste (1968) e Era Uma vez na América (1984), e não é para menos: a bela direção de arte, figurinos, e fotografia ajudam a formar a aura de "filmão clássico", embora este esteja mais para um melodrama baseado no relacionamento entre três pessoas (os imigrantes do título original) em ambientes fechados, do que para um épico de grandes proporções.

Passado durante o ano de 1921, o filme mostra a chegada da imigrante polonesa Ewa (Cotillard) e sua irmã aos Estados Unidos, após a Grande Guerra, em busca de melhores condições de vida - o famoso "sonho americano". No desembarque em Nova York, Ewa não recebe a visita de seus tios que moram no país, sendo assim acolhida pelo "cafetão" Bruno (Phoenix) para poder entrar na cidade. Enquanto isso, sua irmã acaba ficando em observação por suspeita de tuberculose. A partir daí dá pra perceber que a vida de Ewa não será nada fácil: necessitando de dinheiro para pagar a hospitalização da irmã e sobreviver neste ambiente hostil, Ewa passará por diversas provações - morais, familiares e pessoais. Há também, espaço para um triângulo amoroso envolvendo Bruno e o mágico Emil (Renner).

O ponto forte da película é justamente a dinâmica entre os três personagens, principalmente nas figuras de Bruno e Ewa que, nas atuações de Phoenix e Cotillard, demonstram uma complexidade comovente, fazendo o telespectador repensar e rever os julgamentos frente a estas trágicas figuras. Aliás, Cotillard já demonstra ser uma das grandes atrizes da atualidade, tendo neste Era Uma Vez em Nova York sua segunda grande e elogiada atuação do ano recente (a outra foi no filme Dois Dias, Uma Noite, dos irmãos Dardenne). Vencedora do Oscar pelo filme Piaf - Um Hino ao Amor (2007), a atriz enfrenta uma forte concorrência este ano, correndo por fora para as indicações ao prêmio de melhor atriz. Fechando ainda o filme com um dos planos finais mais belos, econômicos e elegantes que tenho lembrança, o diretor James Gray demonstra todo seu talento como cineasta, entregando uma obra que deve ser vista e recomendada. A nossa parte já foi feita.

Nota: 8,1.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pérolas do Netflix - Sentidos do Amor

De David Mackenzie. Com Ewan McGregor e Eva Green. Drama / Ficção Científica, 2011, 92 minutos.

É preciso admitir: apesar do título em português não ajudar em nada, Sentidos do Amor (Perfect Sense), é aquele tipo de filme pra ser saboreado calmamente, ouvido com atenção, enfim, degustado como o melhor prato de um menu de comida italiana. É um filme pequeno, sem grandes investimentos em orçamento ou em elenco, mas capaz de compensar o espectador com uma história curiosa e arrebatadora, que te faz refletir sobre aquilo que é realmente importante em nossa vida. Ou mesmo de como significam para nós as pequenas ações do cotidiano, como ver e ouvir, sentir, cheirar, tocar.

Na curiosa trama que mistura drama com ficção científica, a humanidade padece de uma nova e surpreendente doença em que todas as pessoas perdem o olfato. Entre elas está um chef de cozinha - vivido com a já habitual paixão de sempre por Ewan McGregor - e uma médica infectologista - interpretada por uma carismática Eva Green. A situação, já dramática, piora, quando alguns passam a perder, também o paladar. O diretor David Mackenzie capricha nos diálogos, na trilha sonora e na fotografia acinzentada, que, somados aos ângulos de câmera muitas vezes próximos aos atores, tornam a experiência angustiante e claustrofóbica. Até a narração em off, muitas vezes o calcanhar de Aquiles desse tipo de obra, é instigante, coberta por imagens bem recortadas, capazes de envolver - e sufocar, é preciso que se diga - qualquer espectador. Ao final da sessão, é impossível não secar as lágrimas ao se ver envolvido por essa experiência que mexe com todos os sentidos. Uma verdadeira pérola.

Aquecimento para o Oscar - Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

A caracterização do ator Steve Carell - que estamos acostumados a ver em comédias leves como O Virgem de 40 Anos - no trailer, já é o suficiente para despertar a curiosidade a respeito do filme Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (Foxcatcher, 134 minutos), que estreia no próximo dia 22 de janeiro, nas salas brasileiras. Séria candidata a uma vaga na corrida pela estatueta de Melhor Filme, a obra conta a história do excêntrico treinador Du Pont (Carrell), que contrata para a sua equipe de luta greco-romana um jovem talento (vivido por Channing Tatum). Adepto dos treinos por meio de imersão, ele pede que o atleta venha morar em sua mansão.
O trailer mostra que o filme promete, ao elevar a tensão envolvendo o curioso relacionamento entre técnico e atleta. Reunindo um bom elenco - completado pelo sempre competente Mark Rufallo - o diretor Bennet Miller - dos anteriormente nominados O Homem que Mudou o Jogo (2011) e Capote (2005) - corre por fora para tentar uma vaga na categoria Melhor Diretor (a disputa está parelha com Wes Anderson e seu O Grande Hotel Budapeste). Carell (Ator) e Rufallo (Coadjuvante) também podem aparecer entre os indicados. Outra categoria em que o filme deve aparecer é a de Cabelo e Maquiagem. Resta aguardar os indicados, que serão conhecidos no dia 15 de janeiro. O Oscar ocorre no dia 22 de fevereiro.


domingo, 4 de janeiro de 2015

Grandes Cenas do Cinema (ou não!): Nacho Libre

Na comédia Nacho Libre, de 2006, o monge Ignacio (Jack Black) sonha em tornar-se um campeão de luta livre, assumindo a persona de Nacho, el luchador. Tudo na surdina, é claro, para que seus superiores não fiquem sabendo - a luta não é vista com bons olhos por eles. Neste meio tempo vem morar no convento a bela "irmã" Encarnación, despertando a paixão de Nacho. Tendo a bela freira como inspiração, eis que Ignacio compõe o hit "Encarnación", cantando à capela para o seu companheiro de lutas, Esqueleto, a recente composição. Uma mistura de fazer inveja à Eros Ramazzotti e aos Backstreet Boys, que você pode relembrar no vídeo abaixo:


E aqui, a versão remix:

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Novidades em DVD - O Homem Mais Procurado

De: Anton Corbijn. Com Philip Seymour Hoffman, Rachel McAdams, Willem Dafoe e Robin Wright. Thriller de espionagem, 122 minutos.

Não bastasse ser um excelente thriller de espionagem - muito melhor que o confuso e, de certa forma, decepcionante, O Espião que Sabia Demais (2012) - o filme O Homem Mais Procurado ainda tem um atrativo a mais: trata-se da última aparição do ator Philip Seymour Hoffman que, como todo o cinéfilo sabe, morreu no último mês de fevereiro, vítima de uma overdose de medicamentos. Hoffman interpreta o agente de espionagem da inteligência alemã Günter, que "cresce o olho", quando chega a cidade de Hamburgo um imigrante ilegal vindo da Chechênia, um certo Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin).
Todos os passos de Issa são observados, não apenas pelo grupo de inteligência, mas também pela polícia local, uma vez que Hamburgo teria sido uma das cidades europeias que abrigou terroristas após o 11 de setembro. Issa, com sinais de tortura pelo corpo, vai até a comunidade islâmica local pois acredita que, com a ajuda destes, possa ter acesso a herança milionária que seu pai teria lhe deixado em um banco da cidade. Uma advogada (McAdams), lhe apoia na questão, enquanto, por outro lado, Günter e sua equipe acreditam que possam chegar a um "peixe maior" do crime local, que possa ser fisgado com o uso de parte da bolada.
Com habilidade, Corbijn conduz a trama sem exaltações, respeitando o espectador e entregando pouco a pouco as pistas que podem revelar as reais intenções dos envolvidos em cada uma das partes dessa história. Com certa melancolia, a força do filme está no diálogo e nas ações - mas não as ações extremas, como torturas psicológicas ou tiroteios desenfreados e sim conversas envolvendo informantes e observações por meio de câmeras de segurança. Não à toa, uma das principais e mais angustiantes cenas da obra, envolve uma simples assinatura. Um filme com certa complexidade, mas que, ao final, deixa o espectador com um sorriso no rosto, ao perceber como tudo se encaixa.

Nota: 8,6


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Pra Ouvir - Renascentes

Não é preciso ir longe pra encontrar música de qualidade. É certo que o Rio Grande do Sul tem histórico de diversas bandas e artistas que deixaram marcas na música brasileira. Mas hoje eu quero falar de uma banda em especial: a Renascentes, de Porto Alegre.

O primeiro álbum, Renascentes (independente, 2014), demorou 7 anos para vir a tona. Mas a espera valeu a pena: são 12 canções, novas e antigas conhecidas dos shows, lapidadas com precisão e formando uma unidade que demonstra toda a diversidade de uma banda extremamente criativa e talentosa. A Renascentes, formada por João Ortácio (voz, guitarra), Alexandre Fritzen (teclas), Átila Viana (baixo) e Dionísio Monteiro (bateria), é difícil de classificar: podemos perceber a influência de movimentos como a Tropicália e bandas como os Mutantes e Beatles, mas não pára por aí. A base principal é o rock, mas há um passeio por diversos estilos musicais. Para entender melhor, vamos às músicas:

O álbum começa com duas das faixas mais acessíveis e pop/rock do disco, Velho Enredo e Raiar, o que é uma ótima estratégia para fisgar o ouvinte logo de cara. O timbre de voz de Ortácio me fez lembrar muito o de Duca Leindecker do Cidadão Quem, mas bastam algumas músicas pra essa impressão desaparecer e ouvirmos uma banda com um som bastante próprio - embora com influências claramente perceptíveis. Mundo Grão tem uma levada bluesy/pinkfloydiana e é uma das melhores. Poema Seco é uma linda balada com guitarras tipo Radiohead, porém sem o experimentalismo. Atrás dos Olhos tem uma introdução com um piano a lá Elton John (!), uma doce melodia e um final estilo 'Hey Jude' que transforma a música em outro destaque do disco. As referências literárias estão presentes, com citações a José Saramago (Todos os Nomes), e Guimarães Rosa (A Menina de Lá), ambas com uma levada que remete à Jorge Ben e ao samba rock. No cardápio de estilos ainda podemos encontrar tango (Há Uma Festa), folk/moda de viola (Pra Lá de Mim) e forró (Sequência). Estranhíssima faz jus ao título, sendo de fato a faixa mais "estranha" do disco. É a mais "porrada" de todas, um tanto experimental, com quebras de andamento e um final com sopros que lembra o jazz experimentado pelo Radiohead no álbum "Kid A" (mais específicamente, a música National Anthem). Amarelo Alegoria é uma canção mais acessível, com pinta de hit.

Pode parecer estranho que faixas com referências tão díspares entre si possam formar um álbum conciso e que faça sentido, mas não é. Mesmo com o longo período de gravação, a produção limpa e certeira de Marcelo Fruet conseguiu criar uma unidade entre as canções, fazendo com que a banda pudesse adicionar às suas influências uma identidade própria, tornando seu som facilmente reconhecível - uma espécie de best of, mesmo sendo este o primeiro e único lançamento do grupo até aqui. Soma-se a isso um excepcional trabalho gráfico, daqueles que nos faz ter vontade de comprar discos físicos e presentear os amigos, e estamos diante de uma obra altamente recomendável pra quem valoriza a boa música e está em busca de novas e interessantes descobertas.

Para ouvir ou baixar o disco é só ir até o site oficial da Renascentes, aqui neste link.