quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

25 Melhores Discos Nacionais de 2019 (+15 Menções Honrosas)

Definitivamente este foi um dos anos mais difíceis para se escolher apenas 40 discos nacionais que representassem esse período. Em 2019 foram grandes lançamentos. De artistas já reconhecidos e outros nem tanto. E que, em muitos casos, motivados pelo absurdo de uma política nada igualitária, que propagada apenas ódio, preconceito e intolerância, encontraram na arte uma forma de extravasar o grito contido. Não é por acaso que muitos dos registros aqui relacionados representam a resistência em sua forma mais pura. Da revigorada Elza Soares, passando por Djonga, até chegar nos veteranos do Dead Fish ou em novidades como o Rosa Neon, há muito o que expressar, especialmente em tempos de desesperança e de desolação. Talvez não seja por acaso que muitos álbuns simbolizem justamente um refúgio para os dias tão sombrios. Dias estes que a gente espera que passem e deem lugar ao carnaval, à alegria, a festa, as cores e a diversidade. Bom, eis na nossa lista de 25 Melhores Discos Nacionais de 2019 (+15 Menções Honrosas), aqueles trabalhos que mais nos arrebataram. E que seguem nos arrebatando. Boa leitura!

Menções honrosas

40) Boogarins - Sombrou Dúvida
39) Juliana Perdigão - Folhuda
38) Clara Valverde - CASO SÉRIO
37) Raça - Saúde
36) Julio Secchin - Festa de Adeus
35) Jards Macalé - Besta Fera
34) Ana Frango Elétrico - Little Electric Chicken Heart
33) Facção Caipira - Do Lugar Onde Estou Já Fui Embora
32) Vanessa da Mata - Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina
31) Mc Thá - Rito de Passá
30) Siba - Coruja Muda
29) Flávia K - Janelas Imprevisíveis
28) Hot e Oreia - Rap de Massagem
27) Rincón Sapiência - Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroréps
26) Bruna Mendez - Corpo Possível
 


25) Bazar Pamplona (Banda Vende Tudo): por mais divertido que fosse o descompromissado (e metalinguístico) álbum Todo Futuro é Fabuloso é interessante notar a evolução artística a cada novo registro do coletivo paulistano - que agora deixa pra trás o hiato de seis anos. Do clima festivo e pulsante do trabalho anterior sobram alguns poucos respiros em meio a um clima de maior sobriedade - ainda que nem assim tão sério. "Para nós é uma espécie de recomeço" comentou o vocalista Estêvão Bertoni em entrevista ao site Tramp. Nesse sentido, as referências ao folk, a MPB e a música alternativa se mesclam em uma sonoridade mais madura, mais rica em texturas e deliciosamente envolvente. Os versos seguem divertidos, abordando divagações cotidianas e relacionamentos de forma esperta e fluída, como atesta o hit Nós Dois (Nem um trago de cachaça põe ela de pé / Se embaixo do edredom ela cria raiz).


24) Jair Naves (Rente): Qualquer busca por empatia / A essa altura é ingenuidade / Eu me defendo esperando o pior / Minha terra é uma bomba a ponto de explodir. Os versos da inaugural Veemente, que abrem o mais recente trabalho de Jair Naves, dão conta do desencanto generalizado que tomará conta do registro dali para frente. O compositor mineiro, como se fosse uma espécie de profeta de nossos tempos - com sua voz trovadoresca, quase elegíaca -, será o responsável por referendar a completa descrença nos cenários político, social, cultural e ideológico de nosso País. Sem jamais baixar o tom, o artista foge um pouco das divagações cotidianas do homem moderno, que serviam de matéria-prima para Trovões a Me Atingir (2015), seu trabalho anterior, para falar mais sério sobre temas como desejo de poder (Deus Não Compactua), a tragédia das diferenças sociais (Sonhos Se Formam Sem o Meu Consentimento) ou o fascismo que parece florescer (Alívio Cômico / Palanque).

23) Jaloo (ft. parte 1): o nome não é por acaso já que, para seu segundo disco de estúdio, o músico paraense chamou músicos parceiros para colaborarem em todas as canções - Lucas Santtana, Céu, Gaby Amarantos e Karol Conká estando entre eles. Nesse sentido, o registro se consiste em um amplo caleidoscópio que mistura música regionalista, brega e eletrônica, sempre de forma ousada, levemente caricata e invariavelmente divertida. Sem estabelecer limites entre masculino e feminino, Jaloo investe em ma espécie de hibridismo musical (e comportamental) para falar de dores, amores, sofrimento e tesão - num processo de identificação direta com o seu público cativo. Um pouco menos festivo que o inaugural #1 - nosso oitavo melhor de 2015 -, o trabalho mostra ainda um artista um tanto mais maduro, um pouquinho mais longe do deboche, mas sem perder a sua essência. O que pode ser percebido em letras rasgantes, como as de Cira, Regina e Nana, Dom e Movimentá.

22) Pietá (Santo Sossego): com um tom um pouco mais urgente (e reativo) do que aquele empregado no igualmente belo registro anterior - o bucólico e plácido Leve o Que Quiser (2015) -, o coletivo substitui o violino e os clarinetes para investir em guitarras, sintetizadores e um pouco mais de "peso" (e ferocidade). Amparado pela voz afinadíssima da vocalista Juliana Linhares, o grupo mantém as referências à literatura, ao folclore e ao regionalismo, acrescentando à sua poética um discurso mais político, como podemos perceber na explícita Virará (Canto como respiro / Eu sei / É preciso cantar / Pra fugir dessa hipocrisia / Que não reinará jamais / No encanto que se principia). Completada pelo violonista Frederico Demarca e pelo percussionista Rafael Lorga, a banda se conheceu na faculdade de Artes Cênicas da UFRJ, o que explica a propensão para os temas teatrais, sendo a provocativa Jabaculê, um dos melhores exemplos deste expediente. Imperdível!

21) Drik Barbosa (Drik Barbosa): "quero mostrar que o rap não cabe numa caixinha". Foi com essa frase, dita em uma entrevista à Carta Capital, que a paulistana procurou resumir o espírito que rege o seu primeiro e ótimo registro oficial - após o lançamento do EP Espelho (2018). De essência amplamente colaborativa - de Karol Conká (Quem Tem Joga) à Emicida e Rael (Luz) -, o álbum é um caleidoscópio de referências, que mistura o batidão do hip hop, com elementos do pop, do trap e até do axé e do pagode. Nas melodias, nas letras, uma poética que comprova que é possível se divertir, viver, mas sem esquecer os dias de luta - algo que fica entre o resistente e o otimista. "Fico feliz com o reconhecimento, porque sabemos a dificuldade que é fazer arte no nosso País, ainda mais sendo negro", comentou em entrevista para o site Uol. Para quem ainda não conhece, a canção Liberdade (A primeira coisa é gostar de si / Para não se tornar fantoche na mão dos outros por aí ) pode ser uma ótima porta de entrada.

20) Chico César (O Amor é Um Ato Revolucionário): eu costumo dizer que o Chico César está para a Paraíba, assim como Vitor Ramil está para o Rio Grande do Sul. Com estética diametralmente oposta a do gaúcho - sai a placidez milongueira do frio para entrar em seu lugar o regionalismo quente dos ritmos nordestinos -, o artista transforma cada um de seus novos registros em uma verdadeira miscelânea de cores e estilos que reverberam também nos versos: ora românticos, ora com consciência política, ora com reflexões sobre cotidiano e uso de novas tecnologias. Da abertura gospel com a faixa-título, até o encerramento com a circense (e divertida) Cruviana, de tudo um pouco: afrobeat (Lok Ok), brega (De Peito Aberto), pop (a ótima History) e reggae (Pedrada, que é daquelas pra cantar o refrão com toda a força). "Quanto mais a gente dançar, beijar e fazer poesia, mais subversivo a gente vai ser", resumiu sobre o trabalho, em entrevista para a Folha.

19) O Terno (atrás/além): é, pessoal, Tim Bernardes e companhia amadureceram. Deixaram para trás o espírito descaradamente juvenil dos primeiros trabalhos - aquela mistura sapeca de Jovem Guarda, eletrônica, samba e música alternativa cheia de digressões divertidas que debochavam DO MUNDO - para investir em um material mais adulto, elegante e minuciosamente arranjado. Isso é ruim? É claro que não. Na verdade o Brasil de Bolsonaro não anda tendo muita graça e tudo isso ao mesmo tempo em que os integrantes do trio passam a conviver com as responsabilidades da vida adulta, relacionamentos e conflitos cotidianos. "É a conclusão de um grande ciclo, o fim de uma juventude", comentou Bernardes em entrevista ao Jornal O Globo. O resultado desse movimento pode ser percebido em canções mais "robustas" como Tudo Que Eu Não Fiz, Pegando Leve e Volta e Meia. Os millenials, afinal de contas, também crescem. E fazem música da boa.

18) Tiago Iorc (Reconstrução): lançado totalmente de surpresa no primeiro semestre, Reconstrução é disparadamente o melhor registro do músico. É um álbum maduro, mas nem por isso quadrado. Que flerta com os mais variados estilos - indo da eletrônica, ao indie, passando pelo samba com escala na MPB -, mas de uma forma dinâmica, coesa, heterogênea. A cada canção, uma nova possibilidade, um caminho diferente que cresce a cada audição. Nem "novo Belchior", nem compositor meia boca que não presta: o registro parece, literalmente, representar um recomeço para o artista, já que o termo aparece, em suas variáveis, esparramado em canções diversas no decorrer do trabalho - como no caso de Laços (Gota de lágrima, trovão que vem do mar / Revolução e a chance pra recomeçar / Quero a sorte / De reaprender / Essa vidae a Vida Nunca Cansa (Quero viver, quero mudar, motivo não há / E lá fora o mundo volta a girar / Se é só o tempo, então releva / Já não há nada que possa evitar).

17) Lulina (Desfaz de Conta): a gente não pode pegar ninguém pelo braço, enfiar um fone de ouvido na cabeça e dizer "ouve isso, PELAMOR" - mas confesso que com essa pernambucana absurdamente talentosa dá vontade de fazer isso. Em seu terceiro registro - ao menos "oficialmente" -, ela deixa um pouco de lado as emanações mais primaveris que formavam o anterior Pantim (2013), para entregar um material mais consistente, que segue mirando um romantismo ao mesmo tempo torto e sensível, mas sem ignorar o atual momento político. "Gosto de sair de um campo gravitacional musical e ficar perdida, flutuando, até ser puxada a outra situação que eu nem sabia que existia", brincou, em entrevista para o site Trabalho Sujo, ao citar parte de seu processo criativo. O resultado? Um sem fim de canções cheias de letras espertas, melodias sinuosas (não há bateria, apenas percussão), alguma dose de regionalismo, de consciência social e muito bom humor, como atestam as imperdíveis Sina Ou Sinal, Cansada de Alegria e Toda a Solidão.

16) Marcelo Jeneci (Guaia): o terceiro disco de Jeneci é a prova de que ele amadureceu. O artista ainda canta sobre a beleza da vida, sobre a graciosidade das coisas simples e sobre a busca da felicidade em relacionamentos aconchegantes. Mas também parece mais consciente de seu papel como artista, especialmente em um contexto social/políticos de censura às artes, de caçada às manifestações culturais, de alienação. Ser artista, afinal, também é ter responsabilidade. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que esse trabalho soe um pouco menos acessível que os anteriores - como se nas entrelinhas de uma maior densidade (ou hermetismo) também estivesse embutido um convite à uma reflexão mais aprofundada sobre o mundo em que estamos vivendo. Sim, ainda há primavera lá fora, sabemos, mas o Brasil tá pesado, sério, Emergencial. Jeneci está atento a tudo isso, e entrega, na embolada bem à brasileira, um discaço.

15) Céu (APKÁ!): o mais recente registro da paulista é uma continuação tão natural de seu trabalho anterior, que mais parece um álbum de sobras do ótimo Tropix (2016) - e, vamos combinar, não há nada de mal nisso! Eletrônica minimalista, batidas econômicas, teclado sutil e um vocal que se mistura as ambientações sonoras e as melodias de forma naturalmente orgânica. Em resumo: é a artista em sua melhor fase. No lançamento do disco, em seu Instagram, prestou uma verdadeira homenagem ao ato de fazer música, de viver e de trabalhar nesse contexto. "Existe algo além, que vem de dentro. Uma transformação. Acho lindo esse processo, de todos os artistas, de todos que criam. Meu disco/grito tem amor, ternura, contrastes, raiva, incompreensão, incômodos, desejo de renovação", resumiu. Com uma musicalidade ao mesmo tempo tropical e retrô (levemente enfumaçada), Céu segue como uma das mais importantes artistas da atualidade. Não é pouco.


14) Dead Fish (Ponto Cego): Uma jovem democracia / Acorrentada nos porões / Pra que velhos ratos / Possam voltar a reinar / Comprando a justiça / Não há corrupção / Entre brancos e ricos. Em um universo em que roqueiros de boutique enfarofados se assombram ao descobrir o que REALMENTE queriam dizer as letras do Roger Waters, enquanto comem seu hambúrguer gourmet, fazem cross fit e dirigem sua HB20, ver uma banda de hardcore que se mantém fiel às suas origens é um verdadeiro alento. Em seu oitavo registro oficial, a banda de Rodrigo Lima e companhia consegue transformar Ponto Cego - parece haver um conceito metafórico sobre algo que nos escapa da visão -, num verdadeiro documento de seu tempo, apresentado em canções que são verdadeiros petardos punk. Não escapa nada e ninguém, sendo lembrados o golpe de 2014 (Sangue Nas Mãos), a violência no trânsito (Suv's) e até as fake news que projetariam o "mito" ao poder (Messias). Um álbum, definitivamente, histórico.

13) Larissa Luz (Trovão): quem acompanha o trabalho da baiana sabe que empoderamento feminino, racismo estrutural, diferenças sociais e outros temas relevantes da atualidade surgem de forma natural, em cada curva sinuosa de suas composições. Por trás das batidas enérgicas, ritualísticas, eventualmente festivas, uma necessária lembrança a respeito da importância da luta, da resistência e da ressignificação dos sujeitos. "[Esse disco é] um convite a conexão com a natureza mesmo partido da vivência em grandes centros urbanos. Um chamado para a percepção e identificação das claves rítmicas que nasceram na África dentro de um contexto atual e futurista. Um elo entre passado e futuro e um manifesto contra qualquer prática violenta na direção de religiões de matriz africana", explicou no material que apresentava o registro, o terceiro da carreira. Condição comprovada por petardos como Lama, Gira, Raxtera e Acreditar.

12) Brvnks (Morri de Raiva): devo confessar que tenho certo ranço com banda nacional que canta em inglês, mas ocorre que o álbum da goiana Bruna Guimarães (o nome por trás do Brvnks) é absurdamente irresistível. Aliás, com ela temos um Best Coast pra chamar de nosso - se não se importarem com a comparação. Até mesmo porque ter semelhanças com a banda comandada por Beth Consentino de forma alguma quer dizer falta de personalidade ou simples imitação barata. A banda imprime frescor aquele estilo punk/praiano/primaveril que tanto gostamos, seja nos versos descolados, divertidos e que ecoam certa "raiva juvenil" (Yas Queen, por exemplo é uma joia!), seja na musicalidade efervescente, que equilibra fúria e doçura em igual medida - quase a moda de uma Courtney Barnett tupiniquim. "A minha ideia foi a de não escrever mais sobre coisas relacionadas ao amor", explicou, em entrevista ao site Tenho Mais Discos Que Amigos.

11) Terno Rei (Violeta): não são todas as bandas que conseguem colocar as suas referências no "liquidificador" para retirar de lá uma sonoridade nova, criativa, cheia de personalidade - e é preciso que se diga que o coletivo paulistano faz isso com folga. Não por acaso, assim que iniciam os acordes da inaugural e adocicada Yoko já nos sentimos afagados pelo perfume nostálgico das emanações oitentistas, capazes de equilibrar um instrumental eminentemente primaveril, com letras sobre desilusões amorosas, relacionamentos tensionados ou mesmo saudade daquilo que não foi. Na tradução perfeita dos dilemas afetivos modernos, tem-se um registro mais "limpo" se comparado com o anterior Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016). E com menos fumaça, fica fortalecido o diálogo com o ouvinte, que reconhece nas letras amparadas pelas harmoniosas melodias, os seus próprios anseios.

10) Rosa Neon (Rosa Neon): se há algo que a música brasileira é hoje em dia é democrática - e nesse sentido parece não haver limites para a produção artística nacional, especialmente para aquela que está a margem, buscando espaço. Além desse aspecto, coletivos como o mineiro Rosa Neón possuem uma capacidade única de brincar com estilos, indo do reggae (Estrela do Mar), passando pelo brega (Vai Devagar), até chegar a, acredite, o freak folk da faixa título (que não faria feio em algum disco do Dirty Projectors, até mesmo pela mescla de vozes femininas e masculinas). Com brasilidade, frescor e energia, cada curva desse registro inaugural é um convite para um fim de tarde ensolarado, colorido em que a capacidade de rir de si mesmo e de seguir em frente é o que se sobressai - como comprova a ótima Cê Não Tem Dó de Mim. "É uma vitamina, uma mistura danada de coisas", brincou a vocalista Mariana Cavanellas, em entrevista pra Revista Noize. E nós adoramos.

9) Jorge Mautner (Não Há Abismo Em Que o Brasil Não Caiba): com mais se cinquenta anos de carreira ligada as artes, com  diversos livros publicados, filmes e peças de teatro dirigidos, é impressionante a jovialidade e a autenticidade que o veterano imprime ao seu décimo disco de estúdio - o primeiro após um hiato de 13 anos desde Revirão (2006). Verdadeira celebração a vida em família, a religião, as artes e ao regionalismo, Mautner preenche cada curva de seu trabalho misturando figuras reais (dona Catulina, Marielle Franco e José Bonifácio) com outras fictícias, como Deus, o Diabo, orixás e outras presenças que servem como uma alegoria geral para o momento tempestuoso de nosso contexto político/social. Amparado por uma viola nostálgica, segura e sutil, o artista faz um contraponto ao elevar o tom nas letras poderosas, necessárias, ainda que eventualmente primaveris - como atesta a canção Marielle Franco, verdadeiro líbelo antifascista.


8) Karina Buhr (Desmanche): não são poucas as manifestações artísticas e culturais que, na atualidade, funcionam como uma espécie de refúgio para que encontremos disposição para a luta ou para resistir. E que nos permitem algum tipo de esperança em meio ao niilismo, a angústia e a desolação. E é exatamente isso o que faz esse imperdível registro. Nele, Buhr surge como a persona que te resgata e te reergue - uma espécie de porta-voz que faz com que percebamos não estar sozinhos nesse mundo de trevas. Sim, a gente sabe que ouve música também para descontrair, mas em meio a selvageria caótica de sua sonoridade e de suas letras também está representado o grito daqueles que preferem não se calar. Na abertura, com a inaugural Sangue Frio, a artista lembra que o "exército tá matador". É só o começo de uma obra política, forte, empoderada e amplamente necessária.

7) Bárbara Eugênia (TUDA): escutar qualquer disco da artista é como abrir um armário em que estão empilhadas roupas levemente empoeiradas, docemente amarrotadas e talvez até com algum cheiro nostálgico de "guardado". Mas são peças que você ainda deseja usar, que sabe que se der uma repaginada nelas, lavar, passar, elas ainda servirão. Terão lá seu charme. Enfim, funcionarão. Essa metáfora, meio boba até, serve para estabelecer a carioca como uma das que melhor dialoga com a música feita no passado, mas que nem por isso deixa de envernizar os seus trabalhos com uma personalidade própria, cheia de vigor. O que é capaz de conferir certo frescor até mesmo a covers do cancioneiro (brega?) nacional, como é o caso de Por Que Brigamos?, lançada em 1972 pela Diana, e que integrava o ótimo É O Que Temos (2013). Em TUDA o expediente se repete em um álbum enérgico, lânguido, voluptuoso, com as décadas passadas sendo nostalgicamente revitalizadas em ótimas canções, como, Perfeitamente Imperfeita, Confusão e As Maçãs Que Vêm.


6) Matheus Brant (Cola Comigo): quando lançou Assume Que Gosta (2016), Brant deu carta branca para que os hipsters tivessem um disco "carnavalesco" para chamar de seu. O registro, divertido até dizer chega, era um convite nostálgico para um encontro entre a música alternativa e estilos como o arrocha, o axé, a marchinha, o sertanejo universitário e o pagode. Assim, havia muita expectativa em relação ao novo registro do compositor, que chega dando aquela abraço carinhoso no pagode dos anos 90 - sim, aquele mesmo que crescemos escutando nas tardes de Domingo Legal (com meia dúzia de músicos sorridentes, dançando, estalando os dedos e fazendo playback). Só Pra Contrariar, Soweto, Karametade, Os Travessos... há uma pitada de cada um desses coletivos no trabalho, que exala um frescor impressionante, nunca parecendo uma simples homenagem ou uma mera caricatura, como comprovam as imperdíveis Preta, Tudo No Menu e a faixa-título.

5) Emicida (AmarElo): há um conceito no mais recente trabalho do paulistano, que se relaciona à cor amarela, que simboliza luz, calor, descontração, otimismo e alegria. Nesse sentido, talvez não tenha sido por acaso que ele tenha sugerido, em sua conta no Twitter, que as pessoas ouvissem o disco na na parte da manhã. Trata-se de um disco cheio de vida, de cor, que tem um otimismo comovente, mas que não ignora os tempos sombrios que vivemos. É um álbum que vai do conforto matinal (Pequenas Alegrias da Vida Adulta) à frieza escura da noite (Ismália), nos pegando pelo braço e nos afagando. É um disco que tem uma "positividade inconformada, uma rebeldia otimista", como resumiu o rapper Rashid. Na abordagem diversificada, a mescla do colorido sinuoso das conquistas e da vida simples em comunidade - seus amores, gostos, histórias -, com um contraponto que persiste em lembrar que estamos num País violento, que mata pessoas por ódio, por preconceito, por intolerância e por cor de pele. Um disco que deve ser ouvido PRA ONTEM.


4) Elza Soares (Planeta Fome): não é novidade que Elza sempre foi a representação de tudo aquilo que o homem branco, hétero e antiquado, abomina. De família simples, preta, mulher, sempre usou sua aveludada voz e seu talento musical para fazer um contraponto da lógica estabelecida pelo mercado certinho, quadrado. E o que mais impressiona: os anos passam e a artista permanece ativa, prolífica, sendo também a voz que representa as minorias, os vulneráveis. Bolsonaro, todos sabemos, é o inimigo público não só das artes, mas do POVO, ignorando assim o papel transformador das manifestações culturais que, se bem conduzidas, podem direcionar inclusive as boas políticas públicas - caso da Lei Rouanet, espécie de "bode expiatório" do suposto mau uso de nosso dinheiro. E talvez seja por tudo isso que a artista sinta tanta necessidade de se expressar, na lata, sem medo. Nesse sentido Planeta Fome é monumento à nossa música, que pode ser resumido pelos versos corrosivos de Não Tá Mais de Graça e País do Sonho.

3) BaianaSystem (O Futuro Não Demora): misture um pouco de música regionalista, batucada africana, manguebeat, folclore, reggae, antropofagia e latinidade, tudo isso somado a versos que são pura consciência social e você terá um pouco daquilo que esse grande coletivo de Salvador faz. Arredondando os experimentos testados no igualmente bom Duas Cidades - 14º colocado na lista de 2016 -, a banda capitaneada por Russo Passapusso faz a galera dançar, suar a camiseta com o seu suingue orgânico, de grande fluidez, mas sem deixar de lado os claros posicionamentos sobre temas como retrocessos (Bola de Cristal), ditaduras militares (Sulamericano), religião (Navio) e racismo (Saci). Com um conceito que ainda aborda a ancestralidade delimitada pela água e pelo fogo - em entrevistas a banda cita a influência de João Ubaldo Ribeiro -, o grupo se consolida como um dos mais relevantes da atualidade no Brasil, ecoando resistência, com uma estética toda própria, riquíssima e cheia de personalidade.

2) Tássia Reis (Próspera): trap, R&B, hip hop, soul... a naturalidade e a elegância com que Tássia trafega pelos mais variados estilos, dá uma mostra da maturidade alcançada pela artista em seu terceiro registro. Ainda melhor produzido do que o já ótimo Outra Esfera (2016), o álbum começou a ser gestado há cerca de quatro anos - com um resultado, não por acaso, impressionante. Com influências que vão de Ray Charles, passando por Lauryn Hill até chegar na Cardi B, o trabalho é uma verdadeira coleção de versos sobre empoderamento feminino, racismo institucional e vida em comunidade (com desejos, frustrações, romances e conquistas), que são apresentados com um flow aconchegante, com a voz da cantora sendo um dos destaques. "A arte gera um questionamento e tudo o que uma jovem negra de 29 anos fizer e que foi fora do padrão já será um ato político em si", afirmou a paulistana, em entrevista para o site UOL. Nesse sentido, a arte para Tássia tem a ver com resistir - como atestam os PETARDOS sonoros Shonda e Preta D+.


1) Djonga (Ladrão): em seu terceiro trabalho, Djonga olha novamente com carinho para a periferia, para as minorias e para aqueles que convivem com a vulnerabilidade, dando-lhes voz, ecoando suas conquistas (eventualmente pequenas, mas inegavelmente importantes), seus anseios, suas angústias e seus medos - especialmente em um País que convive com o racismo estrutural. Tendo sua força nas palavras, utiliza o verbo para cortar, para oferecer resistência, para grutar e ecoar a voz daqueles que nem sempre falam. Sem autopiedade ou excessos comiserativos, Djonga tem consciência de seu papel na luta e de um porvir de resistência real e palpável, transformando o álbum em um verdadeiro caldeirão de referências culturais - Pantera Negra, Che Guevara e Antônio Conselheiro -, e sonoras, numa mescla abusadamente fluída de trap, hip hop, R&B, jazz e música urbana. Escute Leal e Tipo. Podem ser ótimas portas de entrada para o estilo cru, imprevisível e engajado do artista, que nos entrega com Ladrão, o melhor trabalho desse ano.


Sim, a gente sabe que faltou muito disco legal nessa lista - e queremos que você nos ajude a completá-la! Escreva nos comentários quais foram os principais registros que marcaram esse 2019 e que merecem ser descobertos. E se você curtiu essa lista, não deixe de conferir também a nossa relação dos melhores discos nacionais dos anos de 2018, 2017, 2016 e 2015. Bora ajudar a apagar essa ideia ultrapassada de que não se faz música boa no nosso País!

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