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quinta-feira, 1 de junho de 2023

Grandes Cenas do Cinema - O Pagamento Final (Carlito's Way)

De: Brian De Palma. Com Al Pacino, Sean Penn, John Leguizamo, Penelope Ann Miller e Luiz Guzman. Drama / Policial, EUA, 1993, 144 minutos.

[ATENÇÃO: SPOILERS EM TODA A PARTE!]

Tão impactante quanto aleatória. Tão inesperada quanto simbólica. Assim pode ser resumida a última cena do clássico moderno O Pagamento Final (Carlito's Way), filme de Brian De Palma que completa trinta anos de lançamento em 2023 (e que pode ser alugado na plataforma da Amazon). Na famosa sequência, o personagem Carlito Brigante (Al Pacino) é surpreendido por Benny Blanco (o excelente John Leguizamo), que lhe faz a derradeira pergunta: "remember me, Benny Blanco from the Bronx?". Sem dar um segundo para que seu interlocutor pense, ele simplesmente saca a arma a dispara. Em pleno dia. Na estação de metrô. E tudo depois de uma tentativa desesperada de escapada do protagonista, que andava sendo vigiado de perto por mafiosos barra pesada, após seu advogado David Kleinfeld (Sean Penn) assassinar um chefão do tráfico de drogas local. Foi por um milésimo de segundo que a fuga de Carlito não foi consolidada. E talvez seja por isso que essa conclusão - por mais moralista que seja - me pareça tão perfeita. É um arco narrativo que se fecha de forma soberba.

Ao cabo, o que De Palma parece estar querendo dizer para seu público é que, no fim das contas, como diz o velho chavão, "o crime não compensa". E Carlito parece saber disso. O ano é 1975. E após uma manobra arrojada de Kleinfeld, Carlito é liberado da prisão depois de cumprir cinco anos por tráfico de heroína (sua pena original era de 30 anos). Quando é solto, o sujeito está decidido: não quer se envolver com nada que envolva ilegalidades. Quer arrumar um trabalho, quitar suas dívidas e talvez ir morar em algum lugar idílico, tipo as Bahamas (ele tem uma proposta para uma sociedade em um negócio de aluguel de veículos). Só que quando alguém tão relevante no mundo do crime sai da prisão - e a importância de Carlito em seu meio fica óbvia já nos primeiros segundos de filme - é quase impossível impedir que o rastro de violência, de vingança, de morte e de sangue lhe acompanhe. Não são necessárias muitas horas para que Carlito presencie o assassinato de um primo. Tendo que voltar a matar para salvar a própria pele.

Ok, Carlito até tenta mudar de ares. A morte do primo faz com que o protagonista "herde" um valor financeiro da negociação mal sucedida, o que lhe permite entrar como sócio em uma boate. A ideia segue sendo levantar a grana para fugir dali. Daquele contexto inundado de violência. Só que o problema é que a casa noturna é mantida por Saso (Jorge Porcel), um bonachão que é viciado em jogos de azar. E pra piorar a situação, o espaço ainda é frequentado por candidatos a ocupar a vaga de chefão do crime, deixada por Carlito. É o caso do próprio Benny Blanco que, por mais que se comporte como um trombadinha metido, é mais impetuoso do que aparenta. A ponto de Benny desafiar Carlito permanentemente. Com tudo piorando quando Kleinfeld passa a se relacionar com Steffie (Ingrid Rogers), uma garçonete do clube que funciona como interesse amoroso de Benny. Lá pelo meio do filme, um rebu faz com que Carlito expulse Benny da boate. Um episódio humilhante para o novato. Em outros tempos talvez Carlito não o deixasse sair com vida dali. Mas ele deixa. E, bom, quem se lembraria de Benny até os instantes finais?

Parte da diversão dessa trama rocambolesca sobre mafiosos querendo fazer justiça pelas próprias mãos envolve o fato de Carlito jamais se preocupar com Benny. Ele na realidade está ocupado tentando fugir de todas as formas dos capangas de Anthony Taglialucci (Frank Minucci), o chefão do tráfico que é morto por Kleinsfeld. É gente da pesada e Carlito sabe que a retaliação é inevitável. E é por isso que ele pega parte de sua grana pra tentar fugir junto com Gail (Penelope Ann Miller), uma antiga namorada que, atualmente, trabalha como stripper em uma boate. E tudo parecia que ia dar certo pra Carlito. A polícia havia interpelado os homens de Taglialucci em meio ao metrô. O caminho estava livre. Até aparecer Benny. O Benny Blanco. From the Bronx. Que enfia a bala no protagonista. Uma forma de reparar o vexame passado semanas atrás na boate de Carlito. Pelo próprio Carlito. Que lhe expulsou. Lhe agrediu. Ninguém lembrava mais de Benny naquela altura. Já fazia uma hora que ele não dava as caras na história. Mas nesse ambiente masculinista e trágico não há vencedores. Carlito perceberá tardiamente que foi traído. Que foi tudo inútil, afinal. Num dos desfechos mais desconcertantes e devastadores do cinema dos anos 90.


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Grandes Cenas do Cinema - Traídos Pelo Desejo (The Crying Game)

De: Neil Jordan. Com Stephen Rea, Jaye Davidson, Forest Whitaker, Miranda Richardson. Drama / Romance / Suspense, Reino Unido, 1992, 112 minutos.

Foi em 2007 que a revista norte-americana Premiére elaborou uma lista com as 25 cenas mais chocantes da história do cinema. Estavam lá momentos memoráveis, como aquele da criatura alienígena destroçando o corpo de um dos passageiros da nave Nostromo, em Alien: O Oitavo Passageiro (1979), a famosa sequência do chuveiro, de Psicose (1960), ou o final impactante de O Sexto Sentido (1999), entre outras. Em um inesperado primeiro lugar, um instante de Traídos Pelo Desejo (The Crying Game) que, talvez nos dias de hoje, não escandalizasse tanto assim. Mas que em 1992 impactaria e geraria estranhamento nas plateias mundo afora. Na sequência em questão o guerrilheiro do IRA Fergus (Stephen Rea) vai atrás da enigmática Dil (Jaye Davidson), namorada do soldado inglês Jody (Forest Whitaker) que é sequestrado e morto pelo exército irlandês. Ele passa a persegui-la, vigiá-la, e se apaixona por ela. Mas quando eles vão ter a primeira noite...

Eu lembro até hoje o quanto eu fui surpreendido quando assisti ao filme de Neil Jordan pela primeira vez, alguns anos depois de seu lançamento. E o mais legal da obra é como, em uma época em que não existiam redes sociais, ela te enganava bonito! Hoje, 30 anos depois, todo mundo sabe que Dil era na realidade uma transexual - e a cena em que ela aparece nua de corpo inteiro, pela primeira vez, exibindo seu pênis, é de um impacto meio inesperado. A gente realmente não imagina, dada a feminilidade da personagem, sempre elegante e sexy em vestidos e botas de salto, que realçam seu corpo esguio. Ainda assim, em retrospectiva, é interessante notar como Jordan parece dar várias pistas do que está por vir - e que vão desde os traços levemente andróginos de Dil, passando pelo fato de ela ser cantora em uma boate gay nas horas vagas, até chegar ao fato de ela demorar bastante tempo pra se revelar mais plenamente, por assim dizer.


E há ainda um ótimo momento em que o afável atendente do bar da boate - seu nome é Col (Jim Broadbent) - parece ter a intenção de "alertar" Fergus sobre algum segredo de Dil, sendo interrompido em um momento determinante. Estava tudo lá, mas essa é, de alguma forma, a mágica do cinema. Assim como no citado O Sexto Sentido - que catapultou todos os espectadores das poltronas em direção à estratosfera com sua revelação final - aqui, o inesperado vem do prosaico, do cotidiano, que confronta de alguma forma a sexualidade heteronormativa, avançando para uma excelente reflexão sobre a paixão (e o amor) acima de tudo. E independente de gênero. Em entrevistas, Rea destacaria mais tarde a ousadia de Jordan em colocar um nu frontal do tipo, em uma época em que isso era raríssimo - sim, é bem diferente das séries da HBO Max nos dias de hoje. "Devo dizer que acho que nunca tinha visto um pênis em tela antes", comentou para a Vulture em 2014.

Penso que outra questão que torna tudo bastante inesperado é a obra iniciar como um thriller político sobre disputas internas na Irlanda. Por cerca de 40 minutos a inesperada amizade entre Fergus e Jody se estabelece - por mais que o primeiro mantenha o segundo como refém. E é justamente o sentimento de culpa pela morte do prisioneiro - que, vale lembrar, é atropelado por um tanque de guerra enquanto tenta fugir - que faz com que nós, como espectadores, também torçamos para que as coisas saiam a contento. E o fato de Dil ser uma figura misteriosa, sexy e determinada torna tudo ainda melhor, nessa virada em direção ao drama romântico que a obra dá (aliás, um tipo de mistura típica dos anos 90). Traídos Pelo Desejo, pela sua coragem e pelo seu atrevimento receberia, com justiça, o Oscar de Melhor Roteiro Original na cerimônia de 1993, sendo nominado ainda em uma série de outras categorias (inclusive Melhor Filme). Hoje, a nudez desse tipo já está bem mais naturalizada. E, muito provavelmente, não renderia tanto falatório como na época.

[Não encontramos a sequência no Youtube, então colocamos essa, da cena do bar]


sexta-feira, 17 de junho de 2022

Grandes Cenas do Cinema - ET: O Extraterrestre (ET: The Extraterrestrial)

De: Steven Spielberg. Com Henry Thomas, Dee Wallace, Robert MacNaughton e Drew Barrymore. Aventura / Ficção Científica, EUA, 1982, 115 minutos.

É quase no final de ET: O Extraterrestre (ET: The Extraterrestrial) que ocorre uma das maiores sequências de perseguição da história do cinema. Ou talvez a maior. Nela, um grupo de adolescentes a bordo de bicicletas foge da polícia, dos militares, do FBI, da Nasa e de todo o resto, percorrendo um bairro residencial por entre casas, terrenos baldios, subindo e descendo morros como se estivessem em uma competição meio improvisada de BMX. Na carona de um dos meninos, o ET que dá nome ao filme - que acaba de "ressuscitar", após ser capturado pelo Governo e ser dado como morto. A cena avança para uma situação em que não parece mais haver pra onde fugir: os carros da polícia fizeram uma barreira. O improvável acontece: com os poderes do extraterrestre a todo o vapor os meninos alçam voo por sobre os policiais. Cruzam a cidade enquanto a trilha composta por John Williams sobe, passam pelo sol e chegam à clareira do início do filme, local em que o ser de outro planeta havia se perdido. O ET finalmente poderá ir para casa. Enquanto nós permanecemos em um mar de lágrimas em nossos sofás.

Existem experiências cinematográficas tão completas que, em um suposto dicionário ilustrado, não seria exagero colocar uma foto do filme ao lado da palavra obra-prima, por exemplo. E esse é o caso do clássico de Steven Spielberg. Pra mim que apaixonei por cinema no final dos anos 80 e no começo dos 90, obras como esta foram fundamentais. Quando criança costumava ver ET no Natal - o filme fora lançado no Brasil em dezembro de 1982 e passava frequentemente na TV aberta (era o nosso A Felicidade Não Se Compra). Na época, do alto da minha ingenuidade, ficava maravilhado com tudo, especialmente com o poder daquela história sobre amizade - não apenas entre Elliot (Henry Thomas) e o ET, mas também entre o menino e seu irmão mais velho Michael (Robert Macnaughtor). Mais adulto, consegui perceber o poder do subtexto na abordagem de temas relacionados ao respeito às diferenças e também ao meio ambiente (a cena em que Elliot liberta as rãs na escola, é quase explícita), além de haver am algumas camadas o questionamento de eventuais abusos de autoridade.


E, nesse sentido, mais do que uma aventura comovente sobre um menino ajudando um ET a voltar pra casa, temos uma experiência vigorosa sobre empatia, sobre compaixão, sobre afeto, sobre aceitação. E admito que fico ainda mais triste quando vejo um filme como esse, por perceber que estamos em um Brasil (e em um mundo, na real) que parece a cada dia caminhar para o oposto disso. O que abre espaço para um processo infindável de intolerância, de preconceitos, de ódio, de racismo, de xenofobia. Um governo de morte é daqueles que se empenha em fazer uma limpeza étnica. Em se livrar do diferente. Se o ET caísse em um morro do Brasil atual precisaria de uma centena de Elliots pra se salvar. E muita bicicleta voando. Sim, porque assistir a esse filme mexe com a gente. Ficamos nostálgicos, reflexivos, pensativos. É tanta dureza, é tudo tão torpe, que (re)assistir àqueles meninos flanando em suas bikes funciona quase como uma espécie de refúgio de tudo. Spielberg, te venero.

E muito desse sentimento tem a ver com o carisma dos personagens - especialmente do ET, que surge em cena como figura inicialmente exótica e tímida, que vai dando lugar a um alienígena de olhos curiosos e gestos afáveis - o que é completado por uma vocalização meio robótica, cortesia do ator Pat Welsh. Indicada ao Oscar em diversas categorias - como Filme, Roteiro Original, Direção, Edição e Montagem -, a obra sairia com os prêmios de Efeitos Visuais, Efeitos Sonoros, Edição de Som, Som e Trilha Sonora Original, o que faria justiça ao soberbo aparato técnico utilizado à época para dar vida a produção. Anos mais tarde, o trabalho seria reconhecido pelos votantes do American Film Institute (AFI) que, na relação de 100 Melhores Filmes Americanos de Todos os Tempos de 2007, incluiria o filme em uma honrosa 24ª produção. Um número impressionante para uma ficção científica estilo Sessão da Tarde. O público agradece.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Grandes Cenas do Cinema - Thelma & Louise (Thelma & Louise)

De: Ridley Scott. Com Geena Davis, Susan Sarandon, Harvey Keitel, Brad Pitt e Michael Madsen. Drama / Aventura / Ação, EUA, 1991, 130 minutos.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS]

Impressa para sempre no coração de qualquer cinéfilo, a cena final de Thelma & Louise (Thelma & Louise) é um marco não apenas visual, mas também simbólico. Estafadas, violentadas, perseguidas - pela polícia, por namorados/maridos escrotos, pelo contexto social patriarcal que junta ocupações patéticas e rotinas simplórias -, as protagonistas vividas de forma inesquecível por Geena Davis e Susan Sarandon se jogam de carro, em um desfiladeiro no Grand Canyon. Como uma espécie de medida extrema que visava a interromper o ciclo de violências a que estavam submetidas, a morte parece ser a única (e dolorosa) solução. Forte, impactante e surpreendente, o filme dirigido por Ridley Scott apresentou para uma geração ainda desacostumada com a pauta feminista, uma obra que tinha como fio condutor a luta pelo respeito a igualdade entre os gêneros. Nas aparências, um road movie aventuresco. Nas suas entranhas uma experiência potente, que desafiava as convenções.

E, de alguma forma, confesso que rever esse clássico noventista, que mal completou 30 anos de seu lançamento, me arrancou um sorriso. Sim, há uma melancolia generalizada que permeia toda a narrativa - e o o escaldante e arenoso Sul dos Estados Unidos parece contribuir de forma decisiva para essa sensação. Mas assistir Sarandon e Davis derrubando um por um os seus obstáculos - subvertendo a lógica e assumindo o protagonismo em sua literalidade (de arma na mão, sem medo de explodir miolos de sujeitos toscos, machistas, misóginos e de estupradores em potencial) - torna a experiência curiosamente atual. Em um momento político, cultural e social em que a masculinidade frágil é simbolizada por líderes inseguros e que não escondem a sua aversão às mulheres, o salto de carro para o abismo adquire um caráter quase messiânico. Diante de situações extremas, atitudes extremas. Que certamente levaram plateias embasbacadas para fora do cinema, enquanto os créditos subiam.

Mas Thelma & Louise, a despeito do "panfleto político" também segue inesquecível como narrativa de ação e aventura. O filme começa com as duas amigas - Thelma, uma dona de casa de vidinha ordinária (Davis) e Louise, uma garçonete sem muitas perspectivas (Sarandon) - com a intenção de fazer uma viagem de final de semana (ocasião em que terão uma espécie de folga do MUNDO em meio a pescarias, risadas e cumplicidade). Só que a coisa começa a sair do controle quando elas param em um bar típico daqueles do Sul dos Estados Unidos (no Estado do Arkansas), cheio de rednecks imbecilizados, que misturam religião, armas, motos e comportamento provinciano em igual medida. Depois de dançar e flertar com um desses sujeitos - um certo Harlan (Timothy Carhart) -, a ingênua Thelma vê a coisa sair do controle. Pior, só é salva de um estupro depois que Louise mata o homem que violentaria a sua amiga. Tudo no estacionamento do local.

E essa é a deixa para que as duas "batam em retirada". Em meio a planícies do Texas, do Novo México e do Arizona, a intenção será a de fugir para o México. Tentando passar despercebidas pela maioria das pessoas (e pela polícia). Na jornada conhecerão outras figuras que parecem impregnadas àquele contexto - um jovem cauboi (Brad Pitt em começo de carreira), um caminhoneiro babaca, com uma inexplicável autoestima hétero, um policial que parece figurante dos Simpsons. Além dos namorados/maridos, empenhados em "resgata-las" daquele idílio. E há a polícia, claro. Que tem apenas a informação de que um assassinato aconteceu. Mesmo que este tenha sido em legítima defesa. Ao cabo, trata-se de uma obra também sobre amizade - e sobre quais os limites destas -, que nos prende, em meio a cenários tão opulentos quanto desoladores. Não por acaso, o filme receberia seis indicações ao Oscar - com Callie Khouri tendo faturado a estatueta pelo seu bem amarrado roteiro. Simplesmente inesquecível.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Esqueceram de Mim (Home Alone)

De: Chris Columbus. Com Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, John Candy e Catherine O'Hara. Comédia, EUA, 1990, 101 minutos.

Eu tinha nove anos de idade quando Esqueceram de Mim (Home Alone) foi lançado. Foi um filme que fez parte da minha infância e que segue sendo absolutamente divertido - ainda que, hoje em dia, seja muito mais evidente e inegável a disfuncionalidade da família de Kevin (Macaulay Culkin), que simplesmente o esquece em casa quando resolve passar o Natal em Paris. É, a meu ver, o filme de Natal por excelência, cheio de sequências icônicas e de frases marcantes, que foram repetidas à exaustão pelos pré-adolescentes que cresceram naqueles inacreditáveis anos 90. Eu lembro até hoje das reuniões natalinas, com a primaiada agitando na casa da falecida vó Lucila, ocasião em que qualquer coisa era motivo para que replicássemos algum "fique com o troco, seu animal", em meio a árvores recheadas por pisca-piscas e presépios cuidadosamente montados (que, por um milagre, não destruíamos). O cinema, assim, nos dava os sinais de uma paixão que, mais tarde, amadureceria. E, no meu caso, faria um jornalista que também escreve sobre filmes.

E é por isso que revisitar o filme na última semana para o mais recente episódio do podcast - pode rolar a página que ele se encontra aqui embaixo - mexeu com a minha memória afetiva. Em tempos de pandemia fui invadido pelo sentimento nostálgico da época em que acreditávamos não apenas em Papai Noel, mas também no mundo. Foi bacana demais rever as peripécias de Kevin que, assim que sua família o deixa a deriva, se vê acossado por dois bandidos que pretendem assaltar a residência de sua família. A alternativa que ele encontra para se "defender"? Preparar uma série de armadilhas improváveis que possam dar cabo - ou ao menos afastar temporariamente -, os terríveis Harry (o sempre ótimo Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern). E tome tombos, pancadas de todos os tipos, queimaduras diversas, furos, cortes e toda a sorte de ataques que mais parecem saídos de algum desenho do Papa Léguas e sua incansável fuga do coiote. É muito engraçado. É cartunesco. É pastelão. E certamente é inesquecível.

Vocês que regulam a idade com este jornalista que aqui escreve - tenho 39 anos -, certamente estão lembrando não apenas destes, mas de outros momentos icônicos da obra do diretor Chris Columbus, que mais tarde dirigiria a ótima sequência da película e também outros clássicos juvenis como Uma Babá Quase Perfeita (1993), além de filmes da série Harry Potter. Entre estas sequências há aquela em que Kevin organiza uma "festa improvisada" para despistar os meliantes, além da inesquecível cena em que o garoto recebe uma pizza e "testa o áudio" do filme que está assistindo e que, mais tarde, também servirá de estratagema no enfrentamento aos bandidos. É tudo leve, coeso, dinâmico e talvez não seja por acaso que a obra tenha sido acarinhada no Oscar de 1991, com indicações nas categorias Trilha Sonora e Canção Original. Isso sem contar as indicações ao Globo de Ouro - inclusive para Melhor Filme Comédia ou Musical.

Com uma mensagem bem à moda dos filmes dos anos 90 - de valorização da família e, especialmente, do perdão àqueles que amamos -, Esqueceram de Mim segue como uma graciosa comédia de costumes, que confronta o american dream sem ignorar o sentimento de conforto proporcionado por ele. Do caos inicial em que a casa dos McCallister se encontra ao singelo instante final há um turbilhão de acontecimentos que renovam as nossas esperanças para dias melhores de forma inadiavelmente acolhedora. E, confesso que reassistir à obra nesse dolorido 2020 de pandemia e de afastamento quase obrigatório de amigos e familiares como uma espécie de curioso gesto de amor, me fez bem demais. Assim, recomendamos que vocês façam o mesmo: retirem os VHS da gaveta (estamos brincando!), juntem a família na sala, respeitem o distanciamento e se divirtam com esse clássico atemporal. Mal não vai fazer. E talvez torne o Natal, como sempre o tornou, mais leve.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings)

Cena: aprendendo uma valiosa lição sobre a importância de competir.

Eu devia ter uns doze ou treze anos quando assisti o Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings) pela primeira vez e eu simplesmente nunca mais esqueci do filme. Muito menos da mensagem final deixada pela obra dirigida por Jon Turtletaub - a meu ver o feel good movie por excelência. E o que ele nos ensina é que, no fim das contas, a vida vai nos dar muita porrada. Muita mesmo. A toda hora a gente vai sofrer derrotas. Mas vai PRECISAR levantar a cabeça para seguir adiante. Parece um papinho meio de autoajuda, mas creio que filmes como esse nos ajudam um tanto a retirar aquela ideia de que mundo pertence exclusivamente aos vencedores. Aliás, reformulando a frase: há, por incrível que pareça, outras formas de vencer que não sejam apenas subir no "lugar mais alto do pódio". E assistir a sequência final da película, com o improvável time jamaicano de trenó na neve concluindo a sua prova com o trenó nos ombros, após a equipe sofrer um grave acidente que elimina qualquer chance de medalha, nos faz refletir sobre isso.

A sequência é bonita, redentora e tem todos aqueles elementos bem típicos dos filmes do começo dos anos 90 - com direito a trilha sonora grandiloquente (feita pelo sempre ótimo Hans Zimmer) e uma reviravolta que nos faz olhar o lado positivo, em meio a um cenário desastroso. Até chegar aos Jogos Olímpicos de Inverno de Calgary, no Canadá, o distinto grupo composto por Derice (Leon), Sanka (Doug E. Doug), Junior (Rawle L. Davis) e Yul (Malik Yoba) passa por poucas e boas em seu próprio País. Na realidade, Derice, Yul e Junior são corredores de 100 metros rasos - muitos anos antes da existência de um Usain Bolt - que, por causa de um acidente, são desqualificados para as Olimpíadas de Seul (o filme ocorre antes de 1988). Para não deixar de competir, Derice vai atrás de um certo Irwin Flitzer (John Candy, lamentavelmente em seu último filme), medalhista olímpico que tem pendências com o passado, mas que pode ser o único treinador possível para o coletivo.

Nesse processo de chegada do técnico, escolha dos "esportistas", primeiras tentativas de andar de trenó na própria Jamaica, sem nenhum sinal de neve, sobrarão boas piadas e muito humor físico, com acidentes, quedas e muita persistência. A sequência em que Irwin apresenta um vídeo de demonstração do esporte - cheio de acidentes, alguns até fatais -, é hilária: ao final da sessão a sala está vazia, restando apenas aqueles que serão os nossos carismáticos heróis. E por quem torceremos MUITO - a despeito das diferenças de personalidade entre eles (há um mais rico, outro mais turrão, há o porra louca). A chegada no Canadá após uma pequena epopéia para conseguir patrocínio também será engraçada, com muitas piadas surgindo a partir do caráter contrastante entre o calor escaldante da ilha que fica na América Central, o e o frio congelante de uma cidade que pode chegar a temperaturas abaixo de -25 graus celsius! O fato de serem, oficialmente, corredores de 100 metros rasos, ajuda o improvável time a se qualificar, ainda que aos trancos e barrancos. E quando a sequência final chega, com o grupo derrotado por um defeito técnico do trenó velho que ocupavam, só nos resta enquanto espectadores, esboçar um grande sorriso. 

A conquista deles, afinal, foi a jornada. Foram as amizades feitas, a superação de obstáculos, a despeito da desconfiança de todos - de familiares, de amigos, do próprio treinador. Foi acreditar num sonho que parecia impossível se tornando realidade. Sabe aquela história da Islândia - um País com 300 mil habitantes - levando uma seleção de futebol à Copa do Mundo? É mais ou menos isso. E o que torna essa história ainda mais gloriosa, é o fato de ter sido MESMO baseada em fatos reais. Ainda que não seja escancaradamente um filme político ou de grandes discussões sociais, também não deixa de ser interessante perceber a importância do debate, ainda que nas entrelinhas, de temas como racismo, xenofobia e respeito às diferenças. Aparecendo como vilões bastante maniqueístas - à moda dos filmes antigos -, os alemães são retratados como sujeitos frios, que utilizam o deboche como arma para, ao final, se dobrar ao esforço dos jamaicanos. Aliás, a meu ver Jamais Abaixo de Zero poderia ser um dos raros casos que uma atualização faria bem. Talvez uma minissérie, algo assim, especialmente pelo fato de a história real ser bastante diferente daquela retratada pelo bem humorado, colorido e musical filme de Turtletaub!

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Náufrago (Cast Away)

Cena: a dolorosa perda do único e melhor "amigo".

Eu tenho a impressão de que alguns papéis só são possíveis com o Tom Hanks. Como exercício, tente imaginar o personagem Chuck Noland, de Náufrago (Cast Away) sendo interpretado por Brad Pitt, George Clooney ou, vá lá, Mark Rufallo. Não é que não seria possível. Óbvio, são atores muito talentosos e que certamente entregariam uma boa caracterização. Mas Hanks tem aquela "coisa" meio difícil de explicar, aquela capacidade de transmitir força e vulnerabilidade em uma mesma medida e que parece ideal em alguns filmes. E a meu ver esse combinado serve direitinho para que cenas como aquela em que o protagonista da obra dirigida por Robert Zemeckis perde a sua bola de vôlei - ou, no caso, o seu melhor e único "amigo" Wilson. Precisa haver aí algum tipo de desprendimento: algo que torne a sequência que poderia soar apenas boba, em algo mais crível. E o astro vencedor do Oscar por Philadelphia (1993) e Forrest Gump (1994) consegue esse efeito. Aliás, eu sempre choro copiosamente nessa parte.

Wilson surge no filme em uma parte crucial para o andamento da narrativa: após o acidente em que Noland vai parar numa ilha desabitada, no meio do nada, ele está literalmente reaprendendo a viver. Junto do seu abatido corpo, as ondas oceânicas levaram para a borda da ilha dezenas de pacotes da FeDex, empresa onde o protagonista cumpria suas atribuições de uma forma absurdamente meticulosa. Aliás, ele era aquele cara todo certinho, que tinha a pontualidade como regra - o que, claro, a vida na ilha vai quebrar. Relutando inicialmente em abrir as embalagens, Noland tem uma longa e desgastante sequência em que tenta fazer fogo para que possa não apenas chamar a atenção para a sua causa - vai que uma embarcação passe por ali -, mas também para aquecer os peixes, o seu alimento oficial. Enfadado pelo insucesso, abre todos os pacotes. O conteúdo é variado, e aparentemente inútil: um par de patins, um amontado de fitas VHS e... uma bola de vôlei da marca Wilson.


Interessante notar como, naquele contexto, praticamente todos os objetos terão alguma utilidade. As lâminas do patins se transformarão em afiadas facas - servindo também como improvisados espelhos. Os rolos das fitas poderão servir de amarras. Mas a bola de vôlei se transformará em algo maior: um amigo involuntário. Alguém com quem Noland passa a dividir suas impressões sobre tudo, seus objetivos, angústias e anseios. Inserindo na bola um rosto - feito com seu sangue -, o protagonista concede à ela o cargo de confidente. Praticamente nada acontecerá sem uma "troca de ideias" com Wilson. E mesmo quando a narrativa avança quatro anos e a bola, inevitavelmente murcha, o náufrago a reconfigura, recheando-a com galhos (que até parecem "cabelos"), o que a faz ser um tipo de seu semelhante. Com quase 1500 dias na ilha, Noland também está barbudo, cabeludo, exaurido. E resolve tentar sair da ilha construindo uma jangada e improvisando um tipo de vela, com uma estrutura metálica também "entregue" pelo oceano.

E será mar adentro, num ato desesperado, que Wilson inesperadamente terá seu trágico destino selado. Após uma tempestade que deixa a jangada em frangalhos, Noland está adormecido no instante em que a bola se desprende da estrutura instalada para que ela permanecesse em segurança. Quando o protagonista percebe que seu amigo já está a deriva, é tarde demais: tenta entrar no oceano, mas não pode perder a jangada de vista. Wilson, assim, vai se afastando, enquanto o náufrago grita dolorosos pedidos de desculpa pela "desatenção". E, assim, estaria criada para o imaginário cinéfilo uma das mais inesquecíveis histórias de separação entre amigos do cinema. Para além de uma obra sobre sobrevivência ou sobre recomeços - o final da história toda também dá conta disso -, O Naufrago é um conto improvisado de amizade, triste e curioso, que talvez só Hanks, com o seu talento único para a composição do sujeito comum em situações limite, consiga. Aliás, o astro chegou a ser indicado ao Oscar naquele ano, por esse papel. Num filme pequeno, escapista, quase com aquele clima Sessão da Tarde, é um feito e tanto!

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Os Pássaros (The Birds)

Cena: um ataque que se desenha na escola.

Quem já assistiu a Os Pássaros (The Birds), clássico do diretor Alfred Hitchcock, sabe que a obra é uma verdadeira coleção de sequências vertiginosamente aflitivas. Aliás, o filme é todo tenso, num efeito meio curioso que faz com que sintamos alguns calafrios até mesmo nas cenas mais prosaicas - como as que ocorrem no restaurante ou em um eventual barquinho que atravessa a baía. A meu ver é nessa obra-prima que o Mestre aprimora todas as trucagens que lhe consagraram. E o melhor: diferentemente daquilo que ocorre em suas películas anteriores, aqui temos o terror instaurado por uma força da natureza que é, portanto, imprevisível, mais complicada de lidar. O que farão efetivamente os pássaros a cada passo dado pelos habitantes da pequena Bodega Bay ninguém sabe: é diferente de um assassino com uma arma na mão e uma ideia fixa. É tudo imprevisível, cáustico, barulhento, aleatório. A violência vindo do ar, do nada, gratuita, implacável. Um terror incontrolável, pode-se dizer.

E escolher apenas uma sequência que resuma essa catarse aérea que assistimos transpirando da tela, também não é tarefa fácil. Mas existe uma que é tensa não apenas por aquilo que assistimos: mas por aquilo que NÃO enxergamos. E era dessa forma que Hitchcock conseguia, muitas vezes, estabelecer a sua magia. O suspense e o terror pareciam brotar de onde menos se esperava, de uma forma meio contrastante, angulosa, com as acontecimentos se descortinando de forma tópica, mas não menos inquietante. Na cena da escola, a jovem Melanie Daniels (Tippi Hedren) pretende conversar com a professora (vivida por Suzanne Pleshette), para lhe alertar sobre os perigos que podem estar rondando não apenas a pacata cidade, mas o educandário. Se aproxima de uma cerca, fuma um cigarro, enquanto escuta a cantoria dos alunos, uma espécie de música folclórica hipnotizante, que vibra lá de dentro. Há um silêncio no ar. Aparece um pássaro que pousa no trepa-trepa. Mais um. E outro. Ela fuma, a música segue. A escola tem um silêncio plácido. Mais alguns pássaros se movem e...


...bom, é nessa sequência que a gente lembra os motivos de Hitchcock ser considerado um Mestre. A composição dos quadros, os jogos de câmera, as idas e vindas. A música, os contrastes entre a tensão e a calmaria e um trepa-trepa que surge LOTADO de pássaros. Um tipo de sadismo com o espectador que beira o delírio: a gente sabe que algo muito sério está pra acontecer. Percebemos, sentimos. A tensão já vem crescendo. Já houve um ataque. E mais outro, previamente. A cidade está sendo "invadida" por aves frenéticas que atacam, sem lógica. Querem apenas matar o que está pela frente. E resta as demais pessoas fugir. Correr. E lutar pela vida. A cena é demorada, angustiante. Os alunos sofrem com bicadas, sangram, gritam. Os guinchos dos pássaros perturbam, agridem, assim como o bater de asas. Tudo é atordoante, delirante. É como o livro A Pomba, do escritor Patrick Suskind elevado a enésima potência.

Talvez não seja tão simples identificar as metáforas propostas pelo diretor inglês, a partir da obra de Daphne Du Maurier. Há um subtexto permanente que envolve uma mãe "castradora" - no caso a do protagonista Mitch Brenner (Rod Taylor), sempre observado de perto pela matriarca Lydia (Jessica Tandy) -, com um Complexo de Édipo que parece "gritar" para sair da tela. Hitchcock se sentia assim, na vida real, e utilizava a sua obra para expulsar alguns demônios do armário - o que certamente explica a grande quantidade de femmes fatales em suas obras (e ele não faz nenhuma questão de esconder isso). Se os pássaros desse clássico são uma forma de confrontar essa "força da natureza", não temos como saber. Deixando de lado as metáforas, o que se pode afirmar é que este é o último grande filme do inglês. E que levou os seus atores ao limite da tolerância já que, reza a lenda, para conferir realismo à produção, ele chegou a GRUDAR pássaros de verdade ao corpo das vítimas, que saíram, de fato, machucadas). Perturbador é pouco.

sábado, 15 de agosto de 2020

Podcast do Picanha Cultural #16 - Grandes Cenas do Cinema

Grandes Cenas do Cinema. Clássicas, inesquecíveis. São muitos esses momentos marcantes - de Gene Kelly cantando na chuva à protagonista de Psicose sendo assassinada no chuveiro, passando por Ferris Bueller cantando Twist and Shout dos Beatles durante um desfile ao final de Curtindo a Vida Adoidado, não são poucas as sequências de filmes que se tornaram memoráveis. E foi pensando nisso que resolvemos trazer esse assunto para o episódio dessa semana do nosso Podcast do Picanha Cultural. Divididas em categorias - engraçada, nostálgica, triste, tocante -, o Henrique, o Bernardo e eu vasculhamos nossa memória (afetiva também) para recordar quais as mais marcantes passagens fílmicas dessa arte que tanto nos apaixona! Quem gosta do tema pode clicar no menu ali do lado, no quadro Grandes Cenas do Cinema, que disseca algumas dessas sequências no formato de postagens. É o seu sabadou (!) preferido chegando com leveza e diversão - pra tentar amenizar (um pouco) das dores provocadas pela pandemia. Bora clicar?


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Atração Fatal (Fatal Attraction)

Cena: sobre os dotes gastronômicos na arte de cozinhar um coelho.

É muito provável que, nos dias de hoje, um filme como Atração Fatal (Fatal Attraction) sequer fosse feito. E, se fosse feito como foi, certamente seria alvo de uma enxurrada de críticas, sendo rapidamente cancelado na internet. Mas, é necessário analisar as obras de arte - ultrapassadas ou não -, também no contexto em que elas surgiram. E, digamos que esse nicho, o dos filmes com mulheres (ou amantes) surtadas, paranoicas, loucas e adúlteras, fez muito sucesso no final dos anos 80 e começo dos 90. Aliás, o diretor Adrian Lyne foi um grande expoente dessa vertente "drama de casal classe média americana às voltas com problemas conjugais", tanto que filmou Proposta Indecente (1993) e Infidelidade (2002), além do clássico soft porn 9 1/2 Semanas de Amor (1986). Sim, hoje tá tudo datado. O discurso de mulher neurótica que só encontrará a felicidade nas mãos de um homem já expirou há um bom punhado de décadas. Mas eu tenho uma confissão a fazer: pra mim Atração Fatal, como "terror passional", assistido de forma descompromissada, segue funcionando direitinho.

E acho que posso falar que boa parte do público cinéfilo concorda comigo. A obra é de arrepiar, e a Glenn Close, na pele da executiva Alex Forest está assombrosa - tanto que há quem insista na tese de que o Oscar e Melhor Atriz naquele ano foi parar nas mãos erradas (Cher levou a estatueta pra casa pelo nem sempre lembrado Feitiço da Lua). Alex é colega de trabalho do advogado Dan Gallagher (Michael Douglas, quem mais?), um sujeito casado com a simpática Beth (Anne Archer), com quem tem a filha Ellen (Ellen Hamilton Latzen). Prestes a comprar uma casa nova e pronto pra viver o sonho americano, o homem cai na asneira de ter um caso de uma noite com Alex, num final de semana em que esposa e filha estão viajando. Close está insinuante, com seu olhar sempre ambíguo e enfumaçado e cabelos volumosos, sendo bastante direta nas suas intenções. Os dois acabam na cama, se divertem, riem juntos, mas... a vida continua? Não para Alex, que quer mais do que ser amante. Rejeitada, decide transformar a existência de Dan e de sua família num inferno.


Eu volto a dizer que, por mais verossímil que esse roteiro possa, eventualmente, parecer, hoje em dia ele soa absurdo, misógino, antiquado, equivocado. Foi apenas uma noite, mas Alex, num excesso furioso de carência, se torna o "demônio encarnado". Passa a fazer persistentes ligações para o trabalho de Dan. O visita em horários inesperados. Envolve a família, bagunça rotinas. Persegue, ameaça, gera uma grande instabilidade em todos que rodeiam o protagonista - tanto que seu arrependimento, é transmitido no formato de um carinho quase transcendental e extremamente devotado à esposa. Ele rateou MUITO. Sabe disso. E precisará de um esforço enorme para que tudo aquilo que ele ama, não se esfacele. Mas esse quadro se chama Grandes Cenas do Cinema e quero falar de uma das mais inesquecíveis (e violentas) sequências promovidas por um "vilão" de filme: que é o instante em que Alex resolve mostrar seus "dotes culinários", fervendo VIVO o coelhinho de estimação de Ellen.

Essa sequência ocorre no terço final. A família já se mudou para uma nova e idílica casa, mas a vida já virou de cabeça pra baixo, com Alex não sossegando na sua persistência. Com as ameaças e as tensões crescentes, o trio resolve fazer um passeio para visitar a mãe de Beth. É no retorno pra casa, que tudo acontece: Ellen vai correndo pelo quintal até gaiolinha onde está - ou deveria estar -, o seu mais novo animalzinho de estimação. Ao mesmo tempo, Beth entra em casa e percebe que algo está, estranhamente, fervendo sobre o fogão (sendo que ninguém estava em casa). Ela abre a panela no mesmo instante em que a menina chega ao local que deveria estar o coelhinho. A trilha sonora sobe, a edição é perfeita. O grito é inevitável. E daí pra frente o terror só vai piorar. Na época a cena foi tão marcante que a expressão bunny boiler passou a ser utilizada para definir figuras instáveis emocionalmente, obsessivas, especialmente do ponto de vista dos relacionamentos. Aliás, o termo é utilizado, de forma bem humorada (e machista, diga-se), até hoje, tão marcante que foi o ato.


Alex Forest foi, no fim das contas, uma figura tão violentamente perturbadora e inesquecível dentro desse "nicho", que uma votação feita pelo American Film Institute (AFI), a colocou como a sétima melhor vilã da história, à frente por exemplo, de Michael Corleone (vivido por Al Pacino em O Poderoso Chefão), o computador Hal (de 2001: Uma Odisseia no Espaço) e até o perturbado Alex De Large (excêntrica figura encarnada por Malcolm McDowell, em Laranja Mecânica). Como filme, já dissemos mais de uma vez nessa resenha: a narrativa tá ultrapassada, cheia de comentários machistas nas entrelinhas e até de um preconceito xenófobo nada velado (no caso, em relação aos japoneses). Mas, na época de seu lançamento, o filme caiu nas graças do público e também da crítica, que lhe deu várias nominações para o Oscar, ainda que não tenha havido vitórias. Sobre a Glenn Close, o papel pavimentaria o caminho para uma bem sucedida carreira, que culminaria no Oscar pelo filme A Esposa (2019).

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Grandes Cenas do Cinema - A Vida de Brian (Life Of Brian)

Cena: um grupo de fanáticos religiosos passa a perseguir o "Messias"

Sim, a gente sabe que, no conjunto da obra, Em Busca do Cálice Sagrado (1975) segue imbatível como o melhor filme dos britânicos do Monty Phyton. Mas A Vida de Brian (Life Of Brian) possui pelo menos uma sequência que permanece como uma das mais divertidas (e acidamente críticas) concebidas pelo coletivo: aquela em que, quase no terço final, Brian (Graham Chapman) precisa lidar com um grupo de fanáticos religiosos que acredita, com todas as suas forças, que ele é o Messias encarnado. E essa cena é especialmente engraçada (e trágica) porque ela faz um duro questionamento não a religião em si, mas ao absurdo do extremismo cego, representado por um grupo de pessoas que, se comportando quase como zumbis, passa a adorar aquele sujeito sem nem compreender muito bem o por quê. Isto é comprovado, por exemplo, quando Brian deixa pelo caminho objetos pessoais como uma moringa, ou a sua sandália, e que passam a ser imediatamente tratados como artefatos de grande valor simbólico, quase divinos.

Mas o melhor é como as coisas se encaminham dentro da história para chegar nesse ponto: Brian na verdade estava fugindo de integrantes do exército romano, após se aliar a um grupo de revolucionários que questiona os métodos do Estado. Só que, em meio a fuga, o sujeito se vê numa espécie de parada em que diversos profetas se empenham em doutrinar a população. Fingindo estar ali no meio com este mesmo propósito, ele consegue driblar os militares ao mesmo tempo em que diz alguma frase boba de autoajuda que ganha a atenção de meia dúzia de gatos pingados. Não demora para que suas palavras ecoem na multidão, que passa a lhe perseguir até o deserto, onde ocorrerão os "milagres" que, na realidade, não passam de interpretações livres da realidade. É o caso por exemplo, do instante em que Brian indica a existência de uma árvore frutífera que poderá servir de alimento para o bando faminto. Todos, claro, ficam assombrados com a habilidade do Messias.


Mas o melhor vem a seguir: salvo por Judith (Sue Jones-Davis), Brian vai pra casa, transa com ela e amanhece o dia abrindo a janela pelado mesmo, para receber os raios de sol. E qual não é a sua surpresa ao se deparar com o grupo de fanáticos que se multiplicou ainda mais, desejando com todas as forças ouvir os ensinamentos de Brian? A sequência é absurdamente hilária porque cada frase dita pelo Messias "improvisado" é respondida em uníssono pela população, num improvável e cômico jogral. Tudo melhora quando surge a mãe de Brian (Terry Jones), uma judia ortodoxa que está claramente insatisfeita com a descoberta da sexualidade do filho, ao passo que tem de lidar, da janela, com a turba de seguidores do filho. E a despeito do caráter divertido desse instante (o melhor da película), ele ainda carrega uma importante lição de moral: a de que as pessoas não devem seguir de forma inquestionável algum ídolo ou ideia, devendo preservar a liberdade e a individualidade de pensamento. "You are all individuals", afinal.

Óbvio que, quando foi lançado, A Vida de Brian incomodou os religiosos que, claro, viram no filme uma dura crítica ao pensamento dogmático - por mais que haja até mesmo certo respeito à religiosidade como um todo (basta ver o que acontece na primeira cena do filme, quando Jesus Cristo aparece "de verdade"). A crítica, afinal, como já dissemos, parece muito mais endereçada às igrejas e a forma como tomam para si a religião, alienando a população e subvertendo a sua lógica de pensamento. Sobre a película, é claro que este é apenas um dos tantos momentos divertidos, merecendo destaque ainda a cena final, em que os bandidos crucificados cantam a singela Always Look On The Bright Side, subvertendo qualquer lógica narrativa já que, uma música feliz, em meio a um cenário desolador, não faz nenhum sentido. Mas a ideia não é fazer sentido. E era isso que tornava os Phytons tão imprevisivelmente engraçados o que fez com que, não por acaso, eles influenciassem toda uma geração de humoristas dos anos 80 e 90. Aliás, seguem influenciando até hoje.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Em Busca do Ouro (The Gold Rush)

Cena: a famosa sequência da "dança dos pãezinhos".


Em Busca do Ouro (The Gold Rush) é mais um filme de Charles Chaplin que conta com uma verdadeira coleção de sequências inesquecíveis. Da cena inicial em que milhares de figurantes caminham junto a uma montanha gelada - um triunfo para um filme gravado a quase 100 anos atrás -, até o divertido ato final em que o famoso vagabundo e seu amigo Big Jim (Mack Swaim) lutam para sobreviver em um casebre que foi levado à beira de um precipício após uma tempestade, não são poucos os instantes em que drama e humor se misturam para ficar eternizados na mente dos cinéfilos. E talvez a cena que melhor resuma esse espírito seja aquela em que Chaplin faz um número improvisado na noite de Ano Novo, utilizando apenas pães e garfos. Nela, é feita uma espécie de "dança" com os pães, com o objetivo de impressionar um grupo de convidadas - entre elas o interesse romântico, vivido pela atriz Georgia Hale.

E acho que o que mais comove nessa sequência é o fato de toda ela não passar de fruto da imaginação do nosso adorável protagonista. Apaixonado por Georgia - na realidade uma garota de programa que trabalha em um bordel local e que ele conhece meio que por acaso -, Chaplin convida ela e suas amigas para um pomposo jantar na virada de ano. Na cena, ele se empenha em preparar uma mesa bonita ao mesmo tempo em que se ocupa em escaldar um belo frango assado que está no forno (é um tempo de "bonança improvisada", após ele fazer amizade com um sujeito amável, que mora perto das redondezas e que lhe deixa como guardião da casa, enquanto sai para o garimpo). As meninas, claro, não aparecem: o que iriam querer, afinal, com um pobretão que não tem nem um sapato para usar? Pior, debocham dele. Riem da cara dele. Mas em sua imaginação tudo sai a contento: e a dança dos pãezinhos integra esse cenário melancólico e divertido em igual medida.


É claro que, mais tarde, tudo dará certo: Big Jim encontrará uma boa quantidade de ouro e, por conta da lealdade do amigo, dividirá as riquezas com o seu amigo. E Georgia encontrará a sua redenção em mais um momento inesquecível quando, no último segundo do filme, defende o vagabundo de uma perseguição policial em um luxuoso barco (ela acredita que ele pudesse estar ali, clandestinamente). É o final feliz que todos desejávamos, após a dura trajetória do personagem durante o filme Trajetória essa que inclui mais uma sequência até hoje lembrada: aquela em que Chaplin cozinha o próprio calçado para servir a ele e a Big Jim, logo no começo do filme. Uma tempestade os isola, os deixando com fome, frio, solitários e ainda tendo de lidar com o vilão Black Larsen (Tom Murray). A cena do sapato, diz a história, é baseada em eventos reais ocorridos na Corrida do Ouro verdadeira (no final do Século XIX em Sierra Nevada). Sobre as botas consumidas por Big Jim e Chaplin? Eram feitas de alcaçuz por um confeiteiro especialmente contratado para a tarefa.

E foi essa capacidade de rir da própria desgraça e do absurdo das condições de pobreza da época, que tornam Em Busca do Ouro tão atemporal. A gente ri e se comove como em outras comédias de nossos tempos. Era o filme preferido do próprio Chaplin, que sempre desejou ser lembrado por ele, sendo a obra em que ele mais investiu em efeitos especiais (como na cena em que ele se "transforma" em um frango gigante) e em grandes locações (como as já citadas no começo desse texto). Não é por acaso que a obra até hoje, aparece em qualquer lista de melhores de todos os tempos, caso da relação dos 100 melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute (AFI) - em 58º lugar na lista atualizada. Em livros como o dos  1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer a película também aparece em lugar de destaque. E nos corações de quem aprecia o bom cinema, a obra-prima está eternizada, seja pela sua envolvente narrativa (dinâmica, leve, ágil), seja por inesquecíveis sequências, como a da "dança dos pãezinhos".

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Grandes Cenas do Cinema - A História Sem Fim (The Neverending Story)

Cena: O simpático cavalo Artax vai morrer. E nós precisamos lidar com isso.


Vamos combinar, pessoal: definitivamente NÃO É qualquer morte. Não é. É uma morte que, se não nos traumatizou para sempre na juventude, nos ensinou, da forma mais dura, que os seres que amamos também partem dessa para melhor. Eu devia ter, sei lá, uns sete ou oito anos quando assisti A História Sem Fim (The Neverending Story) pela primeira vez. E simplesmente em TODAS as vezes que penso no filme, lembro da dolorosamente melancólica sequência em que o simpático cavalinho branco Artax agoniza no Pântano da Tristeza, enquanto o jovem Atreyu (o ótimo Noah Hathaway) tenta retirá-lo, em vão, em meio a muitos gritos, do meio daquele ambiente inóspito. Trata-se de uma cena totalmente inesperada e que vem logo depois de uma longa sequência em que a natureza da amizade entre Atreyu e Artax é estabelecida - eles atravessam vários cenários em um clima bastante aventuresco, parando apenas para um cochilo e para comer.

Quando a gente vê o filme pela primeira vez a gente não acha que o Artax vai morrer. A narrativa ainda está no início, mal a primeira meia hora de película se desenrolou. Aliás, o próprio Atreyu, incrédulo, parece meio que não acreditar naquilo que assiste: ele chega a rir, quase em tom de deboche, da incapacidade do cavalo de sair daquele lugar. Algo tipo "vamos lá, sai daí de uma vez, e vambora". Só que só percebe que o negócio é sério MESMO quando a água já está quase tapando a cabeça do animal. E há ainda um componente ainda mais sádico nesse sequência ordinária: só sucumbem ao Pântano da Tristeza aqueles seres vivos que sentem algum tipo de melancolia enquanto tentam percorrer o lodaçal, o que significava, como cereja do bolo, que Artax estava TRISTE naquele momento. No momento em que se despedia do seu melhor amigo! Aliás, uma piada que corre na internet é que esta é uma das mais angustiantes sequências do cinema de um amigo perdendo o outro para a "depressão".


Bom, eu não sei como as crianças mais mimadas de hoje em dia lidam com a realidade sendo esfregada em vossas caras, mas nós tivemos de lidar com a morte do Mufasa em Rei Leão e do personagem do Macaulay Culkin em Meu Primeiro Amor - além da do Artax, o que vamos combinar, pode ter ajudado a nossa geração a lidar melhor com o luto e com a consciência sobre a morte. Ou vai ver nós crescemos mais impactados mesmo. E, só pra constar, eu não li o livro do escritor alemão Michael Ende, no qual é inspirada a obra de Wolfgang Petersen, mas quem leu diz que, no livro, a situação é ainda pior por que o cavalo, um animal fantástico, FALA com o Atreyu. Então, ele simplesmente diz ao seu amigo que ele deve seguir adiante, enquanto ele próprio aguarda o seu trágico e agoniante destino no pântano. E eu tô aqui me perguntando qual a classificação indicativa dessa obra, por que, vamos combinar, né?

Bom, brincadeiras a parte, A História Sem Fim é uma obra nostálgica, metalinguística e até existencialista a respeito da importância da literatura na nossa construção e na nossa formação. Tanto que quando o jovem Bastian (Barret Oliver) entra na história, ele descobre um local chamado Fantasia, que está "desaparecendo" por causa da chegada do Nada (e que é representado pela grotesca figura de um lobo). Esse Nada bem poderia ser a redução do número de leitores ou de pessoas interessadas em literatura pelo mundo (o livro foi lançado em 1979, período em que a TV ganhava cada vez mais espaço nos lares), ao passo que a Fantasia, é simbolizada pela nossa capacidade de estabelecer conexões com um universo imaginário - que nada mais é do que aquilo que fazemos, quando nos envolvemos com algum livro (nos deixar levar por um universo fantástico). Divertida e comovente, a obra envelheceu bem e segue se valendo de seu carismático "elenco", cheio de criaturas mágicas - caso do Comedor de Pedra e cachorro voador Falkor -, como um de seus trunfos. Ainda que a morte inacreditável de Artax seja aquilo que, definitivamente, ainda martele em nossas memórias. De chorar!

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Os Brutos Também Amam (Shane)

Cena: uma perseguição desesperada a SHAAAAANEE!!

Para muitos, uma cena absurdamente comovente. Para outros, uma das mais irritantes. Mas para todos os que assistiram Os Brutos Também Amam (Shane), a sequência do menino Joey (Brandon de Wilde) correndo desesperadamente atrás de Shane (Alan Ladd), quase ao final do filme, gritando pelo seu nome, é uma das mais inesquecíveis da história do cinema. E se torna mais impactante ainda pelo fato de que o menino desejava apenas pedir desculpas. O Shane de Ladd era um sujeito misterioso, um pistoleiro "aposentado" que chega ao rancho de Joe Starrett (Van Hefflin) meio que por acaso e fica para ajudá-lo nas lidas da pequena propriedade. Sujeito de modos calmos e olhar tranquilo, o homem logo chama a atenção do filho do anfitrião, o já citado Joey que, não é exagero dizer, se "apaixona" por Shane - ou talvez pela ideia de segurança, de suporte físico e emocional que ele passa a representar para a família, que é completada por Marian (Jean Arthur).

Como era de praxe nos faroestes, o filme é bastante conservador, ressaltando a importância da família, de Deus e do direito à propriedade, como valores caros à sociedade (especialmente naquela época, com os Estados Unidos tentando superar os eventos ocorrido na Guerra Civil). Mas, de alguma forma, surpreendem algumas quebras de paradigmas dentro do estilo - com direito até mesmo, pasmem, a um tom pacifista no discurso, o que pode ser percebido pela baixa quantidade de tiros disparados durante a película ou até mesmo pelas longas divagações a respeito do absurdo de se empunhar uma arma (esse contraponto personificado, em muitos casos, por Marian, que se horroriza em certa sequência em que Shane ensina o pequeno Joey a manipular o revólver).


Já Ryker é um vilão um pouco diferente, já que representa os grandes latifundiários - sendo Starrett e os demais moradores da comunidade o seu contraponto (pequenos produtores com pequenas faixas de terra). Será nessa luta por ocupação de espaço - e por criação e gado e de renda - que se estabelecerá o arco dramático. Ryker é o opositor que se vangloria de já ter expulsado daquela região - o Estado do Arkansas -, os índios e os aventureiros, ao passo que a família protagonista (que mantém Shane abrigado), só deseja produzir para sobreviver, para o autoconsumo. Um tipo de debate que estabelece, já naquele ano, o agronegócio como o antagonista da ideia da pequena propriedade, com as famílias rurais cultivando alimentos e ocupando a terra para a sobrevivência. O que em um filme de faroeste, mesmo em um de aparência antiquada, cafona como é o caso de Os Brutos Também Amam, é algo a ser celebrado.

Com Shane vivendo diariamente junto à família, é estabelecida uma curiosa dinâmica. Há uma tensão (sexual ou não) entre a figura vivida por Ladd e Marian (repare como Joe os observa com certa reserva na cena em que se comemora o 4 de julho), ao passo que todos os seus integrantes sabem de sua importância ali para a sua continuidade, a sua sobrevivência. Com muito menos cenas de luta e de tiroteios, e muito mais reflexões sobre moral, ética e costumes, a obra pode soar meio enfadonha para aqueles que preferem os roteiros mais "movimentados". Mas no contexto do filme dirigido por George Stevens (Assim Caminha a Humanidade, Um Lugar ao Sol), aquilo tem sentido: Sane está tentando deixar para trás o seu passado obscuro e encontra no acolhimento da família uma espécie de alternativa à isso. Mas quando ele volta a matar, friamente, o algoz daqueles que ali vivem, ele percebe que a sua essência não vai mudar. E que, consequentemente, de nada adiantará o jovem Joey lhe chamar desesperadamente. Ele já foi. Antes mesmo de ir.

Infelizmente revirei o Youtube para encontrar a cena do menino correndo do protagonista pelas pradarias aos gritos por Shane, mas não encontrei. De qualquer maneira a sequência final, após a "batalha" decisiva, funciona quase como uma extensão daquela aqui mencionada. E vale a pena ser recordada.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Intriga Internacional (North By Northwest)

Cena: Uma perseguição pelos rostos esculpidos do Monte Rushmore

Não é fácil fazer um Grandes Cenas do Cinema com o clássico Intriga Internacional (North By Northwest), afinal de contas a obra-prima de Alfred Hitchcock possui uma verdadeira coleção de sequências memoráveis. Aliás, o filme todo parece uma "grande sequência memorável" - com um roteiro excentricamente divertido (e rocambolesco), atores abusando de uma canastrice irresistível e um romance capaz de combinar ingenuidade e malícia em igual medida. No filme em si acompanhamos o publicitário Roger Tornhill (Cary Grant) praticamente em fuga durante mais de duas horas. Ele é confundido com um agente secreto e acaba envolvido em uma trama de espionagem, com tudo piorando quando ele é injustamente acusado de assassinato, tendo de fugir não apenas da polícia, mas também dos capangas que planejam assassiná-lo.

Até chegar a derradeira cena em que Roger e Eve (Eva Marie Saint) empreendem uma espetacular escapada pelo Monte Rushmore, a obra nos diverte e nos deixa tensos com outros tantos momentos inesquecíveis e cheios de ação. Em uma das tantas fugas de Roger, ele é perseguido por um avião que despeja agrotóxicos (sim, acredite, em 1959 isso já existia), em meio a um milharal no meio do nada. Em outra, ele avacalha um leilão, com o objetivo de despistar os criminosos, saindo gloriosamente nos braços da polícia. Há ainda a sequência em que Eve "esconde" Roger no compartimento de bagagens de um trem ("eu quero azeite de oliva se for para me comportar como uma sardinha") e outra em que a dupla forja um assassinato em meio a um restaurante lotado. Sim, vale qualquer estratagema para tentar sair ileso - e fazer com que esse romance meio torto entre a dupla de protagonistas funcione.



Mas a película é uma graça só e a meu ver só funciona porque é muito mais divertida do que tensa! Os personagens são ambíguos, as tiradas do protagonista são impagáveis, a mãe de Roger é uma figura que desconfia das ações do próprio filho (e é curioso como lá pelas tantas ela simplesmente SOME) e Hitchcock ainda utiliza a metáfora de um trem entrando em um túnel, para fazer o espectador entender que, bem, as pessoas foram fazer sexo. Mas é provável que nada se compare a inesquecível sequência no Monte Rushmore, com direito a Eve fugindo de salto alto (que quebra, no meio do caminho) e um Roger desesperado em meio a rostos, narizes e bocas, suas curvas e pedras duras, tentando evitar uma tragédia que se aproxima. Quando ambos estão próximos da queda, o protagonista ainda tem a presença de espírito de fazer uma espécie de "proposta de casamento" em forma de mensagem cifrada, para Eve.

Sim, o filme tem esse charme meio cínico, com Roger estando entre a vida e a morte, mas sempre disposto a tecer algum comentário inesperadamente divertido, capaz de modificar a lógica daquilo que assistimos (como no caso da cena em que ele agradece a polícia por ter vindo lhe prender). Talvez Intriga Internacional não seja o melhor filme do Mestre - foi produzido entre Um Corpo Que Cai (1958) e Psicose (1960) -, mas, por conta de suas tantas sequências inesquecíveis e seu elenco recheado de estrelas - com nomes como Martin Landau e James Mason -, é geralmente lembrado com carinho pelos fãs. Até os créditos iniciais de Saul Bass e a trilha concebida por Bernard Hermann contribuem para que este seja o combo perfeito. A obra-prima é a 40ª melhor da história de acordo com o American Film Institute (AFI). Não é por acaso.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Alien: O Oitavo Passageiro (Alien)

Cena: adivinhe quem vem para jantar...

Um dos grandes filmes de ficção científica / suspense da história, Alien: O Oitavo Passageiro (Alien) possui, a meu ver, a mais surpreendentemente aterradora sequência de todos os tempos no cinema. Sem exagero! Esqueça baboseiras como Atividade Paranormal e outros derivados que apostam em sustinhos jumpscares - aquela cena da bigorna caindo ou do gato que surge do nada. Aqui temos a construção de uma atmosfera que envolve todo o filme e que culminará na famosa cena do jantar em que, com quase uma hora de filme, a tripulação da Nostromo passa a ter uma ideia REAL do perigo que estão passando. A sequência é primorosa por subverter completamente a lógica e apostar no inesperado como matéria-prima. Ao menos foi assim que me senti a primeira vez que assisti a essa obra-prima do Ridley Scott - em seu segundo filme - sem saber o que iria ocorrer!

Para quem não lembra da cena, a equipe da Nostromo está retornando para casa após uma missão de coleta de material especial, quando recebe algum tipo de comunicação vinda pelo receptor da nave. Após um pouso meio arriscado no planeta de onde parte o sinal, parte da equipe é surpreendida com a existência de um ninho com ovos de que parece ser de uma espécie alienígena. É neste momento que Kane (John Hurt) é atacado no rosto por uma espécie alienígena que se gruda nele. Em coma após o ataque e, ainda com o "bichano" no rosto, Kane é levado de volta para a nave. Após algum tempo o ser se desgruda, morre e Kane volta a vida, com muita sede e com muita fome. Todos estão animados no jantar, rindo e fazendo projeções para o futuro - e acho que para mim é isso que pega nessa sequência em que Kane passará mal, revelando o fato de que, na verdade, estava gestando em seu corpo um ser de outro planeta.



A sequência é absurdamente sangrenta, dolorida, comovente. Sem reação, os companheiros assistem Kane definhar com o ser que salta de seu peito, praticamente estraçalhando seu corpo já fragilizado. O alienígena foge para o seu canto e, bom, todos sabem o quão tensa será aquela hora final, em que Ripley (Sigourney Weaver) e companhia precisam lidar com esse "probleminha". Bom, é preciso que se diga aqui o óbvio: o filme não se resume somente a essa cena. E se ela funciona tão bem é porque há toda uma construção de clima por trás. O desenho de produção, por exemplo, é arrebatador, tornando a nave um espaço claustrofóbico em que a textura de suas engenhocas chega a se misturar com a própria figura do vilão. Já a edição de som, com o uso do som diegético, com correntes, água que pinga e outros barulhos, também contribui para a formação de uma atmosfera de tensão permanente. Enfim, a gente sabe que algo de ruim está para acontecer a qualquer momento. Valendo o mesmo para a cena do jantar em que todos alegres, confiantes no retorno para casa, percebem que a viagem será (ainda) mais longa do que imaginavam. De arrepiar!


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Grandes Cenas do Cinema - A Origem (Inception)

Filme: A Origem
Cena: Um pião que gira sem parar. Ou ele para?

Não houve absolutamente nenhum cinéfilo que, ao final de A Origem (Inception), de Christopher Nolan, não tenha se perguntado se Cobb, personagem de Leonardo DiCaprio, estava sonhando ou não na última cena do filme. As teorias são as mais variadas e em uma pesquisa rápida no Google será possível encontrar aqueles que acreditam se tratar de um devaneio e outros que creem estar diante da vida real. Eu mesmo acredito que ele estava sonhando, o que poderia ser comprovado pelos tipos de cortes utilizados na edição das sequências finais (eles mesmos brincam sobre o fato de nunca lembrarmos do começo de nossos sonhos), pelo fato de os filhos fazerem movimentos muito parecidos com aqueles que surgem nos sonhos e, especialmente, pelo fato de não ter havido um "chute", ao menos não visível para nós, que fosse capaz de retirar Cobb da quarta dimensão dos sonhos, onde ele encontrará Saito (Ken Watanabe).

Bom, o filme é uma obra-prima sobre os sonhos, com uma grande capacidade de tornar palpáveis ideias abstratas. E que tem, a meu ver, uma série de cenas antológicas que serão lembradas daqui a alguns pares de anos como algumas das mais inesquecíveis do cinema. E, para mim, a simples imagem do totem utilizado por Cobb - o famoso pião - no último instante, enquanto ele encontra os seus filhos, é daquelas que já tem a sua marca na história da sétima arte. A sequência é um primor de técnica, com a câmera saindo da imagem da família feliz que confraterniza ao fundo, para encontrar em um primeiro plano o pião que gira. E ele gira, tropegamente, para girar mais um pouco, mais um pouco e mais um pouco até que os créditos subam. E a gente fique com aquela cara de "caceta, o que foi que eu vi aqui?".


A questão envolvendo Cobb, a morte de Mal e a relação do casal com os seus filhos são parte importante da trama - e as seguidas "entradas" de Cobb no mundo dos sonhos para atividades de teste, fazem com que, não poucas vezes, realidade e ficção se confundam. Cobb integra uma equipe capacitada a invadir sonhos de pessoas importantes para, com o uso de uma tecnologia inovadora, roubar informações e segredos valiosos que estejam guardados no inconsciente das "vítimas". Após uma ação que não sai como o planejado, Cobb é contratado pelo magnata japonês Saito (Ken Watanabe) para entrar na mente de um herdeiro de um império econômico (vivido por Cillian Murphy) com a intenção de plantar uma ideia que o incentive a desmembrar os negócios da família - o que impediria o monopólio e a falência de outros conglomerados.

É uma trama nem sempre fácil de acompanhar e que provavelmente exigirá dos cinéfilos mais umas duas ou três revisões para uma plena compreensão daquilo que se assiste. Cobb conta com uma equipe - seu braço direito Arthur (Joseph Gordon-Levitt), a arquiteta Ariadne (Ellen Page), o mestre dos disfarces Eames (Tom Hardy) e o químico Yusuf (Dileep Rao) - para colocar o plano em prática. Em meio a execução, a imagem de Mal ressurge para "assombrá-lo", devendo ele recorrer ao pião como uma forma de compreender se está no mundo real ou não. A película é um espetáculo visual e sonoro (a gente nunca mais escuta a música Non, Je Ne Regrette Rein da Edith Piaf da mesma forma), não por acaso tendo sido premiada nas categorias Fotografia, Efeitos Visuais e Edição e Mixagem de Som, fora as outras indicações. Mas fora as premiações e o estupendo roteiro original, repleto de conceitos intrigantes e bem organizados, será a provocação final, aquela sobre o pião que roda, a que gerará as mais variadas conclusões. O que dá conta do potencial da cena, inesquecível desde o instante em que foi concebida.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Uma Babá Quase Perfeita (Mrs. Doubtfire)

Filme: Uma Babá Quase Perfeita
Cena: Entre dois jantares

Poucos filmes são tão unanimemente apaixonantes quanto Uma Babá Quase Perfeita (Mrs. Doubtfire) - obra do diretor Chris Columbus (Esqueceram de Mim) que fez gerações inteiras rirem e chorarem, com as peripécias de um pai de família (vivido com incrível ternura por Robin Williams) que tenta se reaproximar dos filhos da maneira mais inusitada possível, após um traumático divórcio. A gota da água para a separação ocorre após a festa de aniversário de um dos filhos, quando Daniel (Williams), ator recém demitido, aproveita a tarde livre para trasnformar a casa dos Hillard em uma zona, irritando profundamente a pragmática esposa Miranda (Sally Field). Como está sem emprego e sem residência fixa é impedido pelo pessoal da assistência social de ver os três filhos de forma regular - como ocorre em processos de guarda compartilhada.

Só que quando ele descobre que Miranda está procurando uma nova babá, Daniel vê a oportunidade de se reaproximar da família, na pele da senhora Doubtfire, a idosa de voz doce do título original, que cativa a todos. Bom, a história do filme todo o mundo já está careca de saber: há o irmão gay de Daniel que lhe ajuda no processo de transformação e um simpático antigo namorado de Miranda, de nome Stu (Pierce Brosnam), que reaparece com intenções de reatar o relacionamento com a antiga namorada. Em meio a tudo isso estará Daniel que, na pele da senhora Doubtfire, procurará manter segredo sobre sua nova "identidade", o que gerará cenas hilárias, como aquela em que uma assistente social lhe visita em seu novo apartamento ou aquela em que o filho Chris (Matthew Lawrence), flagra a idosa urinando de pé!


Mas a meu ver nenhuma cena é mais inesquecível do que a do restaurante. Nela, Daniel se vê em uma sinuca de bico, já que deve participar de dois jantares ao mesmo tempo: um na pele de Daniel, em que encontrará um produtor de TV disposto a lhe oferecer um programa e em outro com Stu e os Hillard em que estará vestido de senhora Doubtfire, agora integrante inseparável da família. É claro que, conforme a noite avançar e uma ou outra taça de vinho for "saboreada", as coisas sairão um pouco do controle - culminando em uma cena engraçada e trágica ao mesmo tempo e que envolve Stu sendo salvo pela babá. É uma sequência que impressiona, que nos diverte e emociona e que é exemplar do talento de Robin Williams na composição de figuras tão distintas (sendo inevitável pensar em como ele "nos deixou" cedo).



Filme que envelhece muitíssimo bem, Uma Babá Quase Perfeita ainda surpreende ao deixar de lado um esperado "final feliz" - que era tão comum em obras otimistas dos anos 90. Na relação de Miranda e Daniel não há espaço para voltar atrás nas decisões - ambos constatam que são melhores pessoas sem a convivência juntos e o principal de tudo: não deixarão de amar os filhos mesmo estando separados. Leve, ligeiramente iconoclasta e surpreendentemente divertido, o filme permanece, 25 anos depois de lançado, no coração de qualquer cinéfilo que cresceu nos anos 90. Suas importantes lições sobre vida após o divórcio dos pais e sobre a valorização da busca pela felicidade também permanecem atuais.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Grandes Cenas do Cinema - O Iluminado (The Shining)

Filme: O Iluminado
Cena: Heeeere's Johnny!!

Uma revisão em O Iluminado (The Shining) nos faz perceber que, sim, este é um filme menor na carreira do diretor Stanley Kubrick - e não é por acaso que a obra, à época, recebeu duas indicações para o Framboesa de Ouro (nas categorias Pior Filme e Pior Atriz, para Shelley Duvall). Aliás, atualmente, é público e notório que o próprio Stephen King não gostou do resultado final e nem da atuação de Jack Nicholson que, com a sua falta de sutileza, transforma o seu Jack Torrance em um psicopata em potencial desde os primeiros minutos da película. Mas, mesmo com tantos problemas, o filme é adorado por muitos, contando com uma série de cenas icônicas - entre elas a do garotinho que percorre com um triciclo os corredores do hotel Overlook (local em que a trama acontece), a da máquina de escrever com a frase all work and no play makes Jack a dull boy e a da perseguição em uma espécie de labirinto feito com arbustos, na parte externa do local.



Mas é provável que poucas cenas do filme (e talvez até da história do cinema) sejam tão lembradas e parodiadas quando aquela em que Jack, perseguindo a esposa Wendy (Duvall), abre a machadadas a porta de um banheiro para, em seguida, colocar a cabeça por entre a abertura, gritando a inesquecível frase "heeeeeere's Johnny!". A sequência em questão ocorre no terceiro ato do filme e ocorre no momento em que a personagem de Jack Nicholson está no auge da paranoia provocada pelo isolamento e pela pressão de escrever um novo livro (o que leva a família ao hotel). Conforme os dias passam no local, Jack vai se tornando mais agressivo, ao passo que o seu filho (Danny Lloyd) passa a ter visões apavorantes de acontecimentos ocorridos no passado e que também teriam sido causados pela opressão provocada pela sensação de isolamento.

Improvisada por Nicholson, a cena faz alusão a um bordão usado pelo ator Ed McMahon no programa The Tonight Show - Starring Johnny Carson, que era exibido no começo dos anos 80. De lá para cá, a despeito dos problemas apresentados pela película - que vão da péssima interpretação de Duvall ao roteiro que não deixa margem para qualquer sugestão - a obra é permanentemente lembrada pela opulenta face de Nicholson que espreita através da porta, com seu olhar psicótico e sorriso idem. Macabra e capaz de fazer gelar o sangue de qualquer espectador - a trilha sonora e a edição apavorantes também contribuem para essa sensação -, a cena é imitada em programas de humor, videoclipes e jogos de videogame, tendo um peso semiótico (e de suspense e pavor) que só é capaz de ser superado pela cena do chuveiro, em Psicose (1960). Nesse sentido, é o complemento perfeito para uma das mais claustrofóbicas obras sobre "bloqueio criativo" que se tem notícia.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Grandes Cenas do Cinema - Dúvida (Doubt)

Filme: Dúvida
Cena: Meryl Streep revela ter dúvidas

[SPOILER ALERT: se você não viu o filme e não quer ter alguma surpresa desagradável, melhor ler o texto depois de assistir]

O que faz determinada sequência se tornar clássica, no cinema? O contexto em que a cena está inserida? Os atores envolvidos? O seu potencial icônico? Será que quando Alfred Hitchcock concebeu a cena do chuveiro, em Psicose, sabia que ela seria lembrada anos mais tarde como uma das mais inesquecíveis do cinema? E o Steven Spielberg que fez um extraterrestre (e um bando de garotos) cruzarem a lua? Há sequências que estão na memória por frases proferidas pelas personagens - caso, por exemplo, de vou fazer uma oferta que ele não pode recusar, dita por Don Vito Corleone (Marlon Brando), em O Poderoso Chefão (1972). Ou, mais recentemente, eu vejo gente morta, dita por Haley Joel Osment em O Sexto Sentido (1999). Enfim, são muitas as sequências que estão para sempre nos corações dos cinéfilos e, este jornalista que vos escreve, acredita haver, no excepcional filme Dúvida (Doubt), de 2008, uma cena com este potencial.


Mais precisamente a sequência final em que a irmã Aloysius (Meryl Streep), devastada pelo sentimento de culpa, revela "ter dúvidas" sobre aquilo fez - e, para mim, o famoso i have doubts, dito em tom autocomiserativo à personagem de Amy Adams (irmã James), será sempre lembrado, mesmo daqui há 50 anos, como um dos mais inesquecíveis momentos da sétima arte (ou ao menos neste milênio). É uma sequência delicada, comovente e que humaniza pela primeira vez a personagem durona vivida por Streep - a rígida diretora da escola Saint Nicholas, localizada no Bronx. Conduzindo o educandário com mão de ferro e adotando uma postura conservadora e antiquada na hora de disciplinar os estudantes, irmã Aloysius tem dificuldade em lidar com o carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) que, recém chegado ao local, traz consigo uma forma de ensino mais progressista, que estimula os alunos sem os amedrontar. É o clássico conflito que coloca frente a frente a tradição e a modernidade, o obsoleto e o vanguardista.

Só que lá pelas tantas a irmã James acredita ter motivos suficientes para acreditar que possa estar havendo um caso de pedofilia na escola, envolvendo o padre Flynn e o primeiro aluno negro recebido no local, o excluído Donald Miller (Joseph Foster) - e vale destacar que a trama se passa em 1964, período de importantes transformações na sociedade. É aí que inicia a cruzada moral que colocará a irmã Aloysius contra o sacerdote - sendo que esta fará de tudo para tentar expulsá-lo do instituto. As dúvidas da personagem de Meryl? É que ela nunca teve uma prova verdadeira de que algo possa ter, de fato, ocorrido. E a dor por ter expulsado do educandário um sujeito tão querido por todos a consumirá. Em um filme tão cheio de grandes interpretações que resultaram em indicações ao Oscar para Streep, Hoffman, Adams e também para Viola Davis (que interpreta a mãe de Donald e fica apenas ONZE minutos em cena), com um desenho de produção tão rico e com um roteiro tão envolvente, a sequência final, aquela que motiva este quadro Grandes Cenas do Cinema, é a cereja do bolo!