terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Tesouros Cinéfilos - The Farewell (The Farewell)

De Lulu Wang. Com Awkwafina, Zhao Shuzhen, Diana Lin, Tzi Ma e Aoi Mizuhara. Comédia / Drama, China / EUA, 2019, 99 minutos.

Filmes sobre relações familiares existem aos montes, mas nem todos com o tipo de sutileza e o naturalismo adotados neste The Farewell (The Farewell). É uma obra que te emociona sem forçar e que flui adicionando beleza e doçura em cada frame. Também é uma obra que te diverte, com alguns momentos chegando quase ao humor involuntário. E que te faz pensar sobre as diferenças culturais existentes entre ocidentais e orientais ou mesmo sobre os caminhos que tomamos em nossas vidas. Na trama simplíssima, uma doce senhora já na casa dos 80 anos (a veterana Zhao Shuzhen) é diagnosticada com um câncer terminal. Para que a sua passagem não seja traumática, a família - seus filhos, netos e demais parentes - resolve esconder dela a informação de que está severamente doente. E para que todos os integrantes possam visitá-la sem despertar desconfiança, resolvem forjar o casamento de um neto.

Só que uma parte da família mora nos Estados Unidos há cerca de 25 anos - entre elas a neta de Nai Nai (como a idosa é conhecida), Billi (Awkwafina). Apesar de longe da avó, ela mantém uma relação de proximidade: costumam conversar por telefone, trocar confidências. Billi é uma mulher independente, que se afastou da cultura chinesa ao morar praticamente a vida toda no ocidente: pior, mal fala mandarim, mas se esforçará de maneira enternecedora para estar próxima de sua idosa avó, sem comprometer a mentira que todos juntos conduzem. E, é preciso que se diga, Awkwafina realiza um trabalho de interpretação impressionante: com os olhos quase sempre marejados, evita o olhar da avó para que não transpareça o motivo de sua real tristeza, ao mesmo tempo que lhe invadem as memórias nostálgicas da infância que agora está décadas atrás.


Os demais parentes servirão para denunciar o abismo geracional que existe não apenas entre pais e filhos (ou avôs e netos), mas entre os lugares em que vivem cada um deles, em temas como trabalho, religião, vida, morte, relacionamentos e tecnologias com o "conservador" e o "progressista" surgindo em cena em pequenos instantes, como naquele em que avó e neta discutem a real necessidade de a segunda ter um marido para lhe cuidar. "E o seu marido lhe cuida?", questiona aos risos a jovem. Com ótimos enquadramentos (repare como as pessoas aparecem "diminuídas" em algumas sequências, como na dos discursos durante o casamento, como forma de dar conta de sua devastação emocional), o filme bebe na fonte de clássicos como Era Uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujirô Ozu, ao tratar o núcleo familiar e as suas diferenças de pensamento de forma contemplativa e sem muita pressa, apresentando ao espectador uma série de intensas reflexões que podem ser resumidas em frases marcantes como: "a vida não é apenas sobre o que você faz e sim como você faz".

Indicado ao Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia (Awkwafina) e Melhor Filme em Língua Estrangeira, o filme nos manterá em suspense o tempo todo sobre a escolha da família, mas sem julgamentos sobre ser ela acertada ou não - há ponderações suficientes para entendermos os dois lados como corretos. Com uma série de metáforas sobre pássaros enclausurados e impedidos do voar, a obra ainda reserva para o final a sua melhor surpresa [ALERTA DE SPOILER] na cena em que a família se despede de Nai Nai e esta, ao ver o táxi cada vez mais longe, desaba sutilmente em lágrimas. É uma cena forte, que me fez acreditar que a idosa sabia o tempo todo do estratagema da família em relação a sua saúde e da dor carregada por todos (especialmente pela neta), preferindo preservar esta informação consigo. É uma teoria que pode ser derrubada pela última frase, mas que, para este cinéfilo, dá um tempero a mais para o terço final!


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