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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Novidades em Streaming - Curral

De: Marcelo Brennan. Com Thomás Aquino, Rodrigo García, José Dumont e Carla Salle. Drama, Brasil, 2020, 86 minutos.

Que joia do nosso cinema é esse pequeno filme chamado Curral - primeiro longa-metragem de ficção do diretor pernambucano Marcelo Brennan. Quer dizer, ficção ao menos em partes, já que é simplesmente impossível não identificar uma boa dose de realidade naquilo que acompanhamos. A trama nos joga para a pequena Gravatá, cidadezinha típica do interior onde, às vésperas das eleições municipais, o bicho tá pegando entre dois candidatos à prefeito rivais. Em meio a esse cenário turbulento, somos apresentados a Chico Caixa (Thomás Aquino) um modesto funcionário da Prefeitura, que é o responsável por conduzir o caminhão pipa que levará água às localidades que sofrem com a escassez hídrica. Só que, após bater de frente com o prefeito da situação Vitorino (José Dumont, em participação especial) ele é demitido, sendo recrutado após o episódio por um amigo de infância, no caso o advogado Joel (Rodrigo Garcia), que pretende se eleger como vereador e que, para isso, depende do apelo popular do protagonista na campanha.

Joel é tudo aquilo que esses jovens políticos que surgem meio que do nada, garantem ser: éticos, sem "rabo preso" com nenhuma sigla e interessados em proteger apenas os direitos do povão. "Eu nem precisaria estar na política, sou advogado" defende o sujeito que integra um daqueles partidos da nova (ou nem tão nova) política chamado, Avança Brasil. Acompanhado de Chico Caixa, Joel inicia uma campanha massiva pela cidade, percebendo logo o potencial que terá como moeda de troca, as políticas voltadas à distribuição da água. Acreditando inicialmente em Joel - num misto de ingenuidade com necessidade, já que o homem é pai de família e também precisa pagar os seus boletos - Caixa não demorará para ver as suas convicções sendo confrontadas. Especialmente quando a equipe do candidato passar a fazer promessas claramente vazias, num misto de clientelismo, troca de favores e compra de votos.

E por mais dolorido que seja constatar a falência completa de um modelo de disputa política atual que beira a beligerância, não deixa de ser divertido reconhecer aqui e ali toda a semiótica que envolve o pleito dos pequenos municípios Brasil afora. Estão lá desde os carros de som com grudentos jingles de campanha (Tá nervoso / tome um chá / é galego advogado / ele vem para mudar), passando pelos comícios em que artistas locais se vendem em troca de visibilidade e pelos candidatos vaidosos interessados apenas em si, até chegar ao apelativo papel da imprensa, que costuma se travestir de isenta enquanto funciona como "´pena de aluguel" de um dos lados (e a voz de locutor à moda antiga de um dos radialistas, admito, me fez gargalhar alto, pensando em alguma figuras típicas da nossa mídia local). Nesse sentido, a experiência navega no limite entre o trágico e o cômico, entre a desesperança e a reflexão.

Hábil em construir enquadramentos inteligentes - observe por exemplo o ângulo com que acompanhamos a mangueira sendo desenrolada do caminhão ainda na primeira cena -, Brennan ainda utiliza cenários, figurinos, objetos e outros elementos como forma de se comunicar com seu público. Em certa altura da projeção, Chico Caixa usa uma camiseta em que se lê um Enjoy Coca Cola - o que não deixa de ser uma grande ironia, em um cenário em que a população passa sede por não ter os recursos hídricos básicos. Aqui e ali também há nas entrelinhas um debate sobre temas como machismo, racismo, diferenças de classe e a falta de percepção de onde se está no espectro político (e de quem representa efetivamente o povo). Tudo filmado com um senso de naturalismo tão palpável, que quase me fez lembrar outra maravilha do nosso cinema, no caso o divertidíssimo Narradores de Javé (que, ironicamente, conta com José Dumont em um inesquecível papel). Está na Netflix e precisa ser descoberto.

Nota: 8,5

 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Pérolas da Netflix - As Boas Maneiras

De: Juliana Rojas e Marco Dutra. Com Isabél Zuaa, Marjorie Estiano e Miguel Lobo. Fantasia / Drama / Terror, Brasil / França, 2018, 135 minutos.

É um drama sobre questões sociais? Um suspense sobre os desafios da maternidade? Ou seria ainda uma experiência de terror que evoca temas folclóricos? É urbano? É rural? É fantasia? Ou realidade? São tantas as possibilidades em uma análise do ótimo As Boas Maneiras, obra de Juliana Rojas e Marco Dutra, que o resultado são mais perguntas do que respostas, ao final da projeção. E não há nada de errado nisso, porque esse é aquele tipo de filme que permanece conosco, nos faz viajar, inferir, discutir. Da indefinição de seu gênero, passando pelo roteiro dividido em duas partes bem delineadas, a obra tem complexidade sem nunca soar excessivamente hermética. Ao cabo trata-se de um resgate da clássica lenda do folclore, mas de um jeitinho bem brasileiro.


Na trama somos apresentados a Clara (Isabél Zuaa), mulher negra que mora em um bairro periférico de São Paulo e que consegue uma vaga como babá do filho da grávida Ana (Marjorie Estiano), em um luxuoso apartamento. A conversa inicial parece cercada de amenidades mas, aqui e ali, já evidencia o contraste entre a dupla de protagonistas: Ana é a burguesa que não é capaz nem de comprar os seus alimentos, ao passo que Clara se empenha em suas funções, por mais que resista à ideia de se tornar também a empregada do local. Em meio a acontecimentos aleatórios - e que são carregados de tensão -, como uma ida até a geladeira de madrugada, ou um passeio pelo bairro no solidão do avançar das horas (Ana é sonâmbula), vai se ampliando a percepção de que algo estranho está prestes a acontecer. Especialmente nas noites de lua cheia, momento em que o mistério aumenta.

 
Enigmática, a "patroa" entrega pouco sobre seu passado. Quando ela encontra uma amiga no shopping esta parece querer evitar ao máximo qualquer contato. Não há namorado ou família presente - o seu aniversário é de uma solidão devastadora. Tanto que Ana convida Clara para uma cerveja nessa noite. Ambas se aproximam, a amizade salta para um algo a mais. É mais um tema que se instala na narrativa. Mais um ponto de quebra de lógica, daqueles em que há confluências entre polos opostos. Como um todo, a obra parece ser uma ampla alegoria sobre distancias que aproximam, sobre segredos que vêm à tona, sobre castelos contemporâneos de conto de fadas urbano. Novamente dá pra se dizer que não há facilidades: há sugestões, gestos, pontas que escapam e que nos encontram. A cena em que Clara vai a um bar, por exemplo, talvez parecesse apenas deslocada se não fosse esse um filme que discute, nas entrelinhas, temas ligados ao trabalho, aos preconceitos por baixo dos panos, ao fluxo geral da vida (quase ordinária em seu cotidiano).

Tecnicamente soberba, a obra é primorosa ao evocar no espectador sentimentos variados - e é incrível como uma simples cena em que Ana está sentada na sala de jantar, com uma ampla janela ao fundo em que se vê uma enorme lua cheia, comunique tanto. A sequência parece uma pintura e há todo um quê de artes plásticas e literatura que saltam da tela a todo instantes - como se estivéssemos em uma espécie de inesperado filme da Disney live action tão nacional quanto peculiar. Outro aspecto relevante diz respeito à trilha sonora, com as composições originais servindo quase como uma expansão do universo onírico da história. O que fica, por fim, é o elogio à capacidade de nossos realizadores de ir além da comédia Globoplay ou do suspense policial, misturando elementos de fantasia e até de sobrenatural para a construção de um universo único que jamais deixa de "conversar" com os tempos que vivemos. Como comprova o mais do que ilustrativo último ato.
 
 

quinta-feira, 3 de março de 2022

Pérolas da Netflix - Peepli Ao Vivo (Peepli Live)

De: Anusha Rizvi. Com Omkar Das Manikpuri, Raghubir Yadav, Shalini Vatsa e Farrukh Jafar. Comédia dramática, Índia, 2010, 96 minutos.

Existe um dado meio chocante da União Nacional de Camponeses da Índia que estima que, desde 1995, cerca de 400 mil agricultores cometeram suicídio no País - uma crise sem precedentes que é resultado do fracasso de políticas neoliberais, privatizações e ausência de qualquer tipo de regulação do setor pelo Estado. Endividados, os produtores ficam à mercê de grandes corporações e de políticas públicas escassas que possam ajudar a solucionar a questão. E, por mais sério que seja o assunto, não deixa de ser curioso notar como a diretora Anusha Rizvi conseguiu, de forma meio paradoxal, utilizar um tom bem humorado no divertido e dramático Peepli Ao Vivo (Peepli Live), filme que está disponível na Netflix - e que foi o enviado ao Oscar pela Índia, lá em 2010.

Na trama, a família Manikpuri está em crise por não conseguir pagar a hipoteca da pequena propriedade que mantém em um vilarejo do interior da Índia. Ao tentar pedir algum tipo de socorro para lideranças locais, os irmãos Natha (Omkar Das Manikpuri) e Budhia (Raghubir Yadav) descobrem que existe um novo programa de Governo que oferece 100 mil rúpias para as famílias de fazendeiros que tenham cometido suicídio. Com a intenção de recuperar a propriedade, Natha se oferece para tirar a própria vida - para desespero da esposa Dhani (Shalini Vatsa) e da mãe (Farrukh Jafar). Bom, não demora para que a notícia passe a circular pelo vilarejo, atraindo a atenção não apenas de políticos, mas de outros poderosos, além da mídia sensacionalista.


Aliás, a chegada da imprensa ao local é o que converte o episódio em um verdadeiro circo, com cinegrafistas, repórteres e outros circulando pela região, na busca pela notícia mais impactante, pela revelação mais chocante, por algum tipo de "furo" que possa ressignificar aquilo tudo. Nesse sentido, a diretora jamais pesa a mão ao denunciar o abuso sofrido pelos agricultores de uma forma leve, quase debochada - como no caso da sequência em que um jornalista faz uma longa digressão a respeito da forma e do conteúdo das fezes de Natha (que poderiam ser um indicativo de como ele estava sob severo estresse, o que poderia explicar seu comportamento). O mesmo valendo para a mesquinharia do descaso político, com as autoridades municipais, estaduais e federais jogando uma no colo da outra a responsabilidade pela morte de produtores.

À moda de um A Montanha dos Sete Abutres (1951) da Nova Bollywood, o filme converte a região de Peepli em um verdadeiro centro de debates que se intensifica às vésperas das eleições (com cada interessado tentando utilizar o desastre em benefício próprio, sem nunca pensar efetivamente no bem-estar do povo). Com ótima trilha sonora - músicas evocativas como Desh, de Raman Ji pontuam a narrativa e contribuem para contar a história - e cenários arenosos e desoladores, a obra jamais deixa de abandonar o otimismo, ainda que nos deparemos com uma Índia absurdamente desigual e miserável. Ao final, em meio a tantas incertezas, fica o sentimento de que, por mais que se dê algum tipo de visibilidade para o tema, ele dificilmente será solucionado. Uma pena.


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Pérolas da Netflix - Layla M. (Layla M.)

De: Mijke de Jong. Com Nora el Koussour e Ilias Addab. Drama, Holanda / Alemanha / Bélgica / Jordânia, 2016, 98 minutos.

A mistura de fanatismo religioso, apelo político e militarismo pode ser, como vocês sabem, explosiva. Aliás, em alguns casos, literalmente. E, de alguma forma, é exatamente este o tipo de impacto provocado pelo duro e melancólico Layla M. (Layla M.), uma joia "perdida" na Netflix e que foi a obra enviada pela Holanda para o Oscar de 2018. Na trama somos apresentados à jovem marroquina Layla M. (Nora el Koussour) que, a despeito da personalidade extrovertida, mantém um contato bastante próximo com grupos islâmicos radicalizados que atuam em Amsterdam com o objetivo de confrontar a xenofobia e as diversas medidas anti-muçulmanas de seu País de adoção. Aliás, é já na primeira sequência do filme dirigido por Mijke de Jong que percebemos uma espécie de sensação de "não pertencimento" da protagonista: ela é expulsa de um jogo de futebol em meio a uma discussão em que se sobressaem o preconceito e a misoginia.

Insatisfeita com o comportamento intolerante de seus colegas - e da sociedade como um todo -, ela se converte em uma ardorosa seguidora de Alá, do Alcorão e de tudo aquilo que se serve como base para a religião muçulmana. Mais do que isso, por meio de vídeos no Youtube, passa a flertar com canais que se valem do extremismo como argumento. Embebida pelo discurso de confronto - que evolui, aliás, para um contexto que se assemelha aos efeitos gerados nos usuários de drogas -, a jovem não estabelece limites em sua rotina, se tornando ainda mais intolerante do que os intolerantes. E tudo piora, para desespero dos pais, quando Layla se aproxima de um grupo jihadista. Aliás, é nesse coletivo que ela conhece o marido Abdel (Ilias Addab), indo morar no Oriente Médio. E, bom, não é preciso ser nenhum gênio para saber que Layla enfrentará dificuldades ainda maiores no local, se deparando com restrições, machismo e (muita) violência.

Em algum sentido, a temática semelhante da obra faz lembrar bastante o doloroso O Jovem Ahmed (2020) dos Irmãos Dardenne - obra que evidencia o potencial altamente destrutivo do fanatismo religioso, especialmente quando ele é apresentado como um caminho para as pessoas emocionalmente fragilizadas ou inseguras. Esse contexto, de forma bastante comum, costuma seduzir os jovens que, então, passam a se sentir empoderados, de uma maneira quase cega. É um tipo de comportamento, aliás, que vai para além do campo religioso, chegando à política - e basta pensar em "buracos" digitais como o movimento de extrema direita norte-americano QAnon, que se vale de teorias conspiratórias e outros métodos beligerantes como forma de, supostamente, denunciar uma guerra cultural em curso. No caso de Layla, tudo aquilo que coloca em xeque as suas crenças será motivo para uma reação mais extrema. E, nesse sentido, não deixa de ser comovente a sequência em que a melhor amiga da protagonista tenta demovê-la da loucura em que ela parece disposta a mergulhar.

E, para os pais e os demais familiares é ainda pior: tentando levar uma vida razoavelmente normal na capital da Holanda, a despeito da desconfiança (e da perseguição) que paira sobre o povo árabe - justamente por causa da existências de células fanáticas do jihadismo que, nunca é demais dizer, não representam os preceitos reais dos muçulmanos (o problema, reforço, está no extremismo) - precisam confrontar as naturais dificuldades decorrentes da xenofobia e a espiral obsessiva da filha. E toda a construção se dá a partir da adoção de uma estética áspera, com cores pálidas e tomadas de câmera claudicantes e próximas dos rostos dos personagens, o que amplia a sensação de entorpecimento. É uma obra forte que conta com ótimas interpretações de todo o elenco e que ainda reserva uma curiosa reviravolta para o instante final. O clima é de denúncia, mas até certo ponto nos perguntamos onde está o certo e o errado, em um mundo tão intolerante e tão cheio de ódio. Filmaço.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Pérolas da Netflix - Crimes de Família (Crímenes de Familia)

De: Sebastián Schindel. Com Cecília Roth, Miguel Angel Solá, Yanina Ávila e Benjamín Amadeo. Suspense / Drama, Argentina, 2020, 99 minutos.

Dirigido por Sebastián Schindel, o argentino Crimes de Família (Crímenes de Familia) é aquele tipo de suspense dramático que coloca o espectador diante de uma espécie de quebra-cabeças que, paulatinamente, será desvendado. Como ocorre com muitos outros filmes que apostam no combo eventos traumáticos + relações familiares conturbadas, vai nos fornecendo pistas do que pode ter ocorrido com aqueles que acompanhamos - o que nos permitirá algumas deduções no decorrer da experiência. Na trama somos apresentados a uma família de alto poder aquisitivo, que vive em um bairro luxuoso de Buenos Aires - naquele estilo em que a perfeição dos moveis bem planejados e a organização tétrica de tudo parece ser inversamente proporcional aos segredos soterrados em cada silêncio mal resolvido, ou em cada olhar de lado diante do incômodo proporcionado por algum assunto que não é tão bem-vindo.

Nesse sentido, o filme já abre com uma sequência de teor entorpecedor, em que uma moça se movimenta vagarosamente por um corredor mal iluminado - ela parece ter sangue em suas vestes. Ela teria cometido um crime? Ou está fugindo de alguém? Não demora para que a gente saiba se tratar da empregada Gladys (Yanina Ávila) - que atende de forma silenciosa (e bastante zelosa) os caprichos dos patrões Alicia (a sempre ótima Cecilia Roth) e Ignacio (o veterano Miguel Angel Solá). Quando o casal recebe uma ligação da polícia, vai ao encontro do filho Daniel (Benjamín Amadeo, em caracterização impressionante), que está preso após violar uma medida protetiva envolvendo a sua ex-mulher Marcela (Sofía Gala) que, acusando o rapaz de uma série de crimes (inclusive de tentar assassina-la), o impede de chegar perto também da filha pequena (no caso a neta de Alicia e Ignacio).


Por ser reincidente, Daniel está em maus lençois. As sessões judiciais são emocionalmente desgastantes e a solução para os pais do jovem - que desconfiam bastante das intenções da ex-nora (que parece exagerar nas suas reivindicações) - envolverá um altíssimo investimento de dinheiro, com a contratação dos melhores advogados possíveis. Em paralelo, enquanto essa história familiar dolorida se desenvolve - muitas sequências são comoventes e nos fazem ter dúvidas o tempo todo (o que é resultado das belíssimas interpretações de todo o elenco) -, temos Gladys. Os flashbacks perturbadores em que ela aparece vão aos poucos formando um arco narrativo paralelo. Grávida, teria sido impedida de ser mãe novamente (ela já tem um filho pequeno), sob pena de perder o emprego. Em um "segundo" tribunal uma outra ação parece estar sendo julgada. Tudo parece nebuloso, complexo, mas o roteiro engenhoso nos deixará de olhos arregalados o tempo inteiro.

E, sinceramente, creio que não valha a pena avançar muito mais na história, sob pena de estragar algumas das boas surpresas que a trama nos reserva - e eu confesso que, como de hábito, fui bastante surpreendido pelas revelações que emergem dessa colcha de retalhos. É um filme na tradição do gênero e que não deixa de colocar o dedo na ferida no que diz respeito a discussões como hipocrisia das classes mais ricas (que acreditam que o dinheiro, ainda, pode comprar praticamente tudo) e como as relações de poder estabelecem alguns tipos de vínculos sociais viciados e que dificilmente são modificados. Em meio a tantos filmes meia bomba saídos da mais famosa plataforma de streaming do mundo, Crimes de Família não pesa a mão ao apostar em uma fotografia de cores palidamente acinzentadas e um desenho de produção correto e econômico - o que faz com que foquemos naquilo que realmente interessa, no caso, a história surpreendente. Vale conferir.


quarta-feira, 19 de maio de 2021

Pérolas da Netflix - A Escalada (L'ascenscion)

De: Ludovic Bernard. Com Ahmed Sylla, Alice Belaïdi, Moussa Maaskri e Umesh Tamang. Comédia / Drama, França, 2017, 103 minutos.

Estava querendo assistir a um filme mais leve em uma dessas noites frias e fui direcionado, meio que aleatoriamente, para este A Escalada (L'ascencion), curiosa obra baseada em fatos reais, que conta a história do primeiro franco-argelino a conseguir escalar o Monte Evereste. Vou dizer a vocês que tive, ao menos em partes, o meu objetivo alcançado. Não, não se trata de nenhum filme inesquecível sobre esportes de aventura e muito menos uma película surpreendentemente engraçada. Mas tem lá seus bons momentos, gerados muito mais pela excentricidade geral do episódio do que por qualquer outra licença poética do roteiro - ainda que sejam várias as existentes na narrativa. Na trama somos apresentados a Samy (Ahmed Sylla), sujeito comum, sem muitas perspectivas de vida, que resolve embarcar nessa jornada de autoconhecimento, como forma de ratificar o seu amor por Nadia (Alice Belaïdi), uma antiga colega de escola.

Aliás, a ideia um tanto estapafúrdia surge de uma forma bastante esquisita: em uma noite em que Samy sai com Nadia cheio de "segundas intenções", a jovem dá um chega pra lá no sujeito, escancarando a falta de futuro (financeiro, inclusive) naquela relação. Meio desesperado, Samy alega que faria qualquer coisa para poder ficar com ela, até mesmo "escalar o Monte Evereste". E é a partir dessa frase meio jogada no ar, que o objetivo ganha forma, especialmente após o protagonista conseguir um patrocínio de cerca de R$ 40 mil, que poderá lhe ajudar em seu intento. Apoiado ainda por uma rádio local, que acompanhará a jornada com boletins diários, Samy parte num estilo meio Jamaica Abaixo de Zero (1994) do alpinismo. Em meio à ingleses, alemães, japoneses e outros aventureiros saídos de países ricos, o nosso heroi se torna o único negro com este propósito de vida, enfrentando os mais variados tipos de preconceitos - fora os próprios desafios saídos das montanhas geladas.

E eu confesso que o que mais me agradou na experiência foi poder conferir de perto como funciona a logística desse tipo de projeto. Do sopé da montanha até o cume, vamos compreendendo desde o funcionamento de estratégias de respiração e de evolução, até os pontos de parada (e eles são vários no caminho). Aliás, o filme faz perceber que a missão poderia ser praticamente suicida se não fosse o suporte de alpinistas mais experientes e de nativos do Nepal que são conhecidos como "xerpas", que auxiliam em tarefas pesadas, como levar mochilas e equipamentos durante a escalada (em troca de algum dinheiro, claro). Por sinal, o filme nos faz perceber ainda o quão na moda está esse tipo de turismo, o de aventura, passando um tipo de mensagem, a meu ver, meio negativa a respeito desse tipo de desafio, que tem levado muitos aventureiros inexperientes à morte.

Mas no geral trata-se de uma obra que se aproveita de sua temática para apresentar belíssimas paisagens, trazendo ainda uma jornada de amadurecimento, que aproveita a amizade de Samy com o xerpa Johnny (Umesh Tamang) para adicionar camadas à narrativa (e confesso que as cenas em ambos trocam favores que envolvem leituras e aprendizados de técnicas de escalada, são daquelas que aquecem o coração). Aliás, aquece mais do que a química entre Samy e Nadia, que beira à ZERO - e o desastre só não é completo nas sequências derradeiras porque o roteiro faz alguns pequenos milagres técnicos, com o uso da trilha sonora e das escolhas de imagens (e do desenho de produção com o um todo). Em tempo: o nome verdadeiro desse aventureiro inusitado é Nadir Dendoune e sua história parece ser um tanto diferente daquela vista nas telonas. Mas um filme sempre vai ter lá as suas licenças poéticas - e esse aqui, que aposta ainda em relações familiares complexas, funciona a contento.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Pérolas da Netflix - A Prima Sofia (Une Fille Facile)

De: Rebecca Zlotowski. Com Mina Farid, Zahia Dehar, Lakdhar Dridi, Nino Lopes e Clotilde Courau. Drama, França, 2019, 92 minutos.

Se tem uma coisa que o ser humano é especialista nesse mundo é em julgar o rabo alheio. No Brasil de Bolsonaro, então, nem se fala: aqui, a hipocrisia reinante fala mais alto, em um Governo que pretende tomar decisões sobre o corpo do outro, suas liberdades e vontades. Aliás, liberdade é uma palavra-chave para o ótimo A Prima Sofia (Une Fille Facile), filme despretensioso que estreou recentemente na Netflix. Exibido na quinzena dos realizadores do Festival de Cannes, é a típica "obra de amadurecimento". Na trama, Naïma (Mina Farid) é a jovem que, durante as férias escolares, recebe a bem resolvida prima do título em português (e que é encarnada de forma hipnotizante por Zahia Dehar). É verão, o clima é primaveril, as pessoas estão livres e dispostas e o que a diretora Rebecca Zlotowski faz, de alguma maneira, é mostrar que, na nossa vida, devemos ser apenas nós mesmos. E ser felizes. Sem julgamentos. Sem olhar o outro com preconceitos por não ser parte do padrão vigente.

Sofia é, ao cabo, um espírito "livre". E talvez seja um espírito mesmo: que assim como vem, vai, deixando marcas, influenciando vidas, modificando ideais. Eu diria até que a jovem, guardadas as proporções, é como aquele livro que a gente lê, desvenda, e que nos abre os horizontes. Nos desperta para que saiamos da letargia de nossos dias, em busca de algo mais palpável e que tenha significado para nós. Sofia, por exemplo, encara o sexo, o corpo, com naturalidade. Se utiliza dele, inclusive, para se aproximar de outras pessoas. Mas o corpo é dela, afinal. Ela decide. É ela que, aos poucos, mostrará isso para Naïma que, perto da prima, parece uma menininha que ainda não desabrochou. Que segue presa numa infância em que é paparicada pela mãe e que tem sonhos juvenis que são como as peças de teatro encenadas com o amigo Dodo (Lakdhar Dridi). E isso também não é problema, afinal de contas cada um tem seu tempo. E este não só pode, como deve ser respeitado.


É um filme sobre muitos "nadas" que significam bastante coisa - e a formação na juventude passa por muitas provações, muitas inseguranças a serem superadas e, quem vai mentir que nunca encarnou uma personagem daquilo que não era nessa fase da vida? Sensual, o filme tem na liberdade sexual uma forma de expressar suas intenções. E com cenas de transa reais, em que a conexão entre os corpos é um prazer, um deleite - diferentemente do que ocorre nas cenas de sexo de filmes hollywoodianos em que, invariavelmente, transar é um sofrimento. Aliás, a obra é toda sexy: de seus cenários quase paradisíacos, passando pelas enigmáticas sequências de flerte junto a barcos, até chegar as boates classudas e as praias aconchegantes. Na rotina dessa quinzena de férias, Sofia e Naïma se juntam para formar uma espécie de contraponto entre duas jovens: uma ambientada a uma vida hedonista, de luxo e de sexo e outra que tem a sua rotina abalada justamente por esse combo.

Diga-se de passagem, acredite, o público mais careta, mais conservador tem se queixado das liberdades tomadas pela película. Onde já se viu, afinal de contas, uma obra em que uma jovem curte, transa, vive a vida sem se preocupar com o futuro, família, filhos, carreira? Sim, é uma espécie de idílio nem sempre aceitável - e os consumidores da Netflix alegam não estar encontrando sentido na narrativa. Nesse caso, eu costumo ir na regra oposta: se a juventude anacrônica e lacradora não está gostando, há chance de estarmos diante de um bom filme. Aliás, a obra me fez lembrar outra, que foi tão criticada quanto esta, pelas cenas de nudez e pelas liberdades tomadas: Swimming Pool: A Beira da Piscina (2003), também de um diretor francês, no caso o ótimo François Ozon. Em ambos os casos há uma protagonista misteriosa, que parece saída de algum universo alternativo, mas que deixará profundas marcas naqueles que ficam. Viver a vida sem julgamentos, ser feliz, fazer aquilo que gosta. Me parece ser esse o recado de A Prima Sofia. Pena que os jovens da idade das protagonistas, não pareçam compreender isso.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Podcast do Picanha Cultural #17 - Pérolas da Netflix

Vamos combinar que a Netflix parece uma Biblioteca de Babel - nos moldes daquela pensada por Jorge Luis Borges no famoso conto do livro Ficções -, dada a quantidade quase infinita de produtos ofertados. Filmes, séries, talk shows, apresentações de stand up comedy, realities... o volume de material parece ser quase infinito, muitas vezes aleatório e, vamos combinar, nem sempre de qualidade. E "triar" também não é tarefa muito simples, já que o algoritmo parece longe de possui um mecanismo inteligente que, de fato, nos sugira aquilo que, efetivamente, queremos assistir. Bom, foi pensando nisso que resolvemos, o Bernardo, o Henrique e eu, fazer um episódio do Podcast do Picanha Cultural somente com as Pérolas da Netflix - aquele tipo e obra não tão conhecida que está pedindo para ser "descoberta". Divididas em cinco categorias - comédia, drama, suspense, ficção científica e cinema alternativo -, sugerimos um total de 15 filmes pra tornar o seu final de semana pandêmico e de frio no sofazão minimamente movimentado. Espero que vocês curtam o nosso sextou! Bora dar play?


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Pérolas da Netflix - Casa Grande

De: Fellipe Barbosa. Com Thales Cavalcanti, Marcelo Novaes, Suzana Pires, Clarissa Pinheiro e Bruna Amaya. Drama, Brasil, 2014, 114 minutos.

Se não chega a ser um filme escancaradamente social, Casa Grande - que toma emprestados alguns conceitos do clássico livro do sociólogo Gilberto Freyre -, é aquele tipo de obra que mostra um Brasil de contrastes a partir de uma série de acontecimentos cotidianos (e sutis). Na trama, somos apresentados a uma família burguesa, que precisa lidar com problemas financeiros que, aos poucos, vão mudando seu padrão de vida. Da madame que precisa, de forma quase inesperada, trabalhar para complementar renda, ao filho playboy que passa a ter de ir pra escola de ônibus porque o motorista foi demitido, a obra do diretor estreante Fellipe Barbosa vai encadeando fatos que, no fim das contas, funcionarão como um microcosmo de nossa sociedade. O panorama geral dá conta de um certo entorpecimento dessa aristocracia brasileira que é muitas vezes incapaz de perceber as mudanças - políticas, inclusive -, que ocorrem no entorno, para permanecer letargicamente paralisadas, enquanto, muito provavelmente, reclamam de algum governo que se esforçou em tentar equilibrar a balança.

Nesse sentido, talvez não seja por acaso que um dos principais debates do filme envolva a política das cotas raciais. Há, inclusive, um excesso de exposição sobre o tema, o que torna alguns diálogos bastante artificiais. Em um deles, Hugo (Marcelo Novaes) discute com o seu filho Jean (Thales Cavalcanti) sobre luzes acesas pela casa que poderiam acarretar aumento em contas de luz que se aproximam dos mil reais mensais. A filha Nathalie (Alice Melo) insiste na discussão das cotas com o pai que não lhe dá bola. O assunto voltará em outros momentos: em sala de aula, em um churrasco de família (talvez uma das mais contundentes sequências da obra), como uma forma de lembrar ao espectador que o que está em discussão no filme não é apenas o eventual enfraquecimento de parte das elites, mas como políticas públicas inovadoras buscaram equalizar parte das dividas históricas (e sociais), num ideal tardio de tentativa de igualdade.


E por mais que saibamos que políticas que atendem as camadas mais vulneráveis da população nada tem a ver com as perdas financeiras das famílias de bem, elas surgem para dar complexidade a um contexto em que os mais pobres também passam a ter o direito a sonhar e a sorrir - com uma faculdade, com um forró divertido, com produtos de beleza ou com um violão a beira da praia. Lembra da cena em que a filha da Val, personagem de Regina Casé em Que Horas Ela Volta? passa no vestibular e o filho playboyzinho da patroa não? É mais ou menos isso. Há uma nova configuração de País, em que jovens frustrados pelos mais diversos motivos, lutam para encontrar algum equilíbrio e alguma sanidade para que possam tocar a vida "adiante", em um cenário de pais superprotetores e reféns de algum tipo de violência que se avizinha e que parece sempre pronta a explodir, vinda de sabe-se lá onde.

Não por acaso a obra é pródiga em seus diversos comentários sociais. Em um deles Hugo reclama do filho que deseja a faculdade de comunicação - "economia dá muito mais dinheiro, muito mais futuro". Há o estudo de francês como um indicativo metafórico de retrocesso já que, na atualidade, a língua da moda é o inglês. E o que dizer da ultrapassada música clássica, que insiste em ecoar pela "casa grande", enquanto que na senzala o povão se esbalda com ritmos populares e regionalistas como o forró? Essas diferenças, essas ambiguidades parecem colocar os personagens de Casa Grande sempre no limite de extravasar os papeis sociais já pré-estabelecidos, como no instante em que Hugo estaciona seu carro de luxo em um local inadequado, quase armando briga com um coletivo de flanelinhas. O Brasil é grande. É complexo. Suas estruturas estão sempre em movimento, há grandes e profundas mudanças sociais e pessoas tentando se (re)adaptar a elas. O filme é sobre tudo isso ao mesmo tempo. Pode não ser tão panfletário, tão pungente. Mas, elegante, cheio de nuances, passa seu recado.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Pérolas da Netflix - Maudie: Sua Vida e Sua Arte (Maudie)

De: Aisling Walsh. Com Sally Hawkins, Ethan Hawke, Gabrielle Rose e Kari Matchett. Drama, Canadá / Reino Unido, 2016, 115 minutos.

Enquanto assistia a Maudie: Sua Vida e Sua Arte (Maudie), me perguntava o por quê de um filme tão bonito e tão bem feito ter passado completamente batido nos cinemas. Bom, antes tarde do que mais tarde a Netflix adquiriu o título para o seu catálogo e, justiça seja feita, trata-se de uma obra com praticamente zero defeitos. A trama conta a história da artista plástica Maud Lewis (Sally Hawkins, em mais uma grande interpretação) que, desde a juventude, conviveu com um severo problema de artrite reumatoide, que lhe causava desconforto e deformações nas articulações do corpo. Tida como inapta - especialmente pela dificuldade de locomoção - conviveu com o abandono da família, sendo acolhida meio aos trancos e barrancos por uma tia. A oportunidade de sair de casa surge quando um pescador brutamontes de nome Everett (Ethan Hawke) lhe contrata para auxiliar nos afazeres domésticos de sua pequena casa, que fica nas redondezas.

"Auxiliar nos afazeres domésticos" é uma forma quase amável demais para indicar aquilo que o sujeito fazia. Sem nenhum pudor Everett humilhava Maud, lhe agredia (inclusive fisicamente), além de fazer diversas exigências relativas ao cumprimento de suas tarefas. Era uma relação truncada, com ambos vivendo as turras. Entre idas e vindas, Maud acaba indo morar no seu local de trabalho. Uma casa suja, bagunçada, acinzentada e sem vida que, aos poucos, passará a receber alguma cor por causa do talento de Maud para a pintura. Um talento escondido, louco para vir à tona. No começo, de forma deliciosamente desafiadora, pinta as paredes da própria casa de Everett. O marrom das madeiras velhas passa a receber o verde, o azul e o amarelo das cores vivas saídas dos pincéis de Maud. Figuras bucólicas, prosaicas - animais, a natureza, objetos diversos. Everett fica ranzinza inicialmente. Reclama, estipula limites. Mas vai sendo dobrado pelo talento da sua "empregada". Pela sensibilidade artística. A mesma sensibilidade que nos transforma, que gera empatia, nos encanta.


Nos comentários sobre o filme vi muita gente reclamando de ser uma obra parada, sem uma grande história ou reviravoltas marcantes. Mas esse não é o caso aqui, já que esse é um filme plasticamente bonito, que utiliza a parte técnica a seu favor - do uso das cores na sua fotografia, passando pela trilha sonora de notas evocativas, até chegar a escolha das tomadas, que se apropriam de suas lindas paisagens para "transformá-las" em verdadeiras obras de arte. Repare como, por exemplo, muitos dos ângulos escolhidos, bem como os objetos cênicos são parecidos com quadros. Há um diálogo permanente com esse valor tão caro - o da arte - que se sobressai em cada fragmento da película. Maudie aparece muitos minutos pintando. E, de presente, ganhamos da diretora Aisling Walsh (de O Inferno de São Judas), uma coleção de imagens que representam aquele estado de espírito permanente - seja no bucolismo, na introspecção ou na placidez transmitida pelos gestos econômicos de sua protagonista.

Há também o componente "romântico" da narrativa. Conforme vai sendo impactado pelas obras - e pelo universo como um todo de Maudie -, Everett vai se afeiçoando a ela. Aliás, a seu modo se apaixona por ela, que se torna sua esposa. Mais tarde brigará pela sua arte a seu lado, ainda que, aqui e ali, os pequenos conflitos confiram alguma cor (com o perdão do trocadilho) a narrativa. É um filme de sensibilidade palpável, que salta do frio para o calor para nos aquecer juntos, enquanto assistimos aos pequenos e coloridos cartões da artista ganharem vida. Há uma ou outra surpresa de impacto na reta final - que nos farão refletir sobre o tratamento dado as pessoas com deficiência -, mas o que fica mesmo é o reconhecimento tardio da pintora, que quase ao final da vida chamou a atenção da mídia e até do presidente norte americano Richard Nixon. Poético, delicado, contemplativo, Maudie: Sua Vida e Sua Arte é daquelas obras que merecem ser descobertas.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Pérolas da Netflix - Frances Ha (Frances Ha)

De: Noah Baumbach. Com Greta Gerwig, Adam Driver, Mickey Sumner e Michael Zegen. Comédia dramática, EUA / Brasil, 2012, 86 minutos.

É muito provável que vocês já tenham tido a sensação de estar parados, estagnados no mesmo lugar enquanto, ao redor, o mundo acontece. É um tipo de sentimento que faz com que pareçamos menores do que tudo. Em nossa volta, as pessoas estão conquistando, estão consumindo, estão chegando na vida adulta com os boletos em dia, enquanto compram casas espaçosas e programam dois ou três filhos para as próximas temporadas. Nas redes sociais, as vidas parecem alegres, há uma evolução constante. Não há tempo pra olhar pra trás. É preciso se reinventar, crescer e amadurecer. Nem que seja meio na marra. Nem que seja batendo cabeça diante da dureza do mundo, que nos deixa fragilizados, ansiosos, inseguros. Assistindo a um filme como Frances Ha (Frances Ha), a vontade que temos é a de entrar na tela pra dar um abraço na protagonista porque, meio perdida em um mundo que avança freneticamente, ela parece sempre atrás em relação a todo o resto. Andando meio torta, como são os passos claudicantes de suas aulas de dança.

Crescer, mais especificamente, amadurecer, não é fácil. A gente vê muitos sonhos desabarem. Muitos degraus descidos. Como se estivéssemos em nosso Mito de Sísifo particular, a pedra nunca chega nem perto do topo da montanha nos fazendo encarar a nossa diminuta existência em um mundo sem sentido, desconexo, guiado por religiões, instituições, ideologias e sistemas políticos delirantes, que olham todo mundo mais ou menos da mesma forma. Não cresceu que chega? Não evoluiu? Não chegou lá? Culpa TUA. Tu que não te esforçou o suficiente. E esse ideal é replicado nas rodinhas de conversas de universitários descolados, que não escondem a preferência pelo Partido Novo. Tudo isso acontecendo, enquanto o teu maior desejo DO MOMENTO, talvez seja finalizar a leitura de Em Busca do Tempo Perdido de Proust. Em francês talvez. Prazeres da vida que entram em conflito com as contas que não param de chegar e que geram um vazio de existência - e de armários.


Sim, um olhar mais crítico pode taxar Frances Ha como um daqueles romances de formação white people problems em que a jovem de classe média tenta se enquadrar, enquanto saltita alegremente pelas ruas de Nova York, ao som de Modern Love, do David Bowie. Mas ali, nas entrelinhas daquele preto e branco meio saturado, tem uma obra com crítica social sutil, que de alguma forma analisa a hipocrisia das classes mais abastadas, que, eventualmente, sepultam sonhos para se "vender" para o status quo. A protagonista - vivida num misto de vigor, ingenuidade e delicadeza por Greta Gerwig -, sonha em ser dançarina. Viver da sua arte. Não consegue emplacar na companhia em que persistentemente atua. Vê o sonho ir desmoronando. Enquanto a melhor amiga vai morar no Japão com um bem remunerado marido empregado do mercado financeiro, vai morar com outros dois jovens artistas. Uma boa casa, conforto, mas inalcançável para o padrão de vida daquela jovem, que, ao final, se vê aos 27 anos num albergue, sem muito futuro, sem relacionamento ou a vida acontecendo a contento. Ela indo parar uma temporada na casa dos pais.

É uma obra de nuances essa do Noah Baumbach (que mais tarde passaria o rodo com o seu História de Um Casamento). É uma espécie de fábula moderna que lança um olhar carinhoso para a juventude cheia de frustrações, que transa e tem amigos, mas tem dificuldades para olhar para frente de forma madura, com a dor da certeza de que seus ideais de vida serão, cedo ou tarde, quebrados. Lembra da música Como Nossos Pais? do Belchior? É mais ou menos como se ela se encontrasse com o livro Liberdade do Jonathan Franzen: o "sonho americano" é um ideal que nem sempre está ao alcance de todo mundo. Mas, como acontece para muitas pessoas, Frances vai insistir, tentar, acertar e errar, chorar e brigar com a melhor amiga. Vai se considerada "inamorável" por um dos amigos - pelo seu jeito, pelo seu comportamento. Mas em algum lugar lá perto dos 30 anos, de tanto bater na trave as coisas talvez aconteçam, ou não. O mundo seguirá girando. Sem a necessidade de ir pra Paris apenas por ir. Pra dizer que foi, já que, é muito melhor quando tudo acontece naturalmente. Ainda que não exatamente como desejávamos.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Pérolas da Netflix - Um Contratempo (Contratiempo)

De: Oriol Paulo. Com Adrián Dória, Ana Wagener, Bárbara Lennie, José Coronado e Francesc Orella. Drama / Suspense, Espanha, 2016, 106 minutos.

Taí um suspense da Netflix absolutamente delicioso de assistir - daqueles que te deixa de queixo caído quando os créditos sobem! Aliás, as tramas cheias de reviravoltas em que nada é o que parece já estão se tornando uma tradição na filmografia do espanhol Oriol Paulo - de Durante a Tormenta (2018) -, com o expediente se repetindo neste vertiginoso Um Contratempo (Contratiempo). Na trama, Adrián Dória (Mario Casas) é o empresário bem sucedido que é acusado de ter assassinado a sua amante, de nome Laura (Bárbara Lennie) em um banheiro de um hotel isolado. Nada parece fazer muito sentido nessa história, já que Adrián leva uma vida feliz, tem uma família bonita, seus negócios vão de vento em popa e a sua amante parece aceitar sem nenhum problema a ideia de ser a "outra" já que, ela própria, também é casada. Mesmo empregando todos os recursos financeiros para se defender, o suspeito precisa enfrentar uma testemunha. Para isso, recebe em seu quarto de hotel a experiente advogada Virginia Goodman (Ana Wagener), que pretende lhe auxiliar.

A jurista lhe dá três horas para que conte a história. A verdade. O que de fato teria acontecido nos dias que antecederam o crime. E qual seria a explicação para ele "despertar" nesse quarto de hotel, após ter sido aparentemente agredido, com a sua amante morta no cômodo ao lado. Pior: com o frio intenso (e a neve) seria impossível qualquer pessoa ter entrado ou saído do local além deles, já que as janelas são vedadas. Mas a narrativa volta para eventos que antecederam o crime, para descobrirmos que um acidente ocorrido em um local isolado, modificaria a pacata vida de Adrián e Laura para sempre. E o pior: todas as decisões tomadas pelos dois dali pra frente os colocaria em uma espiral de acontecimentos em que uma mentira resulta em outra, e mais outra e mais outra e, bom... a gente sabe que a mentira tem perna curta e não vai demorar para que as peças comecem a se encaixar. Ou não! E, confesso, contar muito mais do que isso seria estragar a experiência de assistir a essa pequena joia!


O que posso dizer é que é um filme com ótima ambientação. As paisagens ermas, os dias acinzentados entram o tempo todo em conflito com o clima claustrofóbico gerado pelo quarto do hotel - em que Virginia se empenha em montar em um esquema para que o seu cliente possa escapar ileso de um juri pronto para lhe incriminar. A cada provocação da advogada, a cada novo questionamento em que o rumo da conversa é alterado, modificamos a nossa percepção a respeito daquilo que estamos assistindo. E isto faz com que mocinhos se tornem vilões, pessoas boas passem a ter uma ética duvidosa em questão de poucos segundos. E mais: houve de fato um crime? Ou dois? Quem são os assassinos? Adrián é culpado de algo? Ou tudo não passa de um estratagema, com o envolvimento de terceiros? E, confesso, é muito prazeroso ficar buscando, aqui e ali, alguma pista que possa nos levar ao que, de fato, aconteceu.

E, nesse sentido, é legal ficar atento aos detalhes. Se uma foto é mostrada, tentar perceber ela no todo. Se um objeto - digamos, um isqueiro - é apresentado, buscar compreender que enigma ele pode estar nos ajudando a resolver. Ou não! Todas as pistas podem ser reais ou falsas e o jogo de palavras projetado pelo roteiro engenhoso, cheio de diálogos inteligentes e intrigantes, é o que torna o projeto tão eficiente, vigoroso e, mais do que tudo, surpreendente. Há detalhes que nos são passados, que podem parecer meros.. detalhes. Mas que podem ser peça fundamental para a resolução dos enigmas propostos pelo diretor. Esse, aliás, é o tipo de filme que cai nas graças das plateias! Porque tentar desvendar os segredos é parte da diversão. É o que torna tudo ainda melhor. E, eu, ao chegar à conclusão, me arrepiei. Achei que tinha percebido, que tinha entendido tudo. Mas se você piscar, assim como eu fiz, você será enganado! E adorará!

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Pérolas da Netflix - Ninguém Sabe Que Eu Estou Aqui (Nadie Sabe Que Estoy Aqui)

De Gaspar Antillo. Com Jorge Garcia, Millaray Lobos e Luis Gnecco. Drama, Chile, 2020, 100 minutos.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.

É sempre no meu não aquele trauma.

                                               Carlos Drummond de Andrade

Não há espaço para os desajustados. Ligamos a televisão, acessamos nossas redes sociais e percebemos uma série de padrões impostos: o que devemos vestir, o que devemos comprar e, claro, o que devemos ser. A verdade é que o dito popular “uma imagem vale mais que mil palavras” parece ter tomado conta do nosso imaginário e não conseguimos mais conceber o diferente. Você só existe se é uma imagem agradável. Se não, está fadado ao anonimato ou ao sofrimento constante de tentar ser aquilo que você não é. Pare e pense por alguns segundos, não há cantor de sucesso nos holofotes se está fora dos padrões de beleza. A mídia compra o belo, o estilo e o engajamento social, sem isso você tem apenas... talento? Dom? Os jurados virarão a cadeira para você, encantados por sua voz. Mas nesse caldeirão, no domingo à noite ou nos milhares de stories, não há espaço para os desajustados.

É nessa indústria cruel do entretenimento que Memo (Jorge Garcia) cresce. Ninguém Sabe Que Eu Estou Aqui (Nadie Sabe Que Estoy Aqui) é um relato lento e melancólico da vida de um talentoso cantor que, por não se enquadrar nos padrões previstos das grandes gravadoras, acabou se tornando um ghost singer, ou seja, foi a doce voz de um corpo magro, bonito e totalmente desprovido de talento. Memo passa por testes e não há dúvida alguma: a sua voz e sua habilidade vocal é admirável, mas o empresário, mais preocupado em quantos discos irá vender, convence o pai do jovem que o melhor caminho é esse, emprestar sua voz, negar sua aparência deixar o jovem Angelo (Gastón Pauls) brilhar. O que vende é o desejo dos primeiros amores adolescentes, não a música. Na tela, observamos um Memo já adulto, com passos muito lentos e totalmente mudo, vivendo em uma pequena ilho no sul do Chile, somente acessível por pequenas embarcações.


A beleza do filme está nos grandes e lentos planos que mostram um ambiente bucólico, frequentado por Memo e seu tio, Braulio (Luis Gnecco), que vivem de um trabalho manual e árduo, criando ovelhas, sem acesso à internet, sem luz elétrica e em silêncio. A atuação de Garcia é melancólica, com intensos olhares perdidos e horas gastas com fantasias de um passado que quase vivenciou, um palco lotado, muitas luzes e ornamentos. Um grande artista que nunca obteve sua merecida glória e é assombrado pela culpa. O paradoxo do cantor que decide viver em completo silêncio. Claro, sua voz não fora o bastante, é compreensível a escolha pela solidão. Este paradoxo encontra o seu ponto alto em uma cena de vômito, quando Memo, após um breve momento de coragem, acaba expelindo um líquido vermelho e repleto de glitter, uma potente simbologia do seu incômodo com um passado que aos poucos vai se refazendo diante do espectador.

A mídia faz um papel importante na narrativa, ao ligar as pontas do passado com o presente. Quem busca o isolamento não quer ser encontrado. O protagonista acaba sendo reconhecido por um jornalista, após uma breve e simpática interação com um celular, presente de Marta (Millaray Lobos), uma amiga de Memo, que “adota” e encoraja o amigo depois de ouvi-lo cantar a famosa música de Angelo, a jovem estrela juvenil que fez sucesso internacional utilizando a voz de Memo. Veículos de todo o Chile invadem e buscam imagens de um Memo decadente. É neste contexto que a obra nos apresenta um imenso desfecho. Uma reconciliação com o passado, um acerto de contas com seus fantasmas. Memo viveu um desconsolado “não”, um trauma, uma ferida intensa. É chegada a hora de, mesmo que num breve instante, se jogar. 


sexta-feira, 3 de julho de 2020

Pérolas da Netflix - Sombras da Vida (A Ghost Story)

De: David Lowery. Com Rooney Mara, Casey Affleck e Brea Grant. Drama / Fantasia, EUA, 2018, 92 minutos.

Eu já tinha falado do Sombras da Vida (A Ghost Story) antes aqui no Picanha, em uma nota bastante curta, quando o filme foi o nosso primeiro colocado na lista de 25 Grandes Filmes do ano de 2017. E como ele foi disponibilizado nesta semana na Netflix, eu considerei esta a ocasião ideal para falar um pouco mais da obra do diretor David Lowery. Por que, sinceramente, este não é um filme qualquer. É uma obra diferente, pouco convencional, intrigante, delicada, que discute temas como passagem do tempo, permanência da memória e luto por meio de uma narrativa que vai no limite entre o minimalismo, a inteligência e a elegância. E ainda consegue tudo isso com um FIAPO de história. Na trama, Casey Affleck é um sujeito que morre em um acidente automobilístico e "retorna" para a sua antiga casa como um fantasma (bem ao estilo daqueles vistos em desenhos animados, com lençol branco e olhos escuros), pra tentar se reconectar (ou consolar) a viúva vivida pela Rooney Mara.

De início parece um filme de terror meio convencional. O casal está deitado na cama, na véspera do acidente, e ouve um barulho estridente vindo do piano da sala. Ao levantar, assustada, a dupla se depara com... nada. Pode ter caído alguma coisa em cima do instrumento? Algum tipo de choque que possa ser explicado pela ciência? Não sei. Casas estalam o tempo todo, fazem barulhos estranhos, aleatórios, vindos de móveis, camas, geladeiras. Quem nunca passou por isso? Quem nunca escutou um ruído meio sem explicação, que tenha nos deixado alarmados? No dia seguinte o acidente ocorre, o fantasma do protagonista não atravessa uma espécie de portal que se arma ainda no hospital e acaba permanecendo no nosso plano. De volta a sua casa, não consegue interagir: é um ectoplasma com um lençol. Está morto. Mas observa. Observa o luto, a dor da ex-mulher. Observa e observa. Os dias passam, a dor da morte é superada. A viúva se muda. O fantasma fica. Como se estivesse grudado, conectado de uma maneira intransferível àquela casa. Única possibilidade de contato com o passado? Um bilhete perdido entre os tijolos e o concreto de uma parede.


Mas a parede será demolida. Outro prédio virá no lugar. Anos e mais anos se passarão. Séculos, eras, períodos. Com o fantasma preso, dolorido, apegado a não se sabe o que e mal e mal a quem. E o "pulo do gato" desse filme, a meu ver, é a capacidade de discutir temas tão profundamente existencialistas ou metafísicos - como medo da morte e resiliência para lidar com perdas -, de uma forma tão pouco convencional. Ok, quando o filme acaba talvez a gente pense "bem, não entendi tudo, o que será que quis dizer aquela parte?". Mas penso que, mais do que isso, é um filme sobre sentir. Sobre sentimentos. Sobre a dor e a necessidade de levantar a cabeça. Sobre o tempo e a capacidade única dele em curar as feridas. O tempo que demora a passar, assim como demora uma eternidade a sequência em que a viúva come angustiadamente uma torta, mas sem prazer algum em apreciar aquilo que come, como se o alimento fosse apenas um refúgio - e, aliás, é uma sequência incrível, que dá conta do talento de Mara em transmitir MUITO, mas de forma econômica, com gestos sutis, uma lágrima que percorre o nariz, uma fungada.

É filme de detalhes que se vale muito da parte técnica para funcionar - e que, eventualmente, exigirá um pouco de paciência do espectador. Há ali uma fluidez narrativa diferente, uma morosidade que dialoga com aquilo que assistimos - que tem a ver com espera, com calma, com respeito ao tempo. Atento aos detalhes, Lowery insere aqui e ali instantes pequenos que gritam muito, como no momento em que um evento sobrenatural revela uma edição de O Amor Nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez - quer livro mais adequado para falar sobre passagem do tempo? Em outra sequência, a gente descobre como "funciona" uma casa insanamente mal assombrada. É algo inteligente, que provoca, que nos faz refletir. Ao final, como já dito, não haverá solução óbvia. Mas, o melhor: a gente ficará pensando no filme por semanas, talvez por meses ou anos. Como obra de arte ele perdurará, atravessará gerações, continuará. Assim como continua a Nona Sinfonia de Beethoven. Assim como fica a evocativa música I Get Overwhelmed, do Dark Rooms - que integra a trilha sonora. E uma obra que transcende de forma tão vigorosa os limites do cinema, vamos combinar: é maior do que qualquer coisa.