terça-feira, 14 de julho de 2020

Novidades no Now/VOD - Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars (Eurovision Song Contest: The Story Of Fire Saga)

De: David Dobkin. Com Will Ferrell, Rachel McAdams, Pierce Brosnan, Demi Lovato e Mikael Persbrant. Comédia / Musical, EUA, 2020, 123 minutos.

Por mais que seja palco de bandas e artistas bacanas como Sigur Rós, Of Monsters and Men e Björk, a Islândia tem uma "mancha" em seu currículo: jamais venceu o Festival Eurovision da Canção, competição musical que desde os anos 50 movimenta a Europa. Trata-se de um dos programas de TV mais antigos do mundo e que já revelou para o planeta coletivos como o ABBA e, bom... basicamente foi só o ABBA mesmo (a Céline Dion também venceu, mas a fama viria apenas anos mais tarde). O filme Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars (Eurovision Song Contest: The Story Of Fire Saga), mais recente bobajada capitaneada por Will Ferrel, parte mais ou menos dessa premissa, quando uma dupla do País se inscreverá no festival pra quebrar essa marca. A dupla é Sigrit (Rachel McAdams) e Lars (o próprio Ferrel) que, desde crianças assistiam o espetáculo e sempre desejaram estar entre os finalistas.

Bom, quem acompanha a carreira de Ferrell sabe que muitos de seus filmes são só desculpa para avacalhar ou parodiar algum esporte, competição ou segmento - como vimos nos hilários (admito) Ricky Bobby: a Toda Velocidade (2006) e Escorregando Para a Glória (2007), pra ficar em dois exemplos. Agora todos os clichês e exageros desse tipo de competição musical - a pirotecnia, a música robotizada e previsível, os figurinos espalhafatosos e os produtores mal intencionados -, estarão lá, numa série de piadas que, algumas vezes funciona, noutras não. Pra começar o filme é longo. Quase interminável. E uma visitinha a ilha de edição para dar uma aparada nas arestas não faria mal. Mais de duas horas numa comédia besta? Um pouco demais, o que faz com que a narrativa fique dando voltas e mais voltas em si mesma. Ok, há ali um par romântico em potencial. Ok, há a música e a mensagem de que a arte é algo superior ao espírito de competição. Ok, haverá a briga, os personagens que se colocam entre a dupla central, a reconciliação. Mas, volto a dizer, é meio demorado.


Fora isso, também não funcionam e até soam meio antiquadas as piadas escatológicas de tiozão - Ferrell coloca um preenchimento para parecer melhor "equipado" sexualmente, quando da primeira apresentação (é completamente besta) -, e um outro comentário preconceituoso, ainda que a crítica ao provincianismo das pequenas comunidades, não vou negar, em alguns casos soe engraçado (como no caso do amigo da dupla que, aos berros, praticamente exige que eles toquem a canção folclórica tradicional do País, ao invés de alguma novidade). No mais, também funciona razoavelmente bem o clichê do ambíguo vilão russo e a crítica à estupidez norte americana, como na sequência em que Lars explode diante de um grupo de turistas que pergunta se, naquele local, foram feitas as filmagens de Game Of Thrones. No fim é uma contínua sequência de esquetes médias, enquanto a jornada da dupla em busca da consagração vai acontecendo. Não sem haver percalços quase trágicos a cada ida ao palco.

Como ponto forte MESMO está a coleção de astros de outros países, caso de Ólafur Darri Ólaffson (da série Trapped), Mikael Persbrant (de Em Um Mundo Melhor), além da cantora Demi Lovato e de Pierce Brosnan que participa da melhor "piada referencial", logo no começo do filme, quando critica o filho que assiste o ABBA cantando Waterloo na TV, sendo que ele próprio participou do filme Mamma Mia. No mais é música, sintetizadores algumas mensagens espalhadas e um casal formado, com filho, pra todo o mundo ficar feliz. E, números musicais bem engraçados, especialmente aquele que envolve o já citado astro musical da Rússia (e, nesse caso, as piadas sobre a orientação sexual dele funcionam muito mais como uma crítica ao sistema autoritário do seu País de origem, do que qualquer outra coisa). Não vai mudar o mundo. Mas para um sábado despretensioso também não faz feio.

Nota: 6,5

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Podcast do Picanha Cultural #11 - O Rock (Não) Morreu?

O rock morreu? Está vivo? É um senhor moribundo operando por aparelhos? Ainda é possível apreciar o estilo sem ser confundido com aquele tiozão reacionário de jaqueta de couro (e ideias) fedendo a naftalina, enquanto sobe na sua Harley Davidson, abre uma cerveja artesanal e aperta 17 ao som de Steppenwolf? Sim, sempre que o Dia Mundial do Rock - celebrado nesta segunda-feira (13/07) - se aproxima, as perguntas, as dúvidas e os anseios são os mesmos. Em um contexto em que a "atitude rock and roll" parece ter se deslocado para outros campos musicais, há maneiras de arejar essa vertente que surgiu nos, agora distantes, anos 50? Para nos ajudar a (tentar) responder estas e tantas outras questões a gente recebeu um convidado mais do que especial: o Carlos Eduardo Lima, jornalista e historiador carioca, que já prestou serviços pra várias publicações e, hoje, mantém o ótimo site Célula Pop. CEL, como é conhecido, dá AULA sobre História do Rock. De verdade! E nos fez a gentileza de bater um papo conosco não apenas sobre música, mas também sobre política, cultura e até futebol. Acho que vocês vão gostar!


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Picanha.doc - Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado (Mucho Mucho Amor: The Legend Of Walter Mercado)

De: Cristina Costantini e Kareem Tabsch. Documentário, EUA, 2020, 96 minutos.

Quem cresceu nos anos 90 sabe que a TV brasileira foi, de muitas formas, bastante excêntrica nessa década - com variações que iam da banheira do Gugu à Tiazinha do H, passando pelo Aqui e Agora até chegar ao Ratinho descobrindo a existência de um... homem grávido. E era no intervalo de uma ou outra dessas bizarrices televisivas - exibidas alegremente nas tardes das "famílias de bem", com os adolescentes espichando o olho para o conteúdo que misturava violência social, cultura suburbana e soft porn -, que o combo ficava completo quando surgia na tela um sujeito extravagante chamado Walter Mercado. Era a época dos 0900, em que as pessoas discavam para telefones aleatórios, pagavam alguns centavos e tinham em troca algum tipo de gravação generalista, que poderia lhes auxiliar a (tentar) amenizar as dores e os anseios do mundo. Como astrólogo, Mercado prometia respostas a partir dos astros. "Ligue djá!" era o seu bordão. As pessoas ligavam. Mercado, ou algum de seus quatro mil assistentes atendiam. O ciclo se completava.

Mercado era famoso no Brasil, mas muito mais famoso em outros lugares do mundo - inclusive nos Estados Unidos. E o que o documentário Ligue Djá: O Lendário Walter Mercado (Mucho Mucho Amor: The Legend Of Walter Mercado) pretende é prestar uma justa homenagem a um sujeito exótico que, assim como surgiu para a TV como um furacão andrógino - com suas capas suntuosas, penteado de tia-avó e brilho fosforescente -, desapareceu dela. Quase misteriosamente. E uma parte do filme é dedicada justamente à briga judicial que o astrólogo teve com um de seus empresários, que praticamente lhe "roubou" os direitos de imagem, fazendo-o cair no ostracismo em meados dos anos 2000. São alguns dos pontos que dão alguma pimenta à película dirigida por Cristina Costantini e Kareem Tabsch, que não fazem nenhuma questão de esconder que, aquilo que estamos acompanhando, é, afinal, um grande tributo ao biografado, sempre retratado como uma figura afável, amistosa e até ingênua em alguns momentos.


Mesmo assuntos mais espinhosos - como a sexualidade de Walter -, são tratados de forma meio apressada, como que para não gerar nenhum desconforto. De qualquer forma, o fato dele ter sido (re)descoberto pelos millenials - seja por meio de memes ou outras trucagens da internet -, não deixa de ser evocativo da importância que figuras de gênero indefinido tem, na atualidade. Em certa altura um dos ativistas entrevistados dá a entender que Walter não "saía do armário" porque a opinião pública o massacraria nos preconceituosos e conservadores anos 60 e 70, quando começou a fazer fama para além da sua Porto Rico natal. Nos dias de hoje seria uma pessoa amada e símbolo da diversidade, certamente. E de alguma maneira é o que acompanhamos nos últimos (e otimistas) minutos do filme, quando a sua carreira é celebrada em uma mostra que comemorava os 50 anos de sua estreia televisiva. Uma estreia que, por sinal, foi em programas de humor, esquetes de teatro. O astrólogo afetado, pomposo, divertido viria mais tarde. E cativaria a todos.

Trata-se, em linhas gerais, de um filme leve - o famoso feel good movie. Voltando no tempo, o documentário volta às origens humildes de Walter, e de como teria iniciado a fama como "curandeiro". Em meio a tiradas bem humoradas do próprio, parentes, jornalistas, empresários, produtores de TV, amigos pessoais e outras figuras que gravitaram o astrólogo, vão dissecando sua personalidade, seu comportamento, seu estilo de vida - cheio de botox, de vitaminas, de figurinos multicoloridos, de joias caras e de maquiagem carregada. É uma obra bem feita, bem montada, que utiliza recursos técnicos inteligentes (caso da animação), para ilustrar épocas em que são escassos os materiais de arquivo. E que joga alguma luz a uma personalidade que foi relevante, que teve uma trajetória marcante no mercado esotérico. Fosse nos dias de hoje, o bordão Ligue Djá! seria trending topic no Twitter, inspiraria blogueirinhas de celebridades. Para quem cresceu nos anos 90, é fruto da memória nostálgica que se forma em meio a lembranças enfumaçadas de bandas de axé e de pagode, do Fantasia e de concursos da gata molhada.


quarta-feira, 8 de julho de 2020

Na Espera - Magnatas do Crime (Filme)

Quando penso na filmografia do diretor Guy Ritchie, devo dizer que ocorre algo que poderia ser chamado de "Efeito M. Night Shyamalan". Isso significa uma carreira que começa muito bem, com filmes vigorosos, interessantes, que depois descambam pra uma série de obras previsíveis, que repetem fórmulas e só geram enfado. Sobre Ritchie, é só pensar que a sua filmografia inicial contava com joias como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch: Porcos e Diamantes (2000), que mais tarde dariam lugar a películas enfadonhas como Revolver (2005) e RocknRolla: A Grande Roubada (2008). Sim, ele também foi o nome por trás dos dois filmes do Sherlock Holmes com Robert Downey Jr., mas de lá para cá muito mais baixos do que altos - assim como Shyamalan jamais repetiria O Sexto Sentido (1999) e Corpo Fechado (2000). Bom, os fãs de Ritchie estão permanentemente aguardando um "retorno às origens" o que, talvez, possa ocorrer com Magnatas do Crime (The Gentlemen).


O trailer, na realidade, possui aquele clima Guy Ritchie de sempre: um senso de humor bastante cínico dos diálogos dos personagens, algumas doses de violência gráfica, um estilo de filmagem frenético, urgente e barulhento e uma história sobre um traficante britânico que pretende vender o seu império altamente lucrativo para uma dinastia de bilionários. No elenco, Matthew NcConaughey puxa a frente, tendo ainda na parceria nomes como Hugh Grant e Colin Firth. Previsto a princípio para o dia 06 de agosto de 2020 - tudo é incerto em meio à pandemia -, o filme deverá ser aquele que, oficialmente, marca a reabertura dos cinemas (e aqui nem cabe discussão sobre se isso é certo ou errado, porque a meu ver parece BEM ERRADO, já que estamos bem longe de qualquer solução quando o assunto é Covid-19). De qualquer forma, a gente pretende dar mais uma chance para o diretor. Assim como estamos sempre dando novas oportunidades para Shyamalan.

Pérolas da Netflix - Ninguém Sabe Que Eu Estou Aqui (Nadie Sabe Que Estoy Aqui)

De Gaspar Antillo. Com Jorge Garcia, Millaray Lobos e Luis Gnecco. Drama, Chile, 2020, 100 minutos.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.

É sempre no meu não aquele trauma.

                                               Carlos Drummond de Andrade

Não há espaço para os desajustados. Ligamos a televisão, acessamos nossas redes sociais e percebemos uma série de padrões impostos: o que devemos vestir, o que devemos comprar e, claro, o que devemos ser. A verdade é que o dito popular “uma imagem vale mais que mil palavras” parece ter tomado conta do nosso imaginário e não conseguimos mais conceber o diferente. Você só existe se é uma imagem agradável. Se não, está fadado ao anonimato ou ao sofrimento constante de tentar ser aquilo que você não é. Pare e pense por alguns segundos, não há cantor de sucesso nos holofotes se está fora dos padrões de beleza. A mídia compra o belo, o estilo e o engajamento social, sem isso você tem apenas... talento? Dom? Os jurados virarão a cadeira para você, encantados por sua voz. Mas nesse caldeirão, no domingo à noite ou nos milhares de stories, não há espaço para os desajustados.

É nessa indústria cruel do entretenimento que Memo (Jorge Garcia) cresce. Ninguém Sabe Que Eu Estou Aqui (Nadie Sabe Que Estoy Aqui) é um relato lento e melancólico da vida de um talentoso cantor que, por não se enquadrar nos padrões previstos das grandes gravadoras, acabou se tornando um ghost singer, ou seja, foi a doce voz de um corpo magro, bonito e totalmente desprovido de talento. Memo passa por testes e não há dúvida alguma: a sua voz e sua habilidade vocal é admirável, mas o empresário, mais preocupado em quantos discos irá vender, convence o pai do jovem que o melhor caminho é esse, emprestar sua voz, negar sua aparência deixar o jovem Angelo (Gastón Pauls) brilhar. O que vende é o desejo dos primeiros amores adolescentes, não a música. Na tela, observamos um Memo já adulto, com passos muito lentos e totalmente mudo, vivendo em uma pequena ilho no sul do Chile, somente acessível por pequenas embarcações.


A beleza do filme está nos grandes e lentos planos que mostram um ambiente bucólico, frequentado por Memo e seu tio, Braulio (Luis Gnecco), que vivem de um trabalho manual e árduo, criando ovelhas, sem acesso à internet, sem luz elétrica e em silêncio. A atuação de Garcia é melancólica, com intensos olhares perdidos e horas gastas com fantasias de um passado que quase vivenciou, um palco lotado, muitas luzes e ornamentos. Um grande artista que nunca obteve sua merecida glória e é assombrado pela culpa. O paradoxo do cantor que decide viver em completo silêncio. Claro, sua voz não fora o bastante, é compreensível a escolha pela solidão. Este paradoxo encontra o seu ponto alto em uma cena de vômito, quando Memo, após um breve momento de coragem, acaba expelindo um líquido vermelho e repleto de glitter, uma potente simbologia do seu incômodo com um passado que aos poucos vai se refazendo diante do espectador.

A mídia faz um papel importante na narrativa, ao ligar as pontas do passado com o presente. Quem busca o isolamento não quer ser encontrado. O protagonista acaba sendo reconhecido por um jornalista, após uma breve e simpática interação com um celular, presente de Marta (Millaray Lobos), uma amiga de Memo, que “adota” e encoraja o amigo depois de ouvi-lo cantar a famosa música de Angelo, a jovem estrela juvenil que fez sucesso internacional utilizando a voz de Memo. Veículos de todo o Chile invadem e buscam imagens de um Memo decadente. É neste contexto que a obra nos apresenta um imenso desfecho. Uma reconciliação com o passado, um acerto de contas com seus fantasmas. Memo viveu um desconsolado “não”, um trauma, uma ferida intensa. É chegada a hora de, mesmo que num breve instante, se jogar. 


terça-feira, 7 de julho de 2020

Cine Baú - Rashomon (Rashomon)

De: Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Machiko Kyô e Kichijiro Ueda. Drama, Japão, 1950, 88 minutos.

Um dos roteiros mais engenhosos da história do cinema, o clássico Rashomon (Rashomon), de Akira Kurosawa, segue, 70 anos depois de seu lançamento, como um formidável exercício de estilo que brinca o tempo todo com a nossa percepção a respeito do que verdadeiramente teria acontecido no cenário de um assassinato. Trata-se de uma obra em que a lógica daquilo que assistimos se modifica o tempo todo, nos gerando incertezas que podem ser fruto de conclusões precipitadas - ou não. Ao cabo, é uma película que analisa o próprio fazer cinematográfico a partir do deslocamento da narrativa, com seus vários ângulos sendo sutilmente explorados. Na trama, um casal - um samurai e sua esposa -, são atacados por um bandido, que estupra a mulher. Pior, os motivos da morte do homem jamais ficam claras: ele foi realmente assassinado? Ou se suicidou? Pior ainda, teria a própria mulher investido contra ele, incapaz de lidar com a desonra praticada ao matrimônio?

Curioso, divertido e até exagerado, o filme começa com um encontro inusitado entre um lenhador (Takashi Shimura), um padre (Minoru Chiaki) e um plebeu (Kichigiro Ueda) que, impossibilitados de sair das ruínas de um tempo por causa de uma tempestade, resolvem divagar sobre a perturbadora história da morte relatada acima. Contada pelo lenhador, a história da conta de um tenebroso ataque em meio a floresta: sobram apenas alguns apetrechos da mulher que teve sua vida invadida, um chapéu, um sapato, um pedaço de corda. Em frente a uma espécie de tribunal, o relato impacta, mas não convence. Há outras possibilidades, outros caminhos, que mudam totalmente a perspectiva. Mudam, inclusive, o comportamento dos envolvidos, que podem sair de figuras alucinadas e irracionais (como é o caso do bandido Tajomaru, vivido por Toshiro Mifune), que em outros momentos surge como uma figura de modos plácidos e seguros.


Até mesmo o morto ressurge no formato de contato mediúnico através de uma "encarnação" feita pela própria ex-mulher, pra dar a sua versão do ocorrido. Há discrepâncias e incertezas que se movimentam o tempo todo e que nos impedem de, efetivamente, conhecer a verdade dos fatos. Quando o filme termina, o que permanece muito mais é a abordagem das possibilidades narrativas, do que qualquer certeza que possa ser redentora para aqueles que assistimos. E é ao retratar às personagens sem julgamentos ou maniqueísmos, que a trucagem ganha força. Nem todo mundo é bom e mal o tempo inteiro. Um homem pode cometer um roubo, se arrepender e se reintegrar a vida em sociedade. Nesse sentido, vítimas inocentes podem passar à figuras frívolas em um instante, o mesmo valendo para os corajosos guerreiros que, diante da iminência de uma batalha, podem se reconfigurar em figuras covardes e patéticas.

Utilizando a parte técnica em favor da narrativa, Kurosawa preenche cada cena com um bucolismo que contrasta com a violência dos acontecimentos. Em meio à floresta, a fotografia em preto e branco confunde a nossa visão - as vezes às personagens quase somem em meio a folhas e galhos -, ao passo que o calor escaldante é materializado no suor constante e nos ataques de insetos, especialmente a Tajomaru, que passa boa parte do tempo tentando matar mosquitos que lhe atacam. Aliás, Mifune, tradicional colaborador do diretor, dá mais uma aula de atuação, mesclando loucura e placidez, contribuindo para a confusão e para a neurose narrativa que se estabelece - e que nos enche de incertezas. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme pavimentaria o caminho para que o diretor japonês realizasse os seus grandes clássicos, casos de Os Sete Samurais (1954), Kagemusha (1980) e Ran (1985), que formariam, junto com tantos outros grandes títulos, uma das mais consagradas filmografias de todos os tempos.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Novidades no Now/VOD - Ema (Ema)

De: Pablo Larraín. Com Mariana Di Girolamo, Gael Garcia Bernal, Santiago Cabrera e Catalina Saavedra. Drama, Chile, 2019, 107 minutos.

Disponível na plataforma Mubi, Ema (Ema) é um filme sobre um tema pouquíssimo explorado nas artes: no caso um processo de adoção que deu errado, após um trauma familiar. O que fez com que o casal adotante tivesse de "devolver" o jovem um ano após o início da experiência como uma nova família. Na realidade esse fiapo de história serve para que o diretor Pablo Larraín - de No (2012) e O Clube (2015) - discuta temas muito maiores, colocando em conflito o conservador e o moderno, o tradicional e o contemporâneo. É um filme hipnótico, sensorial e contemplativo, que funciona quase como se fosse uma grande instalação artística de pouco mais de uma hora e meia de duração, em que os conflitos dos personagens são desenrolados em meio a números de dança, apresentações coreografadas e diálogos absurdamente sinceros (e doloridos). É obra que discute a hipocrisia da sociedade e as mudanças políticas e culturais do mundo atual, aos quais se inserem, também, as novas configurações de família.

A meu ver trata-se de um formato narrativo muito criativo no debate sobre feminismo, papel da mulher na sociedade e liberdade. A Ema (Mariana Di Girolamo) do título é uma força da natureza - uma mulher complexa, enigmática, hipnótica e sensual. Não por acaso ela alerta as pessoas que se aproximam dela de "que elas poderão se queimar". Dançarina em uma companhia de danças que realiza apresentações de balé clássico, é casada com Gastón (Gael Garcia Bernal em sua terceira colaboração com Larrain), o coreógrafo e coordenador do coletivo. É com ele que Ema faz a adoção do filho - um jovem de nome Polo -, que não dá certo. Trata-se de um pré-adolescente de cerca de 10 anos e as acusações mútuas do casal dão conta de alguns motivos que podem ter levado ao ocorrido. Na realidade a gente nunca sabe o que acontece no íntimo de cada relacionamento. Mas, em geral, as pessoas são especialistas em julgar. E Ema passa a ser julgada como a vilã, como a mãe "desnaturada", a responsável por abandonar um filho.


Não por acaso, se desligará da escola em que atua também como professora - os alunos parecem gostar dela -, e ainda dará andamento ao processo de divórcio, já que, biologicamente, Gastón é incapaz de lhe "dar" um filho ("eu lhe dei", argumentará ele, sobre a adoção). Desmoralizado pelo serviço de assistência social, o casal passará a ser atacado TAMBÉM por aquilo que lhe apaixona: no caso, o teatro, a dança. Encarados como figuras à margem da sociedade, como vagabundos desregrados que estimulam a violência e as liberdades sexuais a partir de suas obras, serão considerados incapazes de criar um filho. E se afastarão. Fechado em seu mundinho meio retrógrado, Gastón não consegue perceber o anacronismo de seu ideal de arte mais "pura", ao passo que, Ema, desligada do grupo de dança, se envolverá em outra paixão: o reggaeton, a dança urbana, de rua, que tem no corpo um ente político, de expressão das pessoas mais simples. Ao mesmo tempo, descobrirá quem são os novos pais de Polo, resolvendo se aproximar deles. Se envolver. Assim como se envolverá com outras pessoas, colegas do grupo de dança, sua advogada. O corpo é dela. Ela é livre. E o filme mostrará isso sem pudores, sem julgamentos e sem atirar o panfleto na tua cara.

É um filme, afinal, cheio de camadas. E que nos faz perguntar o tempo todo sobre o que seria o certo naquele universo - ainda que a resposta fosse "não sabemos". Ema parece arrependida de sua decisão e fará de tudo para se reaproximar de Polo, adotando medidas extremas. Piromaníaca, ateará fogo em carros, prédios, no patrimônio público. É a metáfora mais óbvia para o caráter flamejante da personalidade da personagem. Quase funcionando como um contraste para a placidez sorumbática das vielas, das casas e dos morros da Val Paraíso, onde a obra foi filmada. Acreditando na inteligência do espectador, vai despejando seus temas em doses pequenas, homeopáticas, em diálogos mais expositivos, em sequencias em que a imagem fala mais do que as palavras. É uma obra também bonita do ponto de vista técnico: a música do ótimo Nicholas Jaar hipnotiza. O estilo de filmar de Larraín nos envolve, nos abraça, com seus planos em sequência, sua câmera que flana num vai e vem nem sempre convencional, mas orgânico, envolvente. Nem tudo se resolve plenamente, mas a gente se arrebata: e sai amando Ema exatamente pelo que ela é. Esse espírito livre, uma figura contemporânea, eventualmente hedonista, mas em busca da felicidade. Mesmo que a gente se queime.

Nota: 9,0

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Podcast do Picanha Cultural #10 - Vilões do Cinema que Amamos Odiar

De Hannibal Lecter a Norman Bates, passando por Darth Vader e até o computador Hal 9000, não foram poucos os vilões de cinema que marcaram época e que permanecem inesquecíveis em nossa memória. E foi pensando nisso que resolvemos fazer neste episódio do nosso Podcast do Picanha Cultural, um pequeno resgate com alguns dos grandes vilões de filmes antigos e atuais - aquele tipo de figura que mistura, em muitos casos, charme, maldade e cinismo e que, no fim, amamos odiar. Nossa ideia foi fugir um pouco das óbvias "figuras" citadas no começo desse texto - e também de fugir um pouco dos anti-herois que formam o combo maniqueísta das adaptações dos quadrinhos -, para lembrar daqueles antagonistas humanos, delirantes, excêntricos e... apaixonantes. Cito aqui um, que aparece no nosso debate: Anton Chigurh, o inesquecível vilão de Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007), encarnado de forma irracionalmente determinada por Javier Barden. Mas tem muito mais! Bora clicar? E não esqueçam de nos dizer quais os mais marcantes vilões de filmes para vocês!


Pérolas da Netflix - Sombras da Vida (A Ghost Story)

De: David Lowery. Com Rooney Mara, Casey Affleck e Brea Grant. Drama / Fantasia, EUA, 2018, 92 minutos.

Eu já tinha falado do Sombras da Vida (A Ghost Story) antes aqui no Picanha, em uma nota bastante curta, quando o filme foi o nosso primeiro colocado na lista de 25 Grandes Filmes do ano de 2017. E como ele foi disponibilizado nesta semana na Netflix, eu considerei esta a ocasião ideal para falar um pouco mais da obra do diretor David Lowery. Por que, sinceramente, este não é um filme qualquer. É uma obra diferente, pouco convencional, intrigante, delicada, que discute temas como passagem do tempo, permanência da memória e luto por meio de uma narrativa que vai no limite entre o minimalismo, a inteligência e a elegância. E ainda consegue tudo isso com um FIAPO de história. Na trama, Casey Affleck é um sujeito que morre em um acidente automobilístico e "retorna" para a sua antiga casa como um fantasma (bem ao estilo daqueles vistos em desenhos animados, com lençol branco e olhos escuros), pra tentar se reconectar (ou consolar) a viúva vivida pela Rooney Mara.

De início parece um filme de terror meio convencional. O casal está deitado na cama, na véspera do acidente, e ouve um barulho estridente vindo do piano da sala. Ao levantar, assustada, a dupla se depara com... nada. Pode ter caído alguma coisa em cima do instrumento? Algum tipo de choque que possa ser explicado pela ciência? Não sei. Casas estalam o tempo todo, fazem barulhos estranhos, aleatórios, vindos de móveis, camas, geladeiras. Quem nunca passou por isso? Quem nunca escutou um ruído meio sem explicação, que tenha nos deixado alarmados? No dia seguinte o acidente ocorre, o fantasma do protagonista não atravessa uma espécie de portal que se arma ainda no hospital e acaba permanecendo no nosso plano. De volta a sua casa, não consegue interagir: é um ectoplasma com um lençol. Está morto. Mas observa. Observa o luto, a dor da ex-mulher. Observa e observa. Os dias passam, a dor da morte é superada. A viúva se muda. O fantasma fica. Como se estivesse grudado, conectado de uma maneira intransferível àquela casa. Única possibilidade de contato com o passado? Um bilhete perdido entre os tijolos e o concreto de uma parede.


Mas a parede será demolida. Outro prédio virá no lugar. Anos e mais anos se passarão. Séculos, eras, períodos. Com o fantasma preso, dolorido, apegado a não se sabe o que e mal e mal a quem. E o "pulo do gato" desse filme, a meu ver, é a capacidade de discutir temas tão profundamente existencialistas ou metafísicos - como medo da morte e resiliência para lidar com perdas -, de uma forma tão pouco convencional. Ok, quando o filme acaba talvez a gente pense "bem, não entendi tudo, o que será que quis dizer aquela parte?". Mas penso que, mais do que isso, é um filme sobre sentir. Sobre sentimentos. Sobre a dor e a necessidade de levantar a cabeça. Sobre o tempo e a capacidade única dele em curar as feridas. O tempo que demora a passar, assim como demora uma eternidade a sequência em que a viúva come angustiadamente uma torta, mas sem prazer algum em apreciar aquilo que come, como se o alimento fosse apenas um refúgio - e, aliás, é uma sequência incrível, que dá conta do talento de Mara em transmitir MUITO, mas de forma econômica, com gestos sutis, uma lágrima que percorre o nariz, uma fungada.

É filme de detalhes que se vale muito da parte técnica para funcionar - e que, eventualmente, exigirá um pouco de paciência do espectador. Há ali uma fluidez narrativa diferente, uma morosidade que dialoga com aquilo que assistimos - que tem a ver com espera, com calma, com respeito ao tempo. Atento aos detalhes, Lowery insere aqui e ali instantes pequenos que gritam muito, como no momento em que um evento sobrenatural revela uma edição de O Amor Nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez - quer livro mais adequado para falar sobre passagem do tempo? Em outra sequência, a gente descobre como "funciona" uma casa insanamente mal assombrada. É algo inteligente, que provoca, que nos faz refletir. Ao final, como já dito, não haverá solução óbvia. Mas, o melhor: a gente ficará pensando no filme por semanas, talvez por meses ou anos. Como obra de arte ele perdurará, atravessará gerações, continuará. Assim como continua a Nona Sinfonia de Beethoven. Assim como fica a evocativa música I Get Overwhelmed, do Dark Rooms - que integra a trilha sonora. E uma obra que transcende de forma tão vigorosa os limites do cinema, vamos combinar: é maior do que qualquer coisa.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Atração Fatal (Fatal Attraction)

Cena: sobre os dotes gastronômicos na arte de cozinhar um coelho.

É muito provável que, nos dias de hoje, um filme como Atração Fatal (Fatal Attraction) sequer fosse feito. E, se fosse feito como foi, certamente seria alvo de uma enxurrada de críticas, sendo rapidamente cancelado na internet. Mas, é necessário analisar as obras de arte - ultrapassadas ou não -, também no contexto em que elas surgiram. E, digamos que esse nicho, o dos filmes com mulheres (ou amantes) surtadas, paranoicas, loucas e adúlteras, fez muito sucesso no final dos anos 80 e começo dos 90. Aliás, o diretor Adrian Lyne foi um grande expoente dessa vertente "drama de casal classe média americana às voltas com problemas conjugais", tanto que filmou Proposta Indecente (1993) e Infidelidade (2002), além do clássico soft porn 9 1/2 Semanas de Amor (1986). Sim, hoje tá tudo datado. O discurso de mulher neurótica que só encontrará a felicidade nas mãos de um homem já expirou há um bom punhado de décadas. Mas eu tenho uma confissão a fazer: pra mim Atração Fatal, como "terror passional", assistido de forma descompromissada, segue funcionando direitinho.

E acho que posso falar que boa parte do público cinéfilo concorda comigo. A obra é de arrepiar, e a Glenn Close, na pele da executiva Alex Forest está assombrosa - tanto que há quem insista na tese de que o Oscar e Melhor Atriz naquele ano foi parar nas mãos erradas (Cher levou a estatueta pra casa pelo nem sempre lembrado Feitiço da Lua). Alex é colega de trabalho do advogado Dan Gallagher (Michael Douglas, quem mais?), um sujeito casado com a simpática Beth (Anne Archer), com quem tem a filha Ellen (Ellen Hamilton Latzen). Prestes a comprar uma casa nova e pronto pra viver o sonho americano, o homem cai na asneira de ter um caso de uma noite com Alex, num final de semana em que esposa e filha estão viajando. Close está insinuante, com seu olhar sempre ambíguo e enfumaçado e cabelos volumosos, sendo bastante direta nas suas intenções. Os dois acabam na cama, se divertem, riem juntos, mas... a vida continua? Não para Alex, que quer mais do que ser amante. Rejeitada, decide transformar a existência de Dan e de sua família num inferno.


Eu volto a dizer que, por mais verossímil que esse roteiro possa, eventualmente, parecer, hoje em dia ele soa absurdo, misógino, antiquado, equivocado. Foi apenas uma noite, mas Alex, num excesso furioso de carência, se torna o "demônio encarnado". Passa a fazer persistentes ligações para o trabalho de Dan. O visita em horários inesperados. Envolve a família, bagunça rotinas. Persegue, ameaça, gera uma grande instabilidade em todos que rodeiam o protagonista - tanto que seu arrependimento, é transmitido no formato de um carinho quase transcendental e extremamente devotado à esposa. Ele rateou MUITO. Sabe disso. E precisará de um esforço enorme para que tudo aquilo que ele ama, não se esfacele. Mas esse quadro se chama Grandes Cenas do Cinema e quero falar de uma das mais inesquecíveis (e violentas) sequências promovidas por um "vilão" de filme: que é o instante em que Alex resolve mostrar seus "dotes culinários", fervendo VIVO o coelhinho de estimação de Ellen.

Essa sequência ocorre no terço final. A família já se mudou para uma nova e idílica casa, mas a vida já virou de cabeça pra baixo, com Alex não sossegando na sua persistência. Com as ameaças e as tensões crescentes, o trio resolve fazer um passeio para visitar a mãe de Beth. É no retorno pra casa, que tudo acontece: Ellen vai correndo pelo quintal até gaiolinha onde está - ou deveria estar -, o seu mais novo animalzinho de estimação. Ao mesmo tempo, Beth entra em casa e percebe que algo está, estranhamente, fervendo sobre o fogão (sendo que ninguém estava em casa). Ela abre a panela no mesmo instante em que a menina chega ao local que deveria estar o coelhinho. A trilha sonora sobe, a edição é perfeita. O grito é inevitável. E daí pra frente o terror só vai piorar. Na época a cena foi tão marcante que a expressão bunny boiler passou a ser utilizada para definir figuras instáveis emocionalmente, obsessivas, especialmente do ponto de vista dos relacionamentos. Aliás, o termo é utilizado, de forma bem humorada (e machista, diga-se), até hoje, tão marcante que foi o ato.


Alex Forest foi, no fim das contas, uma figura tão violentamente perturbadora e inesquecível dentro desse "nicho", que uma votação feita pelo American Film Institute (AFI), a colocou como a sétima melhor vilã da história, à frente por exemplo, de Michael Corleone (vivido por Al Pacino em O Poderoso Chefão), o computador Hal (de 2001: Uma Odisseia no Espaço) e até o perturbado Alex De Large (excêntrica figura encarnada por Malcolm McDowell, em Laranja Mecânica). Como filme, já dissemos mais de uma vez nessa resenha: a narrativa tá ultrapassada, cheia de comentários machistas nas entrelinhas e até de um preconceito xenófobo nada velado (no caso, em relação aos japoneses). Mas, na época de seu lançamento, o filme caiu nas graças do público e também da crítica, que lhe deu várias nominações para o Oscar, ainda que não tenha havido vitórias. Sobre a Glenn Close, o papel pavimentaria o caminho para uma bem sucedida carreira, que culminaria no Oscar pelo filme A Esposa (2019).

terça-feira, 30 de junho de 2020

Novidades em Streaming - HAIM (Disco)

Acho que se fosse possível definir o mais recente disco das meninas do HAIM - intitulado Women In Music Pt. III - com apenas uma palavra, esta poderia ser "redondo". Por que não se trata apenas de um trabalho com produção ainda mais caprichada do que aquela vista nos dois registros anteriores - Days Are Gone (2013) e Something to Tell (2017) -, há também as arestas sendo aparadas, com o trio mais a vontade para trafegar em meio as influências diversas, que podem ir do rock and roll perfumado (The Steps), passando pelos anos 80 classudo (Another Try), até chegar no pop de emanações country mais ensolaradas de gemas como Leaning On You. Nas letras, em meio a curvas imprevisíveis que trafegam entre o jazz e a percussão africana - pode pintar até um barulho aleatório de despertador ou alguma outra trucagem eletrônica lá no meio -, os temas variam de paternalismo no mundo da música, relacionamentos abusivos e sororidade. É música com personalidade, madura, ousada e absurdamente divertida de ouvir. Estará em todas as listas de melhores do final do ano. Inclusive na nossa. Pode anotar.


Tesouros Cinéfilos - Louca Obsessão (Misery)

De: Rob Reiner. Com Kathy Bates, James Caan, Richard Farnsworth e Lauren Bacall. Terror / Drama, EUA, 1990, 107 minutos.

Com Louca Obsessão (Misery) as configurações de "fã xiita" - aquele tipo obcecado pelo artista - foram definitivamente atualizadas com sucesso. E da forma mais apavorante possível! O filme do versátil diretor Rob Reiner (Antes de Partir) foi adaptada de um livro do Stephen King e nos apresentou a uma Kathy Bates tão delirantemente alucinada, que ela faturou o Oscar de Melhor Atriz por seu papel. Algo, diga-se, não muito comum em filmes de terror. Na trama, Bates é a enfermeira Annie, uma mulher solitária, devota de Deus e que é completamente apaixonada pela obra do escritor Paul Sheldon (James Caan), de quem se diz fã número 1. Por um daqueles "acasos" Annie Wilker será a pessoa que salvará Paul da morte após um acidente de carro, em um local isolado, em meio a uma nevasca. No chalé em que ela vive, tomará os primeiros cuidados para a recuperação de seu hóspede improvisado.

Só que o que inicialmente eram chazinhos, medicamentos e uma atenção quase maternal de Annie, vai aos poucos mudar de figura, quando ela começar a mostrar uma personalidade instável e intempestiva. Paul perceberá que se salvou da morte. Mas que as coisas não estão tão assim melhores. Tudo começa quando Annie passa a dar muitas desculpas sobre estradas fechadas (por causa da neve) e impossibilidade de fazer ligações telefônicas à longa distância. Sem poder falar com sua agente e seus familiares, o escritor se verá em uma espécie de prisão, em que o limite é a porta do quarto. E como se não bastasse a sensação de horror que parece aumentar a cada dia passado no local, tudo piora quando Annie descobre o manuscrito do último livro de Paul - que estava em sua bolsa. Autorizada a lê-lo, ela ficará completamente contrariada com o rumo dado a uma das personagens, na história. Bom, não é preciso dizer que o que já estava ruim, vai piorar.


Como se fosse uma mistura de Baby Jane (de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?) com Norma Desmond (de Crepúsculo dos Deuses), a enfermeira obrigará o sujeito a permanecer em sua propriedade até que entregue um livro que esteja satisfatório para ela. Enquanto os delegados locais tentam buscar alguma pista do Paul, ele vai sofrendo nas mãos de Annie, com torturas psicológicas que vão desde a queima do livro que seria entregue à editora até chegar a agressões físicas, como na famosa cena da marreta. Aliás, eu não li o livro de King, mas posso dizer que Reiner é hábil em construir o clima de terror crescente, transformando até mesmo cenas prosaicas (e excêntricas) como a da aparição do porco de "estimação" de Annie, em sequências absurdamente angustiantes. O que é reforçado pela alternância de humor da algoz, capaz de ir do sorriso dissimulado à seriedade taciturna em segundos (e são essas pequenas inflexões que, a meu ver, valorizam ainda mais a caracterização de Bates que, realmente, está assombrosa).

Tecnicamente, o filme também é formidável. O uso de contra-plongées - aquele recurso em que vemos o personagem de baixo para cima - reforça bem o caráter monstruoso de Annie, que sempre parece maior do que é, ao passo que Paul, por estar numa cama, sempre surge como uma figura menor, amedrontada. O desenho de produção (e até mesmo o figurino) contribui para que acreditemos naquela casa como um espaço claustrofóbico, sufocante, com corredores apertados, mobília velha e decoração obsoleta. Tudo parece antiquado, anacrônico, o que dialoga com a personalidade retrógrada de Annie - uma mulher que crê em Deus e que não aceita um tipo e literatura que subverta a lógica das convenções, especialmente as religiosas (ela não gosta, por exemplo, dos palavrões que surgem no último livro). Todos esses detalhes contribuem para que estejamos permanentemente apreensivos. Tudo é imprevisível e até dolorido - há uma cena envolvendo o xerife (o ótimo Richard Farnsworth) da cidade que é de partir o coração. Louca Obsessão completa 30 anos de seu lançamento em novembro e segue assustando, com Kathy Bates permanecendo para sempre como uma das mais inesquecíveis vilãs da sétima arte. Vale recordar!

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Picanha.doc - À Procura de Sugar Man (Searching For Sugar Man)

De: Malik Bandjelloul. Documentário, Reino Unido / Suécia, 2012, 86 minutos.

Se tivesse sido inventada por algum roteirista malucão de Hollywood, é bem provável que não acreditássemos na história REAL que assistimos no imprevisível, curioso e singelo documentário À Procura de Sugar Man (Searching For Sugar Man) - que faturou o Oscar em sua categoria na cerimônia de 2013. A gente já disse em postagens anteriores que a vida não tem absolutamente nenhum sentido e o filme de Malik Bandjelloul faz jus a essa ideia. Na trama somos apresentados ao talentoso cantor e compositor Sixto Rodriguez que, no começo dos anos 70, gravou dois discos sem muito sucesso, caindo pouco depois no ostracismo. Morador da cidade de Detroit, o sujeito de torna recluso, suscitando uma série de boatos e rumores - alguns deles absurdos, como aquele em que ele teria se suicidado em pleno palco, ateando fogo em si próprio. Um tipo de gesto de desespero, que funcionaria como uma reação iconoclasta à falta de reconhecimento pelo seu trabalho.

Tudo é muito nebuloso. Incerto. Em certa altura do documentário a história migra para a Cidade do Cabo, na África do Sul, onde Rodriguez se torna um ícone musical do tamanho - ou até maior - do que Bob Dylan ou Elvis Presley. Ninguém sabe ao certo como a música do cantor foi atravessar o oceano para chegar em outro continente, mas a melhor teoria é a de que alguém teria feito uma viagem aos Estados Unidos, tomado contato com um dos discos do artista e levado uma cópia junto consigo para a terra de Nelson Mandela. Tomada pela política do Apartheid, a África do Sul era um País muito fechado, conservador à época. Nesse sentido as músicas progressistas de Rodriguez, cheias de questionamentos ao status quo e às convenções sociais - ele era de uma família de proletários - caríram como bálsamo nos ouvidos da juventude. Ninguém sabia quem CACETA era aquele sujeito latino, de cabelos compridos, que se via na capa dos discos. Todos o amavam.


O filme narra como se formou a mitologia em torno da figura de Rodriguez em um local totalmente inusitado e distante de seu País de origem. As pessoas pensavam que ele estava morto. As histórias de suicídio em cima do palco pareciam convincentes. Até que um jornalista resolve ir atrás da verdade: ouve produtores, outros músicos, integrantes de gravadoras. E chega até a família de Rodriguez que, para surpresa geral da nação, ainda vive em Detroit, onde trabalha com construção civil. Convidado à ir a Cidade do Cabo, se depara com uma inacreditável comoção pública em torno de sua figura, que culminará em shows lotados, agendas repletas de entrevistas e muito carinho dos fãs não apenas direcionado a ele, mas a todos seus familiares. Rodriguez nunca "aconteceu" na América, a despeito de seu óbvio talento. Talvez tenha vendido meia dúzia de discos, ainda que as críticas à época tenham sido positivas. Foi encontrar seu público quase 30 anos depois. Além do oceano. Num desses inacreditáveis acasos.

Não bastasse ser uma obra misteriosa -  o jeito como Rodriguez é adjetivado no começo do filme é ótimo, com direito à metáforas sobre as ruas de uma Detroit melancólica e cinzenta em que emerge uma figura sisuda, taciturna, que cantava de canto, de costas -, a película ainda presta uma linda homenagem ao poder transformador da arte, sendo praticamente impossível não se emocionar ao assistir as surpreendentes apresentações lotadas do "astro" na Cidade do Cabo. O carinho genuíno dos fãs com ele, as sessões de autógrafos, as tatuagens pelo corpo (!) exemplificam o magnetismo de representar uma geração inteira em suas pautas, a partir da força das letras urbanas, que evocam temas como liberdade de expressão e capacidade de pensar de forma diferente. É um tipo de road movie meio torto, que nos deixa com um sorriso no rosto e que nos desperta a curiosidade para a enxuta obra de Rodriguez, composta apenas pelos álbuns Cold Fact (1970)  e Coming From Reality (1971). A boa notícia? Os trabalhos podem ser apreciados em plataformas como a Deezer, o que comprova que a obra do compositor está vivíssima. Assim como ele próprio que, aos 77 anos, segue trabalhando na construção - sem esquecer do amor dos fãs da África do Sul.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Tesouros Cinéfilos - Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich)

De: Spike Jonze. Com John Cusacj, Cameron Diaz, Catherine Keener, John Malkovich, Charlie Sheen e Octavia Spencer. Comédia dramática / Fantasia, EUA, 2000, 112 minutos.

Vamos combinar: a vida não tem NENHUM sentido e talvez seja por isso que assistir a Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich) continue sendo uma experiência tão legal. Aliás, eu sempre gastei muito tempo da minha existência tentando achar algum significado secreto na obra do diretor Spike Jonze (Ela) e quase esqueço da melhor parte, que é simplesmente relaxar e se divertir. É uma obra completamente nonsense, que beira quase o delírio! Que brinca aqui e ali com o deslumbramento que temos diante de astros e estrelas do cinema e, vá lá, com aquele sonho quase irreal de nos tornamos alguém famoso ou importante. De alcançar o sucesso. Ver o mundo a partir da mente do ator John Malkovich, após entrar num tipo de portal metafísico existente em um excêntrico prédio comercial tem um pouco disso. De escapar da loucura do mundo para entrar em uma outra "loucura", que existe num universo paralelo, impossível, mas, curiosamente, verossímil.

Na obra somos apresentados ao titereiro Craig (John Cusack), que passa o dia manipulando - com extrema perícia, diga-se -, bonecos em apresentações ao ar livre, na rua. Um tipo de profissão que não dá muito dinheiro e que dá conta de um paradoxo, já que o sujeito parece incapaz de conduzir com habilidade a própria vida. Sua esposa é a desengonçada Lotte (Cameron Diaz, quase irreconhecível), uma garota cheia de energia, que se ocupa de cuidar do verdadeiro zoológico que o casal tem em casa - de calopsita a macaco. Na pindaíba, Craig vai em busca de um trabalho como arquivista, que fica no andar sete e meio de um prédio. No local todos devem andar curvados. O chefe tem 105 anos de idade. Sua secretária parece não compreender as frases com exatidão. E há uma colega de trabalho que desperta a atenção do nosso protagonista: a charmosa Maxine (a sempre ótima Catherine Keener).


Num dia qualquer de trabalho, Craig deixa cair algumas pastas atrás de um armário contendo arquivos-mortos. Ao tentar remover o material de lá, a descoberta: uma portinhola de um por um metro. Curioso, entra no espaço. Apertado, estranhamente "arenoso". É sugado pra dentro. E vai parar na mente do ator John Malkovich. Onde passa a enxergar tudo do ponto de vista do astro de Ligações Perigosas. Ensaios de teatro, banhos, outras atividades corriqueiras. Durante quinze minutos. Até ser catapultado de volta para o nosso plano, em um matagal, ao lado de uma rodovia qualquer. Surpreso com a excentricidade do ocorrido, Craig conta a novidade para Maxine. Resolvem ganhar dinheiro vendendo "entradas" para sujeitos aleatórios dispostos a entrar na mente do ator. Lotte descobre. Interfere. Passa a se conectar com Maxine por meio da mente de John. O casal se desestabiliza. A confusão está formada. E nós estamos, do outro lado, maravilhados com esse absurdo tão sem sentido quanto divertido.

Quando foi lançado, Quero Ser John Malkovich suscitou uma série de reflexões psicológicas, filosóficas, existenciais de quem o assistia. Aliás, segue suscitando, como comprova qualquer busca aleatória pelo filme, no Google. Sim, o corpo pode ser uma prisão em que precisamos aprender a lidar, assim como somos incapazes de manipular aquilo que sentimos. Há todo um jogo envolvendo a arte de ser titereiro com a completa incapacidade de guiar a própria vida tendo, pior de tudo, consciência disso. Talvez esse seja um dos aspectos mais claros. Mas prefiro pensar na obra roteirizada por Charlie Kauffmann como uma despropositada e divertida peça hollywoodiana que brinca com as convenções do gênero comédia, para nos fazer rir do inusitado. E isso pode ser comprovado TAMBÉM em piadas isoladas, que vão desde a incapacidade dos demais personagens de dizerem um filme estrelado por John Malkovich ou mesmo a reação rápida de desprezo de Maxine ao descobrir a "profissão" anterior de Craig. Quando filmou a obra, Jonze já tinha gravado videoclipes para os Beastie Boys, Weezer e Sonic Youth. A real é como se fosse tudo pro liquidificador e resultasse nessa loucura fílimica em que uma série de referências são reconfiguradas e transformadas em um dos troços mais esquisitos já feitos na meca do cinema. E nós seguimos adorando!

Podcast do Picanha Cultural #9 - Destacamento Blood: Análise

Existem filmes tão relevantes, tão importantes na história do cinema - antigos ou atuais - que, certamente, merecerão um episódio exclusivo do Podcast do Picanha Cultural para uma análise um pouco mais detalhada do material. E desde que Destacamento Blood (Da 5 Bloods) foi lançado na Netflix a gente vinha sentindo isso. Nos bastidores da produção a gente se perguntava: será que não poderíamos falar apenas de um filme em um dos episódios? Dissecando-o, buscando um pouco mais de profundidade? A ideia não é ser definitivo sobre nada, mas o novo filme do Spike Lee - que deverá ser figurinha fácil no próximo Oscar -, nos pareceu a obra ideal para inaugurar esse formato. Não se trata apenas de um filme tecnicamente irretocável: há um roteiro extremamente bem conduzido, com uma narrativa impactante e sinuosa, que vai revelando aos poucos as suas temáticas - racismo, xenofobia, absurdo da guerra -, de forma bem amarrada, intrincada. Além de ser um ótimo drama, com boas doses de ação e de suspense! Bom, convidamos vocês a embarcar nessa jornada em que o Henrique, o Bernardo e eu nos aventuramos a analisar Destacamento Blood. Se vocês gostarem, certamente faremos com outros filmes!


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Lado B Classe A - The National (High Violet)

(Texto publicado originalmente no Picanha em janeiro de 2015)

Poucas bandas surgidas nos anos 2000 conseguiram manter uma coesão - não apenas de estilo, mas também de qualidade sonora - como o The National. Não à toa, não é tarefa fácil escolher apenas um disco do grupo, oriundo de Cincinatti, Ohio, para ilustrar a nossa segunda edição do Lado B, Classe A. Quadro que, apenas para lembrar, tem o objetivo de apresentar a vocês alguns dos nossos discos modernos favoritos, especialmente aqueles lançados na última década, de bandas que não são assim tão conhecidas do grande público. E que já podem ser qualificados na categoria de "clássicos da atualidade". Esse recorte, é preciso que se diga, poderá ser bem distinto, como vocês verão mais adiante, já que por aqui poderão passar desde o Deerhunter até o Arcade Fire.

Na verdade, o primeiro álbum que ouvi da banda capitaneada por Matt Berninger foi o também já clássico Boxer (2007) que, para muitos fãs do grupo, se constitui no melhor trabalho. O fato é que foi paixão a primeira "ouvida". Aqueles versos ao mesmo tempo soturnos e carregados de melancolia, amparados por um instrumental acústico, cru - bem distante das firulas computadorizadas de outras bandas da mesma geração (alguém aí falou em Muse?) - me arrebataram. Ainda que claustrofóbico, o trabalho era (e ainda é, claro!) repleto de refrões grudentos, daqueles para ficar na cabeça ainda algumas horas e dias após as audições. Quem já escutou canções como Fake Empire e Green Gloves, pra citar apenas duas, sabe do que estou falando. Bom, na ocasião o álbum permaneceu no repeat durante toda a noite. Aliás, lavar a louça da janta poucas vezes foi tão prazeroso como daquela vez.

A audição do Boxer serviu de porta de entrada para outros discos. O álbum anterior, Alligator (2005), se não é tão coeso como o seguinte, é igualmente belo, possuindo ainda duas das melhores canções do grupo: Secret Meeting e The Geese of Beverly Road. O mesmo valendo para o mais recente trabalho dos caras, intitulado Trouble Will Find Me, de 2013. Mas foi com High Violet (2010), que o quinteto atingiu a sua plenitude artística - se é que possível que a sua trajetória seja descrita dessa maneira. Com um pouco mais de apuro na parte instrumental, muito por conta da riqueza de detalhes alcançada pela dupla de guitarristas Aaron e Bryce Desner, o disco mantém o clima perturbador ao projetar em seus versos problemas do homem moderno, especialmente os da seara amorosa.

As letras são um verdadeiro espetáculo a parte. A abertura, com Terrible Love, utiliza uma metáfora ao comparar um amor complicado com o fato de se estar "caminhando com aranhas". As tristezas estão por todo o canto. Em Sorrow, Berninger lamenta: I live in a city sorrow built / It's in my honey, it´s in my milk. Já em Afraid of Everyone, a fuga, com base em medos cotidianos é tema: With my kid on my shoulders, I'll try / Not to hurt anybody I like. Os lamentos sussurrados, cantados de forma arrastada e melancólica, quase tornam "visível" a figura de um homem que sofre de amor, em algum subúrbio, enquanto entorna goles e mais goles de algum whisky barato. O disco não recebeu nota 8,7 do conhecido site Pitchfork à toa - recebendo na ocasião o selo de Best New Music. E nós, aqui do Picanha, o reconhecemos como um legítimo exemplar Lado B, Classe A.