quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Lançamento de Videoclipe - Matt Berninger (One More Second)

Se tem uma banda que é favoritaça da casa é o The National - e quem acompanha o Picanha sabe o quanto apreciamos o enfumaçado e caudaloso clima soturno da banda de Cincinatti, Ohio. E se há uma boa notícia para quem aguarda o primeiro trabalho solo do vocalista Matt Berninger - que será lançado no dia 16 de outubro, com o nome de Serpentine Prison -, é que dificilmente o álbum sairá do padrão daquilo que já foi apresentado anteriormente pelo coletivo, em discos como Boxer (2007) e High Violet (2010). E isto pode ser comprovado pelos já lançados singles Distant Axis e a faixa-título, além de One More Second, que recebeu um clipe de divulgação. No vídeo o clima de calmaria lânguida amparada pela melodia econômica, vai dando espaço aos poucos para um tecladinho um pouco mais iluminado e um riff agitado, que culminam no refrão grudento, bem construído. Berninger sai da cadeira, ensaia uma dança solo meio "tímida", enquanto o parça Booker T. Jones encaixa as paisagens sonoras bem adequadas ao perfil do artista. Não queremos nos precipitar, mas achamos que vem coisa boa por aí. Enquanto aguardamos, bora dar o play no videoclipe!

Picanha em Série - Pequenos Incêndios Por Toda a Parte (Little Fires Everywhere)

De: Lynn Shelton, Michael Weaver e Nzingha Stewart. Com Kerry Washington, Reese Whiterspoon e Joshua Jackson. Drama, EUA, 2020, 465 minutos.

Não li o incensado livro Pequenos Incêndios Por Toda a Parte (Little Fires Everywhere), mas a minissérie que adapta a obra da escritora norte-americana Celeste Ng - e que está disponível na plataforma de streaming da Amazon Prime -, é simplesmente imperdível. Trata-se de mais um daqueles dramas familiares, com uma narrativa que intercala idas e vindas no tempo, que revelarão personagens tomando decisões moralmente duvidosas praticamente o tempo inteiro. Tudo embalado por uma forte carga emocional, que vem a reboque de traumas do passado que precisarão ser superados, enquanto temas relevantes como racismo, sororidade, contrastes sociais, romantização da maternidade, xenofobia, poder transformador das artes e bullying são discutidos. E tudo isso sendo apresentado de forma fluída, com o impacto sendo gerado aos poucos e conforme a história distribuída em oito episódios se desenrola.

Tudo começa com um... incêndio. Os bombeiros explicam o caráter excêntrico da origem do fogo: pequenos focos por toda a parte. Como se gerado deliberadamente, premeditadamente. Enquanto os familiares se compadecem entre si, a história volta quatro meses no tempo para nos apresentar a Elena Richardson (Reese Whiterspoon), dondoquinha que vive uma vida de luxo e de abundância, numa espécie de híbrido de dona de casa - que precisa cuidar de quatro filhos já na adolescência -, com jornalista ocasional, que escreve histórias para um semanário local. Com uma suntuosa casa em Shaker Heights, que ela divide com o marido, o advogado Bill (Joshua Jackson), ela resolve alugar por um preço mais baixo do que o do mercado a outra residência da família. A locatária é a artista itinerante Mia Warren (Kerry Washington), que mora em um carro velho com a filha Pearl (Lexi Underwood). Aquilo que ela acredita ser um gesto quase filantrópico, será o início de uma escalada vertiginosa de acontecimentos que, aos poucos, abalarão o idílio que todos pretendiam estar envolvidos.


Figura misteriosa, Mia parece ter uma série de segredos relacionados ao passado. Mesmo sendo artista plástica de talento, parece nunca ter "acontecido". E por quê a insistência em viver uma vida nômade? Do que exatamente ela "foge"? Quem é o pai de Pearl e o que teria acontecido com ele? De alguma forma, essas dúvidas instigarão Elena a fazer uma verdadeira investigação sobre o passado de sua mais nova locatária. Pior, como forma de se aproximar ainda mais dela, a convidará para trabalhar em sua casa, dando a desculpa da oportunidade de ampliar os rendimentos. E os trabalhos poderão ser diversos: da preparação prosaica de refeições até a realização de fotografias em eventos bem típicos da burguesia (caso do aniversário de um ano da filha de uma amiga de Elena). Aliás, o aniversário em questão será simplesmente bombástico, o que nos arremessará para o passado de todos ali envolvidos, nos apresentando ainda uma personagem importante dentro da narrativa - no caso, a jovem garçonete Bebe Chow (Lu Huang), uma imigrante ilegal que trabalha no mesmo restaurante de Mia (ela intercala turnos).

E enquanto os "adultos" vão desnovelando um verdadeiro rocambole de fatos escabrosos que culminarão no inacreditável episódio final - com direito a cenas em um tribunal -. os jovens também vão vivendo seus dramas. Pearl respeita a sua mãe, mas não entende muitas coisas que acontecem em sua vida, o que lhe colocará em pé de guerra com ela um sem fim de vezes. Já a jovem Izzy (a ótima Megan Stott) não suporta a vidinha de faz de contas, organizadinha, com direito a fotinho de família padronizada que Elena pretende que todos ali vivam. Aliás, Izzy sonha em ser artista, em usar as roupas e o cabelo como queira e em viver sua sexualidade da forma que bem entender. Aliás, nenhum dos filhos de Elena pode viver como quer. E talvez nem ela, com seus quatro filhos e uma vida luxuosíssima, mas cheia de frustrações, talvez tenha vivido como efetivamente tenha sonhado. E os eventuais encontros com um namorado do passado, poderão ser o indicativo de pendências emocionais difíceis de serem superadas.

Trata-se ao final de uma série cheia de complexidades, bem conduzida, sem nenhum tempo para a "encheção de linguiça". Ao contrário, praticamente todas as sequências têm significado, mesmo que ela envolva a aparição aleatória de alguma personagem inesperada - como o homem que aparece nos pesadelos misteriosos de Mia -, ou algum tipo de provocação artística como aquela envolvendo bonecas e pretendida por Izzy na escola. Quem gosta de dramas familiares vai se deleitar. Aliás, a série caiu nas graças também da crítica e, mesmo tendo saído de mãos abanando da mais recente edição do Emmy, viu Kerry sendo indicadas na categoria Atriz em Minissérie ou Filme Para a TV. Já Reese, depois de Big Little Lies, parece que se especializou em interpretar a bitchiezinha fútil, que quer ver o circo pegar fogo. Ou a casa pegar fogo. Ou tudo incendiar. Afinal, o fogo, o ardor, a tensão das chamas, real ou não, pode ser também uma bela metáfora para o caos que parecerá sempre pronto a se instalar em Shaker Heights.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Tesouros Cinéfilos - Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine)

De: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Com Abigail Breslin, Toni Collette, Greg Kinnear, Steve Carell, Alan Arkin, Paul Dano e Bryan Cranston. Comédia dramática, EUA, 2006, 101 minutos.

Drama familiar com pitadas de humor cínico + elenco fantástico e perfeitamente entrosado + roteiro primoroso e cheio de diálogos espertos + história tão curiosa quanto divertida = eis a forma de Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), um dos mais simpáticos filmes do agora (quase) longínquo 2006. De obra de baixo orçamento que vinha fazendo uma temporada bonita nas premiações alternativas - caso do Independent Spirit Awards - à chegada ao Oscar foi um passo. E não apenas isso, a película de Jonathan Dayton e Valerie Faris (do recente e mediano Guerra dos Sexos, de 2017) cairia tanto nas graças da crítica e do público, que faturaria a estatueta dourada (de forma merecida, por sinal), nas categorias Roteiro Original (Michael Arndt) e Ator Coadjuvante (Alan Arkin, que interpretou o avô viciado em heroína - e em pornografia -, híbrido de neonazista conservador com "herói" de guerra frustrado).

E a meu ver o sucesso da película pode ter a ver com o inusitado da coisa toda, uma mistura que nos fará rir em muitos momentos, refletir em outros tantos e, inevitavelmente, se emocionar. Especialmente com a inocência desajeitada e o amor transbordante da pequena Olive Hoover (e não por acaso, a Abigail Breslin, à época com apenas sete anos, receberia uma indicação ao Oscar na categoria Atriz Coadjuvante) que, de uma forma meio torta fará com que toda a família se alie por uma mesma "causa". Por causa, leia-se um convite meio aleatório para participar de um concurso de beleza para meninas pré-adolescentes em um outro Estado, distante mais de mil quilômetros de onde moram. Com pouca grana para viajar de avião, o jeito é enfiar toda a família dentro de uma kombi amarela velha e enferrujda, que transformará o filme em um road movie de autoconhecimento e de profundas reflexões sobre o significado de "família" - aquele grupo de pessoas que a gente não escolhe, tolera, ama, eventualmente odeia. E ama de novo e que provavelmente estará em nosso lado nos momentos mais difíceis e sempre.

Aliás, se os Hoover não fossem tão disfuncionais, talvez essa viagem não necessitasse a presença de todos os integrantes. Aliás, talvez eles nem FIZESSEM a tal viagem. Mas o caso é que o evento acaba sendo uma espécie de retiro para todos que estão ali, tão desconectados entre si que precisarão, na marra se reaproximar. Pai de Olive, Richard (Greg Kinnear) é um palestrante de autoajuda fracassado, que desenvolveu um método que envolve algo tipo "nove passos para o sucesso", mas que não consegue vendê-lo para ninguém. Já Dwayne (Paul Dano), o filho mais velho é um adolescente niilista que fez voto de silêncio. O tio, o professor universitário Frank Ginsberg (Steve Carell) acaba de sair de uma clínica psiquiátrica por ter tentado se matar. E, Toni Colette é Sheryl, a mãe de Olive que tenta não surtar no meio de todo mundo, enquanto se esforça para ver o desejo de miss da irmã caçula ser atendido.

No trajeto, o grupo passará por uma série de percalços, de problemas mecânicos até "problemas médicos", mas avançarão aos trancos e barrancos, até chegar no tal concurso. Obra bem humorada, primaveril, com ótima trilha sonora e grandes atuações, Pequena Miss Sunshine não deixa de fazer a crítica ao absurdo do culto a beleza - com meninas pequenas sendo levadas a esse universo desde muito novas -, reforçando ainda a importância de sermos apenas nós mesmos, em um mundo tão cheio de padrões, de convenções. E talvez por isso seja tão bonitinha a cena em que Olive pergunta a uma miss da vida real se ela come sorvete porque, oras, ela só quer ser feliz e comer um sorvete e não viver em um mundo de "ditadura da magreza" e de mídia vendendo corpos perfeitos e inalcançáveis o tempo todo. E, também pouco importa se ela perder o concurso hipócrita que se esforçou para entrar. No coração de todos - inclusive da família - ela venceu uma outra competição: a da autenticidade. O que combina direitinho com essa pequena obra-prima moderna.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Cinemúsica - Três É Demais (Rushmore)

De: Wes Anderson. Com Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Luke Wilson. Comédia, EUA, 1998, 93 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Wes Anderson sabe que a trilha sonora, em seus filmes, tem grande importância. E talvez seja TAMBÉM por causa de suas escolhas musicais que a gente tenha aprendido a amar tanto os esquisitões, nerds e desajustados que sempre povoaram as suas histórias. Três É Demais (Rushmore), por exemplo, poderia ser apenas mais um filme de formação boboca, com um adolescente que não vê a hora de efetivamente "crescer", chegar a vida adulta. Mas uma coisa é o espírito juvenil carregado pela força de alguma composição descartável e urgente. A outra são as sequências que dão uma carregada nas tintas da profundidade, algo ampliado pelo nosso tamborilar de dedos ao som de Oh Yoko! de John Lennon, The Wind de Cat Stevens ou ainda A Quick One, While He's Away do The Who. A impressão, com tanta música bacana, é que o fiapo de história que estamos acompanhando se torna maior. Mais relevante. Ainda que inadiavelmente divertido.

Nesse sentido, acho que escolher trilha sonora é algum tipo de mérito que pode ser definidor até mesmo para o futuro de um cineasta. Será que Wes Anderson se sentiria, por exemplo, tão à vontade para escalar o Seu Jorge para recriar canções de David Bowie no absurdamente delicioso A Vida Marinha de Steve Zissou (2004) se não tivesse acertado em cheio da na seleção musical de Três É Demais? A segurança para isso certamente partiu de suas escolhas nessas obras já do final dos anos 90, quando tinha pouco mais do que 25 anos. Período em que seus filmes ainda não tinham o colorido tão ostensivo quase saído de experiências oníricas, abstratas e abundantemente vivas e a excentricidade de seus personagens ainda estava em fase "experimental". Hoje, Anderson é uma verdadeira marca e filmes como A Crônica Francesa (The French Dispatch), que estreia por aqui no dia 15 de outubro, são aguardadíssimos pelos fãs. Por nós, inclusive!

Já em Três É Demais, acompanhamos a rotina do esquisito Max Fischer (Jason Schwartzman), um jovem de quinze anos que possui uma bolsa de estudos no prestigioso colégio Rushmore e que só não é expulso do local porque participa de um sem fim de atividades extracurriculares - que envolvem grupo de prática de esgrima até envolvimento com a associação de apicultores. O caso é que, a despeito da criatividade para se meter em tudo quanto é coisa as suas notas são muito baixas. E a situação piora quando ele se apaixona pela professora Rosemary Cross (Olivia Williams), quase vinte anos mais velha do que ele. Tentando impressioná-la de todas as formas, Max se aproximará ainda do magnata Herman Blume (Bill Murray, quem mais seria?), um homem de meia idade que sofre de depressão e que também tem dificuldade de se "conectar" com outras pessoas. Nesse contexto, Rosemary obviamente considerará Max muito novo para ela. E terá um caso com Blume, o que iniciará uma disputa divertidíssima entre os dois "rivais".

No fim das contas a película é o mais improvável romance de formação que se tem conhecimento e a capacidade de Max em transformar o entorno para tentar chamar a atenção de sua amada renderá alguns dos melhores momentos da obra - como na parte em que ele moverá mundos e fundos para construir uma espécie de aquário junto a um campo de baseball. Incapaz de converter a paixão em algo para além do platônico, o protagonista se desgastará com todos a seu redor - de Blume ao seu melhor amigo, o pequeno Dirk (Mason Gamble). Povoando as sequências com uma série de piadas sobre amadurecimento e sobre a dificuldade de se encaixar em um mundo cheio de padrões, Anderson constrói uma saborosa comédia, que tem uma leveza palpável, que contrasta com o peso das canções escolhidas para a já citada trilha sonora. Não por acaso, será praticamente impossível não abrir um largo sorriso quando Ooh La La dos Faces surgir, já nos créditos finais, com as coisas meio que se "encaixando", de forma quase inesperada. Sensacional é pouco!

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #22 - Top 9 Com Dicas do Catálogo da Amazon Prime

Aqui a gente não fica em cima do muro, então já começo o post com um comentário FORTE: o catálogo da Amazon Prime é MELHOR do que o da Netflix. Aliás, diria até BEM MELHOR. São menos títulos, mas muitos títulos certeiros, além das ótimas produções originais. Algo bem longe da esquizofrenia da concorrente, que parece se pautar muito mais pela quantidade do que pela qualidade - o que torna bem complicada a escavação. E mesmo sem receber UM PILA SEQUER do Jeff Bezos a gente resolveu fazer uma "mini curadoria" na relação de filmes e séries da Amazon pra lançar um Top 9 com a nata daquilo que indicamos a vocês com toda a força. Assim, o Bernardo, o Henrique e eu selecionamos, juntos, três séries e seis filmes para começar a curtir o ótimo material disponibilizado pela plataforma de streaming que, de quebra, ainda possui um precinho bem camarada. O final de semana pandêmico, vocês já sabem fica melhor com séries e filmes de qualidade. E o sextou, bom, este não pode acontecer sem vocês darem play aqui no podcast! Bora?


Tesouros Cinéfilos - Billy Elliot (Billy Elliot)

De: Stephen Daldry. Com Jamie Bell, Julie Walters, Gary Lewis, Jamie Draven e Stuart Wells. Comédia / Drama, Reino Unido / França, 2000, 110 minutos.

É mais ou menos quando está começando o terço final de Billy Elliot (Billy Elliot), que o protagonista vivido com todo o carisma do mundo por um Jamie Bell ainda jovem, confronta seu severo pai com a única arma possível naquele momento: a dança. O balé. A arte. A arte que ele sonha, que ele deseja e que ele mantém secretamente, em aulas realizadas às escondidas com a excêntrica professora Mrs. Wilkinson (Julie Walters). Que dá cor aos seus dias sem graça na acinzentada pequena cidade inglesa em que mora com a família. É uma sequência bonita, comovente, que faz a ficha finalmente cair naquele pai tão linha dura (encarnado com vigor pelo ótimo Gary Lewis). É um ponto de virada dentro desse pequeno clássico moderno dirigido por Stephen Daldry (que dirigiria mais tarde os excelentes As Horas e O Leitor). É no ginásio local que aquilo que imaginávamos ser uma provável surra, se converte em apoio irrestrito quando o progenitor percebe o talento de seu filho. É difícil não se emocionar.

Na essência o filme, que chegou a receber algumas indicações ao Oscar na edição daquele ano, é mais um daqueles que faz com maestria o elogio ao poder da arte. E ainda o faz mesclando um tipo de "cinema social" que faz lembrar as películas dirigidas pelo Ken Loach (do recente Você Não Estava Aqui). Tanto o pai de Billie - um viúvo de nome Jackie - quanto seu irmão Tony (Jamie Draven) são mineiros de carvão que estão em greve, reivindicando melhores condições de trabalho - era algo recorrente no contexto político-social da Inglaterra do meio dos anos 80. Ao trio junta-se a avó, uma idosa praticamente inválida (Jean Heywood). Para ocupar os seus dias, o pai de Billie o envia para a academia local para aprender boxe. Ocorre que ele não gosta do esporte. Pior, por acaso, acaba entrando na aula de balé que está ocorrendo no mesmo local - já que o estúdio oficial foi improvisado para ocupação dos mineiros em greve. A paixão pela dança é imediata. Mas como o menino explicará para o seu pai que não está frequentando as aulas de boxe e sim as de balé?


É um arco dramático enxuto, mas que promove uma série de reflexões relevantes para a época - e que seguem, em partes, relevantes para os dias de hoje. Existem esportes exclusivamente de meninas? Ou de meninos? Os pais deveriam incentivar mais os talentos de seus filhos, independentemente de quais sejam? É o tipo de batalha a ser comprada juntos? E se não há dinheiro para esse tipo de investimento - aulas de balé certamente são caras -, como reivindicá-lo? Daldry utiliza com inteligência o microcosmo visto nesta cidade e que serve, por que não, como pano de fundo para discussões maiores que envolvem todo o tecido social - e que podem ir de reivindicações trabalhistas, a luta por igualdade de direitos. Não são poucas as cenas em que o pai e o irmão de Billy estão em luta com a polícia (ou as autoridades) - eles estão do lado dos grevistas. Há os "furadores" da greve, que aceitam trabalhar por valores irrisórios, certamente. Mas e quando Jackie vê a necessidade apertar mesmo, como conseguir algum tipo de vitória financeira?

Bom, a obra não pretende oferecer respostas fáceis, afinal de contas não se trata de uma tese política e sim um filme sobre, como já disse, o poder da arte. Organizada em uma estrutura hollywoodiana bem estabelecida - em que o encantamento inicial, da lugar a um conflito intermediário até chegar a um final otimista - a película tem uma dinâmica interessante em sua montagem, capaz de unir de formas bastante peculiares os universos das artes e dos confrontos entre policiais e grevistas. Há uma cena, por exemplo, em que Billy e uma colega passeiam por entre policiais à paisana, batucando em seus "escudos". Em outra, o pai de Billy é amparado pelos colegas após ceder a tenção de ceder a greve para poder auxiliar seu filho. É tudo muito bem conduzido, com um senso de humor meio cínico e aleatório - a cena em que o jovem de apenas 12 anos pergunta se a instrutora está dando em cima dele é uma joia -, que é embalado ainda pelas ótimas canções de bandas como T. Rex, The Clash e The Jam. Esse foi apenas o primeiro filme de Daldry, mas o posicionou entre os grandes realizadores do Reino Unido.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Cine Baú - Brazil, O Filme (Brazil)

De: Terry Gilliam. Com Jonathan Pryce, Robert De Niro, Kim Greist, Bob Hoskins e Katherine Helmond. Comédia Dramática / Ficção Científica, Reino Unido, 1985, 142 minutos.

É relativamente conhecida a história de que houve certa controvérsia no Brasil, à época em que Terry Gilliam lançou sua excêntrica distopia. O País recém saía de mais de 20 anos de Ditadura Militar e uma ficção científica que criticava justamente o totalitarismo, a burocracia, a opressão militar e o atraso pode ter sido apenas uma curiosa inconveniência. E quem assiste com atenção Brazil, O Filme (Brazil), percebe que os sonhos surrealistas do protagonista Sam Lowry (Jonathan Pryce) estão sempre embebidos pelas notas de Aquarela do Brasil de Ary Barroso e, nesse sentido, entendo esse referencial como uma espécie de oposto: é no devaneio que surge a mulher amada, a natureza, a liberdade, a fantasia com uma vida idílica, simbolizada pela fuga a um passado distante. Ou que ao menos seja uma forma de escapar daquela vida mecânica, anacrônica, cheia de prédios apertados e geometricamente insípidos, de papeis e mais papeis, de tecnologia difusa. O Brazil para Gilliam seria assim, simbolicamente, uma espécie de porto seguro.

Aaah, se o diretor que integrava o coletivo Monty Phyton visse de perto o País de Bolsonaro de hoje, perceberia o quão irônico seria o sonho do povo brasileiro com a utopia de seu próprio passado. Num País cada vez mais violento, individualista, preconceituoso, intolerante e desigual, a obra de Gilliam se torna quase uma extravagância espalhafatosa, que bebe na fonte de outras clássicas distopias - como 1984, de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury -, para fazer a crítica a um Estado opressor e decadentemente utilitarista. Sam, o protagonista, trabalha para o Governo, em alguns dos milhares de setores, que abrigam outros milhares de burocratas e que levam nomes estranhos como "Recuperação de Informações". Em salas minúsculas - aliás, um contraponto a quantidade de cabos, de tubulações e de maquinários gigantescos que ocupam o cenário - o homem trabalha para identificar terroristas, que possam estar querendo derrubar as políticas totalitárias.


No percurso, Gilliam faz uma severa crítica a burocracia excruciante, que exige papéis e mais papéis, setores e mais setores para consertar, por exemplo, um simples ar condicionado - o que, no filme, TAMBÉM é atribuição do Estado. Aliás, como tudo. É quando Sam recebe a inesperada visita do subversivo engenheiro de refrigerações Harry Tuttle (Robert De Niro) - que não apenas conserta o equipamento do sujeito "por fora", como lhe arrasta para um esquema que denunciará uma série de equívocos feitos pelo Governo, que captura o homem errado em seus anseios de combater o terrorismo -, que ele passará a se questionar sobre suas atribuições e sobre o universo que o rodeia. Tuttle também poderá ser a chave para que o protagonista finalmente encontre na vida "real" Jill Layton (Kim Greist) uma insurgente que está em fuga por ser a única a saber dos equívocos cometidos pelas autoridades - especialmente a prisão do inocente Sr. Buttle (Brian Miller).

Uma revisão de Brazil nos faz perceber que, sim, como em muitas distopias o cenário "futurista" imaginado dialoga efetivamente com os tempos que vivemos - por mais que Gilliam não tenha acertado praticamente NADA em matéria de tecnologias vindouras, que surgem como versões exageradas de si próprias. Aliás, o desenho de produção em muitos casos é tão caótico, tão poluído, tão cheio de objetos grandes e perturbadores, que nos faz lembrar os cenários vistos em Blade Runner (1982). O contraponto seria o apartamento insípido e asséptico do próprio Sam, que faz lembrar a casa moderna e high tech do engraçadíssimo Meu Tio (1958), de Jacques Tati. Bom, o diretor pode até ter tido escolhas duvidosas na hora de imaginar a engenharia do futuro, mas acertou em cheio na percepção do vazio da coletividade (e da aristocracia), incapaz de parar a sua janta em meio a um violento e sangrento atentado, enquanto discute qual vai ser a próxima cirurgia plástica a ser feita. Mais certeiro impossível.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Livro do Mês - Engole Esse Choro (Laura Peixoto)

"Ninguém pode ser o que é nessa cidade". Essa frase que está lá na página 117, dita pela personagem Belinha - avó da protagonista Eleonora -, parece de alguma forma resumir tudo aquilo que se lê no imperdível Engole Esse Choro, mais recente lançamento da escritora Laura Peixoto. Publicado pela editora Libélula, o livro é muita coisa: novela familiar, romance de formação, narrativa ficcional que carrega nas tintas de realidade. Mas é, especialmente, uma obra que desnovela a hipocrisia que insiste em escapulir pelas frestas de uma sociedade pródiga em apontar dedos, mas incapaz de olhar para si própria com com o mesmo espírito crítico. Arremessados que somos para o suarento (e pestilento) ano de 1974, na provinciana Lacônia do Sul, vemos ecoar nessa pequena e fictícia cidade  - tão parecida com outras tantas que vemos por aí -, a opressão da Ditadura Militar que se avizinha, em um contexto de grande tensão político social. Ao mesmo tempo, alheios a tudo, os laconienses vivem seu idílio particular em meio a festas, corridas, jogos no clube e escolhas da Rainha da Paróquia, se mantendo ocupados também em atividades comezinhas, seja o tricô, o jantar e as roupas que as crianças usarão no desfile.

De alguma forma, Laura transfere para o passado, um tempo que segue sendo o nosso: de alienação, de preconceitos, de desrespeito às diferenças e até de incapacidade de diálogo. Em cada escândalo que vai sequencialmente sendo revelado nos curtos capítulos, um universo de farsa, em que figuras tão dissimuladas quanto caricaturais, transforma a realidade apenas nisso: o real. Do padre que tinha duas amantes ao filho do empresário que se descobre gay, passando ainda pelos homens casados que frequentavam o bordel local, os moradores da Lacônia do Sul nada mais são do que o retrato fiel daquilo que, atualmente, aprendemos na marra a aceitar como o "cidadão de bem". Aquela figura que não falta à missa de domingo pela manhã, que se orgulha de cantar o Hino Nacional e que acredita que a moral e os bons costumes possam estar sendo quebrados por figuras subversivas diversas - seja o colega de aula cabeludo e que talvez fume maconha, seja a professora de artes, empenhada em fazer a turma pensar, sair da alienação.


Encadeando eventos aleatórios, quase como se fossem pequenos contos, a autora de Lajeado, no Rio Grande do Sul, transforma a história da Lacônia do Sul em uma história universal: nela estão os três adolescentes - além da já citada Eleonora, os irmãos Mariangélica e Plínio, os pais Astor e Iolanda, a avó Belinha, a empregada dona Miló. Por trás de cada muro, nos cantos, nas esquinas, vizinhos, conhecidos da cidade, com suas reputações sendo permanentemente postas em jogo, manêm segredos obscuros que parecem sempre prontos a vir à tona - por mais que a imprensa local teime em ignorar os fatos mais sombrios. Mais pitorescos. Aqui e ali as pessoas mais "diferentes", que não sigam o padrão estabelecido, que não incorram nas convenções sociais, são taxadas de subversivas, dissidentes, comunistas. Uma música diferente. Uma arte provocativa. Uma viagem para um País socialista. Uma não ida à Igreja. A quebra de algum contrato qualquer que já esteja pré-estabelecido. A sociedade na Lacônia parece ser olhar e julgar os outros. Por mais que a hipocrisia também possa estar bordejando a entrada da nossa casa.

Em entrevista à Rádio Independente, Laura afirmou que o livro é uma "ficção bem ficcionada, com uns 40% de verdade". Mas pra quem cresceu em Lajeado, não é difícil encontrar paralelos nos locais descritos, que mesclam localidades reais - como o Rio Taquary (ainda que grafado com "y") e o cachorrão do Carmelito -, com espaços fictícios, que podem ir de prosaicas barbearias e botecos, até suntuosas igrejas. Sobre as figuras envolvidas na novela entrecortada por fluxos de consciência de uma pessoa que parece estar no hospital - olhando para o passado ao mesmo tempo em que tenta lidar com o remorso -, é difícil saber o que é real ou não. Laura levou nove anos para escrever a obra, que saiu da gaveta em tempos de bolsonarismo, de militarismo de intolerância e de ódio. Décadas após os Anos de Chumbo, o patriarcalismo, o machismo e a misoginia parecem ter, literalmente, saído do armário, legitimados pela política beligerante vaticinada pelo extremismo de direita. "Engole esse choro", era o que as crianças ouviam antigamente, das bocas de pais excessivamente preocupados, conservadores, quadrados. Nos tempos atuais chorar pode estar sendo a solução paliativa, especialmente na hora de enfrentar esses tempos tão brutos, que seguem dialogando com um passado que teima em ressurgir.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Na Espera - Nomadland (Filme)

É um teaser bem curtinho o que foi disponibilizado pela Searchlight para a divulgação de Nomadland, mas não importa: após a vitória do filme da diretora Chlóe Zhao (Domando o Destino) no último Festival de Toronto, a expectativa em cima da obra só aumentou. Aliás, a película estrelada por Frances McDormand já havia faturado o Leão de Ouro no Festival de Veneza e a soma das duas premiações arremessou a obra lá para as alturas nas bolsas de apostas para o Oscar 2021. As indicações não apenas na categoria principal, mas em outras, como Diretora, Atriz, Ator Coadjuvante (para David Strathairn), Roteiro Adaptado (o livro foi escrito por Jessica Bruder) e Fotografia (de Joshua James Richards) são dadas como praticamente certas. E os críticos que já puderam conferir a película, expressaram a imensa satisfação com a profunda sensibilidade vista na narrativa.


Ainda sem data de estreia no Brasil, o filme recua para os anos seguintes à crise imobiliária norte americana de 2008, para a acompanharmos uma sexagenária de nome Fern (McDormand) que vive como uma espécie de nômade dos tempos modernos, em uma jornada de descoberta pelo meio oeste americano. Centrando sua força nas histórias e nos personagens, a obra parece ser daquelas que faz muito com poucos recursos e tem tudo pra cair nas graças de quem gosta de um cinema mais intimista, cheio de reflexões sobre a nossa condição e sobre aquilo que nos impõe o mundo. O elenco de desconhecidos parece ser uma espécie de atração involuntária e o consenso dos críticos do Rotten Tomatoes resumiu a película da seguinte forma: "um estudo poético de personagens sobre os esquecidos e oprimidos, que capta lindamente a inquietação deixada na esteira da Grande Recessão". Bom, não é preciso nem dizer que, por aqui, somos pura expectativa.

Novidades no Now/VOD - #Alive (#Salaidda)

De: Jo II Hyeong. Com Jon Hoo, Yoo Bin e Joen Bae Su. Drama / Ação / Thriller, Coréia do Sul, 2020, 98 minutos.

Resolvi aderir ao hype e assistir ao tão falado #Alive (#Salaidda) e, bom, fazia alguns bons pares de meses que eu não me sentia verdadeiramente perdendo tempo ao conferir um filme. Não é minha intenção ser injusto na resenha mas, pra começar, a obra dirigida por Jo II Hyeong me pareceu um grande "mais do mesmo". Não há absolutamente NADA que oxigene efetivamente o subgênero "filmes de zumbis" - e quem porventura já tenha acompanhado alguns punhados de episódios de The Walking Dead encontrará aqui um grande senso de repetição. E devo admitir pra vocês que o começo parecia promissor, especialmente por estabelecer diálogo com o drama que estamos vivendo atualmente, provocado pela Covid-19: obrigado a ficar em casa por tempo indefinido, um jovem (Yoo Ah In) precisa lidar com um vírus que está infectando toda a população, que está sendo transformada em zumbis ágeis que vertem sangue pelos olhos e que reagem agressivamente.

A premissa é interessante apenas - e tão somente apenas - pela necessidade do jovem de ficar em casa. Se sair para a rua poderá ser atacado por zumbis que, rapidamente, ocupam as ruas. Na vizinhança, e mesmo nos corredores dos prédios, os mortos vivos já perambulam, esperando uma brecha para atacar - o que acontecerá mais de uma vez, colocando o protagonista em risco. Ter de esperar será a grande angústia. O risco de ficar sem comida, sem água. Não ter notícias dos familiares, que haviam saído justamente no dia em que o surto começou. Muito mais do que estar preocupado em ser mordido por um zumbi, o protagonista tem de lidar com os demônios interiores. Com os dias que parecem não ter fim, em meio a jogos de videogame fastidiosos e a observação dos eventos que ocorrem pela vizinhança - numa espécie de Janela Indiscreta zumbi. E admito a vocês que, até esse momento, no terço inicial, estava achando a condução da narrativa bastante instigante e, até, vá lá, inovadora.


Mas a partir da segunda parte a coisa descamba para aquilo que, muito provavelmente, os fãs do gênero aguardam ansiosamente: perseguições, violência, correria. Edição frenética, trilha sonora barulhenta, caótica. Fotofrafia saturada e desordenada. Um pouco mais de perseguição. Um pouco mais de correria. Mais algumas doses de zumbis trôpegos, ainda que ágeis, perpetrando ataques. Gemendo. Agonizando. Aliás, até os barulhos feitos pelos mortos vivos são absolutamente idênticos aqueles vistos na já citada The Walking Dead. A maquiagem também, a forma como se comportam. O jovem que protagoniza o filme deve lutar para sobreviver. Como ocorre em todos os filmes do gênero. E, aqui, admito a vocês o fato de ter me decepcionado profundamente o fato de a obra ser apenas um filme de ação besta. Sem um pano de fundo que explicasse melhor a doença. Sem algum tipo de metáfora que pudesse nos auxiliar em algum tipo de análise sociopolítica do contexto vivido naquela Coréia do Sul distópica. O diálogo com o coronavírus termina num instante. Só restando o frenesi bobo da luta pela sobrevivência. Com direito até mesmo a uso de câmeras lentas e jump scares aleatórios.

Talvez seja apenas eu que esteja me tornando um velho ranzinza e vai ver a garotada, de fato, tenha curtido esse filme. Mas o caso é que pouquíssima coisa funciona. A aparição de uma misteriosa vizinha que surge como par romântico involuntário do protagonista só serve para gerar mais constrangimento. Aliás, nada mais estúpido do que a dupla conversando por walkie talkie e percebendo que, nossa, gostam de comer o Nissin Miojo de forma parecida, com os mesmos ingredientes. Tão apaixonante. Só que não. Ao cabo de tudo a obra é apenas escapar e escapar e lutar para sobreviver. Sim, muito provavelmente não haveria muita explicação para um apocalipse zumbi, mas eu sentiria o filme mais COMPLETO com um pouquinho mais de contexto. E também com um pouquinho mais de interpretação de qualidade, já que, vamos combinar que o Jon Woo é simplesmente péssimo com suas caras e bocas. A Netflix tem sido "acusada", ultimamente, de entulhar o seu catálogo com um amontoado de filmes e séries de gosto duvidoso. Alguém precisa alertar os executivos da plataforma de que qualidade é muito melhor do que quantidade. Senão precariedades como esse #Alive, persistirão poluindo o algoritmo. E gerando um falatório quase inexplicável.

Nota: 3,0

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #21 - A Volta ao Mundo Em 80 Filmes (América do Sul)

Quem nos acompanha aqui no Picanha sabe que um de nossos quadros preferidos é o A Volta ao Mundo Em 80 Filmes, onde temos o objetivo de falar de obras de países não tão conhecidos pela grande produção cinematográfica. De Arábia Saudita à Finlândia, passando por Senegal e Romênia, o ato de dissecar películas das mais variadas localidades também nos proporciona um verdadeiro mergulho sociopolítico e cultural em cada uma dessas nações, nos aproximando de seus hábitos, costumes, entre outros. E foi pensando nisso que, no episódio dessa semana, resolvemos trazer o quadro para dentro do Podcast. Como são muitas as possibilidades, resolvemos fazer uma divisão por continentes, começando por filmes realizados na América de Sul. De países com vasta produção - como Argentina e Chile -, a outros não tão populares -, como Venezuela e Peru -, o Henrique eu eu (o Bernardo estava de "folga" nessa semana) realizamos um recorte com 10 filmes para você se apaixonar pela filmografia latino-americana. Tem de tudo um pouco e temos a certeza de que vocês irão gostar! Bora sextar?

Cinemúsica - E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?)

Por ser um filme mais musical dos irmãos Joel e Ethan Coen, E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?) pode até passar a impressão de ser um pouco menor do que efetivamente é. Nas aparências, é uma obra sobre três sujeitos que fogem de uma vida de escravidão numa fazenda ao Sul dos Estados Unidos para ir em busca de um suposto tesouro, que lhes possibilitará alguma dignidade na vida. Numa análise mais macro, o filme pode ser considerado um verdadeiro painel da Terra do Tio Sam pós-depressão, período em que a turbulência política se mescla com o aprofundamento do debate de temas como racismo - ao mesmo tempo em que tecnologias como o rádio começam a ocupar os lares americanos. Nesse sentido, a música tem papel central na obra que, ao final, funciona também como uma espécie de ode ao poder das artes. Especialmente pelo fato de a redenção do trio de desajustados vividos por George Clooney, Tim Blake Nelson e John Turturro também passar por isso.

Aliás, as canções que parecem saídas do folclore regionalista norte americano do começo do século passado acabam por fazer um amálgama quase involuntário à jornada dos anti-heróis que acompanhamos. Após escaparem da lavoura de algodão em que pesadamente trabalhavam - e ali a música, com todo o seu simbolismo de resistência já ecoa -, eles encontram em uma encruzilhada o talentoso violeiro Tommy Johnson (Chris Thomas King) que está indo para uma estação de rádio que está aceitando cantores de bluegrass e country que possam, simbolicamente (e talvez até nostalgicamente) trazer algum conforto para os lares americanos daqueles tempos. É nesse momento que Everett (Clooney), Pete (Turturro) e Delmar (Nelson) se juntam ao sujeito para formar o improvisado Soggy Bottom Boys, entoando pela primeira vez a efervescente e rural I Am a Man Of Constant Sorrow, o que lhes rende alguns dólares, lhes permitindo prosseguir em sua jornada.


Enquanto fogem das autoridades que fazem o diabo para tentar capturá-los, os Bottom Boys e sua música explodem no rádio sem que eles saibam. Aliás, nem o dono da rádio sabe quem são, já que ele é cego. Em meio a conflitos políticos com engravatados que começam a perceber o poder da mídia, Everett, Pete e Delmar se verão diante de uma série de confusões, como a fuga alucinada de um celeiro queimado e encontro aleatório com um grupo de supremacistas brancos da Ku Klux Klan, que pretende assassinar Tommy pelo simples fato de ele ser negro. Há ainda um atormentado encontro com sereias a beira de um rio - o que faz com que o folclore saia das canções para chegar, efetivamente, a história -, com tudo saindo meio errado e Pete sendo transformado em um sapo (!). Só que na maioria desses instantes desse road movie meio torto a música, intepretada por artistas variados como os Stanley Brothers, Harry McClintock e The Whites está lá, trazendo algum conforto, abraçando as personagens e nos fazendo, junto com eles, seguir adiante.

De uma forma meio curiosa, essas músicas de sulista norte-americano - aquele country cheio de letras festivas e mundanas - fizeram enorme sucesso, tornando o disco amplamente vendido. Talvez tenha a ver com a nostalgia do sonho americano, ou mesmo como uma forma de recuperar a autoestima no pós 11 de setembro - por mais que o filme tenha entrado em cartaz antes disso -, mas o caso é que a trilha foi bem recebida pelo público, ainda que tenha sido completamente esnobada na edição do Oscar de 2001. Isso não apaga o efeito causado e, a meu ver, a cena final, com o supremacista Homer (Wayne Duvall) caindo em desgraça política TAMBÉM por causa da música, é uma pequena forma de lavar a alma, com o trio de protagonistas sendo redimido pelo governador, que também está encantado com o potencial musical dos Soggy Bottom Boys. Ode a música e elogio ao potencial das artes inclusive do ponto de vista da influência polítca, social e cultural: é isso que essa pequena obra dos Irmãos Coen faz. É divertido, inteligente, subversivo. Do jeito que gostamos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Novidades no Now/VOD - Um Bilhete Para Longe Daqui (The Escape)

De: Dominic Savage. Com Gemma Arterton, Dominic Cooper, Jalil Lespert e Frances Barber. Drama, Reino Unido, 2018, 101 minutos.

Um Bilhete Para Longe Daqui (The Escape) é aquele legítimo filme para tirar o espectador da zona de conforto. Pra gerar até um certo incômodo tamanho o realismo na análise das frustrações que podem surgir da insatisfação de uma vida vazia a dois. Roteirizada e dirigida por Dominic Savage, é uma obra áspera mas honesta, sincera. A trama nos coloca em meio a um casamento em crise que só nas aparências é "perfeito". Nele, Gemma Arteron é Tara, uma jovem sobrecarregada pelas tarefas domésticas que envolvem dois filhos, as compras, o jantar para o marido (Dominic Cooper), as toalhas limpas e cheirosas. É o tipo de vidinha esquemática e sem cor, que pode ser simbolizada pelo sexo robótico, pragmático e sem prazer nenhum que abre o filme. Aliás, o sexo beira o catastrófico e até o inconveniente, com um marido que pensa apenas no seu prazer e que é incapaz de, simplesmente, dialogar com a sua esposa. Aliás, o diálogo poderia estabelecer algum tipo de base para uma relação que parece minguar a cada dia.

Na essência, o filme escavoca essas pequenas violências sofridas pela mulher no dia a dia - que podem ir da transa não consentida ao abuso psicológico - e que, ao cabo, dão conta de uma sociedade que persiste num tipo de patriarcalismo que envolve o homem saindo de casa todos os dias para trabalhar, enquanto que a mulher vê os seus sonhos, desejos e anseios castrados, decepados pelas (in)conveniências da estabilidade familiar. Em certo dia, meio fatigada de tudo, Tara sai sozinha pelas ruas de Londres e encontra um pouco de cor em seus pálidos dias. Cor em coisas bem simples, mesmo: um raio de sol que afaga o rosto, uma paisagem inesperadamente bonita, um livro comprado no sebo local, um café. Aliás, é no livro que a protagonista se vê encantada pela história por trás da arte da tapeçaria - algumas delas expostas em Paris. Se empolga com a ideia de fazer um curso de artes, ter alguma atividade extracurricular que lhe faça brilhar os olhos e que não seja apenas correr atrás de brinquedos bagunçados pelo pátio e pratinhos com restos de sucrilhos dentro.


Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que o marido - seu nome é Mark - tentará retirar a ideia de curso de artes da cabeça de Tara. "Curso? Quem cuidará das crianças? Da casa? Você já tem 30 anos? Tem tudo, está feita", afirma a mãe da jovem em uma conversa que não apenas denuncia a discrepância promovida pelo choque de gerações, como ainda exprime um tipo de acomodação que talvez explique a própria existência de Tara dentro de um casamento que, talvez, fosse indesejado já na origem de tudo. Não é demais lembrar que, mesmo nos tempos atuais, muitas mulheres não são estimuladas para sair da lógica que as estabelecem como futuras mães, que cuidarão da casa e das refeições da família. E, bom, se você acha que pode haver algum exagero nessa análise, pense nos amigos, nos conhecidos ou mesmo naquelas pessoas - casais no caso - que jantam completamente em silêncio, enquanto deglutem um pedaço duro de carne. Sim, há exceções. Há casais felizes, parceiros. Mas esses são os que são capazes de reconhecer o espaço do outro. A sua individualidade. Estimulando-os para que realizem aquilo que desejam efetivamente, os SEUS sonhos. E não os de si próprios.

A frustração de uma personagem como Tara não é novidade no mundo das artes - e livros como A Vida Invisível de Eurídice Gusmão de Martha Batalha e outras películas como a ótima My Happy Family, disponível na Netflix, também tratam com propriedade desse "apagamento" vivido pelas mulheres, que desaparecem em meio a essa paisagem nebulosa que mescla infelicidade com insatisfação. Perguntando o tempo todo o que fez de errado, Mark é incapaz de acolher a sua esposa que, num certo dia, depois de sofrer mais um abuso, joga tudo para o alto, faz uma pequena malinha e vai para Paris, com a intenção de tentar se redescobrir. Hábil na construção da narrativa e das ambientações, Savage é muito feliz ao não depositar a alegria de Tara em um possível futuro e novo relacionamento - não que ele não possa acontecer e provavelmente acontecerá. Mas "descobrir" o mundo, respirar novos ares, conhecer outras pessoas - talvez tão cheias de segredos quanto ela - poderá ser o caminho para que Tara tome as suas decisões. É o tipo de obra que, muito provavelmente, desagradará os adeptos da família de propaganda de margarina e do "até que a morte nos separe". Mas há outras coisas que morrem pelo caminho. Identificar isso e conseguir atravessar essas barreiras, pode ser o cainho para uma vida livre, independente e feliz. Estando ou não estando ao lado de alguém.

Nota: 9,0

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Picanha.doc - O Dilema das Redes (The Social Dilemma)

Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software.

(Edward Tufte - Professor da Universidade de Yale)

De: Jeff Orlowski. Com Skyler Gisondo, Kara Hayward e Vincent Kartheiser. Documentário, EUA, 2020, 91 minutos.

Dirigido por Jeff Orlowski, o documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma) parte de algo que, muito provavelmente, todos nós sabemos: estamos sendo vigiados nas redes sociais. Mais do que isso, manipulados. O tempo todo. Sem nem percebermos. Ou talvez até percebendo. E por trás de todo esse esquema bem elaborado de algoritmos, que faz com que passemos cada vez mais horas na frente de smartphones ou outros dispositivos, talvez esteja a explicação para um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade. As pessoas estão frustradas, depressivas, inseguras com a sua imagem. Há uma ansiedade generalizada que os likes diários, em pequenas doses, podem ajudar a amenizar. Isso se os likes vierem. Isso se a vida daquele seu amigo não parecer melhor que a sua. Ou se a sua colega de escola não for mais bonita e mais rica que você. Nas redes sociais, ao cabo de tudo, nós é que somos o produto. Nós é que estamos a venda. E empresas de tecnologia - como Instagram, Facebook, Twitter -, sabem disso. E, pior: se aproveitam disso. Para lucrar. E muito.

Já aconteceu com você: você está lá procurando na Amazon um livro que quer comprar. Um, dois cliques. O terceiro. Você abandona a página. Mas a enxurrada de propagandas com promoções de livros, do mesmo autor que você investigava: essa não parará tão cedo. Por dias, meses, semanas. Você entrará aleatoriamente no Facebook e se deparará com algo com 25% de desconto. Comprará e essa roda girará. Esse é um exemplo banal de como as plataformas parecem estar programadas para responder aos estímulos que são gerados por nós mesmos. Você abre o Youtube e assiste um vídeo sobre cinema. Na sequência você receberá recomendação de outros tantos vídeos do mesmo canal, com outros temas. E de outros canais sobre filmes. Você entrará em uma bolha, um loop infinito de consumo de "produtos" adequados ao seu gosto, a seu perfil. Acontece com todos nós, o tempo todo. Parece algo bobo, prosaico, cotidiano. Mas pode ser a resposta, inclusive, pro atual contexto de beligerância política que vivemos.


E o que documentário mostra de forma muito bem editada, muito bem organizada, ouvindo pesquisadores, professores, executivos e desenvolvedores que trabalharam durante anos nessas mesmas empresas é que a tecnologia pode ter contribuído, nos últimos anos, não apenas com o aumento de casos de tentativas de suicídio entre jovens - que se sentem incapazes de alcançar os inatingíveis padrões de beleza dos filtros do Instagram -, mas também pela polarização que estaria gestando governos extremistas, especialmente os de direita, pelo mundo. Fake news, paranoia governamental, vigilância, vida zumbificada, insegurança generalizada, manipulação, bom, você já viu gente defendendo que a Terra é plana, que a covid-19 foi criada pelo comunismo chinês e que o Fernando Haddad ia distribuir mamadeiras de piroca na escola. Junte a isso um grupo de pessoas fragilizado, com problemas de autoestima e ansioso para receber aprovação de seus pares e está feito o estrago: daí para atentados, agressões, incapacidade de diálogo e guerras é um pulo. Aliás, num cenário mais alarmista, alguns pesquisadores acreditam que o mundo está a um passo de uma Guerra Civil. Algo que já está sendo visto em alguns países.

Sim, o documentário tem pouco espaço para o otimismo ou para apresentar as iniciativas saudáveis de uso das redes sociais - e os bons aplicativos, as comunidades agregadoras, os grupos que se organizam para ações coletivas existem aos montes. As redes nos aproximaram, afinal. Pessoas que passaram anos sem se ver, se encontraram. Parentes que estão distantes estão a um clique de abrir uma chamada de vídeo. Mutirões são promovidos para auxílios. Mas como que a gente faz pra não ficar viciado nisso? Pra não passar tanto tempo rolando a barra de scroll? Enquanto o documentário se desenrola, o filme apresenta, paralelamente, a história ficcional de uma família com três adolescentes - um deles vai ficando cada vez mais isolado em sua bolha nas redes sociais e se aproxima e um curioso grupo extremista de centro (sim, a gente já sabe que é de direita). Ao final a violência eclode, o tumulto. O mesmo tumulto que ficará feio em vídeos nas redes sociais. Que não haverá filtro do Instagram que solucione. Sim, o tom pode ser alarmista: mas o recado é pra ser exatamente esse. A ciência mostra que estamos utilizando tudo isso e uma forma inadequada. Como corrigir esse trajeto que pode nos fazer evitar entrar em colapso? É a pergunta sem resposta que fica.

Na Espera - Os 7 de Chicago (Filme)

O ano de 1968 foi um dos mais turbulentos da história dos Estados Unidos. Não bastassem as mortes de Martin Luther King e Robert Kennedy, a Guerra do Vietnã servia de pano de fundo político para discussões que avançaram até chegar a Convenção Nacional do Partido Democrata naquele ano. E o que o filme Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7), que finalmente teve o seu teaser liberado, mostra é justamente um pequeno recorte daquele período - mais especificamente a história de um grupo de ativistas que protestava, inicialmente de forma pacífica, num episódio que culminaria em um violento confronto entre manifestantes, polícia e Estado. Na ocasião os organizadores foram acusados de conspiração por incitar a revolta, com os olhos do mundo voltados ao julgamento deles, que se tornou um dos mais famosos da história.


Bom, antes de mais nada vamos combinar que um enredo desse tipo - baseado em fatos reais, que parecem reverberar até hoje nesse espectro de polarização política que vivemos - é a cara do Aaron Sorkin (e do Oscar, podem ter certeza). Em si, o teaser revela pouco, o que é bom, sendo centrado mais no clima de instabilidade de período, com a frase "o mundo inteiro está vendo" sendo repatida de forma persistente. O elenco é espetacular e conta com nomes como Eddie Redmayne, Frank Langella, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Jeremy Strong, Michael Keaton e Sacha Baron Cohen, sendo este último um dos cotados a aparecer na categoria Melhor Ator na próxima edição do Oscar. O filme estreia na Netflix no próximo dia 16 de outubro e aqui no Picanha nós já estamos na mais alta expectativa!

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - As Viagens do Vento (Colômbia)

De: Ciro Guerra. Com Yull Núñez, Marciano Martinez, Agustin Nievez e José Luiz Torres Leiva. Drama, Colômbia, 2009, 118 minutos.

Não é preciso muito mais do que meia hora para que As Viagens do Vento (Los Viajes del Viento) - obra do cineasta colombiano Ciro Guerra (do oscarizado O Abraço da Serpente) - conquiste completamente o espectador. Há um instante específico em que o taciturno menestrel Ignacio Carrillo (Marciano Martinez) chega a um povoado em que ocorre uma espécie de "rinha de sanfoneiros" em que o vencedor sairá com um prêmio em dinheiro - além do prestígio de ser reconhecido pela força não apenas do instrumento, mas também dos versos. Ocorre que Ignácio está aposentando a gaita. Mais do que isso: está empreendendo uma viagem ao norte da Colômbia para devolver o acordeão ao seu antigo mentor, com a ideia fixa de não mais tocá-lo, já que acredita ter sido objeto de algum tipo de feitiçaria em sua vida, marcada por desgraças e pela solidão. A vida de músico, de artista, afinal, não é fácil.

Quem convence Ignacio a participar da disputa de sanfonas é o jovem Fermin (Yull Núñez), que se junta ao trovador logo no início de sua jornada, com o desejo de ser um aprendiz na arte da sanfona. A batalha de gaitas é animada, divertida e irresistível: Ignacio identifica o ponto fraco de seu oponente, algo relacionado a algum tipo de bruxaria (e nunca é demais lembrar que o misticismo, o folclore e a religiosidade são elementos que naturalmente integram a obra de Guerra). Só que um nativo perder para um forasteiro não pega bem: o protagonista é atacado à faca pelo pai do derrotado em uma sequência tão tensa quanto artística. É salvo pela própria gaita, que impede o seu corpo de ser perfurado. Ao sair do local, precisa ir ao encontro de seu irmão Nine (Agustin Nievez), único na região capaz de consertar o instrumento. Mas há um porém: ele mora no topo de uma montanha.


Relatado assim, esse encadeamento de eventos pode apenas parecer aleatório, mas dá conta de uma série de elementos que envolvem o cinema do realizador (que também fez o espetacular Pássaros de Verão). O primeiro deles é o bucolismo inebriante que ecoa nas belas paisagens aéreas, que transformam a região de La Guajíra ela própria em uma espécie de personagem: que observa, que envolve, que acompanha. Que evoca grandiosidade. Os vários travellings e sequências filmadas em planos médios, em que se pode ouvir o barulho do vento ou dos curiosos pássaros, quase faz lembrar, em alguns momentos, o cinema de Terrence Mallick - mas sem as narrações em off que podem se tornar excessivas em algumas situações. Aqui prevalece o silêncio, o intercâmbio com a natureza, a paixão pela arte, pela música, misturada com a dureza e a rudeza dos moradores locais, capazes de realizar duelos de vida ou morte ao som do acordeão. É um legítimo mergulho na Colômbia mais rural e mais desconhecida, longe da urgência urbana e violenta e de denúncia de contrastes sociais, como a vista em obras premiadas como Maria Cheia de Graça (2004), por exemplo.

Esse na realidade é mais um daqueles casos de fiapo de história que serve para dar conta de uma jornada de redenção e de aprendizado, em que o veterano músico empreende um esforço para expurgar os seus demônios e traumas do passado, ao passo que o jovem representa a força da "novidade", que precisa passar por uma série de rituais para chegar a vida adulta (e não é por acaso que, lá pelas tantas, Fermin se envolve em uma cerimônia real no meio da floresta, em que encarna algum tipo de espírito metafísico que lhe certifica oficialmente para a música). É um filme que talvez não seja para todos os paladares: há uma fluência narrativa mais lenta, quase contemplativa, em que os raros momentos mais movimentados (como o já citado, da rinha), se intercalam com a longa viagem em meio a natureza selvagem e interminável - algo bastante parecido com o que fazem os protagonistas do livro Todos Os Belos Cavalos de Cormac McCarthy. Mas quem se aventurar pelo cinema de Ciro Guerra, desvendará uma Colômbia mágica, mística, quase onírica e que mais parece saída das páginas do conterrâneo Gabriel García Marquez. Talvez não seja por acaso.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #20 - O Que Estamos Assistindo, Lendo, Ouvindo

Este é um episódio em que colocamos em dia aquilo que temos assistido, lido, ouvido. Aliás, a pandemia e a necessidade de isolamento social tem sido a oportunidade perfeita para isso. Para tirar aquele livro que há tempos estava na estante pedindo uma leitura. Para maratonar aquela série que nos exigiria um pouco mais de tempo. Ou para simplesmente curtir as novidades que têm chegado ao streaming em matéria de músicas e filmes. Então, o que o Bernardo, o Henrique e eu fizemos no Podcast do Picanha Cultural #20 foi realizar uma rodada disso! Assim, cada um trouxe um livro, um filme, uma série e um disco que está curtindo e que poderá servir de dica para vocês que nos acompanham! De Estou Pensando em Acabar Com Tudo - filme novo (e incensado) de Charlie Kaufman -, ao novo disco do The Killers, Imploding The Mirage, passando por obras de Haruki Murakami e Marçal Aquino, esse episódio tá metido a cultural. E esperamos que vocês gostem! Bora sextar?


Picanha em Série - I Know This Much Is True

De: Derek Cienfrance. Com Mark Rufallo, Melissa Leo, John Procaccino, Rosie O'Donell, Kathryn Hann, Juliette Lewis, Archie Panjabi e Rob Huebel. Drama, EUA 380 minutos, 2020.

"O amor cresce do perdão.
Da destruição vem a renovação.
A evidência de Deus existe nas nossas conexões uns com os outros."

Vamos combinar que a equação drama familiar + série da HBO dificilmente dá errado - e não é diferente com a absurdamente melancólica I Know This Much Is True. Dirigida poe Derek Cienfrance (dos dolorosos filmes Namorados Para Sempre e O Lugar Onde Tudo Termina), a minissérie é daquelas para deixar um gosto amargo na boca, tamanha a quantidade de tragédias por metro quadrado que se descortinam em tela. Aliás, por mais contraditório que isso possa parecer, ela combina direitinho com esse 2020 em que o sofrimento devastador parece não ter fim. A trama nos devolve para o começo dos anos 90, onde acompanharemos a vida dos irmãos gêmeos Dominick e Thomas Birdsey (ambos vividos por Mark Rufallo). Thomas parece sofrer de esquizofrenia e a série inicia com um episódio bastante traumático, onde o sujeito, numa espécie de surto que mistura extremismo religioso e teoria conspiratória, decepa o próprio braço, em meio a uma biblioteca lotada.

Este episódio será o ponto de partida para que compreendamos a natureza da relação conturbada dos dois irmãos e da relação deles com sua mãe (Melissa Leo) e com seu autoritário padrasto Ray (John Procaccino). Com uma doença terminal, a mãe morre deixando para Dominick um manuscrito escrito em italiano por seu avô e que poderá ser a chave para que segredos do passado possam ser esclarecidos. Enquanto pede a uma intérprete (vivida com a habitual excentricidade por Juliette Lewis), o sujeito tenta amparar Thomas, que, após o episódio do braço decepado acaba indo parar em uma prisão convencional - e não no instituto psiquiátrico que vinha sendo tratado. Por se sentir responsável pelo irmão, a situação gerará em Dominick uma profunda angústia - o que ele tentará, em partes, sanar com a ajuda de uma assistente social (Rosie O'Donell, muito bem em um papel sério) e com uma psiquiatra (Archie Panjabi).


Por que o que ocorre, afinal, é que, aos poucos, perceberemos que não apenas Thomas tem os seus problemas, os seus demônios: Dominick também os tem. E guarda uma mágoa e uma revolta que o faz explodir inclusive com as pessoas que ele ama, caso da ex-esposa Dessa (encarnada com a competência de sempre pela Kathryn Hahn). Aliás, parênteses: vocês estão vendo os nomes do elenco, né? E este acaba sendo um atrativo a parte, com nomes que emprestam envergadura ao projeto, que conta ainda com o multitarefas Rob Huebel (que aqui é o ex-cunhado, vendedor de carros e postulante a ator) e com a namorada de Dominick, Joy (Imogen Poots). Mas quem brilha mesmo é Rufallo, que constroi ambos os irmãos com suas características e personalidades próprias, nos fazendo crer que a dupla poderia de fato existir. Com temperamento intempestivo - especialmente pelo fato de o mundo não lhe sorrir -, Dominick é o oposto de Thomas, que em seu mundo particular surge inseguro e permanentemente amedrontado (apesar de ser bem mais obeso que o irmão). Aliás, as mudanças físicas de um para o outro são quase impactantes.

E se as interpretações renderiam horas e mais horas de elogios, o mesmo pode-se dizer da parte técnica. A fotografia granulada e empalidecida reforça o caráter sorumbático do projeto, bem como a melancolia permanente daquilo que assistimos. Já o desenho de produção contribui para que encaremos a recriação dos anos 90 com realismo, completado pela trilha sonora que nos permite aqui e ali ouvir músicas como Cherish da Madonna, ou Drive do The Cars - esta última que servirá de trilha sonora para um dos instantes mais comoventes da narrativa. Aliás, "instantes comoventes" é o que mais tem na série, que discute desde relações familiares, passando por traumas, consequências de nossas escolhas, luto e capacidade de persistir e de superar obstáculos, até chegar ao perdão. Aliás, "perdão" será quase uma palavra-chave nos momentos decisivos da série, especialmente uma impactante sequência envolvendo um velório. Servindo como microcosmo de algo maior que ocorre em nossa sociedade - tão individualista quanto hipócrita -, a série ainda pontua questões políticas, sociais, culturais e religiosas que podem TAMBÉM influenciar as nossas atitudes. Ou como seremos como pessoas, como sujeitos. É uma série pequena, com apenas seis episódios. Mas grande, enorme. Como as angústias daqueles que assistimos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Tesouros Cinéfilos - O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos)

De: Juan José Campanella. Com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Guillermo Francella e Carla Quevedo. Drama / Suspense, Argentina / Espanha, 2009, 129 minutos.

Lembro até hoje da minha surpresa quando foi anunciado o vencedor do Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira na cerimônia de 2010: naquela ocasião, O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos) derrotaria A Fita Branca (2009), a assombrosa visão de Michael Haneke da Alemanha pré-nazismo. Passados dez anos do lançamento do filme de Juan José Campanella - que já havia nos brindado anteriormente com jóias como O Filho da Noiva (2001) e Clube da Lua (2004) -, resolvi fazer uma revisão, o que me fez perceber o quão completa é a obra. Não se trata apenas de uma misteriosa "novela" policial, com roteiro intrincado, romances inacabados e um crime de complicada resolução. É uma narrativa engenhosa, que utiliza a parte técnica com vigor, enquanto discute temas diversos como passagem do tempo, permanência da memória, contexto político, relações de trabalho e conflitos amorosos, entre outros. Tudo com grandes interpretações. Tudo dramaticamente comovente. Como muitas vezes é o cinema argentino.

Na trama Ricardo Darín (e quem mais seria?) é o investigador aposentado Benjamín Esposito, que utiliza seu tempo livre para tentar emplacar uma carreira tardia como escritor. Obcecado por um violento assassinato ocorrido no passado, e com dificuldade de transformar em palavras essa narrativa cheia de pontas soltas, ele vai atrás de sua antiga chefe, Irene (Soledad Villamil), para tentar jogar alguma luz sobre os eventos ocorridos mais de 30 anos atrás, em 1974, às vésperas do Golpe Militar argentino (que seria colocado em prática em 1976). Reviver estas memórias poderá servir para que o livro saia do papel. Mas a que custo? E será escavando os velhos traumas daqueles tempos, que Esposito terá a oportunidade de confrontá-los, percebendo equívocos e tentando, tardiamente, reparar erros. Incapaz à época de verbalizar a sua paixão por Irene, o advogado veria ainda uma série de injustiças se descortinarem no que diz respeito ao crime que investiga. E, bom, esse conjunto é que faz com que tenhamos um filme engenhoso, um quebra cabeças elegante, romântico e turbulento.


"O sujeito pode mudar tudo: de cara, de casa, de família, de namorada, de religião, de Deus... mas tem uma coisa que ele não pode mudar: de paixão". Essa é uma frase dita por Pablo Sandoval (Guillermo Francella), colega de trabalho e melhor amigo de Esposíto, em certa altura da projeção e que, de certa forma, resume as pretensões da obra. Aquilo que te comove, que tem significado ou sentido pra ti, não mudará, independentemente do entorno. Pode ser qualquer coisa que mova uma pessoa: para Sandoval é ficar no bar fazendo nada, enquanto enche a cara e observa o movimento. Essa divagação nos jogará para o meio de um jogo do Racing contra o Huracán, em Avellaneda, naquela que é uma das mais incríveis sequências filmadas nesse milênio. A paixão pelo futebol, a arquibancada, a torcida, a emoção do gol se cruzam com as possíveis pistas deixadas por aquele que é o principal suspeito do crime. Ocorre uma perseguição, uma prisão. Não há provas, não há flagrantes, não há nada que ligue aquele eventual torcedor, que era um amigo da vítima, ao assassinato ocorrido. A vida segue. As paixões também.

Mas a cena do jogo de futebol é só um exemplo maior do exercício de técnica executado por Campanella no filme. Entre um flashback esmaecido e outro há as mudanças sutis de aparência entre os envolvidos, que só não modificam o brilho no olhar daqueles que acompanhamos. Há algo muito vivo, muito marcante na forma como todos se olham - especialmente como Irene e Esposíto se enxergam, dizendo muito, mas sem dizer palavra. Um olhar de lado em uma foto pode ser a chave para o crime cometido, assim como um olhar mais atento para o todo pode levar o protagonista a solução do crime, tantos anos depois. É nessa engenhosidade de idas e vindas, de olhares e de não ditos, de personagens que parecem sempre no limite (da exaustão, do cansaço), que vai se descortinando um roteiro cheio de engenharias saborosas, de riqueza de detalhes. É um filme que parece um daqueles vinhos distintos, que vai fazer com que percebamos uma nota não antes sentida, lá no final, no último limite, no gole derradeiro.


Ao cabo de tudo, o diretor argentino realizou uma obra-prima moderna que funciona tanto como romance, quanto como folhetim policialesco. A gente parece sempre estar torcendo para que as coisas deem certo, ao mesmo tempo em que o nosso olhar permanece atento para as possíveis reviravoltas. Os diálogos são um primor, mesmo como quando versam sobre banalidade, como quando Sandoval debocha de Esposíto pela preferência pelas histórias de Perry Mason. Mas possuem valor mesmo, quando se aprofundam nas questões demasiadamente humanas, que fazem com que tenhamos identificação imediata. Quem, afinal de contas, nunca se apaixonou? E resolveu esperar porque AQUELE não era o momento? Mas quando seria? Ou não seria jamais? Há a pessoa certa na hora errada? Há contextos - políticos, sociais, culturais -, que possam favorecer este ou aquele acontecimento? "Apresente suas objeções", suplica Irene, em certa altura, já quase no terço final. O tempo, afinal de contas, passará. E as feridas só serão curadas quando conseguirmos olhar pra frente, sem medo de lembrar do que ocorreu lá atrás. Filmaço!

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Curta Um Curta - John à Procura de Aliens (John Was Trying to Contact Aliens)

Quando John à Procura de Aliens (John Was Trying to Contact Aliens) começa, a gente pode até ter a impressão de que se tratará de um documentário sobre os mistérios do espaço e sobre a permanente busca da ciência em tentar desvendá-los. Mas não. A pequena obra de apenas 16 minutos, disponível na Netflix e dirigida por Matthew Killip, é a verdadeira jornada da autodescoberta, com um desfecho não menos do que maravilhoso. Na trama, acompanhamos a excêntrica história de John Shepherd, que dedicou mais de 30 anos de sua vida a tentar fazer contato com alienígenas. Morador da zona rural do conservador Estado de Michigan, John foi criado pelos avós, transformando a casa deles em um verdadeiro laboratório experimental, com uma série de máquinas e equipamentos que pudessem transmitir mensagens - especialmente mensagens musicais -, ao espaço. Com uma trilha sonora envolvente, a curta-metragem tem uma mensagem otimista sobre o poder dos nossos sonhos e sobre como eles podem transformar as nossas vidas. Ainda é cedo pra falar em Oscar, mas já cravaria aí um potencial indicado na categoria Documentário em Curta. Vale conferir!

Grandes Cenas do Cinema - Náufrago (Cast Away)

Cena: a dolorosa perda do único e melhor "amigo".

Eu tenho a impressão de que alguns papéis só são possíveis com o Tom Hanks. Como exercício, tente imaginar o personagem Chuck Noland, de Náufrago (Cast Away) sendo interpretado por Brad Pitt, George Clooney ou, vá lá, Mark Rufallo. Não é que não seria possível. Óbvio, são atores muito talentosos e que certamente entregariam uma boa caracterização. Mas Hanks tem aquela "coisa" meio difícil de explicar, aquela capacidade de transmitir força e vulnerabilidade em uma mesma medida e que parece ideal em alguns filmes. E a meu ver esse combinado serve direitinho para que cenas como aquela em que o protagonista da obra dirigida por Robert Zemeckis perde a sua bola de vôlei - ou, no caso, o seu melhor e único "amigo" Wilson. Precisa haver aí algum tipo de desprendimento: algo que torne a sequência que poderia soar apenas boba, em algo mais crível. E o astro vencedor do Oscar por Philadelphia (1993) e Forrest Gump (1994) consegue esse efeito. Aliás, eu sempre choro copiosamente nessa parte.

Wilson surge no filme em uma parte crucial para o andamento da narrativa: após o acidente em que Noland vai parar numa ilha desabitada, no meio do nada, ele está literalmente reaprendendo a viver. Junto do seu abatido corpo, as ondas oceânicas levaram para a borda da ilha dezenas de pacotes da FeDex, empresa onde o protagonista cumpria suas atribuições de uma forma absurdamente meticulosa. Aliás, ele era aquele cara todo certinho, que tinha a pontualidade como regra - o que, claro, a vida na ilha vai quebrar. Relutando inicialmente em abrir as embalagens, Noland tem uma longa e desgastante sequência em que tenta fazer fogo para que possa não apenas chamar a atenção para a sua causa - vai que uma embarcação passe por ali -, mas também para aquecer os peixes, o seu alimento oficial. Enfadado pelo insucesso, abre todos os pacotes. O conteúdo é variado, e aparentemente inútil: um par de patins, um amontado de fitas VHS e... uma bola de vôlei da marca Wilson.


Interessante notar como, naquele contexto, praticamente todos os objetos terão alguma utilidade. As lâminas do patins se transformarão em afiadas facas - servindo também como improvisados espelhos. Os rolos das fitas poderão servir de amarras. Mas a bola de vôlei se transformará em algo maior: um amigo involuntário. Alguém com quem Noland passa a dividir suas impressões sobre tudo, seus objetivos, angústias e anseios. Inserindo na bola um rosto - feito com seu sangue -, o protagonista concede à ela o cargo de confidente. Praticamente nada acontecerá sem uma "troca de ideias" com Wilson. E mesmo quando a narrativa avança quatro anos e a bola, inevitavelmente murcha, o náufrago a reconfigura, recheando-a com galhos (que até parecem "cabelos"), o que a faz ser um tipo de seu semelhante. Com quase 1500 dias na ilha, Noland também está barbudo, cabeludo, exaurido. E resolve tentar sair da ilha construindo uma jangada e improvisando um tipo de vela, com uma estrutura metálica também "entregue" pelo oceano.

E será mar adentro, num ato desesperado, que Wilson inesperadamente terá seu trágico destino selado. Após uma tempestade que deixa a jangada em frangalhos, Noland está adormecido no instante em que a bola se desprende da estrutura instalada para que ela permanecesse em segurança. Quando o protagonista percebe que seu amigo já está a deriva, é tarde demais: tenta entrar no oceano, mas não pode perder a jangada de vista. Wilson, assim, vai se afastando, enquanto o náufrago grita dolorosos pedidos de desculpa pela "desatenção". E, assim, estaria criada para o imaginário cinéfilo uma das mais inesquecíveis histórias de separação entre amigos do cinema. Para além de uma obra sobre sobrevivência ou sobre recomeços - o final da história toda também dá conta disso -, O Naufrago é um conto improvisado de amizade, triste e curioso, que talvez só Hanks, com o seu talento único para a composição do sujeito comum em situações limite, consiga. Aliás, o astro chegou a ser indicado ao Oscar naquele ano, por esse papel. Num filme pequeno, escapista, quase com aquele clima Sessão da Tarde, é um feito e tanto!

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Novidades no Now/VOD - Estou Pensando em Acabar com Tudo

De: Charlie Kaufman. Com Jessie Buckley, Jessie Plemons, Toni Colette e David Thewlis. Drama / Suspense, EUA, 2020, 134 minutos.

Já deve ter acontecido para vocês mais de uma vez: o ideal de um relacionamento era muito melhor do que o relacionamento em si. O sonho, o plano. O que ia ser mas não foi por que a vida real, bom, a vida real é REAL. Nesse universo, a gente pode optar por sermos apenas nós mesmos. Ou sermos quem o outro desejaria que fôssemos. Há um chavão que diz que não há relacionamento sem "ceder". E é cedendo aqui e cedendo ali que a gente perde a nossa essência. A nossa natureza se esvai. Os nossos sonhos e escolhas ficam pelo caminho. Tudo para que a gente viva a vida pensando pelo outro. Para o outro. Reflita agora por um instante em quantos casais miseravelmente infelizes você conhece? Dois, três, cinco? Talvez você mesmo seja essa pessoa: solitária em um mundo a dois. Isolada daquilo que se sempre desejou. Mas incapaz de modificar o entorno porque, né, a gente está acomodado. Pai, mãe, filhos. Rotina, tédio, repetição. Monotonia, vazio. Ruminação em cima de frustrações que, invariavelmente, vão se manifestar. Porque, na vida, somos eternos insatisfeitos. Todos nós. Ansiosos pela grama do vizinho ser sempre mais verde. E nós sermos incapazes de lidar com isso.

Na essência, Estou Pensando em Acabar com Tudo (I'm Thinking of Ending Things), mais recente trabalho de Charlie Kaufman, baseado em obra de Iain Reid, versa sobre o completo fracasso dessa instituição que conhecemos como "relacionamento idealizado". Aquele absurdo delirante que assistimos em filmes de comédia romântica e que, no fim das contas, só existe mesmo em comédias românticas. A vida é pura imperfeição e não é que isso seja ruim: mas o problema parece estar na nossa dificuldade em lidar com o outro, sem estabelecer uma vida que seja baseada na mera convenção social. Aliás, provavelmente seríamos mais felizes em relações que não precisassem apenas seguir padrões. Na trama, a jovem vivida por Jessie Buckley está indo conhecer pela primeira vez os pais do namorado (Jesse Plemons), na isolada fazenda em que vivem. No caminho ela já está em dúvida sobre o futuro daquilo tudo: gosta do namorado, talvez até o ame. Mas, até quando? Com inegável pessimismo, o filme não pega leve na constatação de que a vida a dois não é garantia de felicidade. Pior, concebe a ideia de que a sensação de vazio estabelecida pelo avanço dos anos pode ser ainda mais dolorida quando estamos acompanhados. Nada, absolutamente nada, é definitivo, afinal.


E essa discussão toda sobre relacionamentos, permanência, afeto, longevidade, velhice, paixões e planos feitos ou desfeitos vem com uma bem organizada edição, que descortina na tela, primeiro, diálogos arrebatadores, cheios de referências e citações culturais, que podem ir de Guy Debord (escritor do atualíssimo A Sociedade do Espetáculo), passar por David Foster Wallace e chegar a filmes como Uma Mulher Sob Influência (1974) de John Cassavetes. As divagações sobre o mundo, as pessoas, o pessimismo que salta da tela em cada verso que constata a nossa incapacidade de conviver normalmente em sociedade, são não menos do que soberbas. Há algo na condução da narrativa que parece colocá-la sempre no limite de um sonho onírico e melancólico, em que a neve persistente dá conta do clima taciturno de abatimento que envolve aqueles que assistimos. Ao mesmo tempo, a propriedade grande e sombria em que boa parte do filme se passa, nos envolve num clima de assustadora opressão, como se alguma coisa séria, pesada, estivesse sempre pronta a acontecer - e mesmo um simples cachorro se chacoalhando por estar apenas molhado, pode ser um convite à tensão.

E há ainda as metáforas. Toneladas delas, aliás, saltando na tela o tempo todo. A gente não consegue ter a certeza exata do que significa tudo aquilo que assistimos, mas podemos inferir que, no geral, o que se descortina na nossa frente é o retrato de uma vida inteira. Com o que foi e com que poderia ter sido. Com os sonhos concretizados ou não. Há um zelador que aparece o tempo todo e que, simbolicamente, nos devolve para a realidade - e uma realidade que pode ser dura. Há uma ambiguidade do isso que poderia ser aquilo, como na parte em que a namorada parece se VER em um dos quadros que está na casa dos pais do namorado. Num universo de incertezas, há a forte tendência de que a gente busque se adequar a este ou àquele padrão, o que não evitará a frustração. Há caminhos no meio disso tudo? Sim, provavelmente há. E o que o filme parece nos sugerir é aquele que envolve escolhas que dialoguem exclusivamente com as nossas vontades reais. As nossas vontades. Não as dos nossos pais. Não a dos namorados, dos maridos, das esposas. As nossas vontades. Nós. Sendo nós mesmos. O que talvez nos permita ser a melhor versão de nós mesmos. Amenizando as dores futuras. E olhando com menos tristeza para o passado de sonhos nunca alcançados. E o que certamente melhorará uma possível vida a dois.

Nota: 9,5

sábado, 5 de setembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #19 - Filmes Superestimados

Vamos combinar que é inacreditável que um filme como Shakespeare Apaixonado (1999) que, hoje em dia ninguém mais sequer lembre da existência, tenha ganhado o Oscar de Melhor Filme naquele ano. Exagero midiático? Campanha bem sucedida na temporada de premiações? Ou apenas mais uma obra superestimada pela crítica? Bom, na história do cinema foram muitos os filmes que, talvez, tenham gerado um burburinho (ou um hype) um pouco mais exagerado do que verdadeiramente mereciam. E que talvez não fossem tuuuudo aquilo que se propagava. É claro que essa história não tem a ver apenas com os festivais: há aqueles filmes tão presunçosos que  talvez também merecessem esse "carimbo". Titanic (1997), por exemplo, merecia tantas estatuetas douradas? Donnie Darko (2001) é apenas uma bobajada viajandona? Mãe (2017) é confuso demais nos temas que pretende abordar? No episódio dessa semana o Henrique, o Bernardo e eu citamos outros exemplos de obras que mereciam apenas um "meeeenos, bem menos". Bora sabadar?


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Pérolas da Netflix - A Prima Sofia (Une Fille Facile)

De: Rebecca Zlotowski. Com Mina Farid, Zahia Dehar, Lakdhar Dridi, Nino Lopes e Clotilde Courau. Drama, França, 2019, 92 minutos.

Se tem uma coisa que o ser humano é especialista nesse mundo é em julgar o rabo alheio. No Brasil de Bolsonaro, então, nem se fala: aqui, a hipocrisia reinante fala mais alto, em um Governo que pretende tomar decisões sobre o corpo do outro, suas liberdades e vontades. Aliás, liberdade é uma palavra-chave para o ótimo A Prima Sofia (Une Fille Facile), filme despretensioso que estreou recentemente na Netflix. Exibido na quinzena dos realizadores do Festival de Cannes, é a típica "obra de amadurecimento". Na trama, Naïma (Mina Farid) é a jovem que, durante as férias escolares, recebe a bem resolvida prima do título em português (e que é encarnada de forma hipnotizante por Zahia Dehar). É verão, o clima é primaveril, as pessoas estão livres e dispostas e o que a diretora Rebecca Zlotowski faz, de alguma maneira, é mostrar que, na nossa vida, devemos ser apenas nós mesmos. E ser felizes. Sem julgamentos. Sem olhar o outro com preconceitos por não ser parte do padrão vigente.

Sofia é, ao cabo, um espírito "livre". E talvez seja um espírito mesmo: que assim como vem, vai, deixando marcas, influenciando vidas, modificando ideais. Eu diria até que a jovem, guardadas as proporções, é como aquele livro que a gente lê, desvenda, e que nos abre os horizontes. Nos desperta para que saiamos da letargia de nossos dias, em busca de algo mais palpável e que tenha significado para nós. Sofia, por exemplo, encara o sexo, o corpo, com naturalidade. Se utiliza dele, inclusive, para se aproximar de outras pessoas. Mas o corpo é dela, afinal. Ela decide. É ela que, aos poucos, mostrará isso para Naïma que, perto da prima, parece uma menininha que ainda não desabrochou. Que segue presa numa infância em que é paparicada pela mãe e que tem sonhos juvenis que são como as peças de teatro encenadas com o amigo Dodo (Lakdhar Dridi). E isso também não é problema, afinal de contas cada um tem seu tempo. E este não só pode, como deve ser respeitado.


É um filme sobre muitos "nadas" que significam bastante coisa - e a formação na juventude passa por muitas provações, muitas inseguranças a serem superadas e, quem vai mentir que nunca encarnou uma personagem daquilo que não era nessa fase da vida? Sensual, o filme tem na liberdade sexual uma forma de expressar suas intenções. E com cenas de transa reais, em que a conexão entre os corpos é um prazer, um deleite - diferentemente do que ocorre nas cenas de sexo de filmes hollywoodianos em que, invariavelmente, transar é um sofrimento. Aliás, a obra é toda sexy: de seus cenários quase paradisíacos, passando pelas enigmáticas sequências de flerte junto a barcos, até chegar as boates classudas e as praias aconchegantes. Na rotina dessa quinzena de férias, Sofia e Naïma se juntam para formar uma espécie de contraponto entre duas jovens: uma ambientada a uma vida hedonista, de luxo e de sexo e outra que tem a sua rotina abalada justamente por esse combo.

Diga-se de passagem, acredite, o público mais careta, mais conservador tem se queixado das liberdades tomadas pela película. Onde já se viu, afinal de contas, uma obra em que uma jovem curte, transa, vive a vida sem se preocupar com o futuro, família, filhos, carreira? Sim, é uma espécie de idílio nem sempre aceitável - e os consumidores da Netflix alegam não estar encontrando sentido na narrativa. Nesse caso, eu costumo ir na regra oposta: se a juventude anacrônica e lacradora não está gostando, há chance de estarmos diante de um bom filme. Aliás, a obra me fez lembrar outra, que foi tão criticada quanto esta, pelas cenas de nudez e pelas liberdades tomadas: Swimming Pool: A Beira da Piscina (2003), também de um diretor francês, no caso o ótimo François Ozon. Em ambos os casos há uma protagonista misteriosa, que parece saída de algum universo alternativo, mas que deixará profundas marcas naqueles que ficam. Viver a vida sem julgamentos, ser feliz, fazer aquilo que gosta. Me parece ser esse o recado de A Prima Sofia. Pena que os jovens da idade das protagonistas, não pareçam compreender isso.