quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Livro do Mês - Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas (Elvira Vigna)

É muito provável que poucos autores consigam dissecar a essência da escrotidão do macho hétero topzera como a Elvira Vigna, em seu Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas. Bom, antes de mais nada é preciso fazer um parêntese sobre o "palimpsesto" em si: eu nunca tinha ouvido essa palavra antes na vida e confesso que comprei o livro TAMBÉM pela excentricidade do título (sim, eu faço isso de vez em quando), quando o vi em uma lista publicada pela Revista Bula. Bom, no dicionário o palimpsesto é descrito como uma espécie de pergaminho que tem o seu conteúdo de origem raspado, para dar lugar a outro texto. No caso da obra de Elvira, o vocábulo surge como uma forma de definir o tipo de relação que duas pessoas completamente estranhas passam a ter, quando uma delas começa a fazer a outra uma série de relatos sobre encontros frequentes com prostitutas. Como num palimpsesto, as histórias e seus detalhes se sobreporão, formando um pequeno painel sobre a falência completa dos relacionamentos, bem como suas mentiras e jogos de poder.

Quem narra a história é uma designer de que não sabemos o nome. Contratada pra tentar dar um upgrade em uma editora que se encaminha para o processo de falência, conhece João nas tardes em que ele trabalha para informatizar o local. Em cada história ouvida pela nossa interlocutora - saídas diretamente de inferninhos, de prostíbulos de quinta categoria e de hotéis decadentes - os detalhes narrados com uma autoestima constrangedora, ainda que as pontas soltas (e que são realinhadas e ressignificadas pela protagonista), deem conta de desmantelar o suposto ar superior com que João desnovela seus relatos. Faltam detalhes, as tramas parecem contadas pela metade e é dessa forma que se sobressaem pequenas inseguranças em que a masculinidade frágil parece se espalhar com toda a sua força. João supre o vazio de seus dias em um casamento infeliz comendo putas. Andando pelo submundo, num comportamento quase paranoico do ponto de vista sexual. Pensa estar no comando ao pagar alguém para transar com ele. Não está.


João se sente a vontade para contar as histórias para a sua colega designer, porque ela mora com uma prostituta de nome Mariana - um tipo de arranjo provisório que desafoga as despesas de ambas. Ele está separado no momento, mora em um pequeno apart hotel e acredita que a "amiga", por morar com Mariana, está familiarizada com o tema. Não está. Não fala que não está e faz pouco para mudar esse contexto. Apenas ouve as histórias. E ouve mais um pouco. Tece algumas análises perspicazes e até eventualmente existencialistas sobre a relação homem x mulher. Utiliza algumas referência culturais - como é o caso da Eneida, do poeta Virgílio -, para estabelecer alguns paralelos com aquilo que escuta. E utiliza metáforas consolidadas, como aquela que compara as "carnes no açougue", com os corpos expostos em um prostíbulo, seus peitos, suas coxas e suas bundas. É uma obra que não faz concessões, tratando com naturalidade estonteante a temática do "sexo pago" e do universo masculino em redor dele.

Com um textos cheio de frases curtas, fragmentadas, o estilo de Elvira é urgente e denso, mas ao mesmo tempo divertido, conciso. Com uma série de frases de efeito, utiliza as idas e vindas no tempo de forma fluída para construir uma colcha de retalhos em que ainda aparecem outras personagens, como a transexual Lurien e Lola - vizinha e ex-mulher de João respectivamente. Lola tem papel importante em uma espécie de reviravolta que alterna a noção de "poder" estabelecida entre os sexos - e que o terno bem cortado de João não dá conta. Nesse sentido a história pode também ser considerada debochada na análise do suposto predatismo do homem moderno, que busca compensar e deslocar ausências afetivas que lhe atingem em outras esferas. Nunca havia lido um livro da Elvira Vigna - que nos deixou cedo, vítima de um câncer de mama em 2017, com apenas 69 anos. Mas este pode ser a porta de entrada para o contato com outros títulos, como o elogiado O Que Deu Para Fazer em Matéria de História de Amor - aliás, mais um livro com título instigante.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Novidades em Streaming - Tame Impala (Disco)

Acho que com o lançamento de The Slow Rush, novo disco dos australianos do Tame Impala, podemos dizer que, oficialmente, o ano musical começou, já que trata-se do primeiro grande álbum a chegar ao mercado nesse primeiro semestre. Nas primeiras audições, a constatação de uma pequena diferença nas canções, que mantêm as emanações psicodélicas setentistas (uma das marcas registradas), as distorções e o colorido onírico, mas também se aproxima (ainda mais) da sonoridade oitentista, especialmente no apuro do uso dos sintetizadores. Isso talvez signifique um pouquinho menos de hermetismo, o que poderá atrair novos ouvintes, que porventura ainda não conheçam o coletivo comandado por Kevin Parker. Aliás, uma boa porta de entrada pode ser o single Borderline que, com sua letra melancólica (Eu serei conhecido e amado? / Há alguém em quem possa confiar?) e seu refrão grudento, nos pegam para não soltar mais.


Novidades em DVD/Now - Ford vs Ferrari (Ford vs Ferrari)

De: James Mangold. Com Matt Damon, Christian Bale, John Bernthal e Josh Lucas. Drama / Biografia, EUA, 2019, 153 minutos.

No começo dos anos 60, a empresa Ford se via numa espécie de encruzilhada: com a venda de seus "comportados" automóveis em baixa, precisava de alguma ideia inovadora que pudesse representar um upgrade que evitasse a falência que parecia se aproximar. Algo que desse visibilidade, que atraísse o público e que oxigenasse efetivamente a fabricante do Mustang e do Fiesta. Foi nessa época que um de seus executivos teve a ideia de levar a Ford para o universo do automobilismo, das corridas - que, na época, eram dominadas por uma certa Ferrari, que vinha de uma imponente sequência de vitórias em provas tradicionais do período, como as famosas 24 Horas de Le Mans. Tentar bater a escuderia capitaneada por Enzo Ferrari se tornou uma verdadeira obsessão para a segunda geração da família Ford. E é justamente essa a história, com todas as suas licenças poéticas, que é contada no ótimo Ford vs Ferrari (Ford vs Ferrari), mais recente película do diretor James Mangold (Johnny & June e Os Indomáveis).

Indicada ao Oscar na categoria máxima - acho que foi uma certa surpresa até pra equipe do filme -, a obra é uma mistura de história de superação com drama familiar, daquelas que costuma cair facilmente no gosto do espectador. Christian Bale é o mecânico metido a piloto Ken Miles, um sujeito meio esquentadinho que não hesitará em usar de certa violência (como na cena em que ele arremessa uma chave de boca na direção de outra personagem), para tentar provar seu ponto de vista. Já Matt Damon é o promissor piloto Carrol Shelby, que vê a sua carreira interrompida precocemente por conta de problemas cardíacos. Bom, serão essas duas figuras distintas que serão recrutadas por um grupo de gestores da Ford - entre eles o irritante playboyzinho Leo Beebe (Josh Lucas) -, para tentar dar essa repaginada na cara meio quadrada da Ford. Bom, não é preciso ser muuuito ligado para saber que serão justamente as diferenças de personalidade entre todos, somada as dificuldades gerais do projeto, que farão com que tenhamos, de fato, um filme. E um bom filme, diga-se.


Pra começo de conversa a história é toda muito bem costurada - e não é por acaso que o filme venceu a categoria Montagem no Oscar (em trabalho dos montadores Andrew Buckland e Michael McCusker). Tanto que mesmo que tenha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo - a aposentadoria de Shelby e o investimento em outra fonte de renda, s problemas financeiros e familiares de Miles, o dilema dos empresários da Ford e até a empáfia dos executivos da Ferrari -, tudo vai se intercalando de forma organizada, até chegarmos no estágio em que todos trabalharão juntos, no simples intuito de tornar a Ford uma vencedora de Le Mans. O que envolverá, claro, o descrédito de Miles pelo seu temperamento, uma série de disputas internas, alguma lamentação e muitas cenas legais de corrida, com direito a suor, lágrimas, sangue, carros desgastados, pistas perigosas e tudo o mais. É a obra completa - e fãs de filmes de "corrida" ficarão genuinamente extasiados. E mesmo este jornalista que vos tecla, que não gosta desse esporte, se viu envolvido!

Com ótimas interpretações - Christian Bale dispensa comentários, Matt Damon está ok e Jon Bernthal (o Shane de Walking Dead) finalmente não faz o "porra louca" -, a obra talvez só erre um pouquinho no tom ao vilanizar demais a Ferrari (seus executivos e pilotos sempre surgem em tela com cara de poucos amigos, nada amistosos, com aquele sangue nozóio meio exagerado). Mas ainda será uma obra que diverte, nos deixa apreensivos e ainda reserva uma pequena surpresinha para o final, que quebra um pouco a expectativa por trás do supostamente desejado "final feliz" para tornar tudo ainda maior. Sim, a gente sabe que a indicação ao Oscar foi um prêmio de consolação - houve ainda o prêmio para a Edição de Som -, mas James Mangold sabe conduzir bem uma história e o faz de forma correta, livre de amarras, trazendo personagens carismáticos, complexos e que nos faz gostar deles não por sua ética simplesmente inabalável, mas por eles serem apenas... humanos (que erram, acertam e tentam de novo). E se eu pudesse mudar só uma coisinha eu tiraria aquela ceninha mequetrefe da "briga" entre os protagonistas. É completamente deslocada e tenta fazer humor onde não parece existir graça. Mas é um deslize que, de forma alguma compromete!

Nota: 8,0

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Curta Um Curta - Nefta Football Club

Nefta Football Club pode até não ter ganho o prêmio do Oscar na categoria Curta Live Action (perdeu para Neighbor's Window), mas por ser tão divertido e inacreditavelmente surpreendente merece ser conferido. Na história dois garotos encontram uma mula perdida no meio do deserto, com fones de ouvido (que tocam uma música da Adele) e uma carga bastante suspeita. Enquanto dois homens debatem sobre o fato de terem perdido o anima de vista, os dois meninos levarão parte do material que está com ele. Verdadeira homenagem ao futebol e a ingenuidade das crianças, a película de estréia do diretor francês Yves Piat tem ótima trilha sonora, belíssima condução de câmera e um roteiro meio inesperado, que torna o desfecho ainda mais engraçado. No Youtube é possível assistir com legendas em inglês - e mesmo quem não é tão expert assim na língua americana, captará a essência do filme. Vale clicar!

Novidades em DVD/Now - Link Perdido (Missing Link)

De: Chris Butler. Com Hugh Jackman, Zoe Saldana, Zach Galifianakis, Emma Thompson e Timothy Oliphant. Comédia / Aventura, Canadá / EUA, 2019, 94 minutos.

Eu sempre achei que filme em stop motion deveria ser "isento de crítica". Sim, por que tentem imaginar vocês a trabalheira que deve dar para fotografar mais ou menos uns três trilhões de quadros para, depois, juntar cada frame um no outro, com a intenção de transformar isso em uma obra de uma hora e meia. Com sentido. Com detalhamento. Com lógica. Só a ideia de uma película com essa técnica, já concede na ARRANCADA a aprovação pro material. Bom, o Estúdio Laika, pródigo na produção de filmes nesse padrão - é dele os ótimos (e sombrios) Coraline (2009) e Paranorman (2012)  , é a desenvolvedora deste Link Perdido (Missing Link) que faturou o Globo de Ouro em sua categoria, deixando para trás as duas grandes obras da Disney (Frozen 2 e Toy Story 4). Para muitos uma surpresa, especialmente pelo fato de a recepção da crítica ter sido meio morna e a bilheteria não ter empolgado tanto assim.

Bom, a gente sabe que o Globo de Ouro não é lá muito padrão pra alguma coisa, mas Link Perdido tem alguns méritos, especialmente no que diz respeito ao sempre relevante debate sobre respeito às diferenças. Na jornada do herói, o investigador de mitos e monstros Lionel Frost (Hugh Jackman), também é possível reconhecer o amadurecimento de quem, nunca tardiamente, percebe as suas falhas, comprometendo-se a melhorar como ser humano. São mensagens simples, quase prosaicas mas que, embaladas em uma animação simpática e de fácil compreensão, certamente se encaixarão direitinho para o público ao qual se destina o filme (crianças de 11 ou 12 anos). Para os adultos uma oportunidade de se maravilhar com uma animação que atinge o padrão de excelência no stop motion - que começou láááá atrás, com A Fuga das Galinhas (1995) -, que faz uma mescla com computação gráfica, que torna o resultado soberbo. E há ainda um ou outra piadoca mais "sapeca".


Na trama, como já citado, Jackman é o investigador de mitos que não é levado a sério pelos seus pares. Existe um grupo exclusivo - meio que uma maçonaria de grandes caçadores de monstros -, da qual Frost deseja fazer parte a todo o custo. A oportunidade de ouro surge quando o próprio Pé Grande (Zach Galifianakis) em "pessoa", lhe manda uma carta. Sem saber, o protagonista se envolverá em uma grande aventura que lhe levará até Katmandu, no Nepal, na tentativa de encontrar o Abominável Homem das Neves - que o Sasquatch acredita que possa ser um tipo de "parente distante" (ele está só, afinal). Claro que é tudo desculpa para que tenha início uma série de perseguições de rivais com interesses escusos - entre eles um caçador de recompensas (Timothy Oliphant) e de uma série de situações divertidas na tentativa de chegar ao destino. Na jornada, se juntará ainda a ex-aventureira Adelina (Zoe Saldana).

É uma boa animação? É. Vai mudar o mundo? Não, definitivamente não vai. Especialmente pelo fato de faltar um pouquinho mais de profundidade para os temas importantes que são abordados apenas de passagem - e, talvez nesse quesito, as obras da Pixar estejam realmente nos deixando mal acostumados. Ainda assim, as cenas de ação são realmente tensas e bem construídas - consegui ficar verdadeiramente apreensivo em uma sequência envolvendo a possível queda dos personagens de uma ponte muito alta no terço final! Tudo isto não foi suficiente para uma vitória em sua categoria na noite do Oscar (o ganhador foi Toy Story 4). Mas que a vitória no Globo de Ouro foi um belo "prêmio de consolação", isso não podemos negar.

Nota: 7,0

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Cinema - Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy)

De Rupert Goold. Com Renée Zellweger, Rufus Sewell, Jessie Buckley e Finn Wittrock. Drama / Musical, Grã Bretanha / Irlanda do Norte, 2019, 118 minutos. 

Quando ganhou o Globo de Ouro no começo desse ano, Renée Zellweger brincou com os presentes ao dizer que estava feliz em reencontrar todo mundo "dezessete anos depois". Bom, não é que a atriz tenha parado completamente, mas foi quase isso - especialmente após problemas relacionados à depressão e ao preconceito da indústria pelo fato de ela, a certa altura da carreira, estar acima do peso. Nesse sentido, a entrega a uma performance inesquecível em Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy), talvez seja mais um daqueles casos de "vida imitando a arte", ou vice e versa. No filme vemos uma Judy Garland já veterana, tentando dar um novo rumo para a sua carreira em Londres - os ingleses sempre foram muito apaixonados por ela. Mas Garland, assim como muito provavelmente a própria Renée, precisava superar a insegurança, a baixa autoestima e a necessidade (inclusive financeira), que praticamente lhe obrigava a TER QUE dar certo.

E talvez tudo isso explique a entrega comovente da atriz na hora de encarnar uma figura tão icônica. Muito mais econômica nos trejeitos e tiques que em algum momento foram a sua marca registrada (eu sempre achei aquele Oscar por Cold Mountain meio exagerado), Renée vira uma Judy Garland capaz de ser pequena (ela era baixinha, com 1,51 de altura) e grande ao mesmo tempo (no palco a transformação era imediata). Seu comportamento intempestivo, seu gestual repleto de inflexões com a cabeça e olhares surpreendidos, sua voz marcante, tudo está lá, em um trabalho claramente estudado e profissional acima de tudo. E, como se já não bastasse a interpretação que não é só de corpo, é também de alma, Renée ainda tratou de cantar todas as canções - e a reinterpretação que ela faz do maior clássico de Garland, Over The Rainbow, quase a final do filme, é daquelas para ficar marcada na memória de qualquer cinéfilo.


A trama em si tem um bom componente de bastidores da indústria, com esta surgindo como uma grande vilã. Impedida de comer aquilo que gosta ou de simplesmente se atirar em uma piscina se assim tiver vontade, Garland cresceu sendo entupida de comprimidos reguladores de apetite e emagrecedores porque estava descartada a hipótese de ela engordar (lembram do preconceito com Renée). Em uma vida de privações e de sucesso, Garland vê sua carreira entrar em declínio e desmoronar após os 40 anos - aliás, algo que é bastante comum na máquina recicladora de astros que é Hollywood (sempre ávida pelos mais novos rostinhos bonitos que servirão para gerar bilheteria e rios de dinheiro). Sem grana para sequer pagar um hotel ou uma moradia para seus filhos, a atriz entrará em choque com o ex-marido Sidney Luft (Rufus Sewell), que pedirá a guarda das crianças - o que motivará Judy a tentar um recomeço para a sua carreira na Europa.

Cheio de idas e vidas no tempo, o filme do diretor Rupert Goold intercalará imagens da juventude da promissora estrela (em um universo colorido, quase de sonho), com o clima frio, acinzentado da atualidade, com a atriz lutando para ser novamente reconhecida, em um ambiente que parece pronto a lhe engolir por qualquer deslize que seja. E por mais que a obra seja essencialmente "musical" (o que é inevitável), trata-se de uma narrativa sobre solidão, sobre persistência e sobre a tentativa de dar a volta por cima (e talvez esse clima meio "autoajuda" do roteiro tenha desagradado alguns críticos, bem como o excessivo endeusamento de sua biografada, que aparece como uma figura facilmente manipulável e com poucos desvios de caráter). Ainda assim, especialmente pela entrega de Renée (que anteontem ganhou seu justo Oscar), não há como apagar o brilho que se sobressai de uma obra dessas: bem conduzida e bem editada, fotografada com certo glamour e riquíssima do ponto de vista musical. Vale conferir.

Nota: 7,5

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Oito Considerações Sobre o Oscar 2020

O Oscar foi ontem no final da noite e ele segue rendendo conversa no dia seguinte a premiação. Seguem as nossas considerações!


1) Acho que não há quem não tenha ficado surpreso, maravilhado, feliz, com a vitória de Parasita - que desbancou o favorito 1917. A celebração à obra sul coreana, que faturou o prêmio máximo da noite, representa uma quebra de paradigma histórica, já que jamais um filme estrangeiro havia vencido na categoria Melhor Filme. E isto pode representar uma abertura de "portas" para a produção estrangeira, com a Academia cada vez mais prestando atenção naquilo que se faz no cinema, ao redor do mundo. O próprio diretor Boon Jong-ho já havia brincado sobre isso ao vencer o Globo de Ouro ao dizer a já histórica frase "quando vocês superarem a barreira das legendas, descobrirão filmes incríveis". Pois é, pode ser o começo!

2) E se Parasita foi o grande vencedor da noite - foram quatro estatuetas (além de Filme, Filme Estrangeiro, Diretor e Roteiro Original) -, O Irlandês foi o maior derrotado: saiu de mãos abanando, a despeito das 10 indicações ao Oscar, em nove categorias distintas.

3) No mais foi um Oscar sem muitas surpresas, com as premiações sendo divididas entre vários filmes. Jojo Rabbit, por exemplo, pegou Roteiro Adaptado. Já Ford v. Ferrari, Montagem e Edição de Som. Adoráveis Mulheres, Figurino. Era Uma Vez em Hollywood, Ator Coadjuvante (Brad Pitt) e Desenho de Produção. E por aí vai. Se alguém deve ter se sentido derrotada nesta edição, certamente foi a equipe de 1917, que até ganhou prêmios técnicos, mas imaginava alçar voos mais altos, certamente.

4) Sobre as categorias de interpretação foram a barbada da noite, no Bolão, já que até aquele seu vizinho que não dá muita bola pro Oscar, sabia que Joaquin Phoenix (por Coringa) e Renée Zellweger (por Judy), faturariam o prêmio. Sobre Phoenix, havia uma grande expectativa pelo seu discurso - tem sido a marca registrada dele, na temporada -, e apesar de se embolar em meio a vários assuntos, acho que valeu a pena. Em sua fala, valorizou a oportunidade dada pela indústria de usar a voz para os que não têm voz. "Acho que às vezes sentimos ou somos feitos para sentir que defendemos causas diferentes. Eu acho que, se estamos falando de desigualdade de gênero, racismo ou direitos LGBTQI, direitos indígenas ou direitos dos animais, estamos falando sobre a luta contra a injustiça", enfatizou, para aplausos de todos.


5) Não deu pra Petra Costa que fez uma campanha bonitaça, levando ao conhecimento do mundo a história sobre o Golpe no Brasil, que resultou no maravilhoso documentário Democracia Em Vertigem. Ganhou o favorito Indústria Americana, que tem uma história sobre a importância da sindicalização em meio ao enfraquecimento de direitos trabalhistas (e os minions ficaram tão preocupados em celebrar a derrota do filme brasileiro, que nem perceberam que o vencedor é tão ou mais esquerdista/comunista/marxista ou outra alcunha que eles queiram dar, quando o Democracia).

6) Foi uma cerimônia leve, com ótimo andamento e bastante musical. Além das apresentações das canções originais - e adorei que o Elton John ganhou -, também houve a participação especialíssima de Eminem (cantando Lose Yourself) e da estrela Billie Eilish (cantando Yesterday dos Beatles, durante o In Memorian). E, falando em quebra de paradigmas, houve mais uma neste ano, quando a maestrina Eímear Noone apareceu para conduzir a orquestra que tocou cada um dos trechos das trilhas sonoras originais. Acreditem: em 92 anos de Oscar, nunca uma mulher havia conduzido a orquestra.

7) No mais, o clima de bom humor também dominou a cerimônia e confesso que me diverti bastante com Chris Rock e Steve Martin que fizeram um mini monólogo de abertura e brincaram com o fato de de terem gostado, por exemplo, da primeira temporada de O Irlandês.

8) E deixo aqui um último pitaquinho: procurem assistir os indicados nas categorias de Curta. Quaisquer deles. Tem cada achado que vale muito a pena. Como é o caso de Hair Love, que faturou a estatueta de Melhor Curta de Animação.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Especial Oscar 2020 - Nossas Apostas

E eis que chegou o grande dia do Oscar 2020. Após uma pequena maratona e um esforço para assistir a grande maioria dos filmes indicados - inclusive os curtas - eis a nossa relação de quem a gente acha que ganha e de quem a gente gostaria que ganhasse! Hora de colocar o Bolão em dia!


FILME

Na categoria máxima, as prévias mostram que a disputa está mesmo entre 1917 e Era Uma Vez em Hollywood, com a produção comandada por Sam Mendes levando uma ligeira vantagem - especialmente por ter faturado o PGA Awards, o Bafta e o Globo de Ouro. Nas bolsas de apostas a obra de Quentin Tarantino surge como uma possibilidade por ter vencido o Satellite Awards e o Critics Choice (além do fato de o diretor jamais ter vencido a principal premiação do Oscar, o que poderia acontecer agora, próximo de sua tão anunciada aposentadoria). Correndo por fora, o surpreendente Parasita tem ganho força pelas vitórias em premiações menores como as dos críticos de Chicago, de Boston e de Londres por exemplo. Qualquer coisa diferente desses três pode ser considerado uma ZEBRAÇA.

Quem gostaria que ganhasse: Parasita
Quem ganha: 1917

DIRETOR

Após vencer o DGA Awards - a premiação dos diretores -, Sam Mendes dá um pulo na frente dos demais e deve, muito provavelmente, levar o carecão dourado para casa por conta de seu trabalho tecnicamente impecável em 1917. Tarantino e Joon-ho Bong se espalharam em premiações menores e periféricas e correm por fora. O primeira é um veterano em indicações, ainda que nunca tenha faturado a estatueta como diretor. Já o coreano transformou seu Parasita em um objeto de adoração e a indicação acaba sendo um "prêmio de consolação".

Quem gostaria que ganhasse: Quentin Tarantino, por Era Uma Vez Em... Hollywood
Quem ganha: Sam Mendes, por 1917

ATOR

Aqui não aprece haver nenhum dúvida: Joaquin Phoenix é unanimidade por sua caracterização em Joker e deve ser aclamado com o Oscar, depois de passar o rodo nas premiações prévias (como o Sag, o Bafta e o Globo de Ouro, entre outras). Bom, e sobre o Adam Driver, ele até fez um belo trabalho com seu papel em História de Um Casamento, mas deve assistir apenas assistir ao Joaquin ganhar.

Quem gostaria que ganhasse: Joaquin Phoenix, por Coringa
Quem ganha: Joaquin Phoenix, por Coringa

ATRIZ

Falando em favoritas, aqui está mais uma categoria que não parece haver muitas dúvidas: a crítica está babando pela entrega comovente de Renée Zelweger, no papel de uma Judy Garland já decadente e, Judy - e não deem bola para o que a crítica tem falado, já que trata-se de uma grande obra! Após vencer praticamente todas as prévias (entre elas o Globo de Ouro e o SAG Awards), Renée deverá voltar a receber a estatueta dourada - ela já tinha ganho como Coadjuvante por Cold Mountain, em 2004. Sobre as demais concorrentes? Não, ninguém tem chance.

Quem gostaria que ganhasse: Scarlett Johansson, por História de Um Casamento
Quem ganha: Renée Zellweger, por Judy

ATOR COADJUVANTE

Essa é uma categoria que tá cheia de gente legal no páreo e deverá levar os votante do Bolão à loucura. Mas ainda assim, quem salta na frente como um provável favorito é o Brad Pitt, por ter ganho prévias importantes, como o SAG Awards. Joe Pesci e Al Pacino correm por fora por seus papéis em O Irlandês e Anthony Hopkins (Dois Papas) e Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança) tiveram a nominação como prêmio de consolação.

Quem gostaria que ganhasse: Brad Pitt, por Era Uma Vez em Hollywood
Quem ganha: Brad Pitt por Era Uma Vez em Hollywood

ATRIZ COADJUVANTE

Mais uma barbada da noite, já que a Laura Dern tem passado o rodo nas prévias, por seu papel em História de Um Casamento. E, aqui, há um componente a mais: é apenas a terceira indicação da atriz, a despeito da sua inegável entrega - o que pode ser a chance de ouro para a Academia lhe consagrar. A única que pode tirar a sua vitória é Scarlett Johansson, pelo trabalho em Jojo Rabbit. E eu, particularmente, adoraria ver a Florence Pugh ganhar.

Quem gostaria que ganhasse: Florence Pugh, por Adoráveis Mulheres
Quem ganha: Laura Dern, por História de Um Casamento

ROTEIRO ORIGINAL

Essa é a minha categoria preferida e muito provavelmente Parasita salta um pouquinho frente, por ter vencido o WGA Awards - o prêmio do Sindicato dos Roteiristas (além de sr um roteiro originalíssimo, claro!). Mas há uma particularidade aqui: por não integrar o Sindicato, Tarantino não concorreu neste ano, nesta categoria e ele corre por fora, após ter vencido o Globo de Ouro e diversas outras premiações -  como o Critics Choice. Ou seja: tudo pode acontecer!

Quem gostaria que ganhasse: Parasita
Quem ganha: Parasita

ROTEIRO ADAPTADO

Por ter vencido o WGA, Jojo Rabbit deve ter este como um belo prêmio de consolação na noite do Oscar. Mas o sempre adaptado Adoráveis Mulheres tem feito uma campanha forte, tendo faturado premiações periféricas como o Critics Choice (além de ser de fato uma adaptação que, dizem, chega a MELHORAR o original). O resultado disso tudo é que é difícil cravar quem ganha. Mas a gente tenta! E acredita que o peso político de Jojo também possa o favorecer.

Quem gostaria que ganhasse: Jojo Rabbit
Quem ganha: Jojo Rabbit

FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Parasita foi simplesmente indicado em seis categorias do Oscar, entre elas Filme, Diretor e Roteiro Original - algo raríssimo para um filme estrangeiro. Isso o credencia como a maior barbada da noite, no Bolão - no site Termômetro Oscar ele aparece com 99% de chances de vitória! Pode colocar sem erro.

Quem gostaria que ganhasse: Dor e Glória (isso por que coloquei o desejo de que Parasita ganhasse a principal categoria da noite, lá em cima)
Quem ganha: Parasita

ANIMAÇÃO

Existe um prêmio que se chama Annie Awards que é o maior termômetro para esta categoria, e ele foi vencido pelo belíssimo Klaus - o que lhe coloca automaticamente como o favorito. Ainda que não tenha vencido a premiação máxima do Annie, o experimental Perdi Meu Corpo - o meu preferido -, venceu outras categorias da premiação (entre eles Melhor Longa Independente), o que lhe mantém em alta cotação para tentar pegar o carecão dourado. E o que dizer de Toy Story 4, que até poucos dias era o preferido? E o Link Perdido que faturou o Globo de Ouro? Bom, digam vocês. Eu já não sei mais nada.

Quem gostaria que ganhasse: Perdi Meu Corpo
Quem ganha: Klaus

DOCUMENTÁRIO

A gente bem que deseja com todas as forças que o Democracia Em Vertigem leve a estatueta pra casa mas, apesar da bela campanha e do falatório nas redes, é muito provável que o prêmio fique nas mãos da produção da Netflix Indústria Americana (que ainda não vi) e que venceu 16 prêmios dos 57 a que foi indicado (entre eles o do Festival de Sundance). Mas isso não nos impedirá de torcer. Com todas as forças.

Quem gostaria que ganhasse: Democracia Em Vertigem
Quem ganha: Indústria Americana

DIREÇÃO DE ARTE

Eu fiquei simplesmente embasbacado com a Direção de Arte de 1917 e tô torcendo pra que seja o vencedor, ainda que as prévias sugiram uma espécie de empate técnico com Era Uma Vez em Hollywood e Parasita, que ganharam nas categorias Filme de Época e Filme Contemporâneo, respectivamente, no ADG Awards, que premia os diretores de arte. O filme do Tarantino tem uma série de outros pequenos prêmios nesse setor, enquanto 1917 se segura no sempre relevante Bafta.

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: Era Uma Vez em Hollywood

FIGURINO

Vamos combinar que o figurino de Adoráveis Mulheres realmente é um dos destaques, o que o coloca em vantagem - também por ter ganho premiações no setor, como Bafta. Já o Jojo Rabbit ganhou o prêmio do Sindicato dos Figurinistas - sim, isso existe - na categoria Filme de Época, que, sabe-se lá por que, o Adoráveis não tava nem concorrendo. Já o Era Uma Vez em Hollywood corre por fora.

Quem gostaria que ganhasse: Adoráveis Mulheres
Quem ganha: Adoráveis Mulheres

MAQUIAGEM

O Escândalo foi o vencedor no Make-Up Artists and Hair Stylists Guild Awards, o que o coloca em vantagem - e a transformação, especialmente do ator John Lithgow, realmente se sobressai. Judy e Coringa correm por fora, mas não devem levar.

Quem gostaria que ganhasse: O Escândalo
Quem ganha: O Escândalo

FOTOGRAFIA

É sempre uma categoria disputada, mas o trabalho feito por Roger Deakins em 1917, deve ser consagrado (e as pilhas de premiações prévias comprovam essa teoria). Coringa corre por fora e seria uma boa surpresa.

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: 1917

EDIÇÃO

Parasita e Jojo Rabbit faturaram o Eddie Awards, nas categorias Edição em filme de Drama e de Comédia respectivamente. Ainda assim há quem acredite que essa categoria possa representar a oportunidade de dar ao ótimo Ford v. Ferrari um prêmio de consolação (a obra faturou o Bafta e o Satellite Awards nessa categoria). É meio imprevisível.

Quem gostaria que ganhasse: Ford v. Ferrari
Quem ganha: não faço a mínima ideia!

EFEITOS VISUAIS

Taí uma categoria que não dei muita bola nesse ano - aliás, quase nunca dou. Acho que o Vingadores ganha pelo apelo da série (não vi o filme).

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: Vingadores Ultimato

CANÇÃO ORIGINAL

Numa categoria que tem uma música original do Elton John, no filme que é o maior injustiçado do Oscar, acho que não há mais muito o que se falar, né? Ainda mais depois de já ter faturado o Globo de Ouro. Superação: O Milagre da Fé? Frozen 2? Não, né?

Quem gostaria que ganhasse: (I'm Gonna) Love Me Again, de Rocketman
Quem ganha: (I'm Gonna) Love Me Again, de Rocketman

TRILHA SONORA ORIGINAL

Mais uma categoria que coloca frente a frente 1917 e Coringa - mas a trilha que se sobressai MESMO é a do filme capitaneado por Joaquin Phoenix (ainda mais depois do Globo de Ouro, do Bafta e de outros prêmios nas prévias).

Quem gostaria que ganhasse: Coringa
Quem ganha: Coringa

EDIÇÃO DE SOM

Pelos prêmios no Sindicato dos Editores de Som, Ford v. Ferrari e 1917 tem vantagem. Mas como o filme de Sam Mendes é tão arrebatador na parte técnica, deve levar a estatueta.

Quem gostaria que ganhasse: 1917
Quem ganha: 1917

MIXAGEM DE SOM

Aqui, foi a vez de Ford v. Ferrari faturar o prêmio dos mixadores de som - e como 1917 sequer concorria, acho que a obra de James Mangold tem vantagem nessa.

Quem gostaria que ganhasse: Ford v. Ferrari
Quem ganha: Ford v. Ferrari

CURTA METRAGEM

As categorias de curta costumam ser aquelas que desempatam o bolão, então a gente arrisca alguma coisa aqui só pra se divertir, sem muito parâmetro. Como Brotherhood foi a única que não vi, vou deixá-la de fora das minhas escolhas. Por ser inacreditavelmente divertido, Nefta Football Club é o meu preferido, mas o bicho pega MESMO em A Sister e Saria (são temas pesados, em ambas).

Quem gostaria que ganhasse: Nefta Football Club
Quem ganha: A Sister

CURTA DE ANIMAÇÃO

Acho que o meu preferido continua sendo o Kitbull, mas o que tem o melhor tem - o Mal de Alzheimer - e a técnica mais desafiadora é o francês Mémorable (que talvez por estes predicados seja o favorito).

Quem gostaria que ganhasse: Kitbull
Quem ganha: Mémorable

DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

Dos três que vi o que mais me arrebatou foi o inacreditável In The Absence (apesar de não ser tão perfeito do ponto de vista técnico). Já Life Overtakes Me vem com a moral de ser uma obra redondinha feita pela Netflix. Learning to Skateborad (In a Wardone) tem tema pesado e parece ser a favorita (mas não vi). Então, tudo é chute.

Quem gostaria que ganhasse: In the Absence
Quem ganha: Life Overtakes Me

E pra vocês? Já fizeram as suas apostas? Fala pra gente quem ganha o quê e quem vocês gostariam que faturasse o Oscar! E, boa premiação para todos nós!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Curta Um Curta - A Vida Em Mim (Life Overtakes Me)

Entre as doenças modernas que afetam a mente humana é provável que poucas sejam mais misteriosas do que a "Síndrome da Resignação". Não sei vocês, mas eu nunca tinha ouvido falar desse mal, que costuma afetar um nicho bastante específico: o dos filhos de refugiados sírios que tentam se restabelecer na Suécia, após uma série de ameças que resultam em traumas certamente difíceis de lidar. Por meio da Síndrome - e há pouquíssimas informações sobre a doença -, as crianças entram em uma espécie de estado catatônico, seguido de sono profundo (como se estivessem em coma). Seguem vivas, se alimentam e se movimentam com a ajuda dos pais - que também sofrem, claro -, mas permanecem como se estivessem congeladas, em uma situação que pode durar meses ou até anos. A angústia das famílias e as tentativas da medicina e da psicologia na busca pela cura, são mostradas no curta-metragem documental A Vida Em Mim (Life Overtakes Me), que está disponível na Netflix e está indicado ao Oscar em sua categoria. Urgente, triste e enigmático, o filme sobre o absurdo da guerra e de políticas excludentes e xenófobas, que podem estar diretamente ligadas aos casos.

Picanha.doc - Honeyland (Land Des Honigs)

De: Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska. Documentário, Macedônia / Turquia, 2018, 89 minutos.

É muito provável que vocês, leitores do Picanha, já tenham ouvido falar a respeito da importância das abelhas no mundo - e sobre como estaríamos condenados à extinção, caso estes pequenos insetos simplesmente deixassem de existir. E, em muitos locais, eles têm deixado MESMO de existir - seja pelo excesso do uso de agrotóxicos (o principal motivo), pelas queimadas ou até mesmo pelo manejo inadequado de colmeias, com enxames inteiros morrendo - inclusive de fome. Bom, ainda que não seja assim tão explícito, o documentário Honeyland (Land Des Honigs) utiliza como microcosmo um local remoto da Macedônia para fazer um pequeno recorte sobre o quão prejudicial pode ser o comportamento predatório, na hora de exercer o ofício de apicultor. Trata-se de uma obra singela e contemplativa, que valoriza a comunhão do homem com a natureza e a importância do equilíbrio para a manutenção dos ecossistemas. Aliás, os mesmos ecossistemas que serão polinizados pelas abelhas.

Na trama acompanhamos a jornada de uma mulher de meia idade de nome Hatidze, que mora em uma região isolada com a mãe - uma idosa de 85 anos comoventemente doente. A rotina de Hatidze se divide entre os cuidados com a mãe e o trabalho como apicultora. Com colmeias espalhadas em locais estratégicos, ela faz o manejo de inverno respeitando um dos preceitos para a sustentabilidade dos enxames: ela retira apenas metade do mel, deixando a outra metade para as abelhas sobreviverem. O produto colhido, ela vende em feiras de Sofia, na Bulgária, por valores que podem chegar a até 20 euros. "É um mel puro, sem mistura e que faz bem pra saúde", garante. Bom, por mais sofrida que a vida seja neste contexto, ela se modificará completamente com a chegada de um casal de vizinhos e seus seis filhos, que se instalarão em uma propriedade próxima. Criadores de gado, farão amizade com Hatidze, que ensinará ao pai da família sobre a arte da apicultura.


Só que o homem tem seis filhos. Precisa dinheiro. Tem muitas bocas a alimentar. Adota a produção de mel como uma alternativa - especialmente depois de surgir um comprador disposto a adquirir uma grande quantidade do produto -, mas se atravessa na hora de fazer o manejo: antecipa a colheita e, com falta de comida para as próprias abelhas, acaba matando os seus enxames e também os de Hatidze. E assim fica estabelecido o conflito. Mas de uma forma tão sutil e introspectiva, que a gente quase nem percebe. Incapaz de brigar com os vizinhos - Hatidze faz amizade com um dos filhos adolescentes do casal -, a protagonista adota uma postura resignada diante dos fatos. E se apoia na idosa mãe, que acredita na intervenção divina para a resolução do caso - e, claro, ela não tardará. Nesse sentido a obra poderá gerar até uma certa ansiedade nos espectadores que não estão tão acostumados ao formato: a trama é simples mas a condução é caudalosa, densa. Flui demoradamente, mas com vigor. Não há pressa para fazer com que percebamos o fato de que o capitalismo e sua ânsia pelo consumo, pode ser capaz de devastar a única fonte de renda de pequenos agricultores familiares.

E nesse sentido o filme é muito hábil em mostrar as diferenças de comportamento entre Hatidze e o vizinho: enquanto a primeira dificilmente é picada por alguma abelha (trabalha com elas num modelo quase simbiótico), o segundo faz um manejo agitado, em que "briga" o tempo todo com os insetos, que lhe picam, picam seus filhos, seus animais, todo mundo. Produzir mel se torna uma luta em que as abelhas são inimigas e não aliadas. Em resumo: só o extrativismo interessa. Esse desequilíbrio gerado - que se estende para a quebra do silêncio nas montanhas e para a alteração da lógica cotidiana de Hatidze - se espalhará de forma desordenada em uma série de sequências em que ficarão claras essas diferenças de comportamento. De um lado a protagonista espreita por cima dos muros, com sua roupa festivamente amarela, alegre. De outro os vizinhos tentam manter a ordem no curral, estão sempre as turras com as crianças e claramente trarão problemas para um ambiente tão pacato. É obra de sutilezas, que foi indicada ao Oscar nas categorias Filme em Língua Estrangeira e Documentário. E essa mesma sutileza é quebrada o tempo todo pelo barulho das abelhas, seu zumbido e alarido, como se tentassem chamar a atenção para o seu valor. Um valor que, aos poucos, a gente parece começar reconhecer.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Cinema - 1917 (1917)

De Sam Mendes. Com George Mackay, Dean-Charles Chapman, Benedict Cumberbatch, Colin Firth e Mark Strong. Guerra / Drama, EUA / Reino Unido, 2019, 119 minutos.

Quando assistimos a uma produção como 1917 (1917) passamos a ter a certeza de que não, o tema da guerra no cinema NÃO SE ESGOTOU e sempre haverá espaço para que ele nos surpreenda ou nos traga um novo ponto de vista. Somente nas premiações desse ano temos duas películas de relevância que revisitam os dois maiores e mais trágicos eventos do tipo, ocorridos no começo do século passado. Se em Jojo Rabbit o humor serve para, a partir do ponto de vista de uma criança, denunciar o absurdo por trás do ideal nazista, na obra de Sam Mendes (Beleza Americana), o que se sobressai é a pasmaceira realista que nos coloca dentro de um episódio que poderia ter ocorrido durante a Primeira Guerra. E acompanhar a jornada de dois homens do exército inglês que devem levar uma carta de um ponto a outro do front - o que poderá evitar a morte de 1.600 aliados -, a pé, adentrando o território inimigo (no caso, os alemães), é algo que nos deixa sem fôlego mais ou menos pelo TEMPO TODO.

E isso tem sim a ver com a parte técnica. Muitas pessoas (a crítica inclusive), tem se empenhado em falar do suposto plano-sequência que nos conduz em um território acinzentado, abandonado, melancólico, lamacento, com cheiro, gosto e cara de morte, com corpos apodrecendo, ratos pestilentos, trincheiras sujas, secas ou úmidas. E de pouca esperança. E de absurdo em um conflito sem lógica. Mas eu digo a vocês que pouco importa o plano-sequência - e quem assistiu filmes como Festim Diabólico, do Alfred Hitchcock, vai sacar direitinho onde estão os cortes: o que importa mesmo é a imersão. É estar com a câmera grudada naqueles dois sujeitos que avançam em território inóspito, sem nenhuma previsão do que vai acontecer. Se serão atacados, mortos, surpreendidos por alguma tática de guerra. Se superarão limites. Se morrerão ou encontrarão alguém. Se voltarão para casa ou para as suas famílias. E é o combo fotografia + figurinos + edição e mixagem de som + desenho de produção que faz isso. Sim, os longos planos também fazem e muitos deles são simplesmente inacreditáveis. Mas eles não "acontecem" sozinhos.


Sobre o desenho de produção ele é simplesmente um espetáculo a parte. Da saída de sua própria trincheira, ao avanço pelo descampado imprevisível, há uma grande riqueza de detalhes na apresentação dos destroços de uma guerra - seus cadáveres, seus terrenos acidentados, cheios de pocilgas, de aclives e de espaços que por si só também se transformam em inimigos, nos causando até mesmo certa vertigem. Como se avançássemos por um jogo de videogame, com a câmera "caminhando" conosco, buscando o melhor ângulo para se posicionar, estamos sempre no aguardo da hostilidade que é, metaforicamente, apresentada no formato de cenários destruídos, vidas despedaçadas e tristeza onipresente. Em poucos filmes os horrores da guerra foram apresentados de forma ao mesmo tempo sutil e gritante como em 1917. Mais ou menos como na sequência em que os cabos Shofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) cruzam por um belíssimo jardim de cerejeiras perdido no meio do nada, para no instante seguinte serem confrontados, da forma mais cruel possível, com o absurdo do conflito.

Fora aquele crítico que vai dizer que "blablabla, a parte técnica não está a serviço do filme (what?)", duvido o espectador médio (meu caso) não se sentir absurdamente envolvido por essa grande obra - que deverá com justiça faturar o Oscar no próximo domingo. É aquele tipo de filme que vale a pena ver no cinema e fora um ou outro excesso cometido pela trilha sonora (que eventualmente tenta ditar as nossas emoções ou o que devemos ou não sentir em certo momento), a película nos faz sentir de tudo da melhor forma - seja por meio da edição de som que nos faz perceber respirações e tensões, seja na fotografia que modifica sensivelmente a sua paleta de cores de acordo com o "momento" vivido pelos dois cabos. Com interpretações corretas, sem deslizes, e com boas surpresas no elenco de apoio, 1917 consegue renovar o fôlego para os filmes do gênero - especialmente no retrato da Primeira Guerra, que nem sempre é lembrada. E por mais que a história pareça ser simples e com avanços mais espaçados do que convencional, bastará uma explosão meio sem aviso para que a gente se lembre do quão estúpidos nós, os humanos, podemos ser.

Nota: 9,5

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Curta Um Curta - Hair Love

E quem foi que disse que filme bom e com mensagens relevantes precisa ter duas horas de duração? Pois este Hair Love, que é pura simpatia, consegue a proeza de ser uma dos mais tocantes e surpreendentes obras do ano, tendo apenas seis minutos de duração! O filme dirigido por Matthew A. Cherry (da série Jogo de Espiões) é um dos indicados ao Oscar na categoria Curta Metragem de Animação e a trama narra a história de um pai afrodescendente que se esforça para pentear os cabelos de sua filha. Em uma época em que a representatividade se faz cada vez mais necessária, não deixa de ser legal assistir a um filme como este, que ainda conta com um traço estiloso e marcante. Ah, e como tem sido praxe nos curtas indicados ao maior prêmio do cinema, é bom separar um lenço: esse aqui também tem um final arrebatador. Vale clicar e conferir!

Sete Grandes Absurdos no Oscar de Melhor Filme

Já aconteceu muitas vezes na maior festa do cinema: o melhor filme entre os indicados não foi, necessariamente, o aclamado. Por quaisquer que sejam os motivos - e a gente sabe que premiações como o Oscar se valem de muito lobby e campanhas envolvendo um grande volume de recursos (que surgem no formato de mimos ou de jantares luxuosos) -, em muitos casos ficou para a posteridade reconhecer a relevância de determinada obra (como no caso do nosso primeiro colocado). Fora os casos em que o melhor filme do ano sequer foi indicado para a premiação! Bom, aqui a gente relembra, em uma pequena lista, os sete maiores absurdos do Oscar na categoria Melhor Filme.

7) Crash - No Limite x O Segredo de Brokeback Mountain (2006): eu vou contar um segredo a vocês: quando o drama sobre racismo de Paul Haggis foi anunciado como o Melhor Filme da edição daquele ano eu SALTEI DO SOFÁ! De alegria! Por que foi algo totalmente inesperado e eu tava torcendo muito pelo filme. Mas eu tenho consciência de que a crítica torceu o nariz, por O Segredo de Brokeback Mountain ter sido ignorado. Passados dez anos e, com algum distanciamento histórico, reconheço a pungência da abordagem de Lee em seu filme - especialmente em uma época em que o conservadorismo da Academia estava cada vez mais sendo questionado. Mas foi divertido, não vou negar.


6) Rebecca - A Mulher Inesquecível x Vinhas da Ira (1941): pra mim, nesse caso, o problema não foi nem a vitória do ótimo Rebecca, mas sim o filme do Alfred Hitchcock que escolheram para aclamar como Melhor Filme. Sim, o cara que fez Psicose, Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai (que, pasmem, não foram sequer lembrados pela Academia), recebeu a estatueta por uma obra que, nem mesmo para os fãs, está entre as preferidas. Qual o critério? E, outra: por mais que o Mestre do Suspense seja talvez o meu diretor preferido de todos os tempos, nada batia Vinhas da Ira naquele ano. Aliás, talvez até o agridoce Núpcias de Escândalo fosse uma escolha mais acertada. E se estou errado você que me digam!


5) Kramer vs. Kramer x Apocalypse Now (1980): lembro de ter assistido o drama doméstico do diretor Robert Benton na adolescência e, talvez para não cometer nenhuma injustiça, talvez aqui fosse o caso de uma revisão. Mas, ainda assim, eu DUVIDO, que ele seja mais relevante, impactante e imponente do que retrato nu e cru da guerra, orquestrado por Francis Ford Coppola. Tão cheia de problemas quanto de boas interpretações, excelentes diálogos e momentos icônicos, além da parte técnica impecável, o filme é profundo, alucinante, sombrio. Só faltou a Academia - que preferiu Meryl Streep e Dustin Hoffmann discutindo guarda de filho em tribunal - perceber.


4) Rocky - Um Lutador x Taxi Driver (1977): sim, eu sei que o filme estrelado por Stallone tem seus predicados e era um genuíno representante da América republicana, que vinha na esteira da campanha dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford (sempre lembrando a fama conservadora da Academia). Mas aí a ignorar os méritos da obra de Martin Scorsese? Bom, a trajetória do diretor foi mais ou menos como a do Hitchcock, mas ao contrário: esnobado pelos seus melhores filmes - ocorreu o mesmo na edição de 1981 quando o dramalhão Gente Como a Gente, de Robert Redford, bateu Touro Indomável -, acabou ganhando a estatueta por uma obra "menor", no caso, Os Infiltrados, na cerimônia de 2007. Aliás, um Oscar justo, é preciso que se diga.


3) Shakespeare Apaixonado x O Resgate do Soldado Ryan (1999): a edição do Oscar de 1999 é DISPARADA uma das mais destrambelhadas da história do cinema. Aliás, daria para fazer um especial nesse formato, só com os absurdos daquele ano - que vão de Roberto Benigni ganhando o Oscar de Melhor Ator no ano em que Edward Norton assombrou o mundo com sua caracterização de um nazista em A Outra História Americana e  A Vida É Bela superando Central do Brasil na categoria Filme em Língua Estrangeira. Mas Shakespeare Apaixonado superando O Resgate do Soldado Ryan é algo que, definitivamente, não dá pra aturar. Pelo amor de Spielberg!


2) Sinfonia em Paris x Uma Rua Chamada Pecado (1952): o negócio é sério. Seríssimo, eu diria! No ano em que Marlon Brando e Vivien Leigh assombraram o MUNDO encarnando Stanley Kowalski e Blanche Dubois em uma adaptação enervante da obra de Tenessee Williams, a Academia optou por dar a sua estatueta máxima para o musical Sinfonia de Paris, de Vincente Minelli. Eu só posso acreditar que os votantes faltaram à sessão de Uma Rua Chamada Pecado. Aliás, quer ter uma dimensão do ABSURDO na hora da consideração por musicais? Lançado no ano seguinte, Cantando na Chuva - talvez o melhor filme do estilo na história - sequer figurou entre os nominados daquele ano.


1) Como Era Verde Meu Vale x Cidadão Kane (1942): com todo respeito ao melodrama de John Ford - que tem todos os méritos do mundo no debate da decadência da sociedade capitalista -, mas se comparado ao inovador filme de Orson Welles, ele fica parecendo mais uma novelinha água com açúcar. Maior caso de "Oscar para o filme errado" na história, a justiça só começou a ser feita anos mais tarde, quando Cidadão Kane passou a figurar nas primeiras posições em diversas listas de melhores - caso das do American Film Institute (AFI), tendo a sua narrativa envolvente, recheada de complexas trucagens técnicas nunca antes vistas, finalmente reconhecidas.



E antes de finalizar, fica a menção honrosa para a edição de 2011, que deu a O Discurso do Rei a estatueta que deveria ser de Cisne Negro (ou até de A Origem). E, pra vocês? Quais os absurdos? As injustiças? Esquecemos de algo? Deixem seus comentários!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Cinema - Jojo Rabbit (Jojo Rabbit)

De: Taika Waititi. Com Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson e Sam Rockwell. Comédia dramática / Guerra, EUA / Alemanha, 2019, 108 minutos.

Uma das coisas mais divertidas que Jojo Rabbit (Jojo Rabbit) faz é apostar no humor com a intenção de tornar o nazismo uma ideologia ainda mais absurda. E essa sensação é ampliada com a adoção de uma criança protagonista que não apenas é militante e defensora da pureza racial - que vê judeus como inimigos grotescos a serem combatidos -, como ainda tem como amigo imaginário uma espécie de caricata figura do Führer em "pessoa". Sim, se pra você é algo ridículo ver aquele seu vizinho criado a leite com pêra pela avó, que acredita que as dores do mundo são todas por culpa do PETÊ, experimente assistir a um grupo de crianças excitadíssimas com a ideia de participar de uma sessão de queima de livros. Sim, é algo completamente nonsense mas, em partes, é justamente isso que a obra de Taiki Waititi (que também interpreta Hitler) propõe: imaginar, na base do deboche, como seria a preparação (ou doutrinação) de uma massa de crianças alinhadas ao nacionalismo religioso de extrema direita - o famoso "combo nazista".

Nesse sentido, o menino de dez anos Jojo (Roman Griffin Davis), cresceu acreditando que o mundo ideal era o estabelecido pelos defensores do Reich. Desde novo integrando um grupo de crianças voluntárias no Campo Hitler, sofre um grave acidente com uma granada, após sofrer bullying por não conseguir matar um coelho (o que renderá seu novo apelido). Em sua casa, verá seu mundo virar de ponta cabeça quando descobrir, meio que por acaso, que a sua mãe (Scarlett Johansson) mantém uma jovem judia (Thomasin McKenzie) escondida em um cômodo. E será dessa forma que estará estabelecido o conflito: sem entender direito esse contexto, Jojo passará a desconfiar do comportamento da mãe, ao mesmo tempo em que se aproxima da jovem, que se chama Elsa. No campo de treinamento, por ter se ferido, participará de atividades prosaicas como distribuição de panfletos, entre outras.


É um filme que trata da Segunda Guerra com uma pitada de leveza quase surrealista, mas sem deixar de lembrar o espectador dos horrores vividos pelo povo alemão naqueles anos. Não por acaso, a película faz lembrar uma mistura entre o drama alemão Lore (2013) e o clássico italiano A Vida É Bela (1998), com Jojo modificando a sua percepção sobre a vida, sobre o mundo e sobre as pessoas conforme a sua jornada avança. De sua amorosa mãe aprende que o apreço pelas artes ou o simples gesto de dançar e confrontar o status quo não é coisa de "comunista". Já com Elsa, não demorará para compreender que havia algo errado no "desenho" dos judeus feitos pelos nazistas - e não é por acaso que cenas como aquela em que o menino Yorki (Archie Yates) fala que comunistas comem bebês e transam com cachorros se tornam tão rotundamente estúpidas (e até engraçadas). É como se, sei lá, alguém acreditasse em mamadeira de piroca ou no fato de que em algum País socialista, bebês de sete meses são masturbados.

Tendo como uma de suas forças, além da trilha sonora e da estética mais "colorida", o uso de imagens e de seu simbolismo - há uma cena em que as casas literalmente parecem ter olhos que observam -, o filme ainda utiliza o jogo de palavras para fazer a crítica ao debate que parece se estender à modernidade. Em uma formidável sequência, por exemplo, Jojo pede para que Elsa desenhe o que seria a sua casa. Após, ela entrega um desenho da cabeça de Jojo: "é que nós não saímos de suas cabeças nazistas", brinca ela. Ainda que eventualmente a obra soe excessivamente expositiva em seus diálogos - por exemplo, não era necessário DIZER que o capitão Klenzendorf (o sempre divertido Sam Rockwell) talvez estivesse disposto a ajudar Jojo e sua família, afinal a gente já tinha percebido isso com suas atitudes -, o filme se consolida como uma das boas surpresas desse começo de temporada, tendo sua indicação ao Oscar na categoria máxima como um bom "prêmio de consolação". Vale conferir.

Nota: 8,5


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Curta Um Curta - The Neighbors' Window

Um clichê meio batido diz que a "grama do vizinho é sempre mais verde". Mas será verdade mesmo? Será que por trás de vidas perfeitas - como aquelas que vemos no Instagram, por exemplo -, não existem realidades bem mais duras? Sim, a gente sabe que sim. Com toda a certeza. E digamos que o curta-metragem The Neighbors' Window, do diretor Marshall Curry, trabalha exatamente com este "conceito". Na trama um casal de classe média americana com dois filhos e mais um terceiro a caminho é surpreendido pelo jovem casal que mora no prédio em frente e que, sem pudores, ocupa boa parte de seus dias transando desavergonhadamente - sem se preocupar muito com cortinas ou com o fato de que alguém possa estar vendo. Obcecados por eles e pela ideia sexy da juventude descompromissada - algo para eles cada vez mais distante em uma rotina atarefada e com filhos -, eles perceberão mais tarde o fato de que a felicidade pode estar em coisas bem simples (e inalcançáveis para alguns). A mensagem é simplícissima, mas a condução do curta, indicado ao Oscar desse ano, é delicada, divertida e tocante. E há ainda a trilha sonora com música do The National, como a cereja do bolo. Vale conferir.

Lado B Classe A - Modest Mouse (Good News for People Who Love Bad News)

É simplesmente impossível falar de Good News for People Who Love Bad News, quarto álbum de estúdio dos americanos do Modest Mouse, sem citar Float On - seu grande hit. Peça central do registro, a faixa se tornou bastante representativa das pequenas alterações sonoras que já estavam em andamento em The Moon & Antarctica (2000) e que se consolidaram nesse disco. Nesse sentido, houve com o passar do tempo uma espécie de "polimento" dos arranjos, que distanciavam a banda do espectro mais ruidoso de seus primeiros trabalhos. Numa espécie de comparativo, costumo dizer que no começo da carreira, o Modest Mouse era uma espécie de Talking Heads depois de levar um "banho de sujeira" - se é que esse paradoxo é possível. Guitarras mais apressadas, vocais despretensiosos e aos gritos, percussão mais acelerada, produção enfumaçada. Com personalidade, esse aspecto mais cru do estilo caiu no gosto não apenas da crítica, como do público, dando a álbuns como The Lonesome Crowded West (1997) uma aura toda própria de urgência, intensidade e rock.

Mas foi com The Moon & Antarctica que esse ensaio para um rock mais comportado (ou convencional) começou a acontecer. Canções mais melodiosas e econômicas como a sinuosa Gravity Rides Everything - com sua guitarrinha ensolarada - apresentavam uma outra faceta da banda comandada por Isaac Brock. O expediente repatia-se em outras como Dark Center Of the Universe, The Cold Part e a ótima Paper Thin Walls, que eram rockões raiz que misturavam bateria, baixo, banjo, teclado num caleidoscópio musical sem pressa, que apresentava seus elementos aos poucos - o que não significava falta de explosão ou intensidade, como comprovavam músicas como Tiny Cities Made Of Ashes, com seu vocal torto, abafado e sua letra violenta e melancólica. As coisas apenas estavam mais claras, plácidas e possíveis de serem digeridas sem aquele amargor eventual - com idas e vindas bem pontuadas entre aceleração e introspecção. Bom, estava pavimentado o caminho para o disco seguinte, aquele que tinha Float On. E que fez este jornalista se apaixonar de vez.


Float On é aquele tipo de música acessível, perdida em meio a vocais que lembram um Danny Elfman do Oingo Boingo (mas mais otimista) e as melodias que conseguem ser ao mesmo tempo soturnas, circenses e primaveris e que tão repetidas mais adiante seriam, por grupos como Kaiser Chiefs, Franz Ferdinand e até Arcade Fire. Precursor destas, o Modest Mouse tornou mais acessível uma das pontas do indie rock - e não é por acaso que é simplesmente impossível fazer a canção desgrudar da sua mente depois de ouvida. Mas é aquele "grude do bem", que gostamos e queremos. Ainda mais com uma letra irresistivelmente otimista, capaz de tratar com deboche as ironias da vida (Eu dei de ré no carro de um policial um dia desses / Ele simplesmente saiu dirigindo, às vezes a vida é legal). Sim, é algo quase ingênuo, mas a vida já não é tão séria? E se apenas uma música consegue nos fazer esquecer isso por um instante que seja, já não faz valer a pena?

Bom, é óbvio que o Good News... não está no Lado B Classe A apenas por Float On - ainda que ela fosse quase suficiente para isso. A verdade é que o disco é uma grande coleção de canções. De momentos mais delicados e até divertidos, como em Bukowski, Blame In On the Tetons e na ótima e derradeira The Good Times Are Killing Me - todas elas estabelecendo um flerte com temas trazidos pela literatura beat (a sujeira do underground, os relacionamentos etílicos) -, a outros mais explosivos e intensos como em Bury Me With It e Dance Hall, a verdade é que se trata de um registro nem sempre homogêneo, com cada peça funcionando isoladamente, que resulta em um grande encaixe geral final. Não aparece em listas de melhores discos internacionais da história, aliás, não é nem o melhor disco do Modest Mouse (continua sendo The Moon & Antarctica). Mas é aquele que tem Float On e que nos faz ficar com os ouvidos mais atentos para cada curva sonora que mistura pouca lógica com acessibilidade. O pop, afinal, também tem lugar no coração dos alternativos. E foi aqui que a banda encontrou ele.



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Pérolas da Netflix - Klaus (Klaus)

DE: Sergio Pablos. Com Jason Schwartzman, J. K. Simmons e Rashida Jones. Aventura / Comédia / Animação, Espanha, 2019, 98 minutos.

Pode até parecer meio batida a ideia de imaginar uma história que de conta do surgimento da lenda do Papai Noel, mas o filme Klaus (Klaus) faz isso te uma forma tão simples e tocante, que é simplesmente impossível não se emocionar. É o tipo de obra nostálgica, que vai fundo na nossa memória afetiva e que deixa, não é exagero, todo mundo as lágrimas no final da sessão. Aliás, talvez essa seja a animação favorita do público, entre as concorrentes ao Oscar 2020 em sua categoria. Na trama somos apresentados a Jesper (Jason Schwartzman), um filhinho de papai que vive na vida boa e que não quer nada com nada. Isso até o momento em que seu próprio pai, um grande empresário de uma agência postal localizada em alguma região gelada próxima ao Círculo Polar Ártico, lhe dá um ultimato: ou ele se interessa em trabalhar e a conquistar as coisas pelo seu próprio esforço, ou será deserdado. Em resumo: o pai não é adepto da meritocracia e quer que o piá aprenda o valor das coisas (e só esse começo, já dá uma bonificação em pontos à obra).

Bom, ele manda o próprio filho pro famoso c* do mundo: um povoado distante de tudo, uma ilha isolada e melancólica chamada Smeerensburg, onde ele deverá ser carteiro, com meta de cartas e tudo. A chegada ao local já é tenebrosa, com as habitações e o ambiente como um todo surgindo num espectro fantasmagoricamente abandonado, de cidade isolada - o e desenho de produção nessa parte é não menos do que fabuloso. Pior ainda: no local os moradores não são nada amistosos, com os dois clãs - os Ellingboe e os Krum -, vivendo em pé de guerra. Nesse cenário inóspito, nada acolhedor, Jesper tentará iniciar o seu ofício, sem muito sucesso. A situação se modificará um pouco quando ele descobrir, em uma ponta da ilha, um misterioso carpinteiro de nome Klaus (J. K. Simmons). Em sua casa, uma grande coleção de brinquedos de madeira será a chave para que as primeiras cartas apareçam, em uma das sequências mais desconcertantes e comoventes do ano.


Falando assim, talvez não seja possível dar a dimensão da forma como o filme transcorre. Tudo aquilo que envolve a "existência" do Papai Noel - o por quê de suas roupas, os motivos de entregar os presentes à noite, como surge o trenó (ou a famosa risada) em sua vida -, vai se descortinando em nossa frente de forma orgânica, fluída, sem pressa. Aliás, esse Klaus que inicialmente surge como uma figura misteriosa, introspectiva, aos poucos vai dando lugar a um sujeito afável, de bom coração (a despeito de sua enorme estrutura física). Não demora para que os habitantes, cheios de rivalidades e mesquinharias, sejam contaminados pelas crianças, que estão encantadas com os brinquedos. A cidade fica mais bonita, ganha mais cor, mais vida (num belo trabalho de fotografia e de iluminação, diga-se), as brigas começam a escassear e... bom, não seria um filme se não houvesse um arco dramático para complicar tudo - e ele surge no formato de moradores mais antigos, conservadores, antiquados, que estão, vejam só, insatisfeitos com tudo aquilo.

Com um traço de desenho meio cartunesco (que lembra alguns filmes noventistas da Disney, em 2D), Klaus nos faz rir e chorar ao mesmo tempo em que traz importantes lições de moral sobre amizade, busca da felicidade e prazer nas coisas simples da vida. A jornada de Jesper pode até ser previsível - sai de postulante a playboyzinho para um sujeito que aprende a encarar as dificuldades da vida, com o apoio dos amigos e com superação de diferenças. E assistir a uma obra tão delicada em um mundo tão duro como o que vivemos, é algo para lavar a alma. Sim, a gente sabe que não vai ganhar o Oscar. Mas o "Oscar" desse filme tem sido a resposta do público, que não termina mais de se maravilhar. Especialmente com a solução encontrada para um dos maiores mistérios de Natal - o que assistimos na última sequência da película. É magistral.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Músicas Gêmeas - Michael Jackson x Justin Bieber

Quem acompanha a carreira do astro Justin Bieber sabe que, desde sempre, ele é uma espécie de Michael Jackson wannabe. Quando ainda criança, aparecia em programas de TV imitando as danças e coreografias do Rei do Pop e fazendo côveres de suas canções - e mesmo o timbre de sua voz sempre foi a perfeita emulação de cantor de Thriller. Só que é provável que não haja na carreira inteira de Bieber uma "homenagem" tão absurdamente escancarada quanto aquela feita na canção First Dance, gravada com o rapper Usher. Absolutamente TUDO na música - melodia, tempo, batida, performance vocal - é igual a You Are Not Alone do Michael Jackson (que é uma composição do R. Kelly). Na internet, tentei encontrar algo que mencionasse essa coincidência, ou mesmo algo sobre algum processo que estivesse correndo, mas não achei. Fica o registro de mais duas Músicas Gêmeas.




Cinema - Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day In the Neighborhood)

De: Marielle Heller. Com Matthew Rhys, Tom Hanks, Susan Kelechi Watson e Chris Cooper. Drama, EUA, 2019, 109 minutos.

Um filme gentil sobre um personagem gentil: é simplesmente isso que Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day In the Neighborhood) é. E não teria como ser diferente em uma obra que traz a figura real de Fred Rogers (Tom Hanks, em papel que lhe uma indicação ao Oscar na categoria Ator Coadjuvante), um antigo apresentador de TV que ficou no ar por mais de 30 anos com um programa educativo voltado ao público infantil, em que ensinava com voz amena e modos contidos a importância de valores como generosidade, empatia e respeito às diferenças. Fred Rogers era praticamente um santo vivo na terra e conseguiu o milagre de ter uma forte audiência com seu programa meio brega, povoado por animais de pelúcia, reis e rainhas, maquetes coloridas, objetos cênicos simplíssimos e trilha sonora com temas edificantes. Tudo exibido pelo canal PBS - que seria tipo a TV Cultura dos Estados Unidos. Se aqui no Brasil Fred era pouco conhecido, na Terra do Tio Sam ele era uma verdadeira lenda.

E esse sentimento é ampliado pela entrega comovente de Tom Hanks ao papel. Já na sequência inicial, que mostra o preâmbulo de um dos mais de 1.700 programas feitos por Rogers, o espectador já compreende o tom adotado pelo show. Com uma serenidade enternecedora - sensação ampliada pelo tom de voz plácido e monocórdico -, o apresentador mostra um painel de fotos que servirá para abordagem do "tema do dia": o perdão. Em uma das fotos aparece o jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) que, na realidade, é o protagonista. Empregado da Revista Esquire, Vogel sempre foi famoso pelo seu cinismo e por investigar a fundo a vida de seus biografados. Meio à contragosto vai ao encontro de Rogers, para escrever um pequeno artigo de 400 palavras sobre o apresentador numa espécie de especial do periódico. Bom, não teríamos um filme se os seguidos encontros entre a dupla não transformassem a vida de ambos - especialmente de Vogel, que tem uma relação difícil com o pai (Chris Cooper), ao passo que tenta ela mesmo equilibrar as "funções" de trabalhador e pai.


É um filme que se estabelece sem nenhuma pressa, com um tipo de fluidez narrativa que pode irritar alguns desavisados, justamente pelo excesso de lentidão - ainda que esse padrão vise a fazer uma espécie de ponte entre o modelo adotado por Rogers em seu programa e o seu comportamento na vida real. Não por acaso, não são poucas as sequências em que Vogel "tenta" fazer a sua entrevista, mas acaba abandonando a ideia pelo simples fato de não conseguir arrancar nenhuma resposta controversa ou nada aparentemente mais relevante de seu biografado. Aliás, não levará muito tempo para que o jornalista perceba as mudanças em sua perspectiva, que ocorrerão a partir de cada entrevista ou contato com Rogers. E não deixa de ser tocante constatar essas pequenas evoluções comportamentais em pequenos gestos e ações do dia a dia, como no instante e que Vogel simplesmente pede a sua esposa Andrea (Susan Kelechi Watson) para que sentem em meio a uma caminhada, com a intenção de discutir com mais calma um assunto importante.

Alguns críticos têm falado que uma pessoa tão perfeita assim não existiria e que o filme peca por não acrescentar mais camadas à figura de Rogers, o que poderia ser feito com a adição de suas fraquezas, inseguranças ou ambiguidades (ainda que uma cena ao piano, quase ao final, de conta disso de uma forma bastante inovadora). Utilizando os próprios cenários do programa de TV de Rogers para fazer a transição entre cenas de uma forma criativa e lúdica, Um Lindo Dia na Vizinhança é aquele filme do "bem", que aposta numa fotografia em tons pasteis que flerta com o kitsch e que só não tem uma trilha sonora mais brega porque lá pelas tantas aparece a música The Promise da Tracy Chapman. E há o roteiro cheio de suavidades, como no instante em que Rogers e Vogel conversam em um restaurante, com o apresentador sugerindo um exercício ao jornalista - em uma das mais belas sequências cinematográficas do ano. Singelo, agridoce, lúdico e eventualmente onírico, o filme da diretora Marielle Heller (Poderia Me Perdoar?) serve como o complemento perfeito para o ótimo documentário Won't You Be My Neighborhood - esta sim uma obra que vai um pouco mais a fundo na carreira de Rogers.

Nota: 8,0

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Cinema - O Escândalo (Bombshell)

De Jay Roach. Com Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow e Allison Janney. Drama, EUA, 2019, 109 minutos.

Dada a relevância da temática, O Escândalo (Bombshell) tinha tudo para ser um dos grandes filmes do ano, mas o resultado é apenas ok, afinal de contas, vamos combinar que não dá pra tratar com deboche (e até com uma leve inclinação para a passação de pano) o caso real de assédio sexual envolvendo o CEO da Fox News Roger Ailes (John Lithgow, embaixo de toneladas de maquiagem). Foi em 2016 que o episódio - que, confesso a vocês, desconhecia - veio à tona, após uma série de denúncias feitas por jornalistas que trabalharam no canal. Sim, a ideia de que efetivamente existam os repulsivos "testes do sofá" é tão antiga quanto a própria TV. Mas são poucas as jornalistas que tem a coragem de levar acusações adiante, reunir provas e enfrentar exaustivas horas de tribunal que podem, em uma sociedade tão machista como a nossa, ainda por cima comprometer as suas carreiras. E, nesse sentido, a intenção da película é nobre, claro.

Só que a abordagem é o que não funciona tão bem. Há um tom geral bastante ameno na discussão de um tema tão pesado: as quebras de quarta parede, o reforço de estereótipos, as piadinhas fora de hora e até as eventuais tentativas de justificar (pasme) o comportamento de Ailes, tornam o resultado quase oposto. Só que apesar da confusão estabelecida pelo diretor Jay Roach (que esteve à frente da série Entrando Numa Fria e comandou bobagens como Um Jantar Para Idiotas), que parece nunca saber exatamente se está fazendo um drama ou uma comédia, o seu ótimo elenco feminino ainda segura as pontas, o que evita o projeto de naufragar completamente. A começar por Nicole Kidman, que transforma a sua Gretchen Carlson na porta-voz quase isolada na luta contra o patriarcalismo que, em canais de TV tão conservadores como a Fox News (é a Globo News americana, aquele canal assistido pelas famílias geriátricas votantes do Trump), é perpetuado há décadas.


Após ser demitida do canal ao dar um aceno a pautas mais progressistas em seu programa matinal - mais ou menos como se a Ana Maria Braga começasse uma campanha contra o porte de armas aqui no Brasil -, Gretchen processa Ailes por assédio sexual. A sua luta ganhará apoio mais tarde, ainda que divida a opinião pública e a própria redação, que tem na figura da jovem Keyla Pospisil (Margot Robbie) sua principal expoente. Ambiciosa, conservadora, integrante da família de bem - ainda que bissexual -, deseja um posto em algum programa de relevância do canal, o que ela não conseguirá sem a famosa contrapartida. Aliás, sobre isso, é no mínimo questionável a opção da direção de câmera na cena em que Ailes abusa da jovem, já que a sequência seria muito mais impactante se optasse por enquadrar apenas as expressões e as reações do rosto de Margot, diante do episódio absolutamente grotesco que estava vivenciando.

De qualquer maneira o filme tem alguns méritos e o primeiro é levar ao conhecimento do público esse episódio tão absurdo. Há ainda uma crítica bem engendrada nas entrelinhas sobre o comportamento beligerante e machista de Trump (aliás, vamos combinar que o Bolsonaro faz IGUAL), especialmente em sua relação com a imprensa - e, pior, com as mulheres na imprensa. Ele seria eleito naquele ano, aclamado pelo público da Fox News, o que não faria as mulheres esmorecerem, já que a luta ganha força quando outra jornalista, a experiente Megyn Kelly (Charlize Theron) se alinha a causa. No fim, trata-se de uma obra que coloca frente a frente um polo mais fraco e outro mais forte nesse ecossistema cheio de homens engravatados, que são as grandes corporações. O resultado final nos deixa com um meio sorriso, já que esse tipo de luta inglória precisa ainda de muitos outros passos para que o respeito comece efetivamente a prevalecer, especialmente em ambientes competitivos como os canais de televisão, que mentém a crença fetichista de que apenas mulheres bonitas devem ter espaço diante das câmeras.

Nota: 6,5

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Cine Baú - Alma em Suplício (Mildred Pierce)

De: Michael Curtiz. Com Joan Crawford, Ann Blyth, Zachary Scoot, Jack Carson e Bruce Benett. Drama, EUA, 1945, 111 minutos.

Vamos combinar que, em 1945, não era muito comum ver mulheres independentes e empoderadas como protagonistas no cinema - especialmente em filmes noir, em que as femme fatales muitas vezes se dobravam a algum capricho relacionado a relações extraconjugais complicadas, tóxicas ou cheias de conflitos de interesses. E só este fato já transforma Alma em Suplício (Mildred Pierce) em uma obra que se mantém atual e que merece ser revisitada. Quem interpreta a Mildred do título original é Joan Crawford - em papel que lhe rendeu o seu único Oscar. A trama começa com um assassinato em uma casa de praia isolada, com o morto caindo e balbuciando o nome de Mildred. Mais tarde, na delegacia, o detetive encarregado chega a conclusão, a partir de algumas pistas, que o assassino é Bert (Bruce Bennett), ex-marido de Mildred que, motivado por ciúme, teria cometido o crime. Bom, não teríamos um filme se a resolução fosse simples assim, né?

É na própria delegacia que uma resignada Mildred resolve contar uma história que inicia quatro anos atrás, na época em que ela decide se separar de Bert, especialmente pelo fato de ele estar desempregado. Acostumada a vida de dona de casa, com as duas jovens filhas tendo tudo do bom e do melhor, a protagonista sai atrás de emprego. Após conseguir uma colocação como garçonete, junta uma grana, complementa renda vendendo bolos, pega um empréstimo e conta com o apoio do amigo corretor de imóveis Wally Fay (Jack Carson) - um galanteador que não perde a oportunidade de cortejar Mildred -, para comprar o imóvel em que funcionará seu restaurante. Com espírito empreendedor, amplia seu negócio - que se torna uma franquia -, ao passo que se aproxima do bon vivant Monte Beragon (Zachary Scott) que, bom, nessa altura do campeonato já sabemos que é o sujeito que morre no começo do filme.


Parece meio confuso, mas o roteiro absolutamente engenhoso (escrito por Ranald Macdougall), cheio de idas e vindas no tempo, alterna o relato atual de Mildred na delegacia, com um sem fim de cenas em flashback, que vão sendo saborosamente apresentadas ao espectador. Por meio delas, saberemos que a relação de Mildred com a sua filha mais velha, a ambiciosa Veda (a ótima Ann Blyth, que talvez também merecesse o Oscar e eu não assisti A Mocidade é Assim Mesmo, que deu a estatueta a Anne Revere), não é nada boa. Veda não aceita o trabalho da mãe - ela considera trabalhar em restaurante coisa de "subalterno" -, ao mesmo tempo em que tenta seduzir Monte, que é candidato a namorado da Mildred. Rodeada por vários homens, também assistiremos uma Mildred que não se "dobra" pra qualquer cantada barata, especialmente pelo fato de ser uma mulher que não necessita de um homem para sobreviver, que paga suas contas, que vive, que sorri e que sofre (como no triste episódio da morte de sua filha mais nova). O romance não tem lugar de protagonismo aqui. E o que vemos é uma mulher forte que, mais tarde, arcará com as consequências de seus atos.

Espetacular também na parte técnica, Alma em Suplício é um primor na fotografia que aposta no uso de contrastes e reflexos, com sombras nas paredes e nos rostos das personagens, além de imagens que surgem em espelhos sendo utilizadas de forma orgânica para reforçar a tensão. Já a trilha sonora (de Max Steiner), conduz a narrativa com fluidez, sendo capaz de sair dos acordes festivos para os mais tensos com naturalidade (e na mesma sequência). Com ótimos diálogos - a personagem Ida (Eva Arden) tem alguns dos melhores (e ela é até mais feminista do que Mildred) -, o filme não cede espaço para o otimismo, com o desfecho sendo bastante amargo e servindo para que a protagonista descubra que amor incondicional de mãe pode servir apenas para a consolidação de filhos mimados. Ainda que tenha perdido o Oscar para o ótimo Farrapo Humano (1945), a obra do versátil Michael Curtiz (Casablanca, A Canção da Vitória) costuma figurar em inúmeras listas, como no caso da do livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Um filme fundamental.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Novidades em DVD/Now - Quem Você Pensa Que Sou (Celle Que Vous Croyez)

De: Safy Nebbou. Com Juliete Binoche, Nicole Garcia, François Civil e Guillaume Gouix. Drama, França, 2019, 101 minutos.

Em tempos tão tecnológicos como os nossos, é muito provável que não haja pessoa nesse mundo que não tenha experimentado a delícia de ficar horas conversando com alguém - ainda mais se esse alguém for especial - pelas redes sociais. A escolha das frases bem pensadas antes de enviar, o uso de emojis, as palavras ditas (e até as não ditas) e a observação atenta da tela enquanto o "digitando" persiste em aparecer. É algo que todo mundo faz. Ou já fez. E que a protagonista do filme Quem Você Pensa Que Sou (Celle Que Vouz Croyez) também faz. Mas com uma "pequena" diferença. Claire (Juliete Binoche) é uma mulher de 55 anos que, após o divórcio, é aparentemente acostumada a se relacionar com homens mais novos. Homens mais novos que, em muitos casos, não querem muito compromisso - como é o caso de Ludo (Guillaume Gouix), que termina o caso com Claire de forma bastante abrupta (e até grosseira).

Pra tentar se reaproximar do rapaz, Claire cria um perfil falso no Facebook. Por meio dele, adiciona o fotógrafo Alex (François Civil) que, num primeiro momento, deveria ser apenas o caminho para que a protagonista pudesse contatar Ludo. No perfil de Claire, um outro nome: Clara. E fotos e informações misteriosas de uma garota uns 30 anos mais jovem completam o combo. Por ser professora universitária das áreas de literatura e letras, Claire tem um ótimo, inteligente e envolvente papo. E não demora para que Alex fique verdadeiramente interessado na pessoa com quem divide noites e mais noites de conversas divertidas, amenas, safadas. Só que, lógico, Claire não conseguirá manter essa mentira por muito tempo: as pessoas precisam viver no mundo real e o maior desejo de Alex será conhecer a "jovem". E, para nós, que acompanhamos essa jornada, estará estabelecido um ótimo suspense, que bebe na fonte de séries como Black Mirror e de filmes como Ela (2013).


Estruturalmente, o filme é narrado como se fosse uma grande sessão de terapia. Será para a doutora Catherine (a sempre ótima Nicole Garcia), que Claire falará de suas angústias. E de quais estratagemas utilizou para tentar "driblar" o seu novo amigo que, conforme os dias passavam, tinha mais e mais desejos de proximidade. E, pior ainda: sobre como essas estratégias (quase) resultaram em tragédias que poderiam ter modificado a vida de todos os envolvidos na história, para sempre. E, por mais que encaremos Claire como a suposta figura "vilanesca" da história, por ter mentido tão descaradamente, é simplesmente impossível não deixar de compreender a dor de uma mulher que, agora na meia idade, foi abandonada pelo marido, ao passo que a juventude (e o consequente despertar do desejo das demais pessoas), foi ficando para trás. Nesse sentido, a obra do diretor Safy Nebbou é hábil ao conferir complexidade às suas personagens - e a gente fica o tempo todo desejando com todas as forças que o final possa ser o mais feliz possível (especialmente para o "casal" central).

Equilibrando momentos singelos - como aquele em que Claire fala da sensação de alegria de ver a luz verde (que identifica uma pessoa online) acesa -, com outros mais divertidos, como naquele instante em que a protagonista admite desconhecer o Instagram, o filme tem a sua força mesmo nos momentos mais dramáticos (e são tantas as reviravoltas, que a gente acaba surpreendido o tempo todo). Discutindo uso de redes sociais, a solidão na terceira idade, a carência afetiva que muitas vezes nos invade e a idealização do amor, o filme nos apresenta a uma Juliete Binoche mais uma vez arrebatadora. Despida de qualquer vaidade, aparece muitas vezes como uma mulher devastada para, minutos depois, surgir rejuvenescida pelas oportunidades trazidas pela vida e pelas redes sociais (e sempre com a câmera grudada em seu rosto). E o trabalho que ela executa a partir de simples expressões faciais a partir daquilo que ela está lendo na tela (como todos nós fazemos, por sinal), é não menos do que verossímil. É um filme que pode até soar meio exagerado em alguns momentos mas que, minimamente, nos faz refletir. E que ainda nos deixa com a pulga atrás da orelha ao final da última cena.

Nota: 8,5