quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Operário (The Machinist)

De Brad Anderson. Com Christian Bale, Jennifer Jason Leigh, John Sharian e Aitana Sanchez-Gijón. Suspense, Espanha, 2004, 101 minutos.

Quem gosta de obras com "moral da história" não pode deixar de assistir a O Operário (The Machinist) - o famoso filme em que Christian Bale emagreceu trinta quilos para interpretar o papel principal. Na trama ele é o empregado de uma indústria metalúrgica que está, misteriosamente, há um ano sem conseguir dormir. O tempo em que não está trabalhando, ele ocupa com encontros ocasionais com a prostituta Stevie (Jennifer Jason Leigh) e com idas a uma cafeteria de um aeroporto, que fica aberta de madrugada. Mas o caso é que o cansaço está destruindo progressivamente a sua saúde física e mental, o que faz com que ele se isole cada vez mais. A situação piora quando ocorre um acidente na fábrica, que faz com que um de seus colegas perca um braço. É aí que a paranoia aumenta, com o sujeito achando que os colegas estão conspirando para fazer com que ele perca o emprego.

Já não bastasse todo esse contexto, o homem, de nome Trevor, ainda passa a ter estranhas alucinações. Em seu apartamento, começam a surgir curiosos bilhetes, com desenhos de forcas e de frases provocativas. No dia a dia, um novo colega de trabalho (John Sharian) parece guardar algum segredo, com tudo se tornando mais esquisito quando ele se dá conta que o tal colega talvez não exista. Por mais que faça amizade com a funcionária da cafeteria que frequenta - ele leva a ela e seu filho a um parque de diversões -, o caso é que a vida de Trevor é triste, vazia, isolada. Quase sem sentido. Condição que só terá explicação quando os traumas do passado forem aos poucos descortinados (de forma absolutamente sutil), por meio de alguns flashbacks e sobreposição de cenas.



Nesse sentido, a obra de Brad Anderson tem méritos, uma vez que consegue "segurar" a curiosidade a respeito daquilo que possa ter acontecido com o protagonista até o último minuto. E ainda que Bale exagere, aqui e ali, nas caras e bocas e nas cenas que reforçam a sua desnutrição, o caso é que a construção da atmosfera - com uma fotografia absolutamente acinzentada e sombria e com uma trilha sonora que não faria feio em algum filme do Hitchcock - é um dos pontos fortes da película. A impressão que temos é a de que algo está sempre pronto a acontecer, o tempo todo. Algo ruim, no caso. E o fato de os colegas de trabalho de Trevor estarem de saco cheio deste, só torna tudo pior - com a situação se tornando extrema no momento em que ele acredita ter sofrido algum tipo de sabotagem na fábrica.

Reservando para o terço final uma das mais saborosas surpresas do cinema, no caso de obras mais recentes, o filme ainda é um verdadeiro líbelo sobre a importância de termos a consciência limpa, no que diz respeito aos nossos atos (e sobre aquilo que consideramos moral e eticamente correto no nosso dia a dia). Trevor talvez não esteja, literalmente, sem dormir, mas a sua mente jamais relaxará, até o momento em que ele consiga ter a paz tão desejada, o que só virá com uma decisão extrema. E que ele só poderá tomar sozinho. Ainda que uma ou outra sequências possam ser dispensáveis - e uma ou outra ponta pareçam meio soltas - a amarração final faz todo o sentido, com o espectador sendo obrigado a confrontar, junto com o personagem principal, a dura realidade que lhe espera dali para frente.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Pérolas da Netflix - A Música Nunca Parou (The Music Never Stopped)

De Jim Kohlberg. Com J.K. Simmons, Lou Taylor Pucci, Cara Seymour e Julia Ormond. Drama, EUA, 2014, 105 minutos.

Conta a história que dois derrames ocorridos no começo dos anos 50, impossibilitaram o compositor russo Vissarion Shebalin (1902 - 1963) de falar ou compreender o sentido das palavras. Mas o fato jamais o impediu de ensinar ou compor até o final de sua vida. Talvez este seja um dos mais antigos (e relevantes) registros sobre a importância da música como terapia e sobre como as melodias podem ativar memórias antigas, provocando respostas mensuráveis no cérebro de pacientes que padeçam de alguma doença. Pois o singelo e delicado A Música Nunca Parou (The Music Never Stopped), do diretor Jim Kohlberg, fala exatamente sobre esse tema. E de uma forma tão comovente, que é quase impossível passar as quase duas horas da película sem se emocionar - ainda mais se levarmos em conta o fato de que todos nós temos as nossas músicas do "coração". Que nos deixam nostálgicos e cheios de lembranças boas ou ruins.

Logo no início do filme, que é baseado em fatos reais, ficamos sabendo do reaparecimento do jovem Gabriel (Lou Taylor Pucci) que, aparentemente, havia sumido da vida dos pais Henry (J.K. Simmons) e Helen (Cara Seymour) há cerca de 20 anos. Reencontrado, o rapaz é diagnosticado com um tumor benigno no cérebro que, após a cura, lhe impede de ter memórias recentes. Gabriel (ou Gabe, como é chamado) não lembra de nada relativo ao período em que esteve longe da casa dos pais. Para os pais, a alegria de reencontrar o filho terá como barreira a impossibilidade de comunicação. Uma série de acalorados flashbacks mostrará como a família era musical (especialmente Henry que, desde a infância estimulava o filho para jogos relacionados à nomes de músicas e de artistas). Não demorará para que o homem perceba a oportunidade de se reconectar com o filho por meio da música.



Será, inegavelmente, um processo doloroso para todos - e que envolverá ainda a participação da terapeuta Diane (Julia Ormond). Doloroso pelo fato de percebermos, conforme o filme avança, que a relação entre Henry e Gabe não era boa. Henry, um conservador republicano, favorável as políticas de presidentes como Richard Nixon e Ronald Reagan, entrará em choque com o filho que, na efervescência cultural do final dos anos 60, viverá o flower power e o movimento hippie antiarmamentista, confortando-se nas canções de gênios como Bob Dylan, Beatles e, especialmente, Grateful Dead, que ele replicará com os amigos na garagem de casa. De alguma forma, as tentativas de acesso a memória perdida do filho também servirão para que o pai se reencontre, confronte esqueletos que, há muito, estão no armário e se redima de atos injustificáveis do passado. E, quando tudo isso se descortinar em sua frente, é preciso que se diga: esteja com uma boa quantidade de lenços de papel a tiracolo.

Não fosse o talento do elenco e talvez esse drama familiar fosse mais convencional do que realmente é - e assistir a Simmons trafegando no limite entre o pai autoritário (e até reacionário) e o genitor carinhoso que abraça o filho com ternura na ânsia de tentar uma desajeitada aproximação, é não menos do que comovente. Já Lou Taylor Pucci, com seu olhar curioso (e meio perdido) faz uma boa caracterização do jovem doente que celebra cada avanço e que é capaz de brincar com a sua condição (o que torna a película mais leve, desacelerando o ímpeto melodramático). Com uma trilha sonora inesquecível - com direito a uma imperdível sequência em um show do Grateful Dead - a obra ainda reserva para a última cena, um comovente desfecho, capaz de fazer o espectador ficar com um sorriso no rosto por horas após o fim do filme. Em tempos de tanto ódio, preconceito e intolerância, um filme gentil, afável e gostoso de assistir, como esse, é quase uma benção.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Tesouros Cinéfilos - Violência Gratuita (Funny Games U.S.)

De Michael Haneke. Com Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet e Devon Gearhart. Suspense, EUA, 2007, 107 minutos.

Existe algo meio mórbido na ascensão de aberrações políticas como Jair Bolsonaro que é meio difícil de explicar. E saber que quase 50% dos eleitores brasileiros desejam uma figura como esta na Presidência é algo ainda mais assombroso. Bolsonaro não mede palavras em suas falas. Em entrevistas, já afirmou que o erro da Ditadura Militar foi torturar e não matar. Disse ser necessário "limpar" o Brasil assassinando umas 30 mil pessoas - inclusive o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Falou em fuzilar a "petralhada". Em suas manifestações apenas ódio, preconceito, intolerância, derramamento de sangue, ratos na vagina das mulheres, brutalidade de todos os tipos. E, ao mesmo tempo que 50 milhões de pessoas votam (e aplaudem) os atos do "mito", outros tantos convivem com o medo, a tensão, o sofrimento.

Mas como é possível se regozijar com o sofrimento alheio? Somos perversos por natureza? É da nossa essência se satisfazer, se divertir com a dor daquele que nos é diferente? O que explica essa onda fascista, que tem movido tantos brasileiros? Sim, é claro que o filme Violência Gratuita (Funny Games), aparentemente, não é sobre o autoritarismo. Mas, de alguma forma, ele dialoga com o tema, ao propor ao espectador uma espécie de jogo sádico que subverte qualquer lógica narrativa vista em cinema. Começo, meio e fim? Final feliz, com os mocinhos se salvando dos bandidos? Esqueçam. O que o diretor Michael Haneke (dos igualmente ótimos Código Desconhecido e Caché) quer, é ver até que ponto somos capazes de suportar - e encarar de frente - a violência, permanecendo indiferentes à ela. "Não era tortura, morte e sofrimento que vocês queriam? Então tomem", é o que ele parece nos dizer.



Na trama o casal Anna (Naomi Watts) e George (Tim Roth), acompanhados do filho Georgie (Devon Gearhart) vão passar as férias na casa de campo que fica em uma região nobre de Long Island. Não demora para que o clima tranquilo e idílico do local, de lugar ao horror e ao pesadelo quando os jovens Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet) invadem a casa, tomam a família como refém, agridem covardemente Goerge e passam a propor uma série de jogos sádicos - garantindo a eles, ainda, que eles só têm doze horas de vida pela frente. Sobre os invasores? Nada de pretos, pobres, dependentes químicos ou outras pessoas à margem da sociedade. Tratam-se de pessoas brancas, loiras, bem vestidas (alvamente vestidas, diga-se), de banho tomado, que gostam de recitar frases religiosas, mas que praticam atrocidades. E que parecem sentir prazer nisso.

Hábil na montagem do filme, Haneke transforma a obra em um assombroso estudo sobre a nossa essência enquanto seres humanos e sobre como somos muito mais capazes de "tolerar" a violência que não nos diga respeito - e que, invariavelmente, nos desumaniza. Em filmes não toleramos ver as "famílias de bem" agredidas ou até assassinadas. Mas não nos livraremos do sentimento catártico ao assistir ao bandidão se dando mal. Mesmo que tudo aquilo que estamos vendo seja, no fim das contas, apenas um filme. E é justamente ao brincar com a lógica de mundo do cinema - especialmente o hollywoodiano - é que o diretor transforma Violência Gratuita em uma das mais (pasme) divertidas experiências cinematográficas do milênio. Não por acaso, assistir a Paul virando para a câmera apenas para perguntar se "estamos do lado da família", consiste-se em um dos tantos grandes momentos da obra.


Utilizando ainda o som diegético como um componente importante da narrativa - a cena em que Paul coloca um disco de heavy metal para rodar, subvertendo a lógica e gerando uma sensação incômoda serve como exemplo - Haneke ainda utiliza o filme como uma espécie de documento a respeito da paranoia armamentista americana, que vem a reboque do medo da violência e de tudo aquilo que é "diferente". Com planos sequência absurdamente dolorosos, como aquele em que Anna e George tentam a todo o custo se movimentar de um cômodo para o outro após uma brutal sequência de agressões, a película leva o espectador até o limite, subvertendo a lógica, alterando o fluxo narrativo e surpreendendo por dificilmente deixar espaço para o respiro. Uma obra densa, cheia de grandes interpretações (o jovem Gearhart é um achado) e que certamente renderia horas de debate. Especialmente em tempos tão sombrios e de propensão à violência (gratuita) como so que vivemos.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Lançamento de Videoclipe - Blood Orange (Chewing Gum)

Candidato seríssimo a figurar nas primeiras posições da maioria das listas de melhores do ano, o mais recente disco do Blood Orange, Negro Swan teve mais um videoclipe divulgado nesta semana - no caso para a pegajosa canção Chewing Gum. Dirigido pelo próprio Dev Hynes - nome real do artista por trás do projeto - o clipe tem a participação do rapper A$AP Rocky e mostra ambos andando em de quadriciclo, em meio as paisagens semi-áridas. O álbum, que traz aquele R&B classudão, numa mistura sutil de eletrônica com uma pitada de anos 80, também já rendeu vídeos para as canções Saint, Jewerly e Charcoal Baby. Lembrando que, em 2016, com o irresistível Freetown Sound, o Blood Orange foi o terceiro colocado do ano, na nossa relação de 25 Melhores Discos Internacionais aqui no Picanha. Bora clicar e conferir!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Pérolas da Netflix - Lore (Lore)

De: Cate Shortland.Com Saskia Rosendhal, Kai Malina e Ursina Lardi. Drama / Guerra / Suspense, Alemanha / Reino Unido / Austrália, 2012, 108 minutos.

Os filmes alemães que buscam a expiação dos fantasmas do passado relacionados ao nazismo funcionam quase como uma categoria à parte - não sendo diferente com o ótimo Lore (Lore), película disponível na Netflix. A trama da obra toma por base um contexto pouco explorado pelo cinema: o do que teria acontecido com as crianças e adolescentes que se tornaram órfãs frente ao colapso do exército alemão, a partir do momento em que as forças aliadas invadem a Alemanha e prendem os (pais) nazistas, que deixam para trás os seus filhos. Nesse sentido, a narrativa volta para a primavera do ano de 1945 para contar a história da Lore (Saskia Rosendahl) do título, uma jovem de 14 anos que se vê sozinha, tendo de cuidar dos outros quatro irmãos mais novos, a partir do momento em que os pais nazistas são capturados pelas tropas americanas.

Não bastasse o fato de terem de conviver com a fome, com as doenças e com a falta de uma moradia para chamar de sua, os jovens ainda serão, conforme a guerra se aproxima de sua conclusão, um alvo fácil daqueles que passaram os últimos seis anos combatendo o nazismo. À eles resta fugir, tentar encontrar uma casa e evitar ao máximo o contato com judeus ou com as tropas aliadas. E haja andanças pelo meio do mato e paradas em lugares com pessoas nada amistosas e ressentidas pelos anos de perseguição político/ideológica. Em uma dessas andanças, Lore e os meninos encontram o jovem Thomas (Kai Malina). Seus documentos pessoais revelam o fato de que ele talvez possa ser um judeu que, ainda assim, parece disposto a ajudar as crianças. Mas como aceitar ajuda de uma pessoa que eu considero inimiga do regime?



Esse é um dos tantos dilemas do filme. No seio familiar, Lore e as crianças cresceram aprendendo a respeitar o Terceiro Reich e a odiar as minorias - sabem de cor, inclusive, os cantos nacionalistas alemães assimilados por meio de audições via rádio dos programas estatais. Thomas está a margem da sociedade, e convive com o mesmo grau de vulnerabilidade dos demais. Erra, acerta, tem atitudes impensadas e exemplifica de forma magistral o fato de que, na guerra, só há perdedores. Ele se afeiçoa de Lore. Mas ambos estão em lados opostos nesse conflito. O que certamente causará uma grande confusão na mente da protagonista. Para piorar, ela vai percebendo que talvez o nazismo não fosse aquela "maravilha toda" que seus pais (ou os programas de rádio) vendiam. É ao "descobrir" na marra o mundo, que Lore se liberta, paradoxalmente, daquilo que lhe amarrava.

A cena de um cervo em miniatura sendo esmagado por Lore talvez seja a metáfora meio óbvia do processo de transformação - e de reconfiguração de seus paradigmas - que ela vivencia. O nazismo talvez fosse ruim (será?) e ela vai descobrindo isto nos gestos nada sutis da avó reacionária ou no comportamento exagerado de algum vizinho extremista. O próprio Thomas talvez não seja aquilo que aparente e o clima sombrio do filme é reforçado por uma câmera ostensiva, quase sempre grudada no rosto das personagens. A fotografia empalidecida, somada a um desenho de produção que reconstitui uma época opaca, sem vida, contribuem para uma sensação generalizada de melancolia que percorre a película. É filme europeu sem final feliz: oblíquo, dolorido, angustiante, mas cheio de significados. E que reflete um tempo que deveríamos DESEJAR que jamais retornasse. Mas que, no surpreendente Brasil do Golpe, pode retornar, pasme, por meio do voto.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Curta Um Curta - Ilha das Flores

"O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser... livre". Essa frase, dita quase ao final do curta-metragem Ilha das Flores, é daquelas que fica na nossa cabeça, da mesma forma que permanecem na mente as imagens de mulheres e de crianças que habitam o local e que se alimentam de restos de comida que não servem nem para os porcos. O Brasil recém saía do Regime Militar, quando o gaúcho Jorge Furtado lançou esse clássico que denuncia, não sem uma boa dose de deboche, de ironia e de melancolia, o quão maquiavélica pode ser a sociedade de consumo - ou mesmo o sistema político que, habitualmente, torna o rico mais rico e o pobre mais pobre. Indicar um filme que todo mundo viu na escola aqui no nosso quadro Curta Um Curta é algo tão óbvio quanto necessário. Especialmente no Brasil Pós-Golpe que, não satisfeito, ainda vê as suas elites (e boa parte da classe média) desejando um caminho ainda pior: o do obscurantismo.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Grandes Filmes Nacionais - Eles Não Usam Black-Tie

De: Leon Hirsman. Com Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro e Francisco Milani. Drama, Brasil, 1982, 121 minutos.

Incrível perceber como, mais de 35 anos depois de ter sido lançado nas cinemas, o clássico Eles Não Usam Black-Tie, do diretor Leon Hirszman, segue dolorosamente atual. O Brasil caminhava para o final de uma longa ditadura em 1982 - época em que greves como a dos metalúrgicos, ocorrida em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, ganhavam força. Esses movimentos emergentes, diga-se de passagem, buscavam melhores condições de trabalho ao passo que protestavam contra o arrocho salarial (quando reajustes não acompanham a inflação), reivindicando liberdade e autonomia sindical. Nesse sentido, é possível afirmar que a obra de Hirszman - adaptada de uma peça de Gianfrancesco Guarnieri - era a verdadeira representação de seu tempo. Um tempo que consolidou mobilizações trabalhistas que perduram até hoje e que marcam o surgimento de um sindicalismo que que se caracteriza pela organização. Aliás, não é por acaso o fato de a efervescência política fazer surgir não apenas o Partido dos Trabalhadores (PT), mas também a figura do nosso eterno melhor Presidente da história, Luiz Inácio Lula da Silva.

De alguma forma o filme de Hirszman nos joga para dentro desse contexto, ao nos apresentar para o jovem operário Tião (Carlos Alberto Riccelli). Absolutamente alienado em relação ao contexto em que está vivendo, Tião está apenas interessado em prover uma boa vida para a namorada Maria (Bete Mendes), que está grávida. O pai de Tião, Otávio (o próprio Guarnieri), é um ardoroso militante sindical que, a despeito da idade, não perde o seu idealismo - e nem o sonho alimentado pela classe trabalhadora, por dias melhores. Quando uma assembleia faz com que ecloda um movimento grevista, a categoria metalúrgica fica dividida (e pai e filho acabam ficando em lados opostos desse debate). O jovem Tião não quer perder o emprego e fala a língua do patrão ao acreditar no fato de que é melhor estar empregado do que não ter emprego. Otávio, como se fosse a matriarca do clássico moderno Adeus Lênin, preferia ver o filho ao seu lado, na marcha por melhores condições de trabalho. É desse conflito que resultará o grande arco dramático da película.



De certa forma, Hirszman olha com certa melancolia para a juventude - desinformada, ignorante, afastada da realidade. Na trama de Eles Não Usam Black-Tie é clara a miséria - não apenas financeira, mas intelectual, com a massa de trabalhadores preocupada apenas em jogar sinuca, tomar uma cachacinha ou acompanhar os rumos da novela (e não é por acaso que as sequências envolvendo o pai bêbado de Maria, absorto diante da televisão, são tão pungentes). Os poucos idealistas que ocupam-se da greve (e de sua importância) com mais intensidade, como é o caso de Sartini (Francisco Milani, em inesquecível caracterização), são taxados de subversivos, insurgentes, rebeldes. Mas são eles que estão tentando atrair a atenção dos trabalhadores na fábrica. E que estão apanhando e sendo levados ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Otávio já foi parar lá mais de uma vez, diga-se. Em uma delas, ficou preso três anos.

O choque de frente entre Tião e Otávio renderá algumas das mais inesquecíveis sequências da história do cinema brasileiro - e ainda que penda a balança para a importância da discussão dos direitos trabalhistas, Hirszman não deixa de olhar com certa ternura para Tião. O medo de perder o emprego, as pressões sociais para ser o provedor da família, o fazem ser o "fura greve" que vemos. E não é por acaso que a mãe Romana (Fernanda Montenegro, assombrosa em sua delicada interpretação), fica no meio dos dois, dedicando a ambos o mesmo carinho e a mesma compreensão. Na verdade não há uma solução fácil, e Hirszman faz questão de deixar claro que Tião - com sua eventual fraqueza - e Otávio - com seus delírios idealistas - não são os vilões. O vilão, especialmente naquela época, era o contexto político/social do Brasil, que exauria a massa trabalhadora, acabando com a sua esperança e relegando-a as migalhas de uma falsa promessa de fortalecimento econômico.



Em uma época em que a classe trabalhadora assiste entorpecida à políticos golpistas executarem à revelia reformas como a Trabalhista e a da Previdência (que surrupiam direitos há muito conquistados), Eles não Usam Black-Tie, como já dito, segue absurdamente atual. Especialmente em um cenário em que muitos brasileiros anseiam pelo retorno da ditadura, anseiam por intervenção militar e tratam o empresário (e o empregador) como espécies de semideuses benfeitores que estão na terra pra auxiliar o cidadão comum a ter o que comer. Vencedor de vários prêmios no Festival de Veneza, o filme, fotografado por Lauro Escorel e com trilha sonora de Adoniram Barbosa, se tornou, em 2015, o décimo quarto melhor da história em uma lista formulada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Uma obra fundamental, pungente, de grande relevância artística e que permanece como uma das preferidas de qualquer cinéfilo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Picanha em Série - Anne With An E

A gente sabe que a Netflix produz mais ou menos umas 50 séries por SEGUNDO e que nem sempre é fácil escolher aquilo que vamos assistir na plataforma de streaming. Mas se tem uma série que tem sido unanimidade e que tem ganho adeptos a cada dia, está é a graciosa Anne With An E. Baseada no livro Anne de Green Gables, da escritora canadense L. M. Montgomery, conta a história de uma jovem órfã que é adotada por engano por um casal de irmãos, que na verdade preferia um rapaz que lhes pudesse ser útil nos afazeres da fazenda em que ambos residem. Só que Anne não é uma garota qualquer: tem personalidade forte e uma esplêndida eloquência, que ela transforma em frases absolutamente inspiradoras e que mais parecem saídas de algum livro romântico de algum escritor erudito. O que faz com que os irmãos, a despeito da desconfiança inicial, se encantem com a garota. E fiquem com ela.

A propósito, o entusiasmo que Anne tem pela vida é algo absolutamente apaixonante. Quase comovente. Não são poucas as sequências em que ela se vê contemplando a paisagem idílica - sem deixar de professar o seu encanto, claro - ou recordando alguma passagem da literatura que, para ela, seja fascinante, vívida, plena de sentido. Exímia oradora, a jovem está o tempo todo surpreendendo o espectador com frases deslumbrantes, como, "amigos verdadeiros sempre estão junto em espírito", "a vida vale a pena de ser vivida desde que haja risada nela" ou ainda "não é maravilhoso que cada dia possa ser uma nova aventura?". Anne fala muito. E, invariavelmente são frases cheias de significados, complexas, ricas. Assistir a Anne With An E é, no fim das contas, redescobrir o prazer pelas coisas simples da vida. (e ter uma pequena aula de literatura)



O que não quer dizer que não haja problemas. As dúvidas sobre a permanência em Green Gables, a maturidade que se aproxima (bem como as paixões), as amizades que podem ser interrompidas por algum comportamento inadequado... mesmo os assuntos mais prosaicos são tratados de forma tão solene quanto divertida (e quando você perceber já estará rindo junto com as garotas em digressões sobre temas como menstruação). E, ainda assim, por mais que o formato (e até os lindos cenários e fotografia) remeta a algum tipo de fábula que não sabemos qual, lá estarão temas relevantes como o papel da mulher na sociedade, o preconceito com gays, órfãos, negros e outras minorias, as diferenças sociais e a importância das artes e da cultura no caráter e na formação do sujeito. No fim das contas é uma série tão bonita que as palavras - tão caras à própria Anne - jamais parecem ser suficientes.

E há ainda os apaixonantes atores que interpretam cada uma das figuras que vemos em cena. A começar pela atriz Amybeth McNullty, que interpreta a protagonista e que, sabe-se lá saída de onde (com seus cabelos ruivos, sardas e olhar decidido) não poderia ser mais perfeita para o papel. Já Geraldine James e R. H. Thomson são os irmãos com personalidades diametralmente opostas mas que, ali adiante, dispensarão o mesmo zelo, pela carismática e romântica protagonista. E há um grande grupo de jovens que interpretam os amigos e colegas e que, dotados de personalidades complexas, apenas enriquecem a trama. A gente não costuma pedir para que vocês assistam as séries que indicamos aqui no Picanha em Série. Mas em um mundo tão cheio de ódio, de preconceito e de intolerância, façam um favor a si mesmos: assistam Anne With An E com o coração leve e deixem aflorar aquilo que de melhor há dentro de vocês. Temos a certeza de que vocês não se arrependerão.