segunda-feira, 18 de junho de 2018

Lado B Classe A - Muse (Black Holes and Revelations)

É muito provável que poucas bandas sejam tão "ame ou odeie" como o Muse. Quem gosta, costuma destacar o virtuosismo do grupo, o seu esforço em soar grandiloquente e pop ao mesmo tempo, sem esquecer do clima retrô/futurista que rege as composições. Quem não gosta, acha Matthew Bellamy um vocalista exagerado e a banda cheia de afetações, com sintetizadores excessivos (e repetitivos) e aquele clima rock de arena farofa capaz de irritar qualquer ouvinte do novo milênio. Para o bem ou para o mal, é um grupo que costuma chamar a atenção - sendo cada novo lançamento aguardado para ser louvado e atacado em igual medida. Aqui no Picanha nosso sentimento é curiosamente misto, já que não morremos de amores pelo quarteto. Mas há bons álbuns, casos de Origin Of Simmetry (2001) e Absolution (2003). Só que o disco que, até hoje, permanece inabalado no coração dos fãs, é o irretocável Black Holes and Revelations, de 2006.

Poucas vezes na história os ingleses parecem ter alcançado tamanha uniformidade em um registro - ainda que cada composição funcione surpreendentemente de maneira isolada. Com aparente consciência daquilo que representa em termos de personalidade no universo musical, Bellamy e companhia parecem se deleitar ao flertar com os mais variados estilos - da eletrônica "alienígena" ao pop radiofônico, passando ainda pelo rock progressivo. Canções como Starlight, por exemplo, não fariam feio em algum registro que compilasse as melhores canções dos anos 80 - ainda que o refrão (aliás, são dois refrões) represente o tipo de "explosão" típica que acompanharia o grupo por toda a carreira. Já Supermassive Black Hole, cantada por Bellamy em falsete, mais parece extraída de algum registro perdido do Prince, ainda no milênio passado (e não poderia haver melhor elogio do que esse, vamos combinar).



Outra canção que chama a atenção é Knights Of Cydonia - que mais parece saída de um daqueles antigos jogos de RPG e que determina o momento exato em que os aventureiros encontram o seu maior vilão - e a sonoridade, que lembra uma espécie de cavalaria se aproximando do espaço sideral, contribui para esse clima. Já Invincible talvez seja uma das mais doces e belas baladas já feitas pela banda - e talvez uma das únicas. Afeito desde sempre aos temas políticos, o Muse utiliza o registro também como um veículo para a crítica social a sistemas opressores e como comentário para uma sociedade tecnológica, fria, individualista e vigiada pelos governos - tipo de estratagema que se ampliaria até a chegada de Drones (2015), mais recente trabalho. Map Of The Problematique fala de maneira escancarada sobre o sentimento de isolamento (A solidão vai acabar / Quando essa solidão vai acabar?). Já Exo-Politics versa sobre teorias da conspiração, em meio a uma sociedade que permanece alienada e letárgica diante de tudo (Enquanto conspirações se espalham / Você irá fechar ou abrir sua mente / Ou permanecer hipnotizado?).

Ainda relativamente longe da pretensão que transformaria a banda quase em uma caricatura dela mesma, anos mais tarde, Black Holes and Revelations ainda é o tipo de disco que envelhece bem e é capaz de traduzir - talvez numa espécie de combo com o multipremiado (e já citado) Absolution (2003) - qual a verdadeira personalidade do grupo. Se aqui e ali, é possível perceber influências de artistas distintos como Queen, Depeche Mode, Radiohead ou o já citado Prince, isto também parece se dar pelo fato de Bellamy. o baixista Chris Wostenholme e o baterista Dominic Howard estarem menos preocupados com o hype. Espontâneo e excêntrico na mesma medida, dançante e cheio de guitarras enérgicas que nos fazem ir do velho oeste ao apocalipse em um piscar de olhos, o registro recebeu uma infinidade de críticas positivas - o semanário New Musical Express deu nota 9 (de 10) e a revista Q o avaliou com cinco estrelas. Já aqui no Picanha, não poderia ser diferente, já que o trabalho é um verdadeiro Lado B Classe A.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Trem da Vida (Romênia)

De: Radu Mihaileanu. Com Lionel Abelanski, Agathe de La Fontaine, Michel Muller e Clément Harari. Comédia / Drama, Romênia / Bélgica / França / Israel / Holanda, 1998, 103 minutos.

Talvez o fato de Trem da Vida (Train de Vie) ter sido lançado apenas um ano depois de A Vida É Bela (1997) tenha ofuscado um pouco o brilho dessa pequena joia do cinema romeno - afinal de contas, dois filmes "seguidos" que apostassem no bom humor ou no clima farsesco na abordagem da Segunda Guerra Mundial, talvez pudesse ser considerado um certo exagero. Mas o fato é que um dos grandes trunfos da obra do diretor Radu Mihaileanu está justamente em sua imprevisibilidade. No espírito anárquico, quase juvenil. No humor excêntrico, nunca óbvio e quase surrealista. O tipo de reinterpretação iconoclasta de um evento tão marcante, que talvez só tivesse sido alcançada anteriormente pela trupe do Monty Phyton. Há rumores de que Roberto Benigni havia sido convidado para dirigir o filme e que este o teria inspirado para a sua grande obra-prima. Vai saber.

A trama nos transporta para a Europa Oriental, no ano de 1941. É lá que a população judaica de uma pequena aldeia fica assombrada com a notícia de que os nazistas estão a caminho e que o povoado será o próximo a ser atacado por eles. A ideia para um engenhoso plano de fuga, surge da mente de Shlomo (Lionel Abelanski), considerado o louco do vilarejo. Ele propõe ao Conselho de Sábios que a comunidade simule uma falsa deportação, com parte dos judeus do local interpretando os "papeis" de nazistas. Dentro de um trem - o tal "trem da vida" do título - os falsos alemães conduziriam os demais integrantes da vila para a Palestina, como se estes fossem "prisioneiros". A ideia, por mais estapafúrdia que seja é levada adiante e mobilizará toda a população local, que deverá não apenas aprender a língua de Goethe, mas também costurar roupas idênticas àquelas usadas pelos nazistas, além de reformar um velho trem para que este fique exatamente como aqueles utilizados pelos integrantes do Reich.



Sim, é um filme nonsense e é pra ser nonsense - daqueles em que, reconhecidamente, temos de entrar no clima da história para que possamos curti-la. O que não é difícil, já que o filme possui um elenco tão entrosado que as piadas fluem quase como se fossem pequenas esquetes que poderiam integrar os melhores programas de humor da atualidade. Por exemplo, como não rir do sujeito que acredita que a Segunda Guerra possa ter começado pelo fato de as pessoas debocharem do sotaque (e do jeito) de os alemães falarem? E a impagável cena em que chega a comunidade o maquinista "contratado" junto ao setor de transportes, que acaba carregado nos braços, após apresentar um livro chamado "Como Dirigir Uma Locomotiva"? E o que dizer da sequência em que o enxadrista da comunidade é consultado para que ele seja capaz de determinar os próximos movimentos dos alemães?

Esses são alguns exemplos de piadas - são outras tantas - que poderiam parecer bobas em um roteiro mal conduzido, mas que acabam sendo absolutamente surpreendentes e divertidas dentro do contexto do filme. Ainda assim, na película não prevalece apenas o humor juvenil, havendo ainda, em seu subtexto, uma severa crítica social as dificuldades que temos de aceitar pessoas com ideias diferentes das nossas. Em certa cena, Esther (Agathe de La Fontaine) reclama do fato de o seu futuro pretendente ser nazista - um falso nazista - e comunista ao mesmo tempo (duas coisas terríveis, de acordo com a personagem e, evidentemente, discrepantes). Aliás, a existência de uma dissidência comunista entre os judeus, provoca um curioso fenômeno, que faz com que os falsos nazistas passem a se comportar de maneira mais autoritária, quase como se fossem, de fato, os alemães de verdade. (situação que faz com que, inevitavelmente, nos lembremos de obras como A Revolução dos Bichos, de George Orwell).


[SPOILER] Próximo de completar 20 anos de seu lançamento, O Trem da Vida segue sendo não apenas um divertido "filme de guerra", que tira sarro de todos os sistemas e modelos totalitários juntos, mas também um ousado manifesto sobre o poder da imaginação - e não é por acaso que, até hoje, a cena final da obra se constitui em uma das mais desalentadoras e melancólicas da história do cinema. O tipo de sequência muito semelhante aquela que assistimos na conclusão do já citado A Vida É Bela - quando a morte do protagonista nos dá o choque de realidade necessário para que percebamos que, na guerra, não há espaço para a fantasia. E que os nazistas fictícios e estúpidos, que aparecem como imagens difusas na cabeça de Shlomo, nada mais são do que fruto de sua mente. Simplesmente inesquecível.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Show de Truman (The Truman Show)

De: Peter Weir. Com Jim Carrey, Laura Linney, Natasha, McElhone, Ed Harris e Paul Giamatti. Comédia dramática / Ficção científica, EUA, 1998, 107 minutos.

Poucas vezes a nossa capacidade quase infinita para o culto a (sub)celebridades descartáveis - ou não - foi tão bem retratada quanto no clássico moderno O Show de Truman (The Truman Show). Pouco antes da febre chamada Big Brother tomar conta das televisões mundo afora, a obra do diretor Peter Weir (A Testemunha), anteciparia a onda de reality shows que tentariam a todo o custo atrair a atenção do telespectador do novo milênio - tão curioso pelo excêntrico, pelo diferente e pela vida alheia, claro. Hoje em dia existe reality show pra tudo - pra se tornar o melhor chef, pra ser a melhor drag queen, o melhor cantor. No caso da obra de Weir, o protagonista Truman Burbank (Jim Carrey) também está em um programa desse tipo. Mas sem ter consciência disso já que, desde o seu nascimento, ele é monitorado durante as 24 horas por dia por cinco mil câmeras, com a sua existência resumida a uma rotina repetitiva, em uma espécie de cidade fictícia que fica em uma ilha.

Astro principal do reality sobre a sua própria vida, Truman é acompanhado há quase 30 anos por espectadores de todo o mundo, já que o programa é transmitido durante as 24 horas do dia. Para manter a audiência, além das ações rotineiras - como a ida ao trabalho ou o contato com vizinhos e conhecidos nas ruas (todos atores figurantes) - o diretor da atração Christof (Ed Harris) insere, aqui e ali, fatos marcantes, como o festejado casamento ou a traumática morte do pai de Truman (o que explica a aversão do sujeito a água, já que o homem morre afogado quando o barco em que utilizam é atingido por uma forte tempestade). Tudo de mentirinha, claro. Assim como são de mentira os programas de rádio, as notícias que são publicadas nos jornais, o clima, os acontecimentos do trabalho e até as ruas, que mais parecem saídas de alguma maquete de feira de ciências.



Só que aos poucos Truman passará a desconfiar de sua condição, já que nunca será dada a ele a oportunidade de sair da ilha, havendo sempre um motivo que o impeça (um ônibus quebrado, um vazamento radioativo ou alguma reação motivada pelos seus traumas). O seu sonho de ir a Fiji para um eventual encontro com a paixão juvenil Sylvia (Natasha McElhone) também será barrado de todas as formas. E a desconfiança do protagonista só aumentará quando a equipe de produção de Christof cometer alguns lapsos, como na cena em que um holofote cai sobre o cenário ou na sequência em que um backstage é revelado. Isso sem contar o inexplicável reaparecimento do pai de Truman, anos depois de ele ser dado como morto. E será ligando todos esses pontos, que Truman será capaz de reconhecer o tipo de jogo sórdido em que está envolvido.

Equilibrando comédia e humor na medida certa, O Show de Truman trazia, à época, um Jim Carrey pela primeira vez menos engraçado e caricatural - e até mais comovente (sendo praticamente impossível não se emocionar em suas cenas mais redentoras, cheias de metáforas sobre o necessário questionamento a respeito do status quo e também do sistema a que, nós mesmos, estamos presos). Da mesma forma, Laura Linney como a esposa Meryl, entrega uma ótima caracterização. De forma metalinguística, entrega um "papel" de amplo profissionalismo, sendo especialmente divertido ver ela sugerindo uma série de produtos ao marido, com o único objetivo de fazer merchandising. Já Ed Harris, como o vilão onisciente e onipresente, parece ter plena consciência do fato de que o show por ele projetado pode ter, sim, data para terminar. Um tipo de comportamento que o torna um sujeito mais complexo. E menos maniqueísta.


Quase 20 anos após o seu lançamento, O Show de Truman segue sendo uma obra absolutamente saborosa de ser assistida e chega a surpreender o fato de que, em um mundo tão tecnológico (como o que a própria película critica), ela mesma tenha envelhecido tão bem. O filme nunca parece datado ou excessivamente nostálgico. Ao contrário, traz um subtexto tão possível, que não surpreenderia, mesmo nos dias de hoje, o anúncio de um programa que repetisse o formato proposto pela equipe de Christof. Vai saber. Seria mais um reality em meio a tantos. [SPOILER] Nesse sentido, é possível dizer que a cena final, em que uma dupla de espectadores conversa sobre o que "estaria passando em um outro canal" assim que o programa de Truman finalmente termina, nada mais é do que um resumo de nosso comportamento enquanto consumidores, diante da telinha. Essa caixinha mágica que nos faz rir, chorar e se emocionar. E ficar presos, por meses, as vezes anos, a uma mesma atração.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Tesouros Cinéfilos - Adeus, Lênin! (Goodbye, Lênin!)

De: Wolfgang Becker. Com Daniel Brühl, Katrin Sab, Chulpan Khamatova e Florian Lukas. Comédia / Drama, Alemanha, 2003, 121 minutos.

Passados quase quinze anos de seu lançamento, o clássico moderno Adeus, Lênin! (Goodbye, Lênin!) costuma ser muito mais lembrado pelo contexto político - a trama se passa nos dias em que Berlim estava dividida entre os lados ocidental e oriental - do que como uma obra singela sobre a relação entre mãe e filho. A história retorna para o ano de 1989, durante a Guerra Fria, para nos apresentar à senhora Kerner (Katrin Sab). Diplomata e ativista política pelo Partido Comunista ela tem um ataque cardíaco e entra em coma, após presenciar o seu filho Alex (Daniel Brühl) em uma passeata a favor do regime capitalista. Nos meses em que fica desacordada, ocorre a queda do muro que separava a capital alemã, o que representa uma profunda mudança no lado oriental. Só que quando a senhora Kerner acorda do coma, o médico alerta Alexander para os riscos que emoções extremas possam representar para a matriarca. Mas como "esconder" dela os acontecimentos?

A trama é engenhosa e exige de Alex uma sofisticada logística para que ele possa recriar a Berlim Oriental no entorno da mãe, após a queda do muro - o que envolve desde os tipos de móveis e o papel de parede utilizado na casa da família, até a marca de pepino que ela irá consumir. Os programas de televisão, antes exibidos pela TV estatal também serão recriados com o apoio de Denis (Florian Lukas), que sonha em trabalhar atrás das câmeras. E será justamente a farsa alimentada com o apoio de todos da família - a matriarca não pode nem sonhar com o fato de que, após a queda do muro, a filha (Chulpan Khamatova) já começa a trabalhar uma uma filial do Burger King - que renderá uma série de momentos divertidos, como no caso da sequência em que assistimos a um grande banner da Coca Cola ser desenrolado em um prédio vizinho enquanto a senhora Kerner observa incrédula a ocorrência.



É um filme, no fim das contas, sobre o esforço de um filho em dar uma sobrevida para a já calejada mãe - e de seu esforço em manter as crenças da matriarca inabaladas, ainda que de maneira ficcional. Sem tomar partido em relação aquilo que seria melhor para o mundo - capitalismo ou socialismo - o diretor Wolfgang Becker torna o modelo exibido por Alex e seu amigo como uma espécie de ideal do modelo sonhado pelo lado Oriental, capaz de pensar na sociedade como um ente mais justo, igualitário e capaz de respeitar os modelos políticos diferentes (como no caso da fictícia sequência em que o lado oriental recebe refugiados vindos do outro lado da cidade). Já o capitalismo surge como uma novidade oxigenada, capaz de transformar os jovens alemães em uma massa de yuppies alienados, apenas preocupados com o trabalho e com o dinheiro (enquanto os idealistas convivem com o desemprego).

Mas o que se sobressai mesmo é a sequência final [SPOILER] em que a senhora Kerner, ao perceber todo o esforço do filho para manter vivo um mundo que já não mais existia (ao menos na Alemanha), olha para ele com ternura, sem jamais revelar o fato de que ela já tinha conhecimento da farsa. Nesse momento se vão embora as diferenças políticas, de pensamento, de visões de mundo - ainda que, é preciso que se diga, Alex pareça participar do protesto do começo do filme sem qualquer tipo de consciência política, tendo a intenção de apenas se aproximar de uma jovem, comendo uma maçã de maneira despretensiosa. Ao tornar um tema tão pesado como a queda do Muro de Berlim em uma obra leve, divertida, singela, tocante, Becker transforma Adeus, Lênin! em um dos filmes mais queridos pela geração que chegou a fase adulta no começo dos anos 2000.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Músicas Gêmeas - Chuck Berry x The Beach Boys

Mais um daqueles "causos" absolutamente divertidos de Músicas Gêmeas e, devo admitir que já me aconteceu de começar a ouvir Sweet Little Sixteen do Chuck Berry no rádio e me dar conta alguns instantes depois de que se tratava na verdade de Surfin USA dos Beach Boys. O instrumental de ambas é tão parecido que é quase impossível notar a diferença logo de saída (ou estou exagerando?). Bom, polêmicas a parte, as canções são tão semelhantes que o vocalista dos Beach Boys Brian Wilson se viu obrigado a creditar Berry no compacto lançado pelo grupo em 1963, após a ameaça de uma ação judicial - afinal de contas a música era muito conhecida. Em tempo, a canção de Chuck Berry, foi lançada há exatos 60 anos (em 1958).



Disco da Semana - Silva (Brasileiro)

Ainda que a opção pela MPB em seu estado mais puro possa representar uma escolha bastante cômoda na carreira do capixaba Silva, parece ser inegável a sua capacidade não apenas de se reinventar - ainda que em um gênero tão consolidado - mas também de se adaptar bem a qualquer estilo. Se nos dois primeiros registros - Claridão (2012) e Vista Pro Mar (2014) - parecia ser inescapável uma empolgação juvenil que se manifestava por meio de sintetizadores ensolarados e versos primaveris (tão saborosos quanto o final de tarde entre amigos na beira da praia), a partir de Júpiter (2015), o que se convencionou com a adoção de uma eletrônica mais intimista foi o velho refrão que diz que "menos é mais". Silva passou a ser mais direto nos versos sobre o amor - tão caros a qualquer um de nós. E, como numa espécie de contraponto, passou a uma abordagem mais discreta, quase tímida - o que aumentou ainda mais o amor dos fãs por ele.

Agora, com Brasileiro, o artista parece prosseguir com esta proposta - a de tocar o coração do ouvinte, mas com sutileza, com carinho, sem exagero. Partindo das beiradas para chegar no centro, assim como fazemos quando deixamos a melhor parte da nossa refeição para o final. Nesse sentido, o registro se apresenta como uma extensão quase natural do material apresentado nas recentes edições de Silva Canta Marisa (2016) e Silva Canta Marisa Ao Vivo (2017). Ainda assim, é preciso que se diga, Silva se apropria de tudo aquilo que existe de melhor na MPB (e também na bossa nova, do samba e de outras vertentes), mas sem deixar de imprimir a sua personalidade a cada uma das composições. “Acho que o disco reflete a forma como eu me enxergo no mundo, e também a maneira como hoje me enxergo brasileiro, profundamente ancorado na esperança do que surgirá de bom de todo esse caos em que vivemos", explica o artista no material de divulgação, como forma de justificar tanto "brasileirismo" em um só trabalho.



Talvez não seja por acaso o fato de o primeiro single, a grudentíssima Fica Tudo Bem, contar com a participação da cantora Anitta, afinal de contas nada mais brasileiro e contemporâneo do que a fusão entre artistas de vertentes tão distintas como o pop, o funk e a eletrônica. Como ocorre na maior parte do registro, a canção de versos delicados, mergulha descaradamente no romantismo confessional provocando a identificação imediata do ouvinte - Amigo, amar alguém a fundo / É coisa séria de querer (de querer) / Cuide de quem te quer e cuide de você (Cuide de você). O expediente se repete em muitas outras canções, casos de A Cor É Rosa (E sempre que eu pensar no meu bem / Vou colorir o dia), Ela Voa (Quem tentar entender o amor / Corre o risco de enlouquecer / O amor não tem solução, é só viver, é só viver) ou Duas da Tarde (Vem cá / Pra fora da cama / São duas da tarde / Vou ali ver o mar). Tudo emoldurado por um clima agradável, de romance febril (e gostoso), daqueles que a gente deseja que nunca termine.

Ainda que, declaradamente, o cantor não tivesse a ambição de transformar o registro em um painel político, assim como fazem tantos outros artistas, a discussão acaba sempre surgindo, aqui e ali, como no caso da inaugural Nada Será Mais Como Era Antes (que tem um poema de Gonçalves Dias como base para a letra) ou Milhões de Vozes (que não deixa de demonstrar certo desalento com a ignorância que se desnuda todos os dias, especialmente nas redes sociais). Ainda assim, entre batidas eletrônicas minimalistas, percussão bem pontuada, corais de vozes, lalaiás e outros efeitos, Silva quer mesmo é falar de amor. E o faz dialogando com nomes tão distintos como Caetano Veloso (Let Me Say), Chico Buarque (Prova dos Nove) e João Gilberto (Duas Tarde). Ouvi dizer / Que é lugar bem bom pra se morar / Quem mora lá / Não quer nem viajar, encerra Silva na derradeira Brasil, Brasil. Nesse País tão bonito cantado pelo capixaba, de fato, não há vontade de sair.

Nota: 8,8

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Grandes Filmes Nacionais - São Paulo Sociedade Anônima

De: Luís Sérgio Person. Com Walmor Chagas, Eva Wilma, Darlene Glória, Ana Esmeralda e Otelo Zeloni. Drama, Brasil, 1965, 106 minutos.

Existe uma cena emblemática do filme São Paulo Sociedade Anônima e que dá conta da completa alienação política/social/cultural com que convivia parte da população brasileira nos anos que antecederam o Golpe Militar no País - a obra do diretor Luís Sérgio Person se passa entre os anos de 1957 e 1961. Nela, o protagonista Carlos (Walmor Chagas) está em um carro com alguns amigos e familiares, que o convidam para cantar alguma música de que goste. A única que ele consegue se lembrar, na ocasião, é o Hino à Bandeira. "Salve o lindo pendão da esperança...", inicia o sujeito, para surpresa de todos. Bom, qualquer semelhança com essa massa burra, ignorante e estúpida que pede o retorno dos militares nos dias de hoje - a tal da intervenção - numa espécie de ufanismo que beira o delírio, não é mera coincidência. E isso que estamos falando de uma obra com mais de cinquenta anos.

Carlos é o tipo de sujeito niilista e hedonista para o qual só existe uma linguagem: a do capital. Experimentando o período de aceleração econômica vivido pelo País - os "50 anos em cinco" do Governo Juscelino Kubitschek - o homem leva uma vida simplória, ainda que confortável do ponto de visto financeiro (ele é gerente em uma indústria da área automobilística). Vagando pela cidade, parece experimentar uma certa descrença generalizada em tudo, enquanto divaga consigo mesmo sobre os seus relacionamentos fracassados e a rotina estável de sujeito de classe média (ainda que cheia de insatisfações). A propósito disso, costuma despejar as suas frustrações, sendo violento, agressivo, machista, justamente nas mulheres que lhe dispensam alguma atenção - entre elas a esposa Luciana (Eva Wilma) e a amante Ana (Darlene Glória). Aliás, não é por acaso que talvez Carlos seja um dos protagonistas mais desprezíveis da história do cinema nacional.



Person filma a cidade, bem como seus contrastes e contradições, como se ela própria fosse uma personagem viva, orgânica. Se por um lado os yuppies brasileiros são mostrados como sujeitos apressados que andam pelas ruas com suas pastas, ternos bem cortados e gravatas, por outro não são poucas as cenas com operários trabalhando pelo crescimento da metrópole. Mas todos eles amparados pela grande cidade, com seus arranha-céus, trânsito urgente, balbúrdia. Os próprios ângulos de câmera escolhidos pelo diretor em muitos momentos geram um efeito meio hitchcockiano, claustrofóbico, como se as andanças de Carlos pela urbe fossem uma metáfora perfeita para definir um sujeito enclausurado e incapaz de escapar de uma rotina repetitiva, cartesiana e de pouca novidade. Aliás, claramente o protagonista talvez não quisesse esse estilo de vida - uma espécie de modelo importado do american way of life. Mas está grudado nele. De forma inescapável.

Servindo ainda como o preâmbulo perfeito para o sentimento de euforia vivido pela população brasileira nos anos que antecederam o Golpe Militar - são muitas as sequências em que a Classe Média é apresentada como um grupo de pessoas capaz de encontrar prazer nas coisas mais "simples" da vida (mas aquelas que o dinheiro compra, como uma viagem ou um passeio de lancha), São Paulo Sociedade Anônima segue sendo muito atual. Como se fosse um verdadeiro documento sobre a importância da consciência política e da educação para o fortalecimento das ideias que regem uma população, a obra foi escolhida, pela sua relevância, como a sétima colocada em uma lista com os 100 Melhores Filmes Nacionais publicada em 2016 pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine). Person realizaria em sua curta carreira alguns outros filmes. Mas poucos com a importância de São Paulo Sociedade Anônima.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Lançamento de Videoclipe - Father John Misty (Please Don't Die)

Um dos aguardados lançamentos do dia é o novo álbum do Father John Misty, intitulado God's Favorite Customer. Após figurar na nossa lista de 25 Melhores Discos Internacionais do ano passado - na oitava colocação, pelo disco Pure Comedy - o americano tem tudo para, novamente, aparecer nas relações de melhores em 2018. Apostando, como sempre, no folk e no pop verborrágico que são a marca registrada de sua carreira, o artista entrega uma nova leva de canções repletas de letras existencialistas com comentários sociais sarcásticos sobre a condição humana. E, como forma de divulgar o trabalho, o cantor disponibilizou nessa semana um videoclipe para a canção Please Don't Die. Dirigido por Chris Hopewell (que já trabalhou com o Radiohead em Burn The Witch), o vídeo em stop motion mostra o músico confrontando a morte após uma ida ao submundo. Vale clicar e conferir!