Hipervigilância, inteligência artificial, onipresença das big techs, guerra cibernética, entretenimento alienante, ascensão da extrema direita e a consequente manipulação política. Vamos combinar que o pós punk soturno, urbano e de combustão meio lenta do Interpol nunca pareceu tão adequado aos tempos que vivemos, como em 2026 - e talvez não seja por acaso que a banda capitaneada por Paul Banks optou por olhar, por meio de This Mirror Weighs a Ton, com certo amargor para esse contexto em que parecemos a cada dia mais pessimistas, em um cenário de desinformação e de realidades distorcidas. Em linhas gerais o espelho pode "pesar uma tonelada", não apenas por aquilo que vemos, mas também por aquilo que parece deixar a nossa imagem deformada por conivência a certa banalização, especialmente frente ao fato de que meio que testemunhamos tudo, o tempo todo, em todo lugar. Sentimento reforçado pela ótima capa.
E talvez não seja por acaso que muitas das canções desse oitavo e mais recente projeto aludam à influência direta da tecnologia em nosso cotidiano. Um bom exemplo disso, pode ser percebido na sombria Iron City, uma espécie de balada metalizada ao piano, que parece simular uma espécie de diálogo entre o narrador que protege a sua família e uma IA, ao mesmo tempo em que tenta identificar se ela é benevolente ou hostil (Dormimos profundamente / E agora a incerteza dá lugar ao progresso). Outras músicas reforçam essas ideias que se espalham de forma melancólica, discutindo assuntos como violência midiática e exposição (Wounded Soldier), polarização em tempos digitais (Enemy), paranoia (See Out Loud) e introspecção e endurecimento emocional (na faixa-título). Verdade seja dita que o Interpol nunca deixou de ser relevante. Mas aqui talvez tenhamos o maior acerto desde o excelente El Pintor (2014).
De: Pedro Almodóvar. Com Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Patrick Criado, Victoria Luengo e Quim Gutiérrez. Drama / Comédia, Espanha, 2026, 111 minutos.
Devo admitir que vejo certa beleza meio poética em ver artistas mais velhos permanecendo criativos e relevantes - seja o Clint Eastwood com mais de 90 anos andando de cavalo em um filme ainda recente, mesmo tendo mais de noventa anos, ou acompanhando os Rolling Stones lançando álbum novo em pleno 2026, mesmo com mais de 60 anos de carreira. Mas se a gente acredita que há um tempo ideal de aposentadoria para qualquer ser humano, por quê para quem trabalha com música, cinema, literatura, artes plásticas ou qualquer outro campo da criatividade deveria ser diferente? Bom, Natal Amargo (Amarga Navidad), o novo filme do diretor Pedro Almodóvar, um dos favoritos aqui da casa, parece ser bastante autobiográfico ao versar sobre o assunto que, aqui e ali, aparentemente perturba artistas que vão se aproximando da velhice, como é o caso dele mesmo, que está com 77 anos. Até quando seguir produzindo? É possível viver apenas do prestígio já acumulado por décadas?
Em entrevista à Vogue espanhola, o realizador famoso por uma série de clássicos - muitos deles resenhados aqui no Picanha, como Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (1988), Carne Trêmula (1998), Tudo Sobre Minha Mãe (1999) -, admitiu que um dos maiores medos de quem trabalha no meio artístico é perder a capacidade de criar. O que parece estar no centro do comportamento de Raúl (Leonardo Sbaraglia), um renomado cineasta especialmente ligado a causas LGBTQIA+, daqueles que são tão relevantes que um simples convite para participar de um painel na Europa, significa o depósito de 200 mil dólares em sua conta. Ele já tem fama, prestígio, e poderia seguir para sempre no ostracismo, que não passaria fome. Mas ele está empenhado em um novo roteiro - justamente o de Natal Amargo (que é o filme dentro do filme) sobre Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de comerciais de TV, que sofre com severas e recorrentes enxaquecas.
A trama de Elsa se passa em 2004 e, em alguma medida, remonta à juventude do próprio Raúl, uma vez que uma série de eventos parecem inspirados em sua própria vida pregressa. Por exemplo, o atual namorado Santi (Quim Gutiérrez) surge em sua juventude como o bombeiro que faz um bico como stripper Beau (Patrick Criado), o namorado de Elsa que ela conheceu em um clube voltado às mulheres, em meio à despedida de solteiro de uma amiga. Convidado por ela para protagonizar um comercial de cuecas, se torna seu companheiro. Na busca pela cura das dores de cabeça, Elsa vai e vem em meio à consultas em hospitais, até a sua amiga Patrícia (Victoria Luengo) à conectar com uma psiquiatra, que lhe promete um medicamento meio milagroso de tarja preta, que lhe resolveria uma possível síndrome do pânico (e junto a enxaqueca). Que poderia advir de um tipo de processo de autossabotagem já que ela teria tentado, em vão, ser diretora de cinema no passado, com dois filmes atualmente (ou dentro dessa trama) considerados cults por um diminuto público, em sua carreira.
Aqui e ali o excesso de personagens - os da linha do tempo de Raúl ocorrendo vinte anos depois, em 2025 -, e as idas e vindas entre as duas histórias podem gerar uma leve confusão, em uma produção metalinguística que, nem de longe, alude aos melhores momentos de Almodóvar. Só que, ainda assim, verdade seja dita, o diretor segue sendo muito superior a muitos cineastas metidos a cabeçudos que andam por aí, em sua análise afiada de temas gerais ligados ao luto (nas duas histórias os personagens sofrem com perdas), processo de envelhecimento, conflitos relacionados às dores do corpo e da mente e até o ego dos artistas, com seus bloqueios criativos e mesmo autossabotagens. No filme dentro do filme, Elsa vai para o litoral passar férias, inspirada a escrever um terceiro filme, com uma série de personagens femininas e suas relações complexas surgindo na história, como é o caso de Natália (Milena Smit), que seria inspirada em uma amiga de Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), a assistente de Raúl. Entre o inseguro e o incerto, o acomodado e o ambicioso, Almodóvar, pelo visto, pode ficar tranquilo: seu cinema ainda tem respaldo do público e da crítica.
De: Anne-Sophie Bailly. Com Laure Calamy, Charles Peccia-Galletto, Geert Van Rampelberg e Julie Froger. Drama, França, 2024, 94 minutos.
"Isso é ter um filho diferente. Eu tento organizar as coisas, mas tudo que gostaria era de ter um filho 'normal'. Normal! Essa é a palavra proibida que não temos o direito de dizer. Normal! Era isso que eu queria!!". Em uma das cenas mais potentes, comoventes e dolorosas do ótimo Pedaço de Mim (Mon Inséparable), a protagonista Mona (a sempre ótima Laure Calamy, capaz de converter em bons, filmes que teriam tudo para ser apenas médios, como, Minhas Férias com Patrick, 2021) explode no meio da rua, com o seu candidato a namorado Frank (Geert Van Rampelberg). Em resumo, Mona está de saco cheio de ter de lidar com todas as responsabilidades que envolvem a criação de um filho neurodivergente - seu nome é Joël (Charles Peccia-Galletto), um homem já próximo dos 30 anos, com deficiência intelectual e, consequente, dificuldades de aprendizagem.
E não é que Mona não ame Joël - e desde o começo da premiada produção da diretora Anne-Sophie Bailly percebemos que a ligação entre os dois é quase umbilical, como fica evidente no diálogo dentro da piscina -, mas ela está cansada da vigilância, das opiniões, dos preconceitos velados. E também de certo desconforto como um todo, o que me fez lembrar da complexa relação entre pai e filho no ótimo e, para alguns paladares, chocante, livro de Cristóvão Tezza, O Filho Eterno. Assim como Mona na obra disponível na Reserva Imovision, na obra de Tezza o que parece haver é uma certa distância entre aquilo que se sente e o que deveria ser sentido. Não significa que ela rejeita o rapaz. Ela apenas está exausta, depois de anos assumindo sozinha as responsabilidades - ela é mãe solo -, aparentemente sentindo medo, culpa e sendo essencialmente humana ao notar que, aos cinquenta e poucos anos, a sua vida aos poucos se esvai.
Pode parecer meio cruel, mas o caso é que Joël simplesmente desapareceu naquela noite da discussão com Frank, após mãe e filho viajarem para a Bélgica como uma espécie de escape do mundo real. Mona conheceu Frank dias antes em um bar e tudo ficou meio complexo, por assim dizer. Ah, e eu quaaase ia esquecendo um pequeno detalhezinho que amplia as tensões entre todos ali: Joël frequenta um tipo de Instituição de apoio ao trabalho para pessoas com deficiência, local em que conhece a jovem Océane (Julie Froger) que se torna sua namorada. E engravida. Levando a produção para um outro patamar que é o da construção não apenas de vínculos afetivos entre PCDs, mas também da consolidação de suas vidas sexuais (e não deixa de ser interessante perceber a discrepância de opiniões entre os pais de Joël e Océane e a dos orientadores pedagógicos, que, não apenas naturalizam esse processo, o que é justo, como buscam estimulá-los como parte do senso de independência e de capacidade de decisão destes).
Nesse sentido, esse é um filme que parece pequeno, mas que procura evocar algumas discussões mais amplas. Vamos ser francos, a gente realmente não sabe como tratar pessoas com deficiência e há muitos tabus relacionados ao assunto. Em geral quase esquecemos de que há um ser humano ali, com desejos, sonhos, frustrações, medos - e que uma produção seja tão hábil em permitir reflexões sobre esses temas, é algo digno de nota. Outro mérito, algo apontado por Bailly em entrevistas, foi o de não deixar o diagnóstico de Joël claro para o público. O que faz com que também fiquemos meio perdidos nessa piscina ondulante de possibilidades que, dificilmente, possibilitarão uma redenção ou uma conclusão satisfatória. Sim, tanto em O Filho Eterno quanto em Pedaço de Mim a convivência, em meio a frustrações e ressentimentos, se torna um hábito. Superando a mesquinhez do amor imediato e incondicional a qualquer custo, abrindo margem para a também possível exaustão dos pais e a compreensão de seus comportamentos não para absolvê-los, mas talvez para entendê-los. Pode parecer meio árido, mas é extremamente eficiente.
De: Milagros Mumenthaler. Com Isabel Aimé González-Sola, Esteban Bigliardi e Emma Fayo Duarte. Drama, Argentina / Suíça, 2025, 104 minutos.
Vamos combinar que tudo parece meio misterioso no início de As Correntes (Las Corrientes) e, bom, como costuma-se brincar no meme, o final parece o começo. Afinal, na obra da diretora Milagros Mumenthaler parece haver mais um daqueles exames contemporâneos da classe média tendo de lidar com suas próprias angústias e frustrações, ao passo em que tenta tocar a vida com alguma normalidade. Em geral nada parece muito errado na rotina da protagonista Lina (Isabel Aimé González-Sola), uma jovem estilista em ascensão que, não bastasse estar recebendo um prestigioso prêmio em na Suíça, parece ter um marido compreensivo que lhe apoia, seu nome é Pedro (Esteban Bigliardi), e uma pequena filha amorosa, chamada Sofia (Emma Fayo Duarte), a despeito de uma ou outra queixa a respeito das constantes ausências da mãe por conta das suas obrigações no trabalho.
Como dito antes, no início é tudo um tanto enigmático, estranho e envolto em longos silêncios. Lina recebe uma estatueta, abandonando a homenagem e os aplausos para se refugiar no banheiro, onde descarta a honraria no lixo. Vagando por uma Genebra acinzentada, fria, mas inundada por barulhos urbanos - aliás, a edição de som é um dos destaques da produção, claramente sendo utilizada como alegoria para certos estados de espírito -, a protagonista toma uma drástica atitude: a de se atirar no caudaloso rio que corta a capital Suíça. O que para o espectador poderia sugerir certo pendor suicida, mais adiante parece ser apenas um ato impensado. Como uma energia que invade. Irresistível. "Rumo ao infinito, a um tempo suspenso, distante de tudo, com eu apenas me deixando levar", como explica à cabeleireira Amalia (Jazmín Carballo), após o retorno a Buenos Aires, sua cidade natal.
Na capital Argentina, Lina é bem recebida pelos familiares: os abraços da filha, o sexo quente, dedicado e terno do marido, os acordos sociais com a sogra. Mas há algo incomum que parece a cada momento mais evidente no olhar profundo e distante de Lina (com seus angulosos olhos claros), em seu silêncio observador, naquele estilo que nos faz comentar que alguém está em "outro planeta". E que é ampliado por um tipo de medo irracional da água que faz com que ela tenha receio de tomar banho - optando por esponjas umedecidas e toques sutis, a uma distância menos "perigosa". O que resulta no único sinal mais fisicamente visível em seu corpo, que é a oleosidade constante do cabelo, e as consequentes pequenas feridas vermelhas na nuca. As visitas à Amalia, por sinal, tem a ver com esse contexto: como cabeleireira, ela anestesia a cliente (ou paciente), o que permite higienizá-la de forma menos traumática possível. O que faz as escondidas.
[ALGUNS SPOILERS AQUI] Em linhas gerais quem já passou por crises de ansiedade ou mesmo por quadros de depressão sabe que os gatilhos podem ser desencadeados quando menos se espera e sem muita escolha - e, em minha análise, creio que Mumenthaler é muito hábil nessa leitura de mundo em constante movimento, imparável e inexorável, ao mesmo tempo em que lutamos com nossas sofrimentos interiores. E talvez não seja por acaso que, aqui e ali, a atenção de Lina seja desviada para sons ambientes rotineiros e constantes - máquinas de costura, britadeiras, carros no trânsito, bips que saem do videogame -, para fortalecer essa ideia de perturbação. Como um código a indicar a tensão. Lina parece feliz na fachada, mas o que fazer em meio a um pico de ansiedade que sequer lhe impede de ajudar a filha que grita no banho? Ou que faz com que ela tenha vontade de jogar tudo pro alto e fugir? Transtornos psiquiátricos a gente sabe muito bem, não escolhem rico, pobre, alto, baixo, gordo, magro. E aqui temos uma obra fragmentada borrada, talvez propositalmente instável, que não busca soluções. Mas que, com inteligência, elabora em cima de temas como sobrecarga feminina, exaustão emocional e papel da mulher na sociedade.
Sim, pode até parecer um papo de esquerda acomodada (ou cirandeira), mas se a arte pode ser um caminho no sentido de suprimir a dor dos tempos, porque não fazermos isso com um disco mais raivoso como o sensacional Who Loves the Sun, terceiro do Chat Pile? Naturais de Oklahoma, um dos tantos redutos conservadores e religiosos dos Estados Unidos, o grupo de noise rock e sludge metal capitaneado por Raygun Busch é declaradamente de esquerda antifascista, utilizando tanto sua sonoridade furiosa, como os vocais gritados, como forma de denúncia às estruturas de poder, às guerras, ao autoritarismo, à desumanização e ao avanço da extrema direita como um todo. E se nos ótimos anteriores God's Country (2022) e Cool World (2024) a mensagem fosse mais sutil, por óbvio que em um País governado por Trump a coisa precisa ser mais explícita, o que talvez torne esse o melhor álbum do grupo.
Todo esse expediente por ser percebido, por exemplo, na ótima PEN I S MALL, que começa no título da canção - que alude à alegoria da busca por certa compensação que envolve certos poderosos que se acham muito "grandes" de arma em punho -, passando pela melodia explosiva, até chegar à letra sobre alienação e a própria incapacidade de percebermos nosso próprio sofrimento, em um sistema de subordinação ao capitalismo tardio (É hora de trabalhar sobre o sal escaldante / É hora de estourar suas canelas / Greg é um cara, ele nunca bebe água / Greg toma café preto e Pepsi). Outro tema recorrente é a vigilância, especialmente em tempos de doomscrolling, de internet profunda e de channers, que borram os limites do uso da tecnologia. Algo percebido em canções excelentes como Deep Blue (sobre imersão em telas e consumo permanente de "informação"), Influence (a respeito de manipulação das redes por grandes corporações), Same Rules (sobre bolhas e isolamento social) e Intruder (a respeito de paranoia e ansiedade generalizada). Em resumo, é aquele disco pra colocar os fones, acompanhar as letras e começar a deglutir na base do ódio o que vem pela frente no Brasil.
De: Jan Komasa. Com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Brien, Madeline Brewer e Zoey Deutch. Drama / Suspense, EUA, 2025, 112 minutos.
Não sou (e nem pretendo ser) pai, mas não deve ter nada mais amedrontador nos tempos modernos de channers, redpills e incels, do que ver seu filho seduzido pela extrema direita. Ou por ideias autoritárias quaisquer - que dificultam o diálogo, o respeito às diferenças e mesmo à democracia como um todo. Já vimos isso em produções recentes como O Jovem Ahmed (2019), dos Irmãos Dardenne, o francês Brincando Com Fogo (2024), e na série Adolescência (2024). Sim, e se uma das drogas mais pesadas da atualidade é a desinformação, que contribui para a derrocada institucional e para o avanço de uma tirania fundamentalista que mescla política e religião, obras como O Aniversário (Anniversary), que está disponível na Amazon Prime, vêm para nos relembrar do potencial destruidor desse fascismo que fagocita tudo a sua volta, como uma ameba gigantesca.
Em alguma medida, o cinema provocativo de Jan Komasa já havia aparecido no excelente Corpus Christi (2019), que foi o enviado ao Oscar pela Polônia naquele ano. Filmando nos Estados Unidos mais turbulentos do que nunca, aqui ele nos apresenta a uma pacata família de classe média que possui uma espécie de tradição: a de celebrar o aniversário casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora universitária de verve democrata e Paul (Kyle Chandler), proprietário de um modesto restaurante, reunindo os quatro filhos para uma festança. Só que no evento que celebra as bodas de prata dos dois, o filho Josh (Dylan O'Brien) aparece com uma nova namorada: a misteriosa e bem educada Liz Nettles (Phoebe Dynevor) que, mais adiante, Ellen reconhecerá como uma ex-aluna da Universidade de Georgetown que havia lançado, oito anos atrás, um ensaio com ideias totalitárias em que defende que o Estado seja controlado por um único partido político - tendo os demais como inimigos declarados.
E como ousadia pouca é bobagem a nova nora não apenas presenteia Ellen com seu novo livro, um enorme tomo chamado de A Mudança: O Novo Contrato Social, como ainda coopta Josh para entrar para esse partido (ou ideologia) que, aparentemente recebe um caminhão de dinheiro de uma empresa de tecnologia e ciência chamada Cumberland (onde ambos trabalham), fazendo a festa da galera do QAnon que tá "cansada de tudo o que está aí", mas que na hora de melhorar a democracia fazendo-a evoluir, opta por acabar com a mesma democracia. Irritante de uma forma poucas vezes vista nesse ano - méritos de Dynevor, vista em Bridgerton - Liz é aquela pessoa de fala mansa, que vai avançando seus tentáculos pelas entranhas dos Taylor, contaminando todos a sua volta, para o bem ou para o mal - ainda que ela tenha pouca adesão com as demais irmãs de Josh, a advogada ligada a causas ambientais Cynthia (Zoey Deutch), a ativista e artista lésbica Anna (Badeline Brewer) e a jovem candidata a cientista Birdie (Mckenna Grace).
Após um salto temporal de dois anos, Liz anuncia que está grávida, ao mesmo tempo em que suas ideias tomam corpo - com os adeptos adicionando às fachadas de suas casas uma nova bandeira americana, que indica a adesão ao grupo. Para os "desviantes" - e qualquer semelhança ao Brasil da família Bolsonaro e seu forte apelo de agressão à minorias já vulneráveis por si só, não é mera coincidência - resta a perseguição política e a vigilância extrema de um Estado que passa a se comportar como uma versão 1984 à moda Partido Republicano (ou seja, bem real). Quando Anna realiza uma apresentação de stand up subversiva, provocativa e de resistência, ela é atacada tendo de fugir. E a cada novo encontro familiar dos Taylor, que sabe-se lá porque insistem em estar juntos, como se os laços sanguíneos representassem uma necessidade umbilical eterna, a coisa vai escalando. Piorando cada vez mais. Com todos devastados, deprimidos, mortos por dentro. A alegria de viver representada pelas cores fortes, de figurinos mais vibrantes, vista no começo do filme - mérito do desenho de produção - vai dando lugar aos tons acinzentados, sombrios, que revelam o estado de espírito de todos ali. Quando quase ao final toca pela segunda vez a música Don't Dream It's Over, do Crowded House, é impossível não marejar os olhos. Sem muito espaço para um final feliz, a experiência serve mais como um alerta do potencial absolutamente destrutivo causado pela extrema direita. Nunca amigos, parentes, vizinhos, estiveram tão distantes, tão brigados, tão desalentados. Uma dor que, ao que parece, custará a passar.
De: Karim Aïmouz. Com Hermila Guedes, João Miguel, Georgina Castro e Zezita Matos. Drama, Brasil, 2026, 88 minutos.
"Compra minha rifa. E é uma rifa de quê? De uma 'noite no paraíso.". Existe uma expressão que cunhei para definir o tipo de experiência vista em filmes como O Céu de Suely, que é a do Brasil do Asfalto. É aquele tipo de narrativa de calor escaldante, da beira da estrada, do posto de gasolina, do trilho do trem, do caminhão barulhento que passa e das cidades milimetricamente periféricas, pequenas e urbanas, que a gente vê não apenas no cinema, mas também em obras literárias, como as do Marçal Aquino, ou em músicas populares, radiofônicas, bregas e sentimentais que vemos justamente na trilha sonora - como é o caso da versão de Everything I Own, da Diana, que em português recebeu o título de Tudo Que Eu tenho. No caso, esse espaço rodoviários, isolado costuma fugir um pouco do estereótipo do Nordeste arenoso, agreste, que povoa nosso imaginário, sendo próximo de urbe popular da praça, do motel, do karaokê, da rádio, da pirataria.
Disponível na Netflix e vencedora de diversos prêmios, a produção de Karim Aïnouz remonta a um período supostamente feliz do Brasil - o dos primeiros governos Lula, com certa esperança por um futuro melhor, mas que nem sempre parece alcançar aquela parcela mais vulnerabilizada da sociedade que, longe dos herdeiros, bem nascidos e endinheirados, luta uma luta meio que diária. Sim, se pra nossa esquerda mais caviar o Flávio Bolsonaro parece um filme de terror catastrófico de extrema direita, pras pessoas que acompanhamos nesse pequeno clássico moderno, esse fascismo tropical parece ser meio que parte do cenário há uns 500 anos. E é justamente a desesperança, o abandono e a busca por condições melhores de vida, que faz com que Hermila (Hermila Guedes), rife o próprio corpo na tentativa de comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre, no eterno sonho do Sul do Brasil como um idílio de riqueza, de abundância e de trabalho a ser alcançado.
Quando a obra começa, Hermila está retornando para a sua cidade natal, a pequena Iguatu, no interior do Ceará. Acompanhada do seu filho, Mateuzinho, a jovem de apenas 21 anos aguarda a chegada de Mateus, seu namorado e pai do menino, visto em uma imagem borrada e dessaturada do casal em clima de romance, na abertura do filme. Na chegada, a protagonista é recebida de forma carinhosa pela tia Maria (Maria Menezes) e pela avó Zezita (Zezita Matos). No local, Hermila reencontra antigas amizades, como João (João Miguel), um motoqueiro apaixonado que ronda a jovem em suas andanças, além da divertida prostituta Georgina (Georgina Castro), que será uma espécie de conselheira para a tal "noite no paraíso" - o ambicioso prêmio da rifa que Hermila resolver organizar com os locais, após tentativas pouco efetivas de comércio de números com outros prêmios, como garrafas de uísque, e do sumiço sem muita explicação de Mateus, que mal atende suas ligações (feitas num orelhão, só pra adicionar uma pitada a mais nessa semiologia urbana).
Quando a notícia da rifa de Hermila se espalha, as famílias de bem ficam meio que em choque - especialmente após as compras movimentarem a cidade. Ao descobrir o segredo do dinheiro que aumenta, Zezita inquire a neta: a esbofeteia, obrigando-a a se desculpar (e, verdade seja dita que se essa fosse uma produção dos dias de hoje, muito provavelmente o componente Igreja Evangélica, com todo o seu conservadorismo sombrio, seria ainda mais forte). Afetuosa, divertida e naturalista, essa é uma obra que comove, nos fazendo refletir sobre um dos tantos Brasis que está longe demais das capitais, dos nossos olhos, ouvidos, tato. Um dia após a completa derrota do campo progressista nas eleições 2026, O Céu de Suely, que completa 20 anos de lançamento em novembro, é um lembrete: uma vida melhor se faz resolvendo questões práticas. Diárias. Ter o que comer, onde dormir, um trabalho que permita empreender. Acolhimento em alguma medida. Qualidade de vida. Não pensava que uma obra desse tipo, um das 100 melhores da lista da Abraccine, funcionasse também como parte do processo de autocrítica. Mas funciona.
De: David Robert Mitchell. Com Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella e Cristian Convery. Aventura / Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 99 minutos.
Vamos combinar que talvez tudo aquilo que A Última Casa (2026) desejasse ter sido, em termos de "filme sobre uma família em busca da sobrevivência após eventos estranhos começarem a acontecer", O Fim da Rua (The End of Oak Street) é. Sim, a obra de David Robert Mitchell (do estranho O Mistério de Silver Lake, 2018), que chegou nesta semana para aluguel nas plataformas, tem aquele típico cheirinho de nostalgia, não apenas pelo fato de a ação se passar no ano de 1982, mas também pela mistura meio Jurassic Park (1993) se tivesse sido dirigido, sei lá, pelo John Hughes, que recupera o subgênero dos dinossauros que, ao menos na minha bolha cinéfila, andava meio esquecido. E, assim como acontece, por exemplo, em uma comédia romântica, nos filmes de ação e de aventura a coisa tende a funcionar mais se nos importamos com aqueles que vemos em tela. E, não sei se são os tempos brutos, truculentos em que vivemos, mas eu torci para um caralho para que todos ali tivessem um final feliz.
Afinal, obras desses segmentos costumam ter também em seus DNAs algum tipo de metáfora sobre dar a importância para as coisas simples, respeitar as diferenças, abraçar oportunidades ou mesmo acreditar na força dos vínculos entre seres humanos diferentes. Na potência da coletividade, enfim. É um filme que não poderia ser mais distante de qualquer tipo de panfleto - e, que bom, como havíamos falado na resenha de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), nem tudo precisa ser sobre política o tempo todo -, mas capaz de estabelecer forte vínculo com o espectador. Os dinossauros aqui podem até não ser alegoria simbólica para o capitalismo tardio, para o aquecimento global, para pandemias ou o avanço da extrema direita em todos os seus preconceitos. Mas ainda assim opera como uma ameaça mobilizante, capaz de tirar a família liderada por Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), no auge de seus carismas, da zona de conforto.
Na trama, a dupla vive uma vida mais ou menos confortável, ao lado dos filhos Brian (o excelente Cristian Convery) e Audrey (Maisy Stella), em um bairro de classe média de uma cidadezinha do Michigan. Nas aparências pode estar tudo meio perfeitinho, com seus gramados e cerquinhas brancas, mas tanto Denise quanto Greg têm os seus segredos. Ela tem escrito às escondidas, no porão da casa, um livro de autoficção em que verbaliza a insatisfação de uma dona de casa em sua vidinha ordinária - o material bruto é acompanhado por uma vizinha veterana, espécie de conselheira de Denise. Já Greg perdeu o emprego há mais de uma semana e finge estar fazendo um bico numa pizzaria para levantar uma grana extra, quando na realidade este é o único trabalho no momento - ofício, aliás, que envergonha a esposa. Para os filhos, a instabilidade dos pais se espalha pelas frestas, gerando tensões domésticas antes que tudo piore, verdadeiramente.
Em linhas gerais por mais que essa seja uma experiência que vai desembocar em uma séria tragédia - depois que o bairro entra em uma espécie de looping temporal ou buraco de minhoca que o leva meio que para a pré-história, de forma inesperada (e não esperem muitas explicações científicas sobre, que aqui não é o caso) -, não são poucos os instantes leves, de humor e afeto e feitos com equilíbrio. O que permite que o ânimo do espectador flutue de forma imprevisível - e que faz com que num momento estejamos rindo quando uma enorme pilha de cocô de dinossauro meio que brota na casa do vizinho; em outros entremos em pânico com, sei lá, um estegossauro ameaçador que surge do nada; para mais adiante nos comovermos quando todos se salvam no último segundo. Com tudo virando com a inesperada cena de uma dupla de dinossauros, digamos... acasalando - instante em que Greg pede para Denise tirar uma foto (antecipando os influencers de tragédias que habitam nossos tempos). Divertido, tenso, emocionante, por vezes até meio bobo e ainda uma espécie de homenagem a um cinema que rondava as telonas há cerca de trinta ou quarenta anos. Podem ir na fé.