sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Cinema - O Escândalo (Bombshell)

De Jay Roach. Com Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow e Allison Janney. Drama, EUA, 2019, 109 minutos.

Dada a relevância da temática, O Escândalo (Bombshell) tinha tudo para ser um dos grandes filmes do ano, mas o resultado é apenas ok, afinal de contas, vamos combinar que não dá pra tratar com deboche (e até com uma leve inclinação para a passação de pano) o caso real de assédio sexual envolvendo o CEO da Fox News Roger Ailes (John Lithgow, embaixo de toneladas de maquiagem). Foi em 2016 que o episódio - que, confesso a vocês, desconhecia - veio à tona, após uma série de denúncias feitas por jornalistas que trabalharam no canal. Sim, a ideia de que efetivamente existam os repulsivos "testes do sofá" é tão antiga quanto a própria TV. Mas são poucas as jornalistas que tem a coragem de levar acusações adiante, reunir provas e enfrentar exaustivas horas de tribunal que podem, em uma sociedade tão machista como a nossa, ainda por cima comprometer as suas carreiras. E, nesse sentido, a intenção da película é nobre, claro.

Só que a abordagem é o que não funciona tão bem. Há um tom geral bastante ameno na discussão de um tema tão pesado: as quebras de quarta parede, o reforço de estereótipos, as piadinhas fora de hora e até as eventuais tentativas de justificar (pasme) o comportamento de Ailes, tornam o resultado quase oposto. Só que apesar da confusão estabelecida pelo diretor Jay Roach (que esteve à frente da série Entrando Numa Fria e comandou bobagens como Um Jantar Para Idiotas), que parece nunca saber exatamente se está fazendo um drama ou uma comédia, o seu ótimo elenco feminino ainda segura as pontas, o que evita o projeto de naufragar completamente. A começar por Nicole Kidman, que transforma a sua Gretchen Carlson na porta-voz quase isolada na luta contra o patriarcalismo que, em canais de TV tão conservadores como a Fox News (é a Globo News americana, aquele canal assistido pelas famílias geriátricas votantes do Trump), é perpetuado há décadas.


Após ser demitida do canal ao dar um aceno a pautas mais progressistas em seu programa matinal - mais ou menos como se a Ana Maria Braga começasse uma campanha contra o porte de armas aqui no Brasil -, Gretchen processa Ailes por assédio sexual. A sua luta ganhará apoio mais tarde, ainda que divida a opinião pública e a própria redação, que tem na figura da jovem Keyla Pospisil (Margot Robbie) sua principal expoente. Ambiciosa, conservadora, integrante da família de bem - ainda que bissexual -, deseja um posto em algum programa de relevância do canal, o que ela não conseguirá sem a famosa contrapartida. Aliás, sobre isso, é no mínimo questionável a opção da direção de câmera na cena em que Ailes abusa da jovem, já que a sequência seria muito mais impactante se optasse por enquadrar apenas as expressões e as reações do rosto de Margot, diante do episódio absolutamente grotesco que estava vivenciando.

De qualquer maneira o filme tem alguns méritos e o primeiro é levar ao conhecimento do público esse episódio tão absurdo. Há ainda uma crítica bem engendrada nas entrelinhas sobre o comportamento beligerante e machista de Trump (aliás, vamos combinar que o Bolsonaro faz IGUAL), especialmente em sua relação com a imprensa - e, pior, com as mulheres na imprensa. Ele seria eleito naquele ano, aclamado pelo público da Fox News, o que não faria as mulheres esmorecerem, já que a luta ganha força quando outra jornalista, a experiente Megyn Kelly (Charlize Theron) se alinha a causa. No fim, trata-se de uma obra que coloca frente a frente um polo mais fraco e outro mais forte nesse ecossistema cheio de homens engravatados, que são as grandes corporações. O resultado final nos deixa com um meio sorriso, já que esse tipo de luta inglória precisa ainda de muitos outros passos para que o respeito comece efetivamente a prevalecer, especialmente em ambientes competitivos como os canais de televisão, que mentém a crença fetichista de que apenas mulheres bonitas devem ter espaço diante das câmeras.

Nota: 6,5

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Cine Baú - Alma em Suplício (Mildred Pierce)

De: Michael Curtiz. Com Joan Crawford, Ann Blyth, Zachary Scoot, Jack Carson e Bruce Benett. Drama, EUA, 1945, 111 minutos.

Vamos combinar que, em 1945, não era muito comum ver mulheres independentes e empoderadas como protagonistas no cinema - especialmente em filmes noir, em que as femme fatales muitas vezes se dobravam a algum capricho relacionado a relações extraconjugais complicadas, tóxicas ou cheias de conflitos de interesses. E só este fato já transforma Alma em Suplício (Mildred Pierce) em uma obra que se mantém atual e que merece ser revisitada. Quem interpreta a Mildred do título original é Joan Crawford - em papel que lhe rendeu o seu único Oscar. A trama começa com um assassinato em uma casa de praia isolada, com o morto caindo e balbuciando o nome de Mildred. Mais tarde, na delegacia, o detetive encarregado chega a conclusão, a partir de algumas pistas, que o assassino é Bert (Bruce Bennett), ex-marido de Mildred que, motivado por ciúme, teria cometido o crime. Bom, não teríamos um filme se a resolução fosse simples assim, né?

É na própria delegacia que uma resignada Mildred resolve contar uma história que inicia quatro anos atrás, na época em que ela decide se separar de Bert, especialmente pelo fato de ele estar desempregado. Acostumada a vida de dona de casa, com as duas jovens filhas tendo tudo do bom e do melhor, a protagonista sai atrás de emprego. Após conseguir uma colocação como garçonete, junta uma grana, complementa renda vendendo bolos, pega um empréstimo e conta com o apoio do amigo corretor de imóveis Wally Fay (Jack Carson) - um galanteador que não perde a oportunidade de cortejar Mildred -, para comprar o imóvel em que funcionará seu restaurante. Com espírito empreendedor, amplia seu negócio - que se torna uma franquia -, ao passo que se aproxima do bon vivant Monte Beragon (Zachary Scott) que, bom, nessa altura do campeonato já sabemos que é o sujeito que morre no começo do filme.


Parece meio confuso, mas o roteiro absolutamente engenhoso (escrito por Ranald Macdougall), cheio de idas e vindas no tempo, alterna o relato atual de Mildred na delegacia, com um sem fim de cenas em flashback, que vão sendo saborosamente apresentadas ao espectador. Por meio delas, saberemos que a relação de Mildred com a sua filha mais velha, a ambiciosa Veda (a ótima Ann Blyth, que talvez também merecesse o Oscar e eu não assisti A Mocidade é Assim Mesmo, que deu a estatueta a Anne Revere), não é nada boa. Veda não aceita o trabalho da mãe - ela considera trabalhar em restaurante coisa de "subalterno" -, ao mesmo tempo em que tenta seduzir Monte, que é candidato a namorado da Mildred. Rodeada por vários homens, também assistiremos uma Mildred que não se "dobra" pra qualquer cantada barata, especialmente pelo fato de ser uma mulher que não necessita de um homem para sobreviver, que paga suas contas, que vive, que sorri e que sofre (como no triste episódio da morte de sua filha mais nova). O romance não tem lugar de protagonismo aqui. E o que vemos é uma mulher forte que, mais tarde, arcará com as consequências de seus atos.

Espetacular também na parte técnica, Alma em Suplício é um primor na fotografia que aposta no uso de contrastes e reflexos, com sombras nas paredes e nos rostos das personagens, além de imagens que surgem em espelhos sendo utilizadas de forma orgânica para reforçar a tensão. Já a trilha sonora (de Max Steiner), conduz a narrativa com fluidez, sendo capaz de sair dos acordes festivos para os mais tensos com naturalidade (e na mesma sequência). Com ótimos diálogos - a personagem Ida (Eva Arden) tem alguns dos melhores (e ela é até mais feminista do que Mildred) -, o filme não cede espaço para o otimismo, com o desfecho sendo bastante amargo e servindo para que a protagonista descubra que amor incondicional de mãe pode servir apenas para a consolidação de filhos mimados. Ainda que tenha perdido o Oscar para o ótimo Farrapo Humano (1945), a obra do versátil Michael Curtiz (Casablanca, A Canção da Vitória) costuma figurar em inúmeras listas, como no caso da do livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Um filme fundamental.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Novidades em DVD/Now - Quem Você Pensa Que Sou (Celle Que Vous Croyez)

De: Safy Nebbou. Com Juliete Binoche, Nicole Garcia, François Civil e Guillaume Gouix. Drama, França, 2019, 101 minutos.

Em tempos tão tecnológicos como os nossos, é muito provável que não haja pessoa nesse mundo que não tenha experimentado a delícia de ficar horas conversando com alguém - ainda mais se esse alguém for especial - pelas redes sociais. A escolha das frases bem pensadas antes de enviar, o uso de emojis, as palavras ditas (e até as não ditas) e a observação atenta da tela enquanto o "digitando" persiste em aparecer. É algo que todo mundo faz. Ou já fez. E que a protagonista do filme Quem Você Pensa Que Sou (Celle Que Vouz Croyez) também faz. Mas com uma "pequena" diferença. Claire (Juliete Binoche) é uma mulher de 55 anos que, após o divórcio, é aparentemente acostumada a se relacionar com homens mais novos. Homens mais novos que, em muitos casos, não querem muito compromisso - como é o caso de Ludo (Guillaume Gouix), que termina o caso com Claire de forma bastante abrupta (e até grosseira).

Pra tentar se reaproximar do rapaz, Claire cria um perfil falso no Facebook. Por meio dele, adiciona o fotógrafo Alex (François Civil) que, num primeiro momento, deveria ser apenas o caminho para que a protagonista pudesse contatar Ludo. No perfil de Claire, um outro nome: Clara. E fotos e informações misteriosas de uma garota uns 30 anos mais jovem completam o combo. Por ser professora universitária das áreas de literatura e letras, Claire tem um ótimo, inteligente e envolvente papo. E não demora para que Alex fique verdadeiramente interessado na pessoa com quem divide noites e mais noites de conversas divertidas, amenas, safadas. Só que, lógico, Claire não conseguirá manter essa mentira por muito tempo: as pessoas precisam viver no mundo real e o maior desejo de Alex será conhecer a "jovem". E, para nós, que acompanhamos essa jornada, estará estabelecido um ótimo suspense, que bebe na fonte de séries como Black Mirror e de filmes como Ela (2013).


Estruturalmente, o filme é narrado como se fosse uma grande sessão de terapia. Será para a doutora Catherine (a sempre ótima Nicole Garcia), que Claire falará de suas angústias. E de quais estratagemas utilizou para tentar "driblar" o seu novo amigo que, conforme os dias passavam, tinha mais e mais desejos de proximidade. E, pior ainda: sobre como essas estratégias (quase) resultaram em tragédias que poderiam ter modificado a vida de todos os envolvidos na história, para sempre. E, por mais que encaremos Claire como a suposta figura "vilanesca" da história, por ter mentido tão descaradamente, é simplesmente impossível não deixar de compreender a dor de uma mulher que, agora na meia idade, foi abandonada pelo marido, ao passo que a juventude (e o consequente despertar do desejo das demais pessoas), foi ficando para trás. Nesse sentido, a obra do diretor Safy Nebbou é hábil ao conferir complexidade às suas personagens - e a gente fica o tempo todo desejando com todas as forças que o final possa ser o mais feliz possível (especialmente para o "casal" central).

Equilibrando momentos singelos - como aquele em que Claire fala da sensação de alegria de ver a luz verde (que identifica uma pessoa online) acesa -, com outros mais divertidos, como naquele instante em que a protagonista admite desconhecer o Instagram, o filme tem a sua força mesmo nos momentos mais dramáticos (e são tantas as reviravoltas, que a gente acaba surpreendido o tempo todo). Discutindo uso de redes sociais, a solidão na terceira idade, a carência afetiva que muitas vezes nos invade e a idealização do amor, o filme nos apresenta a uma Juliete Binoche mais uma vez arrebatadora. Despida de qualquer vaidade, aparece muitas vezes como uma mulher devastada para, minutos depois, surgir rejuvenescida pelas oportunidades trazidas pela vida e pelas redes sociais (e sempre com a câmera grudada em seu rosto). E o trabalho que ela executa a partir de simples expressões faciais a partir daquilo que ela está lendo na tela (como todos nós fazemos, por sinal), é não menos do que verossímil. É um filme que pode até soar meio exagerado em alguns momentos mas que, minimamente, nos faz refletir. E que ainda nos deixa com a pulga atrás da orelha ao final da última cena.

Nota: 8,5



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Curta Um Curta - Kitbull

A gente já está acostumado a se emocionar com os filmes da Pixar, mas o que essa pequena obra-prima de apenas nove minutos - e que está indicada ao Oscar na categoria Curta Metragem de Animação - consegue, é algo comovente! Pegue dois protagonistas que muitas vezes estão à margem da "sociedade dos animais domésticos" -, no caso um gato preto (com fama de azarento) e um pit bull (com fama de violento). Junte uma incrível história de superação e de busca de felicidade em meio ao inóspito cenário das rinhas envolvendo cães e, bom, temos este Kitbull que, não é exagero dizer, é um dos grandes filmes do ano. A técnica de animação, tão simples quanto convincente - merecem destaque as reações e expressões dos bichinhos -, é não menos do que sensacional. Otimista até dizer chega, a obra mantém a esperança em um cenário de ódio e de desolação que se estende, em muitos casos, também aos animais. Melhor separar o lenço de papel. Especialmente se você não tiver um coração de pedra. Valerá cada segundo.


Cinema - Os Miseráveis (Les Misérables)

De: Ladj Ly. Com Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga e Issa Perica. Drama / Policial, França, 2019, 101 minutos.

"Meus amigos, lembrai-vos sempre de que não há ervas daninhas nem homens maus: há sim, maus cultivadores". Essa frase do escritor Victor Hugo resume a essência do cinema caótico estabelecido em Os Miseráveis (Les Misérables), ainda que pouco tenha a ver com o clássico literário protagonizado por Jean Valjean. Quer dizer, ao menos em partes, já que temas caros ao autor - as injustiças sociais, o abuso de autoridade, a falta de perspectivas das camadas mais vulneráveis -, parecem se espalhar em cada frame da película. Assim como ocorre com outros filmes franceses, este lança um olhar para o lado menos glamouroso de sua romântica capital. Paris está lá e é apresentada em seu esplendor já na primeira cena, quando a Torre Eiffel surge como cenário de fundo para a catarse coletiva vivida pelos franceses em meados de 2018, quando sua seleção foi campeã de mundo de futebol. Mas o futebol, a gente sabe, é uma alegria efêmera. E a vida, com todos os seus percalços, continua. Deve continuar.

Assim que passa o preâmbulo do filme, somos apresentados aos integrantes de uma Brigada Anti-Crime que atua na periferia parisiense - mais precisamente no distrito de Montfermeil. Trata-se de um local com grande miscigenação cultural e racial, com muçulmanos, ciganos, nigerianos e os próprios franceses convivendo em um contexto de pobreza, em prédios atabalhoados de gente. Stéphane (Damien Bonnard) é o novato, que está chegando para trabalhar na delegacia local. Sofre bullying de seus colegas de "front" - os veteranos Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djibril Zonga), que utilizam métodos pouco convencionais em suas abordagens. Algo que é estabelecido na forma agressiva com que interpelam três jovens adolescentes que, supostamente, poderiam estar em posse de drogas. A tensão é latente. Parece haver alguma raiva guardada, que é extravasada em tudo e em cada comportamento. Sempre agressivo e desconfiado, Chris parece uma pilha de nervos pronta a explodir.


O estopim desse cenário de crise permanente vivida nesse dia se dá quando um filhote de leão desaparece do circo local. Esse acontecimento prosaico provoca um choque entre dois grupos locais - a gente percebe que o sumiço do leão é a desculpa para a discussão de algo maior -, que quase resulta em tragédia. Tudo piora quando os policiais descobrem que o responsável pelo sumiço do leão é o pequeno Issa (Issa Perica). Bom, uma confusão envolvendo jovens e crianças do bairro que se revoltam com a forma opressiva com que a polícia trata do caso, resulta em um tiro de bala de borracha no rosto de Issa. E como se tudo já não estivesse beirando o colapso, a cena estapafúrdia ainda foi gravada por um outro menino que, sabe-se lá como, possui um drone que utiliza para filmar os prédios da vizinhança. Sim, poe parecer meio confuso, mas o resumo da ópera é: abuso policial + revolta dos adolescentes + tiro no ROSTO de uma criança. E a brigada iniciando a partir disso, uma verdadeira via crúcis para tentar encobrir o caso.

É um filme caótico, anárquico, desordenado, com homens acoados tentando ganhar qualquer coisa no grito. Ninguém parece conseguir falar sem que seja na ameaça, na bala ou com bastões e armas na mão. A França miscigenada, cheia de pessoas de etnias diversas, de outras religiões e povos, parece não saber como conviver harmoniosamente e o filme parece mandar um sinal para o mundo a respeito da explosão de ódio, de intolerância e de preconceitos diversos, que surge a todo instante no formato de comportamentos xenófobos ou racistas. É uma obra urgente, concisa, que "dá na cara" do espectador. Que lembra que violência gera violência e que não se alcança paz de verdade apenas assistindo juntos a uma partida de futebol. Nesse sentido, poucas vezes se viu um filme tão complexo e tão cheio de camadas na análise do comportamento de seus personagens. Quem afinal são os violões? Os mocinhos? Como reagir em uma vida em que a miséria é a rotina e a burguesia se refestela à distância? Não são perguntas fáceis e o diretor estreante Ladj Ly não oferece respostas fáceis - e nem respiros possíveis, ainda que a última cena da película pudesse nos fazer acreditar em algum tipo de caminho possível, em uma pausa dramática que remete aos poucos instantes de bondade.


Bom, são tantas as virtudes do filme que ele faturou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes em um empate com Bacurau. Tecnicamente, a câmera está sempre no rosto de seus personagens, quase como um documento, sem nunca estabelecer verdadeiramente algum deles como mais relevante (como se o ator principal fosse a própria massa). Já a edição de som também confere urgência, funcionando de forma orgânica, reforçando inclusive aspectos da própria violência. Para nós, brasileiros, é impossível não pensar em filmes como Tropa de Elite (2007) ou Cidade de Deus (2002), em que somos também jogados no meio do caos da periferia - assim como é para Stéphane, que tenta manter um mínimo de sanidade em meio a bagunça desse dia. Mas que também compreenderá em algum momento os métodos pouco ortodoxos de seus colegas, no contexto em que se encontram. A obra foi indicada ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira. Não fará frente ao incensado Parasita (2019), certamente. Mas a nominação é justa.

Nota: 9,0

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Lançamento de Videoclipe - Real Estate (Paper Cup)

O ano mal começou e a gente já tá na expectativa pelos grandes lançamentos musicais de 2020! Já no primeiro trimestre, nomes como Grimes, Destroyer, Tame Impala, Caribou e Moby devem disponibilizar os seus novos álbuns. Já o Real Estate, uma das bandas "favoritas da casa", não apenas anunciou a data de lançamento de seu novo registro, The Main Thing - dia 28 de fevereiro, pelo selo Domino -, como ainda disponibilizou um clipe para o primeiro single, a ótima Paper Cup. Como quase sempre ocorre nos vídeos dos americanos, o clima bem humorado e as melodias primaveris fazem um contraponto para a melancolia que transparece nos vocais de Martin Courtney. Mas no caso dessa música, parece haver uma diferença: um pouco mais de "barulho", ao menos num comparativo com as emanações litorâneas que se sobressaiam em seus trabalhos anteriores. Será um novo caminho criativo? É aguardar para ver!


Pérolas da Netflix - Perdi Meu Corpo (J'ai Perdu Mon Corps)

De: Jéremy Clapin. Com Hakim Faris, Victore Du Bois e Patrick D'Assumçao. Animação / Drama / Fantasia, França, 2019, 81 minutos

Acho que já falei isso mais de uma vez aqui nas resenhas: muitas vezes a gente fica buscando grandes interpretações nos filmes que assistimos, quando o melhor mesmo é viver a experiência e curtir. Sentir o que a obra está te passando. De que maneira ela mexe contigo. Mesmo que aquilo que vemos não seja óbvio ou escancarado na nossa cara. A lindíssima animação francesa Perdi Meu Corpo (J'ai Perdu Mon Corps) talvez seja uma obra sobre perdas. Sobre a busca tão demasiadamente humana pela felicidade. Sobre seguir em frente após algum tipo de experiência traumática. Sobre dores que todos nós temos - e o mundo é cruel demais e temos de encará-lo todos os dias, no final das contas. Enfim, ela é uma dessas obras nem sempre fácil de ser digerida. Eventualmente amarga. Com uma trilha sonora absurdamente envolvente, daquelas que fica na nossa cabeça assim que sobem os créditos, em meio a nossa tentativa de dar sentido ao que vimos. E que, como eu disse, talvez nem sempre careça de sentido.

A história é narrada em duas partes distintas. Em uma delas, uma mão decepada (sim) foge de um laboratório de dissecação e enfrenta uma série de perigos pela cidade, na busca por encontrar seu corpo original. Em outro segmento, somos apresentados ao jovem Naoufel (Hakim Faris), um entregador de pizzas de vida nada fácil que, em meio a uma noite de merda no trabalho, acaba "conhecendo" (vocês compreenderão as aspas quando assistirem) a jovem Gabrielle (Victore Du Bois). Bom, ele fica verdadeiramente obcecado pela garota, se oferecendo para trabalhar na antiga marcenaria mantida pelo tio dela - o que seria uma forma de manter a proximidade. Em uma terceira e última parte assistimos a uma série de flashbacks da juventude de Naoufel, de sua relação com os amorosos pais e sobre como uma tragédia mudou a sua vida para sempre.


Essas três narrativas em algum momento irão se encontrar, em uma obra que é puro lirismo e sensibilidade. Há metáforas espalhadas por todo o canto da história e a presença persistente de uma mosca, pode ser a chave para explicações relacionadas ao nosso destino - e sobre como podemos fazer para tentar dribla-lo. Nem tudo é fácil de compreender, como já dito, mas as pistas espalhadas aqui e ali nos levam a refletir sobre culpa, insegurança e medos, com a mão cortada recebendo um significado maior no terço final da história. Bom o próprio diretor Jéremy Clapin afirmou em entrevistas à imprensa que o filme é um conto de fadas moderno e urbano sobre destino e resiliência. "Ele nos diz que, para mudarmos as coisas, devemos nos surpreender, ousar fazer algo diferente o que nos afastaria do óbvio, do comum", explicou. É o caso de Naoufel, que parece estar o tempo todo nesta busca "libertadora", que lhe retire das amarras do destino.

A obra tem um traço um pouco mais duro, cheio de contrastes entre o claro e o escuro e, definitivamente, trata-se de uma animação adulta. A grande quantidade de imagens de mãos pegando, tocando, encostando em pessoas e objetos dá um sentido menos figurado para a expressão "perder a mão". Mas isso é o menos importante. Naoufel queria ser pianista. Queria ser astronauta. Se tornou motoboy, mudou de emprego. Conheceu uma garota. Seguiu tentando. Pensou em algo diferente. Inusitado. E talvez só tenha conseguido se livrar daquilo que lhe previa o destino, quando agiu na intenção de fugir desse. Perdi meu Corpo foi indicado ao Oscar na categoria Melhor Animação e já faturou uma série de prêmios internacionais - entre eles o da crítica de Los Angeles em sua categoria. Se isto o credencia para voos maiores para a mais cobiçada estatueta do cinema? É aguardar pra ver. Ano passado Homem Aranha no Aranhaverso fez essa dobradinha. Não surpreenderia.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Cinema - Entre Facas e Segredos (Knives Out)

De Rian Johnson. Com Daniel Craig, Jamie Lee Curtis, Ana de Armas, Michael Shannon e Toni Colette. Comédia / Drama / Suspense, EUA, 2019, 131 minutos.

Você certamente já viu essa história mais de uma vez no cinema ou na literatura: alguém morre em um determinado cenário e todos aqueles que estavam naquele ambiente passam a ser suspeitos em um eventual crime. De Assassinato no Expresso do Oriente de Agatha Christie ao divertido filme 8 Mulheres (2002), de François Ozon, foram muitos os suspenses que brincaram com a capacidade investigativa de seu público, espalhando pistas, oferecendo improváveis reviravoltas e possíveis culpados que mais adiante serão descartados (ou não). Aliás, não é por acaso aquela antiga expressão que diz que o "culpado é sempre o mordomo", o que já estabelece no nosso imaginário o eventual cenário de alguma grande mansão, frequentada por um grupo excêntrico de possíveis figuras ambiciosas ou talvez de novos ricos, cheios de motivações escusas para surpreender a todos com algum tipo de golpe meio inesperado. Alguém morre. De surpresa. E o culpado não tardará a aparecer.

Esse tipo de narrativa - tão convencional quanto divertida -, é replicada no ótimo Entre Facas e Segredos (Knives Out), do diretor Rian Johnson.(Star Wars: Os Últimos Jedi). Johnson reuniu um elenco estelar para contar a história por trás do misterioso assassinato do escritor de novelas policiais Harlan Thrombey (Christopher Plummer), justamente na madrugada em que ele comemorou o seu aniversário de 85 anos. Isso significa que praticamente toda a família de Harlan - filhos, noras, genros e netos, a governanta e até uma enfermeira que ajudava a ministrar seus medicamentos -, passam a ser suspeitos no caso. A cada entrevista feita pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig, em aparição hilária), as potenciais motivações de cada um vão se descortinando na tela - assim como uma série de segredos que envolvem adultério, insatisfação com a forma com que são gerenciados os negócios da família ou mesmo o testamento escrito pelo velho, que poderá ter deixado alguém de fora.


Cheio de idas e vindas no tempo, o filme será contado com uma série de bem montados flashbacks, que vão dando pistas do que pode ter acontecido na noite em que Harlan morre. Ana de Armas, que interpreta a enfermeira Marta Cabrera, tem papel central na narrativa, uma vez que é a última pessoa a estar no quarto do escritor, antes de seu corpo ser descoberto com um corte no pescoço (tudo leva a crer que ele se suicidou). Isto despertará a ira dos filhos do anfitrião, especialmente de Linda (Jamie Lee Curtis) e de Walter (Michael Shannon), sendo que este último teve uma pequena discussão com Harlan na mesma noite. Outros parentes, como o genro Richard (o divertido Don Johnson) e a nora Joni (Toni Colette) também surgem na trama com alguma "pendenga" envolvendo o morto. O que significa que, bom... tudo pode acontecer e, como já dissemos, quase todos que estavam na casa são suspeitos.

Ainda que tenha algumas metáforas visuais meio óbvias - a da "estátua de facas" chega a ser quase ostensiva -, a obra é pura leveza na alternância entre momentos de humor, de drama e de suspense. Óbvio, como em qualquer trama do tipo, há um verdadeiro festival de reviravoltas, ainda que nenhuma delas seja necessariamente ofensiva ao espectador (achei elas, inclusive, bem plausíveis, ainda que, aqui e ali, haja uma ou outra coincidência um pouco mais exagerada). A idosa que faz a mãe de Harlan (!) se torna uma espécie de alívio cômico - e o mais divertido é que a atriz K. Callan é seis anos mais NOVA que Plummer -, ao passo que Chris Evans surge pela primeira vez em um papel mais ambíguo, quase vilanesco - no caso como um neto que pode ter as suas motivações para algo escuso. Tudo para tornar a narrativa, que passa de raspão por um outro tema político e necessário na Era Trump (xenofobia, imigração, neonazismo), ainda mais frenética (ainda que nunca complexa). Um grande passatempo, que vale ser conferido.

Nota: 8,0