segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Pérolas da Netflix - Um Banho de Vida (Le Grand Bain)

De: Gilles Lelouche. Com Mathieu Amalric, Guillaume Canet, Virginie Efira e Benoit Poelvoorde. Comédia, França, 2018, 122 minutos.

Taí um filme completamente despretensioso, daqueles que tu não dá absolutamente nada, mas que te conquista já nos primeiros minutos e vai te ganhando cada vez mais, conforme a projeção avança. Sim, Um Banho de Vida (Le Grand Bain) Pode até ser apenas uma comédia divertida sobre homens de meia-idade que resolvem formar um coletivo de nado sincronizado - e foi justamente a excentricidade do tema que me atraiu para a obra do diretor Gilles Lelouche (do péssimo Os Infiéis). Mas o que parece uma mera bobajada, aos poucos vai se transformando em um filme tocante sobre a importância da amizade e, especialmente, sobre o valor das pequenas coisas. Sabe aquele seu hábito que não tem nenhuma importância para a demais pessoas - pode ser jardinagem, frequentar um clube de mães, andar de bicicleta, ir ao teatro -, mas que para você pode ser TUDO na vida? Ou algo minimamente relevante? Bom, esse pequeno achado perdido lá na Netflix te faz refletir sobre isso.

A ideia de participar de um time de nado sincronizado surge meio que por acaso na vida do desempregado Bertrand (o sempre ótimo Mathieu Amalric) - quando ele vê uma propaganda no clube local. A despeito do suporte de sua devotada esposa Claire (Marina Foïs), Bertrand está deprimido pelos dois anos sem trabalho. Assim, treinar nado sincronizado, fazer algo diferente, gastar energia e extravasar dentro da piscina, se torna uma alternativa para não enlouquecer. No local, conhece seus companheiros de nada sincronizado, sujeitos tão derrotados quando ele. Há um empresário que está indo a bancarrota, um músico decadente que não agrada nem tocando em bingos da terceira idade, um homem de personalidade violenta que está sendo abandonado pela mulher e pela filho, um outro que não leva nenhum jeito com as mulheres. E entre eles, até a professora Delphine (Virginie Efira) tem os seus "demônios": atleta de ponta, se tornou alcoólatra após a separação de sua antiga companheira de esporte, sendo o trabalho como treinadora uma forma de se reconectar ao nado.


Sem soar excessivamente melancólica, a narrativa vai revezando as histórias de cada uma das personagens que assistimos em tela, o que faz com que a gente compreenda a importância do grupo de nado, que torna uma espécie de "rede de apoio" para todos os envolvidos. Apesar das dificuldades (e diferenças de personalidade), todos se apoiam, se sobressaindo o companheirismo que vai sendo reafirmado conforme as aulas avançam - e o número exibido por eles vai ganhando força, especialmente após o "surgimento" da enérgica professora Amanda . Até o momento em que eles decidem participar de uma espécie de campeonato europeu de seleções - um tipo de prova definitiva que, inevitavelmente, servirá como uma metáfora para suas próprias vidas. Em um esporte raramente masculino, afinal, não será necessário superar apenas o preconceito, mas também as demais adversidades, sendo hora de levantar a cabeça e dar a volta por cima.

Com leveza, o filme se vale de sua fotografia levemente granulada para conferir naturalidade ao projeto. Há boas piadas e não serão poucos os momentos em que nos pegaremos rindo do inusitado - como na sequência em que o grupo tenta decidir qual será o nome do time - ou do absurdo da condição humana (há uma ótima e tocante cena de discussão no mercado). Mas há também relevância na abordagem de seus temas. A trilha sonora é apropriada, envolvente e eventualmente nostálgica - como não sorrir ao escutar já nos primeiros minutos Everybody Wants to Rule The World do Tears For Fears -, sendo a película um verdadeiro elogio ao poder da amizade, da perseverança e da força de vontade, que é capaz até de fazer o impossível se tornar possível. Um pino redondo pode entrar em um buraco quadrado e vice-versa? Sim, pode. E você que não duvide disso.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Picanha em Série - Fleabag (1ª e 2ª Temporadas)

De: Phoebe Walter-Bridge. Com Phoebe Walter-Bridge, Bill Paterson, Olivia Colman e Sian Clifford. Comédia, Grã-Bretanha / Irlanda do Norte, 2016 / 2019, 320 minutos (aproximadamente).

Fleabag (Fleabag) é a série mais cinicamente divertida dessa temporada e isso, por si só, já é motivo suficiente para darmos atenção a ela. São apenas duas temporadas que totalizam doze episódios com vinte e poucos minutos cada - disponíveis no serviço de streaming da Amazon. Ou seja, dá pra maratonar de boas em no máximo um fim de semana e ainda por cima sem aquele sentimento de "meu Deus como estou perdendo tempo com essa série arrastada que não avança" como é o caso de MUITAS da Netflix. Dilemas da vida adulta, frustrações, relacionamentos fracassados (ou não), feminismo, luto, quebra de paradigmas e muito sexo descompromissado e descolado poderiam representar uma espécie de resumo das digressões propostas pela série - e pela protagonista -, que é vivida com intenso carisma por Phoebe Walter-Bridge, que também criou o show.

Na trama acompanhamos as desventuras da Fleabag do título. Ela é dona de uma cafeteria que vai mal das pernas, tem um ex-namorado meio grudento, uma melhor amiga que surge em flashbacks e que parece ter morrido, uma irmã que é o completo oposto a ela (certinha, casada e frustrada), um cunhado babaca, um pai separado e uma madrasta de grande sensibilidade artística, mas completamente debochada (interpretada pela Olivia Colman, em papel bem diferente daquele que lhe deu o Oscar por A Favorita). Em meio a corrida rotina de luta pela sobrevivência, a complexidade das relações vai sendo revelada em pequenas doses, com o espectador se surpreendendo aqui e ali com a falta de lógica do comportamento humano - e se reconhecendo, em muitas ocasiões, na tela, afinal de contas também nós estamos em busca de ser felizes, tentando fazer o melhor, errando, acertando, chorando e se reerguendo. E isso a obra de Phoebe faz como poucas.


Principal recurso técnico, a quebra da quarta parede - quando o personagem "fala" conosco -, é utilizado de forma criativa, corrosiva, podendo ser sutil ou expansiva, dentro de contexto ou até fora dele. Não são poucas as vezes que Fleabag nos olha apenas com o canto do olho, como se estivesse buscando o nosso aval em determinada sequência. Em outros momentos, os comentários mordazes da protagonista em relação aqueles que lhe rodeiam, servem como divagações perspicazes que nos transformam em secretos confidentes dela. Mas há ainda outro mérito: Fleabag não se considera alguém superior por suas opções ou estilo de vida. Sabe que tem fraquezas, que há feridas relacionadas ao passado que serão difíceis de ser curadas, mas está ali, de corpo e alma, tentando, persistindo. Aliás, suas escolhas na atualidade também serão reflexo daquilo que ela é - como nos mostrará a sua excêntrica relação com um padre, já na segunda temporada.

Utilizando o sexo como uma forma de tentar superar esses traumas, Fleabag parece não ter ninguém ao seu redor que não seja "nós" mesmos - e seremos nós a tentarmos compreendê-la em suas imperfeições, que riremos, choraremos e nos compadeceremos dela e de suas desesperadas tentativas de sobreviver. É um tipo de vida real mais real que a vida e ainda por cima com um charme inglês que a eleva a um outro patamar. Engraçada, tocante, depravada, a série tem uma coleção de personagens tão detestáveis, que acabamos gostando - talvez porque percebamos um pouquinho de nós em cada um deles. É o tipo de série em que rimos do improvável: seja um homem cheio de dentes, uma estátua que passa por "altas aventuras", um retiro espiritual para reconexão ou uma vernissage em que aparece uma "parede de pênis". É o absurdo do mundo. E nós estamos nele. Que venham mais temporadas!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Cine Baú - Viridiana (Viridiana)

De: Luiz Buñuel. Com Sílvia Pinal, Fernando Rey, Margarita Lozano e Teresa Rabal. Drama, México / Espanha, 1961, 91 minutos.

Em entrevistas, quando perguntado sobre sua religião, o diretor Luiz Buñuel costumava dizer que era "ateu graças a Deus". Nesse sentido, não foi por acaso que diversas de suas obras evidenciaram a hipocrisia dos cristãos que até frequentavam a igreja, mas não abriam mão de ter garantida a manutenção do status quo. Mais ou menos como a lógica que estabelece os bons samaritanos como pessoas caridosas, mas distantes de uma real solução para as questões sociais. Em 1961, quando Buñuel lançou Viridiana (Viridiana), a Espanha ainda padecia da Ditadura Militar do General Franco - que duraria até 1975. A Igreja Católica, como não poderia deixar de ser, estava do lado do Regime. Foi nesse País cheio de contradições, que o diretor encontrou o cenário perfeito para a história de uma jovem prestes a se ordenar freira, que desiste após um episódio trágico.

A jovem em questão é Viridiana (Sílvia Pinal) que, por sugestão de sua Madre Superiora, resolve visitar o tio Don Jaime (Fernando Rey), semanas antes de a religiosa fazer em definitivo os seus votos. A protagonista nunca teve muito contato com o tio, mas é grata a ele por ter sido ele ter lhe ajudado financeiramente em sua formação, no passado. Por conta da semelhança de Viridiana com sua falecida esposa, Don Jaime fica obcecado pela jovem. Mantendo-a presa em sua ampla propriedade - no local vivem apenas uma governanta e sua filha, mais um empregado -, o homem acaba dopando a sobrinha com a intenção de estuprá-la. No último instante ele desiste e, tomado pela culpa, comete suicídio. Incapaz de conviver com o remorso, Viridiana desiste da ordenação e passa a morar na propriedade do tio, que deixou a mansão parte para ela, parte para um filho que teve fora do casamento.


É nesse instante que ocorre uma pequena reviravolta na trama, que mais parece dividida em dois capítulos bem distintos. Disposta a fazer o bem, Viridiana arrecada um grupo de bêbados, prostitutas, mendigos e aleijados para lhe auxiliar em tarefas variadas na propriedade, alimentando-os e preparando-os para a vida em sociedade. Tudo vai por água abaixo quando os novos moradores ocupam a sala de jantar da família, transformando uma noite prosaica em um evento grotesco e caótico, que se transforma em uma iconoclasta releitura de A Última Ceia de Da Vinci. Não bastasse a tragédia da falta de efetividade do programa que buscava assistir os vulneráveis, Viridiana ainda é estuprada pelas próprias figuras sujas e decrépitas que abrigara. A descrença total na vida em sociedade e o mal-estar estabelecido pelas diferenças entre classes se encerra na cena final em que uma Viridiana entorpecida pelo absurdo do comportamento humano, se entrega a uma espécie de "orgia familiar" - com as cartas de um baralho servindo como metáfora.

Proibido na Espanha franquista durante muitos anos, Viridiana ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, sendo lembrado pelos fãs como um dos pontos altos de Buñuel. Rico em imagens icônicas, da jovem que pula corda embaixo da árvore em que Don Jaime se enforcou, passando pela abelha que, dentro de um tonal de água, luta para sobreviver, até chegar ao grosseiro grupo de desajustados que se movimenta como uma massa disforme (e tosca) em direção a mansão - estabelecendo um curioso contraste, o filme é valioso por não fazer concessões naquilo que se propõe. Amarga, eventualmente cínica e inegavelmente bem humorada, a obra permanece como uma das mais importantes na análise psicológica dos personagens, não havendo limites para o conflito deflagrado pelo instinto. Ele surge de forma diferente em cada classe social, mas opera de igual maneira.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Novidades em DVD/Now - Deslembro

De: Flávia Castro. Com Jeanne Boudier, Sara Antunes, Jesuíta Barbosa e Eliane Giardini. Drama, Brasil / França / Qatar, 2019, 95 minutos.

"Aqueles que não conhecem a sua história estão fadados a repeti-la". Não deixa de ser curioso pensar que essa frase, tão relevante nos tempos sombrios que vivemos em nosso País, seja atribuída ao teórico político Edmund Burke, filósofo conservador que foi um grande crítico da Revolução Francesa. Em nosso contexto, especialmente se pensarmos na Ditadura Militar - e no aparente desejo de muitos de simplesmente "deletar" esse período traumático de nossa história recente -, ela soa atualíssima. Nesse sentido, quando nos deparamos com um esforço artístico que, de alguma forma, resgata aquele momento, ele já nasce digno de nota. E é exatamente este o caso de Deslembro, de Flávia Castro - obra que nos joga de volta para o final dos anos 70 (no período que em que foi decretada a Lei da Anistia), para contar a história de uma família de exilados, que está voltando para o Brasil.

Mas o retorno ao nosso País tropical não será fácil. Especialmente para a jovem Joana (Jeanne Boudier) que, após ter passado toda a sua infância e adolescência em Paris, na França, reluta em retornar com a família para a terra natal da mãe. A sensação de desconforto da menina irá para além do estranhamento natural de se estar em um novo lugar em que não se tem amigos e os antigos colegas ficaram para trás: haverá alguma coisa incômoda nesse novo cenário que, aos poucos, virá a tona, revelando traumas do passado que pareciam "escondidos" na memória da adolescente. E é impressionante notar como Flávia é hábil na construção de uma narrativa que sufoca mesmo nas cenas mais prosaicas - como um piquenique em família na floresta (que não dá muito certo) ou em eventuais flashbacks em que seu pai, um ativista de esquerda, reaparece em cenas embotadas, tensas, confusas. E eu fiquei particularmente maravilhado com a habilidade da diretora no uso de vozes, barulhos e outros sons que surgem no formato de sussurros, como rimas sonoras ou zumbidos que ligam um frame a outro, ampliando a sensação de crescente desconforto.



Já que está de volta ao Brasil, Joana encafifa com o passado do pai biológico (Jesuíta Barbosa), sujeito que teria desaparecido e sido assassinado pelo Estado durante o regime. Montando um quebra-cabeças ela reencontra uma antiga casa que era ocupada por um grupo de resistência do qual seu pai fazia parte e entra também em contato com a sua avó - a mãe de seu pai (vivida com ternura por Eliane Giardini). Em meio a um universo de incertezas que geram um tipo de suspense involuntário de que simpatizo muito - será que o pai dela não estaria vivo? Ela poderia encontra-lo até o final da película? - a jovem vai amadurecendo, descobrindo o amor e funcionando como uma adolescente como qualquer outra, que briga com a mãe Ana (Sara Antunes), que sofre, que fuma maconha, que gosta de ir a praia, que absorve a cultura a sua volta e que tem consciência do significado da luta de seu pai (ainda que utilize justamente este fato para "atacar" sua mãe em certa sequência).

É uma obra familiar, que apresenta com eficiência o contexto político da época - ainda que alguns excessos didáticos pudessem ter sido evitados. É o caso dos jovens que, invariavelmente levam o nome de proeminentes figuras políticas de esquerda (Ernesto, Leon, etc) ou mesmo o instante em que Joana chama um vizinho exaltado de fascista, para ele responder um onipresente "vai pra Cuba!". Ainda assim, como diz o Henrique, meu parça aqui do Picanha, as vezes mesmo o ÓBVIO necessita ser esfregado NA CARA - e é por isso que este fato não compromete a apreciação do filme. Colocando volta e meia a luta política e a necessidade de exumar os "esqueletos do armário" como condição básica para a felicidade familiar, a película é hábil ao captar os eventos do período de forma sutil, econômica, mas, altamente relevante. Joana, a seu modo, se esforça para pertencer aquele universo que, agora, lhe é novo. E ela só conseguirá fazer isso se deixar o passado para trás, não desejando JAMAIS repeti-lo.

Nota: 8,5

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Na Espera - Coringa (Filme)

Desde o inesquecível Coringa interpretado por Heath Ledger em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) criou-se uma mística ainda maior pelo perturbador personagem. O nível de interpretação foi tão alto que qualquer um que viesse a encarnar o próximo teria grandes chances de falhar miseravelmente - como aconteceu com Jared Leto no duramente criticado Esquadrão Suicida (2016). Ficou a cargo do polêmico e excelente ator Joaquin Phoenix (Ela, O Mestre, Johnny and June, Vício Inerente, dentre outros) dar vida ao primeiro filme dedicado exclusivamente ao personagem.


Após o lançamento do trailer oficial ficou claro que, muito além de um filme de super-herói, a obra Coringa (Joker) parece mais um drama psicológico com toques de suspense sobre a personalidade do notório vilão. Para completar, a interpretação de Phoenix vem recebendo elogios entusiasmados da crítica que já cogita a sua atuação como uma das favoritas ao Oscar 2020. Dirigido por Todd Phillips (da franquia Se Beber Não Case) o filme venceu o Leão de Ouro em Veneza este ano - algo inédito para um personagem de quadrinhos - o que credencia a película como uma das grandes favoritas às premiações de final de ano. Quanto a nós só resta ficar Na Espera da estreia deste filmaço nos cinemas brasileiros.


10 Filmes com Temática LGBTQI+

Vivemos tempos difíceis, de ódio, intolerância, autoritarismo. A mais nova façanha do ano de 2019 foi do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que mandou censurar uma HQ da Bienal do Livro onde aparecem dois rapazes se beijando. Então, para auxiliar o prefeito na divulgação de obras com temática LGBTQI+, trazemos uma lista de 10 filmes sobre o assunto que merecem ser vistos. Bora resistir!


#1 Azul é a Cor Mais Quente


Famosa por sua longa e gráfica cena de sexo entre as duas atrizes principais a obra é, muito além da cena citada, uma visceral história de amor e um estudo de personagem sensível que acompanha, ao longo de suas três horas de duração, a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), sua rotina do acordar ao fim do dia, até o momento em que cruza seu caminho Emma (Léa Seydoux) e a inevitável paixão que brotará a partir dali. Com um naturalismo impressionante, o filme faz com que as sensações do amor e as dores decorrentes deste sentimento sejam vivenciados pelo público. Uma experiência ousada, em uma entrega pelas atrizes poucas vezes vistas na história do cinema.


#2 Me Chame Pelo Seu Nome


Baseado no livro homônimo de André Aciman, o filme narra a história de amor entre Elio (Timothée Chalamet), um rapaz de 17 anos, e Oliver (Armie Hammer), um homem mais velho que vai se hospedar na casa do seu pai durante um verão na Itália dos anos 80. Com belas paisagens e de forma muito sensível, a obra mostra a descoberta das inclinações sexuais e amorosas de Elio e, consequentemente, as marcas que um grande amor pode deixar naqueles que o vivenciam. Contando ainda com um monólogo final arrebatador e uma trilha sonora lindíssima (composta pelo músico Sujfan Stevens), Me Chame Pelo Seu Nome é um tratado incrível sobre o amor em todas as suas formas, independente de orientação sexual. Qualquer pessoa que já tenha vivido uma grande paixão certamente irá se emocionar.


#3 Priscilla, a Rainha do Deserto


Filme de muito sucesso nos anos 90, Priscilla, a Rainha do Deserto, é um road movie que mostra a trajetória das personagens Tick (Hugo Weaving), uma drag queen, Bernadette (Terrence Stamp), uma mulher trans, e Adam Whitely (Guy Pearce), drag queen que, a bordo do ônibus Priscilla, atravessam o deserto australiano levando seu show para uma população que, por vezes, os recepcionará de maneira hostil. Apesar de momentos dramáticos, a leveza do filme vem do carisma de seus protagonistas e também da trilha sonora que conta com músicas de Gloria Gaynor, Village People, ABBA, entre outros, o que fez com que diversos espectadores do mundo todo se familiarizassem com a cultura queer.


#4 O Segredo de Brokeback Mountain


Uma das mais tristes e emocionantes histórias de amor do cinema, o premiado filme do cineasta Ang Lee narra a história de dois cowboys que, ao passarem um período na montanha do título afim de trabalhar lidando com um bando de ovelhas, acabam se apaixonando. Sim, o estereótipo do machão americano - que toma um trago e fala grosso - também possui sentimentos. Pra complicar ainda mais ambos são casados e estão vivendo na década de 60. O poder da obra vem da representação deste amor que, mesmo sendo considerado proibido, atravessará o tempo - e as atuações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são maravilhosas em demonstrar o júbilo e a tragédia deste sentimento inevitável e que será vítima, como tantos outros casos, da intolerância de uma sociedade.


#5 Carol


Premiado em diversos festivais, o filme do diretor Todd Haynes conta a história de duas mulheres: a jovem Therese Belivet (Rooney Mara), que tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos, e a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. As duas se aproximarão em uma época - no caso a Nova York dos anos 50 - em que o papel da mulher na sociedade deveria ser apenas o de esperar o marido no fim do dia com o jantar pronto e a casa arrumada. Absolutamente charmoso, o filme tem a sua força nas sutilezas, nos detalhes, nos gestos e na voz tranquila. E nas interpretações magníficas da dupla de protagonistas.


#6 Moonlight: Sob a Luz do Luar


Película desenvolvida de forma fluída, sem exageros, nos mostra três momentos da vida de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami. Do bullying da infância, passando pela crise de identidade da adolescência e a tentação do universo do crime e das drogas, essa verdadeira obra-prima moderna, realiza um belo estudo de personagem. Nunca estereotipado, Chiron é mostrado como alguém que alcança certo status, mas que guarda para si uma série de segredos, resultado de uma sociedade preconceituosa e racista. O terço final, absolutamente poético e romântico, está entre os grandes momentos do cinema moderno. Talvez para eternidade o filme sempre seja lembrado pela confusão gerada ao final da cerimônia do Oscar daquele ano. Mas, justiça seja feita, Moonlight é MUITO MAIS FILME que La La Land.


#7 Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


Poucos filmes serão mais tocantes e afetuosos na abordagem do amor do este belo exemplar de nosso cinema. A trama é centrada em Leonardo (Guilherme Lobo), adolescente cego que, ao mesmo tempo em que tenta lidar com a mãe superprotetora, tenta obter a sua independência. A chegada de um outro menino a cidade, de nome Gabriel (Fabio Audi) fará com que novos sentimentos surjam em Leonardo, modificando totalmente a sua percepção sobre a sexualidade. Com ambientação extremamente naturalista, a obra alterna momentos divertidos, dramáticos e românticos em igual medida, transformando a película em um verdadeiro tratado geral sobre a adolescência, apresentando um viés muito mais romântico do que, necessariamente, engajado (o que não é um demérito, nesse caso).


#8 Tudo Sobre Minha Mãe


É até difícil escolher apenas um filme do Almodóvar para figurar nessa lista, já que não são poucos os que, de alguma forma, abordam a temática LGBTQI+ - sendo Má Educação (2003) um dos mais provocativos e o recente Dor e Glória (2019) um dos mais poéticos. Neste, acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê. O filme é uma jornada divertida e comovente, voltada a "todas as mulheres".



#9 Milk: A Voz da Igualdade



Filme que deu a Sean Penn a estatueta do Oscar na categoria Melhor Ator na cerimônia de 2009, a obra de Gus Van Sant retorna aos anos 70 para contar a história do ativista gay Harvey Milk, primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos. A trama começa com Milk se mudando para San Francisco ao lado do namorado Scott (James Franco), onde abre uma loja para a revelação de filmes fotográficos. Enfrentando o preconceito e a intolerância que marcam o período, o protagonista passa a buscar direitos iguais para todos, sem discriminação sexual. Trata-se de um filme vibrante, que marca o esforço de um sujeito que enfrenta a violência e que conta com o apoio de amigos e voluntários para alcançar os seus objetivos.



#10 Traídos Pelo Desejo



Café da Manhã em Plutão (2005) pode até ser o filme mais contundente do diretor Neil Jordan sobre a temática, mas dificilmente algum será mais surpreendentemente inesquecível do que a obra lançada em 1992. Na trama, um soldado inglês vivido por Forest Whitaker é sequestrado pelo IRA, mas desenvolve uma curiosa amizade com o guerrilheiro (Stephen Rea) encarregado de vigiá-lo. Quando o soldado morre, o guerrilheiro resolve ir atrás de sua ex-mulher para comunicar o ocorrido - mas acaba se apaixonando por ela. Misturando política, ataques terroristas e romance LGBTQI+, o filme reserva para seu segundo ato uma sequência que pegará o espectador de "surpresa", numa obra que subverte estereótipos, sendo extremamente original (não por acaso, seu Roteiro foi o vencedor no Oscar).

Bom, é óbvio que existem muitos outros filmes sobre o tema mas, o que acharam da lista? Deem suas opiniões!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Cinema - Bacurau

De: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Udo Kier, Sônia Braga, Karine Teles e Barbara Colen. Aventura / Mistério / Ficção Científica / Faroeste, Brasil / França, 2019, 131 minutos.

Eu teria tudo para odiar Bacurau, longa-metragem dos diretores Kleber Mendonça Filho (dos maravilhosos O Som ao Redor e Aquarius) e Juliano Dornelles. Sou homem, heterossexual, branco, de sobrenome alemão, classe média. Moro na região sul do país, que deu aproximadamente 70% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições, uma região que se acha tão autossuficiente que possui um movimento para se emancipar do resto do país. Uma região que recebe aqueles que não deseja na bala e de relho. No meu estado tem "justiça" que prefere retomar antigo nome de uma avenida - que possui termos como "legalidade" e "democracia" - para homenagear general ditador. Como diria o hino riograndense, "sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra" (#SQN). Na minha cidade tem movimento neofascista querendo censurar evento jornalístico, e também tem vereadores destilando desinformação, homofobia, e acusações sem provas. Aqui pertinho tem gente que não respeita a arte e a cultura, que não suporta a livre manifestação e a crítica. Tem gente que se acha superior ao resto do país devido ao suposto sangue europeu de seus antecessores. Tem gente que certamente vai odiar com todas as forças Bacurau. Não foi o meu caso.

Em um futuro não muito distante o povoado da cidadezinha nordestina de Bacurau (cujo nome remete a um pássaro de hábitos noturnos que, quando aparece, significa mau presságio) está velando a avó de Teresa (Colen), que está retornando à localidade para se despedir trazendo consigo um lote de vacinas e medicamentos. A partir da morte da matriarca somos apresentados lentamente aos personagens do vilarejo - cuja maior característica é o senso de comunidade - em toda a sua diversidade e peculiaridade. Tudo muda no momento em que um casal de turistas supostamente fazendo trilha pelo local altera a rotina dos moradores, quando estes descobrem que a cidade não faz mais parte do mapa (mais especificamente, do Google Maps - sim, a cidade é pobre, mas neste futuro a tecnologia está disponível para todos em seus smartphones). A partir daí as tensões aumentam (uma característica do cinema de Mendonça Filho) levando a desfechos violentos e inesperados. Se você é ligado em cinema já deve ter lido muito sobre o filme e até ter sido vítima de alguns spoilers, portanto não nos aprofundaremos na trama visto que a melhor parte da experiência é ir descobrindo o filme aos poucos e, de preferência, na tela grande.


Ao abrir com um plano brilhante em sua ironia junto ao uso da trilha sonora, percebemos que não estamos diante de um filme convencional. Vender o filme como sendo de ação, ficção científica e faroeste foi uma estratégia poderosa para atrair os espectadores ao cinema. Espectadores que, lamentavelmente, ainda enxergam com preconceito as produções nacionais - uma das mais versáteis e originais do mundo. A julgar pela recepção calorosa do público (que vem lotando salas e mais salas) e a empolgação da crítica (quase unânime em reconhecer os méritos da obra), Bacurau já é um dos filmes mais comentados e hypados dos últimos tempos no Brasil - e também no mundo. E não é pra menos: muito além do cinema de gênero, os diretores entregaram aqui um produto que não fica nem um pouco a dever a produções internacionais. Referências mil respingam pela rede, e uma das que me saltou aos olhos foi o faroeste El Topo, de Jodorowsky, pela lisergia e o alto teor alegórico. Mas tem muito mais: tem ação, suspense, terror, tiroteio, efeitos especiais e, principalmente, RELEVÂNCIA.

São raros os filmes que captam o espírito de seu tempo e, a julgar os acontecimentos atuais no país, o B de Bacurau pode muito bem ser, em seu microcosmo, o B de Brasil. O que vemos em tela é uma alegoria perfeita: as escolas sucateadas, os políticos que só aparecem em época de eleição e exploram seu povo, a animalização do diferente, a exploração de áreas pertencentes a outras pessoas em benefício próprio, o extermínio do povo negro e pobre, o abandono das crianças, a legitimação da violência, o entretenimento a qualquer custo, a frustração do homem branco e a fetichização das armas, o fascismo, a RESISTÊNCIA. Resistência esta que brota das minorias, das mulheres, dos homossexuais, dos trans, dos negros, dos nordestinos, de tudo aquilo que mais irrita os reacionários de plantão. Enquanto a escola é o último refúgio das crianças para sobreviver, é no museu da cidade onde repousa a memória do cangaço - e é justamente esta memória que poderá salvar uma população em risco de extinção.


Premiado internacionalmente (o mais notório deles o Prêmio do Júri do Festival de Cannes), Bacurau é uma bofetada bem dada na cara da elite mesquinha brasileira, do vira-lata, daquele que "se acha" mais importante ou superior que o resto do país, dos que perderam a humanidade, dos que avalizaram tudo de absurdo que acontece dia após dia nesse governo imbecil. Daqueles que preferem se anestesiar e continuar (como uma cena brilhantemente sugere) tomando no cu. Porque todos são o povo, quase ninguém é elite - mas tem muita gente que pensa que é. Se alguma cena peca pela falta de sutileza em sua crítica, creio que este seja um dos maiores méritos do filme: vivemos em tempos em que o óbvio PRECISA ser dito. Que as memórias e as feridas do passado precisam ser revistas para que o terror não volte a ocorrer. E se há algo de aterrorizante em sua emblemática cena final é a certeza de nunca estarmos a salvo do gene da barbárie.

Eu teria tudo para odiar Bacurau. Felizmente, desde cedo, minha família sempre me colocou em contato com a arte. O cinema, a música, o teatro, a dança, são as formas mais eficazes de desenvolver a empatia por nossos semelhantes. Quando digo semelhante, quero dizer a humanidade. Que ela possa conviver e aceitar as diferenças entre si é um imperativo do sucesso civilizatório. Todo governo autoritário deixa de financiar a arte, a cultura e a educação pois sabe que não há arma maior contra a tirania do que o conhecimento. E é por isso que todo mundo deve assistir Bacurau. Porque é um filme espetacular, DO CARALHO. E porque está fazendo história. Em tempo real.

Nota: 10

Cinema - Retrato de Amor (Photograph)

De: Ritesh Batra. Com Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra e Farrukh Jaffar. Romance / Drama, Índia / Alemanha / EUA, 2019, 109 minutos.

Retrato de Amor (Photograph) pode até ser um filme de estrutura convencional - talvez até previsível -, mas é contado com tanta sensibilidade e sem floreios, que se torna uma sessão imperdível. E, de quebra, ainda nos faz conhecer um pouco mais da cultura indiana e seus hábitos, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos. Na trama, um homem de trinta e poucos anos, é pressionado pela sua família (materializada por sua avó) a se casar. O homem é o fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que passa os dias nos arredores de Mumbai tentando comercializar fotografias da região para turistas ou visitantes. Em uma de suas investidas fotografa a jovem Miloni (Sanya Malhotra). Ao entregar a foto, vem com ele um inesperado convite: fazer de conta que é a sua noiva durante a visita da avó, que está para acontecer. Tímida, a moça reluta. Mas, no fim, aceita a ideia.

Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que a aproximação entre Rafi e Miloni, inicialmente completos desconhecidos, se transformará em um algo a mais no decorrer da história. Do silêncio e das poucas palavras iniciais - quando ainda da montagem do estratagema que engambelará a avó - até o final da história, a dupla se tornará mais íntima, encontrará pontos em comum, fará amizade e em algum momento romperá. Aliás, o tipo de estrutura típica das comédias românticas americanas. Poético, o filme utilizará a metáfora da fotografia, o instantâneo que captura a imagem, memorizando-a, para falar de permanência e materialização de uma realidade que dura por apenas um segundo, mas que poderá ser eternizada em um clique. Desajeitada, a dupla sustentará o seu segredo, sendo esta uma das maiores diversões do filme: assistir as interações da avó, que avança sobre a dupla, eventualmente desconfiada, mas invariavelmente divertida.


Não é um filme ostensivo naquilo que ele se propõe. Ao contrário, todas as suas eventuais mensagens são sutis, sugeridas. Miloni, por exemplo, é estudante e de uma família mais abastada, como percebemos nas interações dela com as empregadas da casa. Já Rafi estaria na classe social oposta, com amigos barulhentos, histriônicos, lutando dia após dia para, com as suas fotos, poder botar comida na mesa. Esses contrastes surgem de forma eficiente, no comportamento de cada personagem, sem a necessidade de se esfregar nada na cara do espectador.  E talvez por isso o esforço de Rafi para conseguir um tipo particular de bebida, uma das preferidas de Miloni, como assistimos no terceiro ato, é tão comovente. É o valor das pequenas coisas: um sorvete na rua, uma correntinha dada de presente por um parente, um filme assistido (nem que já se saiba o final).

Divertido, dramático e até romântica em doses parecidas, o filme ainda aproveita ao máximo a presença luminosa da veterana do cinema indiano Farrukh Jaffar que, aos 85 anos, transforma a avó (a Dadi), numa figura ao mesmo tempo histriônica e enigmática, engraçada e sisuda. Seja na cena em que ela tira uma foto do casal, dizendo para eles se aproximarem ("ela não é um arame farpado"), ou nos momentos em que ela se diverte (e é ranzinza) no albergue que Rafi divide com os amigos, cada sequência em que ela aparece, se torna especial. O que faz com que compreendamos, inclusive, a devoção (e o respeito) do neto em relação a idosa. Com um divertido final metalinguístico - um dos melhores do ano, diga-se - Retrato de Amor jamais será aquele filme inesquecível. Mas, tal qual um retrato valioso, deixará a sua marca por algum tempo.

Nota: 8,0