terça-feira, 31 de março de 2020

Pérolas da Netflix - O Décimo Homem (El Rey de Once)

De: Daniel Burman. Com Alan Sabbagh, Usher Bailka, Julieta Zylberberg e Elvira Onetto. Comédia / Drama, Argentina, 2015, 82 minutos.

"O que há de melhor no homem somente desabrocha quando se envolve em uma comunidade". Pode até parecer meio piegas a frase atribuída à Albert Einstein, mas ela se aplica direitinho a essa pequena joia do cinema argentino chamada O Décimo Homem (El Rey de Once). Por que às vezes a gente pode estar querendo dar algum sentido a nossa existência e somos pegos de surpresa quando esse "sentido" surge de onde menos se espera. E talvez esse seja o caso de Ariel (Alan Sabbagh), o protagonista da película dirigida por Daniel Burman (Ninho Vazio, Dois Irmãos). Ele é um economista bem sucedido que já há muitos anos reside em Nova York, tendo deixado para trás as suas origens judaicas. Com a desculpa de apresentar a sua namorada - uma bailarina cheia de compromissos - aos seus familiares, programa uma viagem para o bairro em que nasceu, em Buenos Aires.

A programação começa a dar errado quando a namorada é impedida de lhe acompanhar, por conta de sua agenda lotada. E tudo só piora quando Ariel chega ao local: com a impossibilidade de ser recebido por seu atarefado pai - um certo Usher (Usher Barilka), responsável por gerenciar a instituição de caridade do bairro -, se vê aos poucos absorvido por uma série de compromissos que, inicialmente, não lhe dizem respeito mas que, aos poucos, vão dando sentido à sua existência. À distância, sempre por telefone, o pai lhe incumbe de uma série de pequenas tarefas: levar um calçado para um excêntrico enfermo, cobrar do (furioso) açougueiro a entrega de carne, ocupar um apartamento não habitado... e será por meio desses pequenos instantes, somados a outros tantos que ocorrem na rotina barulhenta da entidade mantida pelo patriarca, que darão, ainda que por vias meio tortas, alguma cor à sua vida tão esquemática, de sujeito bem sucedido.


Parece um filme minúsculo, e pra falar a verdade é: mas que se torna grande ao valorizar os pequenos instantes, a nostalgia e a sensação de pertencimento a alguma coisa. Na memória afetiva de Ariel, os biscoitos com doce de leite que ele consumia, de forma peculiar, quando criança, serão relembrados em uma cena tocante em seu novo habitat. O absurdo do vazio das relações humanas será suplantado pela balbúrdia das pessoas humildes que rondam a instituição de caridade em busca de comida, roupas e outros suprimentos e pelas pessoas que ali trabalham e trafegam, como a belíssima judia ortodoxa Eva (Julieta Zylberberg), que ganhará importância na segunda metade da obra. É um filme que se passa em apenas uma semana, mas que transforma a vida de seu protagonista, que volta a beber da fonte do judaísmo, seus rituais e seus costumes, para encontrar em sua origem, a essência de algo parecia perdido.

Sim, os mais céticos talvez discordem daquilo que o filme se propõe: ser uma espécie de homenagem às tradições, as memórias e as atitudes boas - sem olhar para quem. Num misto de ingenuidade com pasmaceira, a vida de Ariel parece estar fora de controle, em alguns momentos, para no instante seguinte surgir ordenada, cartesiana, plena de sentido. É uma película que não sobrecarrega nos aspectos técnicos - a trilha sonora é quase nula, o desenho de produção é correto e nunca exagerado (a cidade é muito verdadeira), a fotografia não tem grandes trucagens -, mas que passa seu recado de forma simples, honesta, divertida. Não é o melhor filme argentino - aliás, talvez nem seja o melhor filme de Daniel Burman. Mas ao direcionar novamente a sua lente para o homem comum, que deve lidar com uma situação "nova" em sua vida (assim como ele já fizera no ótimo Abraço Partido), o diretor acerto em cheio. E entrega uma película maior do que sugere seus pouco mais de 80 minutos.



segunda-feira, 30 de março de 2020

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - O Despertar de Motti (Suiça)

De: Michael Steiner. Com Joel Basman, Noémie Schmidt, Inge Maux, Udo Samel e Lena Kalisch. Comédia / Drama, Suíca, 2018, 94 minutos.

Filmes recentes como Desobediência (2017) ou clássicos literários como Complexo de Portnoy, de Philip Roth, já utilizaram o conservadorismo das comunidades judaicas, suas tradições e hábitos - muitos deles antiquados - como matéria-prima. Em O Despertar de Motti (Wolkenbruchs Wunderliche Reise in Die Arme Einer Schickse), o representante da Suiça na última edição do Oscar, o tema volta à carga em uma comédia meio bobinha (mas divertida) que conta a dura história do jovem Motti (Joel Basman), que precisa fugir de sua mãe dominadora (a ótima Inge Maux) para tentar decidir os rumos de sua vida. Sim, por que para os judeus ortodoxos, os caminhos de um homem já estão traçados desde o berço: crescer, rezar, estudar, dar continuidade aos negócios do família, participar de um casamento arranjado (meio a contragosto) com uma outra mulher judia e procriar. Ter vários filhos, de preferência. Se dedicar a eles. Envelhecer. Morrer. Fim.

Bom, é evidente que ninguém gosta de nascer já sabendo exatamente como vai ser a sua vidinha e será ao ir para a faculdade que a persona "travada" de Motti vai começar a dar uma arejada. Especialmente após conhecer a jovem Laura (Noémie Schmidt), uma colega de aula não-judia (conhecida como shiksa no linguajar iídiche), que vai despertar aquela paixonite juvenil no rapaz. Só que o casamento com pessoas que não integram a religião judaica é terminantemente proibido pelos ortodoxos. Aliás, é um ato impuro. Só que Motti começa a ficar meio de saco cheio quando, próximo dos 20 anos de idade, percebe que a sua mãe decide tudo na sua vida: dos óculos que usará a roupa que vestirá. Aliás, fazer a barba, usar uma armação de óculos mais "ousada", serão pequenas subversões que mostrarão a nós, espectadores, que o jovem está mudando. E ao se distanciar das tradições anacrônicas da religião dos pais, estará estabelecido o conflito. O que renderá boas risadas.


Ok, não é uma comédia inesquecível que vá mudar o planeta. Mas tem seus momentos. A quebra da quarta parede, por exemplo, é uma clara homenagem ao judeu mais famoso do cinema (aliás, ele é citado como uma referência em um hilário debate em meio a um jantar de família) e que renderá instantes de pura graça, como na parte em que Motti narra o quão previsível é a vida de um jovem judeu. Os encontros frequentes com Michèle (Lena Kalisch), impedem o projeto de resvalar para o machismo, já que fica claro que os casamentos arranjados são um problema, independente de gênero. E a relação de pura cumplicidade entre o jovem protagonista e seu pai (Udo Samel) também rendem risadas, já que eles estabelecem uma espécie de aliança, que visa a confrontar a mãe dominadora. E há ainda uma outra personagem, vivida por Sunnyi Melles, que representa o ponto de equilíbrio: em seu leito de morte, ajudará Motti a tomar decisões a partir da leitura as cartas e de outras trucagens.

Ainda que eventualmente o projeto possa parecer meio esparso e até resvale em um ou outro momento para o melodrama barato, ele tem a sua lógica de funcionamento no batido clichê que diz que os filhos são "criados para o mundo" e que sua independência deve ser preservada - por mais que isso doa para algumas religiões mais fechadas. A ida de Motti a Tel Aviv, por exemplo, pretendia "curá-lo" de um mundo de perdição (imagina só um jovem beber, ir em festas e conhecer garotas?), mas na capital israelense ele descobre o contrário: que a vida é imprevisível e que é por isso que ela é bela. E a sua mãe terá que, definitivamente, lidar com isso. Com boa montagem e uma leveza contagiante, o filme serve direitinho para aplacar as nossas dores nesses tempos de corona: nos faz sorrir descompromissadamente e ainda brinca com a ironia de acompanharmos um protagonista que se liberta de uma situação incômoda. E que descobre, ainda em tempo, que nunca é bom se sentir preso.



quarta-feira, 25 de março de 2020

Pérolas da Netflix - O Poço (El Hoyo)

De: Galder Gaztelu-Urrutia. Com Ivan Massagué, Zorin Eguileor e Antonia San Juan. Ficção científica / Terror, 2020, 94 minutos.

Não deixa de ser uma baita ironia do destino uma obra com uma mensagem tão potente sobre o comportamento individualista e egoísta dos humanos, estar sendo lançada justamente no mês em que o coronavírus se torna uma pandemia mundial. A realidade é que não são necessários mais do que quinze minutos de exibição para que percebamos do que se tratam as metáforas embutidas em O Poço (El Hoyo). Em uma prisão vertical com cerca de 200 níveis, os detentos recebem o alimento de cima para baixo em uma espécie de plataforma que se movimenta entre os andares. Quanto mais em cima você estiver, mais fartura você terá a sua disposição. Mais abaixo e os tempos serão de escassez. Os presos, muitos deles acordando no local sem nem saber do que se trata, ficarão um mês em cada andar, aleatoriamente. Assim, terão muita ou pouca comida, de acordo com o nível em que estiverem. O que ampliará ou não as suas angústias.

Quando acorda na prisão, o protagonista Goreng (Ivan Massagué) está no 48º andar. Será a partir de seu "companheiro" de cela Trimagasi (Zorion Eguileor), que ele descobrirá, inicialmente, que sua situação não é tão desesperadora. Não sabe exatamente por que está ali - os flashbacks ajudam a dar alguma luz -, os recursos são poucos e a comida será consumida depois de 94 pessoas acima deles se fartarem. E assim que eles comerem a plataforma migra pro andar de baixo, que come seus restos. E a de baixo os restos da de baixo. E assim, sucessivamente. Bom, não é preciso ser nenhum gênio para saber que, quanto mais baixo for o andar, mais escasso será o alimento. E quando Goreng e Trimagasi que, inicialmente, até estabelecem uma excêntrica relação amistosa, acordam duzentos andares abaixo recebendo somente pratos, copos e talheres destroçados, eles percebem que apenas medidas extremas poderão fazê-los ter uma sobrevida.


Bom, trata-se de um filme com uma mensagem quase ESFREGADA em nossas caras: não seria melhor se, no mundo, dividíssemos a nossa comida, para que todos tivessem acesso a ela com qualidade e segurança? Por que algumas pessoas em m cenário de pandemia como o que estamos vivendo pensam apenas em si, enchendo carrinhos e carrinhos de supermercado ignorando as necessidades dos outros? E se o alimento como um todo fosse melhor aproveitado pra que ninguém passasse necessidade? Bom, não são respostas fáceis, especialmente quando Goreng - que tem um comportamento ambíguo - constata que as pessoas que estão nos extratos superiores estão pouco se lixando para aquelas que estão nos andares de baixo. Como mudar essa mentalidade? Como socializar? É o desafio de Goreng, que chega a ser chamado do "comunista" por Trimagasi a certa altura, por conta desse ideal subversivo de divisão da comida.

E fora as mensagens, trata-se de uma obra soturna, com ótimo desenho de produção - a gente acredita de fato que um ambiente assim poderia existir - e uma boa dose de terror estilo gore, que pode não ser totalmente recomendável para todos os estômagos. Há uma série de personagens secundários, de comportamentos esquisitos, que mantém o suspense em alta. E, ainda que o projeto pareça perder um pouco de fôlego em sua reta final, a primeira metade é a que se torna mais impactante pelo fato de descobrirmos junto do protagonista, qual é a verdadeira natureza daquele local. Foi o primeiro filme do diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia e tem feito uma barulheira na internet, com teorias e mais teorias, especialmente sobre o final em aberto - aliás, alguns elementos fazem lembram o ótimo Cubo (1997), de Vincenzo Natali. Convido vocês a assistirem. E a comprarem menos papel higiênico na próxima vez que forem às compras da quarentena.




terça-feira, 24 de março de 2020

Novidades em Streaming - The Weeknd (Disco)

Os tempos de coronavírus são tão estranhos que, em meio à pandemia, o The Weeknd acaba de lançar o seu melhor disco. Como se juntasse todas as referências e experiências testadas anteriormente em uma coisa só, o artista parece alcançar a maturidade com After Hours. Hedonista, soturno, dançante, quente... o trabalho que dá sequência ao mediano Starboy (2016), impressiona pela facilidade com que trafega entre um estilo e outro, convidando o ouvinte para acalentar o coração com gemas pop como Hardest to Love, que mistura R&B e música romântica dos anos 80 com inacreditável sofisticação, ou mesmo In Your Eyes, que parece prontinha pra se expandir em um tipo de psicodelia à moda de um Michael Jackson. Mas absolutamente NADA se compara à Save Your Tears: com sua letra abusadamente melancólica (Você poderia ter me perguntado por que eu parti seu coração / Você poderia ter me dito que desabou / Mas você passou por mim como se eu não estivesse lá), produção limpíssima e sintetizador vibrante, é séria candidata a ser uma das músicas do ano, resumindo o espírito que rege o ótimo registro. Vale ouvir!





Novidades no Now/VOD - Turma da Mônica: Laços

De: Daniel Rezende. Com Kevin Vechiatto, Giulia Barreto, Gabriel Moreira, Rodrigo Santoro, Monica Iozzi e Paulo Vilhena. Comédia / Aventura, Brasil, 2019, 97 minutos.

Preciso dizer q vocês que é simplesmente impossível analisar Turma da Mônica: Laços como analiso qualquer outro filme. Por que bastou cinco minutos de projeção e eu, invadido pela nostalgia, quase fui as lágrimas. É sério. Eu cresci lendo os gibis da turminha criada por Maurício de Souza. Mais do que isso: eu aprendi a LER de posse dessas revistinhas. Com cinco anos de idade. É muito provável que, ainda criança, eu tenha me "tornado" jornalista por causa da Mônica, do Cebolinha, do Cascão, da Magali. Então ao ver o Cebolinha (Kevin Vechiatto) e Cascão (Gabriel Moreira) elaborando em live action um daqueles planos bobos para derrotar a Mônica (Giulia Barreto), mas que SEMPRE dão errado, só me restou sorrir (e me emocionar). Foi uma espécie de carinho à minha infância - o que, em tempos de Corona Vírus, parece ter o seu valor ampliado. Aliás, eu sequer tinha cogitado assistir à película de Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs). E é impressionante o bem que me fez.

Sobre a trama, ela não poderia ser mais absurdamente simples: após o plano mal sucedido contra a Mônica, Cebolinha e a sua família tem o Floquinho roubado. Ele some, sem muita explicação. É claro que essa é a desculpa perfeita pra turminha se empenhar na busca, que envolverá a entrada em uma sinistra floresta, que lhes levará até o seu algoz. Em linhas gerais pode-se dizer que o filme tem duas partes bem definidas. A primeira, claramente, busca dar um afago nos fãs. Em meio a correria da Mônica atrás dos meninos, com o coelhinho Sansão em punho, ocorre um desfile de personagens secundários - Xaveco, Titi, Aninha, Jeremias, as irmãs Cremilda e Clotilde -, que servirão para que brinquemos de identificá-los. É também na primeira parte que um iluminado Maurício de Souza aparece em uma ponta, que contribui para o caráter quase idílico das homenagens.


Já na segunda parte, somos envolvidos na aventura em si, com a narrativa ficando levemente mais séria, conforme a turminha se aproxima do sequestrador do Floquinho. O que não impedirá que a jornada em si seja divertida, como comprova a maravilhosa sequência em que o Louco (Rodrigo Santoro) aparece, fazendo as suas maluquices, sempre acompanhado do Cebolinha. E, ainda que a intenção seja a de fazer rir, não deixa de haver no projeto uma série de mensagens, especialmente sobre a importância das amizades - o que se consolida a partir do instante em que todas as crianças percebem que precisarão trabalhar juntas para derrotar o inimigo. E além dessas duas partes e que acompanhamos os meninos, há ainda um arco dramático paralelo em que os pais, preocupados, se ocupam das buscas das crianças que estão desaparecidas - e não deixa de ser legal ver atores como Mônica Iozzi interpretando a dona Luíza (a mãe da Mônica) e Paulo Vilhena e Fafá Rennó encarnando o senhor e a senhora Cebola.

Em relação à parte técnica, o caprichado desenho de produção se ocupa em dar ao fictício bairro do Limoeiro todas as cores que lhe são características nos quadrinhos, o mesmo valendo para os figurinos. No mais, outras questões que se poderiam se tornar meio difíceis de digerir no live action, se tornam motivo para ótimas piadas - como no momento em que Cebolinha censura os demais por sempre perderem os seus pares de tênis, ou no instante em que uma pessoa pergunta algo sobre a cor do cachorro que todos procuram: "mas, ele é verde?" Sim, eu sei que a trama é boba, sim, eu sei que os meninos não são os melhores atores do mundo (o Cebolinha às vezes até esquece de não falar o erre), mas o caso é que senti completamente envolvido. Tocado. E já estou ansioso pela continuação Turma da Mônica: Lições que está, inicialmente, programada para o final deste ano. Na real eu tinha meio que esquecido como era apaixonado por essa turminha. Redescobri agora. E valeu a pena.

Nota: 8,0


segunda-feira, 23 de março de 2020

Grandes Filmes Nacionais - O Auto da Compadecida

De: Guel Arraes. Com Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Denise Fraga, Fernanda Montenegro, Diogo Vilela, Lima Duarte, Rogério Cardoso e Paulo Goulart. Comédia, Brasil, 2020, 104 minutos.

É muito provável que vocês já tenham assistido uma das tantas adaptações de O Auto da Compadecida. Talvez até mais de uma - pro teatro, pra TV, pro cinema. Muitos de vocês devem ter lido o livro. Aliás, essa é a legítima obra que dispensa comentários. Mas então por que falar do trabalho mais importante do Ariano Suassuna? Bom, no curso normal dos posts do Picanha ele já seria naturalmente reverenciado em 2020 já que o filme dirigido por Guel Arraes. tão carinhosamente recordado pelo público, completa 20 anos de seu lançamento em setembro. Sim, vinte, acredite! Mas o caso é que resolvemos antecipar um pouco a homenagem, afinal de contas, em tempos de Coronavírus, acho que é bacana revisar uma obra que dá valor as coisas simples, que é divertidamente malandra, que é iconoclasta, provocativa, regionalista. Que nos faz rir do absurdo, que nos faz crer numa espécie de surrealismo à brasileira. Enfim, em tempos de caras fechadas e distanciamento social, O Auto da Compadecida nos faz o favor de lembrar que ainda temos motivos para sorrir. Aliás, teremos muitos motivos para sorrir, ainda!

Sobre o filme em si, Guel Arraes reuniu um dream team de atores, para contar a história de João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello), dois sertanejos pobres, que adotam a brejeirice como estilo de vida. Chicó é um pouco mais medroso, sempre desconfiado dos planos de João Grilo, que é a "cabeça pensante" da dupla e que armará uma série de estratagemas para tentar se dar bem - especialmente em um cenário de aridez e de indigência. Aliás, o comportamento errático da dupla já é estabelecido nas primeiras sequências quando enganam a dona Dora (Denise Fraga), esposa do padeiro Eurico (Diogo Vilela) - que são seus patrões -, para tentar comer a comida do cachorro (que é mais caprichada que a deles). Aliás, em meio a maracutaia todo o bichinho morre, já abrindo espaço para a próxima maracutaia: tentar convencer o padre local (o falecido e sempre ótimo Rogério Cardoso) a fazer o enterro. O que será obtido com uma boa dose de ofertas financeiras, obtidas de maneira escusas.



E aqui está, a meu ver uma das marcas de O Auto da Compadecida: a de fazer a crítica social na base do deboche, em suas entrelinhas, sem um panfletarismo escancarado, que poderia afastar o espectador médio. E, nesse sentido, são vários os exemplos até já comentados: o do bife do cachorro do patrão ser melhor do que a comida do empregado, o das estreitas relações (e interesses) da Igreja com as classes mais abastadas, que são melhor tratadas - aliás, a cena em que Lima Duarte muda de ideia sobre o enterro do cãozinho ao descobrir quem, supostamente, eram seus donos, é uma das melhores -, a suposta necessidade de o homem ser sempre um "machão". E há ainda, claro, o papel da mulher na sociedade - com a ruptura do caráter de submissão sendo representado pelo papel de Rosinha (Virgínia Cavendish), que ajuda João Grilo e Chicó a enganar o seu pai, o fazendeiro Major Moraes (Paulo Goulart, que está ÓTIMO), para tentar casar com Chicó.

Para que tudo flua com mais graça, Arraes emprega um estilo dinâmico de montagem com cortes secos, elipses, idas e vindas. Muitas câmeras em close que ressaltam os dentes podres e olhar enviezado de João Grilo e a timidez desconsolada, misturada com medo permanente de Chicó. Com desenho de produção bastante naturalista e figurino eventualmente colorido, a obra ainda envereda para um faroeste "tupiniquim" em seu terço final, quando o bando do cangaceiro Severino (Marco Nanini), invade a cidadela, toca o terror e mata um monte de gente - incluindo boa parte dos protagonistas. Aliás, o próprio Severino morrerá, em mais uma arapuca de João Grilo (lembram da gaita de boca?). E será no outro plano que a Compadecida em pessoa (Fernanda Montenegro e quem mais seria, né?) aparecerá para fazer uma espécie de julgamento dos justos, que também contará com a mediação do diabão (Luis Melo) e de Jesus Cristo (Maurício Gonçalves).


Sexagésimo terceiro melhor filme brasileiro da história, de acordo com lista divulgada em 2016 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) - o que para um filme de comédia é certamente um feito -, a película ainda é marcada pelos diálogos rasgantes, recheados por um regionalismo de raiz. É o caso, por exexplo, do instante em que um dos capangas do bando de Severino afirma que matar padre da azar, ao que o religioso responde: "especialmente para o padre". E ainda que a marca da obra de Ariano Suassuna seja a graça, jamais devemos esquecer que trata-se de um trabalho pontuado por críticas sociais bem construídas, de pessoas lutando pra sobreviver em meio as dificuldades e que, de quebra, ainda traz valiosas lições sobre perdão, amor, importância da amizade e religiosidade. Um dos melhores filmes de nossa história, sem dúvida.



sexta-feira, 20 de março de 2020

Picanha.doc - Apollo 11 (Apollo 11)

De: Todd Douglas Miller. Com Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Documentário, EUA, 2019, 92 minutos.

Nos Estados Unidos da Era Trump, não deixa de ser perfeitamente compreensível o fato deste documentário estar sendo tão falado - aliás, era um dos favoritos ao Oscar mas perdeu força no final, sequer chegando entre os indicados. Apollo 11 (Apollo 11), afinal de contas, é uma grande celebração do evento ocorrido há 50 anos e que levou, em uma missão muito bem sucedida, três astronautas para a lua. E o que ele tem de diferente de tantos outros filmes do tipo já feitos? Bom, o principal é que o filme se utiliza, em sua totalidade, de cenas de arquivo do antes, do durante e do depois, sem muita enrolação. E serão esses pequenos recortes que contarão a história. Não há narrações em off, grandes explicações científicas de cada um dos detalhes da expedição, ou entrevistas com especialistas (políticos, jornalistas, personalidades). Há apenas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins indo para a sua jornada rumo ao desconhecido. Como teria de fato acontecido.

Patriótica ou não - e é inevitável perceber esse movimento, seja nas bandeirinhas americanas que celebram seus "heróis", seja nas palavras do presidente Richard Nixon direcionadas à tripulação, seja naquelas salas da Nasa povoadas por homens brancos, héteros, orgulhosos de sua nação e do seu feito -, mas o caso é que o documentário tem sua relevância, sendo riquíssimo no que diz respeito a material de arquivo. Com exceção de um ou outro gráfico de apoio que nos ajuda a nos situarmos em relação à narrativa, o filme todo é um condensado que inicia nas salas imponentes da Nasa, passando para a parte interna dos módulos da Apollo 11 e alternando entre um e outro ambiente. Como consequência da magnitude do fato, a obra também se ocupa de mostrar a mobilização dos americanos, que se reuniram aos milhares, junto a estação em que fica a Plataforma Kennedy - local do lançamento.


A despeito de ser um documentário sobre um tema que tem lá sua densidade - há uma série de siglas que não entendemos, de comandos técnicos nem sempre fáceis de captar -, a película do diretor Todd Douglas Miller se desenrola sem complicações. Há espaço para instantes clássicos - como é o caso da famosa frase dita por Armstrong quando se preparava para colocar o pé na lua ("um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade") e para outros recortes pequenos, bem humorados, íntimos, especialmente do interior da nave. Mesmo sabendo do sucesso da missão, não deixa de haver uma genuína sensação de tensão em algumas sequências - em especial, destaco o momento em que o módulo lunar Eagle quase fica sem gasolina, no momento em que estava prestes a pousar. É um alívio quando esta etapa é bem sucedida!

Teorias conspiratórias gostam de afirmar que a missão Apollo 11 foi um filme feito por Stanley Kubrick, e eu não vou negar que me divirto com esta possibilidade (e é provável que os mais ligados encontrem indícios disso nas imagens de arquivo apresentadas). Por outro lado, os terraplanistas apaixonados pelos States provavelmente entrarão em parafuso ao perceberem que, vejam só, a Terra é realmente redonda! Independente da corrente em que cada um de nós acredita, o fato é que a exploração do desconhecido sempre nos causou grande fascinação - por mais que, no caso das expedições feitas nos anos 60, o objetivo fosse muito mais exibir poderio bélico aos "inimigos" russos, do que trazer para casa algum resultado prático, que pudesse encadear algum encaminhamento mais relevante. De qualquer maneira, nos restam os filmes. E este documentário tem seu valor.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Curta Um Curta - Explicando (A Próxima Pandemia)

Sim, a gente já sabe que vocês não aguentam mais o assunto do vírus - e prometemos que esta será uma das poucas vezes em que sugeriremos algo relacionado ao tema. Mas o caso é que o episódio A Próxima Pandemia, que integra a série Explicando da Netflix, chega a ser quase profético. Em um tempo em que ainda não se falava de Coronavírus, o pequeno documentário nos alerta para um dado assustador: o de que convivemos com mais de 1,5 milhões de tipos de vírus no mundo todo, e que mais de 99% deles são completamente desconhecidos. E que não há vacinas. E que não saberemos lidar! Voltando ao passado, o filme de apenas 20 minutos mostra como em um mundo tecnológico como o nosso, as pandemias se espalham rapidamente, com a falta de informação contribuindo para que houvessem milhares de mortes em surtos como o do SARS - ocorrido entre 2002 e 2003. Mas há uma lição nisso tudo, e o episódio - narrado pelo ator J.K. Simmons e com opiniões de lideranças mundias como Bill Gates - nos lembra algo que é quase óbvio: quanto mais pesquisa e conhecimento na área da saúde, melhor. Em tempo: Explicando é uma série muito bacana da Netflix e vale ser descoberta!