segunda-feira, 20 de maio de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Tatuagem

De: Hilton Lacerda. Com Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo Garcia e Ariclenes Barroso. Drama / Comédia, Brasil, 2013, 110 minutos.

Verdadeiro caldeirão artístico em que o teatro se mistura com música, a dança se funde com a literatura, resultando em uma manifestação cultural absolutamente simbólica, de grande riqueza poética e amplamente profunda em sua abordagem: dessa forma seria possível resumir, ao menos em partes, a importância de Tatuagem, do diretor Hilton Lacerda - certamente um dos mais valiosos filmes nacionais desse milênio. A impressão durante a apreciação do longa é a de estarmos mergulhados em um universo frequentemente festivo, anárquico, colorido, em que o vaudeville francês se mistura com o kitsch regionalista. Não há limites para a abordagem das artes na obra, que vai no limite do corpo e do sexo como representação política, para formar um panorama de resistência ante a uma ditadura que se avizinha de forma irreversível. Sim, é aquele filme que fará as "famílias de bem" regurgitarem, certamente.

A trama se passa em 1978, no Recife. De um lado, a trupe teatral Chão de Estrelas, coordenada por Clécio (Irandhir Santos), prepara um novo espetáculo em que o deboche e as cenas de nudez são utilizados com a intenção de incomodar, de quebrar paradigmas e de fugir do lugar comum. De outro lado, o jovem Fininha (Jesuíta Barbosa) está no exército, em um período em que a opressão dos militares era o padrão - estávamos nos Anos de Chumbo do Governo Geisel. Fininha é o cunhado da expansiva Paulete (Rodrigo Garcia), uma das estrelas do coletivo e acaba conhecendo este universo, no dia em que vai visitar a irmã da namorada para lhe entregar uma encomenda. Fininha é gay e a convivência com um grupo livre de preconceitos fará com ele se permita mais, iniciando um relacionamento com o próprio Clécio. Mas e como fica o dia a dia no exército? Como lidar com aquilo que está sentindo e, consequentemente, com o bullying (e a hipocrisia) dos colegas?


A gente sabe que, em algum momento, estes universos tão antagônicos poderão entrar em ebulição. Mas a riqueza de Tatuagem não está exatamente nesse arco dramático até certo ponto previsível - e que, não surpreende, dialoga com o nosso contexto político/social/cultural atual -, e, sim, em outros aspectos, como é o caso da abordagem do amor sem falso moralismo, de forma verdadeira e com grande respeito. Assistir as interações dos integrantes do Chão de Estrelas é estar diante de uma espécie de apresentação permanente de teatro em que a ficção sai da tela dando lugar a uma realidade festiva, tropicalista, humana. De pessoas que se querem bem independente de cor, de sexo, de altura ou de conta bancária. Não é que não haja problemas. Mas são problemas reais e maiores do que homens se relacionando com homens: há o medo da censura, o dinheiro que está minguado, as paixões que geram ciúmes, as preocupações com o futuro dos filhos. É o Brasil real, mas o Brasil que se diverte, que debocha das instituições, que é iconoclasta e livre para se expressar.

E há um grupo de atores claramente dedicado a entregar o melhor desse universo que, em alguns instantes chega quase a beira o delírio onírico - como quando das apresentações da infatigável Polca do Cu. Se por um lado, Barbosa aposta na sutileza como matéria-prima para trafegar em universos bastantes distintos (repare o quanto comunica o seu olhar, quando ele está pela primeira vez no Chão de Estrelas), por outro, Garcia chega a beirar o histrionismo, transformando Paulete na personagem de Almodóvar, que veio parar em um filme brasileiro. Irandhir equilibra tudo, sem afetação, sem caricatura, imprimindo grande profundidade a um personagem que, no fim das contas, precisa manter o foco para que nada desabe. As vezes pode parecer até meio bobo, ainda que nunca infantil: mas uma provocação dessa envergadura, que ainda coloca em cheque o comportamento truculento de regimes totalitários (que muitas vezes escondem jovens perturbados e que tem dificuldades em lidar com a própria sexualidade), não é pouco. O filme foi o 73º da história em uma votação feita recentemente pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Não é pouco.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

Na Espera - Divino Amor (Filme)

Desde que foi liberado o teaser de Divino Amor ele se tornou, para nós aqui do Picanha, o filme mais aguardado de 2019! Aliás, esqueça só por um momento o Tarantino ou o Scorsese - que geram expectativa com O Irlandês e Era Uma Vez Em... Hollywood - e preste atenção em Gabriel Mascaro que, com o ótimo Boi Neon, já tinha realizado uma das melhores películas nacionais desse milênio. Em seu novo filme, assistimos uma realidade distópica em um Brasil do ano de 2027. Um Brasil em que não mais existe o carnaval, entrando em seu lugar a "Festa do Amor Supremo" em que se espera a volta do Messias. E em que claramente o fanatismo religioso, o preconceito e a intolerância funcionarão como um verdadeiro espelho da nossa sociedade atual ficando a inevitável pergunta sobre o que queremos, de fato, para o futuro.


A trama, de acordo com o que foi divulgado, envolve uma devota religiosa que, no cartório, se trabalha para dificultar os divórcios, enquanto espera algum tipo de sinal divino de reconhecimento aos seus esforços. Só que o seu casamento entrará em crise e como fica esse contexto perante Deus? Só que o trailer, num estilo kitsch-modernoso, nos dá conta de algo muito maior, mais iconoclasta, mais contestador e com uma nada velada crítica aos absurdos vividos no governo Bolsonaro - ou em governos conservadores como um todo. Mascaro parece tentar adivinhar o futuro, olhando para aquilo que acontece agora. E o resultado, sinceramente, é de arrepiar. Não sou de fazer isso nos posts aqui do Na Espera, mas, chega logo 15 de agosto. Precisamos assistir a esse filme!

Cinema - O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation Of cameron Post)

Com Chloë Grace Moretz, Emily Skeggs, Forrest Goodluck, Jennifer Ehle e John Gallagher Jr. Drama / Romance, EUA, 2018, 90 minutos.

Pela temática bastante parecida, O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation Of Cameron Post) poderia muito bem ser exibido como uma sessão complementar de Boy Erased: Uma Verdade Anulada. E, numa boa: em um mundo com tantos retrocessos - com um avanço universal e inexplicável de uma extrema-direita odiosa, que tem dificuldade de conviver com aquilo que é diferente ou que foge do padrão -, mais serão bem-vindas obras que façam pensar, refletir, mesmo que com assuntos semelhantes. Pra falar a verdade, os temas nunca se esgotam sendo importante reforçá-los, afinal de contas, sempre haverá outras nuances e outras possibilidades de abordagens. Os filmes podem até não ser inesquecíveis ou grandiosos. Mas muitas vezes serão reflexo de seu tempo. É é justamente o caso dessa pequena e sensível película, que foi exibida no último Festival de Sundance.

Na trama, que se passa em 1993, a Cameron Post (Chloë Grace Moretz) do título original é uma jovem gay, que é flagrada pelo candidato a namorado, transando com a melhor amiga dentro de um carro de um estacionamento, em plena noite de formatura. Cameron perdeu os pais quando era mais nova, mas ainda assim é enviada pela devota tia a uma espécie de centro religioso que promete restaurá-la sexualmente - sim, as famosas clínicas para a cura gay que, pasmem, ainda existem nos Estados Unidos. No local ela terá contato com todos os clichês metodológicos que prometem uma vida próxima de Deus, longe do pecado e adequada as famílias de bem. Em meio a jogos lúdicos e canções sacras, a busca por compreender a si própria, tentando entender onde ocorreu o "desvio" que lhe fez preferir mulheres ao invés de homens. Corridas? Uma excessiva aproximação com o pai? A metáfora do iceberg - que esconde muito mais por baixo das águas - será o guia para aquilo que, já sabemos, não dará certo.


Só que diferentemente do que ocorre com Boy Erased, Cameron realmente tem dúvidas a respeito de sua condição. Se sente inadequada - "com nojo de si mesma", com ela diz. Por mais que em uma escapadela ela transe com uma colega de reformatório e se aproxime dos amigos Erin (Emily Skeggs) e Adam (Forest Goodluck) - com quem fuma maconha escondida e pratica outras "subversões", como ouvir músicas de bandas como 4 Non Blondes e The Breeders -, a jovem convive em um universo de incertezas. Ela poderia efetivamente se curar, assim como ocorreu com o reverendo Rick (John Gallagher Jr.)? Será nessas idas e vindas, sem o apoio dos pais - que aparentemente teriam um pensamento mais progressista - que Cameron procurará lidar com seus próprios medos, anseios e dúvidas. A juventude já não é um período fácil. Pra quem acha que está doente por amar/gostar/ter desejo por pessoas do mesmo sexo, certamente será pior.

Nesse sentido, a obra funciona como uma grande coleção de pequenos recortes, feitos com alguns silêncios e um clima "pastoril" em que momentos mais leves se alternam com outros mais pesados. A luta contra o pecado ou contra a "confusão de gêneros" se apoia em comparativos curiosos, com o no momento em que a doutora Lydia (Jennifer Ehle) pergunta aos alunos se eles permitiram uma passeata de drogados. Todos parecem empenhados em trazer o assunto à tona, mas sem ofender, sem aprofundar o debate o que, inevitavelmente, Boy Erased faz com mais qualidade. Dá pra soar mais panfletário sem pesar a mão ou sem ser excessivamente maniqueísta e, nesse sentido, parece faltar ainda um pouquinho de engajamento à essa película. Ainda assim o propósito é válido e quanto mais filmes sobre assuntos que confrontam, que tiram do lugar comum e quebram a hegemonia do status quo, melhor.

Nota: 7,5




terça-feira, 14 de maio de 2019

Disco da Semana - Tiago Iorc (Reconstrução)

Pessoal, vamos deixar uma coisa combinada quando o assunto foi o Tiago Iorc: nem oito nem oitenta. Nem tanto ao céu nem tanto ao inferno. Nem o "novo Belchior" como chegou a ser sugerido - muito mais por conta de seu sumiço antes de ressurgir com um novo álbum, do que pelos seus dotes artísticos -, nem um compositor meia boca que não lança nada que presta. Acho que é possível um meio termo. Mas um meio termo que olhe com carinho para o artista que, com Reconstrução lança, disparadamente, o seu melhor trabalho. Trata-se de um registro maduro, mas nem por isso quadrado. Que flerta com os mais variados estilos - indo da eletrônica, ao indie, passando pelo samba com escala na MPB - mas de uma forma dinâmica, coesa, heterogênea. A cada canção que se descortina uma nova possibilidade para o ouvinte, um caminho diferente em um álbum que, vamos combinar, cresce a cada audição.

O mistério sobre o lançamento bom, esse pelo visto continuará sendo um mistério. Fora os sites de fofocas que falam sobre mensagens enviadas por Bruna Marquezine ao cantor na noite de lançamento do registro, poucas informações. O ano sabático, de acordo com matéria do Globo teria começado ainda lá em janeiro de 2018. Uma troca de gravadora, a saída das redes sociais, uma ou outra aparição pública tornaram Iorc uma figura quase excêntrica, aumentando o culto dos fãs que, desde sucessos como Amei Te Ver e Coisa Linda, o perseguiam como se este fosse algum tipo de divindade religiosa. Só que trabalhando assim, meio mocozeado - como se diz aqui nos pampas - o artista pôde entregar um trabalho totalmente novo, todo de uma vez, com videoclipes para todas as canções. Se a estratégia de marketing funcionou? Bom, as treze canções do disco entraram TODAS DE UMA VEZ, no Top 50 do Spotify Brasil. Não é pouco.



Aliás, uma audição do trabalho permite perceber que este é, literalmente, um álbum de reconstrução. De ruptura. De algo que fica para trás e que representa, a partir de agora, um recomeço. E isso fica ainda mais claro quase no final do disco, quando na 12ª canção - a inacreditavelmente linda Bilhetes - o astro canta repetidamente, como se fosse um mantra "tudo vai recomeçar" - não sem antes falar, metaforicamente, em chuvas que passam e erros que servem de aprendizado. O expediente da renovação surge em outras músicas como em Laços (Gota de lágrima, trovão que vem do mar / Revolução e a chance pra recomeçar / Quero a sorte / De reaprender / Essa vida) ou na sinuosa A Vida Nunca Cansa (Quero viver, quero mudar, motivo não há / E lá fora o mundo volta a girar / Se é só o tempo, então releva / Já não há nada que possa evitar).

Livre das amarras de gravadoras ou de outros produtores, Iorc pôde também experimentar no que diz respeito à sonoridade. Se Faz, com sua letra sexy, mais parece um encontro do Muse com o St. Vincent, Nessa Paz Eu Vou é a música que o Armandinho adoraria ter feito na última década. A candidata a hit Hoje Lembrei do Teu Amor tem refrão tão grudento e pop, que mais parece uma canção do Troco Likes perdida nesse trabalho. Já Fuzuê é o artista tentando fazer uma espécie de samba rock com letrinha sapeca, batida rápida, urbana, urgente. Há ainda outros momentos sublimes, em que os temas preferidos do compositor - romances urbanos, existencialismo em meio ao caos da modernidade e reflexões cotidianas sobre paixão e sexo - reaparecem com força, equilibrando caos e lucidez, desordem e clareza em igual medida, é o caso de Tangerina e Tua Caramassa. É um disco muito legal. Acima da média. E que reposiciona Iorc como um dos grandes nomes de sua geração.

Nota: 8,0


segunda-feira, 13 de maio de 2019

Pérolas da Netflix - Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls)

De: J.A. Bayona. Com Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson e Geraldine Chaplin. Drama / Fantasia, EUA / Espanha / Reino Unido, 2016, 108 minutos.

Que agradável surpresa esse Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls). Aquele tipo de filme "pequeno", que a gente não dá muito, mas que se revela uma experiência cinematográfica revigorante que, de quebra, ainda conta com uma série de mensagens edificantes, apresentadas sem um pingo de pieguice. Na trama, o jovem Conor (Lewis MacDougall) precisa lidar com um terrível fato: a sua jovem mãe sofre de um câncer terminal. E como desgraça pouca é bobagem, ainda há um pai ausente, uma avó um tanto linha dura e os colegas de aula que lhe incomodam. Impactado por uma vida real que é um saco, Conor tem o mesmo sonho todas as noites. Nele, aparece uma árvore gigante disposta a lhe contar histórias se, em troca, o garoto lhe contar a sua história. Na curiosa interação poderá estar a chave para solucionar o recorrente pesadelo que o menino tem: o de ver a sua mãe morrendo, em meio a uma fantasiosa tempestade.

Bom, não será preciso ser nenhum gênio para compreender que os sonhos de Conor nada mais serão do que a manifestação do seu inconsciente em um processo de readaptação da vida real - o que inclui aí as histórias contadas pela árvore (que tem a voz do Liam Neeson). Em cada narrativa, uma reviravolta, uma surpresa. E a descoberta de que nem tudo é o que parece, o tempo todo. E que os sentimentos que temos por aqueles que amamos, podem se alterar de acordo com as variáveis. Ver um parente sofrendo por causa de uma grave enfermidade, se preparar para o inevitável processo de luto, superar a tristeza que parece ser o fundo do poço... em cada uma das histórias da árvore, com reis, rainhas, exércitos que derramam sangue, bispos e feiticeiros, as metáforas inadiáveis para tudo aquilo que Conor precisará passar. E que o fortalecerá, ao final.


E, nesse sentido, um filme que fala de morte, de dor e de luto de uma forma tão adulta e inteligente merece todos os elogios do mundo. Ainda que o protagonista seja um menino de 12 anos, não há nada de infantiloide na abordagem e mesmo os desenhos que representam os coloridos contos da árvore - completamente sinuosos, eventualmente surrealistas, com traços e cores fortes, amparados por uma trilha sonora evocativa - são trazidos de forma orgânica, guarnecidos pela voz de barítono de Neeson. É tudo muito bonito. Eventualmente lúdico. Mas cheio de significados, em meio a simplicidade e a completa ausência de maniqueísmo. O que faz com que a gente compreenda as motivações de praticamente todas as pessoas que vemos na tela - bem como seus anseios, angústias e tristezas.

Com um elenco que ainda conta com Sigourney Weaver, como a avó que mostra os lados megera e carinhosa em igual medida, e Felicity Jones, como a mãe, J. A. Bayona mantém a boa média - depois de bons filmes como O Orfanato (2007) e O Impossível (2012). Aliás, após um suspense e um filme-catástrofe, a aposta na fantasia é um verdadeiro atestado da versatilidade do espanhol, que não se furta em utilizar uma série de rimas visuais como forma de evidenciar os seus propósitos - como é o caso, por exemplo, da sequência em que Conor "destroi" parte da casa de sua avó (o que inclui um relógio), como a representação de um ponto de ruptura, de quebra, para a necessidade de se deixar algo para trás, aceitando o que está por vir. É cinema de "gente grande" travestido de obra que brilha na Sessão da Tarde. Os cinéfilos agradecem.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Grandes Cenas do Cinema - Alien: O Oitavo Passageiro (Alien)

Cena: adivinhe quem vem para jantar...

Um dos grandes filmes de ficção científica / suspense da história, Alien: O Oitavo Passageiro (Alien) possui, a meu ver, a mais surpreendentemente aterradora sequência de todos os tempos no cinema. Sem exagero! Esqueça baboseiras como Atividade Paranormal e outros derivados que apostam em sustinhos jumpscares - aquela cena da bigorna caindo ou do gato que surge do nada. Aqui temos a construção de uma atmosfera que envolve todo o filme e que culminará na famosa cena do jantar em que, com quase uma hora de filme, a tripulação da Nostromo passa a ter uma ideia REAL do perigo que estão passando. A sequência é primorosa por subverter completamente a lógica e apostar no inesperado como matéria-prima. Ao menos foi assim que me senti a primeira vez que assisti a essa obra-prima do Ridley Scott - em seu segundo filme - sem saber o que iria ocorrer!

Para quem não lembra da cena, a equipe da Nostromo está retornando para casa após uma missão de coleta de material especial, quando recebe algum tipo de comunicação vinda pelo receptor da nave. Após um pouso meio arriscado no planeta de onde parte o sinal, parte da equipe é surpreendida com a existência de um ninho com ovos de que parece ser de uma espécie alienígena. É neste momento que Kane (John Hurt) é atacado no rosto por uma espécie alienígena que se gruda nele. Em coma após o ataque e, ainda com o "bichano" no rosto, Kane é levado de volta para a nave. Após algum tempo o ser se desgruda, morre e Kane volta a vida, com muita sede e com muita fome. Todos estão animados no jantar, rindo e fazendo projeções para o futuro - e acho que para mim é isso que pega nessa sequência em que Kane passará mal, revelando o fato de que, na verdade, estava gestando em seu corpo um ser de outro planeta.



A sequência é absurdamente sangrenta, dolorida, comovente. Sem reação, os companheiros assistem Kane definhar com o ser que salta de seu peito, praticamente estraçalhando seu corpo já fragilizado. O alienígena foge para o seu canto e, bom, todos sabem o quão tensa será aquela hora final, em que Ripley (Sigourney Weaver) e companhia precisam lidar com esse "probleminha". Bom, é preciso que se diga aqui o óbvio: o filme não se resume somente a essa cena. E se ela funciona tão bem é porque há toda uma construção de clima por trás. O desenho de produção, por exemplo, é arrebatador, tornando a nave um espaço claustrofóbico em que a textura de suas engenhocas chega a se misturar com a própria figura do vilão. Já a edição de som, com o uso do som diegético, com correntes, água que pinga e outros barulhos, também contribui para a formação de uma atmosfera de tensão permanente. Enfim, a gente sabe que algo de ruim está para acontecer a qualquer momento. Valendo o mesmo para a cena do jantar em que todos alegres, confiantes no retorno para casa, percebem que a viagem será (ainda) mais longa do que imaginavam. De arrepiar!


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Disco da Semana - O Terno (atrás/além)

Tenho de confessar uma coisa a vocês: não pude esconder uma certa surpresa nas primeiras audições do novo disco d'O Terno, afinal, onde estava aquela banda descaradamente juvenil dos trabalhos anteriores? Onde teria ido parar aquele coletivo que desavergonhadamente misturava Jovem Guarda, eletrônica, samba e música alternativa nos mesmos registros? Sim, tive dificuldade em aceitar que, em seu quarto trabalho, Tim Bernardes, Gabriel Basile (bateria) e Guilherme d'Almeida (baixo) amadureceram. Cresceram. Já não são mais aqueles guris que pareciam debochar do MUNDO em digressões divertidas como Zé, Assassino Compulsivo, Bote Ao Contrário ou até Culpa - pra citar canções que se espalham pelos três discos anteriores. E quando finalmente eu entendi isso, bom, eu consegui apreciar com um pouco mais de calma esse novo (atrás/além), percebendo que é um disco tão (ou até mais) relevante, que os anteriores.

A verdade é que, vamos combinar, não tá tendo muita graça o tal do Brasil. Tá meio difícil até de se divertir descompromissadamente ou de rir de qualquer situação que não seja de nós mesmos e da nossa existência patética nesses anos de Bolsonaro, de cortes em todas as áreas e de predileção pelo ódio, pelo preconceito e pela intolerância. E, nesse cenário, é muito provável que O Terno não visse mais sentido em fazer música mais engraçadinha - ainda que, paradoxalmente, esse tipo de material possa servir para que nos sejam amenizadas as dores da vida. Do mundo. "É a conclusão de um grande ciclo, o fim de uma juventude", relatou Bernardes, em entrevista ao jornal O Globo. A saída da casa dos pais, o fim de um relacionamento, as responsabilidades da vida adulta, também parecem ter pesado nesse processo. "É um disco de desapego do que passou e de um salto para o que pode vir", salientou em outra entrevista, esta para o Correio Braziliense.



E junto com este amadurecimento - que claramente tem início no trabalho solo de Bernardes, o delicado Recomeçar (2017) - há também a proposta de trabalhar o álbum com um conceito bem definido, de idas e vindas, de folhas a serem preenchidas e de ideias que devem ser maturadas e que flanam de forma natural, quase orgânica, em cada melodia minuciosamente arranjada pelo coletivo. Há uma riqueza de detalhes que parece flutuar em meio a justaposição dos versos claramente existencialistas e na disposição instrumental limpa e sutil, que nos fazem compreender esse outro (e novo) momento, absorvendo-o com mais calma - como se o disco clamasse por um pouco menos de pressa, ou de urgência. "(O álbum) é sobre essas vontades contrastantes do jovem que hoje quer tudo e que, de alguma forma pode tudo, mas está meio saturado. Sabe aquele cardápio da Netflix que você fica duas horas para escolher alguma coisa, mas não quer começar um filme de uma hora e meia porque é muito longo? É isso. A música é sobre esse cabo de guerra interno", compara Bernardes na mesma entrevista a O Globo.

Talvez não seja por acaso que já na abertura, com Tudo Que Eu Não Fiz, o compositor lembre a todos de que "Eu não sou mais criança, eu não sou mais adolescente / Eu quero me sentir exatamente onde eu estou". O expediente do ponto de "ruptura" que celebra um fim e um reinício repete-se em outras canções, como no caso do grudento single Pegando Leve: Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim / Recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu / Quero me encontrar, mas quero deixar fugir. Todo esse clima de nostalgia do que não foi, da imaturidade em contraposição a vida adulta, de descansar, mas sair, de trabalhar e se divertir, surgem como minuciosos antagonismos que reforçam as ideias espalhadas pelo registro. No meio do caminho, músicas que exalam otimismo (Eu Vou), saudade (Atrás/Além), amor idealizado (Pra Sempre Será) e aflições do mundo moderno (a ótima Volta E Meia, em parceria com Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto). Minucioso e agridoce do primeiro ao último instante, o registro percorre cada uma de suas esquinas sem medo de encarar a vida adulta, de fazer a crítica à geração millenial e de simplesmente se modernizar em relação ao material anteriormente apresentado. Um dos discos do ano.

Nota: 8,5



terça-feira, 7 de maio de 2019

Curta Um Curta - O Duplo

Diretora dos ótimos Trabalhar Cansa (2011) e As Boas Maneiras (2017) - ambos em parceria com Marco Dutra -, Juliana Rojas realiza, com o curta-metragem O Duplo (2012), um dos melhores filmes de sua carreira. A obra toma emprestada a lenda alemã do Doppelgänger, que seria um monstro ou ser fantástico que tem a capacidade de se tornar idêntico a alguém que ele passa a acompanhar. Mas esse idêntico é como se fosse um negativo, capaz de fazer coisas cruéis que as pessoas copiadas não fariam naturalmente. A trama se passa em 1845 e envolve uma professora que acredita ter enxergado o seu duplo, o que envolverá seríssimas consequências. O clima é absurdamente sinistro e os sustos são dignos dos melhores filmes de suspense - com direito a final chocante! A obra, premiadíssima no exterior, é o 37º melhor curta-metragem nacional da história, de acordo com eleição feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e vale cada segundo!