Vamos combinar que o The Cribs é aquele tipo de banda que dificilmente erra e, em seu nono registro de estúdio, Selling a Vibe, o trio formado pelos irmãos Gary, Ryan e Ross Jarman reafirma uma de suas maiores virtudes: a capacidade de envelhecer com dignidade sem abrir mão da identidade. A banda continua fiel ao seu DNA indie, com algumas pinceladas de power pop e pós punk, mas agora soando menos impulsiva e mais consciente de cada escolha. Mais ou menos como se tivesse trocado a urgência juvenil do trabalho anterior, o frenético Night Network (2020), um dos nossos favoritos daquele ano, por um refinamento emocional - o que vá lá, certamente tem a ver com a maturidade de quem já está há mais de 20 anos na estrada. Em resumo, as guitarras seguem lá, mas aparecem menos nervosas, abrindo espaço para melodias que respiram e crescem com o tempo.
Esse novo momento fica evidente em canções como a faixa-título, Never The Same e Self Respect,
que apostam em arranjos mais contidos e em um lirismo direto, quase
confessional. Expediente que se repete em outras canções majestosas,
como na ótima Distractions, que parece unir Beach House e Weezer
em uma letra sobre a busca de significado nas coisas simples, e uma
certa inconformidade que emerge do sentimento de vazio na rotina (Nestes
dias de excesso / As histórias mais curtas são as mais doces / Agora as
coisas que me fizeram distrair / Podem distrair alguém novo). Não é
um disco que busca impacto imediato, mas sim permanência - daqueles que
vão se revelando aos poucos, sem alarde. Ao cabo, Selling a Vibe
mostra um The Cribs confortável com sua trajetória, seguro o bastante
para desacelerar e, justamente por isso, continuar acertando.
De: Geeta Gandbhir. Com Ajike Owens e Susan Lorincz. Documentário / Drama / Policial, EUA, 2025, 96 minutos.
Vamos combinar que em um País em que é possível comprar, no mercadinho da esquina, um pacote de Doritos e uma pistola, situações como a vista no assombroso documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), não chegam à surpreender. Some-se a isso a ascensão desvairada de uma extrema direita preconceituosa em todas as frentes - representada pelo ditador Donald Trump e o seu discurso de ódio a absolutamente todas as minorias (negros, imigrantes, latinos, periféricos) - e o estrago parece inevitável. E se ter um vizinho, qualquer que seja, já pode ser problemático em vários sentidos - com privacidades invadidas e desrespeito generalizado ao outro -, ladear a porta com uma idosa de tendência fascista pode ser ainda pior. E é justamente isso que acompanhamos na obra dirigida por Geeta Gandbhir, que está disponível na Netflix, e deve ser figurinha fácil em sua categoria no Oscar desse ano.
A história é real e meio que se repete, em matéria de escalada de violência. O filme começa com a polícia sendo acionada em um caso de assassinato, em uma pequena cidade do Condado de Marion, no Sul da Flórida. Voltando no tempo, compreenderemos as motivações (bizarras, por sinal) do crime, que vitimou Ajike Owens, que foi assassinada a sangue frio por Susan Lorincz, uma daquelas tias branquelas do ZAP que, na falta do que fazer - um bingo, crochê, hidroginástica ou qualquer outra coisa -, resolve encrencar com a vizinhança inteira, depois de se mudar para o bairro, ocupado em sua maioria por uma comunidade negra. Sem esconder o racismo entranhado em suas vísceras podres - o que faz com que uma mulher de 58 anos pareça muito mais velha do que, de fato, é -, Susan começa a, paulatinamente, acionar a polícia local para se queixar de crianças que jogam bola e brincam perto de seu pátio.
Sim, meio que basicamente é isso: Susan, que reside ao lado de um terreno baldio, se ressente que a garotada utilize o gramado pra jogar futebol americano, correr, agitar. O que fará com que ela chama a polícia não uma, mas dez, quinze, trinta vezes. Cinquenta vezes, talvez. Com as tensões escalando a cada novo chamado e um mal-estar coletivo emergindo do lugar. Como se fosse uma espécie de Bruxa dos 71 da vizinhança - mas sem o charme da Dona Clotilde -, Susan é a tia chata, solitária e mal amada, que implica com todo mundo, não se furtando em utilizar xingamentos cheios de preconceitos. Na tentativa de proteger as crianças, mães e pais formam uma barreira de contenção. Às vezes até contragolpeiam de forma mais forte - como no episódio em que uma delas arremessa uma placa em direção a casa de Susan. O que resultará em repetidos constrangimentos - e fica claro que até mesmo os policiais percebem onde está o verdadeiro problema. Que parece meio que sem solução, já que a véia jura que vai mudar dali - mas nunca muda.
Tenso e de suspense crescente, o documentário é hábil em utilizar, em grande parte, as próprias câmeras corporais dos policiais para contar a história - o que resulta em uma experiência bastante naturalista e orgânica, com cenas que mesclam discussões de meio de rua, em meio a presença ingênua das crianças que, sim, podem ser meio sapecas (como no instante em que uma delas tem a ideia de colocar um cachorro dentro da caçamba da caminhonete de Susan). Aproveitando ainda pra discutir o absurdo de leis como a Stand-Your-Ground, que possibilita a alegação de legítima defesa em caso de uso de força na propriedade privada, a obra ainda evidencia como, em casos envolvendo violência cometida por brancos contra pretos, a ponta fraca sempre parecerá evidente. E, por mais revoltante que o projeto seja, já que uma mãe de quatro filhos é simplesmente assassinada a sangue frio por causa da bagunça feita pelos pequenos, fica a lição quando o assunto é a busca por justiça: o povo jamais deve se calar. Sob pena da normalização desse tipo de agressão.
De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Emma Stone, Padro Pascal, Deirdre O'Connell e Austin Butler. Comédia / Drama / Faroeste, EUA / Reino Unido / Finlândia, 2025, 150 minutos.
Há algo que precisa ser dito sobre os filmes do Ari Aster: ninguém passa por eles e sai da mesma forma. Para o bem ou para o mal, as obras do diretor de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019) e Beau Tem Medo (2022) costumam suscitar horas de debates sobre seus temas - quase sempre psicológicos, contemporâneos, políticos. Ou ao menos parece ser assim pra quem não acompanha suas produções esperando sempre um novo Hereditário (2018). Talvez à exceção do igualmente ótimo Bugonia (2025) - leia a resenha abaixo -, poucos projetos traduzirão tão bem os tempos turbulentos e caóticos, em que todo mundo grita, mas ninguém escuta, como em Eddington. Vendido como uma espécie de faroeste pós-pandêmico, o filme coloca em lados opostos um xerife local e o prefeito de uma minúscula cidade do Novo México. Ambos desejando o poder acima de tudo, com Deus acima de todos. Ou algo do tipo.
Sim, eu já estou tomando consciência de que as obras que não tomam um partido ou que erguem uma bandeira panfletária mais clara, tem se tornado recorrentes. E eu acho isso ótimo para que possamos refletir um pouco melhor e que não seja apenas confirmando aquilo que pensamos ser o certo. Em uma narrativa como a de Eddington eu nem acho que o centro da disputa esteja entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, ou, vá lá e em última medida, republicanos e democratas. É isso também, mas mesmo sabendo pra onde apontaria o nosso radar nesse embate, não deixa de ser divertido se deparar com as contradições da província. E de como opera a Síndrome do Pequeno Poder em um município de pouco mais de dois mil habitantes, que é afetado não apenas na esfera local pelo comportamento excêntrico de seus habitantes, mas também em âmbito federal em um contexto de covid que avança e da explosão de movimentos como o Black Lives Matter.
E, sinceramente, é tudo muito saboroso e muito atual - e mais ainda, talvez, para os cronicamente online. Na primeira cena do filme, um mendigo meio noiado - aquele doidinho de bairro que toda a cidadezinha do interior tem - cruza o asfalto enquanto, ao fundo, um enorme outdoor anuncia uma obra que deverá movimentar a economia local: no caso a construção de um data center (daqueles que, daqui pra frente, consumirão toneladas de recursos naturais sob a desculpa de não frear a revolução tecnológica). Tentando a reeleição, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal) é um entusiasta da ideia. Mas, claro, como bom democrata, não ignorando as compensações ambientais, como a implantação de usinas eólicas e outras medidas, e que são solicitadas pelo conselho local. E que deverão ser respeitadas, assim como devem ser respeitadas as medidas que marcaram aquele maio de 2020 que já parece tão distante, como o uso de máscaras em estabelecimentos fechados ou o respeito ao distanciamento social (quase como uma alegoria para o afastamento meio natural em tempos de niilismo e misantropia forçada).
Ainda na primeira hora, o xerife local Joe Cross (Joaquin Phoenix sendo o esquisitão que adoramos, não adianta) trava um embate com Ted em um mercadinho, justamente pela necessidade do uso de máscara. No caso, um idoso, que se recusava a vestir a peça. Assim como Joe também se recusa - e, mais adiante, entenderemos suas motivações, ao conhecer a sua sogra Dawn (Deirdre O'Connell), uma daquelas tias do ZAP que passam as tardes se alimentando de teorias conspiratórias diversas na internet (e que podem variar de clonagem de líderes políticos, até chegar a existência de uma enorme rede de pedófilos ligada aos democratas estadunidenses) -, o que faz com que ele tome uma drástica decisão: se candidatar para enfrentar Ted nas eleições municipais que se aproximam. As suas bandeiras? Aquelas que costumam atrair os extremistas de direita mais desvairados, claro.
Em paralelo a tudo isso, os locais precisam lidar com a explosão de casos de violência policial - como no caso do chocante assassinato de George Floyd -, e do avanço de grupos contrários a atuação das forças estatais, como os Antifas (que, de acordo com o sonho mais molhado do ditador Donald Trump, deveria ser enquadrado como terrorista). Todas essas questões respingam na cidadela, com jovens brancos e com sentimento de culpa realizando protestos antirracistas. Assim como adentram por aquelas estradas poeirentas à moda A Última Sessão de Cinema (1971) da atualidade podcasts de gosto duvidoso localizados na antessala do fascismo, fóruns de chans e de incels sobre a queda da moralidade e o retorno do sonho americano - com Vernon, o personagem de Austin Butler soando como um Tom Cruise de Magnólia (1999), mas em uma roupagem meio Luciano Cesa das ideias (se ele fosse bonito) -, colidindo com progressismo de boteco que leva loiras jovens à se sentirem como uma Rosa Parks contemporânea. Sim, parece difícil percorrer todos esses temas e ainda dar uma lógica pra tudo. Mas a tentativa de Aster de tratar de paranoia, conspiração, alienação, coincidências, protestos, vidas expostas, campanhas políticas rasas, traições, lavagem cerebral e convulsão social funciona direitinho. E com direito a um dedinho colocado nas nossas feridas, nos fazendo pensar no nosso papel em meio a tudo isso. Ignore a crítica dita especializada. E só vá!
De: Shih-Ching Tsou. Com Nina Ye, Ma Shih-Yuan e Janel Tsai. Drama, Taiwan / EUA / França / Reino Unido, 2025, 108 minutos.
Em uma das tantas cenas comoventes do tocante A Garota Canhota (左撇子女孩) - obra enviada por Taiwan para a próxima edição do Oscar e que está na short list -, a pequena I-Jing (Nina Ye) fica exasperada após a morte de seu suricato de estimação. O animalzinho cai da sacada do prédio em que sua família reside, colidindo com um motoqueiro - em uma tragédia que poderia ser maior, mas que ganha tintas cômicas da produção de Shih-Ching Tsou. I-Jing se sente responsável pelo ocorrido. É ela, afinal, que arremessa uma bolinha de plástico para o bichinho que, tentando ir atrás do objeto, despenca das alturas. Mais do que isso, ela atira a bolinha com a mão esquerda - a "mão do diabo", como havia alertado o seu severo avô, algumas vezes. Aludindo a uma tradição antiquada de certas religiões, em que a mão esquerda (e seu uso), seria sinônimo de impureza, de azar ou de outros estigmas.
Claro que as motivações das dores vividas pela pequena protagonista nada tem a ver com isso - por mais que seu conservador avô brigue com ela para que ela coma ou escreva com a mão direita. De qualquer maneira, a vida de I-Jing, de sua irmã I-Ann (Ma Shih-Yuan) e de sua mãe Shu-Fen (Janel Tsai) não é nada fácil. Perambulando por uma Taipei fervilhante e caótica - cheia de luzes e de brilho, mas também de pobreza e de urbanidade -, o trio se instala na capital taiwanesa abrindo uma barraquinha para comercialização de macarrão instantâneo. A ideia parece envolver algum tipo de recomeço, já que o patriarca da família padece em um hospital, tendo as custas do tratamento mantidas por Shu-Fen - o que, aliás, torna difícil ela honrar os próprios compromissos financeiros. Para obter uma renda extra, I-Ann trabalha também em uma pequena loja de periferia que comercializa nozes de areca, espécie de estimulante local. Ah, I-Ann transa com o chefe e mantém uma disputa com uma colega de trabalho.
Nesse cenário frenético, I-Jing opera como uma espécie de elo, a unir certa ingenuidade infantil que envolve seu universo ainda minúsculo, com a aspereza da vida adulta. Se em um instante ela está brincando ou tentando se divertir naquele cenário neon esmaecido - resultado, inclusive, do estilo de filmagem à Sean Baker (que produz) -, em outros ela tá ouvindo esporros diversos de sua ansiosa mãe, ou ajudando um carismático vendedor de uma barraca vizinha, a tentar empurrar as suas quinquilharias goela abaixo de qualquer cliente que passe pelo local. Quando a mão esquerda se torna uma "ameaça", I-Jing passa a operar pequenos furtos - talvez de forma inconsciente, ou com algum propósito mais nobre. Em outro momento mais tenso, ela chega a pegar uma faca gigante de cortar carne, com uma intenção que quase não combina com seus olhos doces. O avô lhe vendeu as ideias erradas. Aliás, o que é um problema em sociedades patriarcais, machistas, preconceituosas e cheias de ideias torpes e retrógradas.
Em linhas gerais esse é um daqueles filmes tipicamente asiáticos - em que a aspereza da cidade, com seus barulhos e movimentos incessantes, contrasta com instantes afetuosos de um microcosmo familiar que luta para sobreviver, que briga, mas também se une na dor. De forma despretensiosa a obra, que está disponível para a Netflix, ainda reserva para os minutos finais uma das maiores surpresas da temporada, escancarando ainda a hipocrisia da suposta perfeição doméstica e a complexidade que envolve ser mãe solo. Vergonhas, traumas, memórias doloridas, esperança por um futuro melhor, uma scooter que roda entre a liberdade e certa adrenalina, tudo é descortinado com impacto e leveza em igual medida, com a mão esquerda de uma criança sendo apenas uma desculpa cômoda para os esqueletos que estão no armário de adultos.
De: Francis Lawrence. Com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Ben Wang, Judy Greer e Charlie Plummer. Ficção Científica / Terror, EUA, 2025, 108 minutos.
Vamos combinar que não deixa de ser meio curioso pensar que Stephen King escreveu o primeiro rascunho de A Longa Marcha (The Long Walk) no mesmo ano em que Sidney Pollack lançaria o clássico A Noite dos Desesperados (1969). Ainda assim, em em contexto em que a Guerra do Vietnã escalava empilhando corpos e um certo desencanto capitalista parecia rondar o mundo na entrada de década de 70, a coincidência não chega a surpreender. Em ambas as obras acompanhamos um grupo de pessoas participando de um jogo macabro em que os vencedores sairão com uma boa quantia de dinheiro, além de certo prestígio meritocrático. Na obra de Pollack, casais sem perspectivas financeiras reúnem-se em um salão para dançar infinitamente, numa espécie de prova de resistência à moda de um Big Brother do capitalismo tardio. Já na produção dirigida por Francis Lawrence, a partir do livro de King, vence quem for capaz de superar os demais em uma interminável caminhada.
E não é preciso nem ser muito politizado para perceber como a obra funciona como um panfleto de denúncia de contrastes sociais em uma era de vigilância, de espetacularização e de avanço da extrema direita e de outros regimes opressores mundo afora. E basta ver o discurso tão inflamado quanto limitado cognitivamente do major interpretado por um caricato Mark Hamill para perceber que, naquele cenário distópico, figuras ao estilo de um Donald Trump se divertiriam verdadeiramente, ao ver jovens lutando (literalmente) por suas vidas. Aliás, a coisa quase beira o arremedo, quando assistimos aquele sujeito de óculos escuros e de roupa militar por sobre um tanque, enquanto sinaliza aos participantes os objetivos daquela competição torpe - usando lugares-comuns à moda neofascista conclamando um retorno a tempos gloriosos, de esperança e de coragem. "Há uma epidemia de preguiça que precisa ser combatida", alega o major - e não seria nenhuma surpresa se ele vestisse um boné do Maga em meio ao seu discurso.
A óbvia referência a Trump funciona como um lembrete de que mudam os tempos, mas a retórica segue a mesma - e o caso é que mesmo as ficções científicas mais distópicas nunca parecem capazes de superar a realidade. Na trama, após uma Guerra Civil devastadora em um período de tempo que não se sabe qual, os Estados Unidos passam por um período econômico deprimente. Como forma de tentar resgatar valores como o patriotismo (sempre ele) e a ética laboral, o governo totalitário convoca cinquenta adolescentes, um de cada Estado, para participar da disputa que envolve uma série de regramentos - de velocidade mínima permitida à impedimento de desistência. A escolta ao grupo é feita por um grupo militar armado que não hesitará em executar os "frágeis" ou desistentes - e não deixa de ser assombrosa a naturalização da desumanização nesse cenário distópico, já que, lá pelas tantas, ninguém mais parece se impactar tanto com os corpos sendo empilhados pelo caminho. Num mar de sangue nem tão alegórico assim, que alude ao pior do capitalismo tardio, com o sonho de uma vida melhor passando pela sujeição às maiores humilhações. Aliás, os jovens participantes sequer podem parar para fazer suas necessidades, sob pena de levar um tiro. É grosseiro, torpe, vil, cruel. E aparentemente divertidíssimo - o suco do entretenimento -, para aqueles sádicos que comandam o espetáculo.
Já os jovens daquele microcosmo funcionam como eventuais estereótipos - o nerd, o destemido, o valentão, o atormentado, o taciturno, o malvado -, o que faz com que a experiência carregue uma energia cinéfila meio anos 80, ainda que a fotografia esmaecida, de tons desbotados e o cenário bucólico recortado pelo asfalto interminável, sugiram o inverso. Como uma espécie de líder involuntário (ou talvez bússola moral) do grupo, o carismático protagonista Raymond (Cooper Hoffman, de Licorice Pizza) conduzido ao local por sua chorosa mãe (Judy Greer), logo faz amizade com Pete (David Jonsson), compartilhando dores, traumas passados, desejos, anseios. Aliás, amizade ou qualquer tipo de sentimentalismo nessa corrida nunca parece uma boa ideia já que naquela competição perversa apenas um sobrevive. Mas servirá para que eles se estimulem a prosseguir - com os três mosqueteiros (sim, são quatro) sendo completados pelos esperançosos e inocentes Hank (o ótimo Ben Wang) e Arthur (Tut Nyuot). Ao cabo, a obra é cheia de diálogos, percalços e dores que servem para lembrar que, em um mundo tão individualista como o que vivemos, o senso coletivo ainda pode ser a resposta no combate à tirania. Por mais paradoxal que isso possa ser em uma produção do tipo.
De: Jafar Panahi. Com Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari e Mohammad Ali Elyasmehr. Drama / Comédia, Irã / França / Luxemburgo, 2025, 103 minutos.
Quando a gente assiste a um filme como Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), é meio que impossível não associá-lo à situação vivida pelo próprio diretor da obra, o iraniano Jafar Panahi. Perseguido pelo governo há quase duas décadas por atividades supostamente subversivas - com o seu cinema provocativo sendo veículo para críticas ao regime em vigor no País -, o realizador tem empreendido verdadeiros calvários para concluir cada um de seus projetos. E para tentar driblar a censura e as barreiras impostas pelos aiatolás e seu conservadorismo atroz. De histórias mirabolantes, como a do envio de uma cópia de Isso Não É Um Filme (2011), para o Festival de Cannes, em um pendrive escondido em um bolo, ao uso de metáforas e de metalinguagem em Sem Ursos (2022), suas produções têm sido um símbolo de resistência e de enfrentamento, enfim, um engenhoso exercício criativo em meio à proibição.
E talvez por isso, mesmo filmes que não pareçam assim tão inspiradores como este, que está em cartaz nas salas do Brasil e deverá ser figurinha certa na próxima edição do Oscar, faz com que passemos pano para as eventuais imperfeições. Afinal, frente a um cenário de ameaças - Panahi chegou a ser preso em 2022, passando sete meses encarcerado, sendo libertado após uma greve de fome -, uma obra que é uma alegoria para o medo e de como agir quando o algoz é confrontado, é, enfim, um ato de coragem. Na trama, o mecânico de automóveis Vahid (Vahid Mobasseri) é surpreendido pela chegada à oficina mecânica em que trabalha de um certo Eghbal (Ebrahim Azizi), sujeito que, no passado, teria lhe torturado por conta de diferenças étnicas em um flagrante caso de xenofobia. Vahid identifica o sujeito pelo barulho característico da perna mecânica de seu algoz, que perambula pelo ambiente acompanhado da esposa e da filha, após um acidente em que atropelam um cachorro.
Com medo e meio que sem saber direito o que fazer, Vahid resolve seguir Eghbal até a sua casa, encontrando o momento certo para abordá-lo, agredi-lo e conduzi-lo até uma isolada região desértica com o objetivo de enterrá-lo vivo. O ódio que carrega, resultado de uma sequência de humilhações vividas por ele, justificaria essa Lei de Talião improvisada (do "olho por olho, dente por dente?"). Em desespero, Eghbal garante haver um engano. Não tendo sido ele o carrasco que o manteve enclausurado - e Vahid não consegue ter certeza, porque tudo o que ele tem é o barulho da perna mecânica e a voz. Receoso de estar cometendo uma injustiça, ele desiste do seu intento, colocando o homem em um caixão à moda Festim Diabólico (1948), na intenção de descobrir se Eghbal é, de fato, quem é. O que resultará em um excêntrico road movie pelas ruas de Teerã, com a entrada em cena de outras figuras como a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), um empregado de uma farmácia local. Todos previamente flagelados (ou não) por Eghbal.
Em linhas gerais, o que a obra - que venceu a Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes - parece questionar por cada um de seus poros é como fazer, em um cenário de tantas diferenças políticas, sociais, culturais (ou de polarização), para simplesmente tolerar o outro. A sua existência. Claro que se um lado é o violento e age com raiva, truculência e intolerância, o outro também deveria agir assim? É por esse caminho que resolvemos os problemas e pacificamos uma sociedade? Em longos diálogos, o quinteto completado pelo noivo de Goli, Ali (Majid Panahi, filho do diretor) vai pra lá e pra cá tentando tomar algum tipo de decisão. Para Hamid é matar, enterrar e pronto. Para os demais, como no caso da própria Shiva que, claramente, só quer seguir em frente com a sua profissão, a dúvida pairando no ar parece ser uma barreira.
Em meio a choques e pequenas colisões, o grupo passará por outros suplícios urbanos, como propinas policiais, subornos aleatórios, a turbulência do trânsito, o capitalismo tardio ostensivo, um carro que entra em pane e até uma inesperada gravidez, com as implicações doentias de uma sociedade patriarcal - e tão guiada pela religião. Árida, excêntrica, caótica e inacreditavelmente divertida, essa é uma obra que repete os temas usuais de Panahi, que permanentemente precisa driblar as restrições, para a construção de uma experiência fragmentada, que olha para os traumas coletivos do Irã sem apontar um vilão em específico, já que o problema está no todo. No tecido. Nas entranhas. Com vidas - trabalho, relacionamento, famílias - sendo afetadas. Todos os dias. Com a coletividade meio que em pane, confusa, sem saber como agir. E sendo atropelada sem nem perceber.
De: Delphine e Muriel Coulin. Com Vincent Lindon, Bejnamin Voisin e Stefan Crepon. Drama, França, 2024, 118 minutos.
"Quando dizem que não é político, é aí que você deve se preocupar". Ainda no começo de Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu) a primeira vez em que Pierre (o sempre ótimo Vincent Lindon) inquire seu filho Fus (Benjamin Voisin) a respeito de suas amizades, ele é incisivo. "Não quero você andando com fascistas", ele argumenta, com seu olhar forte mas melancólico, que transmite medo, mas ternura. "Perder" um jovem para um grupo masculinista de extrema direita - normalmente aqueles incels frustrados, consumidores de conteúdo red pill -, que compensa o seu fracasso na base do ódio, da violência e da truculência contra tudo e contra todos, especialmente minorias, afinal, não deve ser fácil. E parece ser justamente o que está acontecendo com Pierre, um trabalhador ferroviário que vê o seu filho mais velho a cada dia mais fascinado por esses ideais. O homem chega a ser alertado por um colega de trabalho, a respeito da presença de Fus tumultuando um protesto de operários, que desejam entrar em greve.
Em linhas gerais a obra das diretoras Delphine e Muriel Coulin aborda um certo desencanto com os tempos atuais - de avanço de ideais racistas, xenófobas, misóginas -, com o campo contrário tendo de funcionar como uma zona de contenção. Como se fosse uma espécie de Otávio, o personagem de Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Black Tie (1982), Pierre é o socialista mais ou menos desiludido, que opera em um modo meio letárgico, quase no piloto automático em relação a sua vida. Prestes a se aposentar, deseja cuidar dos filhos - o mais novo, o afetuoso Louis (Stefan Crepon) está prestes a conseguir uma vaga no curso de Letras na prestigiada Sorbonne. "Ela ficaria orgulhosa", lembra o menino aludindo à falecida mãe, que padeceu aparentemente de um câncer. À Pierre, em meio a turnos de trabalho exaustivos na madrugada, restou cuidar dos meninos. O que ele tenta fazer da melhor forma.
Só que em certo dia, Pierre abre o notebook de Fus e fica estarrecido com o que vê. Não apenas ele está em perfis de grupos de extrema direita, como se se vangloria de compartilhar vídeos em que violências diversas ocorrem, especialmente contra imigrantes - com gritos nacionalistas e toda uma estética radicalista, que vai das cabeças raspadas às tatuagens tribais. Após uma discussão mais forte entre os dois, Pierre persegue Fus, ocasião em que descobre um gigantesco galpão abandonado que funciona como ponto de encontra dessa unidade neonazi. Lá dentro, um bando de machinhos tentam compensar a micropenia coletiva com sessões de brigas estilo Clube da Luta (1999), o que envolve gritedo, baba e suor. "Somos só bucha de canhão", "não é uma questão de esquerda ou direita", "estamos cansados do sistema", são frases prontas que Fus espalha, como se fosse um gerador de lero-lero do chatGPT, que só formula textos prontos e vazios que busquem amparar suas motivações.
Sem ofender a inteligência do espectador a obra é hábil em construir uma atmosfera de tensão crescente, mas sem ser necessariamente maniqueísta. Estamos, afinal, falando de uma família, que cresceu indo a jogos de futebol, ou batendo bola no pátio de casa. Alternando instantes de amor e de ódio, como em qualquer relação de pai e filho. Então, é bastante natural que Pierre tente investir, ao menos até onde dá, no caminho do amor. Ao passo que Fus também é afetuoso à sua maneira com o irmão e com o próprio pai, o que faz com que percebamos o óbvio em uma produção como essa: o ser humano é um sujeito complexo e cheio de nuances. Pode ser bom ou mal ou os dois. O seu tio bolsonarista que cuida tão bem de sua tia não é a pior pessoa do mundo. Ao mesmo tempo em que alguém do campo progressista não está livre de falhas ou de dilemas éticos. Só que o que parece ser meio infalível é o destino de quem adere tão cegamente e de forma tão alienante a ideologias tão extremas. E exemplos nesse sentido, lamentavelmente, não faltam.
De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis. Drama / Ficção Científica / Comédia, EUA / Canadá / Coréia do Sul / Irlanda / Reino Unidos, 2025, 118 minutos.
Teorias conspiratórias, crises climáticas, CEOs performáticos, tecnologia difusa, trabalho precarizado, incelismo cultural, distorção da realidade, corporações que vendem a doença e a cura, podcasts e opiniões sobre basicamente tudo. Vamos combinar que todo esse mal-estar contemporâneo, com suas divisões políticas, sociais e culturais, parece condensado nas irresistíveis cerca de duas horas de Bugonia (Bugonia). No novo filme de Yorgos Lanthimos - se você acompanha a carreira do diretor sabe que seu "método" é meio que o do estranhamento e o do choque - não parece haver mocinhos a quem possamos nos apegar ou mesmo torcer. Se por um lado o seboso Teddy (Jesse Plemons) parece um channer anárquico e alucinado que frequenta fóruns de internet em que doidinhos de bairro divagam sobre os mais aleatórios tipos de terraplanismo, por outro a empresária Michelle (Emma Stone) não fica atrás, com sua cultura corporativa de aparências e enriquecimento com base no sofrimento alheio.
Ao lado do primo autista Don (Aidan Delbis), Teddy elabora um audacioso plano: o de sequestrar Michelle, que ele acredita fielmente não apenas ser uma alienígena do galáxia de Andrômeda - numa clara alegoria sobre dominação - mas também a responsável direta por toda a dor causada a sua família. Teddy e Don são dois solitários que trabalham com apicultura e parecem ter genuíno apreço pelo meio ambiente, ao passo que Michelle é justamente uma das diretoras de um conglomerado farmacêutico de nome Auxolith, que fabrica inseticidas que, justamente, tem aniquilado as colmeias de abelhas. Uma ameaça, aliás, bastante real. Quando esses dois universos tão distintos colidem, o resultado é uma experiência provocativa que não alivia para as tragédias decorrentes do capitalismo, que parece não ter limites em sua sanha desenvolvimentista - mesmo que alguns fiquem pelo caminho -, nos fazendo também questionar se o caminho adotado pela dupla de abilolados representa é o ideal para a resolução dos problemas.
E, em alguma medida, creio que seja exatamente aí que o filme se torna mais profundo. Mais complexo. Ao mostrar que as pessoas podem ter nuances e traços distintos de personalidade. Afinal, seria muito cômodo e um tanto maniqueísta tornar Michelle a pobre sofredora sequestrada - meio como no caso do escritor de Louca Obsessão (1990) -, que está nas mãos de dois malucos do ancapistão que, se for preciso, vão praticar as piores torturas para alcançar seus objetivos, seja lá quais sejam exatamente. Tanto que antes de ela ser levada por Teddy e Don, já entendemos que ela é uma arrombada manipuladora, que se incomoda com a sua equipe ao gravar um vídeo institucional sobre diversidade (ela reclama do excesso do uso da palavra, o que parece deixar brecha pra outras interpretações), ao mesmo tempo em que soa como uma falsiane ao divulgar à nova política da empresa, que permite aos empregados saírem às 17h30. Mas desde que não haja pendências, claro! "Vocês decidem", sorri ela cativante, com seus olhos angulosos, que estampam uma série de capas de revistas do universo corporativo.
Com a mãe em coma - mais um efeito colateral das políticas literalmente tóxicas da Auxolith -, e uma fúria masculinista que vai no limite da metáfora, quando ele mesmo se aplica um medicamento redutor de libido, Teddy é retratado sim como o esquisitão de cabelos compridos, meio hippie sujo, meio troll de segunda categoria, mas que também parece ter sua parcela de razão ao evidenciar que o colapso ambiental global, se não for refreado, pode ser o símbolo do desastre futuro. À uma acuada Michelle, ele pede que retorne à Andrômeda. E simplesmente pare com essa devastação. O sentimento geral de paranoia decadente do mundo parece ampliado pela trilha sonora de cordas incômodas - cortesia do compositor Jerskin Fendrix, que deve ser nominado ao Oscar - e por um espírito bélico que escala, sem termos a certeza de onde tudo aquilo vai parar. O final, criticado por alguns, amado por outros (meu caso), é a cereja do bolo: seguimos disputando espaço, brigando (inclusive na internet) e tentando marcar posição, enquanto que manda no capital e toma as decisões nos aniquila pelas entranhas. Pode parecer meio niilista no geral. Até meio misantropo em alguns casos. Mas esse é o cinema de Lanthimos. Para o bom ou para o mal.