terça-feira, 2 de março de 2021

Cinema - Judas e o Messias Negro (Judah and the Black Messiah)

De: Shaka King. Com Lakeith Stanfield, Daniel Kaluuya, Jesse Plemons, Dominique Fishback e Martin Sheen. Drama, EUA, 2020, 126 minutos.

Os eventos que viriam a desencadear o covarde assassinato do líder ativista do partido dos Panteras Negras, Fred Hampton, é o fio que conduz a narrativa do espetacular Judas e o Messias Negro (Judah and the Black Messiah) - mais um daqueles filmes que deve ser figurinha fácil na edição do Oscar desse ano. Em tempos em que o preconceito e a violência contra os negros parecem ser "legitimados" pelo comportamento bélico de figuras como o ex-presidente norte americano Donald Trump - que descreve manifestações de movimentos como o Black Lives Matter como "terrorismo doméstico", numa espécie de subversão da lógica que beira o delírio -, uma obra como esta, dirigida por Shaka King, se torna ainda mais relevante e atemporal. Afinal de contas, não seria nenhum exagero comparar aquele turbulento ano de 1968, cheio de acontecimentos históricos, com o nosso pandêmico, caótico e recém concluído 2020. O racismo estrutural, afinal de contas, segue em alta. 

Atribuída ao revolucionário Che Guevara, a frase "as palavras são lindas, mas a ação é suprema" ecoa nos bastidores e em cada reunião dos Panteras Negras. O FBI acompanha à distância esse movimento e as progressões feitas. E para tentar estar um passo à frente do coletivo, designa um ladrão de carros de nome William O'Neal (Lakeith Stanfield) para atuar como infiltrado no grupo. Uma vez dentro dos encontros na sede do partido, na unidade de Chicago, William se aproximará de Hampton (Daniel Kaluuya), passando a compreender melhor suas motivações e sendo também influenciado pelo movimento que questiona o capitalismo e que luta por direitos civis e por união entre povos, buscando ainda reduzir as desigualdades e a pobreza. Mas tudo isso será suficiente para demovê-lo de um acordo de "delação premiada" em que ele verá a sua própria pena por roubo e falsificação reduzidas? A luta contra a exploração a que ele TAMBÉM está submetido fará com que ele revise suas posições?

É ao caminhar nessa linha tênue em que "irmão fica contra irmão" que a narrativa ganha força. Na sede do partido ninguém sabe das intenções de William, que recebe a sua missão das mãos do agente Roy Mitchel (Jesse Plemons, o nosso famoso Matt Damon de baixo orçamento) e do próprio J. Edgar Hoover (Martin Sheen), diretor do FBI que via com preocupação os movimentos combativos feitos pelos Panteras, mas também por outros coletivos como os Crowns. Aliás, as disputas internas entre grupos posicionados mais a esquerda, à época, dá conta da desorganização que, em certa medida, também impedia os ideais revolucionários de evoluírem para além de políticas mais "básicas" como o café da manhã comunitário para crianças pobres. Para a socialização do atendimento médico e da educação para todos era preciso união. E as formas de "militar" também surgem como uma dificuldade imposta pela imagem arranhada dos Panteras que, aqui e ali, são vendidos como um coletivo violento e excessivamente beligerante. 

Nesse sentido, não chega a surpreender a fala de Mitchel que, em certa altura compara o ativismo dos Panteras Negras com a violência racial proposta pela Ku Klux Klan - como se fossem estruturas meramente iguais, atuando em espectros políticos opostos. Mais ou menos como colocar lado a lado os atuais grupos de supremacistas brancos com os antifascistas - e este diálogo com os tempos atuais torna a narrativa ainda mais pungente. Com um desenho de produção e um figurino elegantes e uma trilha sonora alegoricamente incômoda - de notas caóticas, propositalmente altas e confusas -, a obra ainda é um prodígio em matéria de interpretações. Tanto que não será surpresa se Kaluuya e Stanfield, que repetem a parceria certeira de Corra! (2017), forem lembrados entre os indicados para o carecão dourado. É um filme dolorido, em alguma medida até desalentador. Mas o ideal permanece. Ecoa. Fica a história. A memória. Afinal de contas um revolucionário pode morrer. Mas não a revolução. Filmaço!

Nota: 9,0

segunda-feira, 1 de março de 2021

Cine Baú - O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs)

De: Jonathan Demme. Com Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn e Ted Levine. Suspense / Policial, EUA, 1991, 118 minutos.

O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs) é um suspense policial com o DNA dos anos 90. Pra começar tem uma dupla de antagonistas - vivida por Jodie Foster e Anthony Hopkins -, que se alternam em diálogos cheios de virtuosismo enquanto esbanjam, cada um a sua maneira, uma boa dose de carisma. Depois, há um vilão engenhoso (vivido por Ted Levine), que reforça o caráter maniqueísta da narrativa - afinal de contas, naquela época, era bem mais fácil odiar um depravado (e perturbado) transexual, que dilacerava suas vítimas. Há ainda o componente patriótico representado pelo desejo da jovem Clarice Sterling (Foster) de se tornar integrante do FBI. Há ainda o ambiente machista e a sexualização da coisa toda, com os olhares "famintos" dos homens em geral em direção à protagonista, como uma espécie de metáfora mais que perfeita para o canibalismo do excêntrico Hannibal Lecter, que passa seus dias no subsolo macambúzio de uma prisão de segurança máxima.

Seria ainda possível falar dos figurinos, dos tons pasteis, de um ou outro exagero alegórico que talvez não funcionasse tão bem nos dias de hoje, mas... os tempos eram outros. E, de alguma forma, a obra baseada no livro de Thomas Harris segue como uma das mais psicologicamente tensas experiências cinematográficas já realizadas. Não há aqui grandes excessos gore. Não há sangue e vísceras voando pelos ares. Ou jump scares aleatórios. Não há penumbra permanente ou outros elementos do desenho de produção que reforçassem algum tipo de mal estar generalizado. No caso dessa pequena obra-prima de nossos tempos, o terror está muito mais na sugestão. Na expectativa de algo que parece sempre prestes a acontecer - e a gente sabe que vai acontecer. Do dito pelo não dito. Da provocação. Da incerteza sobre o que virá ali adiante. Quem vai sofrer? Quem vai viver?

E a meu ver esse senso de horror iminente não pode ser melhor representado pelo fato de que, mesmo preso, o psiquiatra Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) represente uma tenebrosa ameaça. Uma força do mal sempre pronta a explodir ao menor deslize. Como numa espécie de contradição entre os seus modos plácidos, sua voz calma, seus olhos azuis e as suas vestes sóbrias, a intensidade de suas ações parece no limite da violência imprevisível ou da reviravolta intempestiva. Escalada para investigar um novo assassino em série que tem tocado o terror ao atacar mulheres, para depois dilacerar as vítimas retirando parte de suas peles, Clarice vai o encontro de Hannibal, já que integrantes do FBI acreditam que o personagem de Hopkins possa auxiliar na compreensão da psique do sujeito, que responde pelo apelido de Bufallo Bill (Levine). E, é claro, sabemos que Hannibal não entregará qualquer tipo de informação de mão beijada, o que desencadeará uma sequência de eventos tão tensos quanto memoráveis.

É, ao cabo, uma obra lindamente costurada, com uma série de sequências icônicas - muitas delas, parodiadas ou imitadas (como na parte em que Hannibal surge para um encontro com uma senadora, utilizando a sua inesquecível "focinheira"). Tendo como uma de suas forças os já citados diálogos - gosto muito da parte em que Hannibal avacalha o suposto provincianismo de Clarice -, a película também tem nas grandes intepretações uma de suas marcas registradas. Nesse sentido, não foi por acaso que Foster e Hopkins viriam a faturar o Oscar nas categorias Atriz e Ator. Aliás, sobre o carecão dourado, a obra conseguiria algo raro: ganhar os cinco principais prêmios - além dos atores, a distinção para Filme, Diretor e Roteiro Adaptado (Ted Tally), repetiria um feito alcançado apenas pelos clássicos Aconteceu Naquela Noite (1934) e Um Estranho no Ninho (1975). Já em listas de melhores, o filme é também figurinha fácil, surgindo em relações como a do American Film Institute (com o o 74º Melhor Filme Estadunidense de Todos os Tempos) e em livros como 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Clássico é pouco.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Tesouros Cinéfilos - Bela Vingança (Promising Young Woman)

De: Emerald Fennell. Com Carey Mulligan, Ryan Cooper, Laverne Cox, Molly Shannon, Alison Brie e Alfred Molina. Comédia / Drama, EUA, 2020, 113 minutos.

Um filme em que uma jovem se finge de bêbada em baladas, com a intenção de se vingar de homens assediadores é mais do que necessário nos tempos em que vivemos - e só esse fato já justifica a existência deste Bela Vingança (Promising Young Woman). Mistura de comédia com ares românticos e drama de humor negro, a obra aproveita o vigor de sua temática para construir uma narrativa cheia de virtuosismo, em que o visual de um colorido quase circense, se junta a trilha sonora vibrante e a maquiagem e o figurino carregados de sua protagonista, para formar o combo de uma trama de vendeta que, ainda que não seja tão sangrenta assim como se supunha imaginar, deixa uma importante lição. Na tela, Carey Mulligan surge improvavelmente aterradora como Cassie, uma garota de 30 anos que ainda mora com os pais, trabalha em uma cafeteria e ocupa seus dias infernizando sujeitos que acreditam que vão leva-la para a cama a força, sendo surpreendidos com invertidas que os fazem colocar o "rabinho entre as pernas".

Aliás, o filme da diretora Emerald Fennell (a Camilla de The Crown) já abre com a apresentação do modus operandi de Cassie: sozinha em uma boate, finge estar passando mal depois de um trago, atraindo um hétero qualquer que se oferece para leva-la para casa. Não demora para que a suposta cortesia inicial, se torne o comportamento impertinente: com o contragolpe aplicado, a jovem retorna para casa, onde atualiza um longo caderninho em que mantém anotados quais os assediadores que foram vítimas de sua "lição". Em meio a uma ou outra vingança, Cassie passa seus dias na cafeteria - e é lá que ela estabelece contato com um certo Ryan Cooper (vivido pelo comediante Bo Burnham), um antigo colega de faculdade, que se torna interesse romântico, ao mesmo tempo em que é esquadrinhado pelo ímpeto vingativo da jovem. Será ele também um abusador pronto a se aproveitar dela? Ou será alguém genuinamente interessado em seu amor?

Alternando estilos com uma forma absolutamente orgânica, o filme é capaz de saltar da narrativa de vingança à moda de um Kill Bill, para a comédia romântica açucarada em questão de minutos. Nesse sentido, a inclusão de rimas visuais como aquela em que a protagonista surge comendo uma espécie de doce com recheio de framboesa (que emula o "sangue" de suas vítimas), ou instantes em que Cassie e Ryan dançam em uma farmácia (!) ao som de Stars Are Blind da Paris Hilton funcionam muito bem. Aliás, a obra é pródiga ao apostar no senso de humor como forma de colocar o dedo na ferida a respeito de temas tão atuais e relevantes, como o estupro, a misoginia e o machismo. Enquanto personagens como o de Christopher Mintz-Plasse encarnam o mais patético hétero, branco, com uma autoestima da porra, o filme também dá dicas do que poderia ser o ideal de um comportamento masculino mais aceitável dentro de uma sociedade em que tantas mudanças ocorrem.

Cheio de participações especiais e de atores e atrizes carismáticos - além dos já citados, a obra conta com a presença de Laverne Cox, Molly Shannon, Alison Brie e Alfred Molina -, o filme vai ganhando força conforme se encaminha para o seu pouco previsível final, que conta com uma atitude extrema da protagonista, que alterará definitivamente o curso da história dos envolvidos. Com boas chances de indicações ao Oscar - Mulligan é aposta quase certa, não sendo surpresa também as nominações em categorias como Filme, Roteiro Original e até Diretora -, a película é daquelas que marca a sua posição, mas sem forçar a barra ou soar excessivamente panfletária. Isso não significa que o filme não tome partido. Mas em um País como o nosso, em que uma mulher é violentada a cada onze minutos - sim, acredite -, filmes como Bela Vingança servem, no mínimo, para fazer pensar. E isso não deixa de ser um mérito.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Curta Um Curta - Uma Canção Para Latasha (A Love Song For Latasha)

Categoria muitas vezes ignorada pelos fãs de cinema, o documentário em curta-metragem pode reservar boas surpresas - e é justamente esse o caso do comovente Uma Canção Para Latasha (A Love Song for Latasha). Disponível na Netflix e dirigido por Sophia Nahil Alison, o filme de apenas 19 minutos deverá ser um dos indicados ao Oscar em sua categoria - e só esse fato já justificaria conferi-lo. A história super bem montada e com efeitos sonoros e visuais surpreendentes conta a história real da Latasha do título, uma jovem negra que foi assassinada pela dona de uma loja de departamentos em Los Angeles, no dia 15 de março de 1991, após a mulher achar que - pasmem - ela estaria roubando uma garrafa de suco de laranja. Mais um dos tantos "casos isolados" de racismo estrutural que, como outros, resultam em crimes de ódio e de intolerância - aliás, casos que tem aumentado nos dias atuais, com grupos supremacistas brancos se sentindo legitimados por figuras políticas abomináveis como o ex-presidente norte americano Donald Trump. Narrada por uma amiga de infância, a história comove e evidencia o absurdo da impunidade, já que a assassina jamais foi presa.

Livro do Mês - Norwegian Wood (Haruki Murakami)

Editora Alfaguara. Tradução Jefferson José Teixeira, 1987, 362 páginas.

Norwegian Wood foi o meu primeiro contato com a literatura fluída do japonês Haruki Murakami. E, admito, devorei as mais de 350 páginas em menos de uma semana, já ficando com aquele gostinho de quero mais. A moda de outros escritores que espalharam dilemas, incertezas, anseios e inseguranças do universo juvenil em suas páginas - casos de J. D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio e F. Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby, pra ficar em apenas dois exemplos -, aqui o autor parte de um evento trágico (no caso o suicídio de um adolescente de 17 anos) para revirar as memórias daqueles que ficaram: no caso, o protagonista Toru Watanabe, que era melhor amigo do jovem e a bela Naoko, a ex-namorada do falecido. Um reencontro entre os dois despertará uma paixão bem ao estilo das paixões adolescentes: difusa, muitas vezes complicada e, neste caso, ainda preenchida por uma espécie de dilema ético. Acolher a ex-namorada do melhor amigo pode ser uma fuga nesse momento. Mas desejá-la como como Watanabe nunca desejou nenhuma outra, será o certo?

Enquanto "enfrenta" o seu dilema, o protagonista vive a vida como um outro adolescente qualquer: estuda teatro, convive com amigos excêntricos da universidade - entre eles o exótico Nazista (sim, o apelido do rapaz é por conta de sua mania de organização), com quem divide o quarto - e trabalha meio período em uma loja de discos. Aliás, um parêntese: o livro é pincelado por um sem fim de referências culturais diversas, de obras e autores famosos, passando por filmes e canções e, sim, o livro leva esse título por causa da canção dos Beatles. E, sinceramente, é uma delícia acompanhar os descaminhos dos personagens, vendo seu estado de espírito sendo traduzido por uma música entoada no violão, ou por uma memória aleatória envolvendo, por exemplo, as letras de People Are Stranger do The Doors ou Up On the Roof dos Drifters. No fim é um elemento que dá cor a narrativa, tornando-a mais sedutora, mais próxima de quem lê.

Em suas andanças, Toru acaba se aproximando de uma encantadora, divertida e sexy colega de faculdade: a jovem Midori. Midori é o completo oposto de Naoko: tudo que a ex-namorada do amigo (e seu maior interesse romântico) tem de, obviamente, taciturna, fragilizada e de introvertida, a colega tem de vibrante, de primaveril e jovial. Sem papas na língua - as sequências em que falam com naturalidade (e curiosidade) sobre sexo, masturbação, fetiches, entre outros, estão entre as melhores -, Midori não tem vergonha alguma em verbalizar a sua paixão pelo protagonista. Aliás, ela dedica um carinho que pega Watanabe de surpresa, deixando-o indeciso entre esses dois "amores". Só que a paixão por Naoko parece falar mais alto, mesmo que ele sequer faça ideia se algum dia será correspondido. Enquanto convive no universo de incertezas, Toru anda pra lá e pra cá com o amigo intelectual Nagasawa, que se ocupa de utilizar sua inteligência para seduzir garotas com o objetivo de levá-las para a cama.

Só que Toru só pensa em Naoko. E depois de um breve envolvimento entre os dois ela some, deixando-lhe uma carta em que explica que está em uma espécie de casa de repouso junto às montanhas de Kyoto. Não é exatamente um hospital, mas um local que poderá contribuir para o tratamento de seus traumas psicológicos. No local os pacientes se ocupam com atividades corriqueiras que vão de cuidados com a horta e com os animais, passando por aulas de música até chegar à caminhadas junto a natureza. Tudo parece leve - sensação ampliada pela atitude amistosa de Reiko, a colega de quarto de Naoko que, a despeito de ter quase o dobro da idade de ambos, deixa ambos à vontade. A cada visita de Toru à Naoko as incertezas aumentarão. Ela se recuperará? Valerá a pena mesmo investir em um relacionamento com a ex-namorada do falecido melhor amigo? Midori não seria uma aposta mais segura? O que fazer afinal da vida, que avança inexoravelmente? Sem respostas fáceis, Murakami nos conduz com maestria por essa narrativa tão fascinante quanto nostálgica. Vale conferir.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Eu Me Importo (I Care a Lot)

De: J. Blakeson. Com Rosamund Pike, Dianne Wiest, Peter Dinklage, Elza Gonzalez e Alicia Witt. Suspense / Comédia, EUA, 2020, 118 minutos.

A despeito do hype preciso ser sincero: não consegui me conectar com esse Eu Me Importo (I Care a Lot) - uma das novidades da semana na Netflix. Sério, não rolou. Não deu mesmo. Aliás, eu tenho um sério problema com aqueles filmes que parecem querer misturar Guy Ritchie com Irmãos Coen de uma forma meio forçada: eu pego ranço já na origem. Aqui, a história rocambolesca - por mais que a premissa até seja divertida - não emplaca. A farsa soa apenas absurda. As situações se tornam apenas extravagantes. O senso de humor é difuso. E as interpretações de praticamente todo o elenco, de quebra, ainda são constrangedoras, beirando a canastrice. Em linhas gerais a obra é quase uma alucinação que se pretende um suspense de "máfia" com boas doses de humor negro. Só que o problema é que você não se assombra - como seria esperado em um thriller - e muito menos dá risada. Aliás, a obra gera um efeito ainda pior no cinéfilo, que é a indiferença: a gente apenas torce pra que tudo acabe logo.

Quem me acompanha aqui no Picanha sabe que eu dificilmente "pego pesado" nas resenhas: sou apenas um jornalista que gosta de cinema, metido a ter um site pra escrever sobre as obras que assisto. Aliás, não são poucos os textos em que, inclusive, tento fazer algum tipo de defesa àquelas películas não tão bem quistas. Mas o caso é que no filme do diretor J. Blakeson (do fraco A 5ª Onda) não há muita salvação. Pra vocês terem ideia, a trilha sonora é ruim. É invasiva, exagerada. Não parece se comunicar decentemente com a narrativa. Às vezes a impressão é a de estarmos assistindo algum tipo de peça publicitária de alguma empresa da área de tecnologia. Até detalhes como o figurino das personagens parecem pensados à moda "miguelão": sequer há uma lógica no estilo de roupas usado, por exemplo, pela protagonista vivida pela Rosamund Pike, que a meu ver não consegue transmitir o suposto poder que ela deveria emanar TAMBÉM pelas suas vestes.

Na trama, Pike é Marla Grayson, uma espécie de trambiqueira que trabalha como guardiã legal de idosos que não podem se cuidar sozinhos. Na realidade se trata de um golpe que ela aplica com o auxílio da namorada Fran (Elza Gonzalez) e da médica dra. Karen (Alicia Witt), que repassa ao Estado os casos desses pacientes - de preferência velhinhos com bastante dinheiro. Uma vez assumida a condição de cuidadora, a picareta organiza todo um sistema em que se apodera dos bens dos idosos, tudo com o aval jurídico, impedindo inclusive, em muitos casos, os próprios familiares de poderem ver as "vítimas". E quando a aposentada de cerca de 70 anos Jennifer Peterson (Dianne Wiest) surge na mira das trapaceiras, ela parece o alvo perfeito: sem marido, sem filhos e com um caso de demência em estágio inicial. Mas o problema é que Jennifer não é o que aparenta: com um passado nebuloso (e criminoso) a velhinha se tornará a antagonista perfeita nesse cabo de guerra entre as duas, com direito a ligações com a Máfia Russa e com crimes diversos como falsificação, roubo e evasão de divisas.

E eu vou ser sincero novamente com vocês: quando vi a trama e as primeiras resenhas (algumas positivas) para o filme, eu fiquei bastante empolgado. Mas a forçação em tudo me jogou lá pra baixo: a indecisão em ser um filme de comédia ou uma obra policialesca - ainda por cima com ZERO charme e carisma -, ajuda a colocar a experiência a perder. A gente não consegue gargalhar, por exemplo, em uma sequência em que Peter Dinklage surge seminu ouvindo música ambiental enquanto se exercita com argolas. Assim como não nos assombramos quando alguma das personagens é atacada por algum mafioso. Isso sem falar no auge do diálogo caricato, quando Pike vira pra sua antagonista para proferir o indefectível "eu nunca perco" em uma discussão. [ALERTA DE SPOILER]: E é ao adotar um desfecho meio O Pagamento Final (1993) - em que um sujeito aleatório em aparição episódica surge no final para assassinar a protagonista à moda Benny Blanco -, que o sentimento fica ainda menos redentor. Fica parecendo aquela coisa meio Deus Ex-Machina de quem não sabia direito como concluir a história. Pra mim foi a mais completa decepção. Em um filme que eu esperava muito mais.

Nota: 2,5

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Relatos do Mundo (News of the World)

De: Paul Greengrass. Com Tom Hanks, Helena Zengel, Elizabeth Marvel e Bill Camp. Drama / Aventura, EUA, 2020, 118 minutos.

Faroeste dirigido pelo Paul Greengrass, protagonizado pelo Tom Hanks e com uma história sobre uma amizade improvável em meio as planícies poeirentas do Texas: assim é Relatos do Mundo (News of the World), que é aquele típico filme de estrutura clássica, que deve agradar cinéfilos de todos os tipos. Aliás, eu gostei demais. Até mesmo porque há um componente de valorização do jornalismo na narrativa, que me pegou de jeito. Na trama, Hanks é o capitão Jefferson Kyle Kidd, um veterano de guerra que ganha a vida percorrendo pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos, onde faz leituras de notícias dos principais periódicos do País. Os tempos são turbulentos naquele 1870 pós Guerra da Secessão e tantos os jornais quanto a alfabetização das pessoas não deixam de ser uma espécie de novidade. Em suas andanças ele se depara com uma jovem de nome Johanna (Helena Zengel) que está perdida, após seu comboio ter sido atacado. 

Criada por índios da tribo Kiowa após ter sido raptada anos antes, a menina de cerca de dez anos não fala nada de inglês, não tem memória de sua família biológica e tem um comportamento inicialmente hostil, sempre reativo. Os documentos que estão com ela dão conta da existência de familiares em um povoado cerca de 650 quilômetros distante de onde Kidd se encontra. Após um começo complicado envolvendo as burocracias do Estado para resolução do caso, o capitão resolve assumir a tarefa de conduzir Johanna até o local onde estão seus tios. No meio do caminho seguirá com o seu ofício, enquanto enfrentará obstáculos em sua jornada. Por obstáculos leia-se homens interessados em comprar ou raptar a jovem, o que possibilitará uma boa dose de cenas de ação, que certamente acertarão em cheio os corações dos saudosos fãs de westerns.


Ainda assim, em linhas gerais o clima é muito mais contemplativo do que movimentado. A quase total ausência de diálogos mais fluídos entre a dupla de protagonistas faz com que a evolução da amizade e a aproximação entre eles se dê de forma pouco apressada, com uma evolução tópica, quase episódica. Nesse sentido, a cada vez que Kidd salva a dupla de algum perigo iminente, Johanna vai se afeiçoando de seu bem-feitor - e confesso que fiquei bastante impressionado com a caracterização de Helena Zengel, ainda mais levando-se em conta o fato de que ela está em tela praticamente o tempo todo em tela com um ator da envergadura de Tom Hanks (que, aliás, empresta o seu habitual carisma para a entrega de mais um personagem executado com competência e elegância, o que deve lhe dar mais uma indicação ao Oscar para a coleção).

Abusando dos planos aéreos e de outros recursos técnicos como a fotografia amarelada e a trilha sonora bem pontuada, Greengrass transforma Relatos do Mundo em uma obra de aparência simples, mas de execução eficiente. Discutindo aqui e ali temas que refletem nos dias atuais - caso da polarização política, da luta por direitos e da importância da literatura (e das artes como um todo) como uma espécie de fuga da alienação -, o diretor ainda acrescenta um componente "místico" em uma das mais belas sequências da narrativa, quando um grupo de índios surge em meio a uma tempestade de areia, para subverter a lógica mocinho x bandido que tanto vimos nos clássicos muitas vezes maniqueístas de John Ford. Sim, porque na modernidade, é simplesmente impossível ignorar os avanços sociais alcançados, mesmo na hora de contar histórias que se passam 150 anos atrás. O que faz com que essa obra tão correta, tão bem executada, tão retilínea, ganhe uns pontinhos a mais.

Nota: 8,0

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Tesouros Cinéfilos - Nomadland

De: Chloé Zhao. Com Frances McDormand, David Strathairn, Bob Wells e Linda May. Drama, EUA, 2020, 108 minutos.

Em uma das tantas belas sequências do maravilhoso Nomadland - um dos filmes favoritos a faturar a premiação máxima no Oscar, que ocorre em 25 de abril -, um grupo de pessoas tem uma conversa aleatória sobre assuntos amenos, durante um almoço. Em dado instante uma das participantes mostra à protagonista Fern (Frances McDormand) uma tatuagem em que se lê a frase "lar é só uma palavra ou é algo que você carrega com você?" Extraída da letra da canção Home Is a Question Mark, dos britânicos do The Smiths, a sentença diz muito sobre a opção narrativa da diretora Chloé Zhao. Afinal de contas, seria muito cômodo em um filme sobre nômades involuntários - muitas vezes idosos - a escolha pelo caminho da demonização do capitalismo ou do sistema que exaure o trabalhador até a sua velhice, colocando-o como um refém financeiro de bancos, de imobiliárias e de empresas de seguro. Sim, tudo isso está lá. Mas o que a diretora pretende, com seu belo líbelo sobre a liberdade de escolha - ainda que por linhas tornas -, é questionar esses padrões, essas convenções sociais que nos estabelecem como verdadeiros escravos até o ocaso de nossas existências.

Mesmo para nós brasileiros, não é novidade que a crise imobiliária de 2008 desmantelou o sistema financeiro norte-americano - e filmes como o ótimo A Grande Aposta (2015), de Adam McKay mostram esse evento com um didatismo quase irresistível. Aqui, o ponto de partida é a mesma crise, que fez com que uma indústria com quase 90 anos de tradição, fechasse suas instalações em uma pequena (e gelada) cidade do Estado de Nevada. Isso pra ficar num exemplo. Fern é remanescente dessa "quebra": desempregada, teve que sobreviver a base de bicos e de subempregos (como em um galpão da Amazon), que pudessem garantir o mínimo de renda enquanto os boletos chegavam. Depois de perder o marido, as dívidas com a hipoteca fizeram com que perdesse também a casa. Nada disso aparece no filme com clareza e acho que aí está parte da mágica da obra: vamos descobrindo os detalhes sobre a condição de vida dos nômades aos poucos, em pequenas doses, conforme a narrativa avança. E, curiosamente, sem "coitadismo".

Quando Fern está oficialmente deixando Nevada para trás - mesmo que temporariamente -, há uma melancolia em seu olhar (e admito que dificilmente poderia haver atriz melhor do que a Frances McDormand para encarnar essa mulher de gestos tão duros quanto sutis). Só que a descoberta de um mundo para além do esquema casa/trabalho/filhos/casa/trabalho coloca a película em outra perspectiva. Por que o caso é que muitas vezes a gente simplesmente esquece do valor das coisas simples. De uma boa amizade. De uma conversa aleatória e simpática com um desconhecido. Da nossa plena capacidade de resistir diante das adversidades. Da empatia e do apoio do ombro amigo - mesmo que seja de um estranho. Da natureza e de sua capacidade única de nos arrebatar. Seu verde, os pássaros, o chiado das águas. Quando a protagonista chega ao Arizona, num acampamento mantido por Bob Wells - uma espécie de campo de treinamento para nômades iniciantes -, a sua vida se transforma.

Aliás, há um discurso de Wells sobre sermos escravos do dólar, sobre sermos burros de carga que trabalham até o fim da vida, que demarca bem a posição adotada pelo filme. Naquele local reina o espírito comunitário. Todos se ajudam, se apoiam. E não demora para que nos emocionemos com o relato de uma senhora que afirma ter perdido o marido às vésperas de sua aposentadoria, após ele ter passado a vida juntando dinheiro para adquirir um veleiro que jamais viria a usar. É possível ser feliz com pouco? Ou sem dinheiro? Sem uma vida de luxos, de conforto ou de tecnologia? Sem uma casa? Num universo de incertezas? Por mais que a obra pareça questionar o tempo todo as convenções sociais, ela jamais deixa de reconhecer o valor das memórias afetivas que podem estar relacionadas, por exemplo, aos objetos que temos em nossos lares ou mesmo a importância de uma boa cama ou um chuveiro - ou mesmo uma van bem equipada. Mas o que talvez a gente perceba com o filme são as outras possibilidades. Há uma cena em que a idosa Swankie se maravilha com um por do sol alaranjado em meio ao cenário desértico. Ou que a própria Fern se maravilha em um cenário idílico. Quando paramos, em nossas rotinas, para prestar atenção nisso?

Construindo a obra - que é baseada no livro de Jessica Bruder - como uma experiência nostálgica, bucólica e engrandecedora, Zhao inunda o filme com instantes de grande beleza estética, o que é fortalecido pela fotografia granulada e empalidecida, completada por uma trilha sonora que jamais soa invasiva ou excessiva. Utilizando-se de um coletivo de pessoas que não são atores de verdade, a diretora amplia o caráter documental do projeto, transformando Fern em uma quase observadora participante de um filme que, por um milésimo, não é, de fato, um documentário. É daqueles filmes que, por mais que partam de uma situação desalentadora - no caso o descaso do sistema econômico e mesmo o abandono completo do Estado a sua população -, estamos o tempo todo com um sorriso no rosto, porque há aqui e ali um otimismo palpável, um espírito gregário, um idealismo comovente. Não é que não haja solidão. Não é que não haja frio ou tristeza. Ou saudade e memória. Mas há esperança em meio aos destroços. O que, em tempos tão sombrios como os que vivemos, certamente nos mantém otimistas.

Nota: 9,0