terça-feira, 16 de julho de 2019

Músicas Gêmeas - Ed Sheeran x Marvin Gaye

Ainda que esteja em pleno processo de divulgação de seu mais recente trabalho - o morno Nº 6 Collaborations Project -, o cantor Ed Sheeran não tem tido vida fácil, já que desde 2016 está em curso um processo de plágio envolvendo o artista. Na época, o compositor Ed Townsend encontrou similaridades entre as canções Thinking Out Loud de Sheeran e Let's Get It On de Marvin Gaye, canção que foi composta em parceria com Townsend. Confesso que, sim, há algumas similaridades entre as canções, a ambientação, a melodia, mas não considero o episódio tão, assim, escancarado.O imbróglio deve se resolver ainda neste ano e enquanto isso não ocorre, convidamos vocês a tirar a prova real, sobre mais esse caso de cópia (ou não).


Tesouros Cinéfilos - Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru)

De: Hirokazu Koreeda. Com Masaharu Fukuyama, Machiko Ono, Keita Nonomiya, Lily Franky, Yoko Maki e Shogen Hwang. Drama, Japão, 2013, 121 minutos.

O prolífico diretor japonês Hirokazu Koreeda é um mestre na utilização dos conflitos familiares, como matéria-prima para a elaboração de seus filmes. Obras como Ninguém Pode Saber (2004), Depois da Tempestade (2016) e, mais recentemente, o indicado ao Oscar Assunto de Família (2018), frequentemente utilizam a dinâmica que envolve pais, mães, tios, filhos e sobrinhos, como forma de estabelecer um microcosmo que parece pronto a ruir ao menos sinal de instabilidade, rompendo com o tecido social estabelecido. Bom, esse também é o caso de Pais e Filhos (Soshite Chichi ni Naru), que gera tensão a partir de um episódio inusitado: quando dois casais recebem um chamado do hospital em que nasceram seus filhos para explicar que, seis anos atrás, seus bebês foram trocados na maternidade. E, pior: aparentemente de forma deliberada.

Em meio a conversas com advogados que brigarão por possíveis indenizações, ambos os casais resolvem efetuar a troca aos poucos para que o trauma não se transforme em algo ainda maior. Assim, o jovem Keita (Keita Nonomiya), que convivia com os pouco amorosos e excessivamente práticos pais Ryota (Masaharu Fukuyama) e Midori (Machiko Ono), em um lar com muito conforto e segurança financeira, mas também muito frio, passará a conviver com os amorosos e extrovertidos Yudai (Lily Franky) e Yukari (Yoko Maki), além de dois irmãos, em um ambiente bem mais modesto, mas muito mais vivo e colorido. Ao mesmo tempo, o pequeno Ryusei (Shogen Hwang) será enviado para a casa dos primeiros. Se na sua casa "oficial", Keita precisava se preocupar com uma agenda que lhe transformava em um pequeno adulto - com direito a aulas de piano não muito desejadas -, na sua outra moradia ele podia brincar e receber um carinho quase inesperado. De outro lado, a sisudez, especialmente de Ryota, deixará Ryusei claramente desconfortável.


De certa forma, o filme faz uma crítica aos pais que "despejam" filhos no mundo, mas que não reservam tempo para eles, tratando-os com distanciamento, e colocando-os sempre em segundo plano. Em uma das mais arrebatadoras sequências, Yudai pergunta a Ryota os motivos de ele não ser um pai mais presente para o seu filho, ao que o segundo responde que "não pode ser substituído no trabalho". Em seguida, ele ouve como tréplica o fato de que ele TAMBÉM não pode ser substituído como pai - por mais que o próprio Yudai pudesse ser um candidato natural ao "cargo". Outra cena definitivamente comovente envolve o momento em que Yukari dá um caloroso abraço em Keita que, desacostumado com esse tipo de manifestação de carinho, parece não saber exatamente o que fazer com os braços, já que o seu pai sequer lhe tocava quando lhe reencontrava após um dia de trabalho.

Será nessas interações meio tortas, difusas, com crianças perdidas em meio a convivência entre duas famílias diametralmente opostas, que num momento brigam e noutro se querem bem, que se estabelecerá a dinâmica do filme. A impressão que temos é a de que todos se complementam e, por mais que haja uma crítica mais forte ao pai excessivamente deslumbrado com o capitalismo, também ele terá o seu momento de redenção, em que confronta um passado (e uma infância) em que também permaneceu, na condição de criança, em segundo plano. É uma obra que pode soar meio arrastada para alguns "paladares" mas que, com grandes interpretações, e uma atenção minuciosa para a construção da narrativa, se transforma em um verdadeiro tratado sobre o valor da conexão entre pais e filhos - e sobre como estas definirão quais adultos que aquelas crianças serão. Premiado pelo Juri no Festival de Cannes daquele ano, Pais e Filhos conferiu ainda mais robustez a filmografia de Koreeda, que transforma cada filme que é lançado por ele, em verdadeiro objeto de culto pelos cinéfilos.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Cinema - Divino Amor

De: Gabriel Mascaro. Com Dira Paes e Júlio Machado. Ficção Científica / Drama, Brasil / Uruguai / Dinamarca / Suécia / Chile / França / Noruega, 2019, 102 minutos.

A ideia para o filme Divino Amor é absurdamente original. A trama viaja para o futuro para imaginar um Brasil do ano de 2027. Nele, o Estado definitivamente deixou de ser laico, a família tradicional está estabelecida exclusivamente no padrão homem, mulher e filho, a burocracia é galopante e o Governo funciona num misto de opressão religiosa e conservadorismo extremo. Enfim, é o tipo de distopia tão verossímil nesses recém-iniciados anos de Bolsonaro, Damares, Olavo de Carvalho e Alexandre Frota que a sensação, na verdade, é a de que não estarmos necessariamente vendo o futuro e, sim, o presente. Afinal de contas, hoje em dia, homem deve vestir azul e mulher deve vestir rosa. O Estatuto da Família busca restringir a sua composição a heteronormatividade. Deputados da bancada evangélica rezam o Pai Nosso na Câmara, em dia de votação de pautas. E por aí vai. Esse é o nosso Brasil da atualidade. Retrógrado. Cafona.

Em 2027 esses aspectos parecem apenas ter se ampliado. Ou se legitimado pelo voto - e aqui cabe saudar o diretor Gabriel Mascaro (Boi Neon) por ser uma espécie de visionário com esta pequena obra, que foi produzida e concluída antes das últimas eleições. No universo que ele concebe não existe mais o Carnaval, que foi agora substituído por um tipo de rave gospel em que fundamentalistas religiosos aguardam pela chegada do Messias. Pessoas que precisam de conselhos de algum pastor podem acessar uma espécie de drive thru da salvação em que liturgia e música sacra se misturam para expiação das dores dos fiéis. A tecnologia serve as instituições e para identificar pessoas pelo seu Estado civil - solteiro, casado, divorciado e, no caso das mulheres, se estão grávidas ou não. É o tipo de opressão que não é necessariamente escancarada, mas que estabelece rótulos e que busca uniformizar uma sociedade que, consequentemente, perde a sua identidade. Tudo é sombrio, triste, desolador.


A protagonista Joana (Dira Paes, em ótima performance) é uma escrivã de cartório profundamente religiosa, devota à idéia de fidelidade conjugal e que tenta evitar que casais se separem. Sim, é um dos objetivos do Estado impedir que uma de suas instituições máximas - no caso, o matrimônio - não seja arruinada. Que os casais continuem. Persistam. Sejam felizes na marra e superem as "fases ruins". Mas o que fazer quando ela própria tem as suas convicções questionadas, a partir de um evento que modificará a sua vida e a de seu marido Danilo (Julio Machado) para sempre? Incapazes de ter filhos, eles procuram todo o tipo de solução médica e tecnológica, com direito a cenas constrangedoras de busca de "fertilidade". Mas, e quando o milagre acontece, mas não é bem como se esperava, como lidar?

O filme, que mais parece uma espécie de apocalipse enfumaçado em cores neon, procurará lidar com essas questões, ao passo que mostrará as interações de Joana e Danilo na entidade que dá nome ao filme e que busca algo como "a ressignificação do casamento" por meio de terapia - o que deverá ocorrer com muito sexo entre os envolvidos, mas apenas como forma de estímulo, sem amor (o que dá conta da hipocrisia das famílias de bem que não se furtam em pular a cerca, tal qual ocorre na metafórica sequência de um cachorro no cio ainda no primeiro ato). Utilizando-se de longos planos, Mascaro inundará a tela de cenas em que os dogmas religiosos são desconstruídos, com os sujeitos se vendo reféns da mesquinharia que rege a grande maioria das igrejas, que jamais almejam o bem estar coletivo e, sim, apenas a satisfação individual de poucos, numa espécie de hedonismo às avessas.


Pecando apenas por não ampliar o contexto político/social/religioso, o filme acaba "pegando leve" ao não mostrar possíveis focos de resistência em um Governo totalitário (não seria interessante o submundo dos divórcios obtidos no mercado negro?) ou mesmo as outras formas de opressão do Estado, possíveis em um universo em que absolutamente TUDO gira em torno da religião. Por exemplo, as pessoas ouvem música gospel porque as outras não são permitidas? E como seria o comportamento da imprensa nesse cenário apocalípitico? Seria chapa branca? Panfleto do Governo? Haveria outros partidos políticos? Outras possibilidades? A tecnologia não avançou tanto por quê? Há equipamentos proibidos (não se vê nenhum celular em cena)? A meu ver, ao limitar a obra para os limites daquilo que acontecia no entorno da família protagonista, muitos aspectos que enriqueceriam a experiência foram deixados de lado. Ainda assim trata-se de um filme superior, visionário e essencialmente plausível diante desse cenário catastrófico que se encontra a nossa política.

Nota: 8,5

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Na Espera - Ad Astra (Filme)

Ainda é cedo pra falar em Oscar, mas uma coisa é certa: Ad Astra deverá estar entre os indicados em boa parte das categorias técnicas na próxima edição da maior premiação do cinema, afinal de contas, quem resiste a um filme de ficção científica bem feito? Dirigida por James Gray (Z - A Cidade Perdida) e com estreia prevista para o dia 19 de setembro, por aqui, a obra narra a história de um engenheiro especial que possui um leve grau de autismo e que, a despeito da doença, resolve empreender a maior jornada de sua vida: viajar para o espaço, cruzar a galáxia e tentar descobrir o que teria acontecido com o seu que pai, um astronauta que, vinte anos atrás, teria se perdido em meio a uma expedição ao planeta Netuno.


O elenco tem bons nomes, entre eles Brad Pitt, um dos produtores executivos, que interpreta o protagonista Roy McBride. Completam o elenco Tommy Lee Jones, Ruth Negga e Donald Sutherland. Já o trailer tem aquele clima de ficção científica clássico, com imagens do espaço, explosões no vácuo (e sem som!), um leve caráter existencialista e um personagem atormentado em busca de alguma resposta para as suas angústias. Se vai emplacar ou não, saberemos daqui pouco mais de dois meses. Por aqui, já estamos Na Espera!

Novidades em Streaming - The Black Keys (Let's Rock)

Não chega a ser exaaaatamente uma novidade: já faz duas semanas que o The Black Keys lançou seu mais novo registro (o novo da carreira). E como hoje é o Dia Mundial do Rock - essa data enfadonha que costuma ser celebrada por senhores reacionários e conservadores que escutam Born To Be Wild do Steppenwolf, enquanto saboreiam alguma cerveja artesanal de sua preferência -, nada mais justo que comemorar ouvindo um disco que se chama Let's Rock! E se tem algo que o Dan Auerbach e companhia sabem fazer de maneira satisfatória, é aquele rockão garageiro meio alternativo, meio eletrônico, que nos faz abrir aquele sorriso sem muito esforço. Não, não é a salvação da lavoura - aliás,  beeem longe disso. Mas para um estilo que tem sido sinônimo de jaqueta de couro empoeirada, guarnecida por uma dúzia de bolas de naftalina, poder ouvir um álbum que ecoa a juventude perdida de algum tempo que não volta mais, misturando o clássico e o moderno em igual medida, já nos faz manter a esperança. Bora clicar?



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Tesouros Cinéfilos - Culpa (Den Skyldige)

De: Gustav Möller. Com Jakob Cedergren, Jessica Dinnage e Jakob Ulrik Lohmann. Suspense, Dinamarca, 2018, 85 minutos.

Interessante notar como um filme de estrutura bastante hollywoodiana, como é o caso do dinamarquês Culpa (Den Skyldige), é percebido com um outro tipo de severidade quando se trata do cinema europeu. Tudo parece ser mais naturalista, com os personagens surgindo na tela como figuras absolutamente verossímeis, possíveis de existir. Se há tensão, ela é palpável. Se há sofrimento, a dor salta da tela. Talvez seja algum tipo de distanciamento, que resulte nesse sentimento. A fotografia granulada. A luz ambiental. A música quase inexistente. Não sei. Tô viajando aqui, ao mesmo tempo em que já sei que os americanos farão uma versão deles dessa pequena joia do cinema dinamarquês. E que haverá Jake Gyllenhall no papel principal - o de um policial que está sob investigação e que é "rebaixado" ao cargo de atendente de ligações de emergência na delegacia em que trabalha.

Bom, no original dinamarquês, dirigido pelo estreante Gustav Möller, o protagonista é Asger Holm (Jakob Cedergren). Em meio a ligações com pedidos de socorro os mais variados - desde quadas de bicicleta, até relatos de pequenos furtos -, Asger atende uma ligação de uma mulher que, aparentemente, está sendo sequestrada. Ao telefone, ela finge que está falando com a sua filha, como forma de despistar o sequestrador e facilitar a logística que poderá levar a polícia até a autoestrada em que está a van do criminoso. Intercalando chamadas direcionadas a outras delegacias de Copenhague, a policiais rodoviários e até a amigos policiais mais próximos (que, a paisana, também poderiam ajudar), Asger vai montando uma espécie de quebra-cabeças para que ele consiga, mesmo a distância, solucionar o caso.


Só que há um aspecto que o protagonista não parece colocar na balança nessa situação toda: o da imprevisibilidade. O apoio dos policiais de campo levará a descobertas nauseantes, aumentando a angústia não apenas de Asger, mas também do espectador, que acompanha tudo com a câmera praticamente colada na do policial. Hábil na construção de um cenário claustrofóbico, Möller realiza todo o filme no cubículo da delegacia, fazendo com que o espectador escute vozes, barulhos, passos, suspiros, choros e outras reações que ocorrerão do outro lado do telefone em nenhuma chance de reação e que transformarão a película em uma experiência não menos do que sufocante. Assistir a dor do policial que, longe, não consegue ajudar como desejaria, ao passo que ele mesmo lida com os seus próprios demônios - parece haver segredos do passado prontos para vir à tona - tornam a obra uma gratíssima surpresa dentro do gênero suspense.

Com apenas um ator aparecendo praticamente o filme inteiro, essa obra de pouco mais de 80 minutos é a prova viva de que não são necessárias explosões, efeitos especiais de última geração e outras trucagens para a composição de uma obra satisfatória: basta uma boa ideia. E que ela seja bem executada - já que, certamente na mão de outro diretor talvez o filme beirasse o delírio histrionista e irresponsável. Discutindo ainda o conceito de culpa (e seus atenuantes em crimes variados), bem como o nosso ímpeto natural de ser juiz em causas que não são nossas, o filme, enviado pela Dinamarca para a categoria Língua Estrangeira no último Oscar, ainda reserva para o terço final uma impactante reviravolta, que deixará o espectador estarrecido no sofá. Nesse sentido trata-se de um filme completo: tenso, urgente, com ótima interpretação do protagonista e uma resolução surpreendente. Não era necessária uma versão de Hollywood, definitivamente.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Cinema - Fora de Série (Booksmart)

De: Olivia Wilde. Com Kaitlyn Dever, Beanie Feldstein, Billie Lourd, Skyler Gisondo, Jessica Williams, Lisa Kudrow e Will Forte. Comédia, EUA, 2019, 105 minutos.

Devo admitir que sempre fico meio desconfiado dos filmes que tratam do universo dos adolescentes - especialmente pela dificuldade que muitos diretores têm de escaparem dos estereótipos. Do jogador de futebol americano popular, bonito e tosco, passando pela nerd que não é padrão de beleza (mas é muito inteligente), até chegar ao introspectivo dark ouvinte de The Smiths, o caso é que muitas obras reduziram os adolescentes a figuras exclusivamente maniqueístas, sem nenhum senso de vida em comunidade ou empatia. E que respondiam apenas de uma forma: com maldade ou bondade excessiva, de acordo com o papel que lhes foi atribuído na trama. Aliás, é assim até hoje e vamos combinar que as historinhas meio bobas, sobre adolescentes querendo perder a virgindade ou sobre moças românticas sonhando com príncipes encantados inexistentes, em meio a um festival de piadas machistas e misóginas, nunca contribuiu muito.

E quando li o resumo desse Fora de Série (Booksmart), sobre duas amigas com quase nada de vida social e que sempre foram muito focadas em tirar as melhores notas (o estereótipo das CDFs), mas que resolvem correr atrás do prejuízo na última noite de festa antes da formatura do Ensino Médio, confesso que não me animei muito. Mas esse filmezinho adolescente, pasmem, está entre os 25 melhores do primeiro semestre, de acordo com o site Metacritic (que compila notas de críticos dos mais diversos veículos). Então resolvi encarar a sessão, até mesmo porque queria algo mais leve, sem muita pretensão. E é preciso admitir: trata-se de uma gratíssima surpresa.


A quebra de estereótipos acontece já nos primeiros minutos do filme, quando as protagonistas Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein) se dão conta que os colegas que passaram a vida inteira na zoeira, entrarão em universidades tão majestosas quanto as delas. Sim, porque, por incrível que possa parecer, é possível SIM aproveitar a vida, curtir, namorar, ir para as festas, beber e transar e TAMBÉM ir para uma faculdade legal, estudando, se focando. Há momento para tudo. E uma coisa não exclui a outra. É a mesma lógica que vale para a dificuldade que Hollywood tem para aceitar que, nas comédia românticas, uma mulher possa casar (se assim desejar) e TAMBÉM ter uma carreira, um trabalho. Bom, quando nos primeiros minutos de filme essa ficha cai para nós, junto com uma das protagonistas, a película da diretora estreante Olivia Wilde já ganha um bom punhado de pontos.

Sim, os skatistas não precisam ser necessariamente os maconheiros burros, os ricações não precisam ter um bando de bajuladores à sua volta, os populares não precisam ser antipáticos e os nerds não precisam ser pretensiosos. É da vida real que estamos falando, e Olivia apresenta as características de cada adolescente - suas inseguranças, medos, desejos, anseios - com uma naturalidade comovente. Não estamos falando que não haverá "tribos", cada grupo interagindo mais com quem tem mais afinidade. Mas não é possível que todos curtam juntos? E é nesse aspecto tão prosaico que o filme nos arrebata. Quando Amy e Molly chegam a tão desejada festa, o "medo" inicial - de serem ridicularizadas, por nunca terem sido muito sociais -, dá lugar a outros sentimentos (euforia, paixão, desilusão). E a fluidez com que tudo acontece nos emociona e nos faz rir em igual medida.


É um filme tão simples, que é quase inacreditável. Se passa todo em uma madrugada, com Amy e Molly indo de festa em festa em busca da tal festa do Nick (a balada "oficial" da noite). Uso de drogas, ingestão de álcool, amizades, sorrisos, galinhagens, primeiras vezes desajeitadas (e totalmente compreensíveis), tudo estará lá, bem como as piadas sexuais engraçadas e os comentários sociais inteligentes, travestidos de piadas (como não sorrir um sorriso amarelo quando o motorista do Uber se revela o DIRETOR DA ESCOLA!) ou não (caso da onipresente mensagem sobre feminismo e de respeito às diferenças). Com uma sequência toda na piscina que, desde já, está entre as melhores do ano, Fora de Série ainda tem uma trilha sonora daquelas pra marcar época, com artistas como Perfume Genius, LCD Soundsystem, Rhye e Anderson .Paak dando ainda mais vida a cada sequência dessa pequena joia. Há esperança na geração Millenial. E os filmes já os têm tratado com um pouco mais de respeito e menos presunção. Que bom.

Nota: 8,5

Cinema - Eu Não Sou Uma Bruxa (I Am Not A Witch)

De: Rungano Nyoni. Com Maggie Mulubwa e Henri B. J. Phiri. Drama / Fantasia, Reino Unido / Zâmbia / França / Alemanha, 2018, 92 minutos.

Se no "democrático" Brasil de Bolsonaro a junção de fanatismo religioso, sociedade patriarcal e Estado autoritário já tem produzido, em apenas seis meses, resultados devastadores, o que dizer de países ainda mais fechados? No inacreditável Eu Não Sou Uma Bruxa (I Am Not A Witch), somos apresentados à dura realidade cultural das mulheres que nascem em países como Zâmbia ou Gana e que, por motivos variados - seja morarem sozinhas, não terem emprego ou um companheiro ou estarem na rua -, podem ser acusadas de bruxaria. O que faz com que passem a viver, a partir de então, em isolados campos de concentração como propriedade do Estado, tendo limitado o seu direito de ir e vir. Ou sendo ainda apresentadas como aberrações para turistas ávidos por selfies - mas sem nenhum espírito humanitário ou qualquer tipo de empatia pelos vulneráveis.

É exatamente essa a realidade da jovem Shula (Maggie Mulubwa). Com pouco mais do que oito anos de idade, ela é tomada como bruxa após cruzar o caminho de uma mulher que carrega um balde de água que acaba despencando de sua cabeça. Sim, um acaso fortuito é o suficiente para que uma jovem errante seja entregue ao Governo por praticar bruxaria - na teoria ninguém pega mais água porque Shula derruba os baldes. E, para ter certeza de que a menina é MESMO uma bruxa, durante uma reunião na comunidade, um homem aparentemente bêbado fala a respeito de um sonho que teria tido com a jovem - ocasião em que esta decepava a sua mão. Sim, um sonho. Bom, as decisões jurídicas sobre a questão da bruxaria são meio injustas em certos países africanos. Bom, as decisões jurídicas podem ser injustas em qualquer País, se não obedecerem um mínimo de regras em que se estabeleça, de fato, a justiça.



Estabelecida como bruxa, Shula é entregue a comunidade das bruxas, que lhe festejam com cânticos de louvor (numa das tantas belas sequências da película). A jovem passa a trabalhar como escrava na lavoura, usando uma espécie de cordão (a rédea), que lhe impede de sair dos limites estabelecidos pelo Governo. Em meio a tudo, participa de atos públicos, caso de uma espécie de julgamento em que um homem também é acusado injustamente de ter praticado roubo. É nesse momento que Shula se aproximará ainda mais do tutor governamental Sr. Banda (Henri B. J. Phiri), passando a morar com ele e sua esposa, se tornando responsável por rituais variados, como a dança da chuva e a consequente promessa ao Estado, de uma safra satisfatória.

É um filme duro, árido, tratado pela diretora Rungano Nyoni (que acompanhou tribos em que a cultura da bruxa existe, como estudo para seu filme de estreia) com um caráter documental, sendo quase raros os momentos em que a câmera se afasta de Shula (e dos demais). Lírica, a obra transborda beleza e desolação em igual medida, evocando sensações diversas no espectador. Não por acaso, sequências como a que mostra um caminhão com diversos carretéis de rédeas rompidos ou mesmo a do Sr. Banda e de Shula participando de um programa de televisão mexem conosco, nos geram desconforto e estranhamento, paradoxalmente, mantendo um fiapo de esperança. O mesmo valendo para as cenas em que as bruxas realizam seus rituais, com cânticos em meio a um cenário sombrio/avermelhado e de contraste.


Por fim, trata-se de uma obra de grande sutileza, que faz a crítica, mas sem esfregar aquilo que está propondo na cara de ninguém. Nas entrelinhas é possível ver temas como descaso dos governos com as minorias, preconceito e xenofobia, machismo, patriarcalismo, excessos do mundo capitalista (as cenas com os turistas beiram o constrangimento) e até fanatismo religioso, abordados em meio a sequências devastadoramente oníricas, funcionando quase como pesadelos áridos, cinzas, e que são fruto de um mundo em que a desesperança é a ordem do dia. Eu Não Sou Uma Bruxa foi o enviado do Reino Unido para a categoria Filme em Língua Estrangeira no último Oscar. Pode não ter se classificado para a final, mas faz com que a nossa atenção se volte para os absurdos cometidos por culturas retrógradas, preconceituosas e ultrapassadas, que costumam utilizar o medo do diferente como moeda de troca.

Nota: 8,5