terça-feira, 22 de setembro de 2020

Livro do Mês - Engole Esse Choro (Laura Peixoto)

"Ninguém pode ser o que é nessa cidade". Essa frase que está lá na página 117, dita pela personagem Belinha - avó da protagonista Eleonora -, parece de alguma forma resumir tudo aquilo que se lê no imperdível Engole Esse Choro, mais recente lançamento da escritora Laura Peixoto. Publicado pela editora Libélula, o livro é muita coisa: novela familiar, romance de formação, narrativa ficcional que carrega nas tintas de realidade. Mas é, especialmente, uma obra que desnovela a hipocrisia que insiste em escapulir pelas frestas de uma sociedade pródiga em apontar dedos, mas incapaz de olhar para si própria com com o mesmo espírito crítico. Arremessados que somos para o suarento (e pestilento) ano de 1974, na provinciana Lacônia do Sul, vemos ecoar nessa pequena e fictícia cidade  - tão parecida com outras tantas que vemos por aí -, a opressão da Ditadura Militar que se avizinha, em um contexto de grande tensão político social. Ao mesmo tempo, alheios a tudo, os laconienses vivem seu idílio particular em meio a festas, corridas, jogos no clube e escolhas da Rainha da Paróquia, se mantendo ocupados também em atividades comezinhas, seja o tricô, o jantar e as roupas que as crianças usarão no desfile.

De alguma forma, Laura transfere para o passado, um tempo que segue sendo o nosso: de alienação, de preconceitos, de desrespeito às diferenças e até de incapacidade de diálogo. Em cada escândalo que vai sequencialmente sendo revelado nos curtos capítulos, um universo de farsa, em que figuras tão dissimuladas quanto caricaturais, transforma a realidade apenas nisso: o real. Do padre que tinha duas amantes ao filho do empresário que se descobre gay, passando ainda pelos homens casados que frequentavam o bordel local, os moradores da Lacônia do Sul nada mais são do que o retrato fiel daquilo que, atualmente, aprendemos na marra a aceitar como o "cidadão de bem". Aquela figura que não falta à missa de domingo pela manhã, que se orgulha de cantar o Hino Nacional e que acredita que a moral e os bons costumes possam estar sendo quebrados por figuras subversivas diversas - seja o colega de aula cabeludo e que talvez fume maconha, seja a professora de artes, empenhada em fazer a turma pensar, sair da alienação.


Encadeando eventos aleatórios, quase como se fossem pequenos contos, a autora de Lajeado, no Rio Grande do Sul, transforma a história da Lacônia do Sul em uma história universal: nela estão os três adolescentes - além da já citada Eleonora, os irmãos Mariangélica e Plínio, os pais Astor e Iolanda, a avó Belinha, a empregada dona Miló. Por trás de cada muro, nos cantos, nas esquinas, vizinhos, conhecidos da cidade, com suas reputações sendo permanentemente postas em jogo, manêm segredos obscuros que parecem sempre prontos a vir à tona - por mais que a imprensa local teime em ignorar os fatos mais sombrios. Mais pitorescos. Aqui e ali as pessoas mais "diferentes", que não sigam o padrão estabelecido, que não incorram nas convenções sociais, são taxadas de subversivas, dissidentes, comunistas. Uma música diferente. Uma arte provocativa. Uma viagem para um País socialista. Uma não ida à Igreja. A quebra de algum contrato qualquer que já esteja pré-estabelecido. A sociedade na Lacônia parece ser olhar e julgar os outros. Por mais que a hipocrisia também possa estar bordejando a entrada da nossa casa.

Em entrevista à Rádio Independente, Laura afirmou que o livro é uma "ficção bem ficcionada, com uns 40% de verdade". Mas pra quem cresceu em Lajeado, não é difícil encontrar paralelos nos locais descritos, que mesclam localidades reais - como o Rio Taquary (ainda que grafado com "y") e o cachorrão do Carmelito -, com espaços fictícios, que podem ir de prosaicas barbearias e botecos, até suntuosas igrejas. Sobre as figuras envolvidas na novela entrecortada por fluxos de consciência de uma pessoa que parece estar no hospital - olhando para o passado ao mesmo tempo em que tenta lidar com o remorso -, é difícil saber o que é real ou não. Laura levou nove anos para escrever a obra, que saiu da gaveta em tempos de bolsonarismo, de militarismo de intolerância e de ódio. Décadas após os Anos de Chumbo, o patriarcalismo, o machismo e a misoginia parecem ter, literalmente, saído do armário, legitimados pela política beligerante vaticinada pelo extremismo de direita. "Engole esse choro", era o que as crianças ouviam antigamente, das bocas de pais excessivamente preocupados, conservadores, quadrados. Nos tempos atuais chorar pode estar sendo a solução paliativa, especialmente na hora de enfrentar esses tempos tão brutos, que seguem dialogando com um passado que teima em ressurgir.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Na Espera - Nomadland (Filme)

É um teaser bem curtinho o que foi disponibilizado pela Searchlight para a divulgação de Nomadland, mas não importa: após a vitória do filme da diretora Chlóe Zhao (Domando o Destino) no último Festival de Toronto, a expectativa em cima da obra só aumentou. Aliás, a película estrelada por Frances McDormand já havia faturado o Leão de Ouro no Festival de Veneza e a soma das duas premiações arremessou a obra lá para as alturas nas bolsas de apostas para o Oscar 2021. As indicações não apenas na categoria principal, mas em outras, como Diretora, Atriz, Ator Coadjuvante (para David Strathairn), Roteiro Adaptado (o livro foi escrito por Jessica Bruder) e Fotografia (de Joshua James Richards) são dadas como praticamente certas. E os críticos que já puderam conferir a película, expressaram a imensa satisfação com a profunda sensibilidade vista na narrativa.


Ainda sem data de estreia no Brasil, o filme recua para os anos seguintes à crise imobiliária norte americana de 2008, para a acompanharmos uma sexagenária de nome Fern (McDormand) que vive como uma espécie de nômade dos tempos modernos, em uma jornada de descoberta pelo meio oeste americano. Centrando sua força nas histórias e nos personagens, a obra parece ser daquelas que faz muito com poucos recursos e tem tudo pra cair nas graças de quem gosta de um cinema mais intimista, cheio de reflexões sobre a nossa condição e sobre aquilo que nos impõe o mundo. O elenco de desconhecidos parece ser uma espécie de atração involuntária e o consenso dos críticos do Rotten Tomatoes resumiu a película da seguinte forma: "um estudo poético de personagens sobre os esquecidos e oprimidos, que capta lindamente a inquietação deixada na esteira da Grande Recessão". Bom, não é preciso nem dizer que, por aqui, somos pura expectativa.

Novidades no Now/VOD - #Alive (#Salaidda)

De: Jo II Hyeong. Com Jon Hoo, Yoo Bin e Joen Bae Su. Drama / Ação / Thriller, Coréia do Sul, 2020, 98 minutos.

Resolvi aderir ao hype e assistir ao tão falado #Alive (#Salaidda) e, bom, fazia alguns bons pares de meses que eu não me sentia verdadeiramente perdendo tempo ao conferir um filme. Não é minha intenção ser injusto na resenha mas, pra começar, a obra dirigida por Jo II Hyeong me pareceu um grande "mais do mesmo". Não há absolutamente NADA que oxigene efetivamente o subgênero "filmes de zumbis" - e quem porventura já tenha acompanhado alguns punhados de episódios de The Walking Dead encontrará aqui um grande senso de repetição. E devo admitir pra vocês que o começo parecia promissor, especialmente por estabelecer diálogo com o drama que estamos vivendo atualmente, provocado pela Covid-19: obrigado a ficar em casa por tempo indefinido, um jovem (Yoo Ah In) precisa lidar com um vírus que está infectando toda a população, que está sendo transformada em zumbis ágeis que vertem sangue pelos olhos e que reagem agressivamente.

A premissa é interessante apenas - e tão somente apenas - pela necessidade do jovem de ficar em casa. Se sair para a rua poderá ser atacado por zumbis que, rapidamente, ocupam as ruas. Na vizinhança, e mesmo nos corredores dos prédios, os mortos vivos já perambulam, esperando uma brecha para atacar - o que acontecerá mais de uma vez, colocando o protagonista em risco. Ter de esperar será a grande angústia. O risco de ficar sem comida, sem água. Não ter notícias dos familiares, que haviam saído justamente no dia em que o surto começou. Muito mais do que estar preocupado em ser mordido por um zumbi, o protagonista tem de lidar com os demônios interiores. Com os dias que parecem não ter fim, em meio a jogos de videogame fastidiosos e a observação dos eventos que ocorrem pela vizinhança - numa espécie de Janela Indiscreta zumbi. E admito a vocês que, até esse momento, no terço inicial, estava achando a condução da narrativa bastante instigante e, até, vá lá, inovadora.


Mas a partir da segunda parte a coisa descamba para aquilo que, muito provavelmente, os fãs do gênero aguardam ansiosamente: perseguições, violência, correria. Edição frenética, trilha sonora barulhenta, caótica. Fotofrafia saturada e desordenada. Um pouco mais de perseguição. Um pouco mais de correria. Mais algumas doses de zumbis trôpegos, ainda que ágeis, perpetrando ataques. Gemendo. Agonizando. Aliás, até os barulhos feitos pelos mortos vivos são absolutamente idênticos aqueles vistos na já citada The Walking Dead. A maquiagem também, a forma como se comportam. O jovem que protagoniza o filme deve lutar para sobreviver. Como ocorre em todos os filmes do gênero. E, aqui, admito a vocês o fato de ter me decepcionado profundamente o fato de a obra ser apenas um filme de ação besta. Sem um pano de fundo que explicasse melhor a doença. Sem algum tipo de metáfora que pudesse nos auxiliar em algum tipo de análise sociopolítica do contexto vivido naquela Coréia do Sul distópica. O diálogo com o coronavírus termina num instante. Só restando o frenesi bobo da luta pela sobrevivência. Com direito até mesmo a uso de câmeras lentas e jump scares aleatórios.

Talvez seja apenas eu que esteja me tornando um velho ranzinza e vai ver a garotada, de fato, tenha curtido esse filme. Mas o caso é que pouquíssima coisa funciona. A aparição de uma misteriosa vizinha que surge como par romântico involuntário do protagonista só serve para gerar mais constrangimento. Aliás, nada mais estúpido do que a dupla conversando por walkie talkie e percebendo que, nossa, gostam de comer o Nissin Miojo de forma parecida, com os mesmos ingredientes. Tão apaixonante. Só que não. Ao cabo de tudo a obra é apenas escapar e escapar e lutar para sobreviver. Sim, muito provavelmente não haveria muita explicação para um apocalipse zumbi, mas eu sentiria o filme mais COMPLETO com um pouquinho mais de contexto. E também com um pouquinho mais de interpretação de qualidade, já que, vamos combinar que o Jon Woo é simplesmente péssimo com suas caras e bocas. A Netflix tem sido "acusada", ultimamente, de entulhar o seu catálogo com um amontoado de filmes e séries de gosto duvidoso. Alguém precisa alertar os executivos da plataforma de que qualidade é muito melhor do que quantidade. Senão precariedades como esse #Alive, persistirão poluindo o algoritmo. E gerando um falatório quase inexplicável.

Nota: 3,0

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Podcast do Picanha Cultural #21 - A Volta ao Mundo Em 80 Filmes (América do Sul)

Quem nos acompanha aqui no Picanha sabe que um de nossos quadros preferidos é o A Volta ao Mundo Em 80 Filmes, onde temos o objetivo de falar de obras de países não tão conhecidos pela grande produção cinematográfica. De Arábia Saudita à Finlândia, passando por Senegal e Romênia, o ato de dissecar películas das mais variadas localidades também nos proporciona um verdadeiro mergulho sociopolítico e cultural em cada uma dessas nações, nos aproximando de seus hábitos, costumes, entre outros. E foi pensando nisso que, no episódio dessa semana, resolvemos trazer o quadro para dentro do Podcast. Como são muitas as possibilidades, resolvemos fazer uma divisão por continentes, começando por filmes realizados na América de Sul. De países com vasta produção - como Argentina e Chile -, a outros não tão populares -, como Venezuela e Peru -, o Henrique eu eu (o Bernardo estava de "folga" nessa semana) realizamos um recorte com 10 filmes para você se apaixonar pela filmografia latino-americana. Tem de tudo um pouco e temos a certeza de que vocês irão gostar! Bora sextar?

Cinemúsica - E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?)

Por ser um filme mais musical dos irmãos Joel e Ethan Coen, E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?) pode até passar a impressão de ser um pouco menor do que efetivamente é. Nas aparências, é uma obra sobre três sujeitos que fogem de uma vida de escravidão numa fazenda ao Sul dos Estados Unidos para ir em busca de um suposto tesouro, que lhes possibilitará alguma dignidade na vida. Numa análise mais macro, o filme pode ser considerado um verdadeiro painel da Terra do Tio Sam pós-depressão, período em que a turbulência política se mescla com o aprofundamento do debate de temas como racismo - ao mesmo tempo em que tecnologias como o rádio começam a ocupar os lares americanos. Nesse sentido, a música tem papel central na obra que, ao final, funciona também como uma espécie de ode ao poder das artes. Especialmente pelo fato de a redenção do trio de desajustados vividos por George Clooney, Tim Blake Nelson e John Turturro também passar por isso.

Aliás, as canções que parecem saídas do folclore regionalista norte americano do começo do século passado acabam por fazer um amálgama quase involuntário à jornada dos anti-heróis que acompanhamos. Após escaparem da lavoura de algodão em que pesadamente trabalhavam - e ali a música, com todo o seu simbolismo de resistência já ecoa -, eles encontram em uma encruzilhada o talentoso violeiro Tommy Johnson (Chris Thomas King) que está indo para uma estação de rádio que está aceitando cantores de bluegrass e country que possam, simbolicamente (e talvez até nostalgicamente) trazer algum conforto para os lares americanos daqueles tempos. É nesse momento que Everett (Clooney), Pete (Turturro) e Delmar (Nelson) se juntam ao sujeito para formar o improvisado Soggy Bottom Boys, entoando pela primeira vez a efervescente e rural I Am a Man Of Constant Sorrow, o que lhes rende alguns dólares, lhes permitindo prosseguir em sua jornada.


Enquanto fogem das autoridades que fazem o diabo para tentar capturá-los, os Bottom Boys e sua música explodem no rádio sem que eles saibam. Aliás, nem o dono da rádio sabe quem são, já que ele é cego. Em meio a conflitos políticos com engravatados que começam a perceber o poder da mídia, Everett, Pete e Delmar se verão diante de uma série de confusões, como a fuga alucinada de um celeiro queimado e encontro aleatório com um grupo de supremacistas brancos da Ku Klux Klan, que pretende assassinar Tommy pelo simples fato de ele ser negro. Há ainda um atormentado encontro com sereias a beira de um rio - o que faz com que o folclore saia das canções para chegar, efetivamente, a história -, com tudo saindo meio errado e Pete sendo transformado em um sapo (!). Só que na maioria desses instantes desse road movie meio torto a música, intepretada por artistas variados como os Stanley Brothers, Harry McClintock e The Whites está lá, trazendo algum conforto, abraçando as personagens e nos fazendo, junto com eles, seguir adiante.

De uma forma meio curiosa, essas músicas de sulista norte-americano - aquele country cheio de letras festivas e mundanas - fizeram enorme sucesso, tornando o disco amplamente vendido. Talvez tenha a ver com a nostalgia do sonho americano, ou mesmo como uma forma de recuperar a autoestima no pós 11 de setembro - por mais que o filme tenha entrado em cartaz antes disso -, mas o caso é que a trilha foi bem recebida pelo público, ainda que tenha sido completamente esnobada na edição do Oscar de 2001. Isso não apaga o efeito causado e, a meu ver, a cena final, com o supremacista Homer (Wayne Duvall) caindo em desgraça política TAMBÉM por causa da música, é uma pequena forma de lavar a alma, com o trio de protagonistas sendo redimido pelo governador, que também está encantado com o potencial musical dos Soggy Bottom Boys. Ode a música e elogio ao potencial das artes inclusive do ponto de vista da influência polítca, social e cultural: é isso que essa pequena obra dos Irmãos Coen faz. É divertido, inteligente, subversivo. Do jeito que gostamos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Novidades no Now/VOD - Um Bilhete Para Longe Daqui (The Escape)

De: Dominic Savage. Com Gemma Arterton, Dominic Cooper, Jalil Lespert e Frances Barber. Drama, Reino Unido, 2018, 101 minutos.

Um Bilhete Para Longe Daqui (The Escape) é aquele legítimo filme para tirar o espectador da zona de conforto. Pra gerar até um certo incômodo tamanho o realismo na análise das frustrações que podem surgir da insatisfação de uma vida vazia a dois. Roteirizada e dirigida por Dominic Savage, é uma obra áspera mas honesta, sincera. A trama nos coloca em meio a um casamento em crise que só nas aparências é "perfeito". Nele, Gemma Arteron é Tara, uma jovem sobrecarregada pelas tarefas domésticas que envolvem dois filhos, as compras, o jantar para o marido (Dominic Cooper), as toalhas limpas e cheirosas. É o tipo de vidinha esquemática e sem cor, que pode ser simbolizada pelo sexo robótico, pragmático e sem prazer nenhum que abre o filme. Aliás, o sexo beira o catastrófico e até o inconveniente, com um marido que pensa apenas no seu prazer e que é incapaz de, simplesmente, dialogar com a sua esposa. Aliás, o diálogo poderia estabelecer algum tipo de base para uma relação que parece minguar a cada dia.

Na essência, o filme escavoca essas pequenas violências sofridas pela mulher no dia a dia - que podem ir da transa não consentida ao abuso psicológico - e que, ao cabo, dão conta de uma sociedade que persiste num tipo de patriarcalismo que envolve o homem saindo de casa todos os dias para trabalhar, enquanto que a mulher vê os seus sonhos, desejos e anseios castrados, decepados pelas (in)conveniências da estabilidade familiar. Em certo dia, meio fatigada de tudo, Tara sai sozinha pelas ruas de Londres e encontra um pouco de cor em seus pálidos dias. Cor em coisas bem simples, mesmo: um raio de sol que afaga o rosto, uma paisagem inesperadamente bonita, um livro comprado no sebo local, um café. Aliás, é no livro que a protagonista se vê encantada pela história por trás da arte da tapeçaria - algumas delas expostas em Paris. Se empolga com a ideia de fazer um curso de artes, ter alguma atividade extracurricular que lhe faça brilhar os olhos e que não seja apenas correr atrás de brinquedos bagunçados pelo pátio e pratinhos com restos de sucrilhos dentro.


Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que o marido - seu nome é Mark - tentará retirar a ideia de curso de artes da cabeça de Tara. "Curso? Quem cuidará das crianças? Da casa? Você já tem 30 anos? Tem tudo, está feita", afirma a mãe da jovem em uma conversa que não apenas denuncia a discrepância promovida pelo choque de gerações, como ainda exprime um tipo de acomodação que talvez explique a própria existência de Tara dentro de um casamento que, talvez, fosse indesejado já na origem de tudo. Não é demais lembrar que, mesmo nos tempos atuais, muitas mulheres não são estimuladas para sair da lógica que as estabelecem como futuras mães, que cuidarão da casa e das refeições da família. E, bom, se você acha que pode haver algum exagero nessa análise, pense nos amigos, nos conhecidos ou mesmo naquelas pessoas - casais no caso - que jantam completamente em silêncio, enquanto deglutem um pedaço duro de carne. Sim, há exceções. Há casais felizes, parceiros. Mas esses são os que são capazes de reconhecer o espaço do outro. A sua individualidade. Estimulando-os para que realizem aquilo que desejam efetivamente, os SEUS sonhos. E não os de si próprios.

A frustração de uma personagem como Tara não é novidade no mundo das artes - e livros como A Vida Invisível de Eurídice Gusmão de Martha Batalha e outras películas como a ótima My Happy Family, disponível na Netflix, também tratam com propriedade desse "apagamento" vivido pelas mulheres, que desaparecem em meio a essa paisagem nebulosa que mescla infelicidade com insatisfação. Perguntando o tempo todo o que fez de errado, Mark é incapaz de acolher a sua esposa que, num certo dia, depois de sofrer mais um abuso, joga tudo para o alto, faz uma pequena malinha e vai para Paris, com a intenção de tentar se redescobrir. Hábil na construção da narrativa e das ambientações, Savage é muito feliz ao não depositar a alegria de Tara em um possível futuro e novo relacionamento - não que ele não possa acontecer e provavelmente acontecerá. Mas "descobrir" o mundo, respirar novos ares, conhecer outras pessoas - talvez tão cheias de segredos quanto ela - poderá ser o caminho para que Tara tome as suas decisões. É o tipo de obra que, muito provavelmente, desagradará os adeptos da família de propaganda de margarina e do "até que a morte nos separe". Mas há outras coisas que morrem pelo caminho. Identificar isso e conseguir atravessar essas barreiras, pode ser o cainho para uma vida livre, independente e feliz. Estando ou não estando ao lado de alguém.

Nota: 9,0

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Picanha.doc - O Dilema das Redes (The Social Dilemma)

Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de software.

(Edward Tufte - Professor da Universidade de Yale)

De: Jeff Orlowski. Com Skyler Gisondo, Kara Hayward e Vincent Kartheiser. Documentário, EUA, 2020, 91 minutos.

Dirigido por Jeff Orlowski, o documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma) parte de algo que, muito provavelmente, todos nós sabemos: estamos sendo vigiados nas redes sociais. Mais do que isso, manipulados. O tempo todo. Sem nem percebermos. Ou talvez até percebendo. E por trás de todo esse esquema bem elaborado de algoritmos, que faz com que passemos cada vez mais horas na frente de smartphones ou outros dispositivos, talvez esteja a explicação para um dos maiores problemas de saúde pública da atualidade. As pessoas estão frustradas, depressivas, inseguras com a sua imagem. Há uma ansiedade generalizada que os likes diários, em pequenas doses, podem ajudar a amenizar. Isso se os likes vierem. Isso se a vida daquele seu amigo não parecer melhor que a sua. Ou se a sua colega de escola não for mais bonita e mais rica que você. Nas redes sociais, ao cabo de tudo, nós é que somos o produto. Nós é que estamos a venda. E empresas de tecnologia - como Instagram, Facebook, Twitter -, sabem disso. E, pior: se aproveitam disso. Para lucrar. E muito.

Já aconteceu com você: você está lá procurando na Amazon um livro que quer comprar. Um, dois cliques. O terceiro. Você abandona a página. Mas a enxurrada de propagandas com promoções de livros, do mesmo autor que você investigava: essa não parará tão cedo. Por dias, meses, semanas. Você entrará aleatoriamente no Facebook e se deparará com algo com 25% de desconto. Comprará e essa roda girará. Esse é um exemplo banal de como as plataformas parecem estar programadas para responder aos estímulos que são gerados por nós mesmos. Você abre o Youtube e assiste um vídeo sobre cinema. Na sequência você receberá recomendação de outros tantos vídeos do mesmo canal, com outros temas. E de outros canais sobre filmes. Você entrará em uma bolha, um loop infinito de consumo de "produtos" adequados ao seu gosto, a seu perfil. Acontece com todos nós, o tempo todo. Parece algo bobo, prosaico, cotidiano. Mas pode ser a resposta, inclusive, pro atual contexto de beligerância política que vivemos.


E o que documentário mostra de forma muito bem editada, muito bem organizada, ouvindo pesquisadores, professores, executivos e desenvolvedores que trabalharam durante anos nessas mesmas empresas é que a tecnologia pode ter contribuído, nos últimos anos, não apenas com o aumento de casos de tentativas de suicídio entre jovens - que se sentem incapazes de alcançar os inatingíveis padrões de beleza dos filtros do Instagram -, mas também pela polarização que estaria gestando governos extremistas, especialmente os de direita, pelo mundo. Fake news, paranoia governamental, vigilância, vida zumbificada, insegurança generalizada, manipulação, bom, você já viu gente defendendo que a Terra é plana, que a covid-19 foi criada pelo comunismo chinês e que o Fernando Haddad ia distribuir mamadeiras de piroca na escola. Junte a isso um grupo de pessoas fragilizado, com problemas de autoestima e ansioso para receber aprovação de seus pares e está feito o estrago: daí para atentados, agressões, incapacidade de diálogo e guerras é um pulo. Aliás, num cenário mais alarmista, alguns pesquisadores acreditam que o mundo está a um passo de uma Guerra Civil. Algo que já está sendo visto em alguns países.

Sim, o documentário tem pouco espaço para o otimismo ou para apresentar as iniciativas saudáveis de uso das redes sociais - e os bons aplicativos, as comunidades agregadoras, os grupos que se organizam para ações coletivas existem aos montes. As redes nos aproximaram, afinal. Pessoas que passaram anos sem se ver, se encontraram. Parentes que estão distantes estão a um clique de abrir uma chamada de vídeo. Mutirões são promovidos para auxílios. Mas como que a gente faz pra não ficar viciado nisso? Pra não passar tanto tempo rolando a barra de scroll? Enquanto o documentário se desenrola, o filme apresenta, paralelamente, a história ficcional de uma família com três adolescentes - um deles vai ficando cada vez mais isolado em sua bolha nas redes sociais e se aproxima e um curioso grupo extremista de centro (sim, a gente já sabe que é de direita). Ao final a violência eclode, o tumulto. O mesmo tumulto que ficará feio em vídeos nas redes sociais. Que não haverá filtro do Instagram que solucione. Sim, o tom pode ser alarmista: mas o recado é pra ser exatamente esse. A ciência mostra que estamos utilizando tudo isso e uma forma inadequada. Como corrigir esse trajeto que pode nos fazer evitar entrar em colapso? É a pergunta sem resposta que fica.

Na Espera - Os 7 de Chicago (Filme)

O ano de 1968 foi um dos mais turbulentos da história dos Estados Unidos. Não bastassem as mortes de Martin Luther King e Robert Kennedy, a Guerra do Vietnã servia de pano de fundo político para discussões que avançaram até chegar a Convenção Nacional do Partido Democrata naquele ano. E o que o filme Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7), que finalmente teve o seu teaser liberado, mostra é justamente um pequeno recorte daquele período - mais especificamente a história de um grupo de ativistas que protestava, inicialmente de forma pacífica, num episódio que culminaria em um violento confronto entre manifestantes, polícia e Estado. Na ocasião os organizadores foram acusados de conspiração por incitar a revolta, com os olhos do mundo voltados ao julgamento deles, que se tornou um dos mais famosos da história.


Bom, antes de mais nada vamos combinar que um enredo desse tipo - baseado em fatos reais, que parecem reverberar até hoje nesse espectro de polarização política que vivemos - é a cara do Aaron Sorkin (e do Oscar, podem ter certeza). Em si, o teaser revela pouco, o que é bom, sendo centrado mais no clima de instabilidade de período, com a frase "o mundo inteiro está vendo" sendo repatida de forma persistente. O elenco é espetacular e conta com nomes como Eddie Redmayne, Frank Langella, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Jeremy Strong, Michael Keaton e Sacha Baron Cohen, sendo este último um dos cotados a aparecer na categoria Melhor Ator na próxima edição do Oscar. O filme estreia na Netflix no próximo dia 16 de outubro e aqui no Picanha nós já estamos na mais alta expectativa!