quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Cinema - Benedetta (Benedetta)

De: Paul Verhoeven. ComVirginie Efira, Daphne Patakia, Charlote Rampling e Lambert Wilson. Drama / Romance, Bélgica / França / Holanda, 2021, 131 minutos.

Vamos combinar que ao pensarmos em figuras sacralizadas da Igreja Católica, dificilmente imaginamos os componentes mais "humanos" de suas composições. Os santos ou mesmo os canonizados sempre surgem em nossa mente envoltos em uma aura elevada, superior, mística - numa mistura que evoca milagres, fé, atos solenes, veneração. Algo que está acima de tudo e que vai para muito além da organicidade da carne, da materialidade do corpo, dos hábitos, dos comportamentos. Sim, em algum momento de suas existências essas verdadeiras entidades foram pessoas de carne e osso. Que comiam e dormiam. Que, em meio a uma existência de dedicação religiosa, possivelmente tinham necessidades, medos, anseios, frustrações, desejos, fraquezas. Falhas talvez. Dilemas éticos ou morais. Ou será que não? Sim, leitor, pode ter certeza: os santos também tinha defeitos e pecados que podiam ser desde temperamentos fortes ou até uma queda pela teimosia. O que não lhes impediu de buscar o caminho redentor para a santidade.

Eu tô querendo dizer com esse preâmbulo que Benedetta Carlini, a freira católica que viveu no século 17 era uma santa demasiadamente humana? Não. Na verdade, não sei. Mas o que maravilhoso filme do versátil diretor Paul Verhoeven (autor de obras tão distintas como a ação Robocop e o drama Elle) nos faz perceber é que por trás de poderes supostamente superiores, também poderia haver uma simples mulher. Cheia de vontades, de objetivos - vocacionais ou não. Alguém que quisesse uma vida simples em meio às visões perturbadoras que lhe perseguiam. E é nessa ambiguidade permanente de Benedetta (Benedetta) que está uma das maiores forças da narrativa de Verhoeven. O tempo todo, afinal, temos dúvidas a respeito do comportamento enigmático da protagonista (vivida por Virginie Efira) que chega a um convento de Pescia, na Itália, ainda criança, após uma negociação financeira feita com a Madre Superiora Felicita (a sempre ótima Charlote Rampling).

Quando se torna adulta - a trama avança mais de uma década no tempo -, Benedetta, passa a ter visões aleatórias que envolvem ataques e outras violências perpetradas por homens, com ela sempre sendo salva por Jesus Cristo em pessoa (um Jesus sempre angelical, ocidentalizado, de vestes e de olhos claros). A situação se torna mais complicada quando chega ao convento uma certa Bartolomea (Daphne Patakia), uma jovem de origem simples que será designada como auxiliar de Benedetta em seu quarto, socorrendo-a quando ela é acometida de suas visões. Em meio a um contexto em que a peste avança, a protagonista terá a sua fé "testada" ao se apaixonar por Bartolomea - com ambas vivendo um romance proibido, caloroso e cheio de paixão. Em meio a desconfianças da Madre Felicita sobre o comportamento da dupla, o avanço das visões de Benedetta, com direito ao surgimento de estigmas no corpo, será um indicativo da manifestação espiritual de Cristo em seu corpo. O que a converterá em abadessa do local.

Baseada no livro Atos Impuros da historiadora Judith C. Brown, a obra vai no limite entre a elegância e a languidez, sem deixar de lado os componentes mais violentos, que servem para evidenciar não apenas a hipocrisia da Igreja Católica, mas como o patriarcalismo determinava os rumos da sociedade na época. Diante de acusações falsas (ou não), os limites da abnegação religiosa serão testados, em meio à aparente crença de que o misticismo dos beatos não anularia, necessariamente, os paradoxais atos questionáveis, impuros ou luxuriosos (e há, no mínimo, duas sequências envolvendo imagens de santas que considero memoráveis em sua ousadia). Apostando num caráter mais gráfico, o diretor não se furtará em exibir cenas mais fortes - eróticas, sujas, cheias de ambiguidades, de sangue, de pobreza e de doenças. Para os paladares mais conservadores, certamente a obra beirará a blasfêmia. A mesma blasfêmia da qual os superiores de Benedetta a acusariam, enquanto a devota se esforçaria para salvar a comunidade das garras predatórias de uma instituição que, até os dias de hoje, salvo raríssimas exceções, parece ser uma sede infindável de ambição e poder. E, nesse sentido, o trabalho de Verhoeven não poderia ser mais atual.

Nota: 9,0

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Curta Um Curta - Caixa Postal 1142: O Campo Secreto Para Nazistas nos EUA (Camp Confidential: America's Secret Nazis)

Não fosse baseada em relatos reais e a história por trás do curta documental Caixa Postal 1142: O Campo Secreto Para Nazistas nos EUA (Camp Confidential: America's Secret Nazis) quase pareceria difícil de acreditar. Disponível na Netflix, a obra dirigida por Daniel Sivan e Mor Loushy é uma das favoritas a figurar entre as indicadas ao Oscar em sua categoria e narra o curioso caso de refugiados judeus que, em plena Alemanha Nazista, são recrutados para um acampamento nos arredores de Washington, criado com o objetivo de abrigar e interrogar militares nazistas. 

Sobreviventes do período, os veteranos Peter Wiess e Arno Meyer relatam quais eram as intenções por trás desse local - que, na verdade, mais parecia um clube com quadras de esportes e espaços destinados a atividades ao ar livre -, e como as ações perpetradas ali determinariam, anos mais tarde, os rumos da Guerra Fria (e até da corrida espacial). Parece bizarro e até eventualmente complexo, mas o desenrolar é dinâmico, com o documentário de pouco mais de 35 minutos sendo costurado com excelentes imagens de arquivo e um ótimo uso de animação. A gente não costuma dar muita bola para os indicados a curta-metragem. Aqui, temos uma boa oportunidade de conferir um dos melhores.

Tesouros Cinéfilos - Melhor É Impossível (As Good as It Gets)

De: James L. Brooks. Com Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear e Cuba Gooding Jr. Comédia / Drama / Romance, EUA, 1997, 139 minutos.

Existe uma sequência em Melhor É Impossível (As Good as It Gets) que considero essencial não apenas para compreendermos as motivações das personagens que acompanhamos, mas que talvez também resuma a importância das relações pessoais - do afeto, do carinho - que dão sentido a nossa existência. Nela, o cínico e grosseiro escritor Melvin (o personagem de Jack Nicholson) finalmente conseguiu, depois de muito custo e de muita paciência da garçonete Carol (Helen Hunt), um jantar com ela. Melvin está, aparentemente, enamorado de Carol que, a sua maneira, parece ser a única pessoa no planeta Terra capaz de compreender suas manias, que decorrem de um severo caso de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Só que o sujeito não sabe como demonstrar isso. Ao menos não sem ser sarcástico. Carol pede um elogio que seja, instantes após Melvin destruir o figurino de sua candidata a par romântico - um vestido mais comprido, discreto, mas elegante. "Você me motivou a, enfim, começar a tomar os medicamentos recomendados pelo psiquiatra", responde o escritor, para desânimo de Carol. Mas um desânimo que, pouco depois, será convertido em compreensão.

Pode soar apenas egocêntrico alguém elogiar alguém dizendo que começou a tomar pílulas que, talvez, essa mesma pessoa devesse estar tomando há meses. Talvez há anos. "Você faz com que eu queira ser uma pessoa melhor", completa Melvin em seguida. Sim, é um gesto pequeno, que parece pouco lógico. E Carol parece pronta para ir embora do restaurante em que ambos estão. Mas não demora para que tenhamos clareza de que, aos poucos, aquele sujeito tenebroso, de humor debochado e cheio de preconceitos está se esforçando. De alguma forma, ao assumir que está se medicando, ele admite estar disposto a enfrentar a doença que lhe aflige. Esse transtorno psiquiátrico que faz com que, entre outros ritos, ele chaveie e deschaveie a porta várias vezes, repita incessantes vezes a limpeza das mãos com sabonetes novos e seja incapaz de pisar em cima de linhas quando se desloca na rua. Aliás, o simples ato de caminhar pode representar um sofrimento para quem tem TOC. E Melvin, aqui e ali, está se empenhando em superar suas fobias. À sua maneira. Tentando ser alguém melhor.


Porque para o espectador desavisado desse filmaço de James L. Brooks não é fácil compreender Melvin, nem seus hábitos, sua estupidez rotunda, sua grosseria permanente. Percebê-lo como alguém doente é um desafio para quem assiste a obra e é quase irresistível encará-lo apenas como o velho chato, ranzinza, que implica não apenas com o vizinho gay Simon (Greg Kinnear), mas com o universo que o rodeia. Melvin é um misantropo impaciente. Que não aceita sentar em outra mesa que não seja a "sua" na cafeteria que frequenta - essa mesma em que Carol trabalha. E que testará a paciência de todos a sua volta até o limite. Até o momento em que ele vai desesperado ao psiquiatra que o enxota. Até o momento que ele aceita a sua condição e passa a se medicar. Até o momento em que ele passará a ajudar as pessoas que, de seu jeito meio esquisito, parece amar. Começando pela própria Carol, que possui um filho que precisa de maiores cuidados médicos. Passando pelo vizinho Simon, que sofre um inesperado e violento golpe. Até chegar mais adiante a outras pessoas.

Porque talvez o que muitas pessoas não percebam em Melhor É Impossível é que este é um filme sobre a superação de uma doença (ou ao menos é essa a leitura que faço). E em tempos como os que vivemos - de tantos transtornos (de ansiedade, de pânico, de depressão), a obra nunca me pareceu tão atual. Aliás, mais do que isso, parece estar adiantada em uma temática que dominaria a medicina no atual milênio, com dezenas de milhares de pessoas se esforçando para superar as suas dores, consumindo medicamentos que possam equilibrar as suas biologias e se empenhando em ser pessoas melhores. De quebra, o filme tem aquele DNA anos 90, com fotografia em tons pasteis, trilha sonora primaveril, desenho de produção meio kitsch e um cãozinho que é o mais puro carisma. Um combo que ajudaria a resultar em diversas indicações ao Oscar, rendendo estatuetas para Nicholson e Hunt por suas atuações. Tá disponível gratuitamente no Now e vale a pena revisitar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Cinema - O Festival do Amor (Rifkin's Festival)

De: Woody Allen. Com Wallace Shawn, Gina Gershon, Louis Garrel e Elena Anaya. Comédia / Romance, EUA / Itália / Espanha, 2020, 92 minutos.

Vamos combinar: as pessoas podem ter os mais variados motivos para não gostar do Woody Allen. Agora, uma coisa não se pode negar: assistir a qualquer das obras do diretor é sempre prazeroso. Especialmente para os fãs do universo das artes. Da literatura. Do cinema. Aos 86 anos, com mais de cinquenta filmes lançados e com uma série de polêmicas em sua vida pessoal - como o suposto caso de abuso sexual de que é acusado tendo ganhado os holofotes no último ano -, Allen parece utilizar o próprio cansaço da indústria que, talvez hoje, lhe vire as costas, como a matéria-prima para o recente O Festival do Amor (Rifkin's Festival), que está em cartaz nas salas do País. Assim como já aconteceu quase uma dezena de vezes, em trabalhos como A Rosa Púrpura do Cairo (1983), Dirigindo no Escuro (2002) e Meia-Noite em Paris (2011) o diretor utiliza a metalinguagem na condução de sua narrativa, ao nos jogar para a Espanha, durante uma semana em que ocorre o Festival de San Sebástian.

E, assim como ocorre também em boa parte de seus filmes, aqui temos como protagonista o intelectual atormentado, em crise existencial, e que acha que pode morrer a qualquer momento - sim, o hipocondríaco também costuma ser uma figura recorrente em suas obras. Nesse caso, esse eventual alter-ego do próprio diretor é encarnado pelo bonachão Wallace Shawn que, como o professor universitário e postulante a escritor tardio Mort Rifkin, aceita acompanhar a sua bela esposa Sue (Gina Gershon) - uma publicitária que agencia várias estrelas do mundo cinema -, ao já citado Festival. Só que será em terras espanholas que Mort perceberá que Sue pode estar muito mais próxima do que deveria de um diretor francês de nome Philippe (Louis Garrel), que a convida para uma série de eventos, que podem ser desde prosaicas coletivas de imprensa ou mesmo luxuosos jantares com figurões da indústria para divulgação de seu mais recente filme.

Enquanto perambula pela cidade tentando escapar de suas angústias, Mort conhecerá a médica Jo Rojas (Elena Anaya), que ele visita após constatar uma persistente dor em seu peito - que, coincidentemente, apareceu já na chegada à Europa. Com certa dificuldade para dormir, o protagonista misturará devaneio com realidade, enquanto sonha com seus diretores preferidos - Fellini, Truffaut, Bergman, Buñuel, Welles, Godard -, com obras clássicas desses mesmos diretores sendo recriadas em seu imaginário. E, será em meio a sequências improvisadas de Morangos Silvestres (1957), O Anjo Exterminador (1962), Cidadão Kane (1941) e Oito e Meio (1963), que Mort acabará juntando as pistas que servirão para que futuras decisões sejam tomadas. E, aqui, vale destacar o maior acerto da narrativa de Allen, que utiliza suas referências de forma, talvez, um tanto exagerada, presenteando os fãs de cinema com a oportunidade de reviver sequências antológicas que se transformam, ao cabo, na mais sincera das homenagens.

Sim, o diretor gosta de uma boa cultura de almanaque e faz questão que o espectador que acompanha seus filmes seja cúmplice nessa paixão, por mais que seus trabalhos soem repetitivos ou, em alguns casos, pareçam dar algumas voltas no mesmo lugar. Como de praxe, a litorânea San Sebastián também se transforma em uma espécie de personagem involuntária, com seus belos cenários servindo de forma perfeita para as divagações tão amorosas quanto filosóficas daqueles que acompanhamos. Sim, não há nada novo aqui e quem acompanha a carreira de Allen de perto sabe exatamente o que vai encontrar: verborragia, melancolia, alguns diálogos inspirados, uma ou outra piada sobre a condição humana (e o absurdo da existência), uma trilha sonora cheia de vigor e de carisma, pessoas simples buscando a felicidade, cenários poéticos, fotografia vibrante. Talvez às vezes a gente não precise de algo tão cabeçudo pra fazer a nossa semana melhor. E, nesse sentido, o diretor entrega tudo.

Nota: 8,0

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Livro do Mês - Hibisco Roxo (Chimamanda Ngozi Adichie)

Livro de estreia de Chimamanda Ngozi Adichie, Hibisco Roxo foi o meu primeiro contato com a obra da autora nigeriana. E, admito que fiquei impactado pelo microcosmo apresentado pela escritora que, ao mesmo tempo que propõe um mergulho lateral em um País pós-colonial militarizado, também evidencia as consequências do sincretismo religioso que coloca frente à frente as tradições mais primitivas dos povos africanos - suas crenças, seu folclore, sua cultura -, em contraste com o catolicismo branco, colonizador e, de alguma forma, opressivo. Sim, pode parecer bastante complexo, mas todos esses componentes são apresentados a partir da história de um pequeno núcleo familiar com a narradora, a adolescente Kambili Achike, sendo confrontada com uma série de eventos que ocorrem no entorno - e que envolvem outras figuras, como o pai Eugene (um empresário conservador/cristão), o padre progressista Amadi e, especialmente, a tia de Kambili, a professora universitária Ifeoma.

Com apenas 15 anos, Kambili ainda não é capaz de compreender a forma como agem os adultos - e o que os move. Educada a ferro e fogo pelo pai, um sujeito tão ortodoxo que não permite que a jovem ouça músicas que não sejam as da Igreja ou que utilizem seu (raro) tempo livre para atividades prosaicas típicas da juventude, Kambili cresce em um universo regido pelo fanatismo religioso que, não tardará, transbordará para a violência doméstica. Eugene não aceita, por exemplo, que Kambili e seu irmão Jajá visitem o avô Papa Nnukwu, já que ele acredita que o idoso poderá influenciar os jovens em suas crenças - como religioso de matriz africana. Da mesma forma, Eugene submeterá a própria esposa Beatrice a uma série de pressões psicológicas e de agressões (inclusive físicas) que, aos poucos, desintegrarão o núcleo familiar. Mas que servirão, paradoxalmente, para uma espécie de amadurecimento meio na marra da jovem protagonista.

Aliás, a respeito disso, será justamente após um evento violento na residência dos Achike, que Kambili e Jajá serão enviados para uma pequena temporada na casa da tia Ifeoma e de seus três filhos Chima, Amaka e Obiora. Lá, se depararão com um contexto em que as crianças são estimuladas para a curiosidade, para as descobertas, em uma rotina de maior liberdade, uma vez que, como professora universitária, Ifeoma surge como uma figura oxigenada, progressista e de uma leveza comovente (com uma gargalhada fácil sempre no rosto). Irmã de Eugene, ela é o seu oposto, ainda que pratiquem a mesma religião - e será esse contraponto entre o anacronismo e o contemporâneo que modificará a personalidade de Kambili para sempre, fazendo-a desabrochar, tal qual os hibiscos roxos que, metaforicamente, são descritos nas páginas. E esse sentimento de "liberdade" será ampliado quando ela conhecer o já citado jovem padre Amadi, por quem a menina se apaixonará.

Em meio a tudo isso, o avanço do Governo Militar também alterará a rotina da família, já que Eugene, além de empresário do ramo de biscoitos e de sucos, é detentor (curiosamente) de um jornal progressista de nome Standard - que não se furtará a fazer, em seus editorias, a crítica ao sistema (especialmente através da figura do editor Ade Coker). E, como não poderia deixar de ser, esse panorama também contribuirá para uma espécie de derrocada familiar - com os conflitos maiores influenciando diretamente no dia a dia dos Akiche. De escrita saborosa, vertiginosa, Hibisco Roxo é uma obra de formação que funciona como uma poética aula de história e de geopolítica da Nigéria - mas sem soar excessivamente acadêmica. E tudo isso nos apresentando uma coleção de personagens complexas, cheias de ambiguidades e nada maniqueístas. Simplesmente essencial.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Novidades em Streaming - King Richard: Criando Campeãs (King Richard)

De: Reinaldo Marcus Green. Com Will Smith, Jon Bernthall, Saniyya Sidney e Demi Singleton. Drama, EUA, 2021, 144 minutos.

Vamos combinar que já estava caindo de madura a ideia de fazer algum filme que, de alguma forma, resgatasse a história das irmãs Venus e Serena Williams. Com trinta títulos de grand slams somados, fora as tantas outras conquistas em quadras de grama, saibro ou piso, elas não apenas marcaram época por se tornarem as primeiras atletas negras a vencerem importantes competições de tênis: elas foram soberanas em um esporte muitas vezes praticado pelos ricos (normalmente em clubes frequentados por essa elite branca). E, de certa forma, o que o candidato ao Oscar King Richard: Criando Campeãs (King Richard) mostra, é como elas viriam a se tornar essas atletas de ponta - algo obtido com muita disciplina e com um planejamento daqueles de deixar aquele coach metido a empreendedor de queixo caído. E o responsável por tanta obstinação na carreira das jovens foi justamente o pai delas, Richard Williams (vivido por Will Smith, com toda aquela pinta de quem quer faturar a estatueta mais desejada do cinema).

Na realidade, é possível afirmar que o filme de Reinaldo Marcus Green é centrado muito mais na figura controversa e de personalidade forte que era Richard, do que nas garotas em si. É claro que o relacionamento com elas - as cobranças, os esforços pessoais, os medos do fracasso, as pequenas e grandes conquistas -, estão no centro da narrativa. Mas é a partir de sua própria história de dor, que o protagonista forjará as futuras jogadoras vitoriosas. Nesse sentido não são poucos os instantes em que Richard traz alguma lição de moral que deverá acertar em cheio os corações mais conservadores e adeptos da meritocracia - com direito até a cartazes que flertam com a autoajuda espalhados pelas quadras em que elas treinavam (que contavam com frases motivacionais ao estilo "se você falha em planejar, então você planeja falhar"). Sim, a ideia da superação de adversidades está em toda a parte. E servirá de combustível para os Williams.

Especialmente para Richard, claro, que empreende uma verdadeira via crúcis para conseguir um treinador para as jovens - que, até uma certa idade, eram treinadas por ele próprio, que acreditava no potencial e Venus (Saniyya Sidneye Serena (Demi Singleton) antes mesmo de elas nascerem. Em certa altura um dos potenciais treinadores recusa o pedido de Richard - que havia rabiscado um elaborado plano de carreira de 78 páginas para as futuras atletas -, lembrando que seria difícil ter uma boa tenista saída de Compton, na Califórnia. Que dirá duas. "Seria como se houvesse dois Mozarts na mesma família", debocha. E, bom, a história prova que havia. Peregrinando de um lado a outro, o persistente pai chegará, inicialmente, no técnico Paul Cohen (Tony Goldwyn), desfazendo mais tarde a parceria, quando Richard se sentirá incomodado com os caminhos dados à carreira das jovens que, mais tarde, viriam a ser treinadas pelo excêntrico Rick Macci (Jon Bernthal, finalmente deixando de lado os papeis de sujeito durão que marcaram sua carreira).

Alternando instantes mais leves - e até engraçados -, como aquele em que Rick elabora uma estratégia que possa convencer Richard a deixar Venus jogar uma importante competição (o pai levava a ferro e fogo a ideia de cuidar da imagem das filhas, jamais expondo-as a eventuais excessos), com outros mais dramáticos e até tensos (o jogo com a espanhola Arantxa Sanchez, em 1994, é daqueles de deixar a plateia no sufoco), King Richard parece ser aquela obra que agradará os entusiastas de histórias mais diretas sobre superação de obstáculos. [MINI-SPOILER A PARTIR DE AGORA] Com mensagens importantes sobre humildade, união familiar, responsabilidade, decoro e disciplina, a obra ainda acerta em cheio ao optar por um final em que Venus é confrontada com uma dura e inesperada derrota, mas que deixará uma importante lição: a de que pequenas batalhas podem até ser perdidas. Mas as grandes vitórias virão nas principais disputas. E aqui não estamos falando, necessariamente, do tênis em si, e sim das questões de raça, de gênero e de representatividade como um todo. E em tempos duros como os que vivemos, estas conquistas devem ser celebradas sempre.

Nota: 7,5

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Campanha de Financiamento Coletivo do Picanha Cultural

Pessoal, criamos uma campanha de financiamento coletivo no apoia.se para o Picanha Cultural (apoia.se/picanhacultural), com o modesto objetivo de custear as despesas para a manutenção mensal do site, já que não possuímos nenhum patrocínio e tudo o que fazemos por aqui é na paixão, no amor - pelas artes, pela cultura e por tudo que envolve esse universo. Então, queremos pedir aquela ajuda parceira de vocês, para que essa empreitada que já está se aproximando do seu oitavo ano de vida, possa ter o máximo de longevidade possível. E o melhor: com R$ 5 ao mês (é um latão de cerveja a menos!) já é possível contribuir conosco. Pequenas e simbólicas recompensas, como participação no grupo de whats do Picanha, com aquela troca de ideias bacana, além da oportunidade de sugerir pautas mensalmente também são ofertadas nas modalidades.

Abaixo temos todo o descritivo da campanha, que tem como meta inicial alcançar os R$ 500 ao mês.

Acesse o Apoia-se e confira todos os detalhes!

Sobre a campanha

Criada no final de 2014 pelo jornalista Tiago Bald e pelo fisioterapeuta Henrique de Oliveira, a página Picanha Cultural surgiu com o objetivo de ser um veículo para discussão de músicas e de filmes alternativos, que circulam em festivais e que fogem um pouquinho do óbvio - ou do circuito estritamente comercial. Tudo feito com paixão por estes moradores da pacata Lajeado, no Rio Grande do Sul, que encontraram nesse espaço uma forma de depositar suas ideias (e suas sugestões) sem pedantismo.

Por mais que, até aqui, tenham encarado o Picanha como um hobby, sempre se trabalhou nele de forma bastante profissional, divulgando resenhas, análises e listas de obras clássicas ou contemporâneas - numa média de quatro a seis textos por semana. Remodelado em 2021 e com mais de 1,3 mil textos publicados até então, entendeu-se que era a hora de solicitar um apoio a vocês, no sentido de permanecer estimulado a desenvolver o ofício da escrita - com o dinheiro sendo investido em melhorias na própria página, que pretende-se converter em um portal maior, com mais pessoas envolvidas e, vá lá, mais escritores trabalhando no projeto. Além de utilizar os recursos para a aquisição de ingressos, para pagamento do domínio e para investimentos nas plataformas de streaming utilizadas.

Tudo que a gente promete é um bom conteúdo como contrapartida.

Contamos com vocês!

Novidades em Streaming - Bar Doce Lar (The Tender Bar)

De: George Clooney. Com Tye Sheridan, Ben Affleck, Daniel Ranieri, Christopher Lloyd, Lily Rabe e Sondra James. Drama, EUA, 2021, 106 minutos.

Na nossa existência é possível afirmar que existem duas "universidades". A real, pra quem tem a oportunidade, é aquela dos bancos do ensino superior, com anos e anos de aquisição de experiências acadêmicas com colegas e  professores. A outra é a da vida, que envolve a bagagem que carregamos, os aprendizados, as frustrações, as conquistas. O que o simpático filme Bar Loce Lar (The Tender Bar), mais uma daquelas obras sobre amadurecimento, nos mostra, é uma mescla dessas duas realidades, que servirão para formar a personalidade do jovem JR (vivido por Tye Sheridan na fase adulta). Abandonado pelo pai - um locutor de rádio hedonista e com apreço pelo comportamento autodestrutivo (papel de Max Martini) - JR vai morar com os seus avós e com outros parentes, após a sua mãe (Lily Rabe) enfrentar graves problemas financeiros. Sim, ninguém ficará muito feliz com essa rotina mas, é nesse contexto, que um JR ainda criança (Daniel Ranieri) se aproximará do carismático tio Charlie (Ben Affleck).

Em linhas gerais o que George Clooney faz aqui a partir do texto autobiográfico de JR Moehringer, além de recuperar um pouco a mão depois do apenas razoável O Céu da Meia-Noite (2020), é o feel good movie por excelência. Não há nada que não tenhamos visto anteriormente nesse sentido, já que estão lá a família disfuncional (e numerosa), a necessidade de superar uma série de obstáculos, as pequenas experiências que significam muito, o panorama cultural de uma época (no caso o meio dos anos 70) que dialoga com a história. As decepções. As descobertas. As Incertezas. As voltas por cima. E, nesse sentido, o que torna a experiência com Bar Doce Lar encantadora é o fato de nos importarmos um tanto com aqueles que acompanhamos - sensação bem diferente daquela gerada pelo desastroso Era Uma Vez Um Sonho (2020), que utiliza mais ou menos as mesmas ideias (e estrutura), mas com uma coleção de personagens absurdamente irritante, pra não dizer desprezível.

Indo e vindo no tempo, a obra utiliza seus saltos temporais de forma orgânica, intercalando momentos de JR já na faculdade - como estudante de Direito e aspirante a escritor -, com momentos de sua juventude, especialmente no simpático bar The Dickens, mantido pelo tio Charlie. É nesse local convidativo - sim, o nome homenageia o escritor Charles Dickens -, que o pequeno JR conhecerá uma coleção de frequentadores do local que, a sua maneira, "apadrinharão" o jovem, lhe entregando desde pílulas de conhecimento de boteco, até doses inesperadas de chope gelado. E, mesmo sendo um sujeito de personalidade complexa, Charlie funcionará como uma espécie de tutor involuntário do menino, auxiliando em sua criação e estimulando-o para a importância da leitura - e, nesse sentido, não é por acaso que muitas das interações mais emocionantes da obra envolverão o rapaz e o seu tio (como é o caso do instante em que eles recebem a carta da Universidade de Yale, que lhe oferecerá uma bolsa de ensino).

Com uma fluidez narrativa pacata, uma fotografia em tons pasteis que ajudam a criar o clima setentista e uma trilha sonora de nomes como The Isley Brothers, Devo, The Grass Roots, Chic, Steely Dan, Paul Simon e Malcolm McLaren, esse é aquele tipo de filme ideal para ser assistido de maneira despretensiosa num sábado preguiçoso. Não vai mudar o mundo. Não será inesquecível, provavelmente. Mas nos fará rir e se emocionar - e as participações de Christopher Lloyd (sim, o doutor de De Volta Para o Futuro) e Sondra James (em seu último papel) como os avós de JR também são parte disso. É aquela experiência carinhosa, que pega a complexidade da vida e a esmiúça, gerando identificação imediata com o público. Pode parecer pequeno diante da grandiosidade de outras obras. Mas já é o suficiente para valer a pena.

Nota: 7,5