quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Cinema - A Esposa (The Wife)

De: Björn Runge. Com Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater e Max Irons. Drama / Suspense, Suécia / EUA, 2017, 100 minutos.

Em uma das primeiras cenas do ótimo A Esposa (The Wife), o escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce) recebe uma ligação de Estocolmo, na Suécia, lhe comunicando que ele será laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Antes de a notícia ser dada, o homem faz questão de que a sua esposa Joan (Glenn Close) ouça a mesma conversa pela extensão telefônica. Enquanto Joe, emocionado, ouve os elogios do encarregado à obra literária do agraciado, Joan está em um outro cômodo, quieta, com o olhar perdido, como que excessivamente perplexa por aquilo que escuta. Seus olhos parecem comunicar algum tipo de tensão, de desconforto e de incerteza - e não serão poucas as sequências em que este expediente se repetirá, especialmente naqueles momentos em que o homenageado tomará a palavra para mencionar a importância da esposa para a sua vida. "Eu não sou nada sem ela", será uma frase ouvida com frequência.

Joan não quer ser vista pelos demais - especialmente pela equipe de produção do Nobel - como a companheira sofredora de um sujeito narcisista de "mente brilhante". Mas parece haver algo a mais do que esse simples incômodo, quando os primeiros flashbacks começam a aparecer no filme. Na juventude, Joan também era escritora. Uma escritora de talento, pelo que se pode perceber. Joe era um professor de literatura com boas idéias, mas muita dificuldade de colocá-las no papel. Não demora para que percebamos que a união pelo casamento, também se estenderá ao trabalho, sendo difícil mensurar o impacto causado pela "presença" de Joan na obra de Joe. Só o que sabemos é que o simples fato de ser mulher, impediu Joan de explorar seus sonhos dentro do mundo das artes. E a existência de apenas 12 ganhadoras do Prêmio Nobel de Literatura em 114 edições, é um verdadeiro atestado do machismo existente TAMBÉM nesta área.



A obra tinha tudo para ser mais melodramática e até histriônica - como era por exemplo o igualmente bom Grandes Olhos (2014), do Tim Burton. Mas o diretor Björn Runge aposta na economia, na sutileza e, especialmente, na ambiguidade. Pra falar a verdade a gente nunca sabe exatamente o quê está pensando Joan, em cada movimento sinuoso que faz em volta do marido - cuidando de sua saúde e fazendo observações gerais sobre seu comportamento no cotidiano. Ela estará satisfeita com esta "condição" que lhe foi imposta? Para ela é cômodo pensar que ela, minimamente, também poderia ser uma escritora? Seria ela reconhecida pelo mesmo material, por ser mulher? O surgimento de um jornalista de nome Nathaniel Bone (Christian Slater), interessado em escrever a biografia de Joe, tornará o contexto ainda mais curioso, indefinível.

Aqui e ali, Runge pincelará a película algumas sutilezas que parecem pequenas, mas dizem muito - como é o caso do momento em que Joe esquece o nome de uma de suas personagens, sendo lembrado disto pelo filho (com quem ele não tem boa relação, o que também resulta em boas cenas). Mas a força MESMO desta obra está na caracterização impressionante de Close, que certamente será uma das indicadas para o Oscar na categoria Melhor Atriz, tentando tirar da favorita Lady Gaga, pelo seu trabalho em Nasce Uma Estrela, a estatueta dourada. Joan é uma figura complexa, interessante, nada óbvia, que parece conhecer o comportamento errático do marido, aparentemente estando tranquila (e segura) quanto a isso. Mas estará mesmo? Com boas pequenas reviravoltas, a obra mantém a tensão até o surpreendente final, que transforma esta em uma das boas surpresas do começo dessa temporada.

Nota: 9,0

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Lançamento de Videoclipe - The Killers (Land Of The Free)

Se expressar artisticamente também é resistir e o The Killers - uma de nossas bandas preferidas aqui do Picanha - fez a lição de casa direitinho ao lançar um BAITA clipe para a recém-chegada Land Of The Free. O vídeo, uma verdadeira preciosidade dirigida por Spike Lee (diretor de Infiltrado na Klan) traz diversas imagens de refugiados e de famílias de imigrante ou em vulnerabilidade social - algo que, em um cenário de avanço de uma extrema-direita raivosa, xenófoba e intolerante não deixa de ser um belo recado. Em meio a coros de vozes crescentes e um instrumental bastante econômico - se comparado aos sintetizadores envolventes de Wonderful Wonderful (2017) - Brandon Flowers entoa versos potentes como Quando eu saio no meu carro, eu não penso duas vezes  / Mas se você é a cor da pele errada (eu estou de pé, chorando) / Você cresce olhando para ambos os seus ombros  / Na terra dos livres. Um lindo acerto e que nos deixa bastante otimistas para o futuro da banda!

Lado B Classe A - Animal Collective (Merriweather Post Pavilion)

Quem gosta de música parece estar sempre esperando por algum artista/banda que faça algo realmente NOVO. Que rompa com o lugar comum e que imprima personalidade e algum frescor as melodias. Que cruze estilos de forma inovadora, mas próxima do público. Sim, para cada novo disco do Franz Ferdinand - que ouvimos, claro, nas festas da faculdade ou lavando a louça em casa -, em nosso íntimo desejamos aquilo que nos arrebate. Que seja o novo Kid A - o incensado álbum do Radiohead. Ou que faça, sei lá, algo que o Nirvana fez em Nevermind. Esse papo é até meio chato e essa eventual "exigência" de que a coisa diferente apareça talvez até canse. E não é que o Animal Collective tenha feito A REVOLUÇÃO com o agora clássico Merriweather Post Pavilion. Mas, é preciso que se diga, ele chegou bem perto disso.

Merriweather é o oitavo disco de Avey Tare, Noah Lennox e companhia. E, de alguma forma, pode-se dizer que ele condensa todos os experimentos testados anteriormente pela banda, em uma coisa só. Em algo maior, mais impotente, mais psicodélico, mais roqueiro, mais praiano. Mais festivo. Mais comercial. Do espetacular Feels (2005) saem as canções adocicadas, o clima primaveril, bucólico, que serpenteia o registro com emanações etéreas, sutis. De ótimo Sung Tongs (2004) sai o peso alarmante do rock, com seus gritos mais urgentes e ensandecidos. De Strawberry Jam (2007) entra a psicodelia multicolorida e os refrões eventualmente mais fáceis - e não é por acaso que For Reverend Green é a minha música preferida do coletivo, na vida. Na real qualquer um desses álbuns poderia figurar aqui no Lado B Classe A. Mas o caso é que, no o registro que agora completa 10 anos, a banda enfiou todas as suas melhores referências em um liquidificador. Para de lá retirar um som todo próprio, divertido, efervescente, barulhento, mas também pop e, inevitavelmente, acessível.


Por exemplo, é difícil escutar Bluish, sexta canção do disco e não se comover completamente. Não sorrir, não pensar nas tantas possibilidade alcançadas pela banda. É uma música que começa com um sintetizador econômico e vai levemente crescendo, se ampliando na "ponte" até explodir em um refrão glorioso, que preenche os ouvidos como uma chuva de papel multicolorido a acariciar as nossas têmporas.  O vocal com um leve falsete canta coisas como Eu gosto da sua aparência quando você fica má / Eu sei que eu não deveria dizer isso, mas quando você /Agarra-me como um gato, eu fico radiante, enquanto a música faz idas e vindas se ampliando e retrocedendo, com deslocamentos nunca óbvios. Aliás, esse tipo de quebra de andamento, de alteração da lógica, de cada fragmento funcionando como uma espécie de caleidoscópio sonoro, se repetirá em muitos outros grandes momentos.

No maior hit da banda, My Girls, um começo meio de viagem interplanetária em meio a um filme de ficção científica, enquanto ao fundo uma voz ecoa a felicidade mundana pelas coisas simples da vida - a esposa, uma boa casa, o sangue correndo nas veias. Não demorará para que o sintetizador acelere (assim como toda a música), que culminará em um refrão grudento, inesquecível. No registro são tantas as grandes canções - Also Frightened, Summertime Clothes, Brother Sport, Taste - que é provável que, em uma discussão sobre as melhores do trabalho, cada um tenha a sua preferida. Poucas vezes pop e "barulho" se equilibraram tão bem, em meio a vocais limpos, eventualmente amplificados por coros, efeitinhos e batucadas capazes de aproximar o coletivo de sonoridades africanas e até brasileiras (como na já citada Brother Sport), enquanto o soft rock corre solto, sem vergonha. Um álbum fundamental, cheio de personalidade e que inaugura, ao lado de outros coletivos como o MGMT e o Tame Impala, a nova onda psicodélica que nos acompanha até hoje.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Pérolas da Netflix - Feliz Como Lázaro (Lazzaro Felice)

De: Alice Rohrwacher. Com Adriano Tardiolo, Alba Rohrwacher, Nicoletta Brschi e Tommaso Ragno. Drama, Itália / Suica / França / Alemanha, 2018, 127 minutos.

Feliz Como Lázaro (Lazzaro Felice) é um daqueles filmes cheios de simbologias. Que nos deixa pensativos, enquanto os créditos sobem. E que aposta na sutileza para mostrar que vivemos em um mundo de pessoas corrompidas - pelo poder, pelo dinheiro -, onde a bondade, a gentileza e a empatia dão lugar ao ódio, a intolerância e ao individualismo. Na trama Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre, que mora com a sua família em uma fazenda mantida por uma Marquesa (Nicoletta Braschi). Ele está sempre disposto a ajudar, seja nas tarefas mais pesadas do dia a dia na plantação de tabaco, seja se oferecendo para levar uma xícara de café para alguém. Assim como ocorre com a Nicole Kidman em Dogville (2003), as pessoas abusam da boa vontade de Lazzaro, que é adepto do "fazer o bem sem olhar a quem". Na fazenda, os moradores mal ganham para comer e acreditam estar sempre em dívida com os patrões - aquelas figuras "generosas" que lhe possibilitaram o trabalho.

A chegada de parentes da Marquesa modificará a rotina do local, especialmente pela presença de um excêntrico sobrinho que irá para as montanhas com a intenção de fingir ter sido sequestrado - mimado, ele quer apenas chamar a atenção de todos. Uma ligação telefônica saída da fazenda, aliada a uma fatalidade envolvendo Lazzaro atrairá agentes de polícia para a fazenda, que constatarão que a Marquesa mantinha mais de 50 pessoas em condições de trabalho análogo à escravidão. Sim, qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. A trama faz um salto no tempo, com Lazzaro "ressuscitando" e indo em busca de sua família. O tempo passou, ninguém mais é escravo, mas as condições de pobreza permanecem as mesmas. Sim, a sociedade é hipócrita e sem boas políticas públicas, o pobre seguirá pobre, na rua na chuva ou na fazenda.


E é ao mostrar que as coisas não mudam com o passar dos tempos, que Feliz Como Lázaro tem seu maior acerto. Aliás, em um mundo que é uma verdadeira selva - e não são por acaso as metáforas envolvendo lobos uivando -, com todo mundo se atropelando e pensando só em si, não há lugar para a generosidade de Lazzaro (o que talvez explique o emocionante e, desde já, icônico final). No cada um por si da vida, a obra da diretora Alice Rohrwacher vai no limite do realismo fantástico para falar sobre a tragédia pós-moderna de um mundo em que o homem definitivamente deu errado - e que não seria problema colocar a fôrma fora. Jesus Cristo, de acordo com a Bíblia, ressuscitou Lázaro, que seria seu amigo pessoal, confidente, alguém de importância para ele. Mas haverá espaço para o seu homônimo, uma figura absolutamente generosa, nos dias de hoje?

Como forma de tornar a experiência ainda mais comovente, a diretora inunda a tela com pelo menos uma dezena de grandes sequências, como aquela em que a família "descobre" estar em um jardim de Plantas Alimentícias Não-Convencionais (Pancs) ou outra em que os pobres tentam, em vão, entrar em uma Igreja, sendo, após, perseguidos pela música que se amplificava pelo ambiente. Nem sempre a obra será fácil ou simples de entender e nem será esse o objetivo ao final das mais de duas horas de exibição. Mas ao beber da fonte do neorrealismo italiano, e de filmes como Feios, Sujos e Malvados (1976) de Ettore Scola, Rohrwacher constrói uma fábula sobre a gratidão e o altruísmo, como um contraponto a ganância e a mesquinhez. A gente se sente leve diante da placidez dos olhos azuis de Lazzaro - que muito dizem, sem dizer. E só este sentimento já faz valer o filme.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Na Espera - Nós (Filme)

Sim, a gente sabe que ainda tem um monte de filme bacana para estrear na temporada que recém se inicia - o Oscar vem aí e com ele obras como A Favorita (novo do Yorgos Lanthimos) e Green Book: O Guia (mais recente empreitada de Peter Farrelly) devem dar as caras. Mas temos de admitir que já estamos olhando para o mês de março. Mais precisamente para o dia 21, que é a data de estreia de Nós (Us), a nova película de Jordan Peele (de Corra!). Se no citado filme - que faturou a estatueta na categoria Roteiro Original no último Oscar - o suspense com discussão político/social era a tônica, neste, a sensação de terror parece se ampliar, assim como a quantidade de sangue, de gritos, de fogo e de sustos!


Na trama, Adelaide (Lupita Nyong'o) e Gabe (Winston Duke) decidem sair de férias com a família e alugam uma casa na praia. Não demora para que eles percebam que há algo de estranho quando uma outra família aparece no quintal. Tomando os protagonistas como reféns, os visitantes se revelarão como clones dos primeiros, mas como se estes estivessem vindo de uma realidade paralela em que tudo acontece ao contrário. O elenco conta ainda com Elisabeth Moss (de O Conto da Aia) e o roteiro certamente investirá, novamente, na alegoria como forma de debater temas como o racismo. Aqui no Picanha, já estamos Na Espera!

Pérolas da Netflix - Inspire, Expire (Andið Eðlilega)

De: Isold Uggadottir. Com Babetina Sadjo, Kristín Thóra Haraldsdóttir e Patrik Nökkvi Pétursson. Drama, Islândia / Suécia / Bélgica, 2018, 95 minutos.

Destaque do último Festival de Sundance Inspire, Expire (Andið Eðlilega) é uma obra pequena, mas ainda assim tão cheio de significados. Tão relevante em tempos de intolerância. De falta de empatia. De individualismo e de julgamentos sobre o outro - e, faço aqui um mea culpa, parece que estamos sempre prontos a "lavar as mãos" para os problemas que não nos dizem respeito. Na trama, duas mulheres completamente diferentes, mas com objetivos de vida semelhantes. Lara (Kristín Thóra Haraldsdóttir) é uma mãe de família desempregada que não consegue dar conta dos boletos que não param de chegar, sendo despejada do complexo habitacional em que mora. Já Adja (Babetina Sadjo) é uma refugiada de Guiné-Bissau que pretende ir ao encontro da filha, que está no Canadá. Quando Lara consegue um trabalho no aeroporto de Reykjavic, ela acaba barrando a passagem de Adja, que tentava utilizar um passaporte falso para sair do País.

É claro que esse pequeno encontro, este instante em que ambas estiveram juntas, modificará a vida delas para sempre. Ainda mais pelo fato de a obra da diretora Isold Uggadottir ser um filme sobre coincidências. Sobre acasos. Sobre estar no lugar certo (ou errado?) na hora certa. Adja acaba mandada para uma espécie de prisão do Estado em que aguardará julgamento. Despejada, Lara passará a morar com o filho pequeno no velho carro que possui (ao menos até que o seu primeiro salário entre e ela consiga, finalmente, começar a pagar os credores). Em um dia muito frio Lara perde o menino de vista - que sai de dentro do carro para procurar o gato da família. Quem o encontra? Adja, que retornava para a prisão após sair para as compras. Nesse novo encontro, uma mudança de percepção e a constatação de que ambas, mães solteiras sofrendo em um universo de abusos, são mais parecidas do que pensam.


O filme como um todo é muito silencioso, até frio - condição reforçada pelas paisagens gélidas da Islândia. Aposta muito mais nos olhares, na sugestão, do que nos gestos mais expansivos. No olhar cúmplice de Lara, já no terceiro ato, o arrependimento claro pelo que ela fez e o sonho de, se pudesse voltar no tempo, mudar o destino de Adja. Nos olhos marejados de Adja, a constatação de que a outra apenas estava cumprindo a Lei do País - e assim a gente percebe que o péssimo tratamento dado a refugiados ou estrangeiros, quaisquer que sejam, não é exclusividade nossa. Em meio a tudo, Lara também tenta tocar a sua própria vida e, como se fosse uma espécie de Roberto Benini em A Vida É Bela (1998), mente para o seu filho dizendo que o "despejo" será uma espécie de temporada de aventuras a bordo de um carro velho. Em cada sequência em que as dificuldades são escancaradas, é impossível não se comover.

Com ótimas interpretações da dupla de protagonistas, o filme ainda acerta em cheio por ser uma espécie de fábula distinta sobre a amizade. Por linhas tortas Lara e Adja se aproximarão, se tornarão amigas e se apoiarão em decisões que podem mudar o destino de ambas. Mas que mostram que nem sempre as primeiras impressões são aquelas que ficam. Olhando o filme fiquei pensando na nossa pequena e xenófoba cidadela. Aquela mesma que odeia haitianos e senegaleses que tentam tocar a vida vendendo produtos na beira da calçada - que, muitas vezes, não querem voltar para os seus países de origem, mas também não tem para onde ir. Nesse sentido obras como esta também servem para nos lembrar que, por trás de uma pessoa adotando medidas desesperadas para sobreviver, pode haver um ser humano cheio de boas intenções. Cabe a nós baixar a guarda e deixar um pouco de lado o preconceito.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Novidades em DVD - O Primeiro Homem (First Man)

De Damien Chazelle. Com Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler e Corey Stoll. Drama / Biografia, EUA, 2018, 141 minutos.

Do épico Os Eleitos (1983), passando pelo blockbuster Apollo 13 (1995) até chegar ao recente Gravidade (2013), não foram poucos os filmes que investiram em temáticas relacionadas à exploração do espaço - e devo admitir que gosto muito dessa vertente que, em muitos casos, cruza a realidade com o universo misterioso das ficções científicas. O badalado O Primeiro Homem (First Man) - mais recente trabalho do diretor Damien Chazelle (de La La Land) - é mais um desses. Adotando uma estrutura convencional, muito mais econômica do que "expansiva", a obra centra o foco na história de Neil Armstrong (Ryan Gosling), conhecido por ser o primeiro homem a pisar na lua. Na história a ida a Lua é o de menos. A trama volta no tempo, para o começo da década de 60, para mostrar como ele se consolida na profissão de engenheiro (e astronauta da Nasa), ao mesmo tempo em que tem de lidar com uma série de problemas pessoais.

Por problemas pessoais leia-se a perda de uma filha vitimada por um câncer, de amigos e de colegas de profissão em acidentes - sendo o mais marcante o que envolve o parceiro Ed White (Jason Clarke) que morre em incêndio durante um evento de testes mal sucedido. Não bastassem as pressões naturais da profissão de astronauta - que sai para trabalhar sem saber se voltará com vida - Neil, um sujeito claramente taciturno e sisudo, ainda deve encontrar equilíbrio para um convívio familiar estável ao lado da esposa Janet (Claire Foy, em impressionante caracterização que provavelmente lhe renderá uma indicação ao Oscar) e dos dois filhos. Como pano de fundo, o contexto político que desloca as personagens para o meio da Guerra Fria, período em que Estados Unidos e União Soviética travavam uma luta silenciosa para que se descobrisse qual dos dois tinha o maior "foguete" - e aí as cenas envolvendo engravatados em gabinetes, somadas a enfadonhas entrevistas à imprensa, completam o estresse generalizado que envolvia as famílias dos astronautas.


O filme avança no tempo, com a narrativa se ocupando do período entre 1961 e 1969, sendo este último, o ano em que a Apollo 11 faz a sua bem sucedida investida no satélite natural. Ainda que saibamos que Neil ficará vivo (ele foi pra Lua e voltou), não são poucas as cenas tensas em eventos de teste cheios de engrenagens barulhentas, com a câmera rodopiando e trilha sonora ostensiva. Mas ainda assim a intenção principal de Chazelle e companhia é a de focar na vida íntima daqueles que vemos na tela. Suas angústias, anseios, medos e preocupações - algo que Gosling, com sua cara de paisagem e olhares de peixe morto, executa sem muito esforço. Nesse sentido, a trama é inteligente ao mostrar que a eventual claustrofobia gerada por um pequeno módulo espacial talvez seja o menor dos problemas. Não por acaso, uma cena mostrando Gosling "encaixotado" pelas paredes de sua casa, após uma sequência em que há uma discussão com Janet, se torna um recurso bem sucedido para evidenciar o sentimento de "prisão" estabelecido por uma situação incômoda que deve ser superada.

Claro que esse tipo de efeito não transforma este em um filme superior dentro do estilo - e os três citados no começo desta resenha causam, cada um a sua maneira, mais "impacto" a meu ver. E na tentativa de não causar impacto, eventualmente Chazelle se perde na "linguagem de engenharia", com o espectador meio perdido em termos técnicos relacionados a cálculos de rotas, de distâncias de velocidades e pressões (o que para um jornalista desatento como este que vos escreve pode tornar a experiência meio sonolenta). Em contrapartida há que se reconhecer o esforço em conferir verossimilhança a narrativa, exaltando-se também a versatilidade do diretor que, em seu terceiro filme, deixa de lado os temas musicais para investir em uma trama de ares épicos. Não sei dizer se será indicado ao Oscar - os nominados serão conhecidos no dia 22 de janeiro -, mas, caso for, será um atestado de "safra fraca" já que o filme se estabelece bem, mas não chega a gerar nenhuma surpresa "a mais".

Nota: 7,0

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Tesouros Cinéfilos - Ponto Cego (Blindspotting)

De: Carlos Lopez Estrada. Com Daveed Diggs, Rafael Casal e Janina Gavankar. Comédia dramática, EUA, 2018, 95 minutos.

Em um contexto de avanço de uma extrema-direita cheio de ódio, de preconceito e de intolerância, filmes como Ponto Cego (Blindspotting) serão cada vez mais necessários, daqui pra frente. É uma obra que bebe na fonte do melhor Spike Lee para fazer o discurso sem soar excessivamente panfletário. É a resistência sutil, representada na voz calma e nos modos tranquilos do protagonista Colin (Daveed Diggs), ex-presidiário que enfrenta os últimos dias de liberdade condicional e que conta os dias para ter as suas contas com a justiça definitivamente acertadas. Ele tenta andar na linha de todas as formas - como uma espécie de Al Pacino do Oakland em O Pagamento Final (1993) -, por mais que companhias como a do amigo de infância Miles (Rafael Casal), sejam um convite para se meter em encrenca.

Faltando três dias para a tão sonhada liberdade, Colin presencia um policial assassinando um negro a sangue-frio. Sem saber direito como reagir ele segue em frente com medo de enfrentar novos problemas com a polícia. Mas a imagem do homem sendo morto assombrará Colin. Aliás, várias imagens assombrarão ele o tempo todo já que, também negro, o protagonista convive com o medo da morte o tempo todo. Para ele, estar em contato com uma arma (ou com drogas) pode representar uma dura sentença, apenas pelo fato de ser negro. Ao passo que o melhor amigo Miles - aquele tipo de branquelo meio skinhead cheio de tatuagens - terá um "cheque em branco" para um comportamento errático já que é caucasiano. Nesse sentido, Ponto Cego é, no fim das contas, uma obra sobre o racismo estrutural. Aquele tipo de racismo que é velado, nunca claro, mas que faz com que as pessoas tratem de forma diferente as raças diferentes.


No evento que levou Colin à cadeia, Miles também estava presente (como veremos em um flashback). E ele foi tão culpado quanto. Mas quem foi para a cadeia? A gentrificação da cidade de Oakland - aliás, esse é um processo que a Califórnia como um todo tem vivido - torna a vida ainda mais difícil para os locais (que devem conviver com o aumento do custo de vida, com pessoas diferentes na comunidade e até com o risco de desemprego). De alguma forma (e também por causa disso) o filme do diretor estreante Carlos Lopez Estrada é uma obra de contrastes: de um lado a cultura das ruas, representada pelos grafites multicoloridos, pelo hip hop e pela pluralidade, de outro as casas grandes e acinzentadas dos moradores mais ricos - e muitos deles serão clientes de Colin e Miles, que trabalham em uma transportadora.

Como já disse, é um filme que aposta na sutileza, que passa o recado e não pesa a mão. As conversas em estilo rap freestyle da dupla de protagonistas beiram o delírio realista, divertindo e fazendo pensar em igual medida - sensação ampliada pelo estilo multicolorido da fotografia, pela música onipresente e pelo desenho de produção cuidadoso. Já sequências como a que mostra uma festa de hipsters afetados nos fazem rir pelo absurdo - ainda que a conclusão desta seja chocante. E nada funcionaria se não fosse o carisma irresistível de Diggs e, especialmente, de Casal, que mesmo estando no limite da "bandidagem" nos fazem torcer para que a sua vida possa definitivamente entrar nos trilhos. Uma obra curiosamente descontraída, com diálogos sagazes, mas que não abre mão de discutir, nas entrelinhas, temas necessários como o porte de armas e o respeito às diferenças.