quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Cine Baú - No Calor da Noite (In The Heat Of The Night)

De: Norman Jewison. Com Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates e Lee Grant. Suspense / Policial, EUA, 1967, 109 minutos.

Filmes que abordam a temática do preconceito racial dificilmente se tornam datados, já que os avanços relacionados ao assunto ainda são poucos em um mundo que (ainda) precisa conviver com aberrações políticas como Donald Trump e Jair Bolsonaro - que, com seus comportamentos anacrônicos, ultrapassados e conservadores, parecem lamentavelmente "legitimar" o discurso de ódio às minorias. E se nos dias de hoje o respeito à igualdade entre os povos ainda parece uma utopia a ser alcançada, nos anos 60, época do lançamento do inesquecível clássico No Calor da Noite (In The Heat Of The Night), a situação era ainda mais grave. Nesse sentido, é louvável o esforço do versátil diretor Norman Jewison (Agnes de Deus) em transformar a sua película não apenas em um ótimo suspense policial, mas também em um verdadeiro documento de um período em que os americanos conviviam com o segregacionismo.

O filme começa com o industriário Philip Colbert (Lee Grant) sendo encontro morto, em plena rua, pelo policial Sam Wood (Warren Oates). Na tentativa de achar o culpado, Sam acaba conduzindo à delegacia um certo Virgil Tibbs (Sidney Poitier), simplesmente pelo fato de Virgil ser um homem negro, bem vestido, que está de posse de uma razoável quantidade de dinheiro e que aguarda na estação rodoviária que fica próxima ao local em que ocorreu o crime. Não demorará para que Sam e o seu superior - no caso xerife Bill Gillespie (Rod Steiger) - percebam estar diante de um grande equívoco, já que Virgil não apenas não é o assassino, como ainda é um detetive da polícia da Filadélfia, que estava no Sul dos Estados Unidos para visitar familiares. Especialista da área de homicídios, Virgil recebe ordens de seu superior para que ajude no caso - o que desagradará policiais, comunidade, famílias de bem e bolsominions americanos, que tentarão de todas as formas boicotar o trabalho do sujeito.



Será na conturbada relação entre Gillespie e Tibbs que residirá a força da película, que faturou a premiação máxima no Oscar de 1968 - deixando para trás outras produção estrelada por Poitier, no caso Adivinhe Quem Vem Para Jantar (1967). O xerife local não admite que um negro trabalhe com ele ou que lhe dê ordens. Ao mesmo tempo, é inegável a admiração com que ele encara o seu parceiro de investigação que, com inteligência e perícia, vai fechando o cerco e descartando suspeitos que, presos, poderiam servir apenas como "bodes expiatórios". Ainda assim, a obra jamais alivia no preconceito, escancarando o ódio boçal que brancos sentiam (alguns ainda sentem) na convivência com negros - e não é por acaso que, em certa altura, um dos principais suspeitos do crime lembra os tempos em que "mandaria fuzilar" um sujeito tão "indolente" quanto Virgil. Uma das tantas perseguições que o jovem sofrerá na interiorana e retrógrada Sparta durante a sua estada.

Com ótima montagem - do editor Hal Ashby que, mais tarde, se tornaria um importante diretor - o filme ainda engendra uma ótima sequência de eventos que surpreendem, mantendo o espectador até os últimos minutos sem saber quem é o verdadeiro culpado pelo assassinato (não por acaso, o roteirista Stirling Silliphant também faturou o Oscar). Com cenas até hoje inesquecíveis e violentas - como aquela em que Bill "salva" Virgil do ódio de quatro rapazes na estação ferroviária - a obra ainda tem trilha sonora inesquecível (cortesia de Quincy Jones) e música tema de Ray Charles daquelas para ouvir no repeat por horas. Já as interpretações são um verdadeiro show. Poitier, com seu semblante naturalista é capaz de transmitir MUITO apenas com o olhar e com gestos sutis. Já Steiger foi agraciado com o Oscar, talvez motivado pelo arco dramático redentor pelo qual o seu personagem passa (provavelmente um sonho secreto quase fantasioso do americano médio). No final das contas, em meio a alguns avanços, o fato é que No Calor da Noite, 75º colocado na lista de 100 melhores da história lançada pelo American Film Institute em 2007, se mantém dolorosamente atual.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Cinema - Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here)

De: Lynne Ramsey. Com Joaquim Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alex Manette e Alessandro Nivola. Suspense / Drama, EUA / Reino Unido / França, 2018, 90 minutos.

Interessante notar como Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here) não é apenas um belo exemplar de gênero - no caso um drama de temática forte, com boas doses de suspense - mas também um excelente exercício de estilo. O filme da diretora Lynne Ramsey (de Precisamos Falar Sobre o Kevin) já começa com uma série de imagens em close  - de mãos, de objetos sendo manipulados e limpos e que, inicialmente, apenas despertarão a nossa curiosidade. Uma trilha sonora cheia de notas caóticas, difusas (cortesia de Jonny Greenwood, do Radiohead). Um flashback esmaecido em que uma criança parece sofrer com algum tipo de violência - talvez de um algum parente opressor. Todo esse preâmbulo servirá para que se instale uma sensação de desconforto, quase uma espécie de claustrofobia por aquilo que ainda não sabemos, que não conhecemos, mas que, aos poucos, a cada nova sequência homeopaticamente descortinada, se tornará mais claro.

Muito menos interessado em escancarar gratuitamente em nossas caras a violência que parece o tempo todo estar nas entrelinhas, o roteiro opta, assim, por uma visão mais oblíqua - e nem por isso menos intensa - das ações do protagonista Joe (Joaquin Phoenix, em mais uma de suas impressionantes caracterizações). Joe é um veterano de guerra que, no submundo, se ocupa de resgatar adolescentes mantidas em cativeiros como escravas sexuais. Um "trabalho" duro, dificilmente satisfatório, que faz com que Joe trafegue pela cidade como uma espécie de fantasma passivo que convive com os seus demônios - e também com os de outras pessoas. Em certo dia, ele é solicitado para resgatar a filha de um senador que, de acordo com uma mensagem de texto, estaria presa em um bordel. A ação da errado quando o congressista se suicida e Joe se dá conta de que há algo a mais por trás desse simples "resgate".



Sim, há segredos envolvendo o passado de algumas das personagens que farão com que Joe seja confundido com um dos raptores, sendo a única saída possível a de fazer justiça com as próprias mãos. A trama é intrincada e desperta dúvidas a respeito da natureza das ações daqueles que vemos em cena. Joe teria sofrido uma emboscada? A rede de pedofilia envolveria pessoas próximas das famílias das vítimas? Qual o papel da polícia em meio a isso tudo? Enquanto tenta se livrar de qualquer tipo de acusação, Joe trafega furtivamente pela cidade deixando um rastro de sangue por onde passa. Sim, haverá perdas pelo caminho e ninguém estará livre da violência quando esta bater a porta, mas com o firme propósito de resgatar Nina (Ekaterina Samsonov) do que "quer que seja", Joe seguirá em sua dura jornada.

Como já está se tornando quase uma convenção nas interpretações de Phoenix, ele transforma Joe em uma figura ambígua que é, na mesma medida, um assassino e um justiceiro. E mesmo que a sua personalidade complexa não se sobressaia por seus atos - quase sempre contidos - o olhar triste e eventualmente "perdido" de quem convive com feridas que dificilmente serão curadas, transformam a personagem em alguém que parece sempre no limite. E se a composição de Phoenix é formidável por isso, também não ficam atrás a fotografia (quase sempre amarelada, quente, sufocante) e o desenho de produção que, de quebra, ainda faz uma brincadeira criativa com a cor verde (que, no fim das contas, sempre estará relacionada a esperança). Com ótima trilha sonora - a escolha de Angel Baby do grupo Rosie and The Originals para os momentos mais tensos, não poderia ser mais incômoda - a película ainda deixa o final em aberto, especialmente após reconhecer o fato de que, tanto o anti-herói Joe quanto a sua agora protegida Nina têm mais em comum do que imaginam.

Nota: 8,3

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Cine Baú - No Silêncio da Noite (In a Lonely Place)

De: Nicholas Ray. Com Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Martha Stewart e Frank Lovejoy. Suspense / Drama, EUA, 1950, 93 minutos.

Ainda que o diretor Nicholas Ray tenha se consagrado com o lançamento de Juventude Transviada (1955), é possível afirmar que o caminho para a construção do clássico da contracultura foi pavimentado com uma série de "pequenos grandes filmes", como é o caso do suspense No Silêncio da Noite (In a Lonely Place). Película com ares hitchcokianos - sentimento amplificado pela ocorrência de uma morte e de um protagonista cheio de ambiguidades que pode, ou não, ser o culpado - o filme conta a história do roteirista Dixon Steele (Humphrey Bogart), sujejto reconhecidamente intempestivo e de pavio curto que, em seu meio, não tem paciência sequer para ler um livro que, futuramente, poderá ser adaptado. Essa condição é um complicador para a sua carreira - e para  e o relacionamento com diretores e astros de Hollywood -, que está em declínio.

A oportunidade para uma volta por cima surge com a oferta de roteirizar um livro de sucesso, o que Dixon fará a contragosto, contando com o auxílio da garçonete Mildred Atkinson (Martha Stewart), que irá atá a casa do sujeito para contar a história com as suas palavras. Após uma noite breve de conversa e de encenação de diálogos, Martha sai da casa de Dixon, pega um táxi e... amanhece morta, estrangulada e jogada de dentro do carro em uma vala. O problema é que, dado o temperamento difícil do protagonista - que de quebra ainda tem um histórico de passagens pela polícia por brigas e por agressões a mulheres -, ele se tornará um dos principais suspeitos do crime, já que foi uma das últimas pessoas vistas por Mildred. A sua sorte será a existência de um inesperado álibi: a vizinha Laurel Gray (Gloria Grahame), que garantirá a polícia que Steele não está envolvido com o caso. Será?



Esse sentimento de "será que foi ele o criminoso?" será, inadvertidamente, uma das maiores diversões da película - algo parecido com o que sentimos ao assistir obras-primas como Suspeita (1941), do já citado Alfred Hitchcock. Após defender Dixon, Laurel se aproximará do vizinho, se tornando seu amante. Mas o comportamento imprevisível e violento do sujeito fará com que ela tenha dúvidas o tempo todo a respeito de sua inocência. E, para o espectador, assistir à personagem de Bogart (em inesquecível caracterização) explodindo de forma brutal e descontrolada após uma briga de trânsito, ou mesmo agredindo o seu empresário por não estar de acordo com uma "escolha" durante a produção do futuro filme, também deixará a pulga atrás da orelha. Sentimento que será amplificado na inesquecível cena em que Dixon, o investigador Nicolai (Frank Lovejoy) e a sua esposa Sylvia (Jeff Donell) reconstituem o crime, bem como os detalhes de como este pode ter acontecido.

[SPOILER ALERT] Mais do que saber se Dixon é ou não o culpado, um dos grandes trunfos da obra está na nossa percepção em relação aquilo que ele poderia ter sido, se as circunstâncias do roteiro não seguissem da forma como ocorrem. Em tempos em que ainda assistimos tão estarrecidos a casos revoltantes de agressões à mulheres - e isso que a Lei Maria da Penha está completando 10 anos - um filme como No Silêncio da Noite deveria se tornar filmografia básica para a compreensão de que, diante de qualquer tipo de violência ou de ameaça - física, psicológica ou moral - uma mulher SEMPRE deve procurar ajuda. Dixon não é o assassino, mas assim como o ex-namorado de Mildred, que é o verdadeiro criminoso, ele se comporta como um assassino potencial. No fim das contas, a cena e Laurel indo embora do apartamento de Dixie após uma ligação telefônica reveladora, será, definitivamente, o melhor desfecho possível para uma obra de grande impacto - e que mantém atual até os dias de hoje.


quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Lado B Classe A - Spiritualized (Ladies and Gentlemen We Are Floating In Space)

Difícil definir o sentimento que nos invade a cada audição do superclássico Ladies and Gentlemen We Are Floating In Space dos ingleses do Spiritualized mas, de forma geral, ele poderia ser resumido como uma possível entrada em uma igreja renascentista localizada no espaço sideral - por efeito de drogas ou não. Nada é óbvio na coleção de canções que arranja os 70 minutos do trabalho, que é permeado por uma série de emanações etéreas que, agregadas a uma psicodelia multicolorida, subversiva e juvenil, transforma o disco em um dos mais fascinantes lançados não apenas em 1997, mas naquela década (pra não dizer do milênio). E isso que 1997 foi o ano de Ok Computer, do Radiohead e de Urban Hymns, do The Verve, isso só pra citar dois discos importantes daquele ano. E tão roqueiros, heterogêneos, ambíguos e multifacetados quanto este.

O álbum já abre com a música-título - espécie de tour de force alienígena, amplificado por efeitos eletrônicos oníricos, que não faria feio na trilha sonora de algum filme de ficção científica dirigido por Terrence Mallick (bom, a canção faz parte do filme Vanilla Sky, façamos justiça). Nela, o vocal sussurrado e inviolavelmente discreto demais de Pierce esbanja sentimento ao afirmar que "tudo o que quer na vida é um pouco de amor, para se libertar da dor". Parece óbvio, parece simples e talvez até seja. Mas poucas vezes as dores passionais, o sentimento de isolamento, a ansiedade generalizada e o caos interior foram tão bem traduzidos. Come Together é um rockão setentista com direito a vocalzinho gospel no final - cortesia do London Gospel Choir que, ao lado de uma dúzia de músicos convidados integra o time responsável por dar vida ao trabalho. Já I Think I'm In Love - que finaliza a trinca inicial de canções - equilibra bem o ar interiorano de baladinha rock country de filme alternativo, com um piano, baixo e sopros bem pontuados e uma letra lisérgica sobre a paixão que alucina em meio a uma tarde de calor pestilento. Parece literatura beat em forma de música.



Até a insuperável Cop Shoot Cop - canção desalentadora que encerra o trabalho e que versa sobre um mundo individualista em que o que importa é viver a qualquer custo - o disco alternará caos e placidez, desordem e tranquilidade. All Of My Thoughts, por exemplo, começa como uma canção de ninar extraterrestre em que a voz lânguida e propositalmente "preguiçosa" do vocalista conduz os versos, que explodirão em uma balbúrdia trovejante e jazzística. É o exagero e a economia convivendo em harmonia e sendo fundamentais para o bem da canção. Stay With Me emula aquilo que o Blur tanto tentou fazer no final dos anos 90 - uma balada de amor sincero sobre querer estar perto a todo o custo (e que faz com que o ouvinte se identifique de imediato). Já Electricity, com aquele clima de boate flamejante talvez seja aquilo que mais poderia se aproximar de um hit - com direito a refrão (e guitarras) grudentas. Home Of The Brave, The Individual, Broken Heart e No God Only Religion, mantém a "régua" em alta (e também o clima ora místico, ora espacial, ora alucinógeno e SEMPRE muito provocativo e roqueiro). E há ainda Cool Waves, disparada a melhor faixa do disco.

Não bastasse ser um disco absolutamente inesquecível e importante do ponto de vista musical, Ladies and Gentlemen ainda se diferenciava por trabalhar com um conceito que apresentava a arte visual do registro como se este fosse uma bula - com indicações para o consumo de, no máximo, duas vezes ao dia (o que será muito difícil para quem ingressar pelas curvas surpreendentes e atmosféricas do álbum). Absolutamente viciante, o registro nos fará extrapolar a bula. Nos fará ter uma overdose que a persistência dos sintomas não será capaz de aplacar. O disco era apenas o terceiro do Spiritualized, que lançaria mais quatro trabalhos mais tarde - Let It Come Down (2001), Amazing Grace (2003), Songs In A&E (2008) e Sweet Heart Sweet Light (2012). Todos com qualidade superior. Todos com aquele clima espiritualizado, de variações roqueiras e de reflexões pautadas pelo caos interior. Mas nenhum deles como Ladies and Gentlemen. Pouco vendido na época - até mesmo esquisito para alguns - o trabalho se mantém até hoje como um dos pontos altos do mercado fonográfico dos anos 90. Recebeu uma rara nota 10 do Pitchfork. Foi disco do ano no New Musical Express. Aparece na lista de 1001 discos para ouvir antes de morrer naquele livro. E segue intocável nos corações dos fãs mais ardorosos - que já aguardam com as mãos para o céu (como se tocados por uma espécie elegíaca de deus musical) pelo novo disco da banda, de nome And Nothing Hurt, que chega às "lojas" no próximo dia 07 de setembro.



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Picanha em Série - Tábula Rasa (Tabula Rasa)

De: Jonas Govaerts e Kaat Beels. Com Veerle Baetens, Jeroen Percival, Gene Bervoets e Stijn Van Opstal. Suspense policial / Terror, Bélgica, 2017, 450 minutos.

Quem gosta de séries de mistério, com boas doses de suspense policial e com algumas (ótimas) reviravoltas não pode deixar de assistir a belga Tábula Rasa (Tabula Rasa). Tão discutido por filósofos das mais variadas correntes - de Aristóteles a John Locke -, o conceito de tábula rasa pode ser definido como "folha de papel em branco" (para Locke nascíamos sem conhecimento algum, sendo todo o processo do saber, aprendido através das experiências). Divagações a parte, de alguma forma, é possível afirmar que, metaforicamente, este é o caso da protagonista Mie (Veerle Baetens). Presa em um hospital psiquiátrico onde recebe tratamento para um caso de amnésia que faz com que ela não se lembre de eventos recentes, Mie, uma artista de renome no passado, é investigada por um certo inspetor Wolkers (Gene Bervoets), já que ela teria sido a última pessoa vista com Thomas De Geest (Jeroen Percival), um empregado de um centro de reciclagem.

Mie não se lembra de nada, mas precisa buscar de qualquer forma em sua memória por alguma pista que possa levar a solução do caso. Só que "buscar na memória" significa reconstruir um passado sombrio que envolve ainda um grave acidente automobilístico, que pode estar diretamente relacionado ao problema psiquiátrico. Parece "rocambolesco" e eventualmente complexo, mas a série é absolutamente didática e inegavelmente fácil de se compreender. Com idas e vindas no tempo, a trama retorna para três meses antes do desaparecimento de De Geest para mostrar a chegada de Mie, do marido Benoit (Stijn Van Opstal) e da filha Romy (Cécile Enthoven) a uma casa - aquele clichê da nova morada para curar feridas ainda abertas. Só que a presença de um misterioso guarda florestal em redor da casa, somado a uma série de eventos que flertam levemente com o sobrenatural, adicionarão um forte componente claustrofóbico a trama - reforçado pelo clima sufocante de cada cômodo -, levando a protagonista a duvidar da "realidade" em que vive.



A cada ida e vinda no tempo - as tramas correm paralelamente -, novas revelações vão sendo feitas, cabendo ao espectador montar o quebra-cabeças capaz de solucionar o caso (e as anotações feitas por Mie, com caneta esferográfica, também contribuirão nesse sentido). Com belíssimo desenho de produção, Tábula Rasa se utiliza ainda de uma série de elementos visuais para, metaforicamente, sugerir o sentimento que rege a busca da protagonista. Nesse sentido, a produção se torna quase como se fosse um devaneio delirante e fantasioso - e não são poucas as vezes em que Mie acorda de algum sonho surrealista e cheio de sentidos. Se a areia vermelha que escapa de seu alcance e insiste em aparecer pode representar as memórias que lhe fogem como o tempo em forma de areia se esvai em uma ampulheta, o uso quase ostensivo de roupas vermelhas por Romy pode significar muito mais do que uma mera escolha estilística por parte dos figurinistas.

Já os atores estão soberbos, com um sem fim de personagens secundários que merecem destaque - caso do piromaníaco Vronsky (Peter Van Den Begin) e da mãe da protagonista Rita (Hilde Van Mieghem) que, surpreendentemente, garante alguns alívios cômicos para a trama (especialmente por sua excêntrica relação com Mozes, o enfermeiro do marido). Há ainda uma misteriosa psiquiatra que responde pelo sobrenome de Mommaerts (Natali Broods) e que pode ser a chave para que o caso seja solucionado. Com apenas nove episódios de cerca de 50 minutos cada um, Tábula Rasa é uma série bem construída, rica em elementos e que provoca sustos nunca de maneira óbvia - e certamente será impossível qualquer espectador não ficar com os cabelos em pé, ao ouvir o equipamento eletrônico de uma porta pedindo, repetidamente, para que esta seja fechada.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Disco da Semana - Carne Doce (Tônus)

Aviso aos navegantes: o novo disco dos goianos do Carne Doce - intitulado Tônus - não é daqueles para escutar de forma desatenta enquanto realiza atividades domésticas ou descompromissadamente entre uma tarefa e outra no trabalho. Definitivamente não! O registro requer, pelo menos, um bom sistema de som ou, na ausência destes, um razoável fone de ouvidos para que, somente assim, se consiga perceber todas as nuances do registro. De espírito intimista, o terceiro trabalho - que dá sequência ao inaugural registro homônimo (2014) e ao inesquecível (e figurinha fácil entre os melhores do ano) Princesa (2016)- é rico em detalhes, em encaixes bem pensados, em curvas etéreas e nunca óbvias e em versos sussurrados que parecem se grudar a porção instrumental. É portanto um trabalho amplo e maduro que, sugere-se, não seja ouvido de forma displicente.

Por meio de entrevistas dadas a imprensa, a própria banda admite que, se comparado ao disco anterior, o novo trabalho olha mais "para dentro do que para fora", extraindo uma parte do compromisso político/ideológico/social - ainda que, jamais ignorando-o. "Não sou exatamente uma artista militante", afirmou a vocalista e compositora Salma Jô, em entrevista a Revista Isto É. "Parece paradoxal, mas acho que consigo emocionar mais quando olho para dentro, já que assim as pessoas se identificam", reforçou. Ainda assim, mesmo que num espectro menos amplo se comparado ao trabalho anterior - e a canções que viraram hinos feministas, como Falo e Cetapensâno - a banda, completada por João Victor Santana (guitarras e sintetizadores), Macloys Aquino (guitarra), Ricardo Machado (bateria) e Aderson Maia (baixo), segue erguendo bandeiras, como a autoexplicativa Golpista (que fecha o registro), deixa claro.



Mesmo "menos feminista" se comparado ao trabalho anterior, o disco parece manter a pegada do empoderamento (ô palavrinha que a gente não consegue um sinônimo decente) e da discussão sobre importância do respeito a igualdade entre gêneros, por meio de letras que falam de forma natural sobre a identidade feminina e sobre a sexualidade da mulher. Isto fica claro em letras como a de Amor Distrai (Durin) (E não apaga a luz / E nem fecha a porta / E vamo descobrir o que me excita / O que te excita / O que fazer pra ser mais foda), Tônus (Um corpo jovem / Aquele tônus / Aquele brilho / Um corpo pronto pro verão / É ofensivo ao coração) e Irmãs (Dos diários que eu roubei pra ler / Pra aprender as femininas invenções / Pra feminina ser como você / Blush nas bochechas e na zona T / Homem se cata pelo estômago / E se devora pelas beiradas). Aliás, a própria capa do disco, um trabalho visual estilizado feito de forma caseira, traz um tanto dessa ideia.

Com uma sonoridade capaz de nos fazer lembrar de coletivos nacionais como Boogarins e Terno Rei em uma mistura com estrangeiras como The War On Drugs, os goianos parecem a cada dia mais confiantes no que diz respeito a personalidade da banda, bem como os caminhos a serem seguidos - e apreendidos pelo público. Eventualmente melancólico, invariavelmente provocativo e de essência extremamente poética, o registro parece trafegar num limite entre a música alternativa mais íntima (com batidas, guitarras e sintetizadores econômicos) - como em Besta e Brincadeira -, com outros mais expansivos - como na já citada Tônus. "Esse é um sentimento que também reflete a nossa postura de não jogar com sentimentos óbvios, imediatos", analisa Aquino. Definitivamente, pra que tudo isso seja percebido da melhor maneira, somente sem distrações, com plena atenção aquilo que se faz - mais ou menos como o sexo, direto, cru e sem firulas sugerido pelo grupo em suas letras.

Nota: 8,3


terça-feira, 31 de julho de 2018

Novidades em DVD - Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

De Martin McDonagh. Com Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell e Peter Dinklage. Comédia dramática, EUA / Reino Unidos, 2017, 115 minutos.

Até a revelação da vitória de A Forma da Água na principal categoria do Oscar desse ano, muitos espectadores acreditavam que Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) poderia ser o grande campeão da noite. E, se fosse, também não seria nenhuma surpresa, já que se trata de um filmaço que, recém-lançado em DVD, merece uma revisão. A trama nos joga para uma pequena cidade no interior do Missouri, onde uma mãe que perdeu a filha brutalmente estuprada e assassinada está inconformada com a ineficácia da polícia local - que não tem uma pista sequer para a resolução do caso. A mãe em questão é Mildred Hayes (Frances McDormand, em papel que lhe rendeu a estatueta dourada na categoria Melhor Atriz), que decide chamar a atenção das autoridades locais alugando três outdoors dispostos em uma estrada de pouco uso, nos arredores da cidade.

Nos anúncios estarão três frases provocativas, remetidas diretamente ao delegado Willoughby (Woody Harrelson, que foi indicado ao Oscar pelo papel), ressaltando o fato de ninguém ainda ter sido preso, com o crime tendo ocorrido há sete meses. Com um roteiro absolutamente original - escrito pelo também diretor Martin McDonagh (Na Mira do Chefe) - a obra bebe na fonte dos filmes dos Irmãos Coen (Fargo) para contar uma história cheia de idas e vindas, com excelente trilha sonora, com ótimas surpresas e recheadas por comentários sociais bem-humorados, debochados e nada sutis. Mildred está definitivamente furiosa com o caso e não hesitará em esbravejar, confrontar autoridades e até agredir pessoas, se assim for necessário, para tentar dar alguma visibilidade para a questão. Com o apoio da mídia, transformará também a vida de Willoughby que, próximo da morte por conta de um câncer pancreático terminal, se esforçará para atender o desejo de uma mãe desesperada (e também arrependida por certos atos, como veremos).



É um embate grandioso e absolutamente prazeroso de se assistir. E, nesse contexto, um dos maiores méritos da película é não transformar os personagens em simples "caixinhas prontas", em que os conceitos de mal e bem estão já pré-estabelecidos. Mildred é a mãe desesperada, mas não é a mãe desesperada padrão. Em cenas de flashback assistimos a brigas com a filha que mais tarde seria morta - o que faz com que Três Anúncios escape da promoção do choro fácil como seu grande trunfo. Já o carismático Willoughby tampouco é um mau sujeito e parece genuinamente empenhado (ainda que isto ocorra em um ritmo mais "provinciano", na busca por alguma pista) no caso. Nesse sentido, não há lado bom ou ruim na história. Sim, alguns integrantes da polícia local são obviamente preconceituosos (e o personagem de Sam Rockwell, que orgulharia qualquer votante do Bolsonaro, não nos deixa nunca esquecer disso). Mas mesmo ele possui um arco dramático "redentor" após tantas derrotas na vida, tendo seu comportamento explicado, ao menos em partes, pela relação edipiana com a mãe - e com a dificuldade em cortar o "cordão umbilical".

Além das interpretações inesquecíveis - Rockwell, diga-se, faturou a estatueta na categoria Ator Coadjuvante pela sua caracterização complexa, furiosa e cheia de nuances -, das personagens e do roteiro intrincado, a obra ainda possui uma verdadeira coleção de sequências memoráveis. Como esquecer, por exemplo, da cena em que Mildred e Willoughby discutem, até o momento em que o detetive é acometido por um "problema" decorrente de sua doença? E a imperdível sequência em que Mildred confronta o padre que lhes vêm visitar com o objetivo de lhe demover da ideia da continuidade dos anúncios, lembrando-o a ele o sem fim de casos de pedofilia envolvendo a Igreja? A propósito disso, a película também passa raspando por diversos temas caros à modernidade, como violência contra a mulher, racismo e outros - e não é por acaso que a chegada de um novo delegado à cidade, no terço final, rende algumas das mais catárticas (e divertidas) cenas. Violento, sarcástico e levemente perturbador, o filme ainda deixa para o espectador a "decisão" sobre os acontecimentos futuros, após o início dos créditos finais.

Nota: 9,0



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Sorriso de Mona Lisa (Mona Lisa Smile)

De: Mike Newell. Com Julia Roberts, Kirsten Dunst, Julia Stiles, Maggie Gyllenhaal e Marcia Gay Harden. Comédia dramática / Romance, EUA, 2003, 117 minutos.

De Ao Mestre Com Carinho (1967) a Sociedade dos Poetas Mortos (1989) não foram poucos os filmes que tomaram por base a história de professores com idéias mais progressistas tendo de conviver com ambientes (e alunos) mais conservadores. No caso do belo O Sorriso de Mona Lisa (Mona Lisa Smile) a trama nos joga para o ano de 1953, onde Julia Roberts dá vida a professora Katharine Watson que, recém-graduada, consegue uma vaga para lecionar a disciplina de História da Arte no prestigiado colégio Wellesley. Do estranhamento inicial com o comportamento absolutamente padronizado das estudantes até a tentativa de modificar o modelo estabelecido - com a mulher destinada a casar e ter filhos - Katharine buscará superar a desconfiança inicial de todos (dos diretores da escola às alunas) para tentar fazer com que elas percebam que podem fazer mais do que apenas "esperar o marido com um sorriso no rosto e com a janta pronta às 17h".

Sim, é daquele tipo de filme que deixa as famílias de bem, conservadoras e votantes do Bolsonaro de cabelos em pé mas que, 15 anos depois de lançado, ainda segue tendo um debate mais do que necessário - especialmente em um cenário em que, pasmem, ainda parece não haver um pleno entendimento da importância das discussões sobre o respeito a igualdade de gêneros. Entre as alunas de Katharine há aquelas que estão felizes com o casamento que se aproxima - caso de Betty (Kirsten Dunst) - e há aquelas que estão em dúvidas a respeito do futuro, como é o caso de Joan (Julia Stiles) que, a despeito de amar o noivo Tommy (Topher Grace), parece sonhar secretamente com uma faculdade na área de Direito. Aliás, é um filme sobre um período da vida importante para qualquer pessoa, cheio de dúvidas e de inseguranças que, em 1953, parecem ainda maiores, especialmente para jovens na casa dos 16 ou 17 anos vivendo em meio a um contexto antiquado, anacrônico, retrógrado.



Ainda que erga claramente a sua "bandeira" o filme do diretor Mike Newel (Quatro Casamentos e Um Funeral) sempre o faz com elegância, jamais tentando esfregar na cara dos espectadores os seus objetivos ou jamais exigindo que aquilo que ele sugere seja lei. Por exemplo, em uma das mais tocantes sequências da película, Katharine tem uma longa discussão com Joan, que está disposta a largar a oportunidade de seguir para a faculdade em Yale para realizar o sonho de ser esposa e mãe. Ela garante que, SIM, aquele é o sonho dela, restando para Katharine (e também para o espectador que acompanha muito de perto a sua jornada) a compreensão da situação e o desejo de felicidades. Isto não impede o fato de Katharine tentar expôr, a muito custo, que ela pode ser as duas coisas se quiser - mãe e dona de casa e uma futura e bem-sucedida profissional da área jurídica. E esse é o grande esforço da obra!

Como não poderia deixar de ser, o elenco feminino está simplesmente maravilhoso - ele é completado pelas presenças magnéticas de Maggie Gyllenhaal (como uma jovem libertária), Ginnifer Goodwin (uma garota que sonha em encontrar o seu grande amor) e a "sumida" Marcia Gay Harden (que, interpretando uma amargurada e solitária professora, eleva a obra a um outro patamar). Mas o filme é todo de Julia Roberts que emociona em seu esforço, buscando o equilíbrio entre aquilo que prega e as idas e vindas relacionadas a sua vida pessoal - e a cena em que ela dá uma resposta "na lata" de Bill (Dominic West) sobre homens que "permitem" ou não que suas mulheres façam determinadas coisas, está entre as melhores. Como alegoria de um tempo em que as mulheres lutavam para conquistar mais direitos - mesmo o de estudar, em um ambiente tradicionalmente machista - O Sorriso de Monalisa, com a sua linda mistura de filme de arte (e da arte como metáfora para a desconstrução de idéias) com romance contemporâneo, segue sendo uma história não apenas atual, mas totalmente necessária.