quarta-feira, 29 de junho de 2022

Grandes Filmes Nacionais - Bye Bye Brasil

De: Cacá Diegues. Com José Wilker, Betty Faria, Fábio Jr., Zaira Zambelli e Príncipe Nabor. Drama, Brasil, 1979, 102 minutos.

A última cena de Bye Bye Brasil, já na conclusão dos créditos finais, exibe uma frase tão prosaica quanto profética: "ao povo brasileiro do Século 21". Assim, o filme de Cacá Diegues apresenta uma espécie de dedicatória à população do futuro - algo bastante significativo em uma obra que parece elaborar algum tipo de ode à cultura nacional (suas trupes mambembes, os artistas itinerantes, o regionalismo efervescente e a luta pela sobrevivência, especialmente em lugares áridos como o sertão nordestino), ao passo que olha com certo desalento para os avanços tecnológicos e para uma certa tendência ao consumo fácil dos tempos modernos. Nesse sentido, talvez não seja por acaso o fato de os telhados cobertos com "espinhas de peixe" - como Lorde Cigano (o protagonista vivido por um magnético José Wilker) chama as antenas de TV -, gerarem tanto impacto. Afinal de contas, com as novelas chegando aos recantos do País no final dos anos 70, quem ainda se interessará por espetáculos itinerantes à moda de um vaudeville tropical?

Ao lado de Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor), Cigano integra a caravana Rolidei - o nome aportuguesado também vem ao encontro dessa dicotomia que coloca a brasilidade do povo, dos índios, das florestas e das belezas naturais como um contraponto ao supostamente pretendido "País do futuro", moderno, utópico, evoluído (ou apenas colonizado, uma nação que agora "tem neve") - que leva às pequenas cidades bem longe das capitais um show de mágica, de danças e de outras atrações como o "homem mais forte do mundo". Em uma das primeiras paradas o jovem Ciço (Fábio Jr.) fica encantado com o grupo, juntando-se a eles e levando a tiracolo a esposa grávida Dasdô (Zaira Zambelli). Hábil sanfoneiro, Ciço acredita nessa quimera artística como uma possibilidade de deixar a seca e a falta de oportunidades para trás. Ao lado do trio principal, se apaixonará pela misteriosa Salomé, ao passo que terá de lidar com as investidas de Cigano, que se afeiçoa de Dasdô.



Mas muito mais do que um filme de amor, esse é um filme de ruptura. Uma obra que reflete sobre algo que fica para trás, pelo caminho, para que possamos olhar pra frente - e, sinceramente, é quase impossível não estabelecer um paralelo com o contexto político do Brasil, à época, que com cerca de 15 anos mergulhado em uma Ditadura Militar, começava aos poucos a olhar mais carinhosamente para frente, para a abertura que viria mais adiante. "Bye, bye Brasil / A última ficha caiu / Eu penso em vocês night'n day / Explica que tá tudo ok / Eu só ando dentro da Lei / Eu quero voltar podes crer / Eu vi um Brasil na TV / Peguei uma doença em Belém / Agora já tá tudo bem" canta Chico Buarque na canção que dá nome ao filme, como que estabelecendo esse contraponto, essas idas e vindas e até algum grau de incerteza sobre aquilo que está por vir. E que dependerá do "povo do Século 21" para que permaneça uma perspectiva racional em meio à forte influência estrangeira.

E assistir uma experiência tão brasileira em tempos tão assombrosos como os atuais - de destruição da Amazônia, de assassinato de povos indígenas, de supressão de direitos e de desmantelamento generalizado de tudo que diga respeito ao nosso patrimônio - é constatar como esse road movie felliniano de Diegues segue dolorosamente atual. Alternando momentos mais cômicos com outros melancólicos, o diretor converte o filme em uma espécie de homenagem ao povo, seu esforço diário na busca pela felicidade, pelo dinheiro, pela comida na mesa - pela Altamira que simbolizará os dias melhores. "Os europeus, especialmente os franceses, viram isso como um filme triste sobre o fim de um mundo. Para americanos e sul-americanos, por outro lado, era um filme esperançoso sobre um novo modo de vida, uma cultura que acabara de nascer" afirmou Diegues em entrevista ao site Teleráma, como que que avalizando justamente a complexidade de interpretações possíveis para obra que, mais tarde, se tornaria a 19ª melhor da história para os votantes da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Tá disponível no Mubi e vale resgatar.


terça-feira, 28 de junho de 2022

Novidades em Streaming - A Colmeia (Zgjoi)

De: Blerta Basholli. Com Yllka Gashi, Adriana Matoshi e Adam Karaga. Drama, Kosovo / Macedônia / Suiça, 2021, 84 minutos.

A Colmeia (Zgjoi) é mais um daqueles filmes que tem a guerra como pano de fundo, mas que não é sobre quem está (ou esteve) no combate e sim a respeito de quem fica. Mais especificamente sobre quem fica enquanto, desesperadamente, aguarda alguma notícia daqueles que foram, ao passo que tenta juntar os cacos para tocar a vida. A protagonista aqui é Fahrije (Yllka Gashi), uma apicultora de uma aldeia do Kosovo - País que foi bombardeado pela Sérvia em 1999, deixando dezenas de mortos e outros tantos feridos -, que convive ao mesmo tempo com a incerteza sobre o paradeiro de seu marido, que pode ter morrido no conflito, e com necessidade urgente de sustentar sua família, composta por dois filhos e o sogro cadeirante. A pequena renda vem da comercialização de mel com o reforço orçamentário podendo surgir a partir de uma ação cooperativa com outras mulheres que, juntas, passam a produzir uma espécie de antepasto de pimentão (conhecido como ajvar).

Só que para a comunidade local existe um problema nessa "independência" toda: onde já se viu, afinal, mulheres agirem de forma autônoma, tomando decisões, participando do mercado de trabalho, se agrupando de forma associativa, negociando, dirigindo, interagindo, num processo autossuficiente que deixa a vida de casada (agora viúva, vamos combinar) para trás? Como assim, em uma sociedade tão patriarcal, tão pautada pelas decisões de homens - e a mesmo tempo tão conservadora, tão misógina -, as mulheres poderiam ter esse grau de emancipação? Nesse sentido, não bastasse o sofrimento decorrente da falta de notícias sobre o paradeiro de seu marido, Fahrije e as demais mulheres ainda precisam lidar com a hostilidade dos moradores da região, insatisfeitos com esse comportamento tão livre. Os idosos da aldeia, mesmo outras mulheres, para estes o lugar delas é cuidando de casa, da família, em processo de apagamento e abnegação. E não participando da vida em sociedade.



De alguma forma, mais uma vez pode-se afirmar que esta é uma experiência sobre a importância da sororidade - e do apoio entre si, em um contexto tão machista. Permeado por simbolismos - a estrutura de uma colmeia, suas abelhas persistentemente organizadas e voluntariosas chega a ser quase óbvia -, o filme é sutil na abordagem do incômodo provocado por mulheres que apenas buscavam se consolar, ao mesmo tempo em que reuniam algum tipo de força para seguir em frente. Um bom exemplo desse diálogo com o espectador a respeito da importância dos temas que discute, envolve uma sequência em que o grupo está reunido e, em meio ao trabalho, se anima para uma espécie de dança coletiva, que dá conta da conexão e do senso de propósito delas. E isto justamente após o grupo ter sofrido um duro ataque - com a destruição de parte da produção na sede da associação improvisada.

Enviado do Kosovo para a edição do Oscar desse ano - chegou a ficar na pré-lista de 15 produções, não se classificando para a final - e premiado em Sundance, o filme, baseado em fatos reais, ainda evidencia as violências cotidianas, que emergem das frestas até mesmo de onde talvez não se esperasse (como no caso da tentativa de estupro com que Fahrije precisa lidar e que envolve o seu fornecedor de pimentões). Trata-se por fim de uma experiência dura, resignada, silenciosa, quase estoica em alguns instantes, que analisa o absurdo do comportamento reacionário, enquanto gruda a câmera em suas protagonistas - mulheres fortes, persistentes e que apelam a uma rebeldia sem qualquer tipo de belicismo e que vai, aos poucos, servindo para cavar espaços. É bastante tocante. E vale ser visto. Tá disponível na HBO Max.

Nota: 8,5


Pitaquinho Musical - Johnny Hooker (ØRGIA)

Se divertir, mas sem perder a capacidade de indignação. Dançar e refletir. Sentir ternura, amar, mas sem abandonar as questões que incomodam. É dessa dualidade que emerge um dos grandes discos nacionais do ano - no caso o maravilhoso ØRGIA, do Johnny Hooker. Em entrevista concedida ao UOL ainda em 2021, o artista afirmou que o Brasil precisava voltar a beijar na boca. "Voltar a ser feliz, ter desejo, se apaixonar, sofrer por amor. Voltar a viver, é isso. A minha música traz isso", resumiu. Pois essa espécie de expiação pedida pelo cantor, parece combinar ainda mais com esse 2022 tão duro, tão difícil, tão áspero - o que talvez explique a facilidade com que abrimos um largo sorriso diante de pequenas joias, como, Amante de Aluguel, Larga Esse Boy, Nos Braços de Um Estranho e Nhac!


Misturando estilo variados que vão do tecnobrega, passando pelo samba, até chegar ao pop alternativo, à música eletrônica e até ao sertanejo universitário, Hooker converte este terceiro registro em uma celebração à vida, que se apoia na tríade noite, sexo e política. Exemplo central desse expediente está na sinuosa CUBA, que joga o ouvinte para uma espécie de reggaetown improvisado e lânguido, enquanto o refrão pegajoso faz um convite que funciona tanto como como carta de amor, quanto como resposta ao ávido bolsominion que deseja enviar qualquer um que não apoie o seu projeto de presidente à ilha da América Central (Que só de te ver / Eu penso em largar tudo e fugir com você / Pra Cuba / Completamente, totalmente na tua). Ao cabo, é um disco debochado, cheio de calor humano, e que nos faz lembrar de que, em meio ao caos, a arte pode nos divertir e resistir em igual medida.

Nota: 9,0


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Novidades em Streaming - Cha Cha Real Smooth: O Próximo Passo (Cha Cha Real Smooth)

De: Cooper Raiff. Com Cooper Raiff, Dakota Johnson, Vanessa Burghardt e Leslie Mann. Comédia / Drama, EUA, 2022, 107 minutos.

Poucas vezes um filme foi tão franco na abordagem do amadurecimento como um processo eventualmente doloroso, como no caso de Cha Cha Real Smooth: O Próximo Passo (Cha Cha Real Smooth) - pequena joia do cinema alternativo, que está disponível na plataforma da Apple TV. Quantas vezes, afinal, nos equivocamos em nossos julgamentos? Em quantos momentos não achávamos que parecia uma coisa, mas era outra? Quantas frustrações, quanta "cara batendo na parede", paixões não correspondidas, choros solitários, tentativas e erros. "Amadurecer não é fácil" afirma o protagonista Andrew (Cooper Raiff, que também dirige) enquanto comenta com sua mãe Lisa (Leslie Mann) sobre a sua namorada que está em um intercâmbio na Espanha e, simplesmente, apareceu DO NADA em fotos com um outro sujeito. Sim, em tempos de amores líquidos - esse conceito quase batido - e de completa ausência de responsabilidade afetiva não parece haver muito tempo para remoer sofrimentos. A vida segue. Tem que continuar. Aliás, vai continuar.

O que não significa que as lágrimas não sejam, com justiça, derramadas. Andrew é, afinal, um menino doce que, ainda no começo da história, sofre o seu primeiro revés amoroso: apaixonado por uma mulher muito mais velha (ele é apenas um garoto de cerca de 12 anos) recebe, naturalmente, uma negativa. Um salto no tempo faz com que sejamos apresentados ao Andrew agora adulto - esse mesmo cara que assiste sem ter muito o que fazer a namorada ir para Barcelona, ao passo que tenta tocar a vida em um subemprego em uma lanchonete, estilo McDonalds, após formado. A sorte muda um pouquinho para ele quando, de forma meio inesperada, ele se torna uma espécie de animador motivacional de festas de Bar Mitzvah na região. O que ocorre após ele tratar muito bem Lola (Vanessa Burghardt), filha autista de Domino (Dakota Johnson), uma das convidadas do evento. Aliás, dali, brota uma bela amizade entre Andrew, Lola e Domino. E que funcionará como uma espécie de fio condutor da trama.



Em linhas gerais a obra faz com que acompanhemos, nos olhares afetuosos de Andrew e em seus sorrisos tímidos de canto de boca, aquela etapa de nossas vidas que a gente não sabe muito bem o que vai ser do futuro. Somos adultos? Ou ainda adolescentes? O emprego modesto pouco ajuda. Há um excesso de inexperiência no todo. Que é compensando com muita vontade. Evidentemente não demorará para que Andrew sinta algo a mais por Domino - a sua relação com Lola se desenrola com naturalidade. Mas a mulher não apenas possui namorado, como está noiva - o casamento será em breve, com o advogado bem sucedido Joseph (Raúl Castillo), um hispano-americano que passa mais tempo em Chicago do que em casa. Isso poderia representar uma oportunidade? Poderia. Mas a equação que forma os relacionamentos - ou os possíveis relacionamentos - é complexa. São muitas as variáveis. E nem sempre seremos a pessoa certa naquele momento, que pode sr apenas o errado.

Com uma verdadeira coleção de grandes diálogos - há um sobre depressão e outro sobre almas gêmeas que são verdadeiras joias -, a obra é de uma honestidade comovente. Sim, porque a despeito do que ocorre muitas vezes em filmes "românticos", ou mesmo em comédias bobinhas, é que no final tudo parece dar certo, da forma mais plastificada possível. Só que aqui, as coisas não dão tão certo. Mas isso não significa que há algo errado. Talvez não fosse o momento, a hora, o instante. Mesmo a aparentemente conturbada (e complexa) relação com Lisa e seu padrasto Greg (Brad Garrett) é cheia de possibilidades, de idas e vindas, de trocas, de brigas, de afetos. Família, né, todos têm a sua. Ao cabo, trata-se de uma experiência que faz com que um rito de passagem juvenil que poderia ser apenas banal, ganhe outras camadas. Até surpreenda em alguns instantes, ao subverter expectativas e estereótipos. O prêmio da audiência no Festival de Sundance pode ser um indicativo do quanto a obra caiu nas graças do público. Vale aguardar pra ver se há potencial pra mais.

Nota: 8,5


sexta-feira, 24 de junho de 2022

Novidades em Streaming - Jerry e Marge Tiram a Sorte Grande (Jerry and Marge Go Large)

De: David Frankel. Com Bryan Cranston, Annette Bening, Rainn Wilson, Anna Campe Jake McDorman. Comédia / Drama, EUA, 2022, 96 minutos.

Um filme com uma história simpática, um elenco cheio de carisma e uma mensagem ok sobre a importância da coletividade. Assim é Jerry e Marge Tiram a Sorte Grande (Jerry and Marge Go Large), obra dirigida por David Frankel - de O Diabo Veste Prada (2006) - que está disponível no catálogo da Paramount+. Na trama, inspirada en eventos reais, acompanhamos o casal Jerry (Bryan Cranston, nosso eterno Walter White de Breaking Bad) e Marge (Annette Bening), que moram em uma daquelas cidadezinhas do interior do Michigan, em que uma boa parte dos habitantes trabalha na indústria local (no caso aqui, uma fábrica de cereais). Às portas da aposentadoria, Jerry parece ser invadido por uma certa melancolia após mais de 40 anos dedicados ao seu ofício - muitos deles como gerente de operações, algo que tem a ver com a sua aptidão para a matemática. Na primeira noite afastado de suas atividades, recebe da esposa e dos filhos um barco para que possa pescar - uma espécie de símbolo dos dias mais folgados que virão. Mas, e o que mais?

Na expressão abatida de Jerry parece emergir um sentimento de tristeza. É isso que reserva a vida? Pescar até o fim dos dias? Marge tenta animá-lo com frases sobre agora serem "apenas eles" e sobre a oportunidade de descobrir novos propósitos. Mas por onde? Quando mais novo, Jerry costumava entreter o filho Ben (Jake McDorman) em um exercício sobre tentar encontrar moedas de valor (raras) em meio a outras convencionais. O tédio daquela época virou apenas distância nos dias de hoje - e não deixam de ser sutilmente comoventes as sequências em que Jerry recorda instantes da adolescência do rapaz, quando ele tentava pedir algum suporte emocional para o pai, que se via absorto em outros interesses. Bom, não demora para que o protagonista se sinta revigorado ao conferir os números da loteria estadual, fazer alguns cálculos de probabilidade, e descobrir a possível existência de uma brecha que lhe permite ter ganhos praticamente ilimitados.

Sim, o filme basicamente é isso: sobre um casal de sessenta e tantos anos se sentindo reanimado para a vida, vendo seu próprio relacionamento ser oxigenado pela oportunidade de, a cada punhado de semanas, burlar o sistema dos jogos, ampliando seus rendimentos. Mas se engana quem pensa que essa é apenas uma comédia bobinha sobre como a ganância pode ser uma desgraça. Sim, esse componente até aparece lá pelas tantas, a partir do momento em que um grupo "rival" de astutos e ambiciosos jovens estudantes de Harvard também descobrirem a falha - o que renderá uma ótima coleção de piadas sobre o abismo geracional entre os antagonistas. Mas o principal ponto aqui é o que Jerry e Marge fazem com o dinheiro, reestruturando empreendimentos, apoiando uns aos outros financeiramente e distribuindo as riquezas entre toda a comunidade (que se vê estimulada até a fazer um grande festival de jazz local, como uma espécie de símbolo dessa união improvisada).

É claro que nem tudo dará tão certinho assim. Há, por exemplo, uma jornalista empenhada em trazer o assunto à tona - e a denúncia da fraude poderá representar um fim para o esquema. E existe também a própria entidade que comanda o sistema de loterias do Estado, que poderia complicar tudo. Só que tudo flui de forma muito leve, agradável, com o elenco claramente se divertindo em meio a inesperados comentários sociais sobre assuntos como sexo na terceira idade, provincianismo dos moradores de pequenas cidades, tédio na aposentadoria, e tentativas aleatórias de algum tipo de sentimentalismo mais acolhedor que, sinceramente, em tempos tão brutos, tão duros como os que vivemos, também não faz mal. A propósito dos atores, Rainn Wilson (o Dwight de The Office) está naturalmente engraçado como o "dono da bodega" que ajuda a dupla em suas tramoias, ao passo que Anna Camp e Larry Wilmore - que é o contador e também o agente de viagens local - cumprem seus papeis a contento. Jerry e Marge Tiram a Sorte Grande é simples, direto, sem grandes conflitos e, talvez por isso, meio esquecível. Mas pra uma noite de sexta-feira em que se queira apenas relaxar, pode ser uma boa pedida.

Nota: 7.0


quinta-feira, 23 de junho de 2022

Novidades em Streaming - Pleasure

De: Ninja Thyberg. Com Sofia Kappel, Alice Gray e Axel Braun. Drama, Suécia / Holanda / França, 2021, 109 minutos.

Um filme sobre os bastidores da indústria dos filmes adultos - mas que não dá nenhum tesão. Assim é Pleasure, obra de estreia da diretora sueca Ninja Thyberg, que expande as ideias que a própria já havia apresentado em um curta-metragem de 2013. Na trama acompanhamos Linnéa (a ótima Sofia Kappel), uma jovem de apenas 19 anos que chega à Los Angeles disposta a ser uma grande estrela pornô. Assumindo o pseudônimo de Bella Cherry ela se mostra inicialmente à vontade diante de produtores e astros do setor, se apresentando como alguém bastante segura de seus objetivos - a despeito da eventual timidez das primeiras tomadas. Mas, para se destacar, será necessário fazer mais do que o simples beabá - ou o "papai e mamãe": o sucesso, ao cabo, terá um custo. Um custo psicológico, físico, que a fará mergulhar cada vez mais fundo em um universo muitas vezes misógino, machista, cheio de preconceitos.

Nesse sentido, é possível afirmar que a experiência pode ser bastante incômoda para alguns paladares. Afinal, se por um lado, não deixa de ser curioso saber do que ocorre com a câmera ainda desligada - há um caráter quase documental nessa preparação, os diálogos entre os atores, os movimentos, as tentativas de deixar todos à vontade -, por outros há uma espécie de violência que vai escorrendo pelos cantos, nas entrelinhas, o que sufoca as atrizes que não se mostram capazes de se adequar a um cinema de fetiches bizarros, excêntricos, exagerados (e não quero aqui parecer moralista já que o problema não está no fetiche em si, mas sim no caminho percorrido pelas jovens atrizes para que estes sejam contemplados). Um bom exemplo disso está na excruciante sequência em que Bella aceita um trabalho desagradável e violento, com dois atores que a humilham, obrigando-a a submissão (pra não dizer estupro).



É doloroso, eventualmente desagradável, mas também serve para evidenciar que, por trás de uma atriz que faz caras e bocas de prazer em meio a um sexo mecânico, há toda uma indústria movida por homens brancos e de meia idade - que detém o dinheiro - e que destituem as suas estrelas do direito ao próprio corpo (diferentemente do suposto empoderamento que o universo poderia sugerir). Lá pelas tantas, Bella percebe que terá mais sucesso no ramo se investir em fetiches mais extravagantes - de bondage à dupla penetração, entre outros. E é aí que a coisa complica um tanto. Sim, estamos falando de um segmento de trabalho estigmatizado, mas o que o filme busca nos dizer o tempo todo parece ser sobre o quanto essas meninas precisam ser fortes para embarcar nessa jornada. E como amadurecer não vai ser fácil sem alguma boa dose de presença de espírito, inteligência e autenticidade.

E Sofia Kappel traz tudo isso, misturando olhares vulneráveis e até desesperados com um comportamento que sugere força e persistência em igual medida. Acompanhada de atores e atrizes que realmente integram esse universo, o filme amplia o caráter realista, quase naturalista, como se a câmera que vai pra lá e pra cá funcionasse como um observador, uma espécie de voyeur em meio a homens circulando com seus pênis eretos e a mulheres em trajes fetichistas. Todo esse contexto dá profundidade aquilo que acompanhamos, enquanto temas como sororidade, papel da mulher, julgamentos morais, estruturas de poder, consentimento, tabus sexuais e outros emergem em cena. É um trabalho complexo, instigante e realista, cheio de camadas, mas também simples, direto. E que nos faz lembrar o tempo todo de que, para cada busca que fazemos no xvideos, há um sem fim de pessoas trabalhando no sentido de atender esses anseios. Sim, trabalhando. Parece estranho admitir isso. Mas é a verdade.

Nota: 8,0


terça-feira, 21 de junho de 2022

Novidades em Streaming - Fruto da Memória (Mila)

De: Christos Nikou. Com Aris Servetalis e Sofia Georgovassili. Drama / Comédia, Grécia / Eslovênia / Polônia, 2021, 91 minutos.

A premissa de Fruto da Memória (Mila) - que está disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - é curiosa e atual: em meio a uma espécie de pandemia mundial que causa amnésia repentina na população, uma empresa de tecnologia desenvolve um sistema que visa a construir novas memórias em seus pacientes. Nesse contexto acompanhamos o taciturno Aris (Aris Servetalis), um homem de meia idade que se locomove pela cidade de forma silenciosa, se alimentando persistentemente de maçãs. Enquanto o mundo padece desse novo mal, que faz com que as pessoas abandonem seus carros em meio a rua sem saber exatamente o que estão fazendo, Aris vai mantendo uma rotina melancólica, com o espectador tendo poucas informações a seu respeito. Um certo dia, em uma viagem de ônibus, Aris vai até o final da linha sendo despertado de um sono profundo pelo motorista: ele não lembra mais de nada. Não há um parente que lhe reivindique. Um irmão, filhos, os pais. 

O protagonista resolve então ir até a clínica com a intenção de entrar no programa de recuperação. No local, ele recebe instruções em fitas cassete - aliás, dado o desenho de produção e a ausência de equipamentos mais modernos, a trama parece se situar nos anos 80 -, estimulando-o para atividades prosaicas como andar de bicicleta, ir ao cinema, a algum bar ou festa, namorar, transar. A comunicação é bastante básica, devendo o sujeito registrar (por meio de fotografias feitas em uma polaroid) todas as metas que ele alcança na busca de ser esse "novo sujeito". A estranheza é meio geral, tudo parece meio robótico, frio. Tal qual a existência em tempos atuais - onde a formação de novas memórias se dá por meio de selfies egocêntricas de tudo e de todos, mesmo das ações mais estúpidas -, a vida com esse componente digital parece meio desprovida de um significado mais profundo. De um sentido qualquer.

E talvez aí esteja a chave para que compreendamos o que pretende o diretor Christos Nikou com essa obra: ao olhar para o passado, ele analisa o vazio do presente, a mesquinharia dos atos, dos gestos. É claro que não é assim tão simples, já que claramente há mais camadas por baixo: Aris guarda alguns segredos, entre eles o que envolve uma dolorosa perda. E ter de lidar com o luto e a necessidade de desapegar e de seguir em frente, como se nada houvesse acontecido, pode ter a ver com a forma como a narrativa é conduzida. E até mesmo de como o protagonista se comporta. Há uma cena bastante expositiva em que Aris está comprando as suas maçãs, quando é alertado pelo dono do mercado de que "é muito bom comer maçãs porque elas fazem bem a memória". Imediatamente o homem substitui as maçãs por laranjas, afinal, quais memórias ele efetivamente quer guardar? Ou suprimir? O que deve ficar para trás ou ressurgir?

É um universo complexo, que emula desde o cinema alegórico de Charlie Kaufman, até clássicos sobre "novos mundos" como O Show de Truman (1998). Tendo recebido ótimas críticas no Festival de Veneza, o filme foi o selecionado da Grécia na mais recente edição do Oscar - e, ainda que não tenha chegado entre os finalistas, fez relativo burburinho na temporada. Ainda assim, talvez não seja uma obra para todos os paladares, já que se trata de uma experiência cheia de sutilezas, de ambiguidades e de informações que estão por baixo da fachada de normalidade que parece evocar de Aris. Em entrevistas de divulgação Nikou mencionou a facilidade com que as pessoas esquecem facilmente as coisas que lhes causam dor. "E isso que somos apenas uma coleção de memórias, de coisas que não esquecemos". Freud teria dito que a "cura não vem do esquecer. Vem do lembrar sem sentir dor". A frase, de alguma forma, resume aquilo que acompanhamos em Fruto da Memória. E o simples pensar sobre tudo isso, faz a jornada valer a pena.

Nota: 8,5

 

Pitaquinho Musical - Tim Bernardes (Mil Coisas Invisíveis)

Vamos combinar que, se depender da reação dos fãs do trabalho do Tim Bernardes, é possível afirmar que o compositor talvez tenha inaugurado algum tipo de subvertente musical, talvez uma espécie de "indie filosófico", que mescla sofrimento, afeto e otimismo em iguais medidas. Mas esse combo de sensações é muito menos turbulento e muito mais resignado - onde se reconhecem as dores, os lutos e as aflições da alma, mas também se reaprende a amadurecer, a prosseguir, a encontrar motivo para algum tipo de contemplação diante do mundo. Nem que seja uma reação a algo mais prosaico. Nesse sentido, a mescla de melodias homogêneas, econômicas e pontualmente ensolaradas não gerariam nenhum tipo de estranhamento se este segundo trabalho solo do vocalista d'O Terno se chamasse Recomeçar 2 - e não Mil Coisas Invisíveis

Em entrevista ao site Papel Pop, o artista afirmou que desde <atrás/além> - último projeto com O Terno - se permitiu "fazer algumas canções com letras mais longas, em que eu ia desabafando e discorrendo sobre coisas de maneira meio ensaística, meio poética, meio objetiva, meio abstrata". Assim, Mil Coisas Invisíveis se apresenta como mais um daqueles trabalhos que requerem uma apreciação mais calma, onde se possa assimilar detalhes, encaixes, referências e orquestrações que se desdobram entre a economia e a expansão, a verborragia e a sutileza. Um bom exemplo desse expediente pode ser observado na graciosa e primaveril A Balada de Tim Bernardes, que alterna versos sofisticados (Quanto mais o tempo passa / Mais eu acho graça nessa enganação / Chamada virar adulto / O tempo é todo junto, sem separação), com um refrão amplamente pegajoso. Mas há mais, muito mais. Basta explorar.