terça-feira, 21 de maio de 2024

Novidades em Streaming - Puan

De: María Alché e Benjamín Naishtat. Com Marcelo Subiotto, Leonardo Sbaraglia e Alejandra Flechner. Comédia / Drama, Argentina / Brasil / França / Itália / Alemanha, 2023, 107 minutos.

Vamos combinar que o timing de um filme como o argentino Puan, que está disponível na Amazon, não poderia ser melhor. Com os nossos hermanos recém mergulhados no governo de Javier Milei, a gente já sabe exatamente onde o calo vai apertar - especialmente pela disposição da extrema direita em cortar gastos (ou massacrar mesmo) em setores como o da educação. Aqui, esse cenário mais amplo de desmonte parece rondar o corpo docente de uma Faculdade de Filosofia de Buenos Aires - há protestos marcados e os cartazes com palavras de ordem evidenciam o clima turbulento. E, nesse contexto, talvez não seja nem tão simbólica assim a morte de um professor veterano, ainda na primeira sequência da produção dirigida por María Alché e Benjamín Naishtat, este último responsável pelo ótimo Vermelho Sol (2019). Ocorrência que será o ponto de partida de uma disputa interna bastante particular entre os professores Marcelo Pena (Marcelo Subiotto) e Rafael Sujarchuk (Leonardo Sbaraglia).

Ocorre que Marcelo, por mais competente que seja - afinal dá pra perceber que ele consegue capturar a atenção de seus alunos nas aulas -, parece ter um carisma meio negativo. Em alguma medida ele é um sujeito mais introspectivo, tímido, tanto que, por mais que fosse o braço direito do falecido professor Caselli, se mostra incapaz de dizer uma ou outra palavra na solenidade de despedida e de homenagens ao docente. Já Rafael é o completo oposto: confiante, charmoso e divertido, é daqueles que preenche o espaço com a sua presença. No recital à Caselli menciona Kant em um discurso empolado, presunçoso. Cativa os colegas e os pares. Arranca suspiros das mulheres. Ainda mais quando estas descobrem que o seu retorno à Argentina pode ter a ver com o fato de ele estar namorando a sexy e famosa (e muito mais jovem do que ele) atriz Vera Mota (Lali Espósito). É um páreo duro para Marcelo que, além de tudo, é um azarado da maior espécie, como comprova a cena que envolve, digamos, um bebê.




Nesse sentido, a produção consegue ser divertida e dramática ao examinar a complexidade da conjuntura política da Argentina, a partir de um microcosmo de disputas internas que, vá lá, podem representar até algum tipo de alegoria de colonizador e colonizado (já que Rafael se impõe como o sujeito europeu que retorna às origens, à província, para tomar aquilo que pensa ser seu por mérito), mas que provavelmente tem também a ver com crises existenciais individuais, em meio a questões mais coletivas. Evidentemente que os temas mais macro, ali adiante, irão se sobrepor, especialmente quando o governo cancela o repasse de recursos para as universidades estatais e os professores precisam se unir para que o ensino não fique ainda mais prejudicado - sendo uma das porta-vozes a ativista Vicky (Mara Bestelli), a esposa de Marcelo. De forma lateralizada, a dupla de realizadores ainda joga luz sobre a precarização do mercado de trabalho como um todo, uma vez que Marcelo se ocupa também como professor particular de filosofia para uma idosa.

Pontuado por citações diversas de filósofos como Platão, Hobbes, Rousseau, Sócrates, Kant e outros, o filme aborda de forma jocosa o eventual egocentrismo que circunda o ambiente acadêmico para evidenciar como brigas internas podem ser apenas mesquinhas quando o poder de decisão está nas mãos de um sistema que não favorece o ensino, a arte, a cultura, o conhecimento. Ainda mais quando o assunto é a Filosofia, a Sociologia e outras ciências humanas, que são muitas vezes as primeiras a serem negligenciadas (ou sumamente suprimidas) em um mundo produtivista, que pretende que as pessoas pensem menos sobre aquilo que fazem - e que simplesmente façam mais. Que trabalhem, recebam seus salários e convivam sob o signo da alienação Ao cabo, trata-se de uma obra pequena, mas que tem estofo. E que se fortalece justamente em instantes quase prosaicos, como aquele em que o grupo de professores comenta sobre estarem com seus salários atrasados. Na hora que o bicho pega pro lado precarizado, é difícil não se identificar.

Nota: 8,0


segunda-feira, 20 de maio de 2024

Novidades em Streaming - Não Espere Muito do Fim do Mundo (Nu Aștepta Prea Mult de la Sfârșitul Lumii)

De: Radu Jude. Com Ilinca Manolache, Nina Hoss e Dorina Lazar. Comédia / Drama, Romênia / França / Croácia / Luxemburgo, 2023, 164 minutos.

Vamos combinar que só o título do novo filme de Radu Jude já é um atrativo à parte. E se Não Espere Muito do Fim do Mundo (Nu Aștepta Prea Mult de la Sfârșitul Lumii) não clareia totalmente a ideia por trás da obra, no mínimo prepara, em alguma medida, o estado de espírito do espectador. Ainda mais pra quem já está familiarizado com a obra de Jude que, com seu irresistível cinismo e uma propensão ao deboche, costuma usar sua arte para uma severa crítica à contemporaneidade - seja na incapacidade institucional, nos equívocos do capitalismo tardio, na incomunicabilidade humana em um período em que nunca estivemos tão conectados, ou mesmo da hipocrisia da sociedade e, especialmente, de seu conservadorismo atroz. Ao cabo é um conjunto que se soma a outras questões atuais e que vão desde as guerras e a pandemia, passando pelo avanço da extrema direita, da xenofobia e outros preconceitos. Foi assim com o espetacular Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021) - um dos nossos preferidos na lista daquele ano. É assim com este, que foi o enviado da Romênia para o Oscar de 2024 e que está disponível na Mubi.

Na trama, acompanhamos a rotina conturbada da jovem Angela (Ilinca Manolache). Empregada de uma produtora de vídeo, ela é uma assistente de produção que está encarregada de fazer uma série de entrevistas sobre segurança do trabalho para uma multinacional estrangeira. De lá para cá ela anda de carro em uma frenética Bucareste, a contrastante capital romena com sua arquitetura decadente e atrasada, que se mescla com uma modernidade invasiva, intrusiva - de carros, de prédios, de estradas e que juntos atraem o caos, a desordem, os gritos, o tumulto (exterior e interior). Em uma jornada excruciante, filmada em um preto e branco que parece apenas evidenciar o senso de declínio generalizado, Angela trabalha e trabalha - 15, 16 horas por dia. Não tem tempo pra nada, escapa por pouco de acidentes, berra no trânsito com sujeitos brigões, machistas, misóginos. É 2024 e, sem terapia em dia, talvez fosse impossível simplesmente viver - e é isso que Jude parece querer nos mostrar o tempo todo. O mundo caminha. Mas pra onde exatamente?


 

Nas entrevistas de Angela, pessoas fraturadas, machucadas - literalmente. Empregados que sofreram acidentes de trabalho e que agora estão incapacitados de exercer suas atividades, desassistidos, alguns até em cadeiras de rodas. Sob a desculpa de uma pequena quantia de dinheiro ofertada, a multinacional pretende fortalecer a campanha interna de combate a esses incidentes laborais. Ao passo em que se esforça para evidenciar certa responsabilidade com seus trabalhadores - o que talvez faça a empresa se livrar de pesadas sanções jurídicas (se é que as sanções jurídicas da Romênia são pesadas). Enquanto circula de um local a outro, Angela masca chicletes incansavelmente, corta as pistas, ouve música eletrônica pós-moderna, como forma de relaxar. Por vezes o filme parece nos conduzir a algum videoclipe do Chemical Brothers dos anos 90, com seu caráter calculadamente frenético - que é interrompido pelo toque de celular da protagonista, que, de forma irônica, ecoa uma versão analógica da Ode to Joy, de Beethoven.

Aliás, nesse sentido, Jude é muito hábil em encaixar as suas críticas em pequenos instantes, em sequências que parecem ser apenas transitórias ou aleatórias, mas que dizem muito. Em uma das visitas, Angela é extremamente bem recebida pela família de um jovem que, após um acidente, perdeu o movimento das pernas - um dos que participará das gravações. O pai do rapaz parece um sujeito apenas encantador, daqueles que recita versos e poemas, ao mesmo tempo em que elogia Viktor Órban - "um verdadeiro líder". É essa complexidade que também parece povoar o todo e que torna a experiência com Não Espere Muito do Fim do Mundo tão rica. A gente parece saber onde estão as falhas coletivas, imaginamos o buraco em que estamos indo. Como sociedade, como indivíduos, e tudo parece apenas inescapável. Angela, por exemplo, mesmo com um trabalho sofrível, que lhe paga pouco e lhe exaure, ainda encontra tempo para criar um alterego hedonista, machista e racista nas redes sociais (um tal de Bobita, que alcança um grande número de visualizações com seus vídeos), e que evidencia ainda a ignorância lancinante de nossos dias. A intenção com essa figura torpe e sexista é debochar. Mas vai saber se os seguidores não estão de fato, gostando?

 

 

Em paralelo, a obra ainda é recortada por uma série de imagens de uma taxista e de sua rotina de trabalho nos anos 80, em tempos mais simples, mais puros, mais singelos. Será mesmo? Talvez não seja por acaso que essa taxista também se chame Angela, numa brincadeira de "eu sou você amanhã". Quebrando o claro escuro da fotografia sombria e pesada da rotina da Angela da atualidade, a Angela do passado também precisa lidar com a misoginia, a violência, a desconfiança, o medo. Naquela época a novidade eram as mulheres no mercado de trabalho - quebrando o paradigma esperado de ser a dona de casa, que cuida do marido, dos filhos. Nos tempos atuais, as mulheres muitas vezes trabalham. E só trabalham. Tem pouco tempo para os prazeres da vida, para uma existência mais mundana, com amor, sexo, uma boa refeição, algum tipo de qualidade de vida, de acolhimento. Ainda que nas ruas alvoroçadas de Bucareste se vejam anúncios publicitários sobre corpos perfeitos, tecnologias sustentáveis, futuro consciente, economia justa. Não dá pra esperar muito do fim do mundo. E, vá lá, talvez só o que reste é avacalhar no Tik Tok. Porque muito mais do que isso talvez não dê mais tempo de fazer.

Nota: 9,0

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Picanha.doc - Bobi Wine: O Presidente do Povo (Bobi Wine: The People's President)

De: Moses Bwayo. Documentário, Uganda / EUA / Reino Unido, 2022, 113 minutos.

"A verdadeira liberdade começa na mudança de mentalidade". Uma obra sobre o poder da arte como veículo de transformação social e como apoio da manutenção da democracia - especialmente diante de ameaça de sistemas políticos autoritários. Assim podemos considerar Bobi Wine: O Presidente do Povo (Bobi Wine: The People's President), filme disponível na plataforma Star+ e um dos cinco indicados ao Oscar desse ano na categoria Documentário. Aqui temos uma obra inspiradora, que mescla as letras poderosas de Wine, um carismático cantor de reggae que faz uma mistura saborosa de ritmos africanos, como o afrobeat e o dancehall, e que começa a chamar a atenção do público, especialmente pelas letras socialmente conscientes que refletem sobre direitos humanos, pobreza, saneamento básico, importância da educação, paternidade responsável e outros temas, sempre com um olhar atento às mazelas do povo de Uganda, seu País de origem.

Nesse sentido, essa é uma produção que nos captura de forma instantânea. Enquanto circula pelas ruas e becos arenosos e miseráveis de uma favela da capital Kampala, o artista passa a arrastar uma multidão de adeptos, que replicam suas músicas e imitam seu estilo. Com certa fama, Wine casa com a filantropa Barbie Kyagulanyi e amplia o olhar político em sua arte, especialmente a partir de meados dos anos 2000, quando a corrupção do governo do ditador conservador de direita Yoweri Musevini aflora. O que se soma ao desrespeito aos direitos humanos e também a tentativa de silenciar qualquer opositor - algo que sempre envolve um pesado aparato militar e uma disposição única para atos de truculência. Em um dos episódios mais traumáticos do País, um protesto que antecederia uma das tantas eleições livres - algo bastante recente, já que entre 1986 e 2005 era proibido o pluripartidarismo em Uganda - vencidas por Musevini, um grupo de civis é morto pelas forças militares, sob a desculpa de serem "terroristas" ou "insurgentes".


 

Enfim, a gente já viu o mesmo papo em ditaduras mundo afora - especialmente aquelas que desejam se manter no poder na base da força (e por mais que a situação do Brasil seja diferente, é simplesmente impossível não pensar no País quando vemos um presidente que utiliza absolutamente toda a máquina pública estatal para tentar permanecer no poder). A diferença é que aqui ainda temos uma democracia, e por mais que já existisse uma minuta do golpe e um bando de alucinados na frente de um quartel, tendo ainda como complemento o maior estelionato eleitoral da história, o projeto mambembe de ditador tropical foi deposto. Em Uganda essa aguardada primavera é mais complexa. E eternamente adiada. Com o voto impresso - sim, que surpresa! -, as chances de fraude aumentam progressivamente. E quando Wine resolve partir pro confronto com Musevini nas eleições de 2021, ele perde por 58% a 34%. Por mais que tudo indicasse o desejo do povo por oxigenar a sua política, depois de CINCO mandatos do déspota.

Com belas imagens de arquivo, a produção dirigida por Moses Bwayo acompanha os movimentos de Wine que, a cada ataque que sofre, dobra a aposta na tentativa de confrontar o poder tirano - e as repetidas fraudes que parecem ocorrer com anuência de um parlamento "comprado", que altera leis para que Musevini se perpetue no poder. Em uma cena chocante, o artista sofre uma frustrada tentativa de assassinato, que resulta na morte de seu motorista. O que não o impedirá de, mais adiante, ser preso por suposta desobediência. Com tudo costurado sempre pelas letras pungentes de Wine e pelos ritmos quentes, que permitem ao mesmo tempo a festa do povo e a consciência (um combo, muitas vezes, ideal). Se há um pequeno porém, acho que falta um pouquinho mais de profundidade a respeito do panorama político do País e sobre quais as plataformas defendidas por Wine, que tanto se dedica aos direitos humanos e às minorias. Um progressista que confronta um reacionário. Aliás, a tônica atual em muitas partes do mundo. Com a arte tendo papel central nesse debate.


Pitaquinho Musical - Rachel Chinouriri (What a Devastating Turn of Events)

"Quando coisas ruins acontecem, as pessoas ao seu redor ficam tipo, ‘vai ficar tudo bem, lamento que isso tenha acontecido', E, na verdade, às vezes é bom dizer: ‘isso foi uma merda, foi horrível e é injusto'. Esse era o tipo de emoção que eu queria traduzir nessas músicas". Quem ouve o pop sofisticado, muitas vezes agridoce, e cantado com a voz aveludada da britânica Rachel Chinouriri, em sua estreia What a Devastating Turn of Events, talvez não imagine a densidade de suas letras e mesmo a relevância de seus temas. Em linhas gerais há uma leveza nostálgica que conduz o ouvinte entre palminhas, assobios e uma sonoridade que se equilibra bem entre o R&B, o soul e o indie rock, que fazem tudo soar acessível. É aquele disco gostoso, com pontes e refrãos que flanam com facilidade. Basta uma ou outra audição pra memorizar as canções. Como no caso, por exemplo, de Robber, balada sombria que tem como pano de fundo a história de um casal que perde um bebê. Coisas ruins acontecem. E são uma merda - como ela disse no material de divulgação.


 

Nascida em Londres, a artista de apenas 26 anos é filha de pais emigrados do Zimbábue. E ainda que pudesse ser convidativo em termos de "mercado", tornar sua música apenas uma excentricidade para um público médio e branco ávido por sons alternativos de fora dos grandes centros, Rachel cresceu ouvindo Kings of Leon, Phoenix e Coldplay - e é interessante notar como todas essas bandas aparecem salpicadas, aqui e ali, como influências não tão óbvias. Nas letras, as experiências pessoais se mesclam com narrativas familiares - o que resulta em um projeto complexo e heterogêneo em que guitarras mais velozes se misturam com sintetizadores econômicos, sempre prontos a explodir mais adiante. Canções sobre sensação de não pertencimento (o ótimo single The Hills), a respeito de amores não correspondidos (All I Ever Asked), sobre autoimagem e aceitação (I Hate Myself) ou mesmo suicídio (como na sombria faixa-título) se mesclam para formar um conjunto irresistível de uma das artistas mais promissoras de atualidade. Não deixe de ouvir.

Nota: 9,0

 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Cinema - Love Lies Bleeding: O Amor Sangra (Love Lies Bleeding)

De: Rose Glass. Com Kristen Stewart, Katy M. O'Brian, Ed Harris, Jena Malone e Dave Franco. Suspense / Romance, EUA / Reino Unido, 2024, 104 minutos.

Quem assistiu Saint Maud (2019), o filme anterior da diretora Rose Glass, talvez se surpreenda com o estilo mais maximalista de Love Lies Bleeding: O Amor Sangra (Love Lies Bleeding), obra que está em cartaz nos cinemas do País. Afinal tudo que o projeto anterior tinha de sutileza e de morosidade na hora de fazer a crítica a respeito dos problemas que decorremdo fanatismo religioso, este tem de exagerado em seu exame de uma sociedade ainda machista, individualista, com pendor pra violência e pouco paciente na hora de efetuar qualquer tipo de negociação. Sangue, suor, lágrimas, excrementos e gozo se misturam em um tipo de cinema que se convencionou chamar atualmente de "cinema do corpo", que é aquele tipo que, a partir de certo experimentalismo, arrasta o espectador para algo mais sensorial do que aquele que se vale apenas do olhar. Algo que, por exemplo, fazem com maestria realizadores como Julia Ducournau e David Cronenberg, com seus body horrors.

Ainda assim o cinema do corpo, lembra a autora Linda Williams, não é apenas o do terror, da palpitação e dos sustos. Sim, em Love Lies Bleeding a gente encontra isso. Mas ele é também o do choro e o tesão, que mobilizam nossos fluídos, que movimentam nossas vísceras. E é preciso que se diga aqui temos a experiência completa nesse sentido. Ao cabo essa é uma obra de closes em corpos, com todo o seu esplendor - como no caso de Jackie (Katy M. O'Brian), que talvez materialize justamente a transformação irracional que sofremos quando nos apaixonamos -, e em rostos, que é onde entra Lou (Kristen Stewart em mais um grande papel), que, de cabelo seboso, se utiliza de seu olhar sempre penetrante e capaz de preencher espaços, para transmitir toda a ansiedade e a angústia diante de uma violência que lhe rodeia, e que talvez esteja pronta a explodir a qualquer momento.


 

Lou herdou uma academia de ginástica da família e é lá que ela conhece e começa a se relacionar com a forasteira Jackie, após um encontro improvisado, ainda que jamais fortuito entre as duas. Jackie, com seu corpo vigoroso, está vindo de Oklahoma, se prepara para um torneio de fisiculturismo, e encontra abrigo no local. Por uma daquelas coincidências, ela arruma um emprego em um clube de tiro chefiado justamente pelo pai de Lou (Ed Harris) - um sujeito tão repulsivamente palpável em sua combinação de caipira norte-americano reacionário com idoso decadente que votaria facilmente no Trump (ou em Bush), que é quase impossível não sentir asco. O que é reforçado pela sua aparência de tiozão acampado na frente do exército com sua cara oleosa e cabelos longos, mesmo sendo calvo, e a grande propensão para golpes no mercado negro de armas. Esse ambiente "família" é completado pelo violento JJ (Dave Franco), o cunhado de Lou, que tem o hábito agredir a irmã Beth (Jena Malone). É claro que em um cenário tão cáustico que mistura violência doméstica, clubes de tiro, academias anabolizadas, amor lésbico e tentativas de fuga a chance de a coisa sair do controle é grande. Pra alegria do espectador. 

Em linhas gerais Rose Glass não se intimida na hora de evidenciar seu ponto. Lou pai e JJ, por exemplo, são apresentados como os machos torpes e misóginos que, atualmente, ocupariam com tranquilidade os fóruns online de redpills ou os 4chans da vida - e o fato de o cenário ser alguma pequena cidade do Novo México rural e conservador, ajuda nessa composição. Só que aqui estamos nos anos 80 e, é preciso que se diga, esse aspecto também fornece certo charme à parte técnica, com sua fotografia levemente saturada, as cores vivas e figurino de roupas meio antiquadas. É um conjunto saboroso que olha para o passado para falar do presente de forma alegórica: afinal para que o mundo avance em toda a sua plenitude, talvez seja necessário extinguir certos sujeitos (ou ideias, vá lá) que representem certo atraso na sociedade. Pode parecer meio over em alguns momentos: mas é sexy, divertido e macabro. O odor pestilento parece saltar da tela. E ainda assim não resistimos.

Nota: 8,5


terça-feira, 14 de maio de 2024

Pitaquinho Musical - Jessica Pratt (Here in the Pitch)

Uma bossa nova enevoada, cantada em um filme cult dos anos 80. Um folk espacial que emerge em uma série de TV distópica e existencialista. Uma melodia que martela sutilmente em um bar enfumaçado, ocupado por figuras niilistas e silenciosas. Tentar converter em "imagens" a música feita por Jessica Pratt pode não ser tarefa tão fácil - uma vez que ela parece trafegar com facilidade entre a nostalgia onírica e a modernidade borbulhante. Em alguma medida é possível afirmar que as possibilidades são muitas e mesmo um disco pequeno como Here in the Pitch - o quarto da carreira da norte-americana -, permite ao ouvinte uma viagem pop psicodélica por ambientes tão variados, que tudo parece ser maior do que é (a despeito das apenas nove músicas distribuídas em 27 minutos). Lúdico, sensorial, evocativo, esse é daqueles trabalhos que ressoam de forma hipnotizante em uma rota intimista e agridoce.


 

Um bom exemplo disso tudo pode ser percebido no single lo-fi World on a String - com sua musicalidade flutuante e elevada. Pratt tem um estilo de cantar que consegue soar ao mesmo tempo doloroso e acolhedor e, por causa disso, versos como "E você ganhou tudo, mas seu sorriso vai embora / Quando, ao final, você é notícia de ontem" (na bossa nova Better Hate) soam ousados e irônicos. Há um pouco mais de expansão no todo, especialmente se compararmos com a sutileza dilacerante do anterior Quiet Songs (2019). E talvez aí esteja parte do magnetismo: o que antes era apenas um violão mais discreto, que vinha acompanhado de um pianinho sutil, aqui fica mais amplo, mais preenchido, com mais camadas. Inclusive vocais. É o tipo de combinação que faz com que retornemos várias vezes para o disco.

Nota: 8,5

 

Cine Baú - Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)

De: Stanley Kubrick. Com Peter Sellers, George C. Scott e Sterling Hayden. Comédia / Ficção Científica / Guerra, EUA / Reino Unido, 1964, 94 minutos.

Em uma das mais divertidas sequências de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb), um grupo de líderes norte-americanos - entre eles diplomatas, militares e conselheiros - debate, em uma sala do Pentágono, o futuro da humanidade. Após uma ligação do presidente dos Estados Unidos Merkin Muffley (um dos três papeis de Peter Sellers) ao premier soviético (um certo Kissoff, que parece estar bêbado do outro lado da linha), tem início uma briga acalorada entre o general Turgidson (George C. Scott) - um sujeito que tem aquele tipo de arrogância militar, que esconde sua mais completa mediocridade sob o véu da suposta liderança - e o embaixador russo (um Peter Bull abusando do estereótipo). Após uma discussão quase infantil, um cai sobre o colo do outro, sendo repreendidos na sequência por Muffley: "senhores, vocês não podem brigar aqui, este é o salão de guerra".

Olhando em perspectiva essa pode parecer, atualmente, uma piada apenas boba. Mas também foi a forma que Stanley Kubrick escolheu para debochar da relação quase pornográfica entre esses homens - no caso, esses militares sempre prontos a vestir a farda e atirar para salvar a sua Pátria, nem que para isso morram 20 milhões de pessoas desnecessariamente (imagina, poderiam ser 150 milhões) - e a guerra. Sim, em 1963 já decorriam quase 20 anos da Guerra Fria, que colocava frente à frente o Ocidente e o bloco soviético - um impasse entre duas superpotências que mediam forças no abstrato e em estratégias como a de colocar o medo na cabeça do "inimigo" como forma de desencorajá-lo a atacar. Em uma época em que o escárnio (e o meme) estavam bem longe de pautar o debate, não dá pra negar que foi uma jogada ousada. Que talvez tenha assustado as plateias, especialmente pela cara de pau descarada em tirar sarro de paranoias comunistas (sim, sempre elas) e de outros delírios bélicos.


 

Aliás, nesse sentido, alguns temas parecem tão atuais, que mais parecem saídos de algum zap bolsonarista, ou fruto de alguma teoria conspiratória aleatória propagada por incels de extrema direita que passam o dia nas profundezas da web. Em certa altura o general que leva o sugestivo nome de Jack D. Ripper (Sterling Hayden) explica ao capitão Mandrake (o segundo papel de Sellers), seu colega em uma base militar, sobre como os soviéticos estão utilizando a fluoretação da água como uma estratégia bélica em seu favor. "Esta é a trama comunista mais perigosa que já tivemos de enfrentar", vaticina Jack a um incrédulo Mandrake, dando a entender que todos os seus problemas, desde a sensação de cansaço (e de falta de apetite sexual), até um certo vazio existencial, são efeitos da água batizada. "Você já percebeu que eles não tomam água, somente vodca?", pergunta. Sim, se hoje em dia um delírio do tipo não faria feio em meio a blocos de debates sobre agenda globalista, sósias do Lula, chip chinês na vacina, mamadeira de piroca e antenas Haarp, talvez não seja por acaso.

Porque o caso é que talvez só rindo pra gente conseguir dar conta. Já era assim na década de 60 e segue sendo hoje em dia e, em tempos tão nervosos como os que vivemos - de iminência de Terceira Guerra, de crise de refugiados, de desastres climáticos, de ascensão da extrema direita, de tecnologia desenfreada e de pandemia -, não deixa de ser interessante notar como a comédia de Kubrick segue irresistivelmente atual. "A paz é a nossa profissão" é a frase que se vê em um cartaz fixado nas paredes de uma base militar que é atacada por aqueles que deveriam estar do mesmo lado das trincheiras. Para o sinistro Dr. Strangelove do título (novamente Sellers) as disputas por poder que podem levar a explosão de uma Máquina do Juízo Final - uma ogiva nuclear de ativação automática - podem ser o caminho para a solução eugenista. Na teoria do cientista, que parece ter um certo pendor para o nazismo, a perspectiva de explodir o mundo pode abrir a brecha para um plano de supremacia branca em que cada homem teria direito à dez mulheres ("mas elas terão que ser bem escolhidas", lembra um dos idosos decrépitos da Sala de Guerra). 

 

 

Enquanto esses ineptos decidem sobre o que acontecerá no século seguinte - e que pode estar ao alcance de um botão -, um grupo de caipiras, com direito a sotaque sulista e tudo e uma Bíblia minúscula que também conta com expressões russas, é literalmente enviado pra morte. Tudo isso depois de um equívoco de Ripper que subverte os protocolos enviando aviões para um ataque aéreo aos "vermelhos". Há uma história interessante que está n'O Livro do Cinema sobre a intenção que Kubrick tinha de que a cena final fosse uma guerra de tortas entre aqueles homens, no estilo pastelão. Mas ele mudou de ideia e substituiu a sequência pela da explosão das ogivas nucleares. "Era importante que o público soubesse que, por mais caricatos e palhaços que aqueles sujeitos parecessem, eles eram de fato perigosos". O resultado dessa poderosa combinação conferiria ao projeto três indicações ao Oscar - Filme, Diretor, Roteiro e Ator (Sellers). E pavimentaria ainda o caminho para que Kubrick alcançasse grande fama entre os fãs de cinema, com obras-primas, como, 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), Laranja Mecânica (1971) e Nascido Para Matar (1987) - que, em alguma medida, revisitariam os mesmos temas. Fundamental.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Cinema - O Sabor da Vida (Le Passion de Dodin Bouffant)

De: Anh Hung Tran. Com Juliette Binoche, Benoit Magimel, Galatea Bellugi e Bonnie Chagneau-Ravoire. Drama, França, 2023, 135 minutos.

"Em casa eu sirvo o tipo de comida que conheço a história por trás". (Michael Pollan)

Vamos combinar que em tempos de IFood, de comida congelada e industrializada, de alimentação apressada (e sem graça) e de paladar infantil que via de regra é baseado em Nutella e leite ninho, assistir a um filme afetuoso e poético como O Sabor da Vida (Le Passion de Dodin Bouffant) é uma espécie de alento. Uma frase atribuída ao escrito Mia Couto nos lembra que "cozinhar não é um serviço e sim uma forma de amar os outros". E na obra de Anh Hung Tran - do ótimo O Cheiro do Papaia Verde (1993) - essa expressão parece elevada à máxima potência, especialmente ao nos fazer lembrar da importância da comida feita em casa, em toda a sua glória. Sim, aqui e ali pode haver um aspecto meio elitista nesse combo que envolve alta gastronomia luxuriante e cenários deslumbrantes, como aqueles que vemos na obra. Mas, honestamente, é meio difícil resistir.

Tanto é que a primeira meia hora do filme quase se assemelha a um documentário sobre as origens da alimentação, filmado em algum ponto da Europa. Claro, não fosse o fato de estarmos diante de uma Juliette Binoche sempre magnética - aqui ela vive a cozinheira Eugenie, que trabalha há mais de 20 anos para o chef gourmet Dodin Bouffant (Benoit Magimel), em seu belo casarão da França rural do fim do século 19. De forma quase ritualística, Eugenie e Dodin preparam, na companhia da assistente de cozinha Violette (Galatea Bellugi) e da aprendiz Pauline (Bonnie Chagneau-Ravoire), uma lauta refeição com peixes, carnes vermelhas, molhos, vegetais frescos e sobremesas pornograficamente vistosas - tudo encenado de forma viva, aproveitando da melhor forma as cores contrastantes da madeira e das matérias-primas elaboradas. Como se fosse um coletivo de dança com coreografias bem demarcadas, o quarteto de reveza pelo ambiente, num tipo de preparação exaustiva, mas prazerosa, que mais tarde será oferecida para um grupo de amigos de Dodin.


 

É tudo bonito e elegante, requintado em sua simplicidade, seja nos móveis rústicos, nos fogões campesinos, nos utensílios rudimentares  - tudo de forma a mexer com absolutamente todos os nossos sentidos. Não se trata apenas de uma experiência visual. Os sons nos conectam, os aromas e sabores parecem saltar da tela - aliás, nos fóruns de internet, vi vários fãs da obra afirmando que não era uma boa ideia ir para a sessão com fome. Ainda mais em shoppings, onde muitas vezes as opções gastronômicas se baseiam em fast foods e alternativa rápidas (ou pré-prontas). Lá pelas tantas, chega à propriedade de Dodin, um jovem com um recado: há um príncipe das redondezas, que gostaria de lhe convidar para um jantar. Dodin, contra todas as possibilidades, aceita o convite. Ainda que precise lidar com questões internas, como a paixão secreta por Eugenie (que o homem tem dificuldade em formalizar, ainda que ambos se gostem muito) e a falta de apoio dos pais de Pauline, que acabam chamando ela de volta para a casa, após um período.

Em linhas gerais esse é um filme simplíssimo, mas de uma beleza quase ecumênica, elegíaca. Nesse sentido, outras artes parecem se mesclar como forma de fortalecer a metáfora para o amor, para o afeto. Quando Dodin cria coragem pra pedir Eugenie em casamento, ele brinca sobre o fato de ambos estarem casando no "outono de suas vidas", o que é a deixa para uma série de frase belíssimas e alegóricas sobre a vida em si - e de como saímos da primavera de nossas almas quando nascemos, para o inverno do fim quando nos aproximamos do ocaso. Eugenie nega tudo isso, e quer que sua vida seja um "verão permanente", mesmo que ambos estejam na casa dos cinquenta anos. É difícil não se emocionar - e de pensar como a paixão e a lealdade a alguém podem fornecer um sustento semelhante ao proporcionado pela alimentação. Com ambas fazendo conexões entre nossos órgãos - do coração ao cérebro, passando pelo estômago, pelo esôfago e outros. Fazer um filme simples mas que nos conecte não deixa de ser uma arte. Assim como sempre será uma refeição bem feita, bem elaborada - por mais modesta que seja.

Nota: 8,5