terça-feira, 7 de julho de 2020

Cine Baú - Rashomon (Rashomon)

De: Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Machiko Kyô e Kichijiro Ueda. Drama, Japão, 1950, 88 minutos.

Um dos roteiros mais engenhosos da história do cinema, o clássico Rashomon (Rashomon), de Akira Kurosawa, segue, 70 anos depois de seu lançamento, como um formidável exercício de estilo que brinca o tempo todo com a nossa percepção a respeito do que verdadeiramente teria acontecido no cenário de um assassinato. Trata-se de uma obra em que a lógica daquilo que assistimos se modifica o tempo todo, nos gerando incertezas que podem ser fruto de conclusões precipitadas - ou não. Ao cabo, é uma película que analisa o próprio fazer cinematográfico a partir do deslocamento da narrativa, com seus vários ângulos sendo sutilmente explorados. Na trama, um casal - um samurai e sua esposa -, são atacados por um bandido, que estupra a mulher. Pior, os motivos da morte do homem jamais ficam claras: ele foi realmente assassinado? Ou se suicidou? Pior ainda, teria a própria mulher investido contra ele, incapaz de lidar com a desonra praticada ao matrimônio?

Curioso, divertido e até exagerado, o filme começa com um encontro inusitado entre um lenhador (Takashi Shimura), um padre (Minoru Chiaki) e um plebeu (Kichigiro Ueda) que, impossibilitados de sair das ruínas de um tempo por causa de uma tempestade, resolvem divagar sobre a perturbadora história da morte relatada acima. Contada pelo lenhador, a história da conta de um tenebroso ataque em meio a floresta: sobram apenas alguns apetrechos da mulher que teve sua vida invadida, um chapéu, um sapato, um pedaço de corda. Em frente a uma espécie de tribunal, o relato impacta, mas não convence. Há outras possibilidades, outros caminhos, que mudam totalmente a perspectiva. Mudam, inclusive, o comportamento dos envolvidos, que podem sair de figuras alucinadas e irracionais (como é o caso do bandido Tajomaru, vivido por Toshiro Mifune), que em outros momentos surge como uma figura de modos plácidos e seguros.


Até mesmo o morto ressurge no formato de contato mediúnico através de uma "encarnação" feita pela própria ex-mulher, pra dar a sua versão do ocorrido. Há discrepâncias e incertezas que se movimentam o tempo todo e que nos impedem de, efetivamente, conhecer a verdade dos fatos. Quando o filme termina, o que permanece muito mais é a abordagem das possibilidades narrativas, do que qualquer certeza que possa ser redentora para aqueles que assistimos. E é ao retratar às personagens sem julgamentos ou maniqueísmos, que a trucagem ganha força. Nem todo mundo é bom e mal o tempo inteiro. Um homem pode cometer um roubo, se arrepender e se reintegrar a vida em sociedade. Nesse sentido, vítimas inocentes podem passar à figuras frívolas em um instante, o mesmo valendo para os corajosos guerreiros que, diante da iminência de uma batalha, podem se reconfigurar em figuras covardes e patéticas.

Utilizando a parte técnica em favor da narrativa, Kurosawa preenche cada cena com um bucolismo que contrasta com a violência dos acontecimentos. Em meio à floresta, a fotografia em preto e branco confunde a nossa visão - as vezes às personagens quase somem em meio a folhas e galhos -, ao passo que o calor escaldante é materializado no suor constante e nos ataques de insetos, especialmente a Tajomaru, que passa boa parte do tempo tentando matar mosquitos que lhe atacam. Aliás, Mifune, tradicional colaborador do diretor, dá mais uma aula de atuação, mesclando loucura e placidez, contribuindo para a confusão e para a neurose narrativa que se estabelece - e que nos enche de incertezas. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme pavimentaria o caminho para que o diretor japonês realizasse os seus grandes clássicos, casos de Os Sete Samurais (1954), Kagemusha (1980) e Ran (1985), que formariam, junto com tantos outros grandes títulos, uma das mais consagradas filmografias de todos os tempos.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Novidades no Now/VOD - Ema (Ema)

De: Pablo Larraín. Com Mariana Di Girolamo, Gael Garcia Bernal, Santiago Cabrera e Catalina Saavedra. Drama, Chile, 2019, 107 minutos.

Disponível na plataforma Mubi, Ema (Ema) é um filme sobre um tema pouquíssimo explorado nas artes: no caso um processo de adoção que deu errado, após um trauma familiar. O que fez com que o casal adotante tivesse de "devolver" o jovem um ano após o início da experiência como uma nova família. Na realidade esse fiapo de história serve para que o diretor Pablo Larraín - de No (2012) e O Clube (2015) - discuta temas muito maiores, colocando em conflito o conservador e o moderno, o tradicional e o contemporâneo. É um filme hipnótico, sensorial e contemplativo, que funciona quase como se fosse uma grande instalação artística de pouco mais de uma hora e meia de duração, em que os conflitos dos personagens são desenrolados em meio a números de dança, apresentações coreografadas e diálogos absurdamente sinceros (e doloridos). É obra que discute a hipocrisia da sociedade e as mudanças políticas e culturais do mundo atual, aos quais se inserem, também, as novas configurações de família.

A meu ver trata-se de um formato narrativo muito criativo no debate sobre feminismo, papel da mulher na sociedade e liberdade. A Ema (Mariana Di Girolamo) do título é uma força da natureza - uma mulher complexa, enigmática, hipnótica e sensual. Não por acaso ela alerta as pessoas que se aproximam dela de "que elas poderão se queimar". Dançarina em uma companhia de danças que realiza apresentações de balé clássico, é casada com Gastón (Gael Garcia Bernal em sua terceira colaboração com Larrain), o coreógrafo e coordenador do coletivo. É com ele que Ema faz a adoção do filho - um jovem de nome Polo -, que não dá certo. Trata-se de um pré-adolescente de cerca de 10 anos e as acusações mútuas do casal dão conta de alguns motivos que podem ter levado ao ocorrido. Na realidade a gente nunca sabe o que acontece no íntimo de cada relacionamento. Mas, em geral, as pessoas são especialistas em julgar. E Ema passa a ser julgada como a vilã, como a mãe "desnaturada", a responsável por abandonar um filho.


Não por acaso, se desligará da escola em que atua também como professora - os alunos parecem gostar dela -, e ainda dará andamento ao processo de divórcio, já que, biologicamente, Gastón é incapaz de lhe "dar" um filho ("eu lhe dei", argumentará ele, sobre a adoção). Desmoralizado pelo serviço de assistência social, o casal passará a ser atacado TAMBÉM por aquilo que lhe apaixona: no caso, o teatro, a dança. Encarados como figuras à margem da sociedade, como vagabundos desregrados que estimulam a violência e as liberdades sexuais a partir de suas obras, serão considerados incapazes de criar um filho. E se afastarão. Fechado em seu mundinho meio retrógrado, Gastón não consegue perceber o anacronismo de seu ideal de arte mais "pura", ao passo que, Ema, desligada do grupo de dança, se envolverá em outra paixão: o reggaeton, a dança urbana, de rua, que tem no corpo um ente político, de expressão das pessoas mais simples. Ao mesmo tempo, descobrirá quem são os novos pais de Polo, resolvendo se aproximar deles. Se envolver. Assim como se envolverá com outras pessoas, colegas do grupo de dança, sua advogada. O corpo é dela. Ela é livre. E o filme mostrará isso sem pudores, sem julgamentos e sem atirar o panfleto na tua cara.

É um filme, afinal, cheio de camadas. E que nos faz perguntar o tempo todo sobre o que seria o certo naquele universo - ainda que a resposta fosse "não sabemos". Ema parece arrependida de sua decisão e fará de tudo para se reaproximar de Polo, adotando medidas extremas. Piromaníaca, ateará fogo em carros, prédios, no patrimônio público. É a metáfora mais óbvia para o caráter flamejante da personalidade da personagem. Quase funcionando como um contraste para a placidez sorumbática das vielas, das casas e dos morros da Val Paraíso, onde a obra foi filmada. Acreditando na inteligência do espectador, vai despejando seus temas em doses pequenas, homeopáticas, em diálogos mais expositivos, em sequencias em que a imagem fala mais do que as palavras. É uma obra também bonita do ponto de vista técnico: a música do ótimo Nicholas Jaar hipnotiza. O estilo de filmar de Larraín nos envolve, nos abraça, com seus planos em sequência, sua câmera que flana num vai e vem nem sempre convencional, mas orgânico, envolvente. Nem tudo se resolve plenamente, mas a gente se arrebata: e sai amando Ema exatamente pelo que ela é. Esse espírito livre, uma figura contemporânea, eventualmente hedonista, mas em busca da felicidade. Mesmo que a gente se queime.

Nota: 9,0

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Podcast do Picanha Cultural #10 - Vilões do Cinema que Amamos Odiar

De Hannibal Lecter a Norman Bates, passando por Darth Vader e até o computador Hal 9000, não foram poucos os vilões de cinema que marcaram época e que permanecem inesquecíveis em nossa memória. E foi pensando nisso que resolvemos fazer neste episódio do nosso Podcast do Picanha Cultural, um pequeno resgate com alguns dos grandes vilões de filmes antigos e atuais - aquele tipo de figura que mistura, em muitos casos, charme, maldade e cinismo e que, no fim, amamos odiar. Nossa ideia foi fugir um pouco das óbvias "figuras" citadas no começo desse texto - e também de fugir um pouco dos anti-herois que formam o combo maniqueísta das adaptações dos quadrinhos -, para lembrar daqueles antagonistas humanos, delirantes, excêntricos e... apaixonantes. Cito aqui um, que aparece no nosso debate: Anton Chigurh, o inesquecível vilão de Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007), encarnado de forma irracionalmente determinada por Javier Barden. Mas tem muito mais! Bora clicar? E não esqueçam de nos dizer quais os mais marcantes vilões de filmes para vocês!


Pérolas da Netflix - Sombras da Vida (A Ghost Story)

De: David Lowery. Com Rooney Mara, Casey Affleck e Brea Grant. Drama / Fantasia, EUA, 2018, 92 minutos.

Eu já tinha falado do Sombras da Vida (A Ghost Story) antes aqui no Picanha, em uma nota bastante curta, quando o filme foi o nosso primeiro colocado na lista de 25 Grandes Filmes do ano de 2017. E como ele foi disponibilizado nesta semana na Netflix, eu considerei esta a ocasião ideal para falar um pouco mais da obra do diretor David Lowery. Por que, sinceramente, este não é um filme qualquer. É uma obra diferente, pouco convencional, intrigante, delicada, que discute temas como passagem do tempo, permanência da memória e luto por meio de uma narrativa que vai no limite entre o minimalismo, a inteligência e a elegância. E ainda consegue tudo isso com um FIAPO de história. Na trama, Casey Affleck é um sujeito que morre em um acidente automobilístico e "retorna" para a sua antiga casa como um fantasma (bem ao estilo daqueles vistos em desenhos animados, com lençol branco e olhos escuros), pra tentar se reconectar (ou consolar) a viúva vivida pela Rooney Mara.

De início parece um filme de terror meio convencional. O casal está deitado na cama, na véspera do acidente, e ouve um barulho estridente vindo do piano da sala. Ao levantar, assustada, a dupla se depara com... nada. Pode ter caído alguma coisa em cima do instrumento? Algum tipo de choque que possa ser explicado pela ciência? Não sei. Casas estalam o tempo todo, fazem barulhos estranhos, aleatórios, vindos de móveis, camas, geladeiras. Quem nunca passou por isso? Quem nunca escutou um ruído meio sem explicação, que tenha nos deixado alarmados? No dia seguinte o acidente ocorre, o fantasma do protagonista não atravessa uma espécie de portal que se arma ainda no hospital e acaba permanecendo no nosso plano. De volta a sua casa, não consegue interagir: é um ectoplasma com um lençol. Está morto. Mas observa. Observa o luto, a dor da ex-mulher. Observa e observa. Os dias passam, a dor da morte é superada. A viúva se muda. O fantasma fica. Como se estivesse grudado, conectado de uma maneira intransferível àquela casa. Única possibilidade de contato com o passado? Um bilhete perdido entre os tijolos e o concreto de uma parede.


Mas a parede será demolida. Outro prédio virá no lugar. Anos e mais anos se passarão. Séculos, eras, períodos. Com o fantasma preso, dolorido, apegado a não se sabe o que e mal e mal a quem. E o "pulo do gato" desse filme, a meu ver, é a capacidade de discutir temas tão profundamente existencialistas ou metafísicos - como medo da morte e resiliência para lidar com perdas -, de uma forma tão pouco convencional. Ok, quando o filme acaba talvez a gente pense "bem, não entendi tudo, o que será que quis dizer aquela parte?". Mas penso que, mais do que isso, é um filme sobre sentir. Sobre sentimentos. Sobre a dor e a necessidade de levantar a cabeça. Sobre o tempo e a capacidade única dele em curar as feridas. O tempo que demora a passar, assim como demora uma eternidade a sequência em que a viúva come angustiadamente uma torta, mas sem prazer algum em apreciar aquilo que come, como se o alimento fosse apenas um refúgio - e, aliás, é uma sequência incrível, que dá conta do talento de Mara em transmitir MUITO, mas de forma econômica, com gestos sutis, uma lágrima que percorre o nariz, uma fungada.

É filme de detalhes que se vale muito da parte técnica para funcionar - e que, eventualmente, exigirá um pouco de paciência do espectador. Há ali uma fluidez narrativa diferente, uma morosidade que dialoga com aquilo que assistimos - que tem a ver com espera, com calma, com respeito ao tempo. Atento aos detalhes, Lowery insere aqui e ali instantes pequenos que gritam muito, como no momento em que um evento sobrenatural revela uma edição de O Amor Nos Tempos do Cólera, de Gabriel Garcia Marquez - quer livro mais adequado para falar sobre passagem do tempo? Em outra sequência, a gente descobre como "funciona" uma casa insanamente mal assombrada. É algo inteligente, que provoca, que nos faz refletir. Ao final, como já dito, não haverá solução óbvia. Mas, o melhor: a gente ficará pensando no filme por semanas, talvez por meses ou anos. Como obra de arte ele perdurará, atravessará gerações, continuará. Assim como continua a Nona Sinfonia de Beethoven. Assim como fica a evocativa música I Get Overwhelmed, do Dark Rooms - que integra a trilha sonora. E uma obra que transcende de forma tão vigorosa os limites do cinema, vamos combinar: é maior do que qualquer coisa.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Atração Fatal (Fatal Attraction)

Cena: sobre os dotes gastronômicos na arte de cozinhar um coelho.

É muito provável que, nos dias de hoje, um filme como Atração Fatal (Fatal Attraction) sequer fosse feito. E, se fosse feito como foi, certamente seria alvo de uma enxurrada de críticas, sendo rapidamente cancelado na internet. Mas, é necessário analisar as obras de arte - ultrapassadas ou não -, também no contexto em que elas surgiram. E, digamos que esse nicho, o dos filmes com mulheres (ou amantes) surtadas, paranoicas, loucas e adúlteras, fez muito sucesso no final dos anos 80 e começo dos 90. Aliás, o diretor Adrian Lyne foi um grande expoente dessa vertente "drama de casal classe média americana às voltas com problemas conjugais", tanto que filmou Proposta Indecente (1993) e Infidelidade (2002), além do clássico soft porn 9 1/2 Semanas de Amor (1986). Sim, hoje tá tudo datado. O discurso de mulher neurótica que só encontrará a felicidade nas mãos de um homem já expirou há um bom punhado de décadas. Mas eu tenho uma confissão a fazer: pra mim Atração Fatal, como "terror passional", assistido de forma descompromissada, segue funcionando direitinho.

E acho que posso falar que boa parte do público cinéfilo concorda comigo. A obra é de arrepiar, e a Glenn Close, na pele da executiva Alex Forest está assombrosa - tanto que há quem insista na tese de que o Oscar e Melhor Atriz naquele ano foi parar nas mãos erradas (Cher levou a estatueta pra casa pelo nem sempre lembrado Feitiço da Lua). Alex é colega de trabalho do advogado Dan Gallagher (Michael Douglas, quem mais?), um sujeito casado com a simpática Beth (Anne Archer), com quem tem a filha Ellen (Ellen Hamilton Latzen). Prestes a comprar uma casa nova e pronto pra viver o sonho americano, o homem cai na asneira de ter um caso de uma noite com Alex, num final de semana em que esposa e filha estão viajando. Close está insinuante, com seu olhar sempre ambíguo e enfumaçado e cabelos volumosos, sendo bastante direta nas suas intenções. Os dois acabam na cama, se divertem, riem juntos, mas... a vida continua? Não para Alex, que quer mais do que ser amante. Rejeitada, decide transformar a existência de Dan e de sua família num inferno.


Eu volto a dizer que, por mais verossímil que esse roteiro possa, eventualmente, parecer, hoje em dia ele soa absurdo, misógino, antiquado, equivocado. Foi apenas uma noite, mas Alex, num excesso furioso de carência, se torna o "demônio encarnado". Passa a fazer persistentes ligações para o trabalho de Dan. O visita em horários inesperados. Envolve a família, bagunça rotinas. Persegue, ameaça, gera uma grande instabilidade em todos que rodeiam o protagonista - tanto que seu arrependimento, é transmitido no formato de um carinho quase transcendental e extremamente devotado à esposa. Ele rateou MUITO. Sabe disso. E precisará de um esforço enorme para que tudo aquilo que ele ama, não se esfacele. Mas esse quadro se chama Grandes Cenas do Cinema e quero falar de uma das mais inesquecíveis (e violentas) sequências promovidas por um "vilão" de filme: que é o instante em que Alex resolve mostrar seus "dotes culinários", fervendo VIVO o coelhinho de estimação de Ellen.

Essa sequência ocorre no terço final. A família já se mudou para uma nova e idílica casa, mas a vida já virou de cabeça pra baixo, com Alex não sossegando na sua persistência. Com as ameaças e as tensões crescentes, o trio resolve fazer um passeio para visitar a mãe de Beth. É no retorno pra casa, que tudo acontece: Ellen vai correndo pelo quintal até gaiolinha onde está - ou deveria estar -, o seu mais novo animalzinho de estimação. Ao mesmo tempo, Beth entra em casa e percebe que algo está, estranhamente, fervendo sobre o fogão (sendo que ninguém estava em casa). Ela abre a panela no mesmo instante em que a menina chega ao local que deveria estar o coelhinho. A trilha sonora sobe, a edição é perfeita. O grito é inevitável. E daí pra frente o terror só vai piorar. Na época a cena foi tão marcante que a expressão bunny boiler passou a ser utilizada para definir figuras instáveis emocionalmente, obsessivas, especialmente do ponto de vista dos relacionamentos. Aliás, o termo é utilizado, de forma bem humorada (e machista, diga-se), até hoje, tão marcante que foi o ato.


Alex Forest foi, no fim das contas, uma figura tão violentamente perturbadora e inesquecível dentro desse "nicho", que uma votação feita pelo American Film Institute (AFI), a colocou como a sétima melhor vilã da história, à frente por exemplo, de Michael Corleone (vivido por Al Pacino em O Poderoso Chefão), o computador Hal (de 2001: Uma Odisseia no Espaço) e até o perturbado Alex De Large (excêntrica figura encarnada por Malcolm McDowell, em Laranja Mecânica). Como filme, já dissemos mais de uma vez nessa resenha: a narrativa tá ultrapassada, cheia de comentários machistas nas entrelinhas e até de um preconceito xenófobo nada velado (no caso, em relação aos japoneses). Mas, na época de seu lançamento, o filme caiu nas graças do público e também da crítica, que lhe deu várias nominações para o Oscar, ainda que não tenha havido vitórias. Sobre a Glenn Close, o papel pavimentaria o caminho para uma bem sucedida carreira, que culminaria no Oscar pelo filme A Esposa (2019).

terça-feira, 30 de junho de 2020

Novidades em Streaming - HAIM (Disco)

Acho que se fosse possível definir o mais recente disco das meninas do HAIM - intitulado Women In Music Pt. III - com apenas uma palavra, esta poderia ser "redondo". Por que não se trata apenas de um trabalho com produção ainda mais caprichada do que aquela vista nos dois registros anteriores - Days Are Gone (2013) e Something to Tell (2017) -, há também as arestas sendo aparadas, com o trio mais a vontade para trafegar em meio as influências diversas, que podem ir do rock and roll perfumado (The Steps), passando pelos anos 80 classudo (Another Try), até chegar no pop de emanações country mais ensolaradas de gemas como Leaning On You. Nas letras, em meio a curvas imprevisíveis que trafegam entre o jazz e a percussão africana - pode pintar até um barulho aleatório de despertador ou alguma outra trucagem eletrônica lá no meio -, os temas variam de paternalismo no mundo da música, relacionamentos abusivos e sororidade. É música com personalidade, madura, ousada e absurdamente divertida de ouvir. Estará em todas as listas de melhores do final do ano. Inclusive na nossa. Pode anotar.


Tesouros Cinéfilos - Louca Obsessão (Misery)

De: Rob Reiner. Com Kathy Bates, James Caan, Richard Farnsworth e Lauren Bacall. Terror / Drama, EUA, 1990, 107 minutos.

Com Louca Obsessão (Misery) as configurações de "fã xiita" - aquele tipo obcecado pelo artista - foram definitivamente atualizadas com sucesso. E da forma mais apavorante possível! O filme do versátil diretor Rob Reiner (Antes de Partir) foi adaptada de um livro do Stephen King e nos apresentou a uma Kathy Bates tão delirantemente alucinada, que ela faturou o Oscar de Melhor Atriz por seu papel. Algo, diga-se, não muito comum em filmes de terror. Na trama, Bates é a enfermeira Annie, uma mulher solitária, devota de Deus e que é completamente apaixonada pela obra do escritor Paul Sheldon (James Caan), de quem se diz fã número 1. Por um daqueles "acasos" Annie Wilker será a pessoa que salvará Paul da morte após um acidente de carro, em um local isolado, em meio a uma nevasca. No chalé em que ela vive, tomará os primeiros cuidados para a recuperação de seu hóspede improvisado.

Só que o que inicialmente eram chazinhos, medicamentos e uma atenção quase maternal de Annie, vai aos poucos mudar de figura, quando ela começar a mostrar uma personalidade instável e intempestiva. Paul perceberá que se salvou da morte. Mas que as coisas não estão tão assim melhores. Tudo começa quando Annie passa a dar muitas desculpas sobre estradas fechadas (por causa da neve) e impossibilidade de fazer ligações telefônicas à longa distância. Sem poder falar com sua agente e seus familiares, o escritor se verá em uma espécie de prisão, em que o limite é a porta do quarto. E como se não bastasse a sensação de horror que parece aumentar a cada dia passado no local, tudo piora quando Annie descobre o manuscrito do último livro de Paul - que estava em sua bolsa. Autorizada a lê-lo, ela ficará completamente contrariada com o rumo dado a uma das personagens, na história. Bom, não é preciso dizer que o que já estava ruim, vai piorar.


Como se fosse uma mistura de Baby Jane (de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?) com Norma Desmond (de Crepúsculo dos Deuses), a enfermeira obrigará o sujeito a permanecer em sua propriedade até que entregue um livro que esteja satisfatório para ela. Enquanto os delegados locais tentam buscar alguma pista do Paul, ele vai sofrendo nas mãos de Annie, com torturas psicológicas que vão desde a queima do livro que seria entregue à editora até chegar a agressões físicas, como na famosa cena da marreta. Aliás, eu não li o livro de King, mas posso dizer que Reiner é hábil em construir o clima de terror crescente, transformando até mesmo cenas prosaicas (e excêntricas) como a da aparição do porco de "estimação" de Annie, em sequências absurdamente angustiantes. O que é reforçado pela alternância de humor da algoz, capaz de ir do sorriso dissimulado à seriedade taciturna em segundos (e são essas pequenas inflexões que, a meu ver, valorizam ainda mais a caracterização de Bates que, realmente, está assombrosa).

Tecnicamente, o filme também é formidável. O uso de contra-plongées - aquele recurso em que vemos o personagem de baixo para cima - reforça bem o caráter monstruoso de Annie, que sempre parece maior do que é, ao passo que Paul, por estar numa cama, sempre surge como uma figura menor, amedrontada. O desenho de produção (e até mesmo o figurino) contribui para que acreditemos naquela casa como um espaço claustrofóbico, sufocante, com corredores apertados, mobília velha e decoração obsoleta. Tudo parece antiquado, anacrônico, o que dialoga com a personalidade retrógrada de Annie - uma mulher que crê em Deus e que não aceita um tipo e literatura que subverta a lógica das convenções, especialmente as religiosas (ela não gosta, por exemplo, dos palavrões que surgem no último livro). Todos esses detalhes contribuem para que estejamos permanentemente apreensivos. Tudo é imprevisível e até dolorido - há uma cena envolvendo o xerife (o ótimo Richard Farnsworth) da cidade que é de partir o coração. Louca Obsessão completa 30 anos de seu lançamento em novembro e segue assustando, com Kathy Bates permanecendo para sempre como uma das mais inesquecíveis vilãs da sétima arte. Vale recordar!

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Picanha.doc - À Procura de Sugar Man (Searching For Sugar Man)

De: Malik Bandjelloul. Documentário, Reino Unido / Suécia, 2012, 86 minutos.

Se tivesse sido inventada por algum roteirista malucão de Hollywood, é bem provável que não acreditássemos na história REAL que assistimos no imprevisível, curioso e singelo documentário À Procura de Sugar Man (Searching For Sugar Man) - que faturou o Oscar em sua categoria na cerimônia de 2013. A gente já disse em postagens anteriores que a vida não tem absolutamente nenhum sentido e o filme de Malik Bandjelloul faz jus a essa ideia. Na trama somos apresentados ao talentoso cantor e compositor Sixto Rodriguez que, no começo dos anos 70, gravou dois discos sem muito sucesso, caindo pouco depois no ostracismo. Morador da cidade de Detroit, o sujeito de torna recluso, suscitando uma série de boatos e rumores - alguns deles absurdos, como aquele em que ele teria se suicidado em pleno palco, ateando fogo em si próprio. Um tipo de gesto de desespero, que funcionaria como uma reação iconoclasta à falta de reconhecimento pelo seu trabalho.

Tudo é muito nebuloso. Incerto. Em certa altura do documentário a história migra para a Cidade do Cabo, na África do Sul, onde Rodriguez se torna um ícone musical do tamanho - ou até maior - do que Bob Dylan ou Elvis Presley. Ninguém sabe ao certo como a música do cantor foi atravessar o oceano para chegar em outro continente, mas a melhor teoria é a de que alguém teria feito uma viagem aos Estados Unidos, tomado contato com um dos discos do artista e levado uma cópia junto consigo para a terra de Nelson Mandela. Tomada pela política do Apartheid, a África do Sul era um País muito fechado, conservador à época. Nesse sentido as músicas progressistas de Rodriguez, cheias de questionamentos ao status quo e às convenções sociais - ele era de uma família de proletários - caríram como bálsamo nos ouvidos da juventude. Ninguém sabia quem CACETA era aquele sujeito latino, de cabelos compridos, que se via na capa dos discos. Todos o amavam.


O filme narra como se formou a mitologia em torno da figura de Rodriguez em um local totalmente inusitado e distante de seu País de origem. As pessoas pensavam que ele estava morto. As histórias de suicídio em cima do palco pareciam convincentes. Até que um jornalista resolve ir atrás da verdade: ouve produtores, outros músicos, integrantes de gravadoras. E chega até a família de Rodriguez que, para surpresa geral da nação, ainda vive em Detroit, onde trabalha com construção civil. Convidado à ir a Cidade do Cabo, se depara com uma inacreditável comoção pública em torno de sua figura, que culminará em shows lotados, agendas repletas de entrevistas e muito carinho dos fãs não apenas direcionado a ele, mas a todos seus familiares. Rodriguez nunca "aconteceu" na América, a despeito de seu óbvio talento. Talvez tenha vendido meia dúzia de discos, ainda que as críticas à época tenham sido positivas. Foi encontrar seu público quase 30 anos depois. Além do oceano. Num desses inacreditáveis acasos.

Não bastasse ser uma obra misteriosa -  o jeito como Rodriguez é adjetivado no começo do filme é ótimo, com direito à metáforas sobre as ruas de uma Detroit melancólica e cinzenta em que emerge uma figura sisuda, taciturna, que cantava de canto, de costas -, a película ainda presta uma linda homenagem ao poder transformador da arte, sendo praticamente impossível não se emocionar ao assistir as surpreendentes apresentações lotadas do "astro" na Cidade do Cabo. O carinho genuíno dos fãs com ele, as sessões de autógrafos, as tatuagens pelo corpo (!) exemplificam o magnetismo de representar uma geração inteira em suas pautas, a partir da força das letras urbanas, que evocam temas como liberdade de expressão e capacidade de pensar de forma diferente. É um tipo de road movie meio torto, que nos deixa com um sorriso no rosto e que nos desperta a curiosidade para a enxuta obra de Rodriguez, composta apenas pelos álbuns Cold Fact (1970)  e Coming From Reality (1971). A boa notícia? Os trabalhos podem ser apreciados em plataformas como a Deezer, o que comprova que a obra do compositor está vivíssima. Assim como ele próprio que, aos 77 anos, segue trabalhando na construção - sem esquecer do amor dos fãs da África do Sul.