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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Novidades em Streaming - O Último Azul

De: Gabriel Mascaro. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarras. Ficção Científica / Drama / Fantasia / Aventura, Brasil / México / Chile / Holanda, 2025, 87 minutos.

Talvez um pouco menos político ou panfletário do que no anterior (e ótimo) Divino Amor (2019), mas igualmente relevante em seu exame um tanto niilista de uma sociedade cheia de contradições, em que defensores da família tradicional brasileira poderão incorrer em apoio a políticas que, justamente, ignoram a pluralidade desse tipo de estrutura de parentesco. Aqui, a trama lembra um pouco o ainda não muito conhecido livro nacional Velhos Demais Para Morrer (2020), de Vinícius Neves Mariano, sobre uma sociedade que entra em colapso econômico após os idosos se tornarem a maioria da população. O que os obriga a fugir, para tentar burlar o seu destino. Em O Último Azul, o tema do etarismo também está no centro, em uma distopia semelhante à de Mariano, com os velhos sendo enviados a uma espécie de colônia comandada pelo governo, sob a desculpa de dar a eles uma velhice digna.

Nas aparências, as intenções do Estado parecem boas. Os empregados que conduzem os idosos se portam de forma gentil, a ponto de concederem distinções aos aposentados que alcançam a idade limite - e não deixa de ser excentricamente divertido ver Tereza (a ótima Denise Weinberg), chegando em casa depois de um dia de trabalho no frigorífico, se deparando com empregados do governo colocando uma espécie de coroa de louros banhada a ouro na fachada da modesta habitação da protagonista. Sim, isso pode sugerir algo simpático - "a senhora agora é um patrimônio vivo nacional", aponta a jovem que gruda a distinção. Mas não deixa de ser uma espécie de marcador que lembrará a todos a sua volta de que, ali, naquela casinha, reside uma velha. Que já deveria ter ido pra tal da colônia. Com tudo piorando quando Tereza se dá conta de que já deveria ter se aposentado de forma oficial há dois anos - ela está com 77 e a idade limite é 75.

 


Com receio, em um cenário de incerteza, Tereza, tenta buscar mais informações - sendo barrada em qualquer tentativa de deslocamento. "Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave", lhe lembra outro burocrata. A protagonista queria ainda fazer muita coisa - como por exemplo, voar de avião, algo que nunca teve oportunidade. Mas o simples ato de comprar uma passagem se torna pesaroso. Há a necessidade de aval de algum familiar - sendo a pessoa mais próxima a preocupadíssima filha Joana (Clarissa Pinheiro) que, pelo visto, não vê a hora de a velha ir pra Colônia. Sem muita alternativa, Tereza resolve desviar de sua rota. Pegando um barquinho para a pequena Itaquatioca, momento em que ela estabelece amizade com o enigmático barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresentará alguns mistérios da natureza profunda, como a existência de uma espécie de caracol mágico, capaz de revelar o futuro a quem tiver contato com a sua gosma. 

Nesse ponto, a obra também difere de Divino Amor, por apostar em elementos que unem o bucólico e o onírico como forma de dar andamento às ações mundanas. O que é reforçado por um desenho de produção de beleza naturalista e caótica em igual medida - como no momento em que a dupla passa por uma espécie de "cemitério" de pneus que fica na taipa do riacho -, e por uma trilha sonora de tintas envolventes. Simples, curiosa e divertida, a produção, que venceu o Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim e que chega à Netflix, expõe a insatisfação da população em geral com o afastamento obrigatório de seus familiares - "devolvam o meu avô", "gente velha não é mercadoria" dizem pixações nas paredes -, reservando para o terço final uma surpresa a respeito dos caminhos possíveis para driblar as imposições do Estado. Ao fim e ao cabo, os caminhos envolvem poder, religião e um ímpeto para a engambelação. Mas sem abrir mão do afeto. Nada mais Brasil real do que isso.

Nota: 8,5 

 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Grandes Filmes Nacionais - Praça Paris

De: Lúcia Murat. Com Grace Passô, Joana de Verona, Alex Brasil e Babu Santana. Drama, Brasil / Argentina / Portugal, 2017, 111 minutos.

Poucas vezes a esquerda acadêmica - aquela que habita as bolhas universitárias e institucionais, mas que muitas vezes se mantêm distante dos problemas reais do Brasil e de seu povo -, foi tão bem retratada como no caso da psiquiatra Camila, a personagem da luso-brasileira Joana de Verona, no filme Praça Paris. Aliás, este muitas vezes costuma ser um problema gritante do campo progressista: enquanto se empenha longamente em debates intermináveis no Twitter sobre a necessidade de adoção ou não de pronomes neutros, esquece que a massa trabalhadora tem muitas outras preocupações em seu cotidiano. Violência, racismo, desemprego, salário insuficiente, medo ou mesmo uma incerteza generalizada sobre o futuro. Ao cabo, uma mulher de classe média, bem nascida, que teve todas as condições de estudar e alcançar uma carreira como pesquisadora, tem condições de contribuir ou mesmo interferir na vida de uma mulher pobre, negra, periférica e que ainda carrega consigo uma série de traumas do passado?

Ok, a gente sabe que empatia é importante, e que mais do que nunca um senso de alteridade será mais do que necessário nesses casos. Mas será suficiente? Existe algo que é o País real com todos os seus conflitos, barulhos, rotinas e caos do dia a dia que talvez os intelectuais, enfurnados em seus apartamentos sempre posicionados na parte mais alta dos prédios sofisticados, em coberturas elegantes, regadas a vinhos finos e alimentação balanceada, talvez não enxerguem. Não é que não haja boa vontade. Às vezes até há. Mas nem sempre isso basta. Antes das eleições de 2018 ficou famosa a frase do cantor Mano Brown, dos Racionais MCs, que lembrava sobre a necessidade imediata da esquerda de reconquistar a multidão, para que se evitasse cair no precipício. "Tem que entender o que o povo quer e se não sabe, volta pra base", vociferava o artista em um discurso no Rio de Janeiro que ficaria famoso e que, em alguma medida, antecipava o caminho da nação rumo à extrema direita, enquanto o outro lado se perdia em abstrações. "Ninguém solta a mão de ninguém" e "ele não" dizia a esquerda festiva. Enquanto Bolsonaro tratorava o País.


 

Em alguma medida e de forma quase premonitória esse é o tipo de narrativa que guia a trama da produção da sempre ótima Lúcia Murat, do excelente Quase Dois Irmãos (2004). Além de terapeuta, Camila é uma pós-graduanda da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que está concluindo seus estudos sobre violência urbana no Estado. É nesse habitat seguro e distante da realidade, que a jovem começa a atender Glória (Grace Passô), que é ascensorista no campus e vive no Morro da Providência. Glória, mulher negra e periférica, tem uma vida diametralmente oposta à de Camila: no outro canto da cidade vive a rotina em meio às ruas apinhadas, os metrôs lotados e a busca por algum fiapo de afeto, qualquer que seja. Em seu cotidiano, também se ocupa de visitar o seu irmão Jonas (Alex Brasil), que está preso por conta de eventos passados que, aos poucos, serão esclarecidos. E como forma de adicionar ainda mais complexidade a tudo, Glória é frequentadora assídua de cultos evangélicos, onde é aconselhada pelo pastor vivido por Babu Santana. Nada mais Brasil do Brasil.

Ao cabo, esse é o tipo de filme que nos dá um balão justamente por quebrar as expectativas - especialmente no que diz respeito ás típicas narrativas de brancos salvadores, tão comuns no cinema hollywoodiano. Em certa altura, por exemplo, Glória acaba por ser agredida por um grupo de policiais, que acredita que ela possa estar funcionando como uma espécie de leva e traz de seu irmão que, mesmo preso, talvez esteja agindo nos bastidores para movimentar o tráfico. É época de UPP e as coisas mudaram no morro. A violência parte dos dois lados. Retaliações, agressões, ameaças. Camila acha que Glória deve denunciar essas ocorrências. Aliás, mais do que isso: crê na capacidade de a universidade ajudá-la de alguma maneira. Ledo engano. A faculdade, muitas vezes, parece pródiga em construir longos tratados teóricos sobre os problemas sociais, políticos, culturais e econômicos do Brasil. A portas fechadas, uma galera bem tratada a leite com pera, que perpetua seus privilégios se arroga ter a capacidade de tomar decisões a respeito do que ocorre nas favelas, nos rincões. Que Camila seja apenas uma portuguesa ressentida radicada no Brasil, talvez não seja por acaso. É parte dessa potente alegoria sobre um Brasil de contrastes em que mesmo aqueles que estão do mesmo lado, ou no mesmo campo, permanecem confortavelmente distantes, se alimentando da mesma estrutura racista que, supostamente, combatem. Filmaço que tá disponível na Netflix.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Novidades em Streaming - Pedágio

De: Carloina Markowicz. Com Maeve Jinkins, Kauan Alvarenga, Thomás Aquino, Aline Marta Maia e Isac Graça. Drama / Comédia, Brasil, 2023, 102 minutos.

Um filme que é um verdadeiro suco do Brasil urbano, conservador, evangélico, operário e repleto de contradições. Assim pode ser resumida a experiência com Pedágio, mais recente projeto da diretora Carolina Markowicz (de Carvão, 2022), que está disponível para aluguel nas plataformas de streaming Amazon e Now. Na trama, Maeve Jinkins é Suellen, mulher periférica que trabalha como cobradora em um posto de pedágio da região de Cubatão - que, com seu ar de metrópole apocalíptica e decadente, parece o cenário perfeito para uma narrativa atualíssima sobre preconceitos, dilemas familiares e angústias contemporâneas. Só que Suellen está exasperada com o comportamento afeminado de seu filho Tiquinho (Kauan Alvarenga), um adolescente que ocupa parte de seus dias gravando e publicando vídeos na internet, onde encarna divas sessentistas com direito a figurinos purpurinados e cenários coloridíssimos, no limite entre o brega e o moderno.

Só que o caso é que Suellen é uma mulher de hábitos mais tradicionais - pra não dizer antiquados. E, após dividir os seus problemas com a colega de trabalho Telma (Aline Marta Maia), está surge com a solução: um panfleto de divulgação de um curso em que um pastor de renome internacional se apresenta como alguém capaz de realizar a cura gay. Surpresa com o investimento necessário para a suposta qualificação - cerca de R$ 1.650 -, a protagonista resolve guardar dinheiro. O que envolve ainda a participação em um negócio escuso de roubo e repasse de joias, que é tocado por seu namorado/peguete Arauto (Thomás Aquino). Afinal de contas, no Brasil do trambique, em que muitos se pretendem paladinos da moral e dos bons costumes, não chega a surpreender a homofobia de uma mãe que, a despeito de seus esforços em um emprego cheio de complicações, prefere entrar para o mundo do crime do que ver seu próprio filho livre e feliz, independentemente de sua escolha sexual.

 

 

Em alguma medida, essa é uma obra exagerada, que condensa grande parte do mal estar da modernidade, que parece reforçado pela ascensão da extrema direita, do bolsonarismo e do combo que mistura milícias urbanas, religiosos mal intencionados e sujeitos de vida simplória em busca de alguma redenção. Assim, não surpreende que o pastor evangélico Isac (Isac Graça), surja como uma figura estereotipada, quase patética, daquele tipo que é capaz de censurar seus alunos por estes não conseguirem produzir uma "obra de arte" de gosto duvidoso, com massinha de modelar, no módulo de Significação da Genitália (sim, acredite). Em outro instante, um suposto curado aparece para valorizar o trabalho de ressignificação bioenergética proposto pelo pastor - ainda que o desconforto da situação como um todo seja palpável. "Queria muito colocar isso na tela de um jeito que fosse satírico, mostrando como a homofobia está tão absorvida pela sociedade, implicando de um jeito trágico na vida das pessoas", resumiu a diretora em entrevista à Revista Bravo!

O resultado desse conjunto é um intercâmbio de momentos risíveis, com outros mais reflexivos (ou dramáticos). A violência, ao cabo, parece estar sempre pelas bordas, pronta para eclodir - o que é reforçado pelo cinza melancólico dos cenários, dos ambientes. O que faz com que Tiquinho, por exemplo, viva pelas sombras, preferindo muito mais o silêncio e a troca de olhares como forma de comunicação - ainda que isso envolva uma série de confrontos com a própria mãe. Aliás, em certa altura Suellen chega a dar um ultimato no adolescente, que se recusa a passar pela tal terapia: ele só seguirá morando em sua casa se aceitar o tal tratamento alternativo. Complexo, excêntrico, moderno, kitsch e curiosamente engraçado, esse é aquele tipo de filme que entrega muito com pouco, discutindo temas variados sem nunca pesar a mão. "Muitos dos discursos e das práticas super violentas são reproduzidos por ignorância e não por ideologia. Nosso papel é capturar essas pessoas e tentar dar luz sobre a falta de entendimento das inúmeras possibilidades de existir no mundo", resumiu Jinkins em entrevista à Mídia Ninja, como que resumindo o propósito da obra.

Nota: 9,0


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Grandes Filmes Nacionais - Falsa Loura

De: Carlos Reichenbach. Com Rosanne Mullholand, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Suzana Alvez e Maeve Jinkins. Comédia / Drama, Brasil, 2008, 105 minutos.

"Como é aparentemente desconcertante isso que o homem chama de prazer! Que maravilhosa relação existe entre a sua natureza e o que se julga ser o seu contrário, a dor. [...] Procuremos um deles e estaremos sujeitos a encontrar também o outro." Mamma Bruschetta, Tiazinha do H, Léo Áquila, Maurício Mattar, Cauã Raymond como um roqueiro canastrão, Fellini, Almodóvar, um dia de princesa, musicais da Hollywood clássica e Sócrates - no caso o filósofo, não o jogador de futebol. Unir todos esses elementos que juntam o popular e o kitsch, com o cult e o erudito é o que o diretor Carlos Reichenbach fez com maestria em Falsa Loura, seu derradeiro filme, que está disponível para aluguel no Now. Uma experiência onírica, excêntrica, engraçada, capaz de evidenciar questões relacionadas à diferenças de classes e ao sonho de vencer na vida, com outros temas como o machismo e até mesmo a certa alienação juvenil.

Em linhas gerais, esse é o tipo de projeto que tenderia a irritar as pessoas, nos dias de hoje. Afinal de contas uma jovem operária muito consciente de sua beleza (vivida pela estonteante Rosanne Mullholand) em uma narrativa que tem como objetivo central conseguir ir a um show do artista popular do momento, não parece ter maiores atrativos. Mas essa me pareceu apenas uma desculpa bastante ousada do diretor para escancarar a misoginia que brota das periferias - e que pode ser ainda mais cruel com as mulheres pobres ou em condições mais vulneráveis. Ao cabo, como quase sempre na obra de Reichenbach, seus homens são rudes, broncos, toscos, entortados - meio incapazes de se comportar de forma decente, na presença de uma mulher. Esse é caso do roqueiro Bruno (Reymond), que se aproxima de Silmara (Mullholand) apenas porque ela é bonita e vai ser mais um trofeuzinho pra sua coleção. Mas também é o caso do pai de Silmara, um ex-presidiário cheio de contradições.

Sim, os homens podem não ter muita complexidade, mas a realidade é que eles são assim mesmo - vale a mesma regra pro malandrão Tito (Jiddu Pinheiro), um sujeito que beira o caricato não apenas no seu comportamento, mas nas vestimentas, no jeito de falar. Só que esse é um filme sobre mulheres e sobre a luta diária por ascensão, em um universo que parece valorizar certos padrões de beleza acima de tudo. E não por acaso em uma das primeiras sequências, Silmara arruma uma briga meio aleatória nos vestiários da fábrica em que trabalha, com a sua colega Briducha (Djin Sganzerla), a quem ela acusa de não se valorizar (mesmo tendo um corpo supostamente bonito). E o caso é que o comportamento meio avançadinho da protagonista faz com que ela seja acusada de se prostituir ou coisa do tipo. Até mesmo porque, vocês sabem, na cabeça doente desse mundo machista uma jovem não pode usar uma roupa curta, mais ousada ou o que quer que ela seja, sem ser taxada de... puta, claro.

Orbitando Silmara há ainda outras figuras, casos de Milena (Suzana Alves, a Tiazinha em pessoa), que parece adorar uma fofoca, de Regina (Luciana Brites), uma professora de dança insinuante e a vizinha Ligia (Maeve Jinkins), uma modesta professora, que também parece buscar um "lugar ao sol". Com uma paleta que se alterna entre o colorido cintilante e o cinza sorumbático (especialmente nas sequências que envolvem o pai de Silmara e seus relacionamentos escusos), a obra brinca com as possibilidades gramaticais do cinema, convertendo-o em uma fábula de gata borralheira moderna, urbana, de barulhos, movimentos e gentes diversas - com direito a karaokê brega, com as bolinhas pulando no acompanhamento da letra e mar fake, feito com uma lona plástica. "Você é mesmo operária? Poxa, mas você é tão linda", pergunta a empresária Cassandra (Deivy Rose), no terço final, como que antecipando a dor total de todas aquelas mulheres que, façam o que quiserem, parecerão apenas rodopiar indefinidamente no mesmo lugar. Especialmente em um cenário de tantos contrastes sociais como o nosso. Enfim, uma obra-prima que merece ser reconhecida!


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Grandes Filmes Nacionais - O Cheiro do Ralo

De: Heitor Dhália. Com Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Xico Sá, Silvia Lourenço e Milhem Cortaz. Drama, Brasil, 2006, 101 minutos.

Um dos personagens mais desprezíveis da história da literatura nacional - e do cinema. Assim podemos resumir o narcisista, niilista, egocêntrico e simplório Lourenço, encarnado por Selton Mello em O Cheiro do Ralo com uma naturalidade desconcertante. Esse é o tipo de sujeito que faz com que o espectador só consiga torcer contra e, por mais paradoxal que seja, esse é um elogio. O entorno desse anti-heroi é pornograficamente sem graça. Proprietário de uma espécie de casa de penhores, ocupa seus dias ordinários avaliando objetos e, adquirindo, aqui e ali e de acordo com a cara do interlocutor, aquilo que acredita ter algum valor. Se por um lado, despreza um homem que lhe oferta uma caneta de ouro, de outro considera interessante comprar um olho de vidro. O que adicionará uma pitada a mais de estranheza a essa narrativa putrefata dirigida por Heitor Dhália a partir do livro de mesmo nome, escrito por Lourenço Mutarelli.

Sombrio e cômico em igual medida, esse é aquele tipo de projeto que discute as relações de poder no capitalismo - e como o dinheiro pode determinar os rumos (ou não) dos acontecimentos. Frequentador assíduo de uma lanchonete vizinha, Lourenço meio que se apaixona (ou algo do tipo) pela garçonete do local (vivida por Paula Braun). Quer dizer, não é exatamente uma paixão. Ele está é encantado pela bunda dela, executando malabarismos para que possa enxergá-la em seus melhores ângulos. Só que, incapaz de sociabilizar com ela de maneira decente - um convite pra sair, que seja, um jantar, algo mais rotineiro - comenta com ela que "pagaria para ver a sua bunda". Para quem utiliza a exploração financeira (e mesmo as dificuldades decorrentes desse cenário) de forma perversa com os seus clientes e empilha objetos de forma desvairada, pagar para ver um traseiro poderia ser algo normalizado? Talvez. Mas o caso é que o episódio apenas evidencia a inaptidão social do protagonista.

E há ainda o ralo. E o cheiro. Como uma metáfora para uma existência que fede. Que exala um odor fétido, podre por todos os seus cantos - e nem é preciso ser um especialista em alegorias para captar essa. Em cada negociação, independente do cliente, seja homem ou mulher, Lourenço alertará para o cheiro ruim do ambiente. "É o ralo, o ralinho, ali do banheiro, que tá com problema". Ele parece ter vergonha da coisa toda, ainda que jamais se envergonhe de seu comportamento nauseabundo, arrogante, insensível, torpe. Como forma de tentar conter o problema chama um encanador que, pra surpresa dele, quer cobrar um bom valor pelo serviço. Que ele recusa. Tornando tudo ainda pior quando ele mesmo tenta resolver a questão com um método pouco usual: tampando o ralo com uma mistura de cimento. O que, de forma ainda mais simbólica, evidenciará a perda de controle sobre tudo.

Filmado com uma fotografia em tons pasteis que se somam a figurinos quadrados, o conjunto reforça o aspecto vulgar, rotineiro daquilo que acompanhamos. Não há muito escape, que não seja para a recepção do estabelecimento ou para idas eventuais à lancheria - sendo tudo meio claustrofóbico, limitado geograficamente. Orbitado por diversos personagens, especialmente clientes excêntricos - com suas esquisitices e julgamentos - o dia a dia de Lourenço é o da mais pura alienação (e não chega a surpreender que sua válvula de escape em busca do prazer seja o de pagar um caminhão de dinheiro para que uma jovem fique nua enquanto ele se masturba). Sim, o cinema de Dhália pode ser provocativo, ousado, daqueles que nos deixa meio desconfortáveis. Mas é inegável ver uma obra que examina de forma tão eficiente a condição humana em sua versão mais detestável.

 

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Novidades em Streaming - Paloma

De: Marcelo Gomes. Com Kika Sena, Ridson Reis e Wescla Vasconcelos. Drama, Brasil, 2022, 104 minutos.

"Eu num sei nem por onde começar... [...] Seu Papa. Meu nome é Paloma. Vivo e trabalho aqui em Saloá como agricultora e, às vezes, faço bico de cabeleireira. Vivo amigada com o meu marido Zé. Com ele crio a minha filha Jennifer, o presente mais maravilhoso que Deus me deu. Nasci homem, mas sou mulher. Todo mundo aqui sabe disso. Já errei muito nessa vida, seu Papa, mas depois que eu conheci o Zé, eu vivo uma vida digna e decente como qualquer outra mulher. Me considero fia de Deus como qualquer outra pessoa. Já me batizei, fiz a primeira eucaristia, a crisma, agora só falta realizar o meu maior sonho que é casar na Igreja. E eu sei que só o senhor pode autorizar isso. E é por isso que estou lhe escrevendo essa carta. Pra pedir ao senhor que conceda permissão ao padre João Manuel para que ele possa fazer o meu casamento. E, assim, me tornar a mulher mais feliz do sertão."

Vamos combinar que não poderia ser mais comovente o instante em que Paloma (Kika Sena) dita à sua amiga Kelly (Wescla Vasconcelos) uma carta com esse pedido singelo: o de poder casar. Com véu, grinalda, Igreja decorada e tudo que se tem direito. Como mulher trans, ela já está familiarizada com as barreiras impostas pela própria Igreja e seus dogmas um tanto ultrapassados - e que, em tempos de ódio, de preconceito e de intolerância como os da atualidade (reforçados pelo recente governo de morte de Bolsonaro), parecem mais vivos do que nunca. Só que Paloma é uma mulher devota. Ela sequer pode entrar na Igreja, numa daquelas contradições legítimas do Brasil - esse País conservador e cheio de fé, capaz de converter pessoas periféricas e minorias em admiradores ardorosos da extrema direita, das elites e de outras instituições poderosas. Por quê Paloma, como mulher negra, nordestina, trans, analfabeta e pobre deseja tanto se casar da forma mais tradicional possível? 

 


Talvez o que esteja em jogo para ela seja o processo que a reafirmaria como mulher. Dotada de direitos e capaz de realizar sonhos - como o do casamento. Então, quando a nossa carismática protagonista encosta seu rosto anguloso, de olhar expansivo e de sorriso sonhador, no batente da porta para ditar a sua missiva, a gente apenas está torcendo para que sua intenção seja atendida. É um instante afetuoso, em partes divertido - Kelly reclama da amiga, pede pra que ela não dite tão rápido por que ela "não é uma máquina de escrever". E o poder desse filme de Marcelo Gomes - dos excelentes Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Estou Me Guardando Pra Quando o Carnaval Chegar (2019) é o de despertar em nós também a empatia. A capacidade de olhar o outro como um ser humano. Que tem sonhos, incertezas, medos, desejos. Que ama. Ama como Paloma ama a sua adorável filha. Seus amigos e amigas - especialmente as gurias do bordel, com que se sente confortável em suas dores. O marido Zé (Ridson Reis). É um filme de Brasil: de terra e de seca, mas também de carne e de alma.

E Paloma permanece o filme inteiro na luta determinada pra tentar juntar dinheiro pra consolidação do matrimônio. Como peoa que trabalha na colheita de mamão, ela parece ser mais cobrada pelos seus empregadores. Os olhares parecem sempre mais voltados à ela. Nas ruas, os comentários debochados ao fundo. No bar local a violência que emerge do nada. Na Igreja, a impossibilidade de sonhar. Em casa, as dúvidas. Pra quem convive com o preconceito, esses elementos parecem apenas integrar a paisagem. O cotidiano. A rotina. Ela vai apenas se acostumando, ainda que a violência pareça sempre se avizinhar. Por isso que talvez ela ceda diante do assédio de um motorista de caminhão. Até que ponto dá pra enfrentar uma série de humilhações e de injustiças e de ainda levantar a cabeça ao ver o direito de simplesmente amar alguém ser negado? Essas incertezas também pairam no entorno. E afligirão outras pessoas. O que comprovará que o casamento em si talvez seja o menor dos problemas. A questão central está em fazer a sociedade compreender. Acolher as diferenças. Sair da hipocrisia e do reacionarismo tacanho. E, assim, evoluir.

Nota: 9,0


terça-feira, 23 de maio de 2023

Novidades em Streaming - Noites Alienígenas

De: Sérgio de Carvalho. Com Gabriel Knoxx, Chico Diaz, Gleici Damasceno, Joana Gatis e Adanilo Reis. Drama, Brasil, 2022, 89 minutos.

Primeiro filme do Acre a ser distribuído para o País, Noites Alienígenas mostra, de forma sutil, uma história de violência que avança sem muito controle, em uma região repleta de contrastes. Até os letreiros que surgem antes dos créditos finais - que citam o aumento assombroso de casos de assassinato de jovens no Estado, a partir do avanço de facções ligadas ao tráfico de drogas vindas da região Sudeste - a gente fica meio que "caçando" um sentido a mais para aquilo que assistimos. De alguma maneira trata-se de um painel que evidencia a complexidade das relações no Norte, fazendo colidir hábitos e costumes de povos originários com o enfrentamento da violência urbana que parece bordejar o cotidiano de todos ali. Na trama dirigida por Sérgio de Carvalho são três os personagens centrais: Rivelino (Gabriel Knoxx), Sandra (Gleici Damasceno) e Paulo (Adanilo Reis), três amigos de infância que residem na capital Rio Branco.

Criativo do ponto de vista artístico, Rivelino é um postulante a rapper apaixonado por grafite que ganha a vida vendendo drogas na boca mantida por Alê (o veterano Chico Diaz). As perspectivas são absurdamente poucas, a ponto de o jovem procurar os integrantes de um grupo criminoso mais bem organizado para tentar ampliar seus negócios. O que dá uma dimensão do baixíssimo senso de oportunidade do local. Nas ruas, entre idas e vindas, parece haver um saudável apelo para as artes - com os desenhos do jovem sendo espalhados de forma quase amadora, assim como são os encontros de hip hop. Quais os caminhos então? Para Paulo, um viciado em drogas, a situação é ainda pior já que ele parece estar sempre na "fissura". Pai de um filho de Sandra, vive na dependência química zanzando pela vila em maio a súplicas por dinheiro ou empreendendo pequenos furtos que sustentem seu vício.


Já Sandra, a jovem mãe negra que parece a única disposta a uma vida mais regrada - sonha em ser estudante de medicina enquanto se ocupa como caixa de um supermercado - encontra uma espécie de refúgio nas batalhas poéticas conhecidas como slam. De alguma maneira esse é um filme sobre complexidades, contrastes, potências e choques. Paulo, por exemplo, parece renegar a sua ancestralidade ao funcionar quase como uma caricatura do viciado. Por outro lado, Rivelino parece viver às turras com a mãe Beatriz (Joana Gatis), ao mesmo tempo em que sonha com uma vida melhor. Ao cabo essa é uma experiência sobre incertezas e sobre realidades fragmentadas - são muitos os personagens, inúmeras as vivências e uma carga emocional forte que parece colocar frente à frente ancestralidade e o progresso. Progresso mesmo? É um tipo de complexidade meio diluída em nuances.

Noites Alienígenas venceria cinco prêmios Kikito no Festival de Gramado do ano passado - além de Filme Brasileiro (batendo Marte Um, 2022), Melhor Ator para Gabriel Knoxx, Melhor Ator Coadjuvente para Chico Diaz, Melhor Atriz Coadjuvante para Joana Gatis e prêmio da crítica, além de uma Menção Honrosa para Adanilo. E para além do "filme-favela" essa é uma experiência que flerta com o realismo fantástico, ao colocar a suposta invasão alienígena como uma espécie de alegoria para a submissão das minorias, muitas vezes subjugadas e até escravizadas em contextos de opressão. Os povos indígenas estão ali, funcionando como um espectro que delimita - com seus hábitos, costumes, tradições. Sendo invadidos não apenas pelas facções do crime, mas também pelas igrejas evangélicas que avançam como um câncer especialmente em épocas de bolsonarismo. Nesse sentido, a cobra que se instala lentamente ainda no começo do filme talvez não esteja ali por acaso: ela é um símbolo. Uma metáfora pra esse cenário de tensionamento. E de disputas de poder.

Nota: 7,5


quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Grandes Filmes Nacionais - Cidade de Deus

De: Fernando Meirelles e Kátia Lund. Com Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino, Phellipe Haagensen e Seu Jorge. Drama / Policial, Brasil / França / Alemanha, 2002, 129 minutos.

Em uma das tantas cenas impressionantes de Cidade de Deus, Zé Pequeno (Leandro Firmino) circula pela favela que dá nome ao filme, em uma caçada à gangue juvenil conhecida como "caixa baixa". Iniciantes no universo do crime, os caixa baixa não passam de um grupo de trombadinhas pré-adolescentes que efetuam furtos na comunidade - mas que anseiam por voos maiores. Zé Pequeno e seus asseclas encontram os meninos - sim, são meninos de no máximo dez, doze anos - em um beco. E os enquadra. Mais do que isso, tortura-os psicologicamente. Ameaça-os. Grita. Atira no pé de um. Mata outro. A sangue frio. Sem muita negociação. Um dos meninos que sobrevive, e que não deve ter mais do que oito anos, chora copiosamente. De forma comovente. Se havia ainda alguma dúvida a respeito da natureza violenta e assustadora de Zé Pequeno, ela está aqui resolvida. Não se salva ninguém. Adulto, criança, idoso. Playboy, mano, branco, rico, pobre. Qualquer um que ameaçar os seus negócios na Cidade de Deus, é bala.

Baseado em fatos reais, o clássico de Fernando Meirelles e Kátia Lund se tornaria o segundo filme estrangeiro mais visto no mundo - atrás apenas de Intocáveis (2011), a simpática obra francesa. Receberia também quatro indicações ao Oscar. Os méritos, afinal, não são poucos. A começar pelo aparato técnico, que envolve o estilo de filmagem frenético, urgente - que faz lembrar um videoclipe -, passando pela montagem inventiva, trepidante e cheia de trucagens, até chegar ao elenco, composto em sua maioria por atores não profissionais. E este último elemento tem um motivo simples: o de que não havia atores negros no Brasil em número suficiente para esse tipo de filme. Sendo a solução a montagem de uma oficina de teatro no seio da comunidade, e que envolveria um grupo de cem amadores. O resultado? Bom, basta assistir a Leandro Firmino em cena, por exemplo, com sua caracterização furiosa de Zé Pequeno. Aliás, a sentença "Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno porra!" entraria para o imaginário popular como uma das grandes frases do cinema. E não é para menos.

 
Sem ter necessariamente um protagonista - e eu quero evitar a obviedade de falar na própria favela como personagem principal -, a trama é narrada por Buscapé (Alexandre Rodrigues), fotógrafo amador que se vê em meio a uma confusão envolvendo uma galinha, ainda no começo do filme. Ali estamos em meio a uma Cidade de Deus já corrompida, com a ave simbolizando a luta desigual que fará a corda romper pro lado mais fraco. Voltando no tempo, para o começo dos anos 60, seremos apresentados ao conjunto habitacional como um lugar meio idílico, que servia como espaço para realocação de famílias pobres por parte do Estado. É nesse ambiente de partidas de futebol e de comércio informal que se formará o embrião da violência a que seremos apresentados duas décadas mais tarde. Da queda do Trio Ternura a ascensão de Zé Pequeno como chefe de quadrilha, tudo é narrado por Buscapé com olhar de um atento observador. Em meio a disputas de poder, o sangue jorra, ao passo em que os cartéis avançam. É tudo frenético, intenso, quente. O suor, o calor, parecem sempre palpáveis. Saltam da tela.

Orbitando ao redor de Zé Pequeno e Buscapé, outros personagens vão, aos poucos, ganhando espaço. A edição se reorganiza em torno de elipses em que o dito fica pelo não dito. Parceiro de Zé Pequeno, Bené (Phellipe Haagensen) tem personalidade oposta. Ainda que seja um criminoso possui um código de ética mais bem resolvido. Mais do que isso, é mais pacífico que o companheiro. As coisas podem desandar, como desandarão (e a inesquecível sequência do baile de despedida de Bené é mais um daqueles instantes que comovem e assustam). Por fim há ainda Mané Galinha (Seu Jorge), um simples cobrador de ônibus que entrará nesse ciclo de violência para uma tentativa de vingança. Se unindo para isso a Cenoura (Matheus Nachtergaaele), rival de Pequeno. Só que o problema é esse: quem entra, não sai. Quem tenta sair acaba preso. De forma redundante. As punições serão dignas de tragédia shakespereana urbana. Traições, surpresas, reviravoltas. Casos que pareciam resolvidos, mas não estavam. Abandono. Inércia. Ao cabo, o que vai, um dia volta. Comprovando o mais básico dos chavões: o de que violência gera mais violência. Indefinidamente.
 

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Grandes Filmes Nacionais - Bye Bye Brasil

De: Cacá Diegues. Com José Wilker, Betty Faria, Fábio Jr., Zaira Zambelli e Príncipe Nabor. Drama, Brasil, 1979, 102 minutos.

A última cena de Bye Bye Brasil, já na conclusão dos créditos finais, exibe uma frase tão prosaica quanto profética: "ao povo brasileiro do Século 21". Assim, o filme de Cacá Diegues apresenta uma espécie de dedicatória à população do futuro - algo bastante significativo em uma obra que parece elaborar algum tipo de ode à cultura nacional (suas trupes mambembes, os artistas itinerantes, o regionalismo efervescente e a luta pela sobrevivência, especialmente em lugares áridos como o sertão nordestino), ao passo que olha com certo desalento para os avanços tecnológicos e para uma certa tendência ao consumo fácil dos tempos modernos. Nesse sentido, talvez não seja por acaso o fato de os telhados cobertos com "espinhas de peixe" - como Lorde Cigano (o protagonista vivido por um magnético José Wilker) chama as antenas de TV -, gerarem tanto impacto. Afinal de contas, com as novelas chegando aos recantos do País no final dos anos 70, quem ainda se interessará por espetáculos itinerantes à moda de um vaudeville tropical?

Ao lado de Salomé (Betty Faria) e Andorinha (Príncipe Nabor), Cigano integra a caravana Rolidei - o nome aportuguesado também vem ao encontro dessa dicotomia que coloca a brasilidade do povo, dos índios, das florestas e das belezas naturais como um contraponto ao supostamente pretendido "País do futuro", moderno, utópico, evoluído (ou apenas colonizado, uma nação que agora "tem neve") - que leva às pequenas cidades bem longe das capitais um show de mágica, de danças e de outras atrações como o "homem mais forte do mundo". Em uma das primeiras paradas o jovem Ciço (Fábio Jr.) fica encantado com o grupo, juntando-se a eles e levando a tiracolo a esposa grávida Dasdô (Zaira Zambelli). Hábil sanfoneiro, Ciço acredita nessa quimera artística como uma possibilidade de deixar a seca e a falta de oportunidades para trás. Ao lado do trio principal, se apaixonará pela misteriosa Salomé, ao passo que terá de lidar com as investidas de Cigano, que se afeiçoa de Dasdô.



Mas muito mais do que um filme de amor, esse é um filme de ruptura. Uma obra que reflete sobre algo que fica para trás, pelo caminho, para que possamos olhar pra frente - e, sinceramente, é quase impossível não estabelecer um paralelo com o contexto político do Brasil, à época, que com cerca de 15 anos mergulhado em uma Ditadura Militar, começava aos poucos a olhar mais carinhosamente para frente, para a abertura que viria mais adiante. "Bye, bye Brasil / A última ficha caiu / Eu penso em vocês night'n day / Explica que tá tudo ok / Eu só ando dentro da Lei / Eu quero voltar podes crer / Eu vi um Brasil na TV / Peguei uma doença em Belém / Agora já tá tudo bem" canta Chico Buarque na canção que dá nome ao filme, como que estabelecendo esse contraponto, essas idas e vindas e até algum grau de incerteza sobre aquilo que está por vir. E que dependerá do "povo do Século 21" para que permaneça uma perspectiva racional em meio à forte influência estrangeira.

E assistir uma experiência tão brasileira em tempos tão assombrosos como os atuais - de destruição da Amazônia, de assassinato de povos indígenas, de supressão de direitos e de desmantelamento generalizado de tudo que diga respeito ao nosso patrimônio - é constatar como esse road movie felliniano de Diegues segue dolorosamente atual. Alternando momentos mais cômicos com outros melancólicos, o diretor converte o filme em uma espécie de homenagem ao povo, seu esforço diário na busca pela felicidade, pelo dinheiro, pela comida na mesa - pela Altamira que simbolizará os dias melhores. "Os europeus, especialmente os franceses, viram isso como um filme triste sobre o fim de um mundo. Para americanos e sul-americanos, por outro lado, era um filme esperançoso sobre um novo modo de vida, uma cultura que acabara de nascer" afirmou Diegues em entrevista ao site Teleráma, como que que avalizando justamente a complexidade de interpretações possíveis para obra que, mais tarde, se tornaria a 19ª melhor da história para os votantes da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Tá disponível no Mubi e vale resgatar.


segunda-feira, 18 de abril de 2022

Grandes Filmes Nacionais - O Que É isso, Companheiro?

De: Bruno Barreto. Com Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães e Mathes Nachtergaele. Drama / Suspense, Brasil, 1997, 111 minutos.

"É um argumento dos aristocratas, esse dos crimes que uma revolução implica. Eles esquecem-se sempre dos que se cometiam em silêncio antes da revolução". Na semana em que áudios inéditos do Superior Tribunal Militar confirmam a prática de tortura durante a Ditadura Militar (1964-1985), a frase atribuída ao escritor francês Stendhal, reproduzida acima, parece ganhar ainda mais significado. Uma revolução, afinal, não se faz com palavras - ou "com luvas de seda", como dizia Stalin. Para o bem ou para o mal os eventos vistos no clássico moderno O Que É Isso, Companheiro? - adaptação de Bruno Barreto para o livro de Fernando Gabeira e que está disponível no Mubi - possuem essa dose de idealismo de que para combater governos autoritários é preciso pegar em armas e lutar. Durante os 21 anos de opressão no Brasil não são poucos os documentos que revelam abusos praticados por órgãos de repressão ligados ao exército e que violavam um sem fim de direitos humanos.

Não se tratavam apenas de violências físicas e psicológicas contra adversários políticos dos militares. Qualquer pessoa que se colocasse contra o regime, que os questionasse, especialmente a partir da promulgação do famigerado Ato Institucional Número 5 - decreto publicado em dezembro de 1968, durante o governo Costa e Silva - estava sujeito a ser preso e punido. Não havia mais espaço para protestos. A imprensa e os artistas sofriam censura. Dissidentes era punidos. Direitos políticos eram suspensos. Uma simples reunião com pauta política poderia não ser autorizada. Era a derrocada da democracia brasileira que, ao cabo, precisava ser, de alguma forma, parada. Que foi exatamente o que aconteceu quando um grupo de estudantes abraçou a causa e se aliou a luta armada - e a coletivos como o Movimentos Revolucionário Oito de Outubro (MR8) e a Ação Libertadora Nacional (ABL), grupos organizados e mais radicalizados, que operavam na base do "olho por olho e dente por dente".


Foi nesse cenário, já em 1969, que um grupo ligado a esses movimentos perpetrou um plano que visava libertar 15 presos políticos que estavam trancafiados nos porões da ditadura. A ação tinha o objetivo de sequestrar o embaixador dos Estados Unidos Charles Burke Elbrick (Alan Arkin), chamando a atenção do mundo para os abusos que vinham ocorrendo no Brasil. Liderados pelo guerrilheiro Jonas (Matheus Nachtergaele), o coletivo que mesclava estudantes, jornalistas e intelectuais, com líderes políticos de esquerda e outros revolucionários, elaborou a estratégia que conduziria a operação. No filme, toda a tensão envolvendo o momento político brasileiro é recriada por meio de um excelente desenho de produção e com uma fotografia levemente acinzentada, que acentua o sentimento de desolação permanente vivido naquele período. Ao cabo trata-se de uma experiência que funciona muito bem no limite entre o thriller policial e o drama político.

Já o elenco é um verdadeiro show a parte, com nomes como Fernanda Torres, Luiz Fernando Guimarães, Pedro Cardoso, Cláudia Abreu, Marco Ricca e Selton Mello interpretando papeis relevantes na trama - isso sem citar as participações especiais de Othon Bastos, Fernanda Montenegro, Alessandra Negrini, Milton Gonçalves, Eduardo Moscovis, Nelson Dantas e até Lulu Santos. O resultado de tanta grandiosidade seria não apenas uma experiência que ganharia projeção internacional, como ainda figuraria na cerimônia do Oscar de 1998 - sendo lembrado na categoria Filme em Língua Estrangeira. Em tempos tão beligerantes como os que vivemos, com parte da população sonhando de forma quase delirante com uma "intervenção militar", obras como O Que É Isso, Companheiro? servem para nos lembrar do quão dolorido é um governo ditatorial. Sim, em um cenário tão bizarro como o atual, o filme soa quase datado - e até excessivamente romântico em sua abordagem. Mas a trama - bem como a necessidade de questionar - segue atemporal.


quinta-feira, 3 de junho de 2021

Grandes Filmes Nacionais - Xingu

De: Cao Hamburger. Com João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat e Maria Flor. Drama / Aventura, Brasil, 2012, 102 minutos.

Poderia ter sido uma missão potencialmente violenta - com disputa por terras, morte e sangue. Mas sob a liderança dos Irmãos Villas-Bôas, o possível caráter militarista da Marcha Para o Oeste - expedição de contato, pacificação e respeito aos povos indígenas da região centro-oeste brasileira, nos começo dos anos 40 - transformou o Parque Indígena do Xingu na primeira terra indígena homologada pelo Governo Federal (no caso, por Jânio Quadros, nos anos 60). Significa que foi fácil? Sem pressões variadas, como as de uma ainda embrionária Bancada do Boi? Sem excessos burocráticos? Não. Foi difícil. Foi complexo. Exigiu um grande empenho. Especialmente de Leonardo (Caio Blat), Cláudio (João Miguel) e Orlando (Felipe Camargo), os três irmãos que, ainda jovens, partem para a expedição Roncador-Xingú, no coração do Brasil Central, com o objetivo de desbravar as regiões Norte e Centro-Oeste, com vistas a promover o desenvolvimento, a partir da criação de pequenos núcleos de colonização.

Era o Governo Vargas e o Estado Novo se impunha também como política migratória, que buscava o crescimento econômico em regiões consideradas pouco povoadas - o que incluía também o desenvolvimento da malha ferroviária, considerada estratégica dentro dessa política. Não por acaso, na época, foram criadas zonas de habitação em Goiás, Amazonas, Mato Grosso, Pará e Maranhão. E tudo isso, de alguma maneira, nos é mostrado no inadvertidamente nacionalista (no melhor sentido da palavra) no ótimo Xingú, do diretor Cao Hamburger (Filhos do Carnaval). Do contato inicial e cheio de dúvidas com as diversas etnias indígenas locais, até a consolidação do Parque como uma espécie de contrapartida as políticas públicas excessivamente desenvolvimentistas da época, a obra mostra os pequenos conflitos com latifundiários da região, os diversos interesses nas terras, e o sonho de um modelo de reforma agrária que pudesse valorizar a agricultura familiar.

Nesse sentido, o filme não deixa de ter um caráter idílico, de comunhão entre homem e natureza e de respeito às mais diferentes culturas, bem como seus hábitos, costumes, vestimentas, danças. Colocados em espectros opostos, brancos e índios estabelecem um contato que funciona quase como um sonho pacifista (especialmente em tempos em que o massacre de povos tradicionais inteiros parece fazer parte de uma espécie de agenda "paralela" governamental). Empenhados em promover o desenvolvimento local, mas sem necessariamente aniquilar os grupos originários, os Irmãos Villas-Boas são até hoje colocados ao lado de figuras proeminentes da área da educação e da antropologia, como Darcy Ribeiro e Marechal Rondon, especialmente pelo emprego de uma agenda que visava a preservação dos índios, quando em contato com a cultura dos brancos. O que, em muitos casos, resultou em choque com latifundiários, madeireiros e outros, contrários as políticas indianistas.

Talvez essa seja, ao cabo, uma obra otimista demais para os tempos que vivemos. Mas alternando momentos de confraternização - como aquele em que o grupo de brancos aparece participando de rituais de dança das tribos -, com outros mais comoventes, como quando comunidades indígenas inteiras são dizimadas por "gripes" e outras doenças de branco, Cao traz complexidade à obra, que não se encerra com a criação do Parque em si, uma vez que ele segue permanentemente sob ameaça (com desmatamento, garimpo ilegal, invasões e outros). Mas nos dá um respiro sobre uma existência possível com o diferente. Tecnicamente bem executado (as tomadas aéreas são belíssimas, e o desenho de produção, como não poderia deixar de ser, é amplamente naturalista), o filme não passa pano para as deficiências desse tipo de contexto, afinal de contas, até onde podemos "interferir" quando o assunto são os povos originários? E quais os caminhos para que seja assegurada a manutenção de suas vidas, e daquilo que é fundamental para que sobrevivam? Sim, são perguntas de difícil resposta.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Grandes Filmes Nacionais - O Palhaço

De: Selton Mello. Com Selton Mello, Paulo José, Giselle Motta, Teuda Bara e Larissa Manoela. Comédia dramática, Brasil, 2011, 90 minutos.

Existe uma cena que gosto demais em O Palhaço e que, de alguma forma, representa o elogio ao poder transformador da arte que, ao cabo, não deixa de ser um dos arcos narrativos da película. Após se desligar da companhia circense por uma temporada para alcançar o seu grande objetivo de vida - no caso, comprar um ventilador -, o palhaço Benjamin (Selton Mello) resolve retornar para o grupo. Em um caminhão de boias frias - cheio de pessoas entristecidas, certamente pela brutalidade daquele ambiente que as oprime -, ele inicia uma pequena sessão de palhaçadas, que arrancará uma doce risada de uma das passageiras. É ali, naquele pequeno instante tão singelo que, para nós, espectadores, rola uma espécie de epifania: é quando percebemos a essência daquilo que estamos acompanhando. Qual a ideia central por trás da história da trupe do Circo Esperança. Um coletivo provavelmente muito parecido com tantos outros que percorrem o Brasil. Aos trancos e barrancos, tentando levar um pouco de cor para as comunidades. De vida. De alegria mesmo. Retirando-as, nem que seja por uma hora, da dureza dos dias.

Falando em cor, é preciso que se diga que o filme as utiliza de forma soberba. Nos rincões empoeirados, tudo é quente, sufocante, desértico. O amarelo do sol parece ocupar todos os cantos, quando os caminhões do circo aparecem pela primeira vez em cena. Mas quando a primeira sequência no picadeiro aparece há uma palpável vivacidade, as cores são nítidas, fortes, vibrantes. A cada comentário jocoso dos palhaços Pangaré (Mello) e Puro Sangue (Paulo José), a plateia se extasia em uma meio a uma "névoa" quase mística, uma aura de sonho, onírica, à moda de um cinema tão felliniano quanto regionalista. É bonito de ver esse contraste porque ele estabelece já na origem aquilo que mencionei no parágrafo acima: em meio a apresentação do circo a alegria é transmitida em todos os detalhes: nos curiosos objetos cênicos, no excêntrico figurino, na trilha sonora curiosa e divertida, na agudeza do olhar dos que assistem... é nesse instante que as dores do mundo ficam lá fora. Distantes da lona do circo.

Mas é claro que nem tudo são rosas para a trupe. Aliás, bem pelo contrário: nos bastidores, sai a alegria e a jovialidade para entrar a descrença (e a pindaíba). Com o público contado praticamente nos dedos - e um grupo de mais de dez pessoas para se alimentar, viver, mandar dinheiro para parentes -, a escassez tem aumentado. O que tem sido um peso para Benjamin que, acumulando um cargo estilo "gerente geral", tem tido dificuldade de organizar o todo. Sequer um sutiã novo para a Dona Zaira (Teuda Bara) ele é capaz de providenciar. Isso pra falar de algo simples. Já o calor sufocante, faz ele praticamente delirar com o sonho do ventilador próprio - o que se torna uma espécie de propósito de vida, como já comentado. Bom, não vai demorar para que Benjamin se sinta efetivamente sobrecarregado - o que ocorre em meio a uma apresentação em que as coisas saem do controle - e ele realmente resolva dar um tempo para tudo. Sim, o tempo. A gente sabe: também costuma dar aquela força.

Em linhas gerais o filme é de uma simplicidade quase modesta demais - e talvez a ausência de uma maior densidade narrativa incomode alguns espectadores. Acompanhamos o grupo, suas dificuldades financeiras, a tentativa de levar alegria às pequenas comunidades, em um contexto de pobreza, quase de desilusão. No meio do caminho, uma parada na casa de um prefeito para um jantar opulento - uma das cenas mais divertidas, por sinal -, um problema no caminhão do grupo que os fará desviar da rota e as paradas aleatórias em bares, fazendas e outras instalações pelo caminho. Como andarilhos, o grupo vai desbravando o mundo, enquanto se empenha naquilo que ama. E, pra mim, sinceramente, não precisa muito mais do que isso. Há ainda um sem fim de participação especiais - do falecido Jorge Loredo, passando por Moacy Franco, Ferrugem, Fabiana Karla -, além da jovem Larissa Manoela que, aos nove anos de idade, representa o sonho do futuro fazendo aquilo que ama: no caso ARTE. No ano em que foi enviado para o Oscar sequer chegou aos finalistas. Mas, aqui no Brasil, é um dos 100 Melhores Filmes Nacionais da História, de acordo com lista elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Uma boa credencial.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Grandes Filmes Nacionais - Estômago

De: Marcos Jorge. Com João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani e Paulo Miklos. Comédia / Drama, Brasil, 2007, 108 minutos.

"A minha arte é a gastronomia, é dessa alquimia que eu transformo o meu mundo". A frase atribuída ao chef de cozinha Maxwell Di Manno tem absolutamente tudo a ver com o filme Estômago, do diretor Marcos Jorge. Afinal, arte e boa comida se misturam nessa obra que prova a capacidade transformadora do domínio da boa cozinha - seus pratos, ingredientes, utensílios. Os mais antigos brincavam sobre terem sido "conquistados pelo estômago" na hora da escolha de seus pares. Você já ouviu essa frase de algum parente, algum conhecido. E ela faz todo o sentido. Cozinhar é uma alquimia. Um tipo de mágica quase divina. Que modifica completamente a existência de Raimundo Nonato (João Miguel), protagonista da obra. Nonato é um sujeito pobre, de origem nordestina, que vai parar no subúrbio de uma grande cidade em busca de trabalho: perambula pela noite, até parar num boteco daqueles que vendem pasteis e coxinhas banhentas. Está com fome, sem lugar pra dormir. De forma truncada oferece serviço em troca de comida. De uma cama.

Com idas e vindas no tempo, o filme nos faz perceber que Nonato está, atualmente, preso. A trucagem narrativa nos levará, mais tarde, a entender o que de fato aconteceu. Na prisão, o rapaz é um sujeito qualquer. Dorme no chão misturado com outros presos, come a gororoba oferecida aos detentos pelo Estado. Mas numa conversa prosaica anuncia que sabe cozinhar. Que com ingredientes simples como alho, cebola e alecrim pode fazer a mágica acontecer. Os demais presos mexem os pauzinhos - especialmente Bujiú (Babu Santana, que recentemente integrou o "elenco" do BBB), o líder da gangue (ou da cela) local. Nonato começa a cozinhar. Ganha o respeito dos demais. Galga posições na hierarquia do presídio, passa a dormir em uma cama, com colchão e tudo. Quanto mais elaborados forem os pratos, mais saborosas forem as misturas, maior ele será. Todo mundo gosta de comer bem, afinal - dos presos de Bangú aos grandes empresários paulistanos.


E, comer bem não tem a ver com gastronomia chique: tem a ver com ingredientes. Um feijão pode ser completamente diferente em mãos diferentes. Ou uma coxinha. Quando chega no bar do seu Zulmiro (Zeca Cenovicz) para trabalhar, Nonato aprende a fazer a iguaria típica de dez entre dez botecos. Mas imprime a sua "personalidade" a ela, por mais imundo e decadente que seja o local. A comida atrai a atenção, a freguesia aumenta. Entre os frequentadores está Giovani (Carlo Briani), dono de um restaurante chique que se admira com a qualidade da coxinha feita por Nonato. O chama pra trabalhar com ele. E é lá que o retirante nordestino adquire, definitivamente, a experiência que lhe eleva toda a moral na prisão. Menos inseguro, ele se aproximará da prostituta Íria (Fabiula Nascimento). Se apaixonará por ela. A desejará perdidamente. Um tipo de desejo carnal, quase instintivo, selvagem. Sexo e comida desvairadamente misturados, combinados. Prazeres. Que nos corrompem. Nos confundem. Corpos e carnes e sangues e vísceras. E fúrias.

Até chegar onde quer chegar o filme é um combo divertido que não deixa de denunciar os contrastes sociais - os diálogos entre Nonato e Giovani são impagáveis -, ampliando a sensação de suspense que culminará em uma espécie de "banquete final". Na prisão, Nonato passa a receber o apelido de Alecrim, em referência ao ingrediente tão utilizado. Sob essa alcunha cozinhará até as formigas da cela - um tipo de "iguaria" típica da Colômbia. O que resultará em sequências inusitadas. Mas, ainda assim, o que está em jogo na obra de Jorge é, de fato, o poder da gastronomia. Foi assim no decorrer das eras, na história - com o domínio do fogo, da agricultura, da capacidade de usar objetos. Foi assim que o homem evoluiu. Se desenvolveu. Aconteceu com Nonato, que explorou da melhor (e da pior) forma o seu aprendizado nesse filme que, não por acaso, é o 74º melhor da história, de acordo com a lista elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Grandes Filmes Nacionais - O Quatrilho

De: Fábio Barreto. Com Patrícia Pillar, Glória Pires, Alexandre Peternost, Patricia Pillar, Gianfracesco Guarnieri e Cecil Thiré. Drama / Romance, Brasil, 1995, 113 minutos.

Por causa do filme O Quatrilho, o Brasil esteve entre os indicados na cerimônia do Oscar de 1996 na categoria Filme em Língua Estrangeira - viria a perder para o holandês A Excêntrica Família de Antônia (1995). Era a época da retomada do cinema nacional, com as produções voltando a figurar em festivais estrangeiros. Ganhando visibilidade. E consolidando a força de nossos filmes por pelo menos mais duas décadas, até a chegada do massacre à cultura que ocorre no atual governo - ainda que, paradoxalmente, as nossas produções sigam em alta conta no exterior, vide as vitórias de Bacurau e A Vida Invisível de Eurídice Gusmão no mais recente Festival de Cannes. Sobre O Quatrilho, é possível afirmar que o filme de Fábio Barreto, baseado no livro escrito por José Clemente Pozenato, envelheceu relativamente bem. Há um quê de nostalgia naquele cenário do começo do século passado, no Rio Grande do Sul que, afinal, parece nunca sair de moda.

A trama nos joga para uma pequena comunidade da Serra Gaúcha, local em que imigrantes italianos iniciam as suas vidas - centrando as suas forças no trabalho e na manutenção da família. É lá que dois casais de "compadres" se unirão para adquirir uma área de terras com a intenção de cultivar milho, soja e uvas. Apesar do alto investimento, acreditam que com a construção de um moinho, poderão ter um retorno financeiro mais rápido. Do ponto de vista dos negócios, tudo parece fluir muito bem. O problema são as outras tensões. O que em uma comunidade fechada, conservadora, funcionará como um verdadeiro barril de pólvora pronto a explodir. O filme começa com o casamento de Angelo Gardone (Alexandre Paternost) com Teresa (Patricia Pillar). Eles se dão bem como amigos, mas na intimidade a coisa parece não ser das melhores. E quando Massimo (Bruno Campos) e Pierina (Gloria Pires) se juntam a eles em sociedade, bom, será questão de tempo para que as coisas saiam dos trilhos. Ou, dependendo do ponto de vista, se realinhem.


Como no popular jogo do quatrilho, em que ocorre uma troca de cartas a cada rodada, com a intenção de ficar com o naipe mais alto, Angelo a Massimo acabarão por fazer um intercâmbio meio "forçado" de esposas. A realidade é que Massimo e Teresa se apaixonam bem debaixo do nariz de Angelo e Pierina, que só percebem a traição quando o trem já partiu levando os adúlteros. Assim como no jogo de cartas jogados pelos imigrantes, é preciso buscar forças para recuperar aquilo que se foi perdido. O que Angelo e Pierina farão com persistência e carinho, sob o olhar desacreditado da comunidade. Aliás, o falatório alheio servirá para dar conta da hipocrisia não apenas da sociedade, mas também da Igreja. Considerados impuros, Angelo e Pierina se tornam abnegados. Renegados pelos demais. O que não lhes impedirá de crescer, especialmente com o apoio de parceiros de negócios como Batiston (Claudio Mamberti), Sichoppa (Arcangelo Zorzi) e o ótimo anarquista Iscariot (Pedro Parenti).

Sobre Iscariot, é interessante notar como o filme passa de raspão pelas questões políticas, mas sem julgar o certo e ou errado. Aliás, o filme até se permite um elogio à perseverança dos empresários do meio rural e sua luta pelo fortalecimento das comunidades do interior. Com uma belíssima fotografia, a obra toma de assalto as belas paisagens do interior gaúcho - as filmagens foram em municípios como Antônio Prado e Caxias do Sul -, utilizando-as em seu favor. O mesmo vale para o desenho de produção, que recria o período à perfeição, alternando o bucolismo do mato, das lavouras e das campinas com a cidade emergente, ainda de barro, em que modestas construções de madeira se sobressaem. No fim das contas O Quatrilho segue sendo uma obra simpática, bem humorada e sensual e que se empenha em desconstruir as convenções sociais estabelecidas pelas "famílias de bem". Hoje em dia a gente sabe, um casamento talvez não seja para sempre. Naquela época era um desafio que envolvia um mal estar comunitário. Ainda que o resultado final fosse a simples busca pela felicidade. Algo que, também nós, desejamos para as nossas vidas.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Grandes Filmes Nacionais - Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro

De: José Padilha. Com Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortaz, André Mattos, Maria Ribeiro, Seu Jorge e Tainá Müller. Drama / Policial, Brasil, 2010, 114 minutos.

Em uma das cenas mais icônicas do cinema nacional moderno, o capitão Nascimento (Wagner Moura), ouve um áudio que é fruto de um grampo telefônico. O material é revelador: nele uma jornalista fala para o deputado estadual Fraga, um defensor dos direitos humanos (papel de Irandhir Santos) que o governador do Rio de Janeiro pode estar diretamente ligado à milícias que não apenas estão por trás de uma série de assassinatos, como participam ativamente do "jogo político". É uma sequência decisiva do sempre atual Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro e que, de certa forma, começa a fechar o arco dramático do icônico personagem de Moura que percebe, afinal, que o sistema é todo corrompido. Podre em todas as suas entranhas. E esse instante quase pequeno diante de tantos momentos inesquecíveis, dá conta do arrojo do roteiro perpetrado por José Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel. Sim, porque seria muito cômodo entregar um segundo filme que seria mais do mesmo, com Nascimento caçando bandidos, berrando seus bordões e saindo como herói nacional das famílias reacionárias de bem brasileiras. Mas o cinema não é feito para isso. É feito para colocar o dedo na ferida. Para questionar o status quo. E isso, o Tropa 2 faz como poucas obras.

E talvez seja por isso que muita gente não simpatize tanto com a sequência, como simpatizou com o primeiro filme. É no primeiro que "brota" o policial fascista e intempestivo, que não tem muito saco pra traficante, que mata primeiro pra perguntar depois. Que tá cagando para os direitos humanos ou para as circunstâncias que levam jovens de periferia ou em vulnerabilidade social a cometerem crimes. Para o Nascimento da obra de 2007 - que se passa, na verdade, em 1997 -, "bandido bom é bandido morto" e serão esses os ensinamentos que ele levará aos dois policiais que se candidatam para lhe suceder - no caso o Neto (Caio Junqueira) e o Matias (André Ramiro). No segundo filme, o capitão Nascimento surge em tela como uma figura já desgastada pelos cabelos brancos e numa pilha de nervos por causa de uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) do Rio de Janeiro, que sai completamente do controle. Nela, Matias (agora um policial do Bope) avança para cima de bandidos que promoviam um motim na penitenciária de Bangu 1, promovendo uma chacina de presos. Um movimento desautorizado pelo capitão Nascimento, que culmina na morte do traficante Beirada (Seu Jorge). A ação desastrada seria a ideal para que a opinião pública caísse matando, né? Em partes. Em pouquíssimas partes, por sinal.


Apesar do burburinho na imprensa - ecoado pela voz do deputado Fraga -, Nascimento perceberá que, para a população, a operação em Bangu foi um sucesso. E que um ato quase fascista é saudado como uma ação bem sucedida - e a patética cena em que as famílias de bem aplaudem o capitão, de pé, quando ele entra em um restaurante de luxo, dá conta disso (aliás, isso continua tão atual). Esse fato alçará o capitão à condição de subsecretário da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que Matias será rebaixado - uma forma de tornar ele um bode expiatório que atende o clamor de alas da esquerda -, indo trabalhar para uma corporação da polícia militar que é corrupta até as suas entranhas e que se utiliza de sua influência para obter uma série de vantagens financeiras. A estes dois universos que, em tese, deveriam trabalhar para o mesmo lado, se juntará o apresentador de programa de TV sensacionalista e candidato a alpinista político Fortunato (o sempre ótimo André Mattos), o governador Gelino (Julio Adrião) e os policiais milicianos capitão Fábio (Milhem Cortaz) e, especialmente, o major Rocha (Sandro Rocha). Todos eles integram um sistema que aos poucos irá se corroer, conforme as comunidades são ocupadas por uma polícia fascista, que se aproveita de seu poder para exigir da população que, literalmente, PAGUE para sobreviver.

Um sistema que se desmantelará e culminará na sequência citada no começo desse texto, que retira parte do heroísmo e do idealismo que Nascimento depositava na polícia. Se o Bope não aceitava corruptos no primeiro filme, será no segundo que ele perceberá a brutalidade do universo em que está inserido - e não haverá Bope que salve a pele, inclusive, de seus protegidos (caso de Matias). Trata-se de um filme que, dez anos antes da existência da família Bolsonaro no poder, já se ocupava da Máfia das Milícias (e de sua CPI) como matéria-prima, denunciando o que de mais podre existe na natureza daqueles órgãos institucionais que deveriam defender o cidadão - e não matá-lo. Era divertido ver o capitão Nascimento esbofeteando um playboyzinho maconheiro e traficante de segunda linha no primeiro filme? Talvez fosse. Mas é no segundo que ele mergulha na podridão, trabalhando diretamente em uma instituição governamental. Demora um pouco pra cair a ficha - aliás, ela começa a cair em cenas prosaicas, como aquela em que ele tenta instruir seu filho de 10 anos a dar golpes corretos na escolinha de judô. "Eu não gosto de bater nas pessoas que nem você faz", devolve o menino, paralisando o capitão. Fazendo-o desabar, em uma cena das mais tocantes.


E é no poder desse debate que, afinal, reside a força do segundo Tropa de Elite: na discussão sobre a violência policial, seus exageros, sua falta de medida. Suas milícias que surgem como paladinas da justiça, na pretensão de fazer esta com as próprias mãos, matando inclusive figuras proeminentes de nossas política (e, aqui, me refiro especificamente ao caso Marielle, que aconteceria bem mais tarde). É ao jogar luz sobre estes temas, que Padilha torna esta segunda obra tão atemporal - ela sai do campo das ideias, do Vigiar e Punir do Foucault, para nos esfregar na cara uma realidade brutal que nos assombra e que ganha força no formato de uma narrativa que, vejam só que ironia, culmina no desligamento de um Ministro da Justiça que poderia estar muito perto de evidenciar um esquema envolvendo milicianos e uma das mais importantes famílias de políticos do País. É um filme dinâmico, bem montado, cheio de grandes interpretações que, não por acaso se tornou o 35º melhor da história, de acordo com votação feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Prestes a completar 10 anos de seu lançamento, Tropa 2 nunca esteve tão atual. E merece ser revisitado - até mesmo porque está na hora de as pessoas começarem a gostar da película pelo motivo CERTO. Não é presunção ou petulância. É apenas um fato. E só.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Grandes Filmes Nacionais - O Auto da Compadecida

De: Guel Arraes. Com Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Denise Fraga, Fernanda Montenegro, Diogo Vilela, Lima Duarte, Rogério Cardoso e Paulo Goulart. Comédia, Brasil, 2020, 104 minutos.

É muito provável que vocês já tenham assistido uma das tantas adaptações de O Auto da Compadecida. Talvez até mais de uma - pro teatro, pra TV, pro cinema. Muitos de vocês devem ter lido o livro. Aliás, essa é a legítima obra que dispensa comentários. Mas então por que falar do trabalho mais importante do Ariano Suassuna? Bom, no curso normal dos posts do Picanha ele já seria naturalmente reverenciado em 2020 já que o filme dirigido por Guel Arraes. tão carinhosamente recordado pelo público, completa 20 anos de seu lançamento em setembro. Sim, vinte, acredite! Mas o caso é que resolvemos antecipar um pouco a homenagem, afinal de contas, em tempos de Coronavírus, acho que é bacana revisar uma obra que dá valor as coisas simples, que é divertidamente malandra, que é iconoclasta, provocativa, regionalista. Que nos faz rir do absurdo, que nos faz crer numa espécie de surrealismo à brasileira. Enfim, em tempos de caras fechadas e distanciamento social, O Auto da Compadecida nos faz o favor de lembrar que ainda temos motivos para sorrir. Aliás, teremos muitos motivos para sorrir, ainda!

Sobre o filme em si, Guel Arraes reuniu um dream team de atores, para contar a história de João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello), dois sertanejos pobres, que adotam a brejeirice como estilo de vida. Chicó é um pouco mais medroso, sempre desconfiado dos planos de João Grilo, que é a "cabeça pensante" da dupla e que armará uma série de estratagemas para tentar se dar bem - especialmente em um cenário de aridez e de indigência. Aliás, o comportamento errático da dupla já é estabelecido nas primeiras sequências quando enganam a dona Dora (Denise Fraga), esposa do padeiro Eurico (Diogo Vilela) - que são seus patrões -, para tentar comer a comida do cachorro (que é mais caprichada que a deles). Aliás, em meio a maracutaia todo o bichinho morre, já abrindo espaço para a próxima maracutaia: tentar convencer o padre local (o falecido e sempre ótimo Rogério Cardoso) a fazer o enterro. O que será obtido com uma boa dose de ofertas financeiras, obtidas de maneira escusas.



E aqui está, a meu ver uma das marcas de O Auto da Compadecida: a de fazer a crítica social na base do deboche, em suas entrelinhas, sem um panfletarismo escancarado, que poderia afastar o espectador médio. E, nesse sentido, são vários os exemplos até já comentados: o do bife do cachorro do patrão ser melhor do que a comida do empregado, o das estreitas relações (e interesses) da Igreja com as classes mais abastadas, que são melhor tratadas - aliás, a cena em que Lima Duarte muda de ideia sobre o enterro do cãozinho ao descobrir quem, supostamente, eram seus donos, é uma das melhores -, a suposta necessidade de o homem ser sempre um "machão". E há ainda, claro, o papel da mulher na sociedade - com a ruptura do caráter de submissão sendo representado pelo papel de Rosinha (Virgínia Cavendish), que ajuda João Grilo e Chicó a enganar o seu pai, o fazendeiro Major Moraes (Paulo Goulart, que está ÓTIMO), para tentar casar com Chicó.

Para que tudo flua com mais graça, Arraes emprega um estilo dinâmico de montagem com cortes secos, elipses, idas e vindas. Muitas câmeras em close que ressaltam os dentes podres e olhar enviezado de João Grilo e a timidez desconsolada, misturada com medo permanente de Chicó. Com desenho de produção bastante naturalista e figurino eventualmente colorido, a obra ainda envereda para um faroeste "tupiniquim" em seu terço final, quando o bando do cangaceiro Severino (Marco Nanini), invade a cidadela, toca o terror e mata um monte de gente - incluindo boa parte dos protagonistas. Aliás, o próprio Severino morrerá, em mais uma arapuca de João Grilo (lembram da gaita de boca?). E será no outro plano que a Compadecida em pessoa (Fernanda Montenegro e quem mais seria, né?) aparecerá para fazer uma espécie de julgamento dos justos, que também contará com a mediação do diabão (Luis Melo) e de Jesus Cristo (Maurício Gonçalves).


Sexagésimo terceiro melhor filme brasileiro da história, de acordo com lista divulgada em 2016 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) - o que para um filme de comédia é certamente um feito -, a película ainda é marcada pelos diálogos rasgantes, recheados por um regionalismo de raiz. É o caso, por exexplo, do instante em que um dos capangas do bando de Severino afirma que matar padre da azar, ao que o religioso responde: "especialmente para o padre". E ainda que a marca da obra de Ariano Suassuna seja a graça, jamais devemos esquecer que trata-se de um trabalho pontuado por críticas sociais bem construídas, de pessoas lutando pra sobreviver em meio as dificuldades e que, de quebra, ainda traz valiosas lições sobre perdão, amor, importância da amizade e religiosidade. Um dos melhores filmes de nossa história, sem dúvida.



quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Pixote: A Lei do Mais Fraco

De: Hector Babenco. Com Fernando Ramos da Silva, Jorge Julião, Gilberto Moura, Marília Pêra, Tony Tornado e Elke Maravilha. Drama, Brasil, 1980, 129 minutos.

Um menino de apenas onze anos é abandonado pelos pais, vai parar em um reformatório, foge do local e se torna traficante de drogas, cafetão e assassino. Parece uma história de violência meio improvável, mas é apenas a realidade de grande parte dos jovens de periferia do Brasil - como podemos perceber já no preâmbulo do clássico brasileiro Pìxote: A Lei do Mais Fraco. Dirigida por Hector Babenco, a obra mostra o desencanto permanente no olhar do protagonista, que vê a sua existência resumida a um universo de dor, de violência e de abandono (não apenas da família, mas também da sociedade). Trata-se de um filme áspero, escatológico, provocativo, pornograficamente fétido e extremamente realista. Para as "famílias de bem", o incômodo das cenas de nudez, de estupro, de pedofilia, de assassinatos brutais, de aborto, de prostituição e de sujeira por todo o lado. Para o público em geral um retrato de um País de contrastes da época da Ditadura Militar - mas que bem poderia ser o da atualidade, uma vez que a pobreza extrema só aumenta.

Dividida em duas partes, a obra se ocupa na primeira metade da rotina de Pixote (Fernando Ramos da Silva) e de seus amigos Lilica (Jorge Julião), Dito (Gilberto Moura) e Chico (Edilson Lino), entre outros, no reformatório. No local paira um clima permanente de incerteza, representado pelas famílias que não visitam e pelas pouquíssimas perspectivas de futuro (as aulas são precárias, o investimento no local é pouco e a violência é muita). Aliás, em algumas das tantas sequências chocantes, os agentes da lei abusam de seu poder, assassinam jovens à revelia (sem o conhecimento dos pais) e vendem uma imagem diferente à imprensa - que fecha o cerco para tentar compreender o que ocorre no local. Em meio ao caos estabelecido, os poucos momentos de prazer se resumem às reuniões de amigos, ao futebol no pátio e às esporádicas apresentações de um excêntrico cover de Roberto Carlos (e se há um "alívio cômico" na película, definitivamente é esse).


Com a violência e o abuso só aumentando, Pixote e outros tantos fogem do reformatório, no desejo por dias melhores. Nas ruas - e é aqui que se inicia a segunda metade do filme -, como se fossem os protagonistas de Capitães da Areia de Jorge Amado, cometem pequenos furtos, transam entre si se envolvem em esquemas para vendas de drogas (que nem sempre são bem sucedidos) e fazem planos que dificilmente se concretizarão. O tom é urgente, inconstante, desolador. Algo que é reforçado pelo incrível trabalho de Babenco na condução do elenco - boa parte dele amador - e que é composto por um sem fim de "extras" (sendo incrível o realismo conferido a tudo). Já no terço final, o grupo conhecerá a prostituta Sueli (Marília Pêra, em inesquecível papel). Ao lado dela, praticarão roubos a candidatos a clientes dela, transformando-se numa espécie de família involuntária. Não por acaso, a cena em que todos comem uma farta a la minuta, para mim é uma das que mais comove.

Mas não há final feliz em um universo tão brutalmente sofrido, como este, com a violência batendo literalmente à porta. Aós uma ação com resultados trágicos, Lilica foge, Dito morre e Sueli manda Pixote de volta para as ruas (de onde ele veio e de onde, vamos combinar, nunca saiu). Com ótimas participações especiais - de Elke Maravilha, Beatriz Segall e Tony Tornado -, a película foi extremamente bem recebida no exterior, tendo sido indicada ao Globo de Ouro. Seu estilo documental - que seria mais tarde repetido por outros filmes sobre a perda da inocência em um universo de crueldades, sendo o mais marcante em Cidade de Deus (2002) - segue sendo uma de suas marcas registradas. Nesse sentido, não foi por acaso que a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), o considerou o 12º melhor da história, abrindo caminho para que Babenco brilhasse em outros clássicos, como O Beijo da Mulher Aranha (1985).

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Abril Despedaçado

De Walter Salles. Com Rodrigo Santoro, José Dumont, Ravi Ramos Lacerda, Flavia Marco Antônio e Luiz Carlos Vasconcelos. Drama, Brasil / França / Suiça, 2002, 95 minutos.

Obras cheias de simbolismos e amplamente evocativas como o clássico moderno Abril Despedaçado, de Walter Salles, podem ser analisadas pelos mais diversos ângulos. Por um lado trata-se de um faroeste "à brasileira", que retorna ao começo do século passado para abordar a sangrenta luta entre duas famílias nordestinas pela posse de terras - e que inevitavelmente resultará em tragédias sequenciais. Por outro, o filme também é um elogio ao poder transformador das artes e ao espírito libertador da educação, o que é simbolizado muito particularmente pelo "relacionamento sério" entre o menino Pacu (Ravi Ramos Lacerda) e o seu único livro. Unindo estes dois universos bastante distintos, uma história de superação de dificuldades, de aprendizado e de mudança de destino - especialmente se este destino envolve um ciclo de violência que parece interminável.

A trama nos joga para a aridez escaldante do Nordeste onde, há mais de 100 anos, a posse de terras era determinada por uma luta ancestral. Uma camisa esmaecida, com uma mancha de sangue que já "amarelou", é o indicativo que autoriza o jovem Tonho (Rodrigo Santoro) a vingar a morte de seu irmão mais velho. Com a missão cumprida, passa a ser ele o jurado de morte pela família rival - a trégua durará até a próxima lua cheia (e uma espécie de fita preta amarrada no braço será o símbolo que lhe marcará seu destino). Consumido pela tristeza, Pacu, que é o irmão mais novo de Tonho, encontra em uma dupla de teatro mambembe - a jovem Clara (Flavia Marco Antônio) e seu tio Salustiano (Luiz Carlos Vasconcelos) -, uma espécie de "respiro" em meio ao cenário de muito trabalho (a família cultiva cana de açúcar e produz rapaduras), de luta, de dor e de abafamento palpável.


Na família não há espaço para diversão (ou para distração), como comprovará o descontentamento do pai dos meninos (o sempre carismático José Dumont, que aqui interpreta um homem embrutecido e melancólico). Será no choque entre esses dois mundos - um de sonhos, de sereias e de liberdade, outro de cansaço, de labor e de torpor -, que residirá um dos arcos dramáticos mais interessantes dessa pequena joia de nosso cinema. Não é por acaso que em uma das primeiras aparições de Clara e de Salustiano, apresentando um número ao mesmo tempo arriscado e divertido com o uso do fogo, nos encontremos tão comovidos: é a arte invadindo o sangue e as vísceras daqueles que estão ali a descobrir os encantos poéticos do "faz de conta". Ainda que, de forma paradoxal, a presença do sol, do fogo (e consequentemente do calor), em suas vidas, tenha significados distintos.

Aliás, o filme é pródigo em utilizar um sem fim de rimas visuais para reforçar aquilo que, efetivamente, quer dizer. É o caso, por exemplo, da junta de bois anda em círculos na lida no moinho da família - assim como os seus próprios integrantes, que rodam e rodam sem sair do lugar, sem sair da miséria e do ciclo eterno de pobreza (a despeito da posse de grandes áreas de terra). Já em outra cena, Tonho anda pela primeira vez de balanço, sentindo o vento no rosto, uma representação de liberdade efêmera, que será representada pelo rompimento da corda que segura o objeto. Há aspereza e ternura, dor e comoção se alternando permanentemente na tela, o que conduz o espectador a um sem fim de sentimentos - e aqui há também que se destacar o belo trabalho de fotografia e mesmo o desenho de produção (a aridez e o suor são tão claudicantes, que às vezes até parece que vão saltar da tela).


Com tantos valores em um mesmo filme - há ainda o ótimo elenco, que conta com outros nomes como Wagner Moura, Othon Bastos e Gero Camilo (em uma ponta ótima) -, nada mais natural que ele fosse reconhecido mundo afora. No Globo de Ouro, foi o último brasileiro a ter sido indicado na categoria Filme em Língua Estrangeira - perdeu para o bósnio Terra de Ninguém. Também foi nominado na mesma categoria no Bafta. Em uma eleição feita pelos membros da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine) foi classificado como o 58º Melhor Filme Nacional de nossa história. Para Walter Salles, a obra ajudou a pavimentar o caminho que lhe levaria, mais tarde a filmar em Hollywood. E para os nossos corações cinéfilos, essa segue sendo uma das mais relevantes obras de nossa história. Poética e árida, aborda a violência, a ambição e a estupidez humanas como aspectos sombrios de nossa existência.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Os Fuzis

De: Ruy Guerra. Com Nelson Xavier, Hugo Carvana, Átila Iório, Paulo César Pereio e Maria Gladys. Drama, Brasil, 1964, 84 minutos.

Um povo que passa fome e um Estado que responde com autoritarismo e bala. Não, não é um resumo do (des)governo Bolsonaro - ainda que pudesse ser -, e sim a síntese do atemporal Os Fuzis, obra-prima concebida pelo diretor moçambicano Ruy Guerra, em 1964, quando o País estava as portas de mergulhar nos horrores da Ditadura Militar. Nesse sentido chega a impressionar como a história segue atual, em um contexto em que os brasileiros mais vulneráveis socialmente lutam para sobreviver, se apegando em abstrações como a religião (ou o misticismo), espécie de ente sagrado que poderia ser capaz de trazer a salvação. O filme é duro, áspero, com a câmera grudada na pele, na cara, no suor e nas mazelas de suas doloridas figuras, que padecem da fome e que esperam, esperam e esperam. Por uma solução, por algo divino, mágico, que possa aplacar a angústia de não se ter o que comer em uma terra seca, distante, inóspita.

A trama se passa no sertão da Bahia e acompanha um destacamento do exército que chega a uma pequena cidade para evitar que a população faminta invada e saqueie o depósito de alimentos de um empresário local. Enquanto a população "borrada" (observe que, diferentemente do que ocorre com os soldados, ela surge como uma massa difusa, indefinida) entoa uma série de mantras hipnóticos no entorno na Igreja, comprando o que pode fiado e aguardando por algum tipo de solução que não chega, o dono do armazém se queixa da inadimplência e da morosidade de um Governo que não parece assistir ninguém. Em meio aos dois lados, o caminhoneiro Gaúcho (Átila Iório, inesquecível em sua caracterização), personifica uma espécie de "meio-termo": tem as suas ressalvas em relação ao nacionalismo alienante emanado pelos soldados, mas já esteve envolvido em um episódio do passado, em que salvou a vida do policial Mário (Nelson Xavier) - no local, ambos se reencontram.


O filme alternará momentos mais contemplativos, como aqueles em que a população espera, canta e, em clima semi-documental, relata eventos passados ocorridos na região, com outros mais dinâmicos, envolvendo a espera dos soldados, que estão ali para defender o material, o capital - nem que isto custe a morte de alguns. Em uma das tantas sequências inesquecíveis, um grupo de soldados resolve fazer uma aposta para ver se acertam um cabrito que fugiu só que, por "acidente", acabam atingindo o seu dono, causando mal-estar na comunidade. E mais mal-estar ainda, quando os envolvidos resolvem mentir sobre o ocorrido. Como se a morte por fome não fosse suficiente, os soldados trazem mais morte. No lugar de comida, armas. Em outro momento, Gaúcho discute com o soldado Zé (Hugo Carvana) dentro do bar, com o segundo lhe lembrando que está armado. Ao que este responde: "este é o problema, não devia".

Ainda que cenas como a da "montagem dos fuzis" pareçam ser um elogio ao armamentismo, o filme é o completo oposto, como comprova a inesquecível cena de tiroteio entre Gaúcho e o grupo de soldados - o que transforma a obra de Guerra em uma espécie de faroeste bem à brasileira. Deixando no local um rastro de dor, de desolação e de morte - a cena em que um homem pede uma caixa para enterrar seu filho morto pela fome é não menos do que assombrosa -, os soldados abandonam a vila após a missão de colocar os alimentos em um caminhão, sob os olhares ansiosos da população. A sequência final, antropofágica, pungente, é a catarse de um povo descrente, que não encontra solução que não seja na destruição de seus ícones, diante de uma necessidade muito maior e que não será atendida pelo Governo, por políticas públicas ou por qualquer tipo de apoio.



Ganhador do Prêmio do Juri no Festival de Berlim de 1964, a obra frequentemente é colocada ao lado de Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) de Glauber Rocha como uma das mais representativas da primeira fase do movimento conhecido como Cinema Novo - filmes de forte rigor intelectual que se utilizavam da "Estética da Fome" para discussões sociais. Em uma lista publicada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a obra foi considerada a 23ª melhor da história, aparecendo ainda em outras listas. Com uma filmografia irregular, Ruy Guerra nunca mais repetiria a agonia pulsante de Os Fuzis que, com seus bem projetados planos-sequência, nos faz imergir no sofrimento de um povo que convive com a desigualdade. Nem que seja para, minimamente, refletir sobre.