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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Fresno (Carta de Adeus)

Um disco que parece olhar com bastante carinho para os fãs de longa data, até mesmo por apostar em um estilo de rock mais cru, direto e sem firulas. Assim parece ser Carta de Adeus, décimo primeiro registro de inéditas dos gaúchos da Fresno. Deixando meio que de lado o caráter eletrônico e até dançante que marcaria trabalhos recentes como Vou Ter que Me Virar (2021) - reforçado pelo uso dos sintetizadores -, a banda adota o modo "menos é mais". O que significa preservar as letras existencialistas, os refrãos pegajosos e a mistura de gêneros como hardcore, emo e jangle pop, com um resultado bastante orgânico e que vai direto ao ponto em uma nova coleção de canções nostálgicas, agridoces e contemplativas. Aliás, algumas delas, como Logo Agora Que o Meu Mundo Girou e Tudo que Você quer já se inserem no panteão das grandes músicas de Lucas Silveira e companhia.

 


Em termos conceituais, a banda explicou nos materiais de divulgação que o álbum gira em torno de perdas, encerramentos e transformações - sejam elas em relacionamentos, fases da vida ou versões de si mesmo. Nesse sentido, o "adeus" é usado como uma metáfora muito mais ampla para despedidas, encerramentos de ciclos e a consciência de que qualquer encontro pode ser o último. "Tu nunca sabe se tá dizendo adeus ou se tu vai morrer amanhã", imagina Silveira em entrevista ao Correio 24 Horas. Já a ideia das cartas permite verbalizar aquilo que talvez não conseguíssemos dizer em voz alta, em um processo que dialoga ainda com a maturidade da própria banda, que já ultrapassa as duas décadas de carreira. "Ah, não vou mais desconversar / Não vou mais desprometer / Não há tempo pra perder / Nem pra mim nem pra você" divaga o vocalista em O Cantor e o Taxista, que parte de uma experiência real em uma letra sobre o sofrimento e de como ele pode ser relativo, se comparado ao de outras pessoas. É só um dos grandes momentos do disco.

Nota: 8,5 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Iceage (For Love of Grace & the Hereafter)

Quem acompanha a carreira do Iceage sabe que, melodicamente, conforme os discos iam sendo entregues ao público, pouco restaria da crueza punk e urgente dos inaugurais New Brigade (2011) e You're Nothing (2013), que comoveriam a crítica do começo da década passada, alçando-os ao cargo de mais nova salvação do rock, com elogios da Pitchfork e um certo encantamento frente a atitude um tanto anarquista do vocalista Elias Rønnenfelt e seus asseclas. E, bom, não é novidade que todos nós amadurecemos e o polimento percebido a cada novo registro talvez tenha também a ver com isso - ainda que parte do público esteja saudando For Love of Grace & the Hereafter, o sexto álbum de inéditas dos dinamarqueses, como uma espécie de retorno às origens. E, sinceramente, não é, dadas as diferenças entre o caráter sombrio, sujo e soturno de inferninho garageiro dos primeiros trabalhos, em comparação com a energia primaveril e até mesmo comercial dos últimos. 

 


Em suma, o que antes era peso, caos e estranhamento, agora é refino, esmero e melodia. Sim, segue sendo a mesma banda de sempre, mas se canções como White Rune ou Rotting Heights, do primeiro álbum, pareciam saídas de alguma catacumba, músicas como Star ou Lifetime, de For Love... são tão palatáveis, que não fariam feio em algum disco de alguma banda hardcore comercial dos anos 90, como, sei lá, o Rancid. Repleto de ótimas canções em que divagações existenciais se alternam com temas sobre a complexidade dos relacionamentos e mesmo dilemas dos tempos modernos, o disco consegue ser sedutor e cheio de personalidade, com sua mescla de pós punk, indie e jangle pop alcançando seu auge nas ótimas Ember e The Weak - esta última a respeito do sentimento de resignação e até de desconexão que vivemos, em tempos em que a impressão que dá é a de que gastamos energia à toa (Sabes que esta cidade é uma guilhotina / Toda uma cidade de esperanças e sonhos decepados). Canetada!

Nota: 8,5 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Íris da Selva (Íris da Selva)

Discos como o homônimo lançado pela artista trans paraense Íris da Selva nos permitem perceber que ainda há tempo para se apaixonar pela MPB da moda de viola e da flauta, que une o rural e o urbano para falar de noites enluaradas, fitas de pipa que "beijam o sol", crianças que brincam nas ruas - algo que pode soar inocente e o puro, mas também visceral e político, ainda mais se investigarmos para além das melodias primaveris, bucólicas e contemplativas que regem o trabalho. Como é o caso, por exemplo, na sutil poética Tratado de Paz, que aborda corpo e identidade de gênero (Íris se apresenta como não-binária), em uma letra sobre autoaceitação e busca por identidade (Será difícil entender / Que eu não quero parecer / Com mais ninguém além de mim? / Será difícil aceitar / Não sou moça nem rapaz / Sou meu tratado de paz).

 


Já a singela Domingo de Tarde tem letra entre o esperançoso e o melancólico, trazendo o carimbó como um gênero que, aqui e ali, se espalha pelo registro, unido a outros como o folk e o rock rural. Ao cabo, como nos próprios materiais de divulgação da artista, são "canções que carregam a sensibilidade e a força das encantarias das águas em sua poética musical. A espiritualidade é seu elemento condutor e suas composições procuram descortinar o dia a dia , na busca de apresentar ao mundo sua percepção das delicadezas e entrelinhas da vida". Em tempos em que vida parece tão corrida, apressada, tecnológica, em que tudo parece "pra ontem", poder buscar a calma para apreciar um registro que olha para o íntimo mas sem soar piegas ou sem personalidade é algo a ser reconhecido. Íris consegue essa beleza no simples. Como fica evidente em Um Lugar Pra Ir, Bem e Algo Tão Doce.

Nota: 9,0 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Pitaquinho Musical - Madonna (CONFESSIONS II)

"Devemos dançar, celebrar e orar com nossos corpos. Essas são coisas que fazemos a milhares de anos - e são realmente práticas espirituais. Afinal, a pista de dança é um espaço ritualístico. É um lugar onde você se conecta com suas feridas, suas fragilidades. Curtir uma rave é uma arte. É ultrapassar seus limites e se conectar a uma comunidade com a mesma mentalidade". Vamos combinar que o manifesto lançado por Madonna no último mês de abril, já dava o tom: CONFESSIONS II, espécie de continuação natural do clássico moderno Confessions on a Dance Floor (2005), seria novamente, como muitas vezes foi na carreira da maior artista pop de todos os tempos, um veículo de exaltação não apenas da música, mas de corpos, de existências, de vidas. E que serve para lembrar que o ato de dançar, de mexer o corpo, não tem nada de superficial. Ao contrário, é uma espécie de transe capaz de alterar nossa consciência, modificar nossas personas. De, em meio à sombra, sermos quem desejamos de verdade, no nosso íntimo.

 


Nesse sentido, o décimo quinto registro de inéditas da artista, que chega seis anos depois do mediano Madame X (2019) - que meio que atirava para muitos lados, mas sem coesão ou mesmo alguma lógica -, opera como se fosse uma longa e meio que única faixa dançante, capaz de conferir à pista de dança esse caráter ao mesmo tempo idílico e espiritual, vibrante e caloroso. Ao cabo não se trata de reinventar a roda - há muita coisa no disco que a própria Madonna já exercitou artisticamente no passado -, mas de reafirmar esse senso de coletividade e da música como experiência universal. Especialmente em um momento de avanço do reacionarismo na sociedade e de preconceitos que parecem ganhar certo verniz de legitimidade na boca de políticos e líderes de extrema direita. Esse conceito existiria se não fossem os tempos brutos de perseguições à minorias? Difícil saber. O fato é que o disco pode até não ser perfeito do início ao fim - há, aqui e ali, uma outra faixa que incha a audição. Mas, verdade seja dita, é meio difícil ficar alheio a um lançamento tão cheio de personalidade como esse e que vai para além do hype. E com músicas tão gigantes como a etérea Good for the Soul, a quente One Step Away, a incendiária Danceteria, a pulsante (e linda) Bizarre e a comovente Fragile (a minha favorita do álbum). 

Nota: 8,5 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Edgar (Rewind)

O título autoexplicativo do novo registro do rapper Edgar dá a dica: Rewind representa uma espécie de volta ao passado para o artista. Um retorno a uma outra época, mas não como mera nostalgia de quem fica apegado àquele período de forma meio estática e, sim, como algo natural para quem parece estar em movimento permanente. Para ele, o trabalho representa um rebobinar não só na música, mas também na vida pessoal. "É a ideia de retornar às origens e olhar para raízes que, em alguns momentos, não receberam tanta atenção", comentou Edgar no material de divulgação. Na prática, isso significa recolocar estilos como o reggae, o dancehall, o paredão, o dub e outros ritmos latinos, além da cultura sound system no centro - o que representa esse ideal fervilhante e tropical de rua, de vida, de cenários urbanos e de comunidade em um conjunto que opera também como um organismo político, com seus próprios códigos. 

 


Em resumo, não significa deixar o rap e o funk, que sonoramente formavam a matéria-prima do ótimo trabalho anterior Universidade Favela (2024) - nosso sexto colocado na lista de melhores nacionais daquele ano -, até porque esses estilos seguem presentes, mas de se reconectar com a essência. Ao cabo, Edgar não é apenas um músico na busca por condensar os tempos complexos que vivemos - de avanço da extrema direita, de opressão policial, de desigualdades sociais (com seus trilionários tecnológicos) e de racismo estrutural -, mas também um difusor daquilo que é popular, periférico e que integra essa engrenagem. O resultado dessa mescla pode ser percebido nas ótimas Cops With Guns, na sensualíssima Mão Pro Alto, na já clássica ZUM ZUM ZUM, escrita quando Edgar tinha 17 anos, e em Baila Loco, em que emula Manu Chao em uma cristalização do imaginário da dança, enquanto a tragédia no entorno ocorre, como ele explicou à Revista Noize. Vale o play.

Nota: 8,0 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Kevin Morby (Little Wide Open)

Vamos combinar que existe uma beleza meio sofisticada e um tanto sutil na forma como Kevin Morby descreve o meio oeste e o sul americanos, com suas pequenas cidades hipocritamente conservadoras, de jardins bonitos e cerquinhas brancas, ladeadas por estradas que levam às montanhas - aquele habitat de imaginário americano típico, em que o senso de comunidade contrasta com pequenas opressões, com homens e mulheres coabitando esse espaço, cumprindo seus rituais, crescendo, sonhando, se frustrando. E em linhas gerais as suas cordas nostálgicas, no limite entre o indie, o folk e o rock alternativo, parecem traduzir bem a ideia desse ambiente idílico, capaz de tornar palpáveis o deserto, a igreja e os postos de gasolina, num sentimento quase cinematográfico. Talvez nostálgico. Foi meio que assim em toda a sua discografia, não sendo diferente no recente Little Wide Open, o oitavo registro da carreira.

 


Da abertura com Badlands, que não faria feio na trilha sonora de um faroeste moderno, com sua letra intuitiva a respeito da rudeza geográfica desses locais, até a conclusão com Field Guide for the Butterflies, Morby elabora uma série de canções meditativas, em que o contraste entre a eventual suavidade das melodias e crueza das letras, equilibra à perfeição a percepção do campo (ou do interior) como um local tranquilo e familiar, mas que sempre parece guardar algo abaixo da superfície - ao estilo do que vemos em filmes como Pecados Íntimos (2006), de Todd Field. Um bom exemplo nesse sentido, pode ser percebido na poderosa 100.000, que rumina sobre esses locais isolados, com baixa densidade populacional, mas que carregam tensões meio invisíveis no que diz respeito às expectativas sociais e até do que é ser um "homem" típico dos Estados Unidos (Morra pelo seu País / Ou uns pelos outros / Com seus carros musculosos / Na frente da garagem). Outras canções de grande beleza, como Javelin, Dandelion e a faixa-título valem ser conferidas, nesse disco que tem produção de Aaron Dessner, do The National, o que é sempre um bom indicativo.

Nota: 8,0 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Olivia Rodrigo (you seem pretty sad for a girl so in love)

Poucas vezes em uma obra literária a aproximação entre o que sentimos no amor e na doença - ambos capazes de produzir sintomas físicos como perda de apetite, desconfortos gastrointestinais, palpitações, insônia e ansiedade -, foi tão metaforicamente bem evidenciado, como no clássico O Amor nos Tempos do Cólera. Se apaixonar, afinal, tanto para Florentino Ariza, o protagonista da obra do colombiano Gabriel García Marquez, como para uma jovem cantora de vinte e poucos anos, como a Olivia Rodrigo, pode ser conviver, permanentemente, com essa dicotomia. Essa dor que parece mais a de uma doença infecciosa, mas que também pode ser só as borboletas no estômago agindo sobre nós de forma avassaladora. E se o tema não chega a ser uma novidade, é preciso sabedoria para abordá-lo, o que Olivia parece ter de sobra mesmo em sua juventude, como fica claro em you seem pretty sad for a girl so in love (aliás, a ambiguidade já surge no título), o terceiro registro de inéditas da artista.

 


E, bom, aqui no Picanha a gente é suspeito em falar, já que tanto SOUR (2021) quanto GUTS (2023) figuraram na nossa lista de melhores do ano (ambos na terceira colocação), especialmente pela capacidade única da cantora em condensar a experiência de chegar à vida adulta e amadurecer meio que na marra, não apenas com suas letras formidáveis - em músicas como Deja Vu e Making the Bed -, mas também com suas melodias pouco óbvias, com seus sintetizadores existencialistas e uma nebulosidade indie pop hipnótica. Menos riot grrrl (talvez para tristeza de alguns) e rock à Sleater Kinney e mais sintetizadores perfumados pelos anos oitenta - o que fica evidente não apenas na participação de Robert Smith, mas na sonoridade eventualmente adocicada, a artista constroi uma verdadeira fábula dividida em duas partes distintas, em que paixão surge não como algo oposto à dor e, sim, como algo intrínseco a ela. É como um estado febril em que começamos eufóricos para, logo mais, mergulharmos em um torpor que parece nos deixar tristes, mesmo quando felizes. Sim, talvez seja muita divagação ou excesso de interpretação para um mero álbum de música pop. Mas o caso é que canções como drop dead, maggots for brains, u + me + <3, my way, stupid song, the cure e what's wrong with me são irretocáveis. Não é exagero.

Nota: 9,5 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Genesis Owusu (REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE)

Vamos combinar que, se você não está com raiva em 2026, você meio que está vivendo errado. Massacres na Palestina, preconceitos de toda a ordem, imperialismo pós-capitalista e multimilionários decidindo nosso futuro em um contexto de tecnologia desenfreada, avanço da extrema direita e degradação ambiental. É meio difícil ficar alheio a tudo isso e, talvez uma boa forma de canalizar essa revolta, seja ouvindo música - especialmente aquela capaz de traduzir com maestria esse contexto pós-apocalíptico de nossa existência. E esse é justamente o caso de Genesis Owusu, artista ganês-australiano que, com REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE, entrega o seu melhor trabalho. Mantendo a característica mistura de pós punk, soul de tintas psicodélicas e rap experimental, o cantor reforça o caráter político não apenas dos versos, mas das melodias enérgicas, especialmente após o existencialista e alegórico (e ótimo!) trabalho anterior, Struggler.

 


Peça central do disco, LIFE KEEPS GOING parece condensar com excelência a ideia que faz colidir o colapso iminente da sociedade, com a necessidade que temos de seguir adiante em meio ao caos. Com letra que se alterna entre o amargo e o esperançoso, a canção preserva um estado de tensão que, aparentemente, nunca chega a uma explosão. Não há catarse, como se certa letargia também fosse uma espécie de curiosa forma de resistência em um cenário de resignação. Às vezes mais literal (DEATH CULT ZOMBIE), em outras mais metafórico (MOST NORMAL AMERICAN VOTER), o trabalho alterna momentos mais acelerados, diretos, com outros mais contemplativos, de abraço ao senso de comunidade, de coletividade. "Viver na década de 2020 tem sido uma experiência estranha", comentou Owusu no material de divulgação. Se a turbulência interior pode ser matéria-prima para a arte, o fato é que temos alguém capaz de resumir esse sentimento com maestria.

Nota: 8,5 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Aldous Harding (Train on the Island)

Vamos combinar que o exercício de escutar qualquer disco da Aldous Harding, é mais ou menos como entrar em um carro para pegar a estrada em direção a um local nunca antes explorado. Meio que como uma viagem ao desconhecido - pra ficar na alegoria mais óbvia. Sim, seus álbuns não costumam ser lá muito fáceis, palatáveis ou, vá lá, comerciais. Suas curvas no limite entre o experimentalismo folk, o indie de cafofo e o art rock excêntrico costumam ser tortas ou pouco previsíveis. Se estamos indo pra cá, não demora para que o rumo mude pra lá. Se em um instante a melodia parece direcionada para algo caloroso ou de fácil identificação, em outro a coisa soa estranha ou teatral - com o vocal subindo e descendo inesperadamente. O que em tempos em que nos acostumamos a sermos alimentados com papinhas culturais prontas, ultraprocessadas ou de fácil digestão, pode soar como um exercício desafiador. Mas também compensador.

 


Afinal, parece que a gente tá sempre buscando a melhor banda dos últimos tempos da última semana. Ou, minimamente, aquele artista que nos retire da zona de conforto da lógica algorítmica do refrãozinho de IA ou da dancinha de Tik Tok. E, como se fosse uma Fiona Apple em Fetch the Bolt Cutters, Harding entrega, com Train on the Island, uma experiência enigmática, evocativa, que provoca, que mexe com as nossas sensações. São músicas deslocadas que jamais soam feias, ainda que a sua beleza necessite ser escavada. Um bom exemplo de tudo isso pode ser percebido no single One Stop que, com seu piano e vocal expressivos e mudanças de direção que fogem da lógica, parece algo no limite entre um Radiohead fase Amnesiac (2001) e uma Kate Bush de Hounds of Love (1985). Há uma série de outros ótimos momentos como, Venus in the Zinnia, What Am I Gonna do? e a faixa-título, em que temas, como, cobrança por padrões corporais, feminilidade performática e sensualidade caricatural emergem em versos cheios de simbolismos e alegorias. É tipo uma refeição que a cada nova bocada gera mais satisfação.

Nota: 9,0 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Juliana Linhares (Até Cansar o Cansaço)

Vamos combinar que poucos memes são tão universais na hora de evidenciar a exaustão coletiva dos nossos tempos, do que aquele extraído do desenho do Tintin que, ao ouvir um claramente extenuado capitão Haddock dizendo um "que semana, hein?", o retruca apenas com um enfastiado "capitão, é apenas quarta-feira?" E como a gente faz para confrontar esse sentimento geral de fadiga? Bom, no caso da cantora potiguar Juliana Linhares esse confronto se dá de forma paradoxal: dançando. E mais do que isso: dançando "até cansar o cansaço", como ela afirma já na primeira frase do seu segundo registro de inéditas, o irresistível e autoexplicativo Até Cansar o Cansaço. Em linhas gerais a artista chegou a explicar em entrevistas que a ideia com o disco é a de não contemplar o esgotamento de forma passiva - convertendo-o em uma espécie de veículo para o movimento, para o sonho e para o encontro de corpos.

 


E, bom, se isso não chega a ser uma novidade em termos de conceito - se pensarmos, por exemplo, o quanto Chico Buarque utilizava a imagem do carnaval como alegoria catártica de enfrentamento e de sobrevivência (até mesmo à Ditadura Militar) -, aqui, a artista mescla uma série de ritmos e estilos, do baião ao xote, passando pelo forró, pela MPB psicodélica e pelo indie eletrônico, formando uma tapeçaria ao mesmo tempo vibrante e viva, mas também atmosférica e contemplativa. "O presente no Brasil é urgente: violência, cansaço, precarização da vida, mas também os afetos, as festas, a rua que pulsa e nossas formas de sobreviver. E, justamente por encarar tudo isso de frente, ela consegue produzir futuro", explicou em entrevista ao site da UBC. Juliana, que também integra o excelente coletivo Pietá, já havia brilhado no belo Nordeste Ficção (2001). Em Até Cansar o Cansaço a criatividade segue em alta, como comprovam as irresistíveis Emaran... não. Na realidade ouça todo o disco. De fones. No repeat. Com atenção. É recompensador.

Nota: 9,0 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Arlo Parks (Ambiguous Desire)

Existe algo de noturno, de noite prestes a acontecer, que se espalha por cada canto de Ambiguos Desire, novo registro de inéditas da sempre ótima Arlo Parks. Tomemos como exemplo uma canção como Heaven, uma balada eletrônica minimalista, de madrugada avançada, com uma linha de baixo catártica, e que parece personificar não apenas em termos de melodia, mas também nos versos (Vamos nos envolver / Adidas e gasolina / Meus amigos se espalhando pelas ruas), o conceito do disco. Conceito que, aliás, parece explorar uma certa euforia do coletivo, de sensação de pertencimento e de construção de memórias - com amigos, com pessoas que amamos. "Esse é um álbum que nasceu dessa descoberta tardia da madrugada como espaço emocional e sensorial e de tempo que se dissolve", comentaria a cantora em entrevista ao NME.

 


Outro bom exemplo nesse sentido é a envolvente Nightswimming, que tem uma batidinha enigmática e uma energia R&B noventista, mas sem deixar de lado a personalidade da artista, que com sua voz sussurrada e aconchegante parece tornar versos como "Quando o sol se põe entre as árvores / Estou sozinha pensando em nós dois", maiores do que parecem. Aliás, verdade seja dita que Parks também tem uma capacidade única em dar vida ou cor a certa banalidade do cotidiano. É o caso, por exemplo, de Get Go, uma das melhores disco, com sua letra que converte a pista de dança em uma alegoria para a superação de dores e decepções. Tudo banhado por um clima dançante inspirado em rádios piratas londrinas, no limite entre o melancólico e o onírico, o enfumaçado e o sofisticado. Ah, e em meio a tudo ainda há a parceria com o Sampha, em Senses, talvez uma das melhores canções lançadas no ano até o momento. Além da deliciosa What If I Say It?. Arlo Parks nunca erra. Não ia ser agora.

Nota: 9,0 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Yaya Bey (Fidelity)

"Diga o que pensa, pense no que diz / É um novo dia, não há como fugir de si mesmo". Vamos combinar que, muito provavelmente, não foi por acaso que a primeira canção escrita por Yaya Bey para Fidelity, seu quinto registro de inéditas, tenha sido justamente Blue. Ao cabo, ela parece uma música ao mesmo tempo vulnerável e resiliente, e que emerge em um momento em que a artista se sentia meio que no fundo do poço. Algo que ela mesma mencionou no material de divulgação, quando detalhou o fato de ter desabado emocionalmente, em um hotel de Miami, justamente na semana de lançamento de Do It Afraid (2024), seu trabalho anterior. Quem acompanha a carreira da cantora sabe que ela perdeu o pai em 2024, tendo ainda de lutar contra outras pressões da indústria - e que certamente tem a ver com o fato de ser uma mulher negra, buscando sobreviver nessa máquina trituradora de famosos que é o showbiz, com a sua avidez ininterrupta em busca da mais recente novidade.

 


E tudo isso talvez explique porque esse registro parece ser tão nostalgicamente anos noventa - com aquele R&B classudo, mesclado com pop caloroso e uma neo soul ao mesmo tempo contemporânea, urbana e melancólica -, mas com menos apego ao aparato comercial, de melodias acessíveis, ou refrãos cantaroláveis. Aqui, a artista bebe da fonte de cantoras daquela década, como Brandy ou Aaliyah, para apresentar uma coleção de canções discretas, quase sonolentas, em que os versos surgem minimalistas mas sensuais, quentes mas elegantes. O resultado são canções que fluem gostoso, ainda que sejam menos palatáveis, o que talvez exija alguma persistência do ouvinte que se acostumou com joias como as movimentadas Merlot and Grigio ou End of the World, do disco anterior. Em geral esse pode até ser um trabalho meio que de ressaca emocional. Mas é uma ressaca de boas canções, como Forty Days, Higher e a já citada Blue.

Nota: 8,0 


terça-feira, 12 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Bemti (Adeus Atlântico)

Vamos combinar que, em política, muito se usa a palavra multilateralismo para definir as formas como diversas nações trabalham de forma cooperativa, na intenção de resolver seus problemas. E, bom, se fosse possível a utilização do mesmo substantivo na música, talvez ele pudesse ser definido por aquilo que artistas como o Bemti, conseguem em álbuns como Adeus Atlântico, seu terceiro registro de inéditas. Sim, porque se anteriormente o mineiro tinha como marca da MPB mais tradicional - como no anterior Logo Ali (2021) -, aqui temos a impressão de estar em um encontro sonoro global, tamanha a quantidade de referências utilizadas pelo artista. Reflexo de suas constantes viagens não apenas pelo interior do Brasil - de Rio de Janeiro à Bahia, passando pela sua própria terra natal -, e por países, como, Portugal e Inglaterra.

 


E ainda que siga tendo como base a viola caipira - espécie de marca registrada -, Bemti amplia as referências, incorporando, aqui e ali, elementos de britpop, new age, indie rock, psicodelia e até estilos em alta, atualmente, como o amapiano, da África do Sul. O resultado é um registro de raríssima beleza, capaz de navegar pelo rock rural de Sá e Guarabyra, como na irresistível e calorosa Quase Sertão, pelo folk alternativo à Bon Iver da faixa-título, e pelo soft rock oitentista de Euforia. Direto, orgânico, humano, onírico e altamente sofisticado, esse é daqueles álbuns pequenos, mas que só crescem a cada audição. E que materializam sentimentos ligados à memória, à saudade de casa e ao deslocamento contínuo, como parte da experiência humana. Se estiver em dúvida, comece por Miragem (Viver de futuro é ensaio / Preso na função dos triunfos / Dentro de um aquário / Que todo mundo vê). Seguramente uma das melhores canções lançadas em 2026.

Nota: 9,5 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Luca Argel (O Homem Triste)

Quem acompanha a carreira do brasileiro radicado em Portugal Luca Argel, sabe que ele é capaz de ser irônico e debochado - como no simples e divertido Conversa de Fila (2019), que é uma verdadeira coletânea de sambinhas cotidianos -, mas também sério e contemplativo como no político Sabina (2023), que é inspirado em texto de Luiz Antônio Simas. O que não costuma mudar no repertório do artista é o aceno à MPB clássica que, mesclada a outros ritmos, costumam conferir força as suas composições que, com O Homem Triste, parecem ainda mais urgentes e atuais. Ainda mais em tempos de machosfera, de masculinidade frágil, de ascensão da cultura redpill e de incels que acham que podem moldar as mulheres ao seu gosto. Geralmente alinhados à políticos de extrema direita que, com seu reacionarismo atroz, ampliam discursos de ódio e, consequentemente, casos de feminicídio e violência.

 


"Começou há quatro anos, com o nascimento do meu afilhado. Olhava para ele aprendendo a andar, a falar, até que um dia ele voltou da escola diferente. Mais agressivo, rejeitando alguns brinquedos, algumas roupas, algumas cores que ele antes gostava. [...] Fiquei me perguntando: como os meninos aprendem a ser homens? Que preço temos que pagar?", explicou Argel no material de divulgação. O resultado é um conjunto de canções que exploram o conceito do álbum, equilibrando à perfeição o peso do tema, com a suavidade pop das melodias. Algo que podemos perceber, por exemplo, na ondulante e inaugural faixa-título (Foi no jornal que aprendi ser homem / Foi na igreja e no futebol). Em outros pontos, os temas surgem de forma alegórica, como no reggae Primeiro Mar (O primeiro mar de todo mundo / Fica dentro de uma mulher) ou no sambinha spoken word Se Acabou (Votar, governar, falar bem alto / E beber, e sujar e não limpar / E fazer filhos e fugir / E cortar árvores, furar minas).

Nota: 8,5 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Pitaquinho Musical - Grace Ives (Girlfriend)

Vamos combinar que, em alguma medida, talvez o disco anterior de Grace Ives, Janky Star (2022), fosse um pouco mais hermético, com tintas mais experimentais. O que talvez pudesse afastar aquele ouvinte mais ocasional. Digamos que o "problema" foi solucionado com Girlfriend, o recente terceiro trabalho de estúdio, que parece uma experiência mais solta, mais direta. E sem abrir mão do bedroom pop sofisticado e lo-fi, mas com algumas doses da eletrônica minimalista, que costumam caracterizar seu som. Mais convidativa, após um período meio conturbado de uso de substâncias (nas entrevistas, ela não deixa claras quais), a artista nova-iorquina abre espaço para melodias cantaroláveis e mais emocionalmente abertas. É o caso da imediatamente grudenta Fire 2, que equilibra com perfeição os arranjos bem polidos, com as letras metafóricas sobre esgotamento e vulnerabilidade.  

 


Aliás, curioso pensar como a radiofônica e calorosa Lullaby, que encerrava o registro anterior, já parecia apontar para esse novo direcionamento. Proposital ou não, Grace Ives está mais palatável. Ela saiu do fundo poço, daquela sensação de teias de aranha pelo caminho. Como comprovam as refrescantes My Mans, Dance With Me e Stupid Bitches. Não que não haja espaço para algum estranhamento, afinal, essa meio que sempre foi uma das características da cantora - aquela coisa de quebra, de imprevisibilidade. Mas mesmo em canções como a onírica Now I'm, que abre o álbum, parece haver espaço para algum tipo de conforto, de espontaneidade. Claro que, mesmo assim, o disco nunca percorre um caminho óbvio, havendo espaço para a eletrônica mais contagiante, como em Avalanche ou para a contemplação, como em Drink Up.

Nota: 8,5 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - The New Pornographers (The Former Site Of)

Fosse o The New Pornographers um clube de futebol e talvez ele fosse aquele time azeitadinho que entra e sai temporada joga sempre da mesma forma, mantendo a qualidade. Ao cabo, pode-se dizer que o pop sofisticado dos canadenses pouco de modifica no transcorrer dos anos, com pequenas subidas ou descidas eventuais e, em seu décimo trabalho, The Former Site Of, temos mais uma coleção de canções de uma polidez aconchegante, sempre no modo irônico na abordagem de temas, como, imprevisibilidade do cotidiano, passagem do tempo, desgaste emocional e nostalgia. Tudo com aquele clima agridoce, em que as melodias calorosas contrastam com as letras reflexivas - o que pode ser percebido já no título do projeto. Aliás, o que faz total sentido, já que os integrantes do coletivo - A. C. Newman, Neko Case e companhia -, já estão mais próximos dos 60 anos, fora os quase 30 de carreira.

 


Não por acaso, músicas como Spooky Action funcionam ao mesmo tempo como metáforas existencialistas - na ideia de que partículas podem permanecer conectadas mesmo à distância -, ao passo em que também soam como reflexões sobre a importâncias das relações humanas, dos laços sólidos e das conexões, especialmente nestes tempos embrutecidos que vivemos (Enchendo minhas botas com poeira estelar / Enchendo meus bolsos com pedras). E tudo construído com aquela energia brilhosa, cheia de harmonia entre vocal e instrumental. Há uma série de outros momentos de beleza, como no caso de Votive ou mesmo a faixa-título. Há uma curiosidade sobre esse registro, que é o de que o grupo cogitou mudar de nome, depois de o baterista de longa data, Joe Seiders, ser preso por posse de material de abuso sexual infantil. Enfim, o sujeito foi desligado após o lamentável episódio. Com a banda mantendo a confiança em seu material, mesmo frente a esse lamentável caso.

Nota: 8,0 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - Courtney Barnett (Creature of Habit)

Vamos combinar que tem muita gente saudando o Creature of Habit, quinto disco de Courtney Barnett, como se fosse uma espécie de retorno às origens da artista australiana. E talvez isso fosse meio inevitável, já que o anterior e, menos caloroso, Things Take Time, Take Time (2021) havia sido gestado em um contexto ainda de pandemia, com o mundo todo meio borocoxô (a talvez fizesse pouco sentido um álbum excessivamente irônico, com letras debochadas sobre questões cotidianas aleatórias). Bom, corta pra 2026 e, por mais que estejamos caminhando rumo ao apocalipse, talvez nos reste sorrir - ou seguir como os músicos do Titanic, tocando enquanto tudo afunda. O que faz com que versos como "Eu sei que eu tenho um coração sensível / Estou sempre analisando ele / E quando o jogo para os urubus / Eles também não o querem", da irresistível Sugar Plum funcionem em toda a sua graça melancólica e adocicada.

 


Em linhas gerais as melodias estão também mais expansivas, quase radiofônicas - tanto que canções como Wonder, ou Same não fariam feio em algum bloquinho indie mais festivo, com bandas de slacker rock e folk. Claro que os temas mais contemplativos - de autoanálise, de incertezas, de bloqueios e de mudanças de percurso -, também estão lá, mesmo em instantes de fluidez. Um bom exemplo nesse sentido pode ser percebido na hilária e central Mantis, sobre a vez em que ela encontrou um louva-a-deus no batente da porta de casa, com esse evento meio aleatório se tornando matéria-prima para uma canção sobre paciência e perseverança frente ao sentimento de resignação (Me sentindo um pouco alienada / Estou flutuando sem rumo / Mas com os pés concretados / Debaixo desta criatura de hábito). "É uma espécie de recalibragem de rota", Barnett teria dito em entrevistas. O resultado é um disco iluminado, com um brilho e um polimento que soam despretensiosos, mas no fim são cheios de personalidade.

Nota: 8,5
  

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - James Blake (Trying Times)

Não que isso chegasse a ser um grande problema, mas vamos combinar que parecia faltar um tanto de calor à Playing Robots Into Heaven, registro lançado por James Blake em 2023 e que apostava em uma eletrônica minimalista e sofisticada, mas um tanto congelante. Enfim, o que resultava em canções de texturas mais rígidas, que pareciam mais distantes do ponto de vista emocional. Como em um inferninho solitário, a exemplo de I Want You to Know, que talvez não fizesse feio em algum disco do Jamie XX. Corta pra 2026 e temos um artista que, com o excelente Trying Times, jamais se afasta de suas origens que mesclam dubstep, R&B, gospel e soul experimental - com sua voz funcionando como uma extensão das melodias -, mas que parece disposto a uma espécie de reencontro com os arranjos mais aconchegantes de outrora. Pode ser só uma impressão, mas há uma energia meio ensolarada mesmo em ambientações fantasmagóricas. Ou mesmo nas letras cheias de vulnerabilidade.

 


Um bom exemplo nesse sentido pode ser percebido na engenhosa I Had My Dream She Took My Hand que, com suas emanações oníricas e versos alegóricos (Eu tive um sonho em que ela pegou minha mão / Ela começou a se dissolver junto com sua alma) conduz o ouvinte em uma jornada estranha e nostálgica em igual medida. O expediente se repete na faixa-título, uma canção vulnerável mas esperançosa, que se vale de sintetizadores suaves e batidas econômicas, que parecem se espalhar a cada nova curva. Como um todo há uma beleza cósmica e etérea, mas que ao mesmo tempo abraça, acolhe. "Eu sei que todo mundo diz isso, mas, objetivamente, esse é meu melhor álbum", resumiu o artista em entrevistas, sem falsa modéstia, talvez por ter conseguido, nesse caso, trabalhar de forma mais independente. E quando a gente ouve canções tão envolventes, como, Rest of Your Life, Just a Little Higher e Days Go By, além da sinistra Doesn't Just Happen, feita em parceria com o rapper Dave, é difícil discordar.

Nota: 8,5 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - BUHR (Feixe de Fogo)

Vamos combinar que a Karina Buhr pode até ter mudado seu nome artístico - agora ela responde apenas por BUHR que, verdade seja dita, parece uma onomatopeia cheia de força, com o sobrenome reforçando sua identidade não-binária -, mas a potência de suas músicas como um todo, segue em altíssima voltagem. Afinal, quem acompanha a carreira da artista sabe que seus discos sempre funcionaram como um refúgio entre a esperança e a resistência, a paixão e a luta. Fazer música brasileira tentando fugir do rótulo não é tarefa fácil, e nessa transição marcada pelo processo natural de amadurecimento, um álbum como Feixe de Fogo parece encontrar esse equilíbrio. Sim, os ritmos brasileiros seguem mesclados com a MPB, o rock, o maracatu, o reggae e o manguebeat, mas em uma experiência um tantinho menos selvagem do que no registro anterior, o impressionante Desmanche (2019), disco marcado pela percussão.

 


Aqui, tem-se a impressão de um álbum mais urbano, eletrônico, imediato e abrasivo - talvez menos antropofágico do que os anteriores, incluindo aí o excelente Selvática (2015), com seu título autoexplicativo. O que talvez tenha a ver com as próprias andanças da cantora, que organiza sua vida atual em três cidade distintas - Recife, Fortaleza e Salvador. Fora as tantas outras geografias e identidades. "É a faísca do disco, dessas andanças todas, porque ele foi feito por todos esses lugares. É o que acompanha, é esse caminho da turbina, da fogueira", resumiu a artista em entrevista à Folha de Pernambuco, citando ainda que esse é um projeto movediço que "avança, ilumina e consome". O resultado é um conjunto de canções cheias de participações especiais - de Josyara a Russopassapusso -, e que navegam entre paixões furiosas (na faixa-título), tensões cotidianas (Ânsia), caos da metrópole (Voaria), amores enigmáticos (70 Cigarros) e nostalgia evocativa (Oxê, uma das melhores canções do ano).

Nota: 8,5 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Pitaquinho Musical - Harry Styles (Kiss All the Time. Disco, Occasionally)

Pode parecer curioso, especialmente para um grande astro pop, mas Kiss All the Time. Disco Occasionally, quarto registro de inéditas do Harry Styles, é o tipo de álbum que não gruda imediatamente. Sim, a gente pode até sair cantarolando aqui e ali um we belong togheter, depois de Aperture - que meio que dá um norte pro álbum. Mas certamente será preciso revisitá-lo mais de uma vez para uma melhor absorção. O que, diga-se de passagem, é algo positivo, especialmente em um contexto em que tudo parece tão efêmero, ainda mais no cenário cultural. Ok, é meio óbvio que uma canção como a frenética Pop será sucesso imediato nas paradas, mas há espaço para incursões do artista pelo afrobeat (Are You Listening Yet?), pelo indie The 1975 encontra Jimmy Eat World (American Girls) ou pela baladinha moderna de trilha sonora de filme alternativo (Coming Up Roses, uma das melhores).

 


Nas letras, de tudo um pouco daquilo que orbita a vida de um sujeito como Styles: solidão, vulnerabilidade, conflitos interiores, o vazio existencial dos tempos e a necessidade de se provar meio que o tempo todo - o que, verdade seja dita, ele já faz desde a sua ótima estreia há quase dez anos, quando iniciaria o lento processo de depuração que o descolaria um tanto do One Direction. Um bom exemplo dessa evolução como um todo está na belíssima The Waiting Game, com seus uuuhs Miya Folick fase Premonition (2018) e letra sobre a tendência excessivamente humana de romantizar erros ou evitar responsabilidades. Já Dance No More parece uma estranha junção do Chic com o Neon Indian, o que só atesta a capacidade de embaralhar todos esses elementos do caldeirão moderno que une eletrônica, psicodelia e pop dançante. Por fim há o fechamento com Carla's Song, inspirada na amizade real com uma amiga que lhe apresentaria, no passado, a dupla Simon & Garfunkel. Aulas. De quebra, com refrão mântrico e caloroso. É de passar o dia reescutando.

Nota: 8,5