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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Dia D (Disclosure Day)

De: Steven Spielberg. Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo. Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 146 minutos.

Sabe quando você está vivendo o seu dia normalmente e um colega de trabalho, um familiar ou mesmo um amigo, empunhando um celular, te convida a assistir um vídeo - um conteúdo qualquer - que você tem a mais absoluta certeza que não te impactará, mas você aceita ver para não fazer a desfeita? E que quando o conteúdo é finalizado você fica com aquela cara de "legal, vai avisando qualquer coisa" porque o troço não te pegou de nenhuma maneira? Confesso a vocês que foi exatamente esse o meu sentimento assistindo ao tão falado Dia D (Disclosure Day), talvez um dos piores filmes já concebidos por Steven Spielberg - que, todos sabemos, tem uma carreira sólida e uma excelente reputação entre público e crítica. Só que é sério mesmo que o grande tema central desse retorno do diretor aos filmes de extraterrestres envolve uma teoria da conspiração requentada e que já foi tema de produções do próprio Spielberg no passado?

Quando iniciou o falatório sobre o filme, que estreia para aluguel no streaming nesta segunda-feira, com direito a conjurações envolvendo o próprio Spielberg e o retorno de uma conspiração estranha que volta e meia reaparece, de que o realizador teria tido acesso sem precedentes a arquivos confidenciais do governo (e que talvez até filmasse, pasme, com ETs de verdade), as plateias mundo afora ficaram em choque. E empolgadas com a possibilidade de poder rever um Spielberg ativo, e próximo dos 80 anos, revivendo os anos de ouro do cinema de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), e que entregou ao mundo clássicos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ET: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005). Só que o resultado geral alcança o auge do cringismo na sequência em que takes variados da população paralisada diante das telas (ou monitores de TV) reagindo às supostas imagens chocantes de seres de outro planeta são, enfim, depois de mais de duas cansativas horas de perseguições genéricas e de uma salada de roteiro mal engendrada, reveladas.

 


É sério mesmo que, em um mundo em que teorias da conspiração à moda chip chinês na vacina são meio que uma tarde de terça-feira qualquer do incel médio que se alimenta todos os dias de 4Chan, de Cheetos e de Coca Cola, devemos nos animar com a reativação dessa história de décadas atrás, que mais parece saída de um filme de espionagem e de ação que ficou meio perdido entre as décadas de 80 e 90? E que talvez também combinasse mais com o Spielberg de outrora, que ainda acredita que as grandes revelações do planeta serão televisionadas? Talvez os doidinhos de bairro loucos pra farmar seus canais com listas ao estilo "10 Sinais de que Spielberg acessou arquivos secretos da FBI (o sétimo é inacreditável)" talvez se animem com a história toda mas, no meu caso, eu só consegui sentir foi tédio. Vamos ver o novo filme do Spielberg? Sim, claro. Mas a minha reação ao final foi como se tivesse assistido ao pior videozinho do perfil de gosto duvidoso do amigo que te estende o celular e que jurava que tu ia gostar do conteúdo daquele humorista de stand up que finge neutralidade, mas que se destaca em um nicho bem específico (o dos reacionários de extrema direita que verbalizam todos os tipos de preconceitos por metro quadrado).

Não bastasse a frustração pelo ponto central da obra ser a mais batida das histórias de conspiração que se tem conhecimento e que, em geral, não acrescenta nada de novo, ainda vivi uma sensação meio vazia no transcorrer, enquanto acompanhava a movimentação daqueles sujeitos. Sujeitos, aliás, que não poderíamos nos importar menos, já que eles não têm história, não têm passado, não têm família, não comem e não dormem. E, como se desgraça pouca não fosse bobagem, essa é uma obra que, enquanto coloca no micro-ondas o tema dos segredos de Estado governamentais da terra do Tio Sam - que esconderia informações preciosas e relevantes da população durante décadas de presidentes republicanos e democratas (por que, né, nem esquerda nem direita) -, ainda reaproveita, como se ainda vivêssemos os anos de Guerra Fria e de corridas tecnológicas, narrativas paranoicas sobre ameaças comunistas (com citações à Rússia, à Coreia do Norte e até à crise dos mísseis em Cuba sendo resgatada como um paralelo com os tempos confusos que vivemos). "Não tenha medo do que você não conhece", lembra o especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O'Connor), em certa altura, como parte de um conjunto de revelações. O problema é que a gente conhece esse modus operandi do imperialismo até demais - e por isso o tememos.

 

 

Kellner é o sujeito que trabalha em uma corporação ligada ao Governo - seu nome é Wardex - e que rouba não apenas documentos e discos rígidos com revelações bombásticas que remontam ao famoso incidente de Roswell, ocorrido na década de 40, como também furta um dispositivo extraterrestre da instalação - dispositivo este, que permite comunicação telepática e outras habilidades psíquicas (inclusive com animais) e que nem sempre são simples de compreender. Sua história se cruzará, mais adiante, com a da apresentadora de TV Margaret (Emily Blunt), que também passa a ser perseguida após viralizar um vídeo em que ela fala uma língua estranhíssima ao vivo - o que fará com que a Wardex desconfie de suas habilidades de comunicação extraterrestres. Durante duas horas integrantes da tal companhia, liderados pela pouco convincente figura do CEO Noah (Colin Firth, canastríssimo), tentarão de forma remota localizar a dupla. O que resultará em algumas das mais repetitivas perseguições do cinema moderno. Enquanto os mocinhos tentam encontrar Hugo (Colman Domingo), outro desertor da companhia, um sem fim de discussões pouco aprofundadas sobre conspirações corporativas, papel da Igreja nas dinâmicas de poder, uso da tecnologia para fins escusos e crises políticas da modernidade (vem aí a terceira guerra, viu?) se intercalarão, em uma experiência que, sinceramente, nunca decola. É um filme que roda em torno de si e que sequer tem graça ou charme - e até as tentativas de humor são furadas (como na cena em que há uma longa tentativa de "atropelamento" de um celular). Eu juro que abri o vídeo do amigo Spielberg achando que vinha coisa boa. Mas talvez eu só tenha virado o tiozão que desconfia que tudo é IA e que tem pouco saco pra acreditar que algo do tipo faria o mundo parar. Provavelmente no mercadinho da esquina só se falaria de outra coisa.

Nota: 2,5 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Surda (Sorda)

De: Eva Libertad. Com Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta e Joaquín Notário. Drama, Espanha, 2025, 99 minutos.

Um ótimo filme sobre empatia em relação aos deficientes auditivos, mas que jamais trata a sua protagonista com condescendência. Assim é Surda (Sorda), drama espanhol escrito e dirigido por Eva Libertad e que está disponível para aluguel na Amazon Prime e da Apple TV. Aqui temos, assim como ocorre em outras produções - como no caso de O Som do Silêncio (2019) e No Ritmo do Coração (2021) -, a experiência de uma mulher surda de nome Ángela (Miriam Garlo, irmã da diretora e que é, de fato, deficiente auditiva), em uma busca permanente por adaptação em um mundo de ouvintes. Por mais que seu amoroso marido Héctor (Álvaro Cervantes) e o seu grupo de amigos surdos se empenhem em tornar a sua existência o mais inclusiva possível - e não por acaso, grande parte dos diálogos da produção, transcorrem com o uso da língua de sinais.

Só que a rotina mais ou menos pacífica de Ángela e Héctor - ela uma respeitada ceramista e ele um agricultor familiar -, é alterada quando a protagonista descobre estar grávida. E não é que o casal não esteja feliz, a despeito do bem humorado diálogo com os amigas surdas assim que a notícia chega, que não se furtam em verbalizar a complexidade de se criar crianças e adolescentes nesse mundo (a dificuldade de comunicação, afinal, parece independer da deficiência), mas será nesse momento em que Ángela se deparará com o preconceito estrutural que ainda rege a nossa sociedade. Os próprios pais da protagonista Elvira (Elena Irureta) e Fede (Joaquín Notário), a despeito da gentileza permanente, não deixam de cometer deslizes ao se mostrarem incomodados com o anúncio da gravidez, especialmente diante da possibilidade de haver a possibilidade de o bebê também ser surdo, por questões genéticas.

 


As idas e vindas de Ángela e Hector entre hospitais e lojas de equipamentos especializados não ajudam em nada, dada a frieza dos atendentes e da total falta de capacidade do ser humano em geral - aliás, todos nós podemos nos incluir nessa - em saber lidar com PCDs. Em linhas gerais Ángela consegue executar a leitura labial e entender muito do que é dito, o que não evita instantes incômodos - "por quê ela está falando só com você e não comigo?", reclama ela diante da médica ginecologista, que lhe passa detalhes a respeito das possibilidades de uma mãe surda gerar um filho com a mesma condição. Aliás, o auge dessa complexidade envolve justamente o momento do parto, quando Héctor é levado junto à sala de cirurgia para tentar traduzir em tempo real as instruções da equipe hospitalar, em uma sequência que se estende bastante na aparente intenção de fazer com que o público perceba que a dor nesse instante é tão emocional quanto física.

Só que diferente do que poderia ocorrer com outras obras, o roteiro de Libertad evita o "coitadismo" na hora de caracterizar Ángela. Claro, ela se sente preterida em rodas de conversa, com tudo piorando quando ela descobre que a filha não será surda - sendo muito hábil em evidenciar a sua insatisfação sobre a sina da própria filha não ser a mesma dela (e não deixa de ser interessante notar como ela caracteriza esse desapontamento com o mero olhar ou leves inflexões de expressão). Longe de ser uma mãe amorosa, ela entre numa espécie de rota de disputa com Héctor, que se acentua com a depressão pós-parto, com a incomunicabilidade recorrente se tornando uma alegoria para um casal que começa a ver a deterioração de sua relação com a chegada de um filho (o que também pode ocorrer com ouvintes, por óbvio). Bonito, carismático e com ótima reflexões sobre empatia e respeito às diferenças, esse é um projeto que ainda usa o aparato técnico - especialmente a edição de som -, para fortalecer as suas ideias. Não por acaso, a obra recebeu uma série de premiações, podendo agora encontrar o carinho do público.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Beladona (Belladone)

De Alanté Kavaïté. Com Nadia Tereszkiewicz, Daphne Patakia, Dali Benssalah, Alexandra Stweart, Patrick Chesnais e Miou-Miou. Ficção científica / Drama, 2025, 95 minutos.

Vamos combinar que filmes sobre etarismo ou que confabulem a respeito do destino dos idosos, tem se tornado uma espécie de subgênero curiosamente recorrente - como evidenciam distopias recentes, como a enigmática produção japonesa Plano 75 (2022) ou o exuberante nacional O Último Azul (2025). Sim, em uma sociedade no limite entre o niilismo e a misantropia, o simples ato de permitir uma velhice digna parece certo exagero - e talvez não seja por acaso que, em um contexto tão pautado pela individualidade e pelo produtivismo infinito como um efeito do capitalismo tardio, ficções científicas do tipo tenham certa tração. Em Beladona (Belladone), que está disponível na Reserva Imovision, temos novamente este futuro próximo em que uma jovem chamada Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), é responsável por cuidar de um grupo de idosos refugiados em uma ilha.

Em geral não há muitas informações para além de um letreiro inicial que indica que, nessa realidade paralela, idosos com cerca de 80 anos são enviados para instituições. Para viver? Para morrer? Apartados de suas famílias? Cuidados pelo Estado? Pouco se sabe. E não demorará muito para que compreendamos que Gaëlle opera, em seu isolamento permanentemente preocupado, de forma meio clandestina. Só que sendo responsável por oito velhos, os problemas de saúde são inevitáveis, o que fará com que ela acione, via rádio, uma embarcação que navega em alto-mar, atraindo para o local a bela médica Aline (Daphne Patakia) e seu caloroso irmão David (Dali Benssalah), que, inicialmente, auxiliarão no socorro geral do grupo de anciãos. Como no caso de Pierre (Patrick Chesnais), um fã de literatura que mantém uma biblioteca em uma das habitações do local.

 


Em alguma medida a chegada à ilha de dois jovens tão bonitos, tão inteligentes e tão cheios de vida como Aline e David - a tiracolo ainda está a fofíssima filha de Aline -, parece reanimar o coletivo octogenário. Até mesmo retirando-os, ao menos momentaneamente, de certa resignação de quem, apenas, aguarda a morte como um destino inevitável. Não por acaso, Evy (Alexandra Stweart, uma bela senhora do alto dos seus oitenta e muitos anos), até se anima a usar um novo vestido que estava a muito guardado, como forma de despertar a atenção de David, que tem idade para ser seu neto. Já Olivier (Jean-Claude Drouot), que tem como hobby a pintura, anima-se a instigar Aline a posar para ele, para um novo quadro. Há um certo descontentamento geral de Gaëlle com toda aquela movimentação. Que rompe a lógica da rotina a que todos ali estavam acostumados.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo piora quando, após uma noite em que todos ali jantam animados - abusando da comida, da bebida e até de outros prazeres sensoriais -, os idosos começam a padecer um a um. Como médica, Aline parece ter explicações razoáveis para as mortes - problemas circulatórios, tumores e etc -, mas Gaëlle parece ter dificuldade em aceitar a finitude. O que a leva a culpar os forasteiros. De forma metafórica, a diretora Alanté Kavaïté espalha pela ilha a própria planta beladona que, se consumida em pequenas doses pode ter um sem fim de efeitos benéficos, sendo essencialmente venenosa em sua versão in natura - suas bagas e folhas. Essa dicotomia entre o homeopático e o tóxico, a celebração e a dor, ou mesmo entre a vida e a morte parece guiar a narrativa, que nos conduz a uma série de reflexões sobre dignidade na terceira idade, autoridade e excesso de zelo. É uma produção bem executada tecnicamente, com trilha sonora existencialista e cenários idílicos que reforçam o ideal contemplativo do todo. Ainda que não haja um grande ponto chave ou de virada, que aprofunde a questão. É bonito e carismático, mas só.

Nota: 7,0 

 

Novidades em Streaming - Águias da República (Republikens Örnar)

De: Tarik Saleh. Com Fares Fares, Zineb Triki, Lyna Khoudri, Amr Waked e Cherien Dabis. Drama / Suspense, Suécia / Dinamarca / Finlândia / França, 2025, 129 minutos.

"Faraó das telas". O apelido pode ser meio brega, mas define bem a condição de George Fahmy (Fares Fares), o protagonista de Águias da República (Republikens Örnar), que foi o enviado da Suécia para a última edição do Oscar e que está disponível na Reserva Imovision. George é um renomado ator egípcio que participa de uma série de produções de gosto meio duvidoso - aqueles tipos de filmes românticos e épicos bastante populares -, mas que consegue ultrapassar com certa tranquilidade o rígido código de regras de censura do País. Aliás, como galã de cinema que trafega em ambientes mais progressistas, o protagonista aparenta ter ideias opostas às do patriotismo nacionalista, religioso e militar que, aqui, são fortemente representados pelo general Abdul Fatah Al-Sisi, que governa o País com mão de ferro, perseguindo opositores, rivais políticos, imprensa e, claro, setores ligados às artes, a educação e a cultura.

Em geral George tenta ficar alheio a isso. Mas não consegue, especialmente após ser constrangido durante um almoço com seu filho, por um misterioso funcionário do governo que o observa à distância - mais tarde descobriremos que se trata de um certo Mansour (Amr Waked), que se comporta como um Robert Walker do clássico Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock, com seu olhar desafiador e enigmático. Com tudo piorando após um encontro com um grupo de atores que se dizem favoráveis ao governo, atuando contra dissidentes que tentam manchar a imagem dos militares, instigando-o a fazer parte do coletivo. O protagonista evita o grupo, por acreditar haver contradições entre ser um artista e um patriota - ou ao menos o que eles imaginam ser um patriota (e, vamos combinar que, nessas horas a gente percebe que só muda o País no que diz respeito a esse aspecto).

 


Resumo da ópera, George tem seu contrato para um novo filme suspenso, com direito a sumiço do seu trailer que funciona como um camarim. De forma indireta sua família passa a ser ameaçada e até mesmo os amigos, como no caso da companheira de telas Rula (Cherien Dabis), que talvez fique sem contrato de trabalho após defendê-lo em uma entrevista em rede nacional. Já a jovem Donya (Lyna Khoudri), que tenta emplacar uma carreira no meio, também dependerá da decisão do sujeito de se juntar ou não a uma peça de propaganda financiada pelo governo, no sentido de limpar a sua imagem após os eventos decorrentes do golpe de 2013 no País (uma produção meio Dark Horse, o filme do pangaré, egípcio). Diante de tantas pressões ele aceita o papel. Mesmo não tendo nada a ver com Al-Sisi. Aliás, nem fisicamente nem do ponto de vista político, religioso e cultural.

Em meio as filmagens, Goerge se aproxima de Suzanne (Zineb Triki), a elegante e letrada esposa do ministro da defesa - com quem ele se identifica em um jantar, após citações à Shakespeare e indiretas a respeito de homens minúsculos que só sabem falar a língua da guerra. E como as coisas não estão muito bem com Donya que, verdade seja dita, só está com o sujeito pelo glamour e para provocar o pai militar, George passa a ter um caso com Suzanne. E, bom, se a intenção era obter sarna pra se coçar, aqui o sujeito obtém o kit completo. Tensa e com perseguições diversas - como no caso do filho estudante de um vizinho -, mas também divertida - a cena da compra do tadala é ótima -, a trama vai evidenciando como o mergulho nesse ambiente de violência estatal se torna um caminho meio que sem volta depois de certas decisões tomadas. Com chantagens e jogos de poder de parte a parte. Ao cabo, pode haver algo sedutor em aderir às esferas de poder. Mas George aprende, da pior forma possível, que o preço dessa proximidade pode ser alto. E devastador em igual medida.

Nota: 8,0 

  

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Novidades em Streaming - Obsessão (Obsession)

De: Curry Barker. Com Inde Navarrette, Michael Johnston, Cooper Tomlinson e Megan Lawless. Suspense, EUA, 2026, 109 minutos.

Vamos combinar que a gente chegou num ponto em que o público parece tão ansioso por um terror efetivamente bom que, quando aparece alguma coisa apenas mais ou menos, como esse Obsessão (Obsession), já fica todo mundo meio que... obcecado (com o perdão do trocadilho). E confesso que, enquanto assistia à sequência meio que aleatória em que Nikki (a, de fato, ótima Inde Navarrette) faz um sanduíche com os restos do gato morto de Bear (Michael Johnston), eu só conseguia lembrar da psicopata vivida por Glenn Close em Atração Fatal (1987), em uma década em que esses suspenses de paixões compulsivas que desencadeariam, mais adiante, uma série de eventos violentos, eram moda. E, vamos lá, o problema do segundo longa do Youtuber Curry Baker nem é o fato desse subgênero já ter existido antes, de forma muito efetiva. E, sim, porque ele nos exaure rondando um tema que poderia, aparentemente, ser melhor adaptado aos tempos em que vivemos.

Sim, não é que não existam mulheres obsessivas por seus parceiros, mas vamos combinar que essa ideia de casal que mantém um perfil único nas redes sociais porque a esposa não deixa o jovem ir pro churras com os parças, parece meio deslocada em um tempo em que a misoginia só cresce. Nesse sentido, Obsessão parece ser aquele filme pro incel redpill meio desavisado assistir com os amigos, pra depois ficar dizendo como a "dona patroa" é igualzinha à Nikki, já que o alecrim não pode ir nem na esquina sem que ele seja vigiado (sendo que, na grande maioria dos casos, parece ser o inverso o que acontece, com os homens de masculinidade frágil incidindo sobre roupas, atividades, comportamentos e, se deixar, até o voto de suas companheiras). "Ah, mas isso que a gente vê na tela é apenas uma projeção do comportamento cringe do próprio Bear e de suas obsessões, já que ele é o protagonista meio freak e de cabelo oleoso, que fica obcecado pela colega de trabalho", poderá alguém dizer. É uma interpretação talvez até mais esperada, já que parece haver uma Nikki "real" por baixo daquela camada alienada, que sofre uma maldição. E espero que o público capte essa nuance.

 


E, bom, como já dito, na trama Bear é o sujeito introspectivo e de poucas habilidades sociais, que mantém uma amizade com a galera do trampo, como no caso de Ian (Cooper Tomlinson) e Sarah (Megan Lawless) e está meio que na friendzone com Nikki, sua amiga de infância e paixonite à moda Apenas Mais Uma de Amor, do Lulu Santos, que ele precisa lidar diariamente quando a firma de instrumentos musicais em que todos trabalham, abre. Aliás, essa paixão é tão desequilibrada, que ele chega ao ponto de ensaiar com os amigos, o que e como deveria dizer para Nikki, no sentido de conquistá-la. Lembrando, Bear deve estar próximo dos 30 anos. E nunca deve ter procurado um terapeuta (ainda que sua dispensa esteja entupida de opioides). Aliás, mais uma falhazinha meio básica do roteiro: ninguém ali tem vida para além daquela rotina de solidão em quatro paredes, gatos que morrem aleatoriamente e tentativas frustradas de se relacionar - outras ocupações, famílias, tudo uma camada abaixo. Bear é o esquisitão e Nikki o considera um bom amigo, já tendo deixado isso meio que claro pra todo mundo. 

Mas o protagonista é insistente e resolve ir a uma loja de quinquilharias para jovens místicos, onde compra um artefato conhecido como Salgueiro do Desejo, que lhe possibilita um único pedido que pode ou não funcionar. Que a desigualdade do mundo acabe? Que as guerras cessem? Que o líder bizarro da extrema direita sucumba? Um bilhão de dólares? Bom, o próprio Baker já admitiu em entrevistas que, em um eventual mundo real em que essa peça existisse, nada faria muito sentido e o caos absoluto reinaria. Mas Bear quebra o item solicitando ao destino que Nikki "lhe ame mais do que tudo no mundo". O que instaurará o terror de um relacionamento que se inicia bem, com uma conexão boa ainda que gerada por linhas tortas, mas que evolui para a codependência absurdamente sufocante, o que deixará uma trilha de morte, sangue, vísceras e carne de gato no sanduíche. E de urina e vômito. Porque sim, né, terror psicológico tem dessas metáforas nem tão metafóricas.

 

 

E não é que não existam boas sequências de sustos, algumas no estilo de gerar medo onde, aparentemente, não existe nada. Nenhum motivo para temor. Seja numa madrugada em que Nikki acorda inesperadamente para olhar Bear dormindo - uma coisa meio O Exorcismo de Emily Rose  (2005), esse sim um filme apavorante -, ou quando ela forma uma espécie de barreira protetora de fita tape na entrada de casa para, supostamente, impedir o companheiro de sair. De ir longe. Com a gente compreendendo segundos depois a luta interior de Nikki - com a sua verdadeira personalidade afogada em uma espécie de limbo. Mas, voltando ao início, ao tentar uma abordagem dos problemas que podem haver em uma relação de chantagens emocionais, carências afetivas infinitas e intimidade tóxica, a obra consegue entreter com sua "possessão demoníaca" lateral e bateção de cabeça inesperada, ainda que mesmo esses eventos pareçam meio exagerados e infantis em alguma medida (talvez ela tenha tração maior com adolescentes, de fato, e nem sei se isso é bom). É um filme com méritos, mas bem de longe de ser a última bolacha do pacote, que parte da crítica anda vendendo.

Nota: 6,0 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless)

De: James Sweeney. Com Dylan O'Brien, James Sweeney, Aisling Franciosi e Chris Perfetti. Comédia / Drama, EUA, 2025, 100 minutos.

Que filme inesperadamente simpático e cheio de carisma esse Twinless: Um Gêmeo a Menos (Twinless), de James Sweeney. Confesso que fui assistir com poucas expectativas - até por um certo cansaço da narrativa de sofrimento queer, que parece fazer barulho com um público restrito ou somente em festivais alternativos, como o de Sundance. Mas aqui temos não apenas uma produção cheia de boas surpresas e reviravoltas - aliás, vale a pena ir meio às cegas -, como uma leve subversão no que diz respeito ao comportamento daqueles que acompanhamos. Tudo começa em um funeral, em que o taciturno Roman (Dylan O'Brien, que está excelente) tenta juntar os cacos após a trágica morte do irmão Rocky, em um acidente automobilístico. Em meio a discussões com a própria mãe Lisa (Lauren Graham) sobre o que fazer com os objetos do irmão, Rocky decide participar de um daqueles grupos de apoio meio constrangedores, que muito vemos nos filmes de Hollywood.

É nesse local que Roman conhecerá Dennis (Sweeney, que também atua), que alega também ter perdido o irmão, com quem não teria muito contato. De forma meio surpreendente, até pela personalidade diametralmente oposta de ambos - Dennis é o gay de perfil mais brincalhão (inclusive em hora errada), ao passo que Roman é o hétero mais introspectivo -, a dupla faz amizade. Meio que se apoiando em tudo - de compras no mercado e jantas aleatórias a idas ao jogo de hóquei no gelo. Em meio a confidências, Roman de ressente de nunca ter sido capaz de conversar sobre os relacionamentos com o irmão falecido. Que teria saído de casa justamente por causa do preconceito familiar - e dele mesmo. Aliás, em uma das tantas cenas bonitas da obra, Roman se emociona ao verbalizar seu sentimento de culpa por nunca ter sido capaz de aceitar a preferência sexual do irmão. Por ter surtado por ele ser gay. Por tê-lo chamado de "veado". "Não sei como continuar aqui sem você", chora copiosamente, amparado por Dennis.

 


[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Só que nessa altura do campeonato, o espectador já sabe que Dennis esconde de Roman o maior segredo da história. Não apenas ele havia tido um encontro amoroso e cheio de paixão sexual com Rocky pouco tempo antes do seu falecimento, como ele estava no local na hora em que o acidente ocorreu. Pior do que isso, a sua atitude de confronto em plena rua, no cruzamento de uma avenida, pode ter sido decisiva para o atropelamento - em uma cena de ciúmes de um outro rapaz. Como forma de preservar a amizade, Dennis age quase como um mitômano, dobrando a aposta nas mentiras, em sequências como a do reencontro com o ex que estava na cena do acidente. Ou fingindo crises de ansiedade aleatórias, como nos momentos em que ele passa a se morder de ciúmes da colega de trabalho Marcie (Aisling Franciosi), com quem Roman inicia um relacionamento.

Repleto de belas sequências sobre dor, ciúmes, memórias, luto, segundas chances e recomeços, a obra evolui de forma divertida (e tensa) conforme o tempo passa, com a verdade chegando muito próxima de ser revelada. Inteligente e discreta, Marcie terá papel decisivo no terço final - e confesso que adorei o fato de ela nem de longe ser uma megera esquisita (ela é um doce), ao passo que Dennis também é ótimo como a "bicha má" ressentida, mas charmosamente carismática, que precisa lidar com as próprias frustrações. E mesmo dramático, o filme diverte com boas piadas - como no momento da briga com um grupelho de fedelhos homofóbicos ("achei que a geração Z fosse mais legal") - e um sem fim de instantes afetuosos, inventivos e devastadores. Tecnicamente atenta ao público mais jovem, com edição ágil e trilha sonora de nomes como as Haim, essa é daquelas produções que descem direitinho. Tá na Amazon.

Nota: 8,0

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Órfão (Árva)

De: László Nemes. Com Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics, Elíz Szabó e Marcin Czarnik. Drama, Hungria / França / Reino Unido / Alemanha, 2025, 133 minutos.

Um filme sobre a procura de um filho por seu pai, mas que também pode ser lido como uma alegoria para a busca de uma Pátria por uma identidade que parece perdida. Em linhas gerais não é exagero dizer que O Órfão (Árva) - o enviado da Hungria para a mais recente edição do Oscar e que estreou na última semana na Mubi - parte de um microcosmo que envolve uma família traumatizada não apenas pela segunda guerra, mas também pela ocupação soviética, imediatamente após o conflito. Com as feridas abertas como um todo no tecido social de uma nação que, no limite, parece ter trocado um regime ditatorial por outro - no caso o nazismo pelo stalinismo húngaro. Sim, talvez esse contexto não seja algo tão simples assim de se entender, ainda mais se levarmos em conta o fato de, inicialmente, a Hungria ter sido aliada dos alemães para, mais adiante, ser invadida e saqueada pelos militares de Hitler. O que resultaria em milhares de judeus deportados para campos de extermínio.

No filme de László Nemes - do agonizante vencedor do Oscar O Filho de Saul (2015), que também tem a guerra como pano de fundo -, o conflito já se encerrou há mais de uma década. O ano é 1957 e o protagonista - o pequeno Andor (Bojtorján Barabas) -, após ter sido resgatado dez anos antes por sua mãe, Klára (Andrea Waskovics), uma sobrevivente do holocausto, é detido pela polícia junto com outros adolescentes por, supostamente ter participado da Revolução Húngara no ano anterior, ocasião em que estudantes, professores, intelectuais, artistas e outros trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético. Milhares morreram e muitos fugiram do País. Em linhas gerais, Andor acredita que seu pai, um dos desaparecidos, possa estar vivo em algum local - aliás, ele tenta se "comunicar" com o genitor em uma espécie de porão abandonado. Mas sem nunca ter certeza disso.

 


Em paralelo o rapaz, que parece saído de alguma obra do neorrealismo italiano - o que é reforçado pela fotografia granulada e dessaturada das ruas decadentes de Budapeste, com sua arquitetura antiquada e ambientação urbana opressiva (com a presença de militares por todos os cantos) -, especialmente por suas andanças infinitas ladeando prédios e terrenos ermos, mantém uma graciosa amizade com Sari (Elíz Szabó) que, secretamente, ajuda a manter seu irmão escondido em uma habitação abandonada (ele seria um revolucionário sendo procurado pelo Estado). Já outro amigo de Andor, Geza (Marcin Czarnik), um ator de teatro, parece ser aquilo que mantém seu vínculo não apenas com a humanidade, mas também com a identidade de seu povo e de sua família (já que seu pai era o proprietário do cinema local). Especialmente em um cenário de vigilância, prisões políticas e opressão a opositores. 

A desilusão é profunda - e parece ampliada em uma obra que tem sua própria medida de tempo, desenrolando-se sem pressa, com seus pequenos eventos diversos, sejam as idas ao cinema e a sinagoga e os encontros familiares, se espalhando de forma vagarosa. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, tudo piora quando aparece na vida de Andor e de sua mãe um certo Mihály Berend (Grégory Gadebois), um sujeito tão misterioso quanto truculento que alega ser seu "novo pai" (e que teria ajudado Klára a se esconder dos nazistas). Estiloso do ponto de vista técnico - talvez até com certo exagero nesse sentido, o que poderia desviar a atenção para o que realmente importa em termos de temática -, o filme utiliza a cor vermelha dos balões e de outros objetos, como uma metáfora para a onipresença dos comunistas em solo húngaro. Da mesma forma, a violência que emerge do boxe como esporte, em substituição ao caráter lúdico do futebol em uma época do auge de Puskas, também pode funcionar como forma de evidenciar certo cansaço de um povo, há tanto oprimido. Sim, pode ser muita coisa para elaborar em uma produção eventualmente exaustiva com suas mais de duas horas. Mas não dá pra negar que é um esforço fílmico notável.

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Depois do Fogo (Rebuilding)

De: Max Walker-Silverman. Com Josh O'Connor, Lily LaTorre, Meghann Fahy, Kali Reis e Amy Madigan. Drama, EUA, 2025, 96 minutos.

Quem acompanhou mais de perto as enchentes que assolaram, em maio de 2024, diversos municípios do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, sabe que não foram poucos os entrevistados que, em meio aos escombros da tragédia que devastou tudo, levando os bens materiais (e até imateriais) de uma vida, reuniram forças para dizer que "ao menos estavam vivos". Por mais que casas, carros, eletrodomésticos e, no caso de moradores do campo, maquinários, galpões, animais e plantações, tenham sido levados pela fúria das águas, ao menos restaram as famílias e a sua resiliência. Em meio a um quadro desalentador - afinal foram muitos óbitos também -, o recomeço contou com o apoio de instituições públicas e privadas e de pessoas. Muitas pessoas. Numa ação coletiva que possibilitou algum tipo de recuperação - de autoestima, de dignidade, de esperança. 

E não deixa de ser tocante perceber como o recém chegado à Netflix, Depois do Fogo (Rebuilding) trata justamente desse processo, vivido pelos flagelados climáticos: o de recuperar aquilo que realmente importa, num contexto de turbulência. Ao cabo, aqui temos uma experiência afetuosa e gentil que centra menos a sua narrativa no que desencadeia cheias, secas, queimadas, tsunamis e outros problemas climáticos e mais no que vem depois do ocorrido. O componente político certamente faria falta se esse fosse um projeto mais abertamente panfletário - e, admito que lá pelas tantas me incomodou um pouco o fato de os problemas ambientais estarem tão em segundo plano -, mas aqui o que é importa é o microcosmo dos vínculos familiares. Ou o que nos faz humanos. É clássica a frase de que sairíamos melhores como humanidade, depois da pandemia. Ou das cheias. Enfim, espero que tenhamos saído.

 


Na tocante obra dirigida por Max Walker-Silverman, que teria se inspirado em histórias da própria família (sua avó perdeu a casa num incêndio) Josh O'Connor é o cauboi Dusty, que tem a sua fazenda de oitenta hectares onde criava animais consumida por um incêndio de grandes proporções. Enquanto reside em um trailer improvisado oferecido pelo governo aos desalojados - ao lado de um grupo de outros moradores que passaram pelo mesmo -, Dusty estuda a possibilidade de ir morar e trabalhar em um rancho familiar no Estado de Montana, trocando o seu Colorado natal, no pé das montanhas rochosas. Taciturno e sem perspectivas para o solo dizimado pelo fogo - restando apenas galhos de árvores secas e retorcidas em meio ao cenário desértico quase pós-apocalíptico -, o protagonista só consegue ensaiar um meio sorriso quando está com a sua filha, a pequena Callie Rose (a ótima Lily LaTorre), fruto de um relacionamento com a ex-esposa Ruby (Meghann Fahy). 

É ela, afinal, que lhe lembrará de forma afetuosa e meio que o tempo todo daquilo que importa - e daquilo que transforma um lar em lar de verdade. Sim, pode parecer papo barato de autoajuda, mas não deixa de ser comovente ver como o olhar de Dusty - entre uma postura entortada e outra, que se soma a incapacidade meio natural de um sujeito rústico do campo em seu comunicar -, ganha tons de doçura a cada ida a pequena biblioteca local para leituras improvisadas e momentos aleatórios em família (sério, é impossível ficar alheio à sequência da colagem de estrelas brilhosas nas paredes internas do trailer que, agora, é a casa deles). O senso de coletividade entre vizinhos, distribuindo cortesias (e comida), e se apoiando em tarefas domésticas cotidianas (como consertar uma torneira) nos faz lembrar do clima geral contemplativo, bucólico e resignado que assistimos em Nomadland (2020). Mas aqui a melancolia se converte em conforto e em lágrimas genuínas, quando nos percebemos torcendo por aqueles que estão ali, apenas querendo reconstruir as suas vidas, em meio a angústias, sonhos interrompidos e desejos de reconexão. Aliás, esse conjunto de ideias recebe um sentido quase alegórico na reta final, quando todos ali parecem perceber o significado de "família". É bonito demais.

Nota: 8,0 

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Drama (The Drama)

De: Kristoffer Borgli. Com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates e Mamoudou Athie. Comédia / Drama / Romance, EUA, 2026, 105 minutos.

Em uma das sequências mais esquisitas de Serotonina, de Michel Houellebecq, o protagonista Florent-Claude elabora um plano macabro na sua mente: especialista em tiro à distância, ele imagina como seria assassinar, a sangue-frio, o filho pequeno de uma antiga namorada. Em seu delírio sombrio - aliás, algo meio típico nos cínicos protagonistas masculinos do escritor francês - ele chega a engendrar detalhes de sua intenção (como posicionaria a arma, melhor momento para atirar, etc). Por fim ele não coloca o plano em prática, ainda que o leitor saia horrorizado daquele momento. A ponto de eu nunca mais ter esquecido desse instante da obra. E, bom, aí chegamos por linhas meio tortas em O Drama (The Drama), filme do diretor Kristoffer Borgli - dos ótimos Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) -, que recria meio que essa ideia: qual foi a pior coisa que já imaginamos fazer ou já fizemos em nossas vidas? E como isso afeta a nós ou aqueles que nos rodeiam?

Verbalizar, afinal, aquilo que está debaixo de muitas camadas do que se imagina um código de ética ou uma moral inquestionáveis, pode não ser tarefa fácil. Decisões erradas todo o mundo toma, mas e quando elas podem gerar traumas, dores ou coisa pior para os envolvidos? Verdade seja dita que a ideia dessa produção modesta e com bons atores é até boa - o que me fez ir ao encontro dela. Pena que, ao cabo, ela seja tão trivial. Na trama, Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão prestes a se casar. O início tem certa leveza, com a dupla discutindo com seus respectivos padrinhos e madrinhas os votos - o que deve ou não ser incluso no texto, em meio a lugares-comuns e clichês engraçadinhos que remontam a sua trajetória. Aliás, trajetória que se inicia de forma meio estranha, com Charlie parecendo um stalker meio afobado, em sua intenção de se aproximar de Emma, enquanto ela lê tranquilamente em uma cafeteria (o livro, seu nome é O Estrago, é fictício, infelizmente). 

 


Mais adiante e ainda mais perto do matrimônio, em meio a debates a respeito da substituição ou não da DJ da festa por um suposto vício em drogas, o casal se reúne com o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). A conversa descontraída ganha tons mais sérios quando Mike instiga Rachel a revelar qual a pior atitude que ela já tomou em sua vida e ela concorda, desde que todos na mesa façam o mesmo. Mike começa, contando como, na juventude, em companhia de uma ex, usou-a como escudo humano durante um ataque feito por um cachorro. Já Rachel, fornece detalhes de como teria prendido um irritante menino mais novo que ela em um armário em uma habitação abandonada no meio de um bosque. Na vez de Charlie ele conta meio envergonhado sobre ter praticado cyberbullying com um antigo colega, meio que destruindo sua vida. E aí chega Emma que [SPOILERS A PARTIR AQUI], meio que pesando o clima, relata como, em sua juventude, esteve muito perto de promover um tiroteio em massa na sua escola, com o rifle de seu pai (com um evento meio aleatório lhe impedindo, por mais que o detalhamento do plano estivesse prestes a sair do papel).

A informação meio que quebra o equilíbrio não apenas do casal, que até aquele momento parecia apenas perfeito, mas também da relação com seus amigos, que passam a evitar Emma, atribuindo-lhe uma culpa retroativa por algo que ela não fez mas que se configura em um dos grandes traumas da era moderna nos Estados Unidos (um País que, se bobear, permite comprar pistolas e revólveres no mercadinho da esquina). O fato de Emma ser uma menina negra que sofria bullying em sua escola é um tema praticamente ignorado e que poderia tornar a narrativa muito mais complexa e potente do que sugere sua trama de humor meio sombrio em que paira no ar a dúvida sobre se ela ainda seria capaz de praticar tal ato. Aliás, pior do que isso, a obra sequer cogita a possibilidade de todos eles, como adultos, simplesmente conversarem a respeito, trazendo angústias, sofrimentos, traumas e memórias que poderiam representar uma cura. Ao contrário, Charlie fica brochado e de muxoxo pelos cantos, enquanto a irritante Rachel simplesmente se afasta sem muita explicação. Pra piorar o terço final joga o ápice do absurdo pro próprio casamento, tentando uma solução mágica à moda Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). Infelizmente não cola.

Nota: 4,0 

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps)

De: Marie Elsa-Sgualdo. Com Lila Gueneau Lefas, Grégoire Colin e Cyril Metzger. Drama, Suíça / Bélgica / França, 2025, 101 minutos.

Vamos combinar que nem chega a surpreender o fato de a maior violência sofrida por Emma (a ótima Lila Gueneau Lefas), a protagonista de Rebelião Silenciosa (À Bras-le-Corps), nem ser tanto a da guerra que a espreita - com soldados alemães circulando nos limites da floresta, representando uma ameaça constante -, e, sim, do microcosmo que ela habita, com sua estrutura essencialmente patriarcal e de rígidos códigos religiosos. O ano é 1943 e, se na Suíça rural onde se passa a narrativa, temos uma nação neutra no que diz respeito aos horrores do conflito - é possível, afinal, compreender o medo e a incerteza paralisantes frente aos soldados nazistas -, também temos uma jovem disposta a romper com esse sistema que, se não é gritantemente misógino, opera pelas frestas no sentido de reservar às mulheres uma série de papeis previamente estabelecidos. Emma talvez ainda nem saiba que, ali adiante, a guerra terminará. E, alegoricamente, talvez a opressão intrínseca às mulheres a vida na pequena comunidade também. Ou assim deveria ser.

Na trama, Emma mora com seu pai e as duas irmãs nesse espaço aparentemente idílico, mas que não impede que a violência chegue até ali, mesmo de onde não se espera. Dedicada, a adolescente de 15 anos atua como uma espécie de governanta faz tudo do pastor local - seu nome é Robert (Grégoire Colin) - e espera receber um tipo de "prêmio de virtude", que seria destinado à algumas mulheres como um reconhecimento pelo seu empenho e esforço recorrentes. E que seria concedido por líderes locais como o próprio pastor, um médico e outros (a maioria homens), o que lhe permitiria ir para um internato para estudar enfermagem. E, bom, não é preciso dizer que nessa comunidade onde os homens decidem meio que tudo - aliás, o valor da bolsa é repassado justamente para o pai, marido ou algum tutor -, as jovens devem ser íntegras, imaculadas e moralmente incorruptíveis para que sejam "dignas" da obtenção da distinção. Sim, o sonho molhado da extrema direita reside em 1943.

 


Só que a coisa muda de figura quando surge na propriedade o jornalista Louis (Cyril Metzger), que está pela região para escrever um artigo para um periódico a respeito do cultivo de trufas selvagens. Extrovertido e charmoso, o rapaz traz certa leveza para o ambiente taciturno da casa, dançando e brincando com todos. E, atraindo a atenção de Emma, que é levada por ele para a floresta isolada durante um passeio, ocasião em que a violenta - o que nos faz lembrar que a grande maioria de casos de abuso sexual é perpetrado justamente por pessoas em que se têm confiança. Ou de onde dificilmente se esperaria tal agressão. Quando segue sua jornada, Louis deixa para trás uma Emma não apenas traumatizada pelo ataque - mostrado pela diretora Marie Elsa-Sguardo de forma bastante sutil (optando por takes do rosto da jovem e de suas mãos retesadas, enquanto agarra o capim) -, mas também grávida. "Deus, por favor, me proteja da vergonha", suplica ela após o fato, sem nunca acreditar que o errado é o agressor.

Só que mesmo nesse cenário de violência estrutural, o estupro parece virar uma espécie de chave em Emma que, inicialmente, tenta forçar um aborto em uma cena de forte impacto e bem conduzida frente ao choque. Mais adiante, ela se casa em uma união sem muito amor com o guarda de fronteira Paul (Thomas Doret), que assume o filho prometendo mundos e fundos para, mais adiante, operar como o machinho meio escroto de sempre. Insatisfeita com esse conjunto, Emma assume as rédeas da própria história, confrontando aqui e ali as micro (e macro) violências - e uma das melhores cenas envolve ela reencontrando e desafiando o jornalista. Taciturna e silenciosa no exterior, mas como um furacão interior, a protagonista navega nessas águas densas que podem se abrir justamente pela união das mulheres - da mãe expulsa da aldeia por ter sido infiel, passando pela filha do patrão, até chegar às irmãs ainda pequenas. Ela se afasta de Paul, a guerra termina, o pastor sofre com a demência. A alegórica dança final é a metáfora para a libertação das amarras conservadoras. Pode parecer óbvio. Mas não deixa de emocionar. Tá disponível na Reserva Imovision.

Nota: 8,0 

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Novidades em Streaming - Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento)

De: Juan Cabral. Com Elena Romero, Julienta Cazzuchelli, Diego Peretti e Joaquín Furriel. Drama / Fantasia, Argentina, 2025, 97 minutos.

Da negação à aceitação, o luto costuma ser encarado de formas distintas por cada pessoa. Tristeza, frustração, revolta, ressentimento - em geral os sentimentos variam ainda que, em grande parte dos casos, a saudade permaneça. A lembrança. E no caso de Risa (Elena Romero), a protagonista do tocante Risa e o Telefone do Vento (Risa y la Cabina del Viento), que estreou na última semana na Netflix, essa memória do pai morto em um incêndio de grandes proporções, se torna ainda mais difusa, já que ela nunca chegou a conhecer direito o sujeito. Vencedora do prêmio máximo do Festival Internacional de Mar Del Plata, a obra do diretor Juan Cabral é calorosa, emocionante e, eventualmente, fantasiosa. Especialmente depois do momento em que Risa descobre que uma cabine de telefone, tipo aquelas que os fenícios utilizavam, é a única "construção" que resistiu ao fogo.

Entre o místico, o enigmático e o sobrenatural, a cabine passar a funcionar como uma espécie de ponte entre os vivos, que ficaram na cidade após o incêndio que levaria deste plano 144 pessoas da região de Ushuaia, no Sul do País, e seus parentes mortos, com quem eles conversam ao telefone. Claro, que conversa é modo de dizer, já que este é um diálogo mais simbólico, num bate-papo que opera como forma de expiação da dor. Uma tentativa, como dito no começo, de superar o luto. De se reerguer, meio que literalmente, dos escombros - e não deixa de ser interessante perceber como as máquinas de lavar espalhadas pelo cenário, funcionam não apenas como uma evidência tardia da tragédia, mas também uma alegoria de uma limpeza (de alma) que nunca chega, para quem precisa seguir adiante. 

 


Para a pequena Risa, que mora com sua valente mãe Sara (Julieta Cazzuchelli), o telefone parece ser a oportunidade perfeita para conversar com Rodrigo (Joaquín Furriel), o falecido pai, que deve estar nesse além desconhecido. Mas como proceder? Em certa noite o telefone toca insistentemente - como num sonho confuso, abstrato, inexplicável. Quando atende o aparelho, Risa ouve as vozes do outro lado, que lhe alertam que, para conseguir conversar com seu pai, ela deverá cumprir uma série de missões no mundo dos vivos. O que permitirá às pessoas enlutadas juntar as forças necessárias para avançar. De ações simples como jogar xadrez com um professor aposentado da vizinhança, passando pelo alerta a uma família a respeito de um seguro disponível como herança em um banco da Patagônia, até chegar ao suporte uma cachorra abandonada, a simpática Chuleta, Risa se converte em uma espécie de Amelie Poulain do mundo dos mortos, andando de lá para cá na ideia de deixar a vida de quem ficou mais confortável perante a dor.

Acompanhando a pequena, seu babá com cara de poucos amigos, mas que é puro coração - seu nome é Esteban (Diego Peretti) -, contribui aqui e ali em sua jornada, sendo ranzinza e espirituoso, enquanto se esforça para que a menina lhe obedeça. Juntando-se à dupla há ainda um simpático hamster adotado - o que adiciona aquela pitada doce de filme para toda a família (ainda que envolva fantasmas com vozes fragmentadas e confusas). Aliás, tudo se torna mais caótico quando Risa finalmente escuta seu pai, sendo surpreendida por uma notícia que gera uma reviravolta interessante. Cheia de ambiguidades e boas reflexões sobre luto, perda, memória e dores, essa é uma produção de grande simplicidade, o que é reforçado pela fotografia dessaturada e fragmentada, pelo naturalismo gritante e pela trilha sonora quente, permeada pelas canções do grupo argentino Babasónicos. Aliás, Risa é o nome de uma música da banda - e parece haver todo um significado mais profundo de busca de conexão em sua letra (Na sala cheia de desconhecidos / Busquei o calor ao seu lado). É só um componente a mais.

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Novidades em Streaming - A História do Som (The History of Sound)

De: Oliver Hermanus. Com Paul Mescal, Josh O'Connor e Chris Cooper. Drama / Romance, EUA / Reino Unido / Itália, 2025, 128 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Vamos combinar que se o subgênero do "drama do gay triste" pode até não estar oficialmente formalizado, ainda que caminhe para isso. Até porque parece haver uma convenção meio incômoda de que narrativas queers necessitam, inevitavelmente, virem acompanhadas de sofrimento. De O Segredo de Brokeback Mountain (2005), passando pelo premiado Moonlight (2016) e, claro, por alternativos, como, Todos Nós Desconhecidos (2023), a impressão que se tem é a de que a experiência gay, especialmente a masculina - sempre carregada de uma tonelada a mais de preconceitos - parece ter de vir, invariavelmente, acompanhada de perda, de luto, de dor. Ou mesmo da impossibilidade da felicidade amorosa - como uma espécie de punição meio que natural, do ponto de vista conservador, para aquilo que é claramente desviante. Que foge da lógica ou das convenções. Meio que como a jovem depravada que é a primeira a morrer nos filmes de terror, guardadas todas as proporções.

E, é preciso que se diga que não há nenhum problema nesse estilo, que já nos brindou com grandes produções - como as citadas acima. Só que, às vezes, a impressão que se tem é que a mão pesa um tanto na abordagem desse sofrimento quase infinito, desesperançoso. O que piora quando a obra passa a impressão de ter potencial para explorar outras subtramas para além do "veja bem como esse homem sofre em silêncio e dentro do armário em tempos tão complicados" - e esse parece ser exatamente o caso de A História do Som (The History of Sound), do diretor Oliver Hermanus. Exibido em Cannes e estrelado por Paul Mescal e Josh O'Connor, esse é aquele tipo de filme elegante, de grande apuro técnico - da fotografia ao desenho de produção -, mas que quase se torna cansativo ao nos apresentar um romance secreto entre dois estudantes de um conservatório do começo do século passado que termina, claro, de forma trágica.

 


Quando a obra começa começa, uma narração em off nos apresenta uma ideia interessante e que meio que simplesmente desaparece alguns minutos depois: a de que algumas pessoas possuem uma habilidade única de perceber a música para além do som. Um dom. Como se o barulho - seja da natureza ou dos instrumentos - tivesse cor, sabor. E, sim, a gente sabe que isso pode acontecer, de associar uma canção a algo para além do abstrato e eu considerei isso tão bonito e essa parece ser justamente a capacidade do protagonista Lionel Worthing (Mescal), que eu achei um pecado isso ser ignorado, mais adiante. Claro, a música é justamente o que conectará Lionel - que tinha no falecido pai - com sua viola na varanda de sua pequena propriedade do interior do Kentucky uma referência -, à David White (O'Connor), que ele conhece em um pub de New England (ele toca justamente uma canção folclórica que era tocada por seu pai na juventude, num instante nostálgico, caloroso e bonito).

Após iniciaram um relacionamento às escondidas, David é convocado para a primeira guerra (o ano é 1917). Quando retorna do conflito, dois anos depois, a dupla se reaproxima para a execução de um inovador e simpático projeto universitário, que está no centro da melhor parte da narrativa (e que tenho a impressão que, por si só, renderia um filme à parte), e que envolve a captura de músicas folclóricas em cilindros de cera pela América rural. O que seriam, na realidade, os primórdios da gravação de sons, ainda de forma rudimentar. E, bom, se o filme poderia centrar mais a coisa na história do som, como sugere seu título original, não podemos esquecer que essa é a obra de gay sofrendo. E, por mais que a música tradicional, antiga, passada de geração a geração, se espalhe de forma fluída por cada fragmento da produção - de forma vagarosa, melancólica -, lá pelas tantas a dupla se separa, quando Lionel vai tentar a vida em Roma, cantando em um prestigioso coral. E o belo trecho em que aparece a antiga The Unquiet Grave - sobre um homem em luto que fica ao lado do caixão da esposa morta, não deixando-a descansar -, é a deixa, de forma alegórica, para os acontecimentos que virão mais adiante. Com o luto infinito percorrendo décadas.

Nota: 6,5 

 

Novidades em Streaming - Manas

De: Mariana Brennand. Com Jamilli Corrêa, Rômulo Braga, Dira Paes e Fátima Macedo. Drama, Brasil, 2024, 101 minutos.

"Não existe felicidade fora do projeto de Deus. Do projeto de Deus chamado família". Vamos combinar que a cena de uma pastora da igreja evangélica discursando em favor da família - enquanto que meio que todo o mundo sabe que grande parte da violência sofrida por crianças e adolescente da região de Marajó, no Pará, cenário do filme Manas, emerge do ambiente doméstico -, é só uma forma de evidenciar a hipocrisia não apenas daquelas pessoas, mas da nossa sociedade. "Tem coisa que não adianta tu querer mexer", alerta uma desalentada Danielle (Fátima Macedo), que está grávida de mais um filho do marido Marcílio (Rômulo Braga), enquanto trava uma luta interior para acobertar os abusos praticados pelo homem contra a sua filha Marcielli (Jamilli Corrêa), ao mesmo tempo em que parece sonhar, com o olhar duro, vulnerável e melancólico, com o fim do ciclo de violência.

Ao cabo, a obra da diretora Marianna Brennand nunca é fácil. E talvez por ser tão evidente - ainda que, paradoxalmente, sutil - em sua abordagem, o desconforto se amplie. O histórico de violência naquela localidade (aliás, no Brasil como um todo) não é novidade - inclusive com a pauta sendo apropriada politicamente pelas piores pessoas do planeta, em sua ignorância gritante, sempre acreditando que Deus pode ser a cura de tudo. Marcílio, Danielle e as filhas alternam os dias em um templo improvisado junto às águas, em que cantos evangélicos meio constrangedores ecoam, ao mesmo tempo em que sobrevivem colhendo açaí e camarão, que será comercializado, especialmente na balsa - local em que os moradores sabem que as violências sexuais se ampliam, com a presença de forasteiros, homens adultos, oferecendo dinheiro ou comida para as adolescentes. 

 


Quando o filme começa, meio que a ficha demora para cair para o espectador. Se a balsa parece suspeita, o ambiente doméstico soa parcialmente seguro - especialmente pela presença ensolarada de Marcílio, que alterna algum tipo de afeto rústico, com gestos disciplinadores de quem ensina desde cedo valores como trabalho. Mas é aí que reside o pulo do gato, já que a confiança no adulto também tende a burlar a identificação dos limites por parte da ponta mais vulnerável da equação. E, de fato, a coisa começa a ficar estranha quando a rede de Marcielle estraga e o pai a convida para deitar em sua cama. O que poderia ser apenas a sugestão de algo carinhoso, se torna mais evidentemente desprezível quando o sujeito convida a filha para uma caçada no mato. A primeira caçada - num simbolismo torpe e repulsivo do ato que ele está prestes a praticar. Ciente do que acontece, a jovem tenta forjar, em vão, uma carteira de identidade falsa no posto local, o que poderia lhe possibilitar uma espécie de fuga, assim como fez a sua irmã mais velha Cláudia que, aos 19 anos, foi embora dali para nunca mais voltar.

Naturalista e em estilo documental - aliás, Mariana Brennand é documentarista -, a obra, que esteve na nossa pré-lista do Oscar desse ano e recebeu dezenas de prêmios internacionais, tem uma fluidez própria, não tendo pressa em expor suas ideias. Tecnicamente bem executada, a produção é daquelas que utiliza os sons da natureza - o zumbido dos bichos repetitivo e letárgico, ou mesmo a ondulação constante das águas -, como forma de evidenciar ainda mais o caos interior e a moral abjeta das ocorrências locais. Um tipo de entorpecimento visto em outros filmes como A Febre (2019) ou mesmo nas obras do diretor Apichatpong Weerasethakul - guardadas as devidas proporções temáticas, claro. "Eu fui caçar sozinha com o pai", praticamente grita a protagonista à Jaci (Ingrid Trigueiri) uma exasperada comerciante local, que a lembra que isso não acontece só com ela. "Você tem que tentar a vida na cidade", a alerta. A presença da delegada Aretha (Dira Paes), uma funcionária do Estado que surge como figura de proteção, parece acender em Marcielle uma faísca que já estava pronta para queimar. Como se interrompe um ciclo de violência que se perpetua de geração em geração? Talvez a medida tenha de ser mais drástica. Alegórica ou não. É o recado que fica dessa experiência vigorosa e cheia de simbolismos, que vale ser conferida.

Nota: 9,0 

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Sobreviventes: Depois do Terremoto (Konkeuriteu Yutopia)

De: Um Tae-hwa. Com Lee Byung-hun, Park Seo-joon e Park Bo-young. Drama / Ficção científica, Coréia do Sul, 2023, 131 minutos.

Vamos combinar que não são poucas as obras a utilizarem a ideia do espaço confinado - com pessoas passando por situações limite, criando novas regras e códigos morais e ainda lutando pela sobrevivência -, como uma espécie de alegoria para uma sociedade em ruína, decadente ou à beira do colapso. Com falta de recursos, em meio à escaladas autoritárias ou com um sentimento meio que de paranoia coletiva - seja em distopias como Expresso do Amanhã (2013), em dramas sociais como o clássico da literatura O Senhor das Moscas (1954) ou em ficções panópticas como a série Silo (2023 até a atualidade) -, essas produções, em muitos casos, olham para esses cenários com certo distanciamento, ainda que versem diretamente sobre nós. E sobre nosso comportamento diante de temas, como, capitalismo tardio, colapso ambiental, tecnologia desenfreada, desumanização do outro e, como sempre, avanço da extrema direita.

Portanto, não é com surpresa que assistimos aos eventos de Sobreviventes: Depois do Terremoto (Konkeuriteu Yutopia), obra enviada pela Coreia do Sul ao Oscar de 2024 (não chegou entre às finalistas), que está disponível na plataforma da Amazon. Para além do título em português um tanto click bait - provavelmente tentando fisgar aquele público fã de filmes catástrofe como O Dia Depois de Amanhã (2004), 2012 (2009) ou Terremoto: Falha de San Andreas (2015) -, essa é uma produção que não se detém muito no terremoto em si, ou nas eventuais tentativas desesperadas de fuga, quando ocorre uma catástrofe natural. E sim no que acontece depois do Terremoto, com uma Coreia do Sul devastada, vivendo uma nova Era Glacial. E com apenas um prédio - parte do condomínio Hwang Gung -, tendo ficado de pé. Sorte dos moradores? Dificilmente. Especialmente em meio a um cenário de desespero, em que forasteiros tentando não morrer congelados, buscam invadir o complexo habitacional.

 


Em linhas gerais, é possível perceber que esse é aquele tipo de projeto que realiza um tipo de crítica nem tão sutil assim às bolhas imobiliárias modernas - com sua ânsia por concreto, ferro e arranhas-céus que fazem a festa de especuladores de mercado -, que perdem valor ao primeiro chacoalhão sísmico. Sim, a natureza tem pressa e de nada vai adiantar construir infinitamente, esgotando completamente todo e qualquer recurso, sem um bom planejamento. Ou, minimamente, pensando a questão a partir de um ponto de vista mais social - em que todos deveriam ter direito a um teto pra chamar de seu. Aqui no Rio Grande do Sul, quando das enchentes de maio de 2024, muitos diziam que sairíamos melhor da tragédia: mais empáticos, mais solidários, mais receptivos. Resumindo, a coisa é o contrário: com apartamentos de um dormitório a preços exorbitantes e pouca margem para quem deseja alugar com preço justo. Ou seja, quem tem cresceu o olho. E quem não tem, bom, que lute. Meritocracia, né? Todos têm as mesmas horas no dia (contém ironia).

No filme do diretor Um Tae-hwa o debate é mais ou menos esse. Quando apenas um prédio resta, quem afinal tem o direito de viver nele? Proprietários? Quem aluga? Forasteiros que ali passavam? Quando o caos começa a ser instalado, os moradores precisam decidir se aceitam ou não a presença dos "invasores" que, se ficarem do lado de fora, congelam. Só que naquele instante, o casal protagonista, a pacífica Min-sung (Park Seo-joon) e o prático Myung-hwa (Park Bo-young) já estavam abrigando às escondidas uma mãe desesperada com seu filho pequeno - o que, mais adiante, será considerado um crime. Em meio a escassez de recursos - sem água, luz, sem remédios e com alimento contado -, o coletivo elege como líder o misterioso Yeong-tak (Lee Byung-hun) que, verdade seja dita, a despeito do ato heroico (quase, argh, messiânico) de evitar um incêndio no primeiro andar, ninguém se lembra ao certo se mora efetivamente ali. Em um cenário em que novos (e rígidos) códigos se estabelecem, não demorará para que essa utopia de concreto - uma divertida ironia, diga-se -, colapse. O colapso dentro do colapso. Meio que como o capitalismo terminando depois do fim do mundo. Há esperança? Há. De preferência bem longe dos "homens de bem", com sua paixão ignóbil pela propriedade privada.

Nota: 7,5 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary)

De: Christopher Miller e Phil Lord. Com Ryan Gosling, Sandra Huller e James Ortiz. Ficção científica / Drama / Aventura, EUA, 2026, 156 minutos.

"Rocky, telefone, minha casa!". Vamos combinar que, se ao final de Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), aparecesse em algum canto dos créditos finais o nome de Steven Spielberg, não seria nenhuma surpresa. Tamanha a cara de blockbuster situado em algum local entre as décadas de 80 e 90, que a adaptação do livro de Andy Weir que ainda está nos cinemas - mas também já disponível para aluguel na Amazon e na Apple TV - tem. Ao cabo trata-se de uma obra movimentada, calorosa e cheia de afeto - muito mais próxima de algo como um ET: O Extraterrestre (1985) dos confins do universo, do que da sisudez existencialista de um A Chegada (2016), por exemplo. E vamos combinar que a gente não precisa ser cabeça o tempo todo. Ou esperar um grande exame da nossa situação global política, social, cultural ou religiosa atual, para assistir um filme. Talvez faça bem se divertir simplesmente. E esquecer por algumas horinhas daquilo que nos atormenta. Um filme que não doi. E que nos faz abrir um sorriso largo. Como aqueles que víamos na Sessão da Tarde.

Ingenuidade de minha parte? Talvez. Mas foi exatamente esse o meu sentimento assistindo à produção dirigida por Christopher Miller e Phil Lord e protagonizada por um Ryan Gosling no auge do carisma e do charme. Aliás, ele sendo um astronauta naturalmente curioso que acorda do coma em uma nave espacial sabe-se lá onde ou em que ponto da galáxia, que faz o contraponto ideal ao estilo prudente e austero de Eva Stratt (a sempre ótima Sandra Huller), uma das líderes da Força Tarefa Petrova e que, mais adiante será uma espécie de chefe geral do Projeto Hail Mary. Um projetinho simples, aliás, que visa tentar salvar o mundo da mais nova desgraça que nos afeta - como se não bastassem às pandemias, as guerras e o avanço da extrema direita maluca. E que envolve o surgimento de um novo micro-organismo que tem uma habilidade única: se alimentar da luz solar. O que fará com que o sol se enfraqueça dentro de algumas décadas, se nada for feito. O que prejudicará não apenas a temperatura do globo - com uma nova Era Glacial à caminho -, mas também a nossa agricultura. Nossa capacidade de produzir alimento. Um desastre.

 


E pra tentar evitar essa tragédia que se avizinha, Stratt vai atrás do único sujeito possível pra salvar nosso mundinho de meu Deus: um professor de biologia de escola fundamental, que responde pelo nome de Ryland Grace (Gosling). Ocorre que Grace já foi motivo de chacota no meio acadêmico no passado, caindo em desgraça após escrever um artigo onde buscava evidenciar um fato que, de forma resumida, ia contra um consenso científico que existe até hoje: de que a existência de vida em outros planetas, ou mesmo em ambientes hostis, não exigiria necessariamente a presença de água. Da ligação entre oxigênio e hidrogênio. E como o tal micro-organismo - o nome oficial no livro e no filme é astrofágico - que se alimenta da luz solar navega entre Vênus e o Sol em um arco chamado de Linha de Petrova (em homenagem à Irina Petrova, a cientista que o descobre), talvez resida aí o segredo de sua resistência. O que caberá ao protagonista, um biólogo molecular de formação, descobrir.

Assim como ocorre no livro, no filme temos uma série de idas e vindas no tempo, que alternam entre o passado, quando o projeto estava sendo construído - com a participação de cientistas, engenheiros e pesquisadores de todo o mundo - e o presente (que talvez seja o futuro, claro), com Grace despertando na nave de um coma induzido de doze anos. E meio que não apenas aprendendo a sobreviver sozinho em uma nave. Mas também compreendendo qual a sua missão naquele local inóspito. O que ocorrerá em meio de flashbacks bem conduzidos, que unem uma ponta à outra, e que tanto na obra literária como no filme funcionam como uma espécie de recuperação paulatina da memória. Com cada nova lembrança operando como uma peça de quebra-cabeças. Uma ponte. Até o momento em que ele lembrará que está ao lado de um planeta chamado Tau Ceti, porque o dito parece ser resistente à ação dos astrofágicos, preservando sua luz natural. Cabendo a Grace descobrir os motivos e, mesmo estando há anos-luz de distância da Terra, tentar enviar algum sinal (ou até material) que explique os fatos.

 

 

Sim, pode parecer meio complicadinho lendo, mas não é. É simples: o Sol na Terra tá perdendo força, Grace está do lado do planeta que não perde luz mesmo com os astrofágicos tendo "contaminado" parte da galáxia. Só que quando Grace olha pela janelinha, percebe que não está sozinho: há uma enorme nave que lhe avizinha, chamada de Blip-A e que tentará fazer algum contato. E, bom, pra quem não leu o livro e pouco sabe da produção, vale se manter no escuro, com o perdão do trocadilho, para desvendar os acontecimentos. E as surpresas decorrentes deles. Mais leve, divertido e menos burocrático que o livro - que inicia muito bem e lá pelas tantas, não nego, dá uma aborrecida -, o filme não perde muito tempo com subtramas desnecessárias, focando-se no senso de amizade e de companheirismo entre Stratt e sua equipe (é linda a cena com a música Sign of The Times, de Harry Styles) e no esforço coletivo para superar as adversidades. Além de ter ótimos efeitos práticos, desenho de produção e trilha sonora. É o filme conforto de 2026 por excelência. Assim como foram os do Spielberg em décadas passadas. 

Nota: 8,0 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Enzo (Enzo)

De: Robin Campillo. Com Eloy Pohu, Maksym Slivinskyi, Élodie Bouchez e Pierfrancisco Favino. Drama, França / Bélgica / Itália, 2025, 103 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Robin Campillo sabe que seus filmes costumam ser atravessados por questões ligadas ao universo LGBTQIA+, algumas vezes de maneira mais explícita, como no ótimo 120 Batimentos por Minuto (2017), em outras de forma mais sutil, como no caso do recente Enzo (Enzo), que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime. No ponto central, independente da obra, parecem estar as ideias de pertencimento, desejo, exclusão e negação em diferentes graus. E que muitas vezes são exploradas em historias que tensionam esses temas que, inclusive, quebram em alguma medida o que prevê o status quo. E talvez não seja por acaso que no universo do protagonista que dá nome ao mais recente projeto do realizador haja uma predileção pelo trabalho na construção civil. Como pedreiro mesmo.

O que, inicialmente, parece ser uma forma de confrontar os pais Paolo (Pierfrancisco Favino) e Marion (Élodie Bouchez) - algo bastante natural para um adolescente de 16 anos como Enzo (Eloy Pohu) -, não demorará para soar como uma espécie de alegoria de expiação dos próprios desejos do rapaz. Talvez estar perto de homens suados em uma construção, para alguém que está amadurecendo e formando suas noções de sexualidade, seja algum tipo de propósito. Ou talvez não. Enzo, afinal, tem uma jovem namorada. Ou ao menos faz de conta que tem. Talvez para se exibir para os demais - em uma idade que a elaboração da masculinidade e da identidade parecem em eterno movimento. Mas quem parece lhe deixar efetivamente animado no canteiro de obras é Vlad (Maksym Slivinskyi), um ucraniano que está fugindo da guerra, enquanto busca uma existência mais digna na França.

 


E creio que seja que nesse ponto da mescla entre narrativa queer e debate político-social e imigração que o filme se perde um pouco. Ao cabo, alguns dos temas parecem mais importantes do que a forma como são trabalhados. Indo de lá para cá, entre a voluptuosa casa dos pais e sua rotina como aprendiz de servente, Enzo parece o típico jovem descompromissado no que diz respeito ao futuro (por mais contraditório que tudo possa ser, uma vez que ele já trabalha). Mas ao mesmo tempo em que seu irmão mais velho (Nathan Japy) parece pronto para entrar numa universidade, convivendo harmonicamente com seus colegas que também frequentam a casa dos pais, o protagonista parece apenas um revoltadinho pequeno-burguês, que tem alguma aptidão para as artes, e que soa apenas meio rebelde sem muita causa. Afinal, não deixa de ser bastante cômodo ser desobediente em meio a um sem fim de braçadas na piscina enorme do casarão da família (ou eu tô militando demais?).

E, bom, não é que não haja bons momentos, mas talvez esse fosse um filme bem melhor se fosse mais centrado na figura de Vlad que, ao lado do companheiro de trabalho Miroslav (Vladislav Holyk), vive de fato uma situação angustiante. Especialmente depois de o segundo receber uma ligação do governo, convocando-o para participar do conflito contra a Rússia. Só que Enzo, com o perdão do trocadilho, parece o legítimo Enzo - e talvez o interesse pelos ucranianos, pela sua rotina, as idas à boate e o convívio com pessoas de outros estratos sociais seja apenas uma fuga do mundo, frente a um cenário de privilégios. Há uma cena em que o chefe de Enzo fica embasbacado ao descobrir que ele vive em uma mansão com vista para o mar, que talvez custe alguns milhões de euros. E, sim, por mais que a obra trate das exclusões em suas mais variadas formas, o que falta aqui é um pouco mais de conflito. Algo que faça com que a gente se importe um pouco com um Enzo birrento. 

Nota: 6,0 

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Jovens Mães (Jeunes Mères)

De: Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Lucie Laruelle, Babette Verbeek, Elsa Houben, Janaïna Halloy Fokan e Samia Hilmi. Drama, França / Bélgica, 2025, 106 minutos.

Em uma das tantas sequências comoventes do ótimo Jovens Mães (Jeunes Mères), mais recente produção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne e que chega para aluguel nas plataformas da Apple TV e da Amazon Prime, uma desesperada Ariane (a ótima Janaïna Halloy Fokan) explica à sua mãe o fato de nunca a ter reprovado por ser pobre. "Eu só não queria ter o filho", suplica aos prantos, após ter levado um tapa de Nathalie (Christelle Cornil), a sua genitora e avó da bebê que carrega, a contragosto, nos braços. A visita de Ariane a Nathalie tem um objetivo central: ela dá à sua mãe os motivos pelos quais ela pretende doar a filha a uma família de acolhimento. Alguém que poderá criá-la, exatamente como permite a Lei, com melhores condições. Ariane queria abortar. A mãe não permitiu. O que é apenas uma das tantas facetas problemáticas das pressões sociais que envolvem a maternidade.

Talvez poucas jovens mulheres admitam o fato de terem sido mães para agradar a família. Quem nunca ouviu dos pais sobre o desejo de ser avô ou avó - cedendo a esse tipo de situação apenas para não romper essa lógica familiar? E que envolve, em muitos casos, o discurso conservador do papel da mulher na sociedade? O filme dos Dardenne, um mosaico complexo a respeito das eventuais precariedades da maternidade, evidencia feridas sociais variadas em que temas, como, abandono, dependência afetiva, falta de maturidade emocional, relações tóxicas, autodestruição e problemas financeiros são salpicados, aqui e ali, por meio de cinco histórias diferentes, em que mães que, em muitos casos, sequer saíram da adolescência, precisam lidar com o peso dessa enorme responsabilidade. O que ocorre, em muitos casos, com pouca estrutura familiar e com, óbvio, o abandono dos parceiros (jovens meninos que só passarão a pensar sobre o significado de colocar um filho no mundo depois que a coisa acontece).

 


Em linhas gerais essa é uma experiência dolorida e que, mais uma vez, como costuma acontecer na filmografia dos Dardenne, olha para a juventude não como uma alegoria meio abstrata para futuro ou perda de inocência. E, sim, como um estado de formação urgente frente às pressões do mundo. Em suas obras, não são poucos os casos em que adolescentes, ou mesmo crianças, são levados à tomarem decisões que, até mesmo para os adultos, podem ser eticamente questionáveis - e basta pensar em obras essenciais como Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2004) ou mesmo a recente O Jovem Ahmed (2019), para que sejamos confrontados com questões ligadas à violências, traumas e solidão. Ou mesmo a temas ainda mais complexos, ligados à questões políticas ou sociais. Em Jovens Mães, as cinco jovens do filme buscam acolhimento em uma espécie de abrigo, o que também torna evidente a importância da sororidade. Enquanto lidam com um ambiente em permanente combustão.

E não deixa de ser impressionante perceber como um filme tão curto consegue ser dotado de tanta complexidade. Se na primeira cena da obra já somos impactados pelo desespero de Jessica (Babette Verbeek), que busca algum contato com a mãe biológica que lhe abandonou, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a própria gravidez, no instante seguinte temos Perla (Lucie Laruelle), que tem uma relação turbulenta com seu namorado (e pai do seu bebê), ao mesmo tempo em que sonha em ter uma família mais "normal", como é da sua irmã. Sendo um tanto trágico que isso tenha de acontecer em meio a interrupção de uma adolescência. No caso, a dela própria. Já Julie (Elsa Houben) precisa lidar com o vício e suas recaídas - com a maternidade surgindo, estranhamente, como uma chance para um recomeço. E há ainda Naïma (Samia Hilmi), que parece um ponto mais luminoso da narrativa, ainda que ela não escape de um lado sombrio. Indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra venceria o prêmio nas categorias Melhor Roteiro e do Júri Ecumênico. E é sempre muito prazeroso ver qualquer filme da dupla, afinal, nunca saímos os mesmos de qualquer que seja a sessão.

Nota: 9,0 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Honey, Não! (Honey, Don't!)

De: Ethan Coen. Com Margaret Qualley, Chris Evans, Aubrey Plaza e Charlie Day. Comédia / Policial, Reino Unido / EUA, 2025, 89 minutos.

Acho que o problema de filmes como Honey, Não! (Honey, Don't!), que acaba de chegar à Amazon Prime, é a expectativa gerada. Especialmente pelos nomes envolvidos na produção, a começar pelo diretor. Tudo bem que já vai fazer quase uma década que o Ethan Coen não entrega uma produção decente - vá lá, se considerarmos A Balada de Buster Scruggs (2018) um bom filme e há controvérsias -, mas a gente olha o nome dele ali e pensa em Fargo (1996), em O Grande Lebowski (1998) e em Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007) e em tudo de legal que ele já faz ao lado do irmão Joel e fica meio que vivendo de passado. Ou vai ver os tempos são outros e esse tipo de humor meio nonsense, escrachado mas contido e estranhamente violento, que é a marca registrada da dupla, talvez já não caiba mais em uma década tão esquisita como essa. Enfim, a gente teria gostado mais desse último filme se ele tivesse sido lançado, sei lá, em 1994?

Honestamente não sei dizer e tudo piora quando um filme tão curtinho consegue ser tão confuso. Ou tão raso - com a profundidade de um pires -, com as eventuais boas ideias tão espalhadas aleatoriamente, que a gente não consegue se apegar em nada. No centro da trama há um pastor pentecostal, seu nome é Drew Devlin (Chris Evans), que parece estar envolvido em algum tipo de maracutaia com a máfia francesa, que é representada ali pela chefona do tráfico sexy Chère (Lera Abova). Enquanto leva, aqui e ali, algumas jovens de sua congregação para a cama (além do carisma, ele tem a lata do Chris Evans, não esqueçamos), ele é informado por Chère que o bicho tá pegando pro lado dele, especialmente após o assassinato de Mia Novotny (Kara Petersen), que parece ter sido premeditado. E não sei dizer se em 2026, haja alguém considere divertida uma sequência de sexo inesperadamente interrompido.

 


Aliás, a maioria das tentativas de humor do filme, envolvem instantes sexualmente constrangedores, até com o uso de rimas visuais óbvias, que acho que nem um estudante de cinema compraria a ideia - como no momento em que a detetive Honey (Margaret Qualley) e a policial MG Falcone (Aubrey Plaza) transam pela primeira vez. Para no take seguinte, após um corte, uma torneira surgir borbulhante, enquanto jorra água para a limpeza de brinquedos sexuais diversos. Sim, legal, eu sou total contra esse puritanismo que tem invadido nosso cinema, atualmente, mas desde que a coisa tenha algum nexo narrativo. E que não use de alegorias tão pouco inspiradas. Com tudo piorando no momento em que Honey sai para confrontar o namorado violento de sua sobrinha para, num ato de pura subversão (uau), colar um adesivo feminista em cima de outro do MAGA (óbvio), que estampava o carro do sujeito.

E que a questão política não faça muito sentido, é algo até meio normal. Só seria mais legal se as bandeiras levantadas fossem menos infantilizadas, ou não soassem como um debate de Twitter de 2017. Nós temos, afinal, uma investigadora e uma policial lésbicas - com a primeira tendo uma irmã com uma dúzia de filhos -, um reverendo golpista e hedonista e mais um punhado de gente no entorno e lá pelas tantas a gente já não se importa com ninguém. Há um esforço de estilização obviamente Irmãos Coen na fotografia, ou mesmo na montagem, mas, no fundo, quem são, de fato, aquelas pessoas? O centro de tudo está em Mia e a morte dela descambará para uma sequência de cenas de violência e de sangue jorrando que é meio que típico da dupla. Ou de Ethan. E lembra lá em cima, que falei dos nomes envolvidos? Vocês chegaram até aqui e leram na resenha: Margaret Qualley, que esteve impecável em A Substância (2024) e Aubrey Plaza e sua trajetória de respeito. Bom, elas também precisam pagar boletos. Ou vai ver se enganaram, como nós, com o nome no cartaz. Vai saber.

Nota: 3,5