quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Pixote: A Lei do Mais Fraco

De: Hector Babenco. Com Fernando Ramos da Silva, Jorge Julião, Gilberto Moura, Marília Pêra, Tony Tornado e Elke Maravilha. Drama, Brasil, 1980, 129 minutos.

Um menino de apenas onze anos é abandonado pelos pais, vai parar em um reformatório, foge do local e se torna traficante de drogas, cafetão e assassino. Parece uma história de violência meio improvável, mas é apenas a realidade de grande parte dos jovens de periferia do Brasil - como podemos perceber já no preâmbulo do clássico brasileiro Pìxote: A Lei do Mais Fraco. Dirigida por Hector Babenco, a obra mostra o desencanto permanente no olhar do protagonista, que vê a sua existência resumida a um universo de dor, de violência e de abandono (não apenas da família, mas também da sociedade). Trata-se de um filme áspero, escatológico, provocativo, pornograficamente fétido e extremamente realista. Para as "famílias de bem", o incômodo das cenas de nudez, de estupro, de pedofilia, de assassinatos brutais, de aborto, de prostituição e de sujeira por todo o lado. Para o público em geral um retrato de um País de contrastes da época da Ditadura Militar - mas que bem poderia ser o da atualidade, uma vez que a pobreza extrema só aumenta.

Dividida em duas partes, a obra se ocupa na primeira metade da rotina de Pixote (Fernando Ramos da Silva) e de seus amigos Lilica (Jorge Julião), Dito (Gilberto Moura) e Chico (Edilson Lino), entre outros, no reformatório. No local paira um clima permanente de incerteza, representado pelas famílias que não visitam e pelas pouquíssimas perspectivas de futuro (as aulas são precárias, o investimento no local é pouco e a violência é muita). Aliás, em algumas das tantas sequências chocantes, os agentes da lei abusam de seu poder, assassinam jovens à revelia (sem o conhecimento dos pais) e vendem uma imagem diferente à imprensa - que fecha o cerco para tentar compreender o que ocorre no local. Em meio ao caos estabelecido, os poucos momentos de prazer se resumem às reuniões de amigos, ao futebol no pátio e às esporádicas apresentações de um excêntrico cover de Roberto Carlos (e se há um "alívio cômico" na película, definitivamente é esse).


Com a violência e o abuso só aumentando, Pixote e outros tantos fogem do reformatório, no desejo por dias melhores. Nas ruas - e é aqui que se inicia a segunda metade do filme -, como se fossem os protagonistas de Capitães da Areia de Jorge Amado, cometem pequenos furtos, transam entre si se envolvem em esquemas para vendas de drogas (que nem sempre são bem sucedidos) e fazem planos que dificilmente se concretizarão. O tom é urgente, inconstante, desolador. Algo que é reforçado pelo incrível trabalho de Babenco na condução do elenco - boa parte dele amador - e que é composto por um sem fim de "extras" (sendo incrível o realismo conferido a tudo). Já no terço final, o grupo conhecerá a prostituta Sueli (Marília Pêra, em inesquecível papel). Ao lado dela, praticarão roubos a candidatos a clientes dela, transformando-se numa espécie de família involuntária. Não por acaso, a cena em que todos comem uma farta a la minuta, para mim é uma das que mais comove.

Mas não há final feliz em um universo tão brutalmente sofrido, como este, com a violência batendo literalmente à porta. Aós uma ação com resultados trágicos, Lilica foge, Dito morre e Sueli manda Pixote de volta para as ruas (de onde ele veio e de onde, vamos combinar, nunca saiu). Com ótimas participações especiais - de Elke Maravilha, Beatriz Segall e Tony Tornado -, a película foi extremamente bem recebida no exterior, tendo sido indicada ao Globo de Ouro. Seu estilo documental - que seria mais tarde repetido por outros filmes sobre a perda da inocência em um universo de crueldades, sendo o mais marcante em Cidade de Deus (2002) - segue sendo uma de suas marcas registradas. Nesse sentido, não foi por acaso que a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), o considerou o 12º melhor da história, abrindo caminho para que Babenco brilhasse em outros clássicos, como O Beijo da Mulher Aranha (1985).

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Novidades em Streaming - Beck (Disco)

Impressionante a capacidade do cantor Beck em se manter relevante - especialmente em um cenário em que artistas surgem para o mundo da música, na mesma velocidade com que desaparecem. Dois anos após o lançamento de Colors - álbum que deixava um pouco de lado as o lo-fi, as eletronices malucas e o country de outrora, para investir em um pop mais ensolarado, agridoce e direto (foi o nosso sétimo colocado entre os melhores daquele ano) -, o artista retorna com este Hyperspace, o 14º registro de sua carreira. Reduzindo um pouco a velocidade e a energia jovial apresentada no trabalho anterior - Beck apresenta uma nova coleção de excelentes canções, que dialogam com estilos diversos, como new age, soul ,R&B e IDM. Com produção caprichada feita em parceria com Pharrell Williams, o álbum traz uma elegância convidativa em cada curva de músicas sinuosas como See Through, Hyperspace e Everlasting Nothing - que fazem o contraponto perfeito para as letras debochadas do americano. Vale clicar!




Tesouros Cinéfilos - O Professor Substituto (L'Heure de La Sortie)

De: Sébastien Marnier. Com Laurent Lafitte, Emanuelle Bercot, Pascal Greggory e Luàna Bajrami. Suspense, França, 2018, 98 minutos.

No cinema é possível passar a mensagem das mais variadas formas: esfregando na cara, apostando em sutilezas, sendo mais ou menos "panfletário" ou óbvio. Assim como em qualquer arte, o filme também pode (e talvez até deve) ser político. Deve desconstruir aquilo que está estabelecido pelo status quo nos fazendo, minimamente, refletir. Pois eis que por trás do verniz de suspense cascudo desse O Professor Substituto (L´Heure de La Sortie) há uma fortíssima bandeira sendo levantada - e que não mencionarei para que a experiência de assisti-lo não seja comprometida. O filme começa em uma sala de aula suarenta (o calor é claudicante, palpável) onde um professor aplica uma prova. De forma inesperada e sem nenhuma explicação prévia, o mesmo professor abre discretamente a janela, sobe silenciosamente em uma cadeira e se joga janela afora. Para horror dos adolescentes, que ficam sem reação.

A vida segue com um professor de nome Pierre (Laurent Lafitte) sendo contratado para ser o substituto daquele que cometeu suicídio. Só que, aos poucos, ele percebe que há algo errado com aqueles estudantes: mais inteligentes que os demais (quase como pequenos prodígios), questionam os saberes e os métodos do substituto, conhecem seus direitos e agem de forma excêntrica, influenciando toda a escola com o seu comportamento arrogante e prepotente. Sim, é a velha história do professor que precisa lidar com uma turma difícil. Mas essa não será difícil por problemas de aprendizado relacionados a um contexto social injusto ou de pobreza. Filhos da elite, se tornarão figuras misteriosas para Pierre, que passará a persegui-los, tentando identificar qual o segredo que lhes ronda. Eles teriam algo a ver com a morte ocorrida no educandário? Por quê parecem tão passivos e agressivos ao mesmo tempo? O que eles estariam tramando?


Nesse sentido, trata-se de um filme que equilibra de forma magistral o drama e o mistério. E que utiliza a cinematografia em favor da narrativa. Parece haver o tempo todo algo que perturba, uma espécie de mal-estar que é reforçado por barulhos da natureza ou domésticos (como um choro de bebê que persiste em uma vizinhança ou a música hipnotizante de uma boate), num trabalho de edição e mixagem de som muito bem feitos. Os closes fechados, os silêncios constrangedores, o céu que persiste em oprimir, uma barata que aparece de forma inesperada, um notebook que desaparece sem deixar vestígios, uma ligação em que apenas se escuta uma mulher chorando do outro lado da linha... tudo parece contribuir para que haja um sentimento de incômodo. E quando Pierre descobre que um grupo de seis jovens de sua sala de aula se refugiam em uma espécie de pedreira abandonada, se comportando de maneira desafiadora e beligerante, essa sensação só aumenta. Pior: um baú com mais de uma dezena de DVDs feitos pelos alunos, poderá ser o indicativo de que algo muito grave possa estar para acontecer.

Não é cinema para todos os paladares, já que a construção do clima de suspense se dará muito mais por aquilo que o filme não mostra do que por aquilo que revela - esqueça os jump scares que eles praticamente não existem. Ainda que não seja tão "redondinho" na construção de seu roteiro, ele procura chamar a atenção para o mal-estar generalizado que afeta a humanidade e sobre as tantas formas que a nossa geração pode estar comprometendo o futuro dos jovens. De que adianta ser um prodígio em um mundo cheio de ódio, de preconceito, de intolerância em relação às diferenças? O que será de um futuro de escassez de recursos naturais, de aumento da miséria, de fome, de doenças e de novas tecnologias nem sempre sendo usadas com motivos louváveis? Guardando semelhanças com a ótima série Years and Years, a película do diretor Sébastien Marnier nos ensina que, no fim das contas, é importante estarmos preparados para sofrer. O mundo, afinal, nos imporá muitas e doloridas derrotas. Cabe a nós, saber lidar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Cine Baú - Touro Indomável (Raging Bull)

De: Martin Scorsese. Com Robert De Niro, Joe Pesci, Cathy Moriarty e Frank Vincent. Drama / Biografia, EUA, 1980, 129 minutos.

Sujeito temperamental, intempestivo, violento, o boxeador Jake La Motta foi encarnado com paixão por Robert De Niro. O ator domina a tela e Touro Indomável (Raging Bull) muito provavelmente só existe como existem, no cânone do cinema nos dias de hoje, por conta da presença magnética do ator, que surge como um espectro permanentemente presente, estando quase em todas as cenas. Uma figura imprevisível, opressora, eventualmente torpe que, ao mesmo tempo que se consolida como um lutador com potencial altamente destrutivo, se apresenta como uma personalidade insegura, que tem dificuldade de se relacionar - com o irmão e empresário Joey (o sempre ótimo Joe Pesci), com a namorada e futura esposa Vickie (Cathy Moriarty), com figurões do universo do boxe, com amigos (ele quase não os tem). E com a balança, já que ele está sempre brigando para se manter no peso, para não se desqualificar para as lutas em que estará envolvido.

No ringue Jake é uma força da natureza. Golpeia com fúria animalesca, soca seus adversários sem dó, ferindo-os quase mortalmente. É em cada jab, em casa cruzado e em cada gancho que ele descarrega a sua raiva pelas frustrações da vida, quaisquer que sejam. E o filme de Martin Scorsese é absurdamente hábil na montagem desses instantes em que, enraivecido com o mundo, com o sistema, com a família (com os que estão em sua volta), ocupa-se de destruir qualquer que seja seu oponente. Se em um instante Jake está desconfiado de que a esposa possa estar lhe traindo (e na maioria dos casos é isso o que mais lhe irrita), no segundo seguinte ele surgirá como uma figura monstruosa, maior do que é de verdade, fazendo sangrar opressivamente aqueles que ousam desafiá-lo. E, é preciso que se diga, poucas vezes as cenas de boxe foram tão bem editadas (trabalho da montadora Thelma Shoonmeker, que ganhou o Oscar) como em Touro - os cortes rápidos, a utilização do som, a câmera lenta, os closes do sangue jorrando, do suor, dos flashes das câmeras espocando, das feridas se abrindo, das cicatrizes se formando, são inacreditavelmente inesquecíveis e realistas.


Só que, por mais que as cenas de "batalha" sejam ótimas, verossímeis, bem coreografadas, o filme tem na interpretação da dupla central uma de suas maiores fortalezas. Pesci não ganhou o Oscar naquele ano - a academia optou por dar a estatueta e um "esquecível" Timothy Hutton por seu trabalho em Gente Como a Gente - mas rivaliza à altura com De Niro. Mais jovem, aguenta as brutalidades do irmão sem baixar a cabeça, confrontando-o, questionando-o e até debochando de seu jeito absolutamente irascível. Em uma das mais inesquecíveis partes do filme, o protagonista pergunta, DO NADA, se o irmão está comendo Vickie. O instante do "did you fuck my wife?", já virou paródia, meme, imitação em uma centena de outros filmes, séries e programas, sendo recordado como um dos pontos altos da película. Enfurecido com essa possibilidade, Jake dá porrada tanto em Vickie quanto em Joey. Sim, em Vickie. Em uma das tantas cenas em que a misoginia do sujeito atinge limites quase insuportáveis.

Filmado em um elegante preto e branco, a obra é uma das mais clássicas histórias de ascensão e queda de um esportista, mostrando a glória e a derrocada de um homem sem controle, machista, descuidado e até insignificante - especialmente em seu ocaso, quando se transforma em um risível apresentador de stand up comedy. Explorado por empresários e pessoas ligadas ao ramo, não consegue se manter em alta, deixando o fator psicológica influenciar a sua carreira de forma definitiva. Impecável em sua caracterização - como já dissemos - De Niro urge em cena de forma alternada, uma hora como o vigoroso e potente boxeador, outra hora como o desleixado, nauseabundo (e acima do peso) sujeito em fim de carreira. Diz a lenda que foi o próprio Robert De Niro quem convenceu o amigo Scorsese a levar a biografia de La Motta para as telonas. Se é verdade ou não, o fato é que o filme pavimentou a carreira do diretor, que vinha de um documentário não muito expressivo, chamado o O Último Concerto de Rock. O resto? Bom, o resto é história.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - O Buraco (Taiwan)

De: Tsai Ming-lian. Com Kang-sheng Lee, Kuey-mei Yang e Huy-xun Lin. Drama / Fantasia, Taiwan / França, 1998, 95 minutos.

Vamos combinar que o cinema oriental é especialista na produção de alegorias capazes de refletir o mal estar dos tempos que vivemos. Repletas de simbolismos, muitas obras de lá nos alcançam pelo não dito, pelas frestas ou pela sutileza na hora de falar de temas como incomunicabilidade humana, tecnologia, individualismo e solidão. E poucos filmes conseguirão ser tão representativos nessa abordagem, quanto o imperdível taiwanês O Buraco (Dong), do diretor Tsai Ming-ling. Tão minimalista quanto úmido, o filme transparece um sentimento permanente de melancolia, que é determinado já na narração em off inicial, que dá conta da existência de uma nova epidemia que tem assolado a população - que se vê "transformada" em algo parecido com baratas humanas. Mesmo com a indicação da necessidade de evacuação, dois jovens residentes de um condomínio (parece mais um cortiço), recusam-se a sair. São vizinhos: o homem mora no andar de cima, a moça no de baixo.

Mas não é que as condições de moradia sejam precárias: elas são fétidas, sujas. Chove sem parar, de forma intermitente e esta é a única água disponível, já que o fornecimento será cancelado. Por todos os lados há goteiras, infiltrações - na casa da jovem a água escorre por todos os cantos, fazendo-a secar as paredes e o chão na marra, com baldes e mais baldes de líquido sujo sendo juntados. Já no apartamento do rapaz, um encanador inicia um trabalho para reduzir as goteiras, mas o deixa pela metade. O resultado? Fica um pequeno buraco no meio da sala, que interliga ambos os ambientes, deixando a mostra a sala do andar de baixo. Mesmo sem ter nenhum contato com a sua vizinha, nenhuma conversa, nenhuma troca, o homem pode espiá-la. O que incomodará a moça, evidentemente: ela tentará fechar o buraco com fita crepe e espalhará veneno quando se sentir ameaçada.


É um filme simplíssimo, mas que quer dizer muito nas entrelinhas: em primeiro lugar estamos as vésperas da virada do milênio, período marcado por fortes incertezas, especialmente no que diz respeito ao futuro das relações, das tecnologias e de como isto nos afetará socialmente, politicamente, culturalmente. Segundo, é uma obra que torna literal o sentimento de solidão sufocada, como se aquele monte de água, o encharcamento coletivo, relegasse cada sujeito a uma existência enfadonha, excessivamente rotineira e sem grandes novidades. O homem vai trabalhar, volta. A mulher sai durante o dia, retorna. A vida é mesquinha, simplória, dolorida. Restando os sonhos pra sonhar: coloridos, vibrantes, sensuais, cheios de vida. E talvez não seja por acaso que, mesmo em meio ao absurdo da maçante, claustrofóbica e opressiva vida cotidiana, a jovem encontre tempo para a pequena busca de prazer (representado por um fragmento em que ela, sutilmente, se masturba).

Pois no meio das nossas enxurradas, das nossas cachoeiras, das nossas torrentes que nos afogam, nós não estamos afinal de contas tentando apenas ser felizes? E essa felicidades não se estabelece com o sentimento de troca, de ter alguém para dividir e que nos permita fugir do vazio dos dias? Instantes de cumplicidade - como na sequência em que o homem urina na pia (quem assistir vai entender) -, aos poucos vão dando forma à proximidade do casal central, que talvez no seu íntimo se deseje, mas que motivado pelo entorno absurdo, talvez se afaste. Com uma magnífica trilha sonora, um figurino cheio de contrastes e uma fotografia esverdeada que torna tudo ainda mais nauseante, o filme nos fazer perceber que, para sair das prisões que nós mesmos nos colocamos, talvez tenhamos que passar por alguns "buracos" - por mais apertados que eles sejam. Talvez isso signifique sair da zona de conforto. Ou tentar viver, minimamente, outra vida, aquela que está nos sonhos, doidinha para sair.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Curta Um Curta - Superoutro

Quem acompanha a carreira do diretor Edgard Navarro sabe que o seu cinema é o de confronto! Iconoclasta, questionador, atrevido, é responsável por uma filmografia suja, pornográfica, escatológica, que dialoga com a produção que ficou conhecida como Boca do Lixo - e que tinha a intenção, no caso dele, de provocar. Provocar instituições, sistemas políticos, religião, famosos da TV, colocando o dedo na ferida - especialmente no que diz respeito à hipocrisia da sociedade. Ainda que O Rei do Cagaço (1977) e Exposed (1978) tenham desafiado à Ditadura Militar, foi com o clássico Superoutro que ele atingiu o seu ápice criativo. Na história do "louco" (Bertrand Duarte em modo insano) que grita desesperadamente "ACORDA HUMANIDADE", uma pancada sobre desigualdade econômica, desencanto político e cultura da normose como única forma aceitável de existência. Com uma série de frases icônicas - "O que seria dos maluco se não fosse os viado?", "Deus é grande mas tá mole!" - o filme é pura poesia marginal, recheado de um anarquismo libertino, hedonista e que merece ser lembrado - especialmente em tempos de resistência política. Não é por acaso que a Associação Brasileiro dos Críticos de Cinema (Abraccine) o considerou o sétimo melhor curta-metragem da história. Ele segue relevante, afinal.


Pérolas da Netflix - Euforia (Euforia)

De: Valeria Golino. Com Riccardo Scamarcio, Valerio Mastandrea, Isabela Ferrari e Jasmine Trinca. Drama, Itália, 2018, 116 minutos.

Qualquer pessoa que tenha um irmão sabe que nem sempre é fácil verbalizar o amor a esta pessoa que pode nos ser ao mesmo tempo próxima e distante. Especialmente se as personalidades forem distintas. Sutil em sua abordagem desse tipo de relacionamento - tão afetuoso quanto conturbado -, o italiano Euforia (Euforia) narra a história de dois irmãos completamente diferentes. Por um lado, Matteo (Riccardo Scamarcio) é o jovem empreendedor bem articulado, desinibido e eventualmente hedonista - um tipo de playboy fascinantemente autêntico, que não vê problema em gastar o seu dinheiro em uma cirurgia estética para preenchimento da panturrilha. Por outro, Ettore (Valerio Mastandrea) é o irmão mais velho e mais sisudo, sujeito introspectivo que está no segundo casamento, é relativamente distante de seu filho pequeno e se ocupa de dar aulas de matemática para o Ensino Médio.

Ainda que possa soar um pouco clichê, o que fará com que os dois se reaproximem - o estilo de vida os distanciou, colocando-os em existências opostas -, será a severa doença que acomete Ettore. Com um irreversível tumor no cérebro e bastante debilitado, ele passará a morar na luxuosa mansão do irmão, em Roma. Como forma de tentar reduzir o sofrimento de todos, inclusive do próprio irmão doente, Matteo, em contato com os melhores médicos da capital italiana, evitará dar a real dimensão da gravidade da enfermidade para toda a sua família. À ex-esposa de Ettore, ao filho e a mãe de ambos, dirá que o irmão está com um cisto facilmente contornável com sequenciais sessões de radioterapia. A intenção nobre - utilizar o "pensamento positivo" como formato de cura -, não tardará a ser descoberta, especialmente após os seguidos desmaios que gerarão uma série de desconfortos a Ettore.


Como em qualquer filme em que o centro da narrativa se dá pela (re)aproximação de duas figuras diametralmente opostas, a película se valerá da força dos diálogos, dos gestos e dos olhares que imprimirão a carga emocional necessária para que tudo funcione. Ao perceber que, por trás da generosidade do irmão - que não poupará recursos para o tratamento de um professor que certamente não teria dinheiro para tanto (oi Walter White) -, pode haver uma boa dose de egocentrismo (e até de exibicionismo "financeiro"), Ettore verá diluída parte da intenção nobre de seu parente. Até que ponto ele faz tudo que faz para ajudar e não apenas para ver afagada a sua própria consciência? Ou mesmo para compensar parte de seu comportamento niilista e autodestrutivo? Será nesses pequenos instantes, nada formulaicos, e sempre construídos muito mais pela sugestão do que pela obviedade, que essa pequena obra mostrará sua densidade.

Novamente, pode não ser uma película para todos os paladares - há momentos poéticos e lindos (como o da revoada dos pássaros no terço final) e outros excêntricos (como o da queda inesperada de um peixe), que possuem alguma simbologia que os liga aos eventos que assistimos. Com uma fotografia propositalmente acinzentada e melancólica, o filme tem uma carga naturalmente dramática que, mesmo em instantes mais felizes, jamais desaparece. No final, por mais dolorido que seja o destino de Ettore, é importante que todos que lhe são caros, tenham conhecimento disso. É algo que poderá fazer amenizar a dor nos instantes finais, curando as feridas de mágoas passadas. E é talvez por isso que a última sequência seja tão comovente: quando percebemos que duas pessoas carismáticas a sua maneira, mas disitintas em suas personalidades, talvez não sejam tão diferentes assim.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Foi Um Disco Que Passou Em Minha Vida - Skank (Calango)

Diferentemente do que ocorreu com outros álbuns que já figuraram aqui no Foi Um Disco Que Passou Em Minha Vida, eu sinceramente não lembro qual foi a primeira vez na vida que ouvi alguma canção do Skank. E nem em que momento ela se tornou uma espécie de !banda do coração" na juventude. O que eu sei é que, com 13 ou 14 anos de idade, Jackie Tequila, Esmola, Pacato Cidadão, Te Ver, A Cerca e outras tantas, se transformaram naquele porto seguro musical, capaz de mesclar ótimas melodias, arranjos criativos e letras diversificadas - que podiam ser românticas em algum momento, excêntricas em outro ou mesmo recheadas por críticas sociais eventuais. Na realidade, tenho viva a memória da vizinhança no bairro Moinhos, aqui em Lajeado, em volta do 3 em 1 que tocava incansavelmente a fitinha do álbum Calango - com direito a letras decoradas e muita cantoria no chuveiro.

Tentando puxar pela memória, acho que foi com Jackie Tequila que tudo começou. Não sei se foi o primeiro single. Mas aquele clima de reggae praiano, cheio de suingue, uma percussão harmoniosamente simpática, tudo me ganhou. E ainda havia a letra, que versava sobre funk, baião, misturava um inglês meio improvável (Essa menina tá dizendo don't worry) e fechava tudo com citações a Tenessee Williams (claro, nem reparávamos), ilha, Coca Cola, Taiti, uma mistureba à brasileira, de um romantismo poético, esperançoso. Bem à moda que um apaixonado adolescente espinhento sonhava. As demais músicas vieram na esteira e não paravam de tocar nas rádios daquele 1995 ardorosamente febril. Aliás, esse é um daqueles casos de disco com mais da metade das canções se tornando de "trabalho", ganhando videoclipe e apresentação no Faustão (ou no Gugu).


Sobre videoclipes, é simplesmente impossível citar o Calango sem falar do vídeo de A Cerca. Dirigido por Gringo Cardia, transformava e embolada regionalista em imagem e a improvável "briga de vizinhos" da letra (Terequitem, ô pra cá você não vem) era gloriosamente materializada. Aliás, vale recordar. Outras canções, como Te Ver, É Proibido Fumar (cover de Roberto Carlos) e Pacato Cidadão também receberam videoclipe, em uma época em que a MTV era o símbolo da divulgação oficial daquilo que as bandas pretendiam tornar conhecido. E, mesmo as canções não tão conhecidas, como O Beijo e A Reza (uma das preferidas), Sam e Amolação, passaram a se tornar queridas do público, conforme o disco foi ganhando espaço. Com cada uma delas mostrando a habilidade única do coletivo - formado por Samuel Rosa, Henrique Porugal, Haroldo Ferretti e Lelo Zanetti -, em criar baladas, rocks juvenis e reggaes.

O disco vendeu mais de um milhão de cópias (na época que se ia no Gugu pra receber o Disco de Platina) e pavimentou o caminho para que a banda lançasse um sem fim de outros trabalhos inesquecíveis (O Samba Poconé, Siderado, Maquinarama, Cosmotron), que renderiam hits, como, Resposta, Dois Rios, Uma Partida de Futebol, Garota Nacional, Vou Deixar, Tão Seu, Balada do Amor Inabalável, Saideira, Canção Noturna e, mais recentemente, Esquecimento. Ainda que não tivesse mais a relevância daquela época - hoje em dia tudo é o hedonismo e o niilismo do sertanejo universitário -, o fim do coletivo mineiro foi meio inesperado, deixando meio órfãos os fãs das antigas, que acreditavam que Samuel Rosa e companhia ainda pudessem ter "lenha pra queimar". Ainda assim, o que fica é a memória das grandes canções lançadas nos anos 90 e que, para sempre estão no coração dos fãs.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Novidades em DVD/Now - A Vida de Diane (Diane)

De: Kent Jones. Com Mary Kay Place, Jake Lacy, Estelle Parsons e Glynnis O'Connor. Drama, EUA, 2018, 96 minutos.

São tempos individualistas os que vivemos, então não deixa de ser comovente assistir a um filme que reforce a importância das relações, dos laços, dos pequenos gestos de afeto, como no caso desse A Vida de Diane (Diane). Serão essas relações que darão sentido a nossa vida - ainda que eventualmente construídas de uma forma meio torta, em que a dependência fala muito mais alto do que a amizade em si. Nesse sentido, é interessante notar o fato de que a protagonista, que dá o nome original à obra e que é vivida pela ótima Mary Kay Place, nunca está sozinha: rodeada de parentes enfermos, de um filho usuário de drogas, de um casal de vizinhos idosos e até de um grupo de apoio à moradores de rua, a vida de Diane é auxiliar os outros. Tentar amenizar suas dores, suas frustrações, suas tristezas. O que faz com que tenhamos a impressão de que, mesmo acompanhada, ela pareça eventualmente solitária.

Trata-se de um filme dolorido sobre a chegada na terceira idade. Diane tem cerca de 70 anos, assim como a maioria dos seus amigos e parentes que vemos em cena. Aos poucos alguns adoecerão, padecerão de algum mal, enfim, morrerão. E esse contexto se descortinará na nossa frente sem nenhuma forçação ou excesso melodramático, afinal, assim é a vida. Diane andará pra lá e pra cá em uma via crucis exaustiva, que será visualmente representada pelas estradas que surgem como uma metáfora para a existência que anda, que anda e que anda indefinidamente - e para a vida que passa, inexorável, a despeito dos seus acontecimentos. Não por acaso, em uma das cenas mais tristes da película, Diane mal tem tempo de chorar a morte de sua prima, já terá de ir atrás do filho drogado, que reaparece depois de dias sem mandar notícias. A vida, afinal, é uma série de eventos que vem em enxurrada, eventualmente desconexos, que podem gerar sofrimento, dor, euforia, êxtase.


Se Diane fica arrebatada com o morador de rua que lhe dá um afago ao dizer que o dia dele ficava mais feliz quando era ela que lhe servia a comida no bandejão - que cena, meus amigos -, em outra, sentiremos junto com ela o arrependimento de não ter estado junto de alguém que amava no instante que lhe antecedia a morte. E não deixa de ser incrível como um filme tão sutil, tão econômico, consiga dizer tanto sobre essa força que rege a nossa presença nesse mundo: a da importância de termos com quem contar, em quem confiar. Não é por acaso que gosto da cena do jantar, em que idosos trocam amenidades, enquanto que os jovens e as crianças surgem em tela quase invisíveis, como espectros no formato "folha em branco", que ainda não tiveram a sua história suficientemente preenchida. O mesmo valendo para o momento em que Diane descobre que, superado um vício, seu filho Brian (Jake Lacy) está, agora, maravilhado por outra "droga".

É filme de instantes pequenos, de repetições, que pode soar excessivamente arrastado para alguns paladares, mas que tem razão de existir assim, já que vida próxima do ocaso, ao menos para Diane, parece uma coleção de fragmentos em que a espera parece mais dolorida, em que o tempo parece já olhar para o fim. A fotografia eventualmente escurecida, de tons mais pálidos, contribui para esse sentimento de vida que se vai indo e que não volta mais, conforme passa. E quando vemos uma Diane tão exaustivamente dedicada aos outros, tão presente, tão empática, tão altruísta, inevitavelmente acabamos por nos perguntar: quem vai cuidar dela? Como ela buscará a felicidade? Bom, talvez a felicidade dela, resida nesse modo de existir, colaborativo, em que as emoções estão presentes nas mínimas coisas, que para ela são grandes, importantes. E que a solidão poderá ser aplacada fazendo-se aquilo que gosta e convivendo com pessoas que amamos. Simples assim.

Nota: 8,0

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Cinema - Ventos da Liberdade (Ballon)

De: Michael Herbig. Com Friedrich Mücke, Karoline Schuch, David Cross e Alicia von Rittberg. Drama / Suspense, Alemanha, 2019, 125 minutos.

É uma pena que uma história tão boa (e real) tenha sido desperdiçada em um filme tão superficial quanto este Ventos da Liberdade (Ballon) - que retorna para 1979, época da Alemanha dividida pelo Muro de Berlim, para narrar a aventura de duas famílias que pretendem sair do lado oriental, migrando para o ocidental, em um balão de gás. Sim, a obra do diretor Michael Herbig começa com um letreiro explicando o fato de que milhares de pessoas tentaram esse subterfúgio, tendo sido uma parte delas abatida pelo regime da Stasi (que transformava os desertores automaticamente em inimigos). Nada sutil, o filme prossegue com um coral infantil, que canta uma música de louvor ao socialismo, enquanto uma sequência de imagens mostra o tipo de violência que é destinada a quem tenta atravessar a fronteira. Era um tempo sombrio para a Alemanha, assim como foi o regime capitalista de Adolf Hitler, na primeira metade do século.

Mas, a despeito do componente político, o filme é muito menos uma bandeira a favor do ocidente e muito mais uma trama de ação e aventura, que bebe diretamente na fonte hollywoodiana do gênero. E, curiosamente, confesso que esse aspecto foi um dos que mais me incomodou. Há duas tentativas da família que protagoniza o filme, em cruzar a fronteira de balão. Em ambas as ocasiões há um uso ostensivo da trilha sonora de suspense (que sobe a todo instante, de forma quase inexplicável e completamente "descolada" do tom da narrativa) que, aliada a ma fotografia cinza-azulada, pretendem transformar este num exemplar do "Liam Neeson salva a família", desperdiçando a oportunidade de tornar a obra uma reflexão, talvez até existencialista, acerca do mal-estar causado por regimes totalitários. Talvez a película pudesse ser mais sutil em alguns momentos. Menos excessiva. Mais bem aparada. Desse jeito o espectador parece ter suas sensações sempre induzidas pelo componente técnico: o que é muito irritante.


E nem vou falar da longuíssima duração, com o filme se demorando vagarosamente em sequências como a da compra do tecido para a confecção do artefato - que deve ser em partes, para não gerar suspeita -, ou mesmo a do desnecessário flerte entre o jovem casal de vizinhos, que está em lados políticos (e familiares) opostos. Claro, não vou negar que não haja tensão em cada um dos voos de balão, especialmente no segundo, quando a fuga da família mobiliza boa parte do exército alemão que está empenhado em capturá-los. Mas mesmo esse clímax parece realizado de forma meio torta, apressada (num verdadeiro paradoxo em relação ao tamanho restante da obra). E, sobre a fuga em si de um regime comunista, onde estava a opressão? A perseguição? Aliás, ela existia? No miolo do filme há sonhos paranoicos de ataques do exército da Stasi (todos fogem para um hotel, como medida de segurança), mas nada se concretiza. Tudo fica no campo das possibilidades (e dos olhares desconfiados).

No mais, o filme também peca um pouco no desenho dos personagens: não há uma grande diferenciação entre os integrantes da família central, ou algum traço da personalidade deles que os distinga dos demais. Eventualmente cada um deles reagirá com medo, será corajoso, sorridente, aventureiro, de forma aleatória - sendo, curiosamente, o tenente coronel Seidel (Thomas Kretschmann), a figura com maior profundidade, capaz de nos gerar dúvida sobre seu comportamento. Ainda que, aqui e ali, haja algo no olhar ou no gestual de Doris (Karoline Schuch) e de seu filho Gunter (David Cross). No mais, é uma película que aposta demais no clima de suspense e de ação, no maniqueísmo do bem contra o mal, mas que dilui o poder do debate político, em cenas cansativas, óbvias e de pouca imaginação. Uma pena.

Nota: 5,5

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Curta Um Curta - O Velho e o Mar (The Old Man and The Sea)

Baseado no último livro do escritor Ernest Hemingway, o curta-metragem O Velho e o Mar (Cmapuk u Mope) é um verdadeiro primor do ponto de vista técnico. Para realizar o filme, o diretor russo Aleksandr Petrov, que também é artista plástico, pintou a óleo cada um dos 29 mil frames da obra, para depois fotografá-los. O resultado é a sensação mágica de que estamos assistindo a uma pintura em movimento - e não foi por acaso que o curta foi tão premiado mundo afora (faturando inclusive a estatueta do Oscar na categoria Curta Metragem em Animação, na cerimônia do ano 2000). Na trama, a velha (e existencialista) história de amizade entre um idoso e o menino. O velho está insatisfeito por estar há 84 dias sem pescar nada e resolve ir a alto-mar. No local fisga o maior peixe da história, mas como fazer para "lutar" com ele, estando em um pequeno barco? E sendo ele um homem de idade avançada? Em meio a divagações filosóficas sobre os limites do ser humano, nos vemos diante de uma obra poética, elegante e essencialmente simbólica. Vale muito descobrir esse pequeno grande filme!


Novidades em DVD/Now - É Culpa da Alegria (Ode To Joy)

De Jason Winer. Com Morena Baccarin, Martin Freeman, Melissa Rauch e Jake Lacy. Comédia romântica, EUA, 2019, 97 minutos.

Existe uma premissa básica pra fazer com que uma comédia romântica funcione: a gente tem que torcer para que o casal central da trama fique junto. Temos de nos importar com eles. Desejar que eles superem todas as adversidades que lhes foram impostas para que, ao final, quando houver a derradeira cena do beijo que salva tudo, aquela sequência absurdamente clichê em que tudo se repara, em que a trilha sonora sobe e o travelling circular ocorre, seja, para nós espectadores, também um momento catártico. Que simbolize a esperança. O desejo por um futuro melhor. O sonho consolidado. Bom, eu estava querendo assistir algo leve e aluguei esse exemplar de como NÃO FAZER um filme desse gênero. Aliás, o que me surpreende é pensar que produtores de cinema pegaram o seu "suado" dinheiro para investir em uma obra que, além de não funcionar como romance, também não funciona como comédia, por que simplesmente a gente não dá risada. Em nenhum momento. NENHUM. E eu tô falando de um meio sorriso que seja. De canto de boca, vá lá.

Mas não, É Culpa da Alegria (Ode To Joy) também não tem graça. Aliás, as tentativas de fazer comédia são bizarras, machistas, antiquadas. Por exemplo, em uma das primeiras sequências, vemos a personagem vivida por Morena Baccarin (de nome Francesca) entrar em uma biblioteca com o namorado para discutirem a relação. Ao descobrir o motivo da ida a um ambiente silencioso para uma DR - a jovem seria muito histérica -, ela sobe na mesa para gritar com tudo e todos. Bom, se não bastasse o absurdo da sequência em si - que se fosse algo propositalmente nonsense, poderia servir ao humor -, ela ainda piora quando Charlie (Martin Freeman) se apresenta a ela com uma epifania sobre o futuro do relacionamento daquele casal. E, como cereja do bolo, o morto não é "nem embalsamado" e a fila já anda: Charlie, incentivado por seus colegas de trabalho, convida Francesca para sair. Sim, o casal central da película será o Martin Freeman e a Morena Baccarin - por que é bem normal a mulher bonita, inteligente e interessante desejar o cara esquisito. Nos filmes é.


Na trama, Charlie sofre de cataplexia, um sintoma de narcolepsia que causa paralisação súbita quando ele experiencia fortes emoções - mais especificamente a felicidade. Assim, ele desenvolve algumas técnicas para não desmaiar todas as vezes que vive ou simplesmente presencia um evento feliz - e a forma que a narrativa busca nos apresentar essa condição também é péssima, ostensiva, nada sutil. Basta Charlie sair para a rua, que ele inevitavelmente se deparará com cenas afáveis - como a de uma grávida que deixa as compras cair e é auxiliada por um idoso. Só que como lidar com a euforia de uma nova paixão em um mundo em que não é possível se entregar de corpo e alma sem desmaiar, sofrer, apagar? Charlie resolve que, para manter Francesca por perto, a solução é incentivar o seu irmão Cooper (Jake Lacy) a sair com ela. Assim ao menos, de forma altruísta, ele poderá estar em contato com ela nas reuniões familiares. Bizarro. Verossímil? Não. Engraçado? Nunca. Romântico? Preciso responder?

Nesse ínterim, Charlie conhece Bethany (Melissa Rauch, a ótima Bernadette de Big Bang Theory), que até combinaria mais com ele, já que ela parece também ter problemas psicológicos - aliás, que convenção é essa de que as mulheres em certas comédias românticas devem ser neuróticas? Mas, ao final, mesmo sendo um semi virgem de quase cinquenta anos (sua condição lhe impediu de namorar DESDE A ADOLESCÊNCIA), ele lutará pelo amor de Francesca que, mesmo sem ter sequer beijado o sujeito, estará falando ao final da obra em ter filhos com ele (sim, por que uma boa comédia romântica clichê não pode terminar sem o desejo de ter filhos, claro). Pra não dizer que a catástrofe é total, há uma personagem interessante na película, ainda que careça de algumas camadas a mais, que é a tia de Francesca, que tem um câncer terminal, mas vive com divertida vitalidade (papel de Jane Curtin), sendo uma das incentivadoras da sobrinha. No mais, foi uma hora e meia que, de quebra, ainda se arrasta. Não ri. Não me emocionei. Aliás, quase desmaiei de desgosto. Tal qual o protagonista, nos seus momentos de maior euforia.

Nota: 2,0


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Tesouros Cinéfilos - A Outra História Americana (American History X)

De: Tony Kaye. Com Edward Norton, Edward Furlong, Elliot Gould, Beverly D'Angelo e Stacy Keach. Drama, EUA, 1998, 118 minutos.

É muito provável que poucos filmes no mundo sejam tão devastadores quando este A Outra História Americana (American History X). Aliás, é uma obra lançada há 20 anos que se mantém incrivelmente atual, sendo, em muitos aspectos, visionária a respeito dessa onda neonazista e ultranacionalista que vivemos nos dias de hoje. Estamos em um mundo de ódio, de preconceito e de intolerância racial - e figuras como o Derek (Edward Norton) que vemos em cena, definitivamente "saíram do armário", legitimadas por políticos que flertam com o extremismo, como é o caso de Trump e Bolsonaro. Sob a desculpa da manutenção da família de bem, honesta, trabalhadora, temente a Deus, que faz o País crescer, uma enxurrada de violência para tudo aquilo que desvie do padrão esperado pela sociedade eugenista. Preto, pobre, gay, trans, imigrante, mulher... qualquer coisa que não seja o homem branco, hétero (ou ao menos que se esforça para ser) não merece consideração.

E nesse cenário, o filme do diretor Tony Kaye é uma porrada. Uma porrada de cima pra baixo, que nos faz ir as lágrimas o tempo todo por que, cara, é muito real. Dolorosamente real. Derek, a sua figura central, "aprendeu" a ser nazista nos almoços de domingo - ouvindo seu pai bombeiro sobre a "ameaça comunista" e a invasão da cultura negra, que tira espaço dos brancos (nas faculdades, no mercado de trabalho). Na vida adulta o sujeito se tornou um seguidor da cartilha do fuhrer: não por acaso, assassina covardemente dois assaltantes (negros, claro), que tentavam invadir a sua casa. O sadismo com ele executa os homens, com uma fúria que se sobressai em todos os seus brutais movimentos, contrastará com os seus movimentos mais econômicos e modos mais plácidos (e até amorosos) de quando ele sai da cadeia, agora um sujeito reformado e tentando se reintegrar a sociedade. Mas como ser um "ex-nazista", em um mundo em que este fato está marcado - literalmente inclusive (com tatuagens) -, na tua personalidade?


Quando sai da cadeia, Derek não quer saber de mais nada disso: aprendeu a lição. Aprendeu sobre o absurdo de uma "luta" que não tem nenhum sentido e em que todos perdem. Que resulta só em morte, em dor e em famílias devastadas. Só que o seu irmão mais novo (Edward Furlong) está seguindo os seus passos. Ou ao menos os passos de antes de ser preso. Está adorando a ideia de se sentir incluído em algo, mesmo que esse algo seja a convivência insuportável com nazistas babacas, reacionários branquelos. Aliás, ele está muito próximo de um dos líderes de uma gangue de opressores, de nome Cameron (Stacy Keach) e que já fez a lavagem cerebral no rapaz. E, para tentar evitar uma tragédia ainda maior, Derek lhe contará a sua história na cadeia - que será apresentada como um valioso flashback. Como são praticamente todos os flashbacks que vemos no filme: valiosos. E filmados em um melancólico preto e branco.

Mil novecentos e noventa e nove foi um ano meio esquisito no Oscar e pra mim é simplesmente inacreditável que esse filmaço tenha sido esnobado na premiação. Único indicado, Norton viu a estatueta parar, acredite, nas mãos de Roberto Benini por A Vida É Bela (1998). E a carga emocional de Derek, as nuances de seu comportamento, seus gestos e olhares - violentos e latentes quando um nazista consolidado, emocionalmente devastado (e até fragilizado) quando sai da prisão -, é fruto de um trabalho espetacular. Uma performance que te faz odiar ele com todas as forças quase o tempo todo. Mas que também te faz compreender as suas motivações (ou o despertar do ódio) e, mais tarde, seu arrependimento e a sua dor (ninguém nasce nazista, vale lembrar). E o contraste da interpretação nas cenas da briga no almoço (a melhor e mais triste parte do filme) e, quase no final, na sequência com o irmão, no banheiro, dão conta de sua comovente entrega a um personagem com muitas camadas.


No mais, roteiro, montagem, desenho de produção, fotografia... absolutamente tudo funciona no filme. Tudo. Todos os detalhes. Repare por exemplo como, para reforçar o patriotismo de Cameron, ele toma água em um copo que tem a estampa da bandeira dos Estados Unidos, em uma cena em que conversa com o protagonista. O mesmo valendo para a presença da religião, como um componente doutrinador (como na sequência do show de hard rock com letras que misturam orgulho hétero e branco com adoração ao Senhor). Lá pelas tantas Elliot Gould, que com o seu Murray traz uma boa dose de humanismo à trama (dá vontade de pular na tela e dar um abraço nele, naquela mesma sequência do almoço) fala para Doris (Beverly D'Angelo) que ela não "conhece o mundo que seus filhos vivem" por que, afinal, ela parece não conhecer mesmo. Só que todos aprenderão a lição da forma mais dolorosa possível. Uma lição que talvez chegue tarde para a humanidade. Que convive com crimes de ódio e a formação de grupos neonazistas que, agora, saem da internet. E tornam verdadeiro o horror visto em uma obra de ficção como essa. Tristes tempos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cinemúsica - A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate)

É simplesmente impossível pensar no filme A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate) sem associá-lo imediatamente a sua trilha sonora, que contava com canções da dupla Simon & Garfunkel. Da abertura, com o jovem universitário Benjamin Braddock (Dustin Hoffmann) retornando para a casa dos pais após formado e andando pela sala de embarque do aeroporto ao som dos acordes de The Sound Of Silence, até o terço final, que ganha ares de road movie quando o protagonista decide que precisa a todo o custo casar com Elaine Robinson (Katharine Ross), com a melodia febrilmente adocicada e melancólica de Scarborough Fair/Canticle teimando em aparecer, a obra é pura nostalgia sonora. Com, como não poderia deixar de ser, a música Mrs. Robinson aparecendo como peça central - uma vez que a iniciação sexual de Benjamin, se dá a partir de um turbulento relacionamento com uma mulher mais velha, casada e que, no filme, tem o dobro da idade do rapaz (papel de Anne Bancroft).

Bom, a trilha sonora do filme é muito boa, naturalmente. Surge para pontuar momento de delicadeza (e também de incerteza) na vida do protagonista que, de volta para a casa dos pais, não sabe muito bem o que fazer ou o que quer da vida. Sua existência se resume as horas em que fica na piscina e que, lá pelas tantas, passam a se alternar com os encontros fortuitos com a Mrs. Robinson de Bancroft. E, sobre estes encontros, a parte que mais gosto nessa película que, ainda hoje, é considerada um clássico, é justamente o terço inicial. Isto por que poucas o nervosismo e a inexperiência de um homem jovem diante da iminência de fazer sexo com uma mulher bem mais velha, foi tão bem retratado como no segundo filme do diretor Mike Nichols (Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?). Benjamin está SEMPRE suando, tenso, pouco relaxado. E, aparentemente virgem aos 21 anos, inventa uma série de desculpas para consumar o ato. Sim, trata-se de um caso de adultério, mas os motivos das "esquivas" do jovem não parecem estar ligado a isso.


Por que no mais, contando as outras partes do filme, é inacreditável como a obra envelheceu mal. Aliás, eu diria que, nos dias de hoje, o comportamento meio psicótico de Benjamin, um jovem mimadinho pelos pais que se descobre um tipo de hedonismo perdido em algum lugar de sua mente, seria praticamente inaceitável. Bom, como exemplo do que falo, basta lembrar da patética sequência final, em que o rapaz fica gritando para Elaine que nem um maluco, dentro da Igreja em que ela está na iminência de se casar. A própria urgência de consumar um casamento seria algo antiquado, conservador para os dias de hoje. Fora o fato de que Benjamin fica literalmente perseguindo Elaine na faculdade em que ela estuda, estando com ela em todos os ambientes, com todas as outras pessoas (colegas, amigas), insistindo para que ela case com ele. Quase sem lhe dar sossego. Em qualquer outra situação, provavelmente seria recomendada uma medida protetiva a jovem. Mas, no fim, eles ficam juntos. Coisa da época, claro.

Bom, evidentemente vocês se lembram que Elaine era filha da Mrs. Robinson. E esta parte também gera um componente de tensão que é ok para o filme - há uma ótima cena de discussão com o pai da moça, por exemplo. E é na primeira metade que está, por sinal, a sequência mais icônica da obra: aquela em que Benjamin aparece como uma figura "pequena", diante da curvatura da perna da mulher que lhe pretende seduzir. Ah, e como curiosidade Anne Bancroft tinha apenas seis anos a mais do que Hoffmann. Mas um trabalho elegante que somava boa maquiagem e utilização adequada de figurinos, transformou ele em um rapaz de 21 anos e ela numa mulher de 42. No fim das contas o que a crítica em geral considera, é que este é um filme de amadurecimento, sobre pessoas buscando ser felizes em um mundo cheio de inseguranças, de poucas perspectivas e de gritantes conflitos geracionais. O que talvez explique as atitudes extremas daqueles que assistimos.



Indicado a um punhado de Oscar na cerimônia de 1968, a produção viria a faturar a estatueta apenas na categoria Melhor Diretor - este fato pavimentaria a carreira de Nichols, que faleceu há exatos cinco anos, em novembro de 2014, e que nos entregou outras boas produções (como o recente Closer: Perto Demais). E vale lembrar que a película não foi indicada para Melhor Canção Original, por que Mrs. Robinson surge no filme ainda como uma versão inacabada, que mais tarde se tornaria single que bateria recordes (tudo isso depois de a obra ter sido lançado). No mais, ainda que a película apareça em todas as listas de melhores da história, a nostalgia fica mesmo por causa das músicas de Simon & Garfunkel, que funcionam para dar conta da confusão mental estabelecida na figura de Benjamin, suas inseguranças e incertezas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Lançamento de Videoclipe - Best Coast (For The First Time)

O Best Coast, uma das bandas mais legais do planeta, finalmente anunciou o lançamento de um novo trabalho! Após um hiato de cinco anos desde Califórnia Nights - que figurou na nossa lista de melhores discos internacionais de 2015 -, o álbum Always Tomorrow, deve ser disponibilizado já no primeiro semestre de 2020. E como forma de iniciar o processo de divulgação do registro, a dupla californiana Bethany Cosentino e Bobb Bruno disponibilizou nessa semana um videoclipe para a faixa For The First Time - o primeiro single. Na música, permanece o mesmo rock garageiro, divertido, power pop e litorâneo que sempre caracterizou a banda, que tem nos vocais adocicados de Cosentino um de seus pontos fortes. Com direção de Kevin Hayes, o vídeo mostra a dupla cantando numa casa vazia e passeando por outros lugares, como shoppings e festas caseiras. Para quem ainda não conhece, está aí uma bela porta de entrada! Vale clicar e conferir.


Cinema - A Tabacaria (Der Trafikant)

De Nicolaus Leytner. Com Simon Morzé, Bruno Ganz, Johannes Kirsch e Emma Drogunova. Drama, Áustria / Alemanha, 2018, 114 minutos.

A Tabacaria (Der Trafikant) é o tipo de filme que se destaca muito pela parte técnica. Digamos que é uma obra de narrativa simples, linear, mas tão bem elaborada, tão elegante, tão imponentemente artística, que talvez se torne algo maior do que provavelmente é. Ou talvez isso seja apenas este projeto de crítico de cinema dando mais uma de suas viajadas. O caso é que gostei demais da película do diretor Nicolaus Leytner pela beleza transbordante de suas imagens - capturadas quase como quadros -, pela fotografia que transforma o cinza esverdeado onipresente em um estado de melancolia permanente que parece querer sair da tela a qualquer momento. Pelo desenho de produção que captura em suas nuances, em seus detalhes, o totalitarismo que invade, o nazismo que esmaga (como comprovam as opressivas bandeiras com a suástica, que teimam em surgir aqui e ali). A Tabacaria é filme completo que mistura arte e seu poder transformador - com direito a bem apropriadas discussões filosóficas, políticas e existenciais, com trama engenhosa, humana.

Bom, acho que já deu pra perceber que eu gostei demais do filme e, enfim, gostei mesmo! A trama nos joga para as vésperas da ocupação nazista na Áustria, onde o jovem Franz (Simon Morzé) é enviado a Viena por sua progressista mãe, para trabalhar na tabacaria de um conhecido - ela imagina que lá ele poderá ter mais oportunidades, do que permanecendo no pequeno vilarejo em que moram. Apesar do começo meio difícil, não demorará para que o rapaz estabeleça uma relação de confiança com o seu novo patrão - um sujeito de nome Otto (Johannes Krisch), que perdeu a perna durante batalha na Primeira Guerra Mundial e que claramente é avesso às ideias pretendidas pelo führer. No local, ainda, Franz conhecerá o mais ilustre cliente de Otto: Sigmund Fredu (o talentosíssimo Bruno Ganz, em seu último papel). Em troca dos melhores charutos do local, Freud se tornará seu conselheiro para os temas da vida. Especialmente o amor.


A trama nada mais é do que a história de amadurecimento de um jovem em meio a um contexto duro, áspero. Franz aprenderá da maneira mais dolorida que amar não é nada fácil e que as coisas nem sempre saem como a gente desejaria. E de quebra ainda terá de conviver com o estabelecimento de um regime totalitário que desencadeará uma série de eventos que afetarão diretamente a sua vida. Nas cartas endereçadas a mãe - e carinhosamente respondidas -, a esperança por dias melhores, por um mundo melhor. Nos sonhos excêntricos, esquisitos, surrealistas, a presença da água, que metaforicamente invade, afunda, afoga os envolvidos. Talvez Franz pudesse ter algum tipo de problema psiquiátrico. Ou vai ver ele é apenas um jovem adolescente cheio de hormônios, que fica curioso pelas revistas adultas preservadas por Otto em uma gaveta específica - e que servirão de desculpa para uma futura prisão por subversão aos costumes das famílias de bem.

Diga-se de passagem as cenas na tabacaria são pura nostalgia, com charutos e cigarros se misturando a revistas e jornais da época, destinados as mais variadas preferências, sendo a interação com clientes e entre os protagonistas um dos tantos pontos fortes. Na ruptura entre o mundo de fantasia do menino que cresce - repare como ele dificilmente consegue concretizar o que imagina -, se insurgirá mais adiante um rapaz mais maduro, mais seguro, mais experiente, especialmente a partir dos avanços alcançados nas discussões com Freud, que se torna uma espécie de amigo íntimo de Franz. Ainda que opte por não investigar mais profundamente o que necessariamente significariam os sonhos do jovem, a trama se desenrola de forma econômica, apostando nos momentos de sutileza, como representação de como um contexto macro pode afetar um micro. Enfim, trata-se de uma obra de beleza estonteante, que merece ser conhecida.

Nota: 8,5

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Disco da Semana - Emicida (AmarElo)

Uma pesquisa rápida sobre a cor amarela no Google nos oferece vários significados: luz, calor, descontração, otimismo alegria, podendo simbolizar ainda o sol, o verão, a prosperidade e a felicidade. Analisando estes sentidos e tomando por base o "conceito" do mais recente trabalho do rapper Emicida, talvez não tenha sido por acaso que ele tenha sugerido, em sua conta no Twitter, que as pessoas ouvissem AmarElo, o seu mais recente registro, na parte da manhã. "É como um filme sonoro, é outra brisa louca", sentenciou. Trata-se de um disco cheio de vida, cheio de cor, que tem um otimismo comovente, mas sem ignorar os tempos sombrios que vivemos. É um álbum que vai do conforto matinal à frieza escura da noite, nos pegando pelo braço e nos afagando. É um disco que tem uma "positividade inconformada, uma rebeldia otimista", como resumiu brilhantemente outro rapper, o Rashid.

Acho que faz muito sentido que Emicida aposte numa abordagem diversificada, que mescla o colorido sinuoso das conquistas e da vida simples em comunidade - seus amores, gostos, histórias -, com um contraponto que persista em lembrar que estamos num País violento, que mata pessoas por ódio, por preconceito, por intolerância. Por cor de pele. E talvez não seja por acaso que o artista abra o seu trabalho com uma "música" que se chama Silêncio: um minuto para a pausa, para a reflexão, para a preparação. Um minuto de respeito, assim como ocorre nos jogos de futebol quando morre alguém importante, antes do espetáculo de fato começar. E quando o espetáculo começa, ele surge acenando para as mais variadas bandeiras, para os mais variados sons - da MPB, passando pelo samba até chegar ao hip hop. Com letras que podem versar sobre amizade (Quem Tem Um Amigo), o "desafio" de ser pai (Pequenas Alegrias da Vida Adulta), rotina dura do trabalhador (Ordem Natural das Coisas) ou o absurdo do racismo estrutural na sociedade (Ismália).



Em entrevista para o site Uol, o artista explicou que desejava fazer um disco que transcendesse a "política panfletária". e que pudesse ser direcionado para aquela pessoa para quem a perda do bilhete único é mais desesperadora do que uma canetada do presidente. "Eu queria fazer um disco para essa pessoa. Para ela abraçar aquelas palavras e se sentir abraçada por elas. Usar calma como uma estratégia para as pessoas fazerem essa reflexão, para a partir disso se levantar unido", resumiu, reforçando que é um álbum para devolver a calma para as pessoas. "Mas não a calma de uma forma apática e sim o extremo oposto", afirmou. E esse sentimento geral talvez possa ser melhor explicado pela lúdica introdução de Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, quando Emicida brinca com a sua filha sobre como a sociedade espera que seja o comportamento de um rapper: sem risadinha porque aqui é o rap, onde o povo é mau. MAU!, sentencia em meio a graciosas risadas de bebê.

Com participações especiais de artistas variados como Nave, Fabiana Cozz, Mc Tha, Zeca Pagodinho, Drik Barbosa, Larissa Luz, Fernando Montenegro, Ibeti e Pablo Vittar, entre outros, o registro é pura luminosidade, consciência e maturidade, tendo como um de seus pontos fortes as letras, as rimas, o flow - aliás, uma tradição na discografia do paulistano, desde as mixtapes de origem, como, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe... (2009). "Tenho sangrado demais / Tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri / Mas esse ano eu não morro", abre a faixa-título, que se apropria da canção do Belchior que, sempre atual, resume o espírito do álbum (e do nosso tempo), para lembrar mais adiante, na mesma música que "Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes / Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes / É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir". Acho que, no fim, era sobre isso que Emicida pretendia nos fazer pensar. Bravo!

Nota: 9,5





segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Cinema - A Odisseia dos Tontos (La Odisea de Los Giles)

De: Sebastian Borenzstein. Com Ricardo Darín, Luis Brandoni, Chino Darín e Verónica Llínás. Comédia dramática, Argentina / Espanha, 2019, 116 minutos.

A terrível crise institucional e econômica da Argentina no começo desse século é o pano de fundo para essa inacreditável história, desenvolvida com humor, ação e ternura em igual medida. O ano é 2001. O presidente Fernando De La Rua vê a competitividade do País diminuir no cenário internacional e o déficit fiscal aumentar cronicamente. Inflação galopante, taxa de desemprego em absurdos 25% da população ativa, queda no valor do salário mínimo, congelamento das contas bancárias... um cenário caótico que só se modificaria profundamente com a chegada ao poder do presidente peronista Nestor Kirchner, em 2003 que, com uma reestruturação profunda, recolocaria os hermanos nos eixos. Esse pequeno contexto é importante para uma melhor compreensão daquilo que assistimos em A Odisseia dos Tontos (La Odisea de Los Giles), novo filme do diretor Sebastian Borenzstein (do ótimo Um Conto Chinês) e que é baseado no livro La Noche da La Usina de Eduardo Sacheri.

Mas ainda que haja um pano de fundo "político", a obra não levanta uma bandeira para ficar esfregando-a na cara do espectador durante as duas horas de filme. Uma ou outra cena de protesto aqui, uma certa melancolia letárgica da classe média acolá, mas o que o filme pretende é divertir o público com uma história de "ladrão roubando ladrão" - e que nos faz torcer MUITO pelo improvável coletivo de protagonistas. A trama nos joga para a Argentina rural, numa província aparentemente distante de Buenos Aires, onde um certo Fermín Pelassi (Ricardo Darín, sempre ele) está disposto a juntar dinheiro para comprar uma propriedade abandonada, em que havia produção de grãos (antes da crise), para montar uma cooperativa. O plano se encaminha bem quando ele arranja uma série de distintos sócios - entre eles o anarquista Antônio (o sempre competente Luis Brandoni) - e junta grande parte do dinheiro necessário para o investimento.


O problema é quando ele coloca o dinheiro no banco um dia antes do confisco das contas bancárias. Resultado: os R$ 158 mil dólares depositados não podem ser mexidos até segunda ordem. E o pior, Fermín, Antônio e os demais descobrirão mais tarde, que o dinheiro foi destinado, antes do estouro da crise, para um rico empresário que, agora, está com ele. Todo o dinheiro físico. Nota sobre nota. Não apenas deles. Mas de muitos outros clientes do mesmo banco. É a partir daí que o grupo arma um excêntrico plano em que tentará reaver a grana que, afinal, era deles. Pessoas tentando roubar o que, no fim das contas, lhes pertence. E é nesse absurdo de assistir figuras absolutamente comuns tentando se organizar para um roubo hollywoodiano - uma espécie de 11 Homens e Um Segredo dos pampas (com direto a um curral com vacas no caminho) - que a película te ganha. Em meio a frustrações, anseios, sonhos e desejos por um futuro melhor, um crime está a caminho. Mas afinal de contas, quem é o verdadeiro criminoso? O verdadeiro vilão?

Como um filme que traça um painel histórico e político da Argentina recente, a obra - a enviada pelo País para a próxima edição do Oscar - não deixa de ser uma bela cutucada na política praticada por Maurício Macri (e que repete erros ocorridos naquele período). "Os filhos da puta não se sentem filhos da puta. Eles não acordam e pensam 'mas olha que filhos da puta que nós somos'. Isso é para tontos como nós", divaga Fermín a certa altura, como que resumindo o contexto em que pobres se ferram (e se tornam cada vez mais pobres) e ricos ficam cada vez mais ricos, praticando todo o tipo de engambelação. Não é por acaso que o nosso sentimento é de regozijo, enquanto assistimos aqueles homens brutos, trabalhadores, sem escolaridade, se organizando para "enfrentar" o sistema. Neles nos vemos espelhados, como vemos os assaltantes de La Casa de Papel, por exemplo. Se o sistema é bruto, a reação deve ser em igual medida. Aliás, vale para nós, brasileiros, que assistimos prostrados, catatônicos, os despautérios da família Bolsonaro.


Com um ótimo elenco, o filme trata com carinho seus personagens, apresentados com calma, de forma fluída, sendo impossível não se "apaixonar" pela devotada esposa de Fermín, Lídia (Verónica Llinás, que certamente seria nominada a um Oscar de Atriz Coadjuvente se este fosse um filme de Hollywood). Como curiosidade, o filme também tem a estreia de Chino Darín - o filho de Ricardo - que faz o filho dele. E não é por acaso que as interações mais comoventes entre eles, provoquem tantas lágrimas. Mas esse não é um filme triste. Na verdade é um filme divertido, alegre, otimista, com os tontos (ou os oprimidos) dando a volta por cima. Cheio de ótimas piadas e profundas divagações existencialistas sobre o absurdo na nossa "pequenez" nesse mundo (e a película já inicia com uma dessas, que te arrebata de saída). Com ótima trilha sonora - que vai de Danúbio Azul do Strauss a bandas de rock argentino dos anos 90 - o filme ainda tem ótimo desenho de produção e excelente construção de personagens, muitos deles com perfil político distinto, e características particulares, o que rende boas risadas.

Nota: 8,5

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Tesouros Cinéfilos - Little Monsters (Little Monsters)

De: Abe Forsythe. Com Lupyta Nyong'o, Alexander England, Josh Gad e Kat Stewart. Comédia / Terror, Austrália, 2019, 94 minutos.

Little Monsters (Little Monsters) é disparado o filme mais imprevisível do ano. Um verdadeiro caleidoscópio visual (e sonoro), que junta comédia, romance, terror, drama, ficção científica, ação e até musical em uma mesma película. E, acreditem: na maior parte do tempo funciona direitinho! Especialmente pelo fato de a obra do diretor Abe Forsythe não se levar a sério demais. Sim, há mensagens sobre amadurecimento - especialmente na jornada pessoal do personagem Dave (o divertido Alexander England) -, mas mais do que isso o objetivo geral é brincar com todos os estilos, tornando o nonsense o padrão. Afinal de contas, onde mais encontraríamos um filme em que um grupo de crianças do jardim de infância se vê as voltas com um nada convencional apocalipse zumbi? Tendo de lutar por sua vida ao lado da professora Caroline (Lupita Nyong'o) e do já citado Dave?

Bom, o filme começa como uma comédia sobre um casal que briga o tempo todo. Dave é um músico fracassado e desbocado que parece não saber muito o que quer da vida, enquanto a namorada parece decidida a ter filhos, casar e tudo o mais. Definitivamente separados após um episódio de "traição" - ou algo próximo disso -, Dave se vê obrigado a ir morar com a irmã Tess (Kat Stewart). Tess tem um filho pequeno que se afeiçoa ao abobalhado tio, que fala um amontoado de palavrões, joga games violentos com o guri e alinda o leva para a aula vestido de Darth Vader. Em um desses dias, na escola, Dave se apaixona pela ensolarada professora Caroline, a ponto de se oferecer como ajudante desta, em um dia em que uma professora substituta não poderá comparecer. Bom, ele não estava fazendo nada mesmo e resolve acompanhar a turminha a uma viagem em uma espécie de parque de diversões.


Por uma daquelas casualidades que só acontecem em filme, o tal parque fica ao lado de uma base militar - e será de lá que escapará uma horda de zumbis que amedrontará a todos que frequentam o local. Abrigados em uma das lojas, na companhia do irritante apresentador de programas infantis Teddy McGiggle (Josh Gad), o grupo precisará pensar em formas de escapar. Enquanto mantém as crianças entretidas, alimentadas e até medicadas. Um relato como esse que estou fazendo pode fazer transparecer uma certa solenidade naquilo que se assiste, mas não: o clima todo é de deboche, com direito a piadas engraçadíssimas (a do fantoche zumbificado, pra mim, é uma das melhores!), trilha sonora saborosa - a forma como Shake It Off da Taylor Swift surge na obra é daquelas de "valer o ingresso" -, e um tipo de gore ao mesmo tempo realista, mas nunca necessariamente aterrorizante.

É, afinal, o feel good movie dos zumbis - se é que isso é possível. O trocadilho do título (quem seriam os monstrinhos, afinal, as crianças barulhentas, ou os mortos-vivos abobalhados?) também serve para subverter a lógica dos acontecimentos. Sem se preocupar com grandes explicações, como a origem do apocalipse zumbi, ou o destino final de seus protagonistas, a obra também é hábil na aposta nos detalhes, especialmente no que diz respeito ao uso das cores, sendo elas mais fortes para ressaltar às personagens que estão "vivas", num contraponto ao coletivo disforme, esverdeadamente melancólico e cinzento que envolve os zumbis. Fácil de assistir, leve, escrachado, excêntrico, é uma das surpresas do ano, dando também conta do talento de Lupyta. A atriz normalmente aparece em papeis mais sérios e, aqui, pôde exercitar um outro tipo de interpretação, realizando-o de forma competente, segura e cômica. Vale conferir.