terça-feira, 12 de novembro de 2019

Novidades em DVD/Now - É Culpa da Alegria (Ode To Joy)

De Jason Winer. Com Morena Baccarin, Martin Freeman, Melissa Rauch e Jake Lacy. Comédia romântica, EUA, 2019, 97 minutos.

Existe uma premissa básica pra fazer com que uma comédia romântica funcione: a gente tem que torcer para que o casal central da trama fique junto. Temos de nos importar com eles. Desejar que eles superem todas as adversidades que lhes foram impostas para que, ao final, quando houver a derradeira cena do beijo que salva tudo, aquela sequência absurdamente clichê em que tudo se repara, em que a trilha sonora sobe e o travelling circular ocorre, seja, para nós espectadores, também um momento catártico. Que simbolize a esperança. O desejo por um futuro melhor. O sonho consolidado. Bom, eu estava querendo assistir algo leve e aluguei esse exemplar de como NÃO FAZER um filme desse gênero. Aliás, o que me surpreende é pensar que produtores de cinema pegaram o seu "suado" dinheiro para investir em uma obra que, além de não funcionar como romance, também não funciona como comédia, por que simplesmente a gente não dá risada. Em nenhum momento. NENHUM. E eu tô falando de um meio sorriso que seja. De canto de boca, vá lá.

Mas não, É Culpa da Alegria (Ode To Joy) também não tem graça. Aliás, as tentativas de fazer comédia são bizarras, machistas, antiquadas. Por exemplo, em uma das primeiras sequências, vemos a personagem vivida por Morena Baccarin (de nome Francesca) entrar em uma biblioteca com o namorado para discutirem a relação. Ao descobrir o motivo da ida a um ambiente silencioso para uma DR - a jovem seria muito histérica -, ela sobe na mesa para gritar com tudo e todos. Bom, se não bastasse o absurdo da sequência em si - que se fosse algo propositalmente nonsense, poderia servir ao humor -, ela ainda piora quando Charlie (Martin Freeman) se apresenta a ela com uma epifania sobre o futuro do relacionamento daquele casal. E, como cereja do bolo, o morto não é "nem embalsamado" e a fila já anda: Charlie, incentivado por seus colegas de trabalho, convida Francesca para sair. Sim, o casal central da película será o Martin Freeman e a Morena Baccarin - por que é bem normal a mulher bonita, inteligente e interessante desejar o cara esquisito. Nos filmes é.


Na trama, Charlie sofre de cataplexia, um sintoma de narcolepsia que causa paralisação súbita quando ele experiencia fortes emoções - mais especificamente a felicidade. Assim, ele desenvolve algumas técnicas para não desmaiar todas as vezes que vive ou simplesmente presencia um evento feliz - e a forma que a narrativa busca nos apresentar essa condição também é péssima, ostensiva, nada sutil. Basta Charlie sair para a rua, que ele inevitavelmente se deparará com cenas afáveis - como a de uma grávida que deixa as compras cair e é auxiliada por um idoso. Só que como lidar com a euforia de uma nova paixão em um mundo em que não é possível se entregar de corpo e alma sem desmaiar, sofrer, apagar? Charlie resolve que, para manter Francesca por perto, a solução é incentivar o seu irmão Cooper (Jake Lacy) a sair com ela. Assim ao menos, de forma altruísta, ele poderá estar em contato com ela nas reuniões familiares. Bizarro. Verossímil? Não. Engraçado? Nunca. Romântico? Preciso responder?

Nesse ínterim, Charlie conhece Bethany (Melissa Rauch, a ótima Bernadette de Big Bang Theory), que até combinaria mais com ele, já que ela parece também ter problemas psicológicos - aliás, que convenção é essa de que as mulheres em certas comédias românticas devem ser neuróticas? Mas, ao final, mesmo sendo um semi virgem de quase cinquenta anos (sua condição lhe impediu de namorar DESDE A ADOLESCÊNCIA), ele lutará pelo amor de Francesca que, mesmo sem ter sequer beijado o sujeito, estará falando ao final da obra em ter filhos com ele (sim, por que uma boa comédia romântica clichê não pode terminar sem o desejo de ter filhos, claro). Pra não dizer que a catástrofe é total, há uma personagem interessante na película, ainda que careça de algumas camadas a mais, que é a tia de Francesca, que tem um câncer terminal, mas vive com divertida vitalidade (papel de Jane Curtin), sendo uma das incentivadoras da sobrinha. No mais, foi uma hora e meia que, de quebra, ainda se arrasta. Não ri. Não me emocionei. Aliás, quase desmaiei de desgosto. Tal qual o protagonista, nos seus momentos de maior euforia.

Nota: 2,0


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Tesouros Cinéfilos - A Outra História Americana (American History X)

De: Tony Kaye. Com Edward Norton, Edward Furlong, Elliot Gould, Beverly D'Angelo e Stacy Keach. Drama, EUA, 1998, 118 minutos.

É muito provável que poucos filmes no mundo sejam tão devastadores quando este A Outra História Americana (American History X). Aliás, é uma obra lançada há 20 anos que se mantém incrivelmente atual, sendo, em muitos aspectos, visionária a respeito dessa onda neonazista e ultranacionalista que vivemos nos dias de hoje. Estamos em um mundo de ódio, de preconceito e de intolerância racial - e figuras como o Derek (Edward Norton) que vemos em cena, definitivamente "saíram do armário", legitimadas por políticos que flertam com o extremismo, como é o caso de Trump e Bolsonaro. Sob a desculpa da manutenção da família de bem, honesta, trabalhadora, temente a Deus, que faz o País crescer, uma enxurrada de violência para tudo aquilo que desvie do padrão esperado pela sociedade eugenista. Preto, pobre, gay, trans, imigrante, mulher... qualquer coisa que não seja o homem branco, hétero (ou ao menos que se esforça para ser) não merece consideração.

E nesse cenário, o filme do diretor Tony Kaye é uma porrada. Uma porrada de cima pra baixo, que nos faz ir as lágrimas o tempo todo por que, cara, é muito real. Dolorosamente real. Derek, a sua figura central, "aprendeu" a ser nazista nos almoços de domingo - ouvindo seu pai bombeiro sobre a "ameaça comunista" e a invasão da cultura negra, que tira espaço dos brancos (nas faculdades, no mercado de trabalho). Na vida adulta o sujeito se tornou um seguidor da cartilha do fuhrer: não por acaso, assassina covardemente dois assaltantes (negros, claro), que tentavam invadir a sua casa. O sadismo com ele executa os homens, com uma fúria que se sobressai em todos os seus brutais movimentos, contrastará com os seus movimentos mais econômicos e modos mais plácidos (e até amorosos) de quando ele sai da cadeia, agora um sujeito reformado e tentando se reintegrar a sociedade. Mas como ser um "ex-nazista", em um mundo em que este fato está marcado - literalmente inclusive (com tatuagens) -, na tua personalidade?


Quando sai da cadeia, Derek não quer saber de mais nada disso: aprendeu a lição. Aprendeu sobre o absurdo de uma "luta" que não tem nenhum sentido e em que todos perdem. Que resulta só em morte, em dor e em famílias devastadas. Só que o seu irmão mais novo (Edward Furlong) está seguindo os seus passos. Ou ao menos os passos de antes de ser preso. Está adorando a ideia de se sentir incluído em algo, mesmo que esse algo seja a convivência insuportável com nazistas babacas, reacionários branquelos. Aliás, ele está muito próximo de um dos líderes de uma gangue de opressores, de nome Cameron (Stacy Keach) e que já fez a lavagem cerebral no rapaz. E, para tentar evitar uma tragédia ainda maior, Derek lhe contará a sua história na cadeia - que será apresentada como um valioso flashback. Como são praticamente todos os flashbacks que vemos no filme: valiosos. E filmados em um melancólico preto e branco.

Mil novecentos e noventa e nove foi um ano meio esquisito no Oscar e pra mim é simplesmente inacreditável que esse filmaço tenha sido esnobado na premiação. Único indicado, Norton viu a estatueta parar, acredite, nas mãos de Roberto Benini por A Vida É Bela (1998). E a carga emocional de Derek, as nuances de seu comportamento, seus gestos e olhares - violentos e latentes quando um nazista consolidado, emocionalmente devastado (e até fragilizado) quando sai da prisão -, é fruto de um trabalho espetacular. Uma performance que te faz odiar ele com todas as forças quase o tempo todo. Mas que também te faz compreender as suas motivações (ou o despertar do ódio) e, mais tarde, seu arrependimento e a sua dor (ninguém nasce nazista, vale lembrar). E o contraste da interpretação nas cenas da briga no almoço (a melhor e mais triste parte do filme) e, quase no final, na sequência com o irmão, no banheiro, dão conta de sua comovente entrega a um personagem com muitas camadas.


No mais, roteiro, montagem, desenho de produção, fotografia... absolutamente tudo funciona no filme. Tudo. Todos os detalhes. Repare por exemplo como, para reforçar o patriotismo de Cameron, ele toma água em um copo que tem a estampa da bandeira dos Estados Unidos, em uma cena em que conversa com o protagonista. O mesmo valendo para a presença da religião, como um componente doutrinador (como na sequência do show de hard rock com letras que misturam orgulho hétero e branco com adoração ao Senhor). Lá pelas tantas Elliot Gould, que com o seu Murray traz uma boa dose de humanismo à trama (dá vontade de pular na tela e dar um abraço nele, naquela mesma sequência do almoço) fala para Doris (Beverly D'Angelo) que ela não "conhece o mundo que seus filhos vivem" por que, afinal, ela parece não conhecer mesmo. Só que todos aprenderão a lição da forma mais dolorosa possível. Uma lição que talvez chegue tarde para a humanidade. Que convive com crimes de ódio e a formação de grupos neonazistas que, agora, saem da internet. E tornam verdadeiro o horror visto em uma obra de ficção como essa. Tristes tempos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cinemúsica - A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate)

É simplesmente impossível pensar no filme A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate) sem associá-lo imediatamente a sua trilha sonora, que contava com canções da dupla Simon & Garfunkel. Da abertura, com o jovem universitário Benjamin Braddock (Dustin Hoffmann) retornando para a casa dos pais após formado e andando pela sala de embarque do aeroporto ao som dos acordes de The Sound Of Silence, até o terço final, que ganha ares de road movie quando o protagonista decide que precisa a todo o custo casar com Elaine Robinson (Katharine Ross), com a melodia febrilmente adocicada e melancólica de Scarborough Fair/Canticle teimando em aparecer, a obra é pura nostalgia sonora. Com, como não poderia deixar de ser, a música Mrs. Robinson aparecendo como peça central - uma vez que a iniciação sexual de Benjamin, se dá a partir de um turbulento relacionamento com uma mulher mais velha, casada e que, no filme, tem o dobro da idade do rapaz (papel de Anne Bancroft).

Bom, a trilha sonora do filme é muito boa, naturalmente. Surge para pontuar momento de delicadeza (e também de incerteza) na vida do protagonista que, de volta para a casa dos pais, não sabe muito bem o que fazer ou o que quer da vida. Sua existência se resume as horas em que fica na piscina e que, lá pelas tantas, passam a se alternar com os encontros fortuitos com a Mrs. Robinson de Bancroft. E, sobre estes encontros, a parte que mais gosto nessa película que, ainda hoje, é considerada um clássico, é justamente o terço inicial. Isto por que poucas o nervosismo e a inexperiência de um homem jovem diante da iminência de fazer sexo com uma mulher bem mais velha, foi tão bem retratado como no segundo filme do diretor Mike Nichols (Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?). Benjamin está SEMPRE suando, tenso, pouco relaxado. E, aparentemente virgem aos 21 anos, inventa uma série de desculpas para consumar o ato. Sim, trata-se de um caso de adultério, mas os motivos das "esquivas" do jovem não parecem estar ligado a isso.


Por que no mais, contando as outras partes do filme, é inacreditável como a obra envelheceu mal. Aliás, eu diria que, nos dias de hoje, o comportamento meio psicótico de Benjamin, um jovem mimadinho pelos pais que se descobre um tipo de hedonismo perdido em algum lugar de sua mente, seria praticamente inaceitável. Bom, como exemplo do que falo, basta lembrar da patética sequência final, em que o rapaz fica gritando para Elaine que nem um maluco, dentro da Igreja em que ela está na iminência de se casar. A própria urgência de consumar um casamento seria algo antiquado, conservador para os dias de hoje. Fora o fato de que Benjamin fica literalmente perseguindo Elaine na faculdade em que ela estuda, estando com ela em todos os ambientes, com todas as outras pessoas (colegas, amigas), insistindo para que ela case com ele. Quase sem lhe dar sossego. Em qualquer outra situação, provavelmente seria recomendada uma medida protetiva a jovem. Mas, no fim, eles ficam juntos. Coisa da época, claro.

Bom, evidentemente vocês se lembram que Elaine era filha da Mrs. Robinson. E esta parte também gera um componente de tensão que é ok para o filme - há uma ótima cena de discussão com o pai da moça, por exemplo. E é na primeira metade que está, por sinal, a sequência mais icônica da obra: aquela em que Benjamin aparece como uma figura "pequena", diante da curvatura da perna da mulher que lhe pretende seduzir. Ah, e como curiosidade Anne Bancroft tinha apenas seis anos a mais do que Hoffmann. Mas um trabalho elegante que somava boa maquiagem e utilização adequada de figurinos, transformou ele em um rapaz de 21 anos e ela numa mulher de 42. No fim das contas o que a crítica em geral considera, é que este é um filme de amadurecimento, sobre pessoas buscando ser felizes em um mundo cheio de inseguranças, de poucas perspectivas e de gritantes conflitos geracionais. O que talvez explique as atitudes extremas daqueles que assistimos.



Indicado a um punhado de Oscar na cerimônia de 1968, a produção viria a faturar a estatueta apenas na categoria Melhor Diretor - este fato pavimentaria a carreira de Nichols, que faleceu há exatos cinco anos, em novembro de 2014, e que nos entregou outras boas produções (como o recente Closer: Perto Demais). E vale lembrar que a película não foi indicada para Melhor Canção Original, por que Mrs. Robinson surge no filme ainda como uma versão inacabada, que mais tarde se tornaria single que bateria recordes (tudo isso depois de a obra ter sido lançado). No mais, ainda que a película apareça em todas as listas de melhores da história, a nostalgia fica mesmo por causa das músicas de Simon & Garfunkel, que funcionam para dar conta da confusão mental estabelecida na figura de Benjamin, suas inseguranças e incertezas.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Lançamento de Videoclipe - Best Coast (For The First Time)

O Best Coast, uma das bandas mais legais do planeta, finalmente anunciou o lançamento de um novo trabalho! Após um hiato de cinco anos desde Califórnia Nights - que figurou na nossa lista de melhores discos internacionais de 2015 -, o álbum Always Tomorrow, deve ser disponibilizado já no primeiro semestre de 2020. E como forma de iniciar o processo de divulgação do registro, a dupla californiana Bethany Cosentino e Bobb Bruno disponibilizou nessa semana um videoclipe para a faixa For The First Time - o primeiro single. Na música, permanece o mesmo rock garageiro, divertido, power pop e litorâneo que sempre caracterizou a banda, que tem nos vocais adocicados de Cosentino um de seus pontos fortes. Com direção de Kevin Hayes, o vídeo mostra a dupla cantando numa casa vazia e passeando por outros lugares, como shoppings e festas caseiras. Para quem ainda não conhece, está aí uma bela porta de entrada! Vale clicar e conferir.


Cinema - A Tabacaria (Der Trafikant)

De Nicolaus Leytner. Com Simon Morzé, Bruno Ganz, Johannes Kirsch e Emma Drogunova. Drama, Áustria / Alemanha, 2018, 114 minutos.

A Tabacaria (Der Trafikant) é o tipo de filme que se destaca muito pela parte técnica. Digamos que é uma obra de narrativa simples, linear, mas tão bem elaborada, tão elegante, tão imponentemente artística, que talvez se torne algo maior do que provavelmente é. Ou talvez isso seja apenas este projeto de crítico de cinema dando mais uma de suas viajadas. O caso é que gostei demais da película do diretor Nicolaus Leytner pela beleza transbordante de suas imagens - capturadas quase como quadros -, pela fotografia que transforma o cinza esverdeado onipresente em um estado de melancolia permanente que parece querer sair da tela a qualquer momento. Pelo desenho de produção que captura em suas nuances, em seus detalhes, o totalitarismo que invade, o nazismo que esmaga (como comprovam as opressivas bandeiras com a suástica, que teimam em surgir aqui e ali). A Tabacaria é filme completo que mistura arte e seu poder transformador - com direito a bem apropriadas discussões filosóficas, políticas e existenciais, com trama engenhosa, humana.

Bom, acho que já deu pra perceber que eu gostei demais do filme e, enfim, gostei mesmo! A trama nos joga para as vésperas da ocupação nazista na Áustria, onde o jovem Franz (Simon Morzé) é enviado a Viena por sua progressista mãe, para trabalhar na tabacaria de um conhecido - ela imagina que lá ele poderá ter mais oportunidades, do que permanecendo no pequeno vilarejo em que moram. Apesar do começo meio difícil, não demorará para que o rapaz estabeleça uma relação de confiança com o seu novo patrão - um sujeito de nome Otto (Johannes Krisch), que perdeu a perna durante batalha na Primeira Guerra Mundial e que claramente é avesso às ideias pretendidas pelo führer. No local, ainda, Franz conhecerá o mais ilustre cliente de Otto: Sigmund Fredu (o talentosíssimo Bruno Ganz, em seu último papel). Em troca dos melhores charutos do local, Freud se tornará seu conselheiro para os temas da vida. Especialmente o amor.


A trama nada mais é do que a história de amadurecimento de um jovem em meio a um contexto duro, áspero. Franz aprenderá da maneira mais dolorida que amar não é nada fácil e que as coisas nem sempre saem como a gente desejaria. E de quebra ainda terá de conviver com o estabelecimento de um regime totalitário que desencadeará uma série de eventos que afetarão diretamente a sua vida. Nas cartas endereçadas a mãe - e carinhosamente respondidas -, a esperança por dias melhores, por um mundo melhor. Nos sonhos excêntricos, esquisitos, surrealistas, a presença da água, que metaforicamente invade, afunda, afoga os envolvidos. Talvez Franz pudesse ter algum tipo de problema psiquiátrico. Ou vai ver ele é apenas um jovem adolescente cheio de hormônios, que fica curioso pelas revistas adultas preservadas por Otto em uma gaveta específica - e que servirão de desculpa para uma futura prisão por subversão aos costumes das famílias de bem.

Diga-se de passagem as cenas na tabacaria são pura nostalgia, com charutos e cigarros se misturando a revistas e jornais da época, destinados as mais variadas preferências, sendo a interação com clientes e entre os protagonistas um dos tantos pontos fortes. Na ruptura entre o mundo de fantasia do menino que cresce - repare como ele dificilmente consegue concretizar o que imagina -, se insurgirá mais adiante um rapaz mais maduro, mais seguro, mais experiente, especialmente a partir dos avanços alcançados nas discussões com Freud, que se torna uma espécie de amigo íntimo de Franz. Ainda que opte por não investigar mais profundamente o que necessariamente significariam os sonhos do jovem, a trama se desenrola de forma econômica, apostando nos momentos de sutileza, como representação de como um contexto macro pode afetar um micro. Enfim, trata-se de uma obra de beleza estonteante, que merece ser conhecida.

Nota: 8,5

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Disco da Semana - Emicida (AmarElo)

Uma pesquisa rápida sobre a cor amarela no Google nos oferece vários significados: luz, calor, descontração, otimismo alegria, podendo simbolizar ainda o sol, o verão, a prosperidade e a felicidade. Analisando estes sentidos e tomando por base o "conceito" do mais recente trabalho do rapper Emicida, talvez não tenha sido por acaso que ele tenha sugerido, em sua conta no Twitter, que as pessoas ouvissem AmarElo, o seu mais recente registro, na parte da manhã. "É como um filme sonoro, é outra brisa louca", sentenciou. Trata-se de um disco cheio de vida, cheio de cor, que tem um otimismo comovente, mas sem ignorar os tempos sombrios que vivemos. É um álbum que vai do conforto matinal à frieza escura da noite, nos pegando pelo braço e nos afagando. É um disco que tem uma "positividade inconformada, uma rebeldia otimista", como resumiu brilhantemente outro rapper, o Rashid.

Acho que faz muito sentido que Emicida aposte numa abordagem diversificada, que mescla o colorido sinuoso das conquistas e da vida simples em comunidade - seus amores, gostos, histórias -, com um contraponto que persista em lembrar que estamos num País violento, que mata pessoas por ódio, por preconceito, por intolerância. Por cor de pele. E talvez não seja por acaso que o artista abra o seu trabalho com uma "música" que se chama Silêncio: um minuto para a pausa, para a reflexão, para a preparação. Um minuto de respeito, assim como ocorre nos jogos de futebol quando morre alguém importante, antes do espetáculo de fato começar. E quando o espetáculo começa, ele surge acenando para as mais variadas bandeiras, para os mais variados sons - da MPB, passando pelo samba até chegar ao hip hop. Com letras que podem versar sobre amizade (Quem Tem Um Amigo), o "desafio" de ser pai (Pequenas Alegrias da Vida Adulta), rotina dura do trabalhador (Ordem Natural das Coisas) ou o absurdo do racismo estrutural na sociedade (Ismália).



Em entrevista para o site Uol, o artista explicou que desejava fazer um disco que transcendesse a "política panfletária". e que pudesse ser direcionado para aquela pessoa para quem a perda do bilhete único é mais desesperadora do que uma canetada do presidente. "Eu queria fazer um disco para essa pessoa. Para ela abraçar aquelas palavras e se sentir abraçada por elas. Usar calma como uma estratégia para as pessoas fazerem essa reflexão, para a partir disso se levantar unido", resumiu, reforçando que é um álbum para devolver a calma para as pessoas. "Mas não a calma de uma forma apática e sim o extremo oposto", afirmou. E esse sentimento geral talvez possa ser melhor explicado pela lúdica introdução de Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, quando Emicida brinca com a sua filha sobre como a sociedade espera que seja o comportamento de um rapper: sem risadinha porque aqui é o rap, onde o povo é mau. MAU!, sentencia em meio a graciosas risadas de bebê.

Com participações especiais de artistas variados como Nave, Fabiana Cozz, Mc Tha, Zeca Pagodinho, Drik Barbosa, Larissa Luz, Fernando Montenegro, Ibeti e Pablo Vittar, entre outros, o registro é pura luminosidade, consciência e maturidade, tendo como um de seus pontos fortes as letras, as rimas, o flow - aliás, uma tradição na discografia do paulistano, desde as mixtapes de origem, como, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe... (2009). "Tenho sangrado demais / Tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri / Mas esse ano eu não morro", abre a faixa-título, que se apropria da canção do Belchior que, sempre atual, resume o espírito do álbum (e do nosso tempo), para lembrar mais adiante, na mesma música que "Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes / Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes / É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir". Acho que, no fim, era sobre isso que Emicida pretendia nos fazer pensar. Bravo!

Nota: 9,5





segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Cinema - A Odisseia dos Tontos (La Odisea de Los Giles)

De: Sebastian Borenzstein. Com Ricardo Darín, Luis Brandoni, Chino Darín e Verónica Llínás. Comédia dramática, Argentina / Espanha, 2019, 116 minutos.

A terrível crise institucional e econômica da Argentina no começo desse século é o pano de fundo para essa inacreditável história, desenvolvida com humor, ação e ternura em igual medida. O ano é 2001. O presidente Fernando De La Rua vê a competitividade do País diminuir no cenário internacional e o déficit fiscal aumentar cronicamente. Inflação galopante, taxa de desemprego em absurdos 25% da população ativa, queda no valor do salário mínimo, congelamento das contas bancárias... um cenário caótico que só se modificaria profundamente com a chegada ao poder do presidente peronista Nestor Kirchner, em 2003 que, com uma reestruturação profunda, recolocaria os hermanos nos eixos. Esse pequeno contexto é importante para uma melhor compreensão daquilo que assistimos em A Odisseia dos Tontos (La Odisea de Los Giles), novo filme do diretor Sebastian Borenzstein (do ótimo Um Conto Chinês) e que é baseado no livro La Noche da La Usina de Eduardo Sacheri.

Mas ainda que haja um pano de fundo "político", a obra não levanta uma bandeira para ficar esfregando-a na cara do espectador durante as duas horas de filme. Uma ou outra cena de protesto aqui, uma certa melancolia letárgica da classe média acolá, mas o que o filme pretende é divertir o público com uma história de "ladrão roubando ladrão" - e que nos faz torcer MUITO pelo improvável coletivo de protagonistas. A trama nos joga para a Argentina rural, numa província aparentemente distante de Buenos Aires, onde um certo Fermín Pelassi (Ricardo Darín, sempre ele) está disposto a juntar dinheiro para comprar uma propriedade abandonada, em que havia produção de grãos (antes da crise), para montar uma cooperativa. O plano se encaminha bem quando ele arranja uma série de distintos sócios - entre eles o anarquista Antônio (o sempre competente Luis Brandoni) - e junta grande parte do dinheiro necessário para o investimento.


O problema é quando ele coloca o dinheiro no banco um dia antes do confisco das contas bancárias. Resultado: os R$ 158 mil dólares depositados não podem ser mexidos até segunda ordem. E o pior, Fermín, Antônio e os demais descobrirão mais tarde, que o dinheiro foi destinado, antes do estouro da crise, para um rico empresário que, agora, está com ele. Todo o dinheiro físico. Nota sobre nota. Não apenas deles. Mas de muitos outros clientes do mesmo banco. É a partir daí que o grupo arma um excêntrico plano em que tentará reaver a grana que, afinal, era deles. Pessoas tentando roubar o que, no fim das contas, lhes pertence. E é nesse absurdo de assistir figuras absolutamente comuns tentando se organizar para um roubo hollywoodiano - uma espécie de 11 Homens e Um Segredo dos pampas (com direto a um curral com vacas no caminho) - que a película te ganha. Em meio a frustrações, anseios, sonhos e desejos por um futuro melhor, um crime está a caminho. Mas afinal de contas, quem é o verdadeiro criminoso? O verdadeiro vilão?

Como um filme que traça um painel histórico e político da Argentina recente, a obra - a enviada pelo País para a próxima edição do Oscar - não deixa de ser uma bela cutucada na política praticada por Maurício Macri (e que repete erros ocorridos naquele período). "Os filhos da puta não se sentem filhos da puta. Eles não acordam e pensam 'mas olha que filhos da puta que nós somos'. Isso é para tontos como nós", divaga Fermín a certa altura, como que resumindo o contexto em que pobres se ferram (e se tornam cada vez mais pobres) e ricos ficam cada vez mais ricos, praticando todo o tipo de engambelação. Não é por acaso que o nosso sentimento é de regozijo, enquanto assistimos aqueles homens brutos, trabalhadores, sem escolaridade, se organizando para "enfrentar" o sistema. Neles nos vemos espelhados, como vemos os assaltantes de La Casa de Papel, por exemplo. Se o sistema é bruto, a reação deve ser em igual medida. Aliás, vale para nós, brasileiros, que assistimos prostrados, catatônicos, os despautérios da família Bolsonaro.


Com um ótimo elenco, o filme trata com carinho seus personagens, apresentados com calma, de forma fluída, sendo impossível não se "apaixonar" pela devotada esposa de Fermín, Lídia (Verónica Llinás, que certamente seria nominada a um Oscar de Atriz Coadjuvente se este fosse um filme de Hollywood). Como curiosidade, o filme também tem a estreia de Chino Darín - o filho de Ricardo - que faz o filho dele. E não é por acaso que as interações mais comoventes entre eles, provoquem tantas lágrimas. Mas esse não é um filme triste. Na verdade é um filme divertido, alegre, otimista, com os tontos (ou os oprimidos) dando a volta por cima. Cheio de ótimas piadas e profundas divagações existencialistas sobre o absurdo na nossa "pequenez" nesse mundo (e a película já inicia com uma dessas, que te arrebata de saída). Com ótima trilha sonora - que vai de Danúbio Azul do Strauss a bandas de rock argentino dos anos 90 - o filme ainda tem ótimo desenho de produção e excelente construção de personagens, muitos deles com perfil político distinto, e características particulares, o que rende boas risadas.

Nota: 8,5

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Tesouros Cinéfilos - Little Monsters (Little Monsters)

De: Abe Forsythe. Com Lupyta Nyong'o, Alexander England, Josh Gad e Kat Stewart. Comédia / Terror, Austrália, 2019, 94 minutos.

Little Monsters (Little Monsters) é disparado o filme mais imprevisível do ano. Um verdadeiro caleidoscópio visual (e sonoro), que junta comédia, romance, terror, drama, ficção científica, ação e até musical em uma mesma película. E, acreditem: na maior parte do tempo funciona direitinho! Especialmente pelo fato de a obra do diretor Abe Forsythe não se levar a sério demais. Sim, há mensagens sobre amadurecimento - especialmente na jornada pessoal do personagem Dave (o divertido Alexander England) -, mas mais do que isso o objetivo geral é brincar com todos os estilos, tornando o nonsense o padrão. Afinal de contas, onde mais encontraríamos um filme em que um grupo de crianças do jardim de infância se vê as voltas com um nada convencional apocalipse zumbi? Tendo de lutar por sua vida ao lado da professora Caroline (Lupita Nyong'o) e do já citado Dave?

Bom, o filme começa como uma comédia sobre um casal que briga o tempo todo. Dave é um músico fracassado e desbocado que parece não saber muito o que quer da vida, enquanto a namorada parece decidida a ter filhos, casar e tudo o mais. Definitivamente separados após um episódio de "traição" - ou algo próximo disso -, Dave se vê obrigado a ir morar com a irmã Tess (Kat Stewart). Tess tem um filho pequeno que se afeiçoa ao abobalhado tio, que fala um amontoado de palavrões, joga games violentos com o guri e alinda o leva para a aula vestido de Darth Vader. Em um desses dias, na escola, Dave se apaixona pela ensolarada professora Caroline, a ponto de se oferecer como ajudante desta, em um dia em que uma professora substituta não poderá comparecer. Bom, ele não estava fazendo nada mesmo e resolve acompanhar a turminha a uma viagem em uma espécie de parque de diversões.


Por uma daquelas casualidades que só acontecem em filme, o tal parque fica ao lado de uma base militar - e será de lá que escapará uma horda de zumbis que amedrontará a todos que frequentam o local. Abrigados em uma das lojas, na companhia do irritante apresentador de programas infantis Teddy McGiggle (Josh Gad), o grupo precisará pensar em formas de escapar. Enquanto mantém as crianças entretidas, alimentadas e até medicadas. Um relato como esse que estou fazendo pode fazer transparecer uma certa solenidade naquilo que se assiste, mas não: o clima todo é de deboche, com direito a piadas engraçadíssimas (a do fantoche zumbificado, pra mim, é uma das melhores!), trilha sonora saborosa - a forma como Shake It Off da Taylor Swift surge na obra é daquelas de "valer o ingresso" -, e um tipo de gore ao mesmo tempo realista, mas nunca necessariamente aterrorizante.

É, afinal, o feel good movie dos zumbis - se é que isso é possível. O trocadilho do título (quem seriam os monstrinhos, afinal, as crianças barulhentas, ou os mortos-vivos abobalhados?) também serve para subverter a lógica dos acontecimentos. Sem se preocupar com grandes explicações, como a origem do apocalipse zumbi, ou o destino final de seus protagonistas, a obra também é hábil na aposta nos detalhes, especialmente no que diz respeito ao uso das cores, sendo elas mais fortes para ressaltar às personagens que estão "vivas", num contraponto ao coletivo disforme, esverdeadamente melancólico e cinzento que envolve os zumbis. Fácil de assistir, leve, escrachado, excêntrico, é uma das surpresas do ano, dando também conta do talento de Lupyta. A atriz normalmente aparece em papeis mais sérios e, aqui, pôde exercitar um outro tipo de interpretação, realizando-o de forma competente, segura e cômica. Vale conferir.