quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Operário (The Machinist)

De Brad Anderson. Com Christian Bale, Jennifer Jason Leigh, John Sharian e Aitana Sanchez-Gijón. Suspense, Espanha, 2004, 101 minutos.

Quem gosta de obras com "moral da história" não pode deixar de assistir a O Operário (The Machinist) - o famoso filme em que Christian Bale emagreceu trinta quilos para interpretar o papel principal. Na trama ele é o empregado de uma indústria metalúrgica que está, misteriosamente, há um ano sem conseguir dormir. O tempo em que não está trabalhando, ele ocupa com encontros ocasionais com a prostituta Stevie (Jennifer Jason Leigh) e com idas a uma cafeteria de um aeroporto, que fica aberta de madrugada. Mas o caso é que o cansaço está destruindo progressivamente a sua saúde física e mental, o que faz com que ele se isole cada vez mais. A situação piora quando ocorre um acidente na fábrica, que faz com que um de seus colegas perca um braço. É aí que a paranoia aumenta, com o sujeito achando que os colegas estão conspirando para fazer com que ele perca o emprego.

Já não bastasse todo esse contexto, o homem, de nome Trevor, ainda passa a ter estranhas alucinações. Em seu apartamento, começam a surgir curiosos bilhetes, com desenhos de forcas e de frases provocativas. No dia a dia, um novo colega de trabalho (John Sharian) parece guardar algum segredo, com tudo se tornando mais esquisito quando ele se dá conta que o tal colega talvez não exista. Por mais que faça amizade com a funcionária da cafeteria que frequenta - ele leva a ela e seu filho a um parque de diversões -, o caso é que a vida de Trevor é triste, vazia, isolada. Quase sem sentido. Condição que só terá explicação quando os traumas do passado forem aos poucos descortinados (de forma absolutamente sutil), por meio de alguns flashbacks e sobreposição de cenas.



Nesse sentido, a obra de Brad Anderson tem méritos, uma vez que consegue "segurar" a curiosidade a respeito daquilo que possa ter acontecido com o protagonista até o último minuto. E ainda que Bale exagere, aqui e ali, nas caras e bocas e nas cenas que reforçam a sua desnutrição, o caso é que a construção da atmosfera - com uma fotografia absolutamente acinzentada e sombria e com uma trilha sonora que não faria feio em algum filme do Hitchcock - é um dos pontos fortes da película. A impressão que temos é a de que algo está sempre pronto a acontecer, o tempo todo. Algo ruim, no caso. E o fato de os colegas de trabalho de Trevor estarem de saco cheio deste, só torna tudo pior - com a situação se tornando extrema no momento em que ele acredita ter sofrido algum tipo de sabotagem na fábrica.

Reservando para o terço final uma das mais saborosas surpresas do cinema, no caso de obras mais recentes, o filme ainda é um verdadeiro líbelo sobre a importância de termos a consciência limpa, no que diz respeito aos nossos atos (e sobre aquilo que consideramos moral e eticamente correto no nosso dia a dia). Trevor talvez não esteja, literalmente, sem dormir, mas a sua mente jamais relaxará, até o momento em que ele consiga ter a paz tão desejada, o que só virá com uma decisão extrema. E que ele só poderá tomar sozinho. Ainda que uma ou outra sequências possam ser dispensáveis - e uma ou outra ponta pareçam meio soltas - a amarração final faz todo o sentido, com o espectador sendo obrigado a confrontar, junto com o personagem principal, a dura realidade que lhe espera dali para frente.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Pérolas da Netflix - A Música Nunca Parou (The Music Never Stopped)

De Jim Kohlberg. Com J.K. Simmons, Lou Taylor Pucci, Cara Seymour e Julia Ormond. Drama, EUA, 2014, 105 minutos.

Conta a história que dois derrames ocorridos no começo dos anos 50, impossibilitaram o compositor russo Vissarion Shebalin (1902 - 1963) de falar ou compreender o sentido das palavras. Mas o fato jamais o impediu de ensinar ou compor até o final de sua vida. Talvez este seja um dos mais antigos (e relevantes) registros sobre a importância da música como terapia e sobre como as melodias podem ativar memórias antigas, provocando respostas mensuráveis no cérebro de pacientes que padeçam de alguma doença. Pois o singelo e delicado A Música Nunca Parou (The Music Never Stopped), do diretor Jim Kohlberg, fala exatamente sobre esse tema. E de uma forma tão comovente, que é quase impossível passar as quase duas horas da película sem se emocionar - ainda mais se levarmos em conta o fato de que todos nós temos as nossas músicas do "coração". Que nos deixam nostálgicos e cheios de lembranças boas ou ruins.

Logo no início do filme, que é baseado em fatos reais, ficamos sabendo do reaparecimento do jovem Gabriel (Lou Taylor Pucci) que, aparentemente, havia sumido da vida dos pais Henry (J.K. Simmons) e Helen (Cara Seymour) há cerca de 20 anos. Reencontrado, o rapaz é diagnosticado com um tumor benigno no cérebro que, após a cura, lhe impede de ter memórias recentes. Gabriel (ou Gabe, como é chamado) não lembra de nada relativo ao período em que esteve longe da casa dos pais. Para os pais, a alegria de reencontrar o filho terá como barreira a impossibilidade de comunicação. Uma série de acalorados flashbacks mostrará como a família era musical (especialmente Henry que, desde a infância estimulava o filho para jogos relacionados à nomes de músicas e de artistas). Não demorará para que o homem perceba a oportunidade de se reconectar com o filho por meio da música.



Será, inegavelmente, um processo doloroso para todos - e que envolverá ainda a participação da terapeuta Diane (Julia Ormond). Doloroso pelo fato de percebermos, conforme o filme avança, que a relação entre Henry e Gabe não era boa. Henry, um conservador republicano, favorável as políticas de presidentes como Richard Nixon e Ronald Reagan, entrará em choque com o filho que, na efervescência cultural do final dos anos 60, viverá o flower power e o movimento hippie antiarmamentista, confortando-se nas canções de gênios como Bob Dylan, Beatles e, especialmente, Grateful Dead, que ele replicará com os amigos na garagem de casa. De alguma forma, as tentativas de acesso a memória perdida do filho também servirão para que o pai se reencontre, confronte esqueletos que, há muito, estão no armário e se redima de atos injustificáveis do passado. E, quando tudo isso se descortinar em sua frente, é preciso que se diga: esteja com uma boa quantidade de lenços de papel a tiracolo.

Não fosse o talento do elenco e talvez esse drama familiar fosse mais convencional do que realmente é - e assistir a Simmons trafegando no limite entre o pai autoritário (e até reacionário) e o genitor carinhoso que abraça o filho com ternura na ânsia de tentar uma desajeitada aproximação, é não menos do que comovente. Já Lou Taylor Pucci, com seu olhar curioso (e meio perdido) faz uma boa caracterização do jovem doente que celebra cada avanço e que é capaz de brincar com a sua condição (o que torna a película mais leve, desacelerando o ímpeto melodramático). Com uma trilha sonora inesquecível - com direito a uma imperdível sequência em um show do Grateful Dead - a obra ainda reserva para a última cena, um comovente desfecho, capaz de fazer o espectador ficar com um sorriso no rosto por horas após o fim do filme. Em tempos de tanto ódio, preconceito e intolerância, um filme gentil, afável e gostoso de assistir, como esse, é quase uma benção.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Tesouros Cinéfilos - Violência Gratuita (Funny Games U.S.)

De Michael Haneke. Com Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet e Devon Gearhart. Suspense, EUA, 2007, 107 minutos.

Existe algo meio mórbido na ascensão de aberrações políticas como Jair Bolsonaro que é meio difícil de explicar. E saber que quase 50% dos eleitores brasileiros desejam uma figura como esta na Presidência é algo ainda mais assombroso. Bolsonaro não mede palavras em suas falas. Em entrevistas, já afirmou que o erro da Ditadura Militar foi torturar e não matar. Disse ser necessário "limpar" o Brasil assassinando umas 30 mil pessoas - inclusive o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Falou em fuzilar a "petralhada". Em suas manifestações apenas ódio, preconceito, intolerância, derramamento de sangue, ratos na vagina das mulheres, brutalidade de todos os tipos. E, ao mesmo tempo que 50 milhões de pessoas votam (e aplaudem) os atos do "mito", outros tantos convivem com o medo, a tensão, o sofrimento.

Mas como é possível se regozijar com o sofrimento alheio? Somos perversos por natureza? É da nossa essência se satisfazer, se divertir com a dor daquele que nos é diferente? O que explica essa onda fascista, que tem movido tantos brasileiros? Sim, é claro que o filme Violência Gratuita (Funny Games), aparentemente, não é sobre o autoritarismo. Mas, de alguma forma, ele dialoga com o tema, ao propor ao espectador uma espécie de jogo sádico que subverte qualquer lógica narrativa vista em cinema. Começo, meio e fim? Final feliz, com os mocinhos se salvando dos bandidos? Esqueçam. O que o diretor Michael Haneke (dos igualmente ótimos Código Desconhecido e Caché) quer, é ver até que ponto somos capazes de suportar - e encarar de frente - a violência, permanecendo indiferentes à ela. "Não era tortura, morte e sofrimento que vocês queriam? Então tomem", é o que ele parece nos dizer.



Na trama o casal Anna (Naomi Watts) e George (Tim Roth), acompanhados do filho Georgie (Devon Gearhart) vão passar as férias na casa de campo que fica em uma região nobre de Long Island. Não demora para que o clima tranquilo e idílico do local, de lugar ao horror e ao pesadelo quando os jovens Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet) invadem a casa, tomam a família como refém, agridem covardemente Goerge e passam a propor uma série de jogos sádicos - garantindo a eles, ainda, que eles só têm doze horas de vida pela frente. Sobre os invasores? Nada de pretos, pobres, dependentes químicos ou outras pessoas à margem da sociedade. Tratam-se de pessoas brancas, loiras, bem vestidas (alvamente vestidas, diga-se), de banho tomado, que gostam de recitar frases religiosas, mas que praticam atrocidades. E que parecem sentir prazer nisso.

Hábil na montagem do filme, Haneke transforma a obra em um assombroso estudo sobre a nossa essência enquanto seres humanos e sobre como somos muito mais capazes de "tolerar" a violência que não nos diga respeito - e que, invariavelmente, nos desumaniza. Em filmes não toleramos ver as "famílias de bem" agredidas ou até assassinadas. Mas não nos livraremos do sentimento catártico ao assistir ao bandidão se dando mal. Mesmo que tudo aquilo que estamos vendo seja, no fim das contas, apenas um filme. E é justamente ao brincar com a lógica de mundo do cinema - especialmente o hollywoodiano - é que o diretor transforma Violência Gratuita em uma das mais (pasme) divertidas experiências cinematográficas do milênio. Não por acaso, assistir a Paul virando para a câmera apenas para perguntar se "estamos do lado da família", consiste-se em um dos tantos grandes momentos da obra.


Utilizando ainda o som diegético como um componente importante da narrativa - a cena em que Paul coloca um disco de heavy metal para rodar, subvertendo a lógica e gerando uma sensação incômoda serve como exemplo - Haneke ainda utiliza o filme como uma espécie de documento a respeito da paranoia armamentista americana, que vem a reboque do medo da violência e de tudo aquilo que é "diferente". Com planos sequência absurdamente dolorosos, como aquele em que Anna e George tentam a todo o custo se movimentar de um cômodo para o outro após uma brutal sequência de agressões, a película leva o espectador até o limite, subvertendo a lógica, alterando o fluxo narrativo e surpreendendo por dificilmente deixar espaço para o respiro. Uma obra densa, cheia de grandes interpretações (o jovem Gearhart é um achado) e que certamente renderia horas de debate. Especialmente em tempos tão sombrios e de propensão à violência (gratuita) como so que vivemos.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Lançamento de Videoclipe - Blood Orange (Chewing Gum)

Candidato seríssimo a figurar nas primeiras posições da maioria das listas de melhores do ano, o mais recente disco do Blood Orange, Negro Swan teve mais um videoclipe divulgado nesta semana - no caso para a pegajosa canção Chewing Gum. Dirigido pelo próprio Dev Hynes - nome real do artista por trás do projeto - o clipe tem a participação do rapper A$AP Rocky e mostra ambos andando em de quadriciclo, em meio as paisagens semi-áridas. O álbum, que traz aquele R&B classudão, numa mistura sutil de eletrônica com uma pitada de anos 80, também já rendeu vídeos para as canções Saint, Jewerly e Charcoal Baby. Lembrando que, em 2016, com o irresistível Freetown Sound, o Blood Orange foi o terceiro colocado do ano, na nossa relação de 25 Melhores Discos Internacionais aqui no Picanha. Bora clicar e conferir!

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Pérolas da Netflix - Lore (Lore)

De: Cate Shortland.Com Saskia Rosendhal, Kai Malina e Ursina Lardi. Drama / Guerra / Suspense, Alemanha / Reino Unido / Austrália, 2012, 108 minutos.

Os filmes alemães que buscam a expiação dos fantasmas do passado relacionados ao nazismo funcionam quase como uma categoria à parte - não sendo diferente com o ótimo Lore (Lore), película disponível na Netflix. A trama da obra toma por base um contexto pouco explorado pelo cinema: o do que teria acontecido com as crianças e adolescentes que se tornaram órfãs frente ao colapso do exército alemão, a partir do momento em que as forças aliadas invadem a Alemanha e prendem os (pais) nazistas, que deixam para trás os seus filhos. Nesse sentido, a narrativa volta para a primavera do ano de 1945 para contar a história da Lore (Saskia Rosendahl) do título, uma jovem de 14 anos que se vê sozinha, tendo de cuidar dos outros quatro irmãos mais novos, a partir do momento em que os pais nazistas são capturados pelas tropas americanas.

Não bastasse o fato de terem de conviver com a fome, com as doenças e com a falta de uma moradia para chamar de sua, os jovens ainda serão, conforme a guerra se aproxima de sua conclusão, um alvo fácil daqueles que passaram os últimos seis anos combatendo o nazismo. À eles resta fugir, tentar encontrar uma casa e evitar ao máximo o contato com judeus ou com as tropas aliadas. E haja andanças pelo meio do mato e paradas em lugares com pessoas nada amistosas e ressentidas pelos anos de perseguição político/ideológica. Em uma dessas andanças, Lore e os meninos encontram o jovem Thomas (Kai Malina). Seus documentos pessoais revelam o fato de que ele talvez possa ser um judeu que, ainda assim, parece disposto a ajudar as crianças. Mas como aceitar ajuda de uma pessoa que eu considero inimiga do regime?



Esse é um dos tantos dilemas do filme. No seio familiar, Lore e as crianças cresceram aprendendo a respeitar o Terceiro Reich e a odiar as minorias - sabem de cor, inclusive, os cantos nacionalistas alemães assimilados por meio de audições via rádio dos programas estatais. Thomas está a margem da sociedade, e convive com o mesmo grau de vulnerabilidade dos demais. Erra, acerta, tem atitudes impensadas e exemplifica de forma magistral o fato de que, na guerra, só há perdedores. Ele se afeiçoa de Lore. Mas ambos estão em lados opostos nesse conflito. O que certamente causará uma grande confusão na mente da protagonista. Para piorar, ela vai percebendo que talvez o nazismo não fosse aquela "maravilha toda" que seus pais (ou os programas de rádio) vendiam. É ao "descobrir" na marra o mundo, que Lore se liberta, paradoxalmente, daquilo que lhe amarrava.

A cena de um cervo em miniatura sendo esmagado por Lore talvez seja a metáfora meio óbvia do processo de transformação - e de reconfiguração de seus paradigmas - que ela vivencia. O nazismo talvez fosse ruim (será?) e ela vai descobrindo isto nos gestos nada sutis da avó reacionária ou no comportamento exagerado de algum vizinho extremista. O próprio Thomas talvez não seja aquilo que aparente e o clima sombrio do filme é reforçado por uma câmera ostensiva, quase sempre grudada no rosto das personagens. A fotografia empalidecida, somada a um desenho de produção que reconstitui uma época opaca, sem vida, contribuem para uma sensação generalizada de melancolia que percorre a película. É filme europeu sem final feliz: oblíquo, dolorido, angustiante, mas cheio de significados. E que reflete um tempo que deveríamos DESEJAR que jamais retornasse. Mas que, no surpreendente Brasil do Golpe, pode retornar, pasme, por meio do voto.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Curta Um Curta - Ilha das Flores

"O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser... livre". Essa frase, dita quase ao final do curta-metragem Ilha das Flores, é daquelas que fica na nossa cabeça, da mesma forma que permanecem na mente as imagens de mulheres e de crianças que habitam o local e que se alimentam de restos de comida que não servem nem para os porcos. O Brasil recém saía do Regime Militar, quando o gaúcho Jorge Furtado lançou esse clássico que denuncia, não sem uma boa dose de deboche, de ironia e de melancolia, o quão maquiavélica pode ser a sociedade de consumo - ou mesmo o sistema político que, habitualmente, torna o rico mais rico e o pobre mais pobre. Indicar um filme que todo mundo viu na escola aqui no nosso quadro Curta Um Curta é algo tão óbvio quanto necessário. Especialmente no Brasil Pós-Golpe que, não satisfeito, ainda vê as suas elites (e boa parte da classe média) desejando um caminho ainda pior: o do obscurantismo.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Grandes Filmes Nacionais - Eles Não Usam Black-Tie

De: Leon Hirsman. Com Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro e Francisco Milani. Drama, Brasil, 1982, 121 minutos.

Incrível perceber como, mais de 35 anos depois de ter sido lançado nas cinemas, o clássico Eles Não Usam Black-Tie, do diretor Leon Hirszman, segue dolorosamente atual. O Brasil caminhava para o final de uma longa ditadura em 1982 - época em que greves como a dos metalúrgicos, ocorrida em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, ganhavam força. Esses movimentos emergentes, diga-se de passagem, buscavam melhores condições de trabalho ao passo que protestavam contra o arrocho salarial (quando reajustes não acompanham a inflação), reivindicando liberdade e autonomia sindical. Nesse sentido, é possível afirmar que a obra de Hirszman - adaptada de uma peça de Gianfrancesco Guarnieri - era a verdadeira representação de seu tempo. Um tempo que consolidou mobilizações trabalhistas que perduram até hoje e que marcam o surgimento de um sindicalismo que que se caracteriza pela organização. Aliás, não é por acaso o fato de a efervescência política fazer surgir não apenas o Partido dos Trabalhadores (PT), mas também a figura do nosso eterno melhor Presidente da história, Luiz Inácio Lula da Silva.

De alguma forma o filme de Hirszman nos joga para dentro desse contexto, ao nos apresentar para o jovem operário Tião (Carlos Alberto Riccelli). Absolutamente alienado em relação ao contexto em que está vivendo, Tião está apenas interessado em prover uma boa vida para a namorada Maria (Bete Mendes), que está grávida. O pai de Tião, Otávio (o próprio Guarnieri), é um ardoroso militante sindical que, a despeito da idade, não perde o seu idealismo - e nem o sonho alimentado pela classe trabalhadora, por dias melhores. Quando uma assembleia faz com que ecloda um movimento grevista, a categoria metalúrgica fica dividida (e pai e filho acabam ficando em lados opostos desse debate). O jovem Tião não quer perder o emprego e fala a língua do patrão ao acreditar no fato de que é melhor estar empregado do que não ter emprego. Otávio, como se fosse a matriarca do clássico moderno Adeus Lênin, preferia ver o filho ao seu lado, na marcha por melhores condições de trabalho. É desse conflito que resultará o grande arco dramático da película.



De certa forma, Hirszman olha com certa melancolia para a juventude - desinformada, ignorante, afastada da realidade. Na trama de Eles Não Usam Black-Tie é clara a miséria - não apenas financeira, mas intelectual, com a massa de trabalhadores preocupada apenas em jogar sinuca, tomar uma cachacinha ou acompanhar os rumos da novela (e não é por acaso que as sequências envolvendo o pai bêbado de Maria, absorto diante da televisão, são tão pungentes). Os poucos idealistas que ocupam-se da greve (e de sua importância) com mais intensidade, como é o caso de Sartini (Francisco Milani, em inesquecível caracterização), são taxados de subversivos, insurgentes, rebeldes. Mas são eles que estão tentando atrair a atenção dos trabalhadores na fábrica. E que estão apanhando e sendo levados ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Otávio já foi parar lá mais de uma vez, diga-se. Em uma delas, ficou preso três anos.

O choque de frente entre Tião e Otávio renderá algumas das mais inesquecíveis sequências da história do cinema brasileiro - e ainda que penda a balança para a importância da discussão dos direitos trabalhistas, Hirszman não deixa de olhar com certa ternura para Tião. O medo de perder o emprego, as pressões sociais para ser o provedor da família, o fazem ser o "fura greve" que vemos. E não é por acaso que a mãe Romana (Fernanda Montenegro, assombrosa em sua delicada interpretação), fica no meio dos dois, dedicando a ambos o mesmo carinho e a mesma compreensão. Na verdade não há uma solução fácil, e Hirszman faz questão de deixar claro que Tião - com sua eventual fraqueza - e Otávio - com seus delírios idealistas - não são os vilões. O vilão, especialmente naquela época, era o contexto político/social do Brasil, que exauria a massa trabalhadora, acabando com a sua esperança e relegando-a as migalhas de uma falsa promessa de fortalecimento econômico.



Em uma época em que a classe trabalhadora assiste entorpecida à políticos golpistas executarem à revelia reformas como a Trabalhista e a da Previdência (que surrupiam direitos há muito conquistados), Eles não Usam Black-Tie, como já dito, segue absurdamente atual. Especialmente em um cenário em que muitos brasileiros anseiam pelo retorno da ditadura, anseiam por intervenção militar e tratam o empresário (e o empregador) como espécies de semideuses benfeitores que estão na terra pra auxiliar o cidadão comum a ter o que comer. Vencedor de vários prêmios no Festival de Veneza, o filme, fotografado por Lauro Escorel e com trilha sonora de Adoniram Barbosa, se tornou, em 2015, o décimo quarto melhor da história em uma lista formulada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Uma obra fundamental, pungente, de grande relevância artística e que permanece como uma das preferidas de qualquer cinéfilo.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Picanha em Série - Anne With An E

A gente sabe que a Netflix produz mais ou menos umas 50 séries por SEGUNDO e que nem sempre é fácil escolher aquilo que vamos assistir na plataforma de streaming. Mas se tem uma série que tem sido unanimidade e que tem ganho adeptos a cada dia, está é a graciosa Anne With An E. Baseada no livro Anne de Green Gables, da escritora canadense L. M. Montgomery, conta a história de uma jovem órfã que é adotada por engano por um casal de irmãos, que na verdade preferia um rapaz que lhes pudesse ser útil nos afazeres da fazenda em que ambos residem. Só que Anne não é uma garota qualquer: tem personalidade forte e uma esplêndida eloquência, que ela transforma em frases absolutamente inspiradoras e que mais parecem saídas de algum livro romântico de algum escritor erudito. O que faz com que os irmãos, a despeito da desconfiança inicial, se encantem com a garota. E fiquem com ela.

A propósito, o entusiasmo que Anne tem pela vida é algo absolutamente apaixonante. Quase comovente. Não são poucas as sequências em que ela se vê contemplando a paisagem idílica - sem deixar de professar o seu encanto, claro - ou recordando alguma passagem da literatura que, para ela, seja fascinante, vívida, plena de sentido. Exímia oradora, a jovem está o tempo todo surpreendendo o espectador com frases deslumbrantes, como, "amigos verdadeiros sempre estão junto em espírito", "a vida vale a pena de ser vivida desde que haja risada nela" ou ainda "não é maravilhoso que cada dia possa ser uma nova aventura?". Anne fala muito. E, invariavelmente são frases cheias de significados, complexas, ricas. Assistir a Anne With An E é, no fim das contas, redescobrir o prazer pelas coisas simples da vida. (e ter uma pequena aula de literatura)



O que não quer dizer que não haja problemas. As dúvidas sobre a permanência em Green Gables, a maturidade que se aproxima (bem como as paixões), as amizades que podem ser interrompidas por algum comportamento inadequado... mesmo os assuntos mais prosaicos são tratados de forma tão solene quanto divertida (e quando você perceber já estará rindo junto com as garotas em digressões sobre temas como menstruação). E, ainda assim, por mais que o formato (e até os lindos cenários e fotografia) remeta a algum tipo de fábula que não sabemos qual, lá estarão temas relevantes como o papel da mulher na sociedade, o preconceito com gays, órfãos, negros e outras minorias, as diferenças sociais e a importância das artes e da cultura no caráter e na formação do sujeito. No fim das contas é uma série tão bonita que as palavras - tão caras à própria Anne - jamais parecem ser suficientes.

E há ainda os apaixonantes atores que interpretam cada uma das figuras que vemos em cena. A começar pela atriz Amybeth McNullty, que interpreta a protagonista e que, sabe-se lá saída de onde (com seus cabelos ruivos, sardas e olhar decidido) não poderia ser mais perfeita para o papel. Já Geraldine James e R. H. Thomson são os irmãos com personalidades diametralmente opostas mas que, ali adiante, dispensarão o mesmo zelo, pela carismática e romântica protagonista. E há um grande grupo de jovens que interpretam os amigos e colegas e que, dotados de personalidades complexas, apenas enriquecem a trama. A gente não costuma pedir para que vocês assistam as séries que indicamos aqui no Picanha em Série. Mas em um mundo tão cheio de ódio, de preconceito e de intolerância, façam um favor a si mesmos: assistam Anne With An E com o coração leve e deixem aflorar aquilo que de melhor há dentro de vocês. Temos a certeza de que vocês não se arrependerão.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - O Homem Sem Passado (Finlândia)

De: Aki Kaurismäki. Com Markku Peltola, Kati Outinen, Sakari Kuosmanen e Esko Nikkari. Comédia / Drama, Finlândia / França / Alemanha, 2002, 97 minutos.

Todos nós já vimos reportagens sobre o fato de a Finlândia ser um dos melhores países do mundo para se viver, afinal, conta com um Estado forte, que garante educação (gratuita) para a população, além de acesso a saúde e a condições igualitárias, que proporcionam conforto para todos. Mas o cinema do diretor Aki Kaurismäki costuma voltar o seu olhar para uma outra Finlândia que, sim, também existe. No caso, sai de cena o País reconhecido pela qualidade de vida, para surgir na tela a população que luta para sobreviver, que depende (ainda mais) de políticas públicas, que procura emprego e que necessita de amparo de programas sociais ou mesmo do apoio comunitário. E é exatamente esse o caso do ótimo O Homem Sem Passado (Mies Vailla Menneisyyttä) - obra que foi indicada ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira, além de ter vencido vários prêmios em festivais mundo afora.

Na verdade trata-se de uma curiosa comédia, a despeito da tragédia que abre a película, quando acompanhamos um homem (Markku Peltola) ser brutalmente espancado por um bando, até perder a memória, no momento em que chegava de trem à capital Helsinque. Além de sumir com a sua carteira, os agressores levam o seu dinheiro e outros objetos de valor. Sim, há violência (até) na Finlândia. Após alguns dias no hospital, o homem, que todos achavam que fosse morrer, foge e é encontrado por uma família pobre de ribeirinhos, ao lado de um rio. Resgatado, ele vai aos poucos restabelecendo a saúde - ainda que não se lembre de nada relativo ao seu passado. Com a ajuda da mesma família, vai morar em um precário container alugado. A comida, inicialmente, vem de projetos sociais. Mais tarde, com algum custo, ele arrumará emprego e reiniciará a sua vida. Ainda que o mistério sobre a sua identidade permaneça.



É um filme sobre recomeços que, metaforicamente, fala da nossa capacidade de se reinventar, em meio a contextos adversos. Fosse uma obra hollywoodiana e talvez acompanhássemos um sujeito em busca de vingança de seus algozes. Mas não. De forma contemplativa e com um indelével ceticismo, o homem procura se reencontrar na sociedade. Assim, se apaixona desajeitadamente por uma assistente social, considera uma grande conquista a "aquisição" de um velho tocador de discos e até se arrisca a plantar batatas, com vistas a ter o que comer futuramente. O humor quase involuntário vem dos inacreditáveis diálogos e das sequências levemente nonsense, que são cheias de simbolismos, de trocadilhos, de pequenas surpresas, que dão conta de preencher as lacunas e nos fazer rir. A cena em que o senhorio vem cobrar o aluguel atrasado, pretendendo ameaçar o devedor com um cachorro claramente dócil, de nome Hannibal, é um desses exemplos. Um tipo de graça mais sutil, visual, que era muito presente nas obras do francês Jacques Tati, por exemplo.

O próprio protagonista, muitas vezes, nos coloca em dúvida sobre sua real condição de saúde, já que brinca com a situação mais de uma vez - como quando ele diz ter ido a lua e voltado, sem ter encontrado nada de mais ou finge confundir o nome de objetos. São desses pequenos momentos, ora satíricos, ora bizarros, que o diretor também constrói uma verdadeira fábula sobre a compaixão. Sobre pessoas se ajudando para fazer da sociedade um lugar melhor para se viver. Sentimento que é complementado pelas interpretações absolutamente naturalistas, pela fotografia dessaturada - os objetos parecem saltar pra fora da tela -, pela câmera grudada em cada personagem e até mesmo pela trilha sonora, que fornece um contraponto ilógico e caótico. Uma obra que, no fim das contas, joga algum "calor" para uma região tão tradicionalmente fria.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Cinema - Uma Questão Pessoal (Una Questione Privata)

De Paolo e Vittorio Taviani. Com Luca Marinelli, Valentina Bellè e Lorenzo Richelmy. Guerra / Drama, Itália, 2017, 85 minutos.

Uma Questão Pessoal (Una Questione Privata) ficará para sempre na memória dos cinéfilos como a obra derradeira dos Irmãos Taviani, já que Vittorio faleceu no último mês de abril, cabendo a Paolo a conclusão da película. E, ainda que o filme não seja nenhum Pai Patrão (1977) - clássico que rendeu à dupla a Palma de Ouro no Festival de Cannes -, pode-se dizer que trata-se de uma obra de grande sensibilidade estética e que discute, como é de praxe na filmografia dos Taviani, temas relevantes em meio a algum cenário de opressão. Aqui, a narrativa nos joga de volta para a Itália da Segunda Guerra Mundial para contar a história de Milton (Luca Marinelli), jovem membro da Resistência Italiana, que luta clandestinamente contra o avanço do fascismo.

Só que ao parar na casa da antiga namorada, de nome Fulvia (Valentina Bellè), Milton descobre não apenas que ela se mudou para longe para fugir dos horrores da guerra, mas que ela pode também ter se envolvido com o seu melhor amigo, Giorgio (Lorenzo Richelmy). Decidido inicialmente a ir atrás de Fulvia, Milton muda de ideia no meio caminho ao saber que Giorgio foi capturado pelas tropas inimigas após uma emboscada. Sua intenção agora é localizar o paradeiro do amigo. Para isso ele cruza literalmente de um lado para atrás de grupos de partisans - que lutam, paradoxalmente, contra a Guerra -, que possam estar de posse de algum fascista, que lhe servirá de "moeda de troca". E é aí que entra a tal "questão pessoal" do título original, já que não sabemos se Milton deseja apenas reencontrar o melhor amigo ou se ele quer mesmo é tirar a história a limpo.



Nesse sentido o filme guarda uma grande beleza, já que a guerra fica em segundo plano, em prol da resolução de questões particulares. Para cada tentativa frustrada de Milton no front de batalha, há um (elegante) flashback que volta no tempo para mostrar como era a relação do trio, antes do começo de tudo. Como um contraponto as paisagens frias da guerra - há sempre um incômodo nevoeiro no cenário - há as cores quentes e primaveris do passado, quando o trio ouvia música, fazia aulas de dança e conversava em inglês. Fulvia parecia realmente dividida entre alguém mais sensível e extrovertido e alguém mais carismático e introspectivo e, é preciso que se diga, a obra utiliza a canção Over The Rainbow, de Judy Garland (trilha do filme O Mágico de Oz), de forma eficiente e absolutamente fluída.

A propósito do som, a edição e a mixagem também merecem destaque e a utilização de rimas sonoras - como aquela que envolve um soldado que simula tocar bateria fazendo os barulhos da percussão com a boca para, em seguida, ser fuzilado, sem que saibamos onde terminou um som e começou outro - conferem um toque especial a narrativa. Aliás, sobre essa cena, ela também tem importância por evidenciar os absurdos da guerra, já que os jovens que lutam uns contra os outros parecem não ter o real entendimento do que está por trás da brutalidade da batalha (e uma cena em um paredão de fuzilamento, no terço final, parece consolidar essa ideia). Condição reforçada por uma câmera que não hesita em realizar closes - e assim reforçar as angústias. É evidente que o legado dos Irmãos Taviani é maior do que a sua obra final. Mas como filme derradeiro, Uma Questão Pessoal é mais um exemplo do cinema levemente provocador, surpreendentemente nonsense e totalmente relevante da dupla.

Nota: 7,5

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Lançamento de Videoclipe - Xenia França (Pra Que Me Chamas?)

A cantora Xenia França disponibilizou, nesta semana, o primeiro clipe de divulgação para o seu homônimo disco de estreia - que foi o quarto colocado na lista de melhores do ano passado em relação divulgada aqui no Picanha. A canção escolhida como single foi a já conhecida Pra Que Me Chamas?, que teve o vídeo dirigido por Fred Ouro Preto. Bastante representativo do estilo da artista - que mistura em seus ritmos a percussão tribal, a eletrônica minimalista e os arranjos de cordas bem pontados - o clipe se aproveita do vocal potente e limpo de Xenia para discutir igualdade de gênero e racismo, em um trabalho recheado de referências regionalistas e de elementos da cultura afro. É o R&B classudo da artista encontrando a brasilidade em um vídeo simplesmente imperdível, uma verdadeira obra de arte. Vale clicar e conferir!

Lado B Classe A - Mercury Rev (Desester's Songs)

Em uma análise mais "fria" do ponto de vista musical, o ano de 1998 pode ser considerado um tanto quanto curioso. Enquanto Celine Dion e Mariah Carey exauriam o mundo com as chatíssimas My Heart Will Go On e My All - que não paravam de tocar nas rádios - coletivos bacanas como o Mercury Rev se ocupavam de lançar as suas obras-primas. A banda capitaneada pelo faz tudo Jonathan Donahue andava meio sumida quando lançou o clássico Deserter's Songs. Até aquele momento eram apenas três discretos discos - Yerself Is Steam (1991), Boces (1993) e See You On the Other Side (1995) - em que se sobressaia uma espécie de rock alternativo levemente rural, que emulava Neil Young em uma viagem de ácido, e que pouco empolgava (ainda que canções como Chasing A Bee sejam até hoje lembradas com carinho pela maioria dos fãs). Aliás, havia uma certa depressão que quase fez a banda terminar, após uma turnê em 1995.

Tudo mudou com Deserter's, até hoje tido como um dos melhores álbuns daquele final de milênio - que via as boy bands ocuparem as paradas e o nu metal surgir como uma novidade plastificada. O clima onírico, de um certo misticismo, aliado ao o instrumental expansivo que promovia um cruzamento absolutamente saboroso de psicodelia com grandiloquência épica, transformava a audição do registro em um mergulho transcendental, sinistro, divertidamente macabro, como se estivéssemos em meio a algum filme do Tim Burton com trilha sonora do Beach Boys (como definiu na época a Revista Q). A sensação era de devaneio palpável - condição reforçada pela voz enfumaçada e de soprano de Donahue - como se estivéssemos pisando em terreno desconhecido, lúgubre, mas que, aqui e ali, em cada curva imprevista, em cada efeito ou camada surpreendente, desse espaço ao lúdico ou jocoso. O vocalista havia escutado antigos discos infantis. Coletâneas de contos de fadas que, agora, recebiam a sua versão particular.



A abertura com a pastosa Holes, é daquelas capaz de nos fazer imergir na madrugada de surpresas por aquilo que não conhecemos. Há uma riqueza orquestral por trás - que vai para além da guitarra, do baixo e da bateria - e que alcança em instrumentos como clavinete, flauta, órgão, trombone, piano e teclado a complexidade necessária para transformar cada instante em um episódio dessa espécie de conto de fadas obscuro que é o álbum. Aliás, em meio a tantos convidados especiais - no total são quase quinze participantes creditados no registro - há até um tocador de serrote com arco (Joel Eckhouse), no meio. Holes, dug by little moles / Angry jealous spies / Got telephones for eyes / Come t' you as / Friends (Buracos, cavados por pequenas toupeiras / Espiões raivosos e ciumentos / Que tem telefones como olhos / Que vem até você como / Amigos), canta Donahue na viagem literal que recém começa.

O disco segue o seu desfile com outras grandes canções, como Tonite It Shows, Hudson Line e Goddes On A Hiway, cada uma delas levando o percurso para algum lado diferente, como se fosse possível o cérebro fazer saltos deste para aquele ponto em um registro heterogêneo mas ao mesmo tempo bagunçado, capaz de ir no limite da música alternativa e do comercial. Se Endlessly desacelera um tanto com um clima levemente insolente, obras primas de arranjos saborosamente enérgicos e de refrões grudentos como Opus 40 levam o registro para um outro patamar. Não fosse o Deserter's Songs e bandas como Arcade Fire, MGMT, Dirty Projectors e outras tantas que misturam épico e rock psicodélico talvez nem existissem. Aliás, os próprios comandados por Donahue nunca mais conseguiram alcançar o efeito atingido esse disco - eleito melhor do ano pelo semanário NME naquele ano de 1998 -, anda que All Is Dream (2001) também tenha o seu valor.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Pérolas da Netflix - O Autor (El Autor)

De: Manuel Martín Cuenca. Com Javier Gutierrez, María Leon e Antonio De La Torre. Comédia / Suspense, Espanha / México, 2017, 112 minutos.

Ainda que não tenha necessariamente uma boa ideia em mente, o sonho de Álvaro (Javier Gutierrez) é ser escritor. Mas não qualquer escritor e sim um escritor de alta literatura - longe da picaretagem que é oferecida nas vitrines de pomposas livrarias de shoppings nos dias de hoje. Para tentar alcançar o seu objetivo, o sujeito frequenta aulas de técnica e estilo literários já faz três anos. Nesse meio tempo, assiste ao repentino sucesso da esposa Amanda (María Leon), que está vendendo o "melhor livro de todos os tempos da última semana". Como se já não bastasse estar com o ego ferido pelo fato, ele ainda precisará lidar com a traição de Amanda e com um emprego burocrático que lhe consome e lhe deixa infeliz. É ao sair do emprego, se separar e se mudar para um condomínio, que o protagonista de O Autor (El Autor) - boa surpresa da Netflix - tentará ir atrás do seu sonho. Tentará pois, todos sabemos, o mercado editorial talvez seja uma das coisas mais difíceis do mundo.

Os primeiros manuscritos apresentados ao seu professor (Antônio De La Torre) após os fatos ocorridos, receberão uma humilhante"crítica construtiva". Esbravejando, o docente não apenas considerará a escrita de Álvaro falsa, vazia e pretensiosa, como praticamente suplicará a ele que escreva com alma. Com coração. E que procure sua escrita na realidade. Lá fora. Vivendo a vida! "Se for preciso, escreva sobre o último bife que comeu! E se tiver com bloqueio faça como Hemingway: escreva pelado e com as bolas dispostas sobre a mesa". Não é preciso dizer que esta é uma das cenas mais divertidas da película. Mas que representará para o protagonista o início de uma reviravolta. Sim, ainda não há ideias concretas e vigorosas. Mas elas surgirão imediatamente após Álvaro começar a interagir com os seus vizinhos, influenciando diretamente em suas vidas. Assim, perceberá que os conflitos reais envolvendo alguns deles, poderão ser importantes para o desenvolvimento da narrativa.



Interessante notar como, a despeito desta ser uma despretensiosa comédia espanhola, o diretor Manuel Martín Cuenca utiliza as cores e os sons de forma simbólica dentro do contexto da narrativa. Se o apartamento absolutamente branco e despido de móveis do postulante a autor são a metáfora quase óbvia para as páginas alvas que começarão a ser preenchidas, a paleta de cores sombria do banheiro em que ele espiona um suspeito casal de vizinhos equatoriano, indicará a formulação de uma trama com alguma dose de surpresa e suspense. A gravação das conversas dos mesmos vizinhos, como se as vozes pudessem ser ouvidas DENTRO do apartamento de Álvaro também poderão significar o fato de que a história finalmente ganha vida em seu ambiente de trabalho. Um tipo de barulho bem diferente do zumbido impertinente de um velho ventilador, escutado no começo do filme, e que servia, invariavelmente, como um atestado do caos interior vivido por Álvaro naquele momento.

Sim, provavelmente O Autor não será aquele tipo de filme que renderá gloriosos debates ao final da sessão - apesar das boas, surpreendentes (e divertidas) reviravoltas -, mas esses pequenos cuidados no que dizem respeito a mise-en-scène, a composição dos quadros ou mesmo do estilo, é que valorizarão a experiência. Estamos falando, afinal de contas, sobre uma obra que versa sobre o fazer artístico. E sobre um "livro" que está em andamento e que poderá ser mudado, inesperadamente, de acordo com os eventos que acontecem com cada personagem. Há o casal de vizinhos equatoriano. Há um idoso que guarda uma boa quantidade de dinheiro. Há a síndica que se apaixona por Álvaro. S´que o mais legal é que nem todos poderão ser manipulados a seu bel prazer, afinal de contas, todos sabemos que as histórias, fictícias (ou reais), podem ter finais surpreendentes!

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Novidades em DVD - É Apenas O Fim do Mundo (Juste La Fin Du Monde)

De: Xavier Dolan. Com Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Léa Seydoux e Marion Cotillard. Drama, Canadá / França, 2016, 99 minutos.

Quem acompanha a carreira do jovem diretor canadense Xavier Dolan - dos ótimos Eu Matei Minha Mãe (2009) e Mommy (2014) - sabe que ele utiliza os seus filmes para contar histórias bastante pessoais, muitas delas com ares autobiográficos. Não é diferente com o recém lançado em DVD É Apenas O Fim do Mundo (Juste La Fin Du Monde), em que reúne elenco estelar para narrar a história do escritor de peças de teatro Louis (Gaspard Ulliel) que, longe de casa há 12 anos, resolve visitar a mãe, o irmão mais velho, a cunhada e a irmã mais nova para lhes contar um segredo. Só que a tarefa não será tão simples já que, como manda o figurino das obras envolvendo famílias disfuncionais que trazem à tona memórias e mágoas do passado, Louis praticamente não encontrará espaço (e nem ânimo) para informar a todos a respeito do fato de que está com uma doença terminal. (o que o roteiro nunca deixa claro, mas que supomos ao ligar alguns pontos dentro da narrativa)

A história toda se passa em um único dia, com todos enfurnados na casa da matriarca da família (a veterana Nathalie Baye), que tenta impressionar o filho aparecendo sempre bem vestida e com maquiagem carregada - "ele é uma pessoa das artes, ele gosta disso", ela argumenta. O irmão mais velho Antoine (Vincent Cassel) parece ter, com seus modos rabugentos e intolerantes, algum tipo de mágoa do irmão, talvez relacionada ao fato de ele, ainda jovem, ter saído de casa (o que talvez representasse algum tipo de abandono). A irmã mais nova, Suzanne (Léa Seydoux), tolera a intransigência do irmão mais velho e orbita a mãe, ainda que pareça desejar o quanto antes "se livrar" daquele núcleo familiar. E há ainda a cunhada Catherine (Marion Cotillard) que, com seu olhar doce e modos educados, é capaz de comover a cada instante em que surge em cena, sendo impossível não se emocionar em passagens como aquelas em que ela agradece Louis pelos cartões postais enviados.



É um filme sobre pessoas absolutamente distintas, convivendo em um mesmo ambiente, fazendo valer a velha máxima de que "família não se escolhe". Antoine é pragmático, cartesiano e conservador, ao passo que Louis é sonhador, sensível e humanista. A mãe deles parece padecer de algum tipo de tormento da alma, de difícil definição. E a caçula vive em um mundo paralelo, encontrando refúgio nos cigarros de maconha. Será dessas (pequenas) diferenças, somadas ao natural distanciamento de quem está há muito sem se ver, que emergirão brigas e mágoas, que remeterão a um tempo tão nostálgico quanto distante. A mãe super protetora talvez tenha cerceado a liberdade de Antoine e de Suzanne, agindo de forma complacente com Louis. As diferenças de tratamento podem estar no centro dessas feridas abertas que parecem ser tão difíceis de serem curadas. Ainda que haja mais lacunas para que o espectador preencha.

Com domínio de técnica, Dolan praticamente "cola" a câmera no rosto de cada personagem, o que intensifica a sensação de claustrofobia - ampliada pelo calor escaldante -, já que o tempo todo eles parecem presos a algum tipo de subjetividade mental que até nos escapa. Da mesma forma, dificilmente nos vemos diante de um cenário, ou de algum plano médio (ou americano), sendo o fundo quase sempre um borrão escurecido que remete aos móveis velhos dos pesados ambientes da casa. Já a trilha sonora, que traz nomes diversos como Grimes, Blink 182 e Moby, serve à perfeição para ilustrar, com suas letras, o estado de espírito daqueles que assistimos em cena. Com grandes interpretações - Cassel, em especial, que não faria feio no rol dos grandes violões do milênio - o filme ainda reserva para o seu final a metáfora perfeita para o sentimento vivido pelo protagonista, que saiu de casa para morrer (deixando algum tipo de rastro pelo caminho).

Nota: 8,0


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Cine Baú - Gente Como a Gente (Ordinary People)

De: Robert Redford. Com Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton e Judd Hirsch. Drama, EUA, 1980, 124 minutos.

No começo dos anos 80 a chegada à maturidade dos baby boomers, aliada a eleição do republicano Ronald Reagan e ao clima de otimismo diplomático que culminou com o fim da Guerra Fria, fez com que os americanos passassem a, nas artes, voltar o seu olhar mais para si, para o seu íntimo. Não foi por acaso que, no cinema, os dramas familiares com pessoas buscando superar traumas do passado com a intenção de seguir em frente, funcionaram como a metáfora perfeita para a exorcização de alguns demônios, que se encontravam nas vísceras daqueles que viviam o sonho americano. Nesse sentido, não foi por acaso o sucesso de filmes, como Quando os Jovens se Tornam Adultos (1982), de Barry Levinson, Laços de Ternura (1983), de James L. Brooks e também do clássico vencedor do Oscar Gente Como a Gente (Ordinary People). No fim das contas eram obras sobre americanos, para americanos.

Primeiro filme de Robert Redford como diretor - ele também viria a ser agraciado com a estatueta dourada na categoria de Direção - Gente Como a Gente já inicia mostrando uma enseada em que as águas se movimentam de forma plácida, enquanto árvores multicoloridas e outros cenários idílicos sugerem a calmaria - sensação ampliada pela interpretação em estilo coral da música Canon In D Major, do compositor Pachelbel. Mas, por baixo dessa tranquilidade, há dolorosas feridas que não se apagarão tão simplesmente. Um sonho agitado faz o jovem Conrad (Timothy Hutton) acordar, mas não da realidade: o rapaz está em tratamento psiquiátrico após tentar o suicídio, já que ele se considera o principal culpado pela morte do irmão mais velho - um menino aparentemente querido por todos -, em um acidente de barco.



Não bastasse a dor (e o fardo) que Conrad carrega por não ter conseguido salvar o irmão - as imagens em flashback surgem volta e meia para esclarecer o ocorrido - ele ainda tem de lidar com uma mãe emocionalmente distante e amargurada, que está preocupada apenas em manter as aparências (Mary Tyler Moore) e com um pai que se esforça para tentar entender o filho, mas que tem dificuldade em se aproximar deste (papel de Donald Sutherland). Assim, com uma família tão distante, o jovem encontra refúgio nas aulas de natação e nas sessões com o pragmático doutor Tyrone (Judd Hirsch), que visam a estimular o jovem, que vive um estado quase catatônico, a catalisar as emoções tão reprimidas. Não é um processo fácil de superação e, inevitavelmente, haverá muita dor pelo caminho - ainda que a existência de figuras como a jovem carismática Jeanine (Elizbeth McGovern), possam representar algum tipo de respiro.

Gente Como a Gente é, no final das contas, o drama familiar típico. Cheio de grandes interpretações - Hutton, de apenas 19 anos, é até hoje o ator mais jovem da história a ganhar um Oscar de atuação (na categoria Coadjuvante) e Mary Tyler Moore transforma Beth na mais abominável das criaturas - o filme ainda marcou época pela sensibilidade com que dramatiza as situações. Nesse sentido, não são poucos os momentos comoventes da película - sendo um dos mais emocionantes aquele em que Calvin (o pai) lembra da preocupação de Beth em relação aos sapatos que usaria no funeral do filho. O final "feliz" (e doloroso) - após uma espécie de catarse vivida por Conrad - é a prova que pode ser mais fácil seguir em frente se estivermos distantes daqueles que amamos. Ou ao menos que pensamos que amamos.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Tesouros Cinéfilos - Sangue Negro (There Will Be Blood)

De Paulo Thomas Anderson. Com Daniel Day-Lewis, Paulo Dano e Russel Harvard. Drama, EUA, 2007, 158 minutos.

Parece haver um permanente clima de tensão no ar, conforme se descortinam os eventos vistos no ótimo Sangue Negro (There Will Bem Blood). É como se algo estivesse sempre prestes a explodir - o que, metaforicamente, pode ser simbolizado pelo petróleo que jorra a cada nova escavação encenada. Talvez seja o deserto palpavelmente escaldante. Ou a trilha sonora caótica e dissonante (cortesia do guitarrista Johnny Greenwood, do Radiohead). Ou mesmo as personagens de modos duros, secos e que se mostram o tempo todo individualistas, inescrupulosos e, invariavelmente, ambiciosas. O caso é que a película de Paul Thomas Anderson (Magnólia) - baseada no livro Oil, de Upton Sinclair - é daquelas que deixa um gosto amargo na boca. E que reúne uma coleção de figuras que, para nós espectadores, é muito mais fácil odiar do que qualquer outra coisa. Em resumo: é um filme capaz de nos deixar exaustos ao final da projeção.

A narrativa nos joga para a fronteira da Califórnia, na virada do século 19 para o século 20. É lá que somos apresentados a Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis), um rico empresário do ramo da mineração, que fica sabendo da possível existência de petróleo na pequena cidade de Little Boston. Como forma de persuadir a comunidade local para que possa iniciar as escavações que beneficiarão a matéria-prima, ele apresenta um projeto digno de político em período de campanha eleitoral: construirá estradas e escolas no local, fortalecerá a agricultura e gerará emprego e renda. Em troca, os proprietários das terras em que estão os minérios lhe darão as concessões para que os investimentos possam ser feitos - recebendo também uma boa quantia de dinheiro na jogada. É claro que nem todos os moradores aceitarão a história numa boa - especialmente o pastor Eli Sunday (Paul Dano), sujeito ganancioso e mesquinho que utilizará a religião como uma espécie de "moeda de troca".



Nesse sentido, um dos maiores prazeres de Sangue Negro será o de assistir o embate entre Daniel e Eli - que nada mais será do que o confronto entre a tecnologia e o capitalismo e o conservadorismo e a fé. Day-Lewis e Dano estão especialmente inspirados, e entregam caracterizações que vão no limite do cinismo, do deboche e da hipocrisia para as figuras que interpretam. Se Plainview não hesitará em, literalmente, utilizar uma criança (que ele finge ser seu filho, mas não é) como desculpa para comover aqueles que ele busca persuadir, Eli se aproveitará de seus agitados sermões para expurgar o "mal" e os demônios que rondam a comunidade - e que a perfuram em busca de petróleo. Todos conhecem afinal o valor daquele líquido que jorra por baixo de seus pés e todos desejam tirar proveito daquilo de alguma forma, num contexto em que não há vitoriosos, especialmente em um universo em que a cobiça é o sentimento reinante.

Alternando sequências longas e mais contemplativas, com outras mais movimentadas e cheias de ação, o diretor ainda consegue explorar as paisagens desérticas de forma perfeita, transformando-as, também, em uma espécie de personagem sempre presente na vida daqueles que assistimos em tela - e que formam o combo perfeito para um retrato da ganância (e até da paranoia) daqueles que viriam a antecipar o modelo conhecido como american way of life. Se hoje em dia não surpreendem discursos meritocráticos que costumam valorizar excessivamente os vitoriosos de espírito essencialmente empreendedor, o filme de Anderson se ocupa em mostrar parte da origem desse sentimento, capaz de fazer com que se ignorem até mesmo as mortes decorrentes de severas condições de trabalho, já que está em vista um "bem maior". Em meio a cenas engraçadas e inacreditavelmente nonsense - como aquela que vemos em uma pista de boliche em uma mansão - há também uma crítica a um modelo que se aplica até hoje e que, no fim das contas, prejudica apenas um lado.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Pérolas da Netflix - Catfight (Catfight)

De: Onur Tukel. Com Sandra Oh, Anne Heche, Alícia Silverstone e Amy Hill. Comédia / Drama, EUA, 2016, 99 minutos.

Catfight (Catfight) é aquele tipo de comédia que foge do comum, especialmente pelo fato de extrair humor do inusitado. Aliás, não são poucas as sequências em que não sabemos se estamos rindo de nervoso ou por achar aquilo que assistimos verdadeiramente engraçado! A trama nos apresenta a duas pessoas completamente distintas que têm em comum o fato de terem sido colegas de faculdade. Veronica Salt (Sandra Oh) é a "esposa troféu" casada com um magnata, que é empresário do ramo de recolhimento de lixo e que acaba de fechar um contrato no Oriente. Já Ashley Miller (Anne Heche) é uma artista plástica em ascensão, que utiliza as suas obras para fazer a crítica à sociedade e ao american way of life. Duas figuras diametralmente opostas que se reencontrarão em meio a um aniversário. E as feridas abertas pelas diferenças entre elas serão o catalisador para algumas das mais surpreendentes cenas de luta (!) do cinema recente.

Basicamente o diretor Onur Tukel utiliza a briga entre as protagonistas para fazer a crítica a este mundo de extremos que vivemos, em que somos incapazes de aceitar ou conviver com aqueles que são ou que pensam de uma forma diferente da nossa. Veronica, muito provavelmente uma republicana, é a favor da guerra e da defesa do "cidadão de bem", especialmente pelo fato de o seu marido ganhar rios de dinheiro com a política armamentista americana. Já Ashley, certamente uma democrata, utiliza seus quadros cheios de cores vivas e de iconoclastia para fazer o provocativo contraponto. Quando estes pensamentos tão antagônicos batem de frente, há o choque, o conflito. E, como tudo na vida, o roteiro nos mostra que nem sempre os culpados pelos nossos problemas são os outros e que, sim, as coisas podem mudar inesperadamente de uma hora para outra.



A despeito do pano de fundo político/social é um filme absolutamente leve e despretensioso de se assistir. Mas que está o tempo todo tecendo bem-humorados comentários a respeito do sentimento de alienação generalizada que vivemos nos dias de hoje - algo reforçado pelo estúpido programa de televisão que mostra um sujeito peidando e que perdura pelos mais de quatro anos em que a história se desenrola. Com personagens secundários como a (ex) empregada doméstica de Veronica, a película também se ocupa de lembrar que, como dizia Paulo Freire, "se a educação não for libertadora, o sonho do oprimido será o de ser o opressor" - e certamente os anos de convivência com a família burguesa de Veronica fazem a mulher ser a favor da guerra e de outras políticas anacrônicas. Por outro lado a tia Charlie (Amy Hill), com sua existência pacata e riponga em meio as árvores, parece ser a única personagem lúcida da história. E há ainda a Alícia Silverstone como a namorada de Ashley e, confesso, fazia anos que não a via em um filme.

Cheio de idas e vindas o filme ainda utiliza a trilha sonora cheia de composições clássicas - de Beethoven, Bach, Mozart - de forma criativa e eficiente. Um dos melhores exemplos desse uso ocorre durante uma vernissage de Ashley que, inevitavelmente, acabará mal. Na sequência a trilha escolhida é a conhecida suíte In The Hall Of The Mountain King, de Edvard Grieg, que com seu baixo crescente e explosão orquestral forma o combo perfeito para uma das mais engraçadas cenas do filme, que culminará em uma disputa em uma borracharia. Ainda que haja ecos de outros diretores - impossível não pensar em Tarantino ou nos Irmãos Coen - e uma verdadeira homenagem a um elenco lembrado apenas por séries (ou até mesmo esquecido), o caso é que o filme de Tukel tem personalidade e injeta certo frescor a um gênero que, normalmente, é visto com desconfiança.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Na Espera - Nasce Uma Estrela (Filme)

Ainda é cedo para afirmarmos quais serão as obras que estarão entre as indicadas na próxima edição do Oscar, mas, ainda assim, uma coisa é certa: o lobby para que o primeiro filme dirigido pelo ator Bradley Cooper esteja entre eles é grande. A trama de Nasce Uma Estrela (A Star Is Born) - refilmagem da película de mesmo nome lançada em 1976 - é convidativa e narra a história da jovem cantora Ally (Lady Gaga), que ascende ao estrelato ao mesmo tempo em que o seu parceiro Jackson Maine (o próprio Cooper), um renomado artista de carreira consolidada, cai no esquecimento devido aos problemas relacionados ao consumo de álcool. E é claro que os momentos opostos na carreira acabarão por minar o relacionamento amoroso dos dois.



O trailer equilibra bem as cenas de bastidores envolvendo as apresentações de ambos com outras do relacionamento deles - ainda que não se aprofunde mais na história em si e sobre como o contraponto entre os momentos vividos por ambos afetará a vida dos dois. O elenco tem como atrativo a presença de outras figuras interessantes, como o comediante Dave Chapelle e o veterano Sam Neill. Mas confesso que a curiosidade mesmo é ver Gaga atuando e, levando-se em conta somente aquilo que vemos no teaser, não será surpresa uma indicação para a premiação máxima do cinema. Bom, a obra estréia por aqui no próximo mês, no dia 11 de outubro, e, por aqui, estamos Na Espera!

Cinema - As Herdeiras (Las Herederas)

De: Marcelo Martinerssi. Com Ana Brun, Margarita Irún, Ana Ivanova e Maria Martins. Drama, Paraguai / Alemanha / Noruega / Brasil / França / Uruguai, 2018, 98 minutos.

As Herdeiras (Las Herederas) é um filme que aposta na sutileza para apresentar a jornada de transformação de sua protagonista. Ao invés da janela escancarada, a fresta. Ao contrário da gargalhada farta, o sorriso de canto de boca. Sai a luz ostensiva entra a penumbra melancólica. Há muita sugestão e pouca obviedade - sensação reforçada pelo contexto em que todas as personagens estão inseridas. A trama, dirigida por Marcelo Martinessi, gira em torno de Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún) que vivem em uma casa opulenta (ainda que decadente) de um bairro rico no Paraguai. Herdeiras de famílias abastadas, vendem seus bens como forma de equilibrar as finanças. Tudo muda quando Chiquita é presa por sonegação fiscal e Chela se vê sozinha, sem a companheira de muitos anos (aliás, é nos detalhes que percebemos que ambas são um casal, já que parece haver um claro distanciamento emocional entre elas).

Diante dessa "novidade" em sua vida, Chela é surpreendida, certo dia, por um pedido da vizinha Pituca (Maria Martins): lhe conduzir até o subúrbio para um jogo de cartas envolvendo senhoras ricas e mais preocupadas com a vida dos outros do que com as suas próprias. Será nessas idas e vindas - como uma espécie de Uber da terceira idade - que Chela conhecerá a interessante Angy (Ana Ivanova). Angy é mais nova e é um espírito livre. Tem relacionamentos fracassados, mas tem personalidade forte. E isto tudo interessará Chela, que projetará nela a vida que, certamente, nunca teve. A cada carona para Angy auxiliar a sua mãe em um tratamento de saúde em um bairro localizado fora da cidade, a intimidade entre elas aumentará. Ao passo que cada visita torta a Chiquita, na prisão feminina em que esta se encontra, lhe distanciará cada vez mais da parceira.



O filme utiliza algumas metáforas que podem parecer até óbvias mas que, dentro da narrativa, funcionam de forma eficiente. A casa decrépita que vai perdendo os seus objetos - mesas, quadros, aparelhos de jantar -, vai dando lugar a um ambiente vazio mas surpreendentemente novo, como se também no íntimo da protagonista ela fosse impelida a se desfazer daquela vida que não lhe é mais suficiente, saindo da zona de conforto. Nesse caso a mansão vazia funcionando como uma representação da renovação. Da mesma forma, as roupas discretas e sem vida da Chela casada (e acomodada) vão dando lugar as vestimentas mais coloridas, leves e primaveris, que dão conta do estado de espírito da mulher, a cada novo encontro com Angy. O carro que circula pela cidade (e sai da garagem em certa altura da película) também reforça a ideia de que estamos diante de alguém que está mudando sua forma de pensar, seus interesses e prioridades - e, vamos combinar, nunca é tarde pra viver a vida.

Como um filme paraguaio - aliás, já falamos por aqui sobre a escassez de películas vindas desse País - as diferenças sociais e os contrastes entre as famílias mais abastadas e as mais pobres beiram o constrangimento (e, nesse sentido, ponto para a atriz Maria Martins, que transforma a sua Pituca em uma figura absolutamente escabrosa). Por outro lado, todas essas nuances - o homossexualismo, as políticas que privilegiam ricos - são apresentadas de forma discreta, oblíqua, quase de canto de olho (como ocorre em alguns enquadramentos). Dramático e divertido em igual medida, As Herdeiras reúne ainda uma verdadeira coleção de prêmios mundo afora - em Gramado foi Melhor Filme do Jurí Oficial, além de ter faturado os prêmios do Público e da Crítica e em Berlim Ana Brun foi agraciada com o Urso de Prata na categoria Melhor Atriz. O que definitivamente, não é pouco.

Nota: 8,0

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Grandes Cenas do Cinema - O Iluminado (The Shining)

Filme: O Iluminado
Cena: Heeeere's Johnny!!

Uma revisão em O Iluminado (The Shining) nos faz perceber que, sim, este é um filme menor na carreira do diretor Stanley Kubrick - e não é por acaso que a obra, à época, recebeu duas indicações para o Framboesa de Ouro (nas categorias Pior Filme e Pior Atriz, para Shelley Duvall). Aliás, atualmente, é público e notório que o próprio Stephen King não gostou do resultado final e nem da atuação de Jack Nicholson que, com a sua falta de sutileza, transforma o seu Jack Torrance em um psicopata em potencial desde os primeiros minutos da película. Mas, mesmo com tantos problemas, o filme é adorado por muitos, contando com uma série de cenas icônicas - entre elas a do garotinho que percorre com um triciclo os corredores do hotel Overlook (local em que a trama acontece), a da máquina de escrever com a frase all work and no play makes Jack a dull boy e a da perseguição em uma espécie de labirinto feito com arbustos, na parte externa do local.



Mas é provável que poucas cenas do filme (e talvez até da história do cinema) sejam tão lembradas e parodiadas quando aquela em que Jack, perseguindo a esposa Wendy (Duvall), abre a machadadas a porta de um banheiro para, em seguida, colocar a cabeça por entre a abertura, gritando a inesquecível frase "heeeeeere's Johnny!". A sequência em questão ocorre no terceiro ato do filme e ocorre no momento em que a personagem de Jack Nicholson está no auge da paranoia provocada pelo isolamento e pela pressão de escrever um novo livro (o que leva a família ao hotel). Conforme os dias passam no local, Jack vai se tornando mais agressivo, ao passo que o seu filho (Danny Lloyd) passa a ter visões apavorantes de acontecimentos ocorridos no passado e que também teriam sido causados pela opressão provocada pela sensação de isolamento.

Improvisada por Nicholson, a cena faz alusão a um bordão usado pelo ator Ed McMahon no programa The Tonight Show - Starring Johnny Carson, que era exibido no começo dos anos 80. De lá para cá, a despeito dos problemas apresentados pela película - que vão da péssima interpretação de Duvall ao roteiro que não deixa margem para qualquer sugestão - a obra é permanentemente lembrada pela opulenta face de Nicholson que espreita através da porta, com seu olhar psicótico e sorriso idem. Macabra e capaz de fazer gelar o sangue de qualquer espectador - a trilha sonora e a edição apavorantes também contribuem para essa sensação -, a cena é imitada em programas de humor, videoclipes e jogos de videogame, tendo um peso semiótico (e de suspense e pavor) que só é capaz de ser superado pela cena do chuveiro, em Psicose (1960). Nesse sentido, é o complemento perfeito para uma das mais claustrofóbicas obras sobre "bloqueio criativo" que se tem notícia.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain)

De Jean Pierre Jeunet. Com Audrey Tautou, Robert Gendreu e Mathieu Kassovitz. Fantasia / Comédia / Romance, França, 2001, 121 minutos.

Na categoria dos feel good movies é provável que poucas obras sejam tão queridas pelo público quanto O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain) - fábula fantasiosa do diretor Jean Pierre Jeunet, que conta com uma carismática protagonista que não hesita em ajudar os outros, ao mesmo tempo que busca encontrar o grande amor de sua vida. É um filme colorido, leve e absolutamente gostoso de assistir, daqueles que transitam por gêneros diversos, nos fazendo rir e chorar em igual medida. Sua trilha sonora inesquecível (e indicada ao Oscar) encontra o equilíbrio perfeito na fotografia primaveril e de cores quentes (que também foi nominada pela Academia), capaz de denotar um estado de espírito generalizado de otimismo que, em tempos de ódio, preconceito e intolerância, é mais do que bem-vindo. E há o roteiro, cheio de frases de efeito espirituosas e diálogos excitantes que se harmonizam com uma montagem didática e cheia de charme.

Sim, é difícil resenhar uma obra-prima moderna como esta, sem enchê-la de elogios. Sem considerá-la diferente e cheia de personalidade, com uma vivacidade que salta a tela. E que nos envolve de maneira quase comovente. A Amélie do título é vivida por Audrey Tautou como uma garota curiosa, de olhar maroto e sorriso esperto - a despeito do distanciamento afetivo do pai e da trágica morte da mãe, quando ela ainda era jovem. No bairro em que mora, encontra uma caixa escondida no banheiro de sua casa - cheia de relíquias de infância que provavelmente pertenceu a algum antigo morador. Decidida a encontrar o dono da caixa, Amélie chega até Dominique (Maurice Bénichou), que chora de alegria ao tomar contato com tantos objetos que lhe trazem boas (e nostálgicas) memórias do passado. Embevecida por um certo sentimento de euforia por ter "feito o bem", a protagonista decide ajudar, com pequenos gestos, aqueles que a rodeiam. Sim, acredite, a trama é essa.



Em sua volta estão uma série de personagens excêntricos, que mais parecem saídos de algum tipo de devaneio fantasioso e onírico. Entre eles a colega de trabalho hipocondríaca, o feirante mal humorado, o ex-namorado ciumento, o vizinho que sofre de uma severa doença nos ossos que lhe impede de sair para a rua, um escritor fracassado e o próprio pai que, agora aposentado e distante dos prazeres da vida, busca significado em objetos prosaicos, como um anão de jardim (e, diga-se de passagem, a ideia de Amélie para incentivar o pai a viajar pelo mundo, e que envolve a pequena estátua, é uma das melhores partes)! E há também o sujeito que coleciona fotografias descartadas e rasgadas de uma cabine de fotos e que despertará grande curiosidade em Amélie, sendo peça chave da história. Nesse sentido, consiste-se em uma obra de personagens e de personalidades que, por mais expansiva que possa parecer, também vai no íntimo de cada um deles para revelar suas fraquezas, anseios e necessidades. Necessidades que todos têm, inclusive a protagonista.

Como uma coleção de retalhos sobre diversas vidas, a obra aposta no poder da edição - do som e da imagem - para transformar o filme em uma experiência (também) sensorial. Não é por acaso que, ao assistirmos um homem ao estourar um plástico bolha ou a protagonista colocar a mão dentro de um saco de grãos, imediatamente pensamos naquilo que gostamos ou não ou que nos dá prazer (por mais simples que as coisas sejam). É claro que na busca de Amélie pela felicidade haverá percalços, angústias e decepções. Mas assim é a vida e será fazendo o bem que ela também encontrará a felicidade. Indicada ao Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro na cerimônia de 2002, a película perderia o prêmio para o bósnio Terra de Ninguém (2001). Ainda assim o seu universo enigmático e delirante - que amplia as experiências testadas anteriormente por Jeunet nos igualmente divertidos Delicatessen (1991) e Ladrão de Sonhos (1993) - permanece vivo na mente de qualquer cinéfilo.


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Tesouros Cinéfilos - Filhos da Esperança (Children Of Men)

De: Alfonso Cuarón. Com Clive Owen, Juliane Moore, Clare-Hope Ashitey e Michael Caine. Drama / Ação / Ficção científica. EUA / Reino Unido, 2006, 109 minutos.

No cenário pós-apocalíptico apresentado na ótima ficção científica Filhos da Esperança (Children Of Men) as mulheres não conseguem mais engravidar. O por quê? Ninguém sabe. Os pesquisadores especulam sem sucesso. Poluição? Aquecimento global? Algum tipo de vírus? Ou o excesso do uso de agrotóxicos? Difícil adivinhar, mas o caso é que no cinzento mundo de 2027 a pessoa mais jovem do planeta é um jovem argentino de 18 anos, quatro meses e alguns dias que, por se recusar a atender os "fãs", acaba assassinado no começo da película. Imagens do Baby Diego (como era conhecido) são reprisadas em todos os canais e a humanidade convive com o medo crescente de assistir a sua própria extinção. A sensação de caos é ampliada por uma espécie de permanente "crise de refugiados" - talvez fruto de algum tipo de guerra ou de escassez de recursos. Uma bomba explode em um bar da cidade e o burocrata Theodore (Clive Owen) escapa da morte por pouco. É só o começo.

Após um encontro com o amigo e cartunista aposentado Jasper (Michael Caine ótimo, em estilo riponga), Theo é procurado (ou sequestrado) por sua ex-esposa Julian (Juliane Moore), uma ativista social que solicita que o homem lhe ajude com os documentos de uma refugiada. Há segredos relacionados ao passado envolvendo os dois e a oferta de uma quantia de dinheiro fará com que ele aceite a "missão". Após ser atacado por um "falso" bando de nacionalistas (na verdade o ataque é perpetrado por revolucionários chamados de Peixes), o protagonista descobrirá que a refugiada, de nome Kee (Clare-Hope Ashitey), está grávida de oito meses. A gravidez certamente despertará a atenção de muita gente - Estado, forças armadas, grupos extremistas - e caberá a Theo a tarefa de auxiliar a jovem a chegar ao Tomorrow (embarcação de nome sugestivo), que lhe conduzirá em direção aos Açores, onde pesquisadores trabalham no chamado "Projeto Humano", que busca a cura para a infertilidade. Ufa!



Sim, há bastante informação o tempo todo nessa pequena obra-prima moderna do diretor Alfonso Cuarón que, somente pelo fato de fazer a crítica à forma como utilizamos a tecnologia e os nossos recursos - e sobre como, consequentemente, poderemos acabar com o mundo em que vivemos por causa disso -, já mereceria todo o crédito. Mas Filhos da Esperança também é uma verdadeira obra de arte do ponto de vista técnico. Com o uso quase ostensivo de uma câmera subjetiva e com a adoção de longos planos sequência - aquele dentro de um carro é inacreditável de tão bem feito - o diretor parece nos colocar DENTRO da ação. Já a fotografia (cortesia de Emmanuel Lubezki) adota uma paleta de cores permanentemente acinzentada, capaz de denunciar o estado de espírito de praticamente todos aqueles que vemos em tela (aliás, vocês já perceberam como nos filmes de ficção científica as metrópoles geralmente são frias e acinzentadas?). Já a inesquecível trilha sonora é cheia de peças modernas e caóticas de artistas como Aphex Twin e Radiohead.

Ao equilibrar momentos mais contemplativos com outros em que há grandes doses de ação, Cuarón também cria uma dinâmica bastante particular para a sua película - que trafega com graça por momentos mais descontraídos (como aquele em que é contada uma piada envolvendo cegonhas) com outros, envolvendo mortes, tiros e explosão. E se o componente social quase salta da tela (a questão dos imigrantes ilegais não poderia ser mais atual), a obra também se firma como uma espécie de inesperada elegia religiosa em certa altura do filme - em uma das tantas belas sequências. Indicado ao Oscar nas categorias Roteiro Adaptado (do livro homônimo de P. D. James), Fotografia e Edição nas premiações de 2007, a película ainda brinca ao utilizar a destruição das artes e a iconoclastia como uma metáfora perfeita para uma sociedade que olha com descaso para a cultura e para a educação (que o diga o Michelângelo "perneta", um representativo Guernica, de Picasso, ou a inesperada aparição da capa do disco Animals, do Pink Floyd, que nada mais é do que a referência ao clássico A Revolução dos Bichos, de George Orwell). Simplesmente arrebatador.


Curta Um Curta - O Dia em Que Dorival Encarou o Guarda

Anos antes de se consagrar por obras como O Homem Que Copiava (2003) e Meu Tio Matou Um Cara (2004), o diretor gaúcho Jorge Furtado lançaria essa verdadeira pérola dos curta-metragens gaúchos. À época de seu lançamento - no caso o ano de 1986 -, O Dia em Que Dorival Encarou o Guarda funcionava como uma verdadeira expiação para os "anos de chumbo" que, no Brasil da abertura, recém ficavam para trás. Na trama, o preso Dorival quer apenas tomar um banho e, para tentar alcançar seu objetivo, desafia o soldado, o cabo, o sargento e o tenente responsáveis pela prisão. A dura luta do protagonista na busca de seu objetivo, não sem sofrer com o racismo institucionalizado, nos permite pensar nesta como uma metáfora perfeita para aqueles que não se calaram (e foram até mesmo torturados), durante o Regime Militar. Não é por acaso que, mais de 30 anos depois, essa pequena joia permanece mais do que atual - especialmente em uma época em que convivemos com aberrações políticas como Jair Bolsonaro, que parece legitimar o discurso de ódio, o preconceito e a intolerância, com seu comportamento beligerante.



terça-feira, 21 de agosto de 2018

Picanha.doc - Jogo de Cena

De: Eduardo Coutinho. Com Andréa Beltrão, Marília Pêra, Fernanda Torres e Lana Guelero. Documentário, Brasil, 2007, 105 minutos.

Um dos maiores cineastas brasileiros da história, o documentarista Eduardo Coutinho costumava dizer que "não haveria impulso maior para o ser humano do que ser reconhecido e escutado" - e pode-se dizer que esta sentença moveu grande parte das obras-primas que produziu, de Edifício Master (2002) e As Canções (2011). E foi tomando por base essa premissa que Coutinho lançou em 2007 o clássico moderno Jogo de Cena. Em sua estrutura o filme parece simples: começa com a imagem de um classificado de jornal que convida mulheres maiores de 18 anos residentes no Rio de Janeiro, para contar histórias em um teste para um documentário. Mulheres comuns, simples, cheias de segredos, angústias, anseios, lamentos. Pessoas que têm saudades, arrependimentos, vontades. Pessoas que riem e choram, que pensam antes de falar. Ou não. Que cantam. Que esquecem. Pessoas como eu e você. Imperfeitas, complexas, improváveis.

Mas a beleza do filme de Coutinho não está apenas em ouvir atentamente as histórias - que podem ser a narrativa de uma rapper lésbica que luta para se ajustar em uma sociedade preconceituosa, de uma jovem mãe que ama a sua recém-nascida filha mas que tem a consciência de certa perda da "liberdade" representada pela maternidade ou da mulher abandonada pelo marido e traumatizada em assuntos relacionados ao sexo: está também em burlar os limites entre realidade e ficção, veracidade e fantasia. Na tela também surgem atrizes reconhecidas do cinema e do teatro nacional - como Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Marília Pêra - que interpretarão as mesmas memórias narradas pelas mulheres que protagonizam o filme. As mesmas histórias com outras visões, outras reações, outras expressões. Verdade e, talvez, mentira se cruzando o tempo e nos movimentando como parte desse processo de construção capaz de gerar dúvidas o tempo todo.



No cenário apenas um teatro vazio que permite ver algumas cadeiras também vazias. A câmera em close capta detalhes dos rostos das entrevistadas. Reações imprevistas. Riso seguido de choro. O medo de seu relato soar excessivamente trágico - e perder um filho e tentar reencontrar forças pra viver certamente o é. E quem não tem as suas histórias? Com uma câmera tão franca, Coutinho nos faz perceber que as atrizes, na ânsia de repetir aquelas mesmas histórias tão reais que, para elas, não passam de ficção, se atrapalham. Se confundem. Passam a ter medos e incertezas a respeito de seu ofício. E assim também se desnudam. Se desnudam da mesma forma que a mãe que sonha em se reaproximar da filha ou da filha que se arrepende de ter brigado com o pai que morreria. Em uma obra como Jogo de Cena há espaço sim para a encenação, mas também para a vida real confrontada, na cara limpa, sem maquiagens ou trucagens de interpretação.

Em uma votação realizada por membros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), em 2016, considerou Jogo de Cena o segundo Melhor Documentário Brasileiro da história - atrás apenas de Cabra Marcado Para Morrer (1984) também de Eduardo Coutinho. É muito provável que a sua "brincadeira" prazerosa capaz de modificar a lógica, de repetir eventos e de misturar sentidos tenha sentido determinante para esta escolha. Aliás, talvez não seja por acaso o fato de o crítico francês Jean-Claude Bernardet ter considerado a obra um "abalo sísmico de sete graus na Escala Richter". Sem abuso de recursos, sem explosões mirabolantes, sem uma trama excessivamente exagerada ou cheia de reviravoltas, Coutinho mostra que o poder do cinema está inevitavelmente nas boas histórias. Floreadas ou não, enfeitadas ou não. E que cada um de nós tem uma delas. Basta ligar a câmera para que possamos contá-las. E é dessa forma que a magia se faz.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Grandes Filmes Nacionais - Central do Brasil

De: Walter Salles. Com Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Othon Bastos e Matheus Nachtergaele. Drama, França / Brasil, 1998, 105 minutos.

Lançado há 20 anos, Central do Brasil segue até hoje sendo um dos filmes mais importantes da retomada do cinema brasileiro, que iniciou em meados dos anos 90. Não apenas pelo sem fim de premiações que recebeu - foi consagrado o Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro e foi Urso de Ouro no Festival de Berlim, só pra citar dois exemplos -, mas também pelo retrato desalentador e urgente de um povo que se esconde nos áridos rincões do Nordeste e/ou que convive com a pobreza dos grandes centros urbanos. E, ainda que o contexto seja de desesperança durante as quase duas horas de projeção, pode-se dizer que a obra máxima do diretor Walter Salles (que mais tarde filmaria Diários de Motocicleta) também é uma emocionante película sobre a amizade. E também sobre o poder transformador de nossas atitudes, capazes de modificar a vida daqueles que nos rodeiam para sempre.

Na trama somos apresentados a Dora (Fernanda Montenegro), professora aposentada (e bastante rabugenta) que complementa a sua renda escrevendo cartas para analfabetos na estação ferroviária que dá nome ao filme e que fica no Rio de Janeiro. Sem muita paciência com os seus clientes, Dora muitas vezes sequer envia as cartas que escreve, destinando-as ao lixo ou a uma gaveta (que dificilmente será revisitada). Em meio a sua rotina surge uma mulher de nome Ana (Sôia Lira) que,  acompanhada do filho Josué (Vinícius de Oliveira), tem a intenção de escrever uma carta para o ex-marido que reside no Nordeste, já que o filho sonha em conhecê-lo. Só que no momento em que está saindo da estação, Ana se distrai e é atropelada por um ônibus, deixando o menino no local. É nesse momento que, aos trancos e barrancos e, bastante a contragosto, Dora se aproximará do menino para tentar ajudá-lo a encontrar o pai.



Evidentemente que a tarefa não será fácil. Quando decidem rumar para o sertão nordestino, a nova (e improvável) dupla não tem sequer a certeza de que encontrará o endereço deixado por Ana. Com pouco dinheiro, dependerão da ajuda de outras pessoas - como no caso do caminhoneiro César (Othon Bastos) que, inicialmente amistoso, abandonará a dupla pela estrada quando perceber que a escritora está se apaixonando por ele. Nesse sentido, a película é cheia de idas e vindas e pequenas decepções (e reviravoltas) que ampliarão a sensação de isolamento e o sofrimento daqueles que assistimos. Mas como numa espécie de movimento inverso, quanto mais aprofundada e difícil se torna a viagem da dupla pelas vastas e áridas planícies do Nordeste - num verdadeiro road movie tupiniquim -, maior será a nossa empatia com eles. E não é por acaso que cada pequena conquista será celebrada, nem que esta seja uma maior aproximação entre Dora e Josué, conforme os dias avancem. Ou mesmo o indicativo de que a casa que procuram possa estar próxima.

Com interpretações assombrosamente naturalistas - não é por acaso que Fernanda Montenegro recebeu o Urso de Prata na categoria Melhor Atriz no Festival de Berlim e foi indicada ao Oscar na mesma categoria - a obra-prima ainda conta com uma série de personagens secundários interessantes, como no caso da melhor amiga de Dora, Irene (Marília Pêra) e o possível irmão de Josué, Isaías (Matheus Nachtergaele). E se a primeira servirá como um inesperado alívio cômico, o segundo inevitavelmente emocionará conforme as verdades vierem a tona. Com uma fotografia acinzentada no primeiro terço e empalidecida (e amarelada) do meio para o fim - cortesia do diretor de Fotografia Walter Carvalho -, a obra ainda utilizará o recurso, bem como a sua inesquecível trilha sonora que mescla piano e cordas, assinada por Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum, como forma de evidenciar o estado de espírito daqueles que assistimos.


E se o componente social quase salta a tela - nunca é demais lembrar que o filme se passa durante a gestão FHC, período em que a inflação e a pobreza extrema atingiu números estratosféricos no País -, há também espaço para a crítica ao reacionarismo nauseante (cortesia do personagem Otávio Augusto, policial que não hesitará em assassinar um trombadinha por este ter furtado um pequeno aparelho de som de uma das bancas da Central). E, nesse sentido, a obra é inteligente ao mostrar a natureza sombria desse integrante da "família de bem" que, não surpreende, tem ligação com o tráfico de menores. Em um período em que, as vésperas das eleições, o País naufraga em uma de suas maiores crises - fruto de um Golpe que faz com que o trabalhador se fragilize e fique vulnerável socialmente - um filme como Central do Brasil permanece mais do que atual, em sua alegoria absurdamente tocante da esperança por dias melhores. Algo que nem a derrota para A Vida é Bela (1998), no Oscar do ano seguinte, apaga.