segunda-feira, 18 de junho de 2018

Lado B Classe A - Muse (Black Holes and Revelations)

É muito provável que poucas bandas sejam tão "ame ou odeie" como o Muse. Quem gosta, costuma destacar o virtuosismo do grupo, o seu esforço em soar grandiloquente e pop ao mesmo tempo, sem esquecer do clima retrô/futurista que rege as composições. Quem não gosta, acha Matthew Bellamy um vocalista exagerado e a banda cheia de afetações, com sintetizadores excessivos (e repetitivos) e aquele clima rock de arena farofa capaz de irritar qualquer ouvinte do novo milênio. Para o bem ou para o mal, é um grupo que costuma chamar a atenção - sendo cada novo lançamento aguardado para ser louvado e atacado em igual medida. Aqui no Picanha nosso sentimento é curiosamente misto, já que não morremos de amores pelo quarteto. Mas há bons álbuns, casos de Origin Of Simmetry (2001) e Absolution (2003). Só que o disco que, até hoje, permanece inabalado no coração dos fãs, é o irretocável Black Holes and Revelations, de 2006.

Poucas vezes na história os ingleses parecem ter alcançado tamanha uniformidade em um registro - ainda que cada composição funcione surpreendentemente de maneira isolada. Com aparente consciência daquilo que representa em termos de personalidade no universo musical, Bellamy e companhia parecem se deleitar ao flertar com os mais variados estilos - da eletrônica "alienígena" ao pop radiofônico, passando ainda pelo rock progressivo. Canções como Starlight, por exemplo, não fariam feio em algum registro que compilasse as melhores canções dos anos 80 - ainda que o refrão (aliás, são dois refrões) represente o tipo de "explosão" típica que acompanharia o grupo por toda a carreira. Já Supermassive Black Hole, cantada por Bellamy em falsete, mais parece extraída de algum registro perdido do Prince, ainda no milênio passado (e não poderia haver melhor elogio do que esse, vamos combinar).



Outra canção que chama a atenção é Knights Of Cydonia - que mais parece saída de um daqueles antigos jogos de RPG e que determina o momento exato em que os aventureiros encontram o seu maior vilão - e a sonoridade, que lembra uma espécie de cavalaria se aproximando do espaço sideral, contribui para esse clima. Já Invincible talvez seja uma das mais doces e belas baladas já feitas pela banda - e talvez uma das únicas. Afeito desde sempre aos temas políticos, o Muse utiliza o registro também como um veículo para a crítica social a sistemas opressores e como comentário para uma sociedade tecnológica, fria, individualista e vigiada pelos governos - tipo de estratagema que se ampliaria até a chegada de Drones (2015), mais recente trabalho. Map Of The Problematique fala de maneira escancarada sobre o sentimento de isolamento (A solidão vai acabar / Quando essa solidão vai acabar?). Já Exo-Politics versa sobre teorias da conspiração, em meio a uma sociedade que permanece alienada e letárgica diante de tudo (Enquanto conspirações se espalham / Você irá fechar ou abrir sua mente / Ou permanecer hipnotizado?).

Ainda relativamente longe da pretensão que transformaria a banda quase em uma caricatura dela mesma, anos mais tarde, Black Holes and Revelations ainda é o tipo de disco que envelhece bem e é capaz de traduzir - talvez numa espécie de combo com o multipremiado (e já citado) Absolution (2003) - qual a verdadeira personalidade do grupo. Se aqui e ali, é possível perceber influências de artistas distintos como Queen, Depeche Mode, Radiohead ou o já citado Prince, isto também parece se dar pelo fato de Bellamy. o baixista Chris Wostenholme e o baterista Dominic Howard estarem menos preocupados com o hype. Espontâneo e excêntrico na mesma medida, dançante e cheio de guitarras enérgicas que nos fazem ir do velho oeste ao apocalipse em um piscar de olhos, o registro recebeu uma infinidade de críticas positivas - o semanário New Musical Express deu nota 9 (de 10) e a revista Q o avaliou com cinco estrelas. Já aqui no Picanha, não poderia ser diferente, já que o trabalho é um verdadeiro Lado B Classe A.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Trem da Vida (Romênia)

De: Radu Mihaileanu. Com Lionel Abelanski, Agathe de La Fontaine, Michel Muller e Clément Harari. Comédia / Drama, Romênia / Bélgica / França / Israel / Holanda, 1998, 103 minutos.

Talvez o fato de Trem da Vida (Train de Vie) ter sido lançado apenas um ano depois de A Vida É Bela (1997) tenha ofuscado um pouco o brilho dessa pequena joia do cinema romeno - afinal de contas, dois filmes "seguidos" que apostassem no bom humor ou no clima farsesco na abordagem da Segunda Guerra Mundial, talvez pudesse ser considerado um certo exagero. Mas o fato é que um dos grandes trunfos da obra do diretor Radu Mihaileanu está justamente em sua imprevisibilidade. No espírito anárquico, quase juvenil. No humor excêntrico, nunca óbvio e quase surrealista. O tipo de reinterpretação iconoclasta de um evento tão marcante, que talvez só tivesse sido alcançada anteriormente pela trupe do Monty Phyton. Há rumores de que Roberto Benigni havia sido convidado para dirigir o filme e que este o teria inspirado para a sua grande obra-prima. Vai saber.

A trama nos transporta para a Europa Oriental, no ano de 1941. É lá que a população judaica de uma pequena aldeia fica assombrada com a notícia de que os nazistas estão a caminho e que o povoado será o próximo a ser atacado por eles. A ideia para um engenhoso plano de fuga, surge da mente de Shlomo (Lionel Abelanski), considerado o louco do vilarejo. Ele propõe ao Conselho de Sábios que a comunidade simule uma falsa deportação, com parte dos judeus do local interpretando os "papeis" de nazistas. Dentro de um trem - o tal "trem da vida" do título - os falsos alemães conduziriam os demais integrantes da vila para a Palestina, como se estes fossem "prisioneiros". A ideia, por mais estapafúrdia que seja é levada adiante e mobilizará toda a população local, que deverá não apenas aprender a língua de Goethe, mas também costurar roupas idênticas àquelas usadas pelos nazistas, além de reformar um velho trem para que este fique exatamente como aqueles utilizados pelos integrantes do Reich.



Sim, é um filme nonsense e é pra ser nonsense - daqueles em que, reconhecidamente, temos de entrar no clima da história para que possamos curti-la. O que não é difícil, já que o filme possui um elenco tão entrosado que as piadas fluem quase como se fossem pequenas esquetes que poderiam integrar os melhores programas de humor da atualidade. Por exemplo, como não rir do sujeito que acredita que a Segunda Guerra possa ter começado pelo fato de as pessoas debocharem do sotaque (e do jeito) de os alemães falarem? E a impagável cena em que chega a comunidade o maquinista "contratado" junto ao setor de transportes, que acaba carregado nos braços, após apresentar um livro chamado "Como Dirigir Uma Locomotiva"? E o que dizer da sequência em que o enxadrista da comunidade é consultado para que ele seja capaz de determinar os próximos movimentos dos alemães?

Esses são alguns exemplos de piadas - são outras tantas - que poderiam parecer bobas em um roteiro mal conduzido, mas que acabam sendo absolutamente surpreendentes e divertidas dentro do contexto do filme. Ainda assim, na película não prevalece apenas o humor juvenil, havendo ainda, em seu subtexto, uma severa crítica social as dificuldades que temos de aceitar pessoas com ideias diferentes das nossas. Em certa cena, Esther (Agathe de La Fontaine) reclama do fato de o seu futuro pretendente ser nazista - um falso nazista - e comunista ao mesmo tempo (duas coisas terríveis, de acordo com a personagem e, evidentemente, discrepantes). Aliás, a existência de uma dissidência comunista entre os judeus, provoca um curioso fenômeno, que faz com que os falsos nazistas passem a se comportar de maneira mais autoritária, quase como se fossem, de fato, os alemães de verdade. (situação que faz com que, inevitavelmente, nos lembremos de obras como A Revolução dos Bichos, de George Orwell).


[SPOILER] Próximo de completar 20 anos de seu lançamento, O Trem da Vida segue sendo não apenas um divertido "filme de guerra", que tira sarro de todos os sistemas e modelos totalitários juntos, mas também um ousado manifesto sobre o poder da imaginação - e não é por acaso que, até hoje, a cena final da obra se constitui em uma das mais desalentadoras e melancólicas da história do cinema. O tipo de sequência muito semelhante aquela que assistimos na conclusão do já citado A Vida É Bela - quando a morte do protagonista nos dá o choque de realidade necessário para que percebamos que, na guerra, não há espaço para a fantasia. E que os nazistas fictícios e estúpidos, que aparecem como imagens difusas na cabeça de Shlomo, nada mais são do que fruto de sua mente. Simplesmente inesquecível.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Show de Truman (The Truman Show)

De: Peter Weir. Com Jim Carrey, Laura Linney, Natasha, McElhone, Ed Harris e Paul Giamatti. Comédia dramática / Ficção científica, EUA, 1998, 107 minutos.

Poucas vezes a nossa capacidade quase infinita para o culto a (sub)celebridades descartáveis - ou não - foi tão bem retratada quanto no clássico moderno O Show de Truman (The Truman Show). Pouco antes da febre chamada Big Brother tomar conta das televisões mundo afora, a obra do diretor Peter Weir (A Testemunha), anteciparia a onda de reality shows que tentariam a todo o custo atrair a atenção do telespectador do novo milênio - tão curioso pelo excêntrico, pelo diferente e pela vida alheia, claro. Hoje em dia existe reality show pra tudo - pra se tornar o melhor chef, pra ser a melhor drag queen, o melhor cantor. No caso da obra de Weir, o protagonista Truman Burbank (Jim Carrey) também está em um programa desse tipo. Mas sem ter consciência disso já que, desde o seu nascimento, ele é monitorado durante as 24 horas por dia por cinco mil câmeras, com a sua existência resumida a uma rotina repetitiva, em uma espécie de cidade fictícia que fica em uma ilha.

Astro principal do reality sobre a sua própria vida, Truman é acompanhado há quase 30 anos por espectadores de todo o mundo, já que o programa é transmitido durante as 24 horas do dia. Para manter a audiência, além das ações rotineiras - como a ida ao trabalho ou o contato com vizinhos e conhecidos nas ruas (todos atores figurantes) - o diretor da atração Christof (Ed Harris) insere, aqui e ali, fatos marcantes, como o festejado casamento ou a traumática morte do pai de Truman (o que explica a aversão do sujeito a água, já que o homem morre afogado quando o barco em que utilizam é atingido por uma forte tempestade). Tudo de mentirinha, claro. Assim como são de mentira os programas de rádio, as notícias que são publicadas nos jornais, o clima, os acontecimentos do trabalho e até as ruas, que mais parecem saídas de alguma maquete de feira de ciências.



Só que aos poucos Truman passará a desconfiar de sua condição, já que nunca será dada a ele a oportunidade de sair da ilha, havendo sempre um motivo que o impeça (um ônibus quebrado, um vazamento radioativo ou alguma reação motivada pelos seus traumas). O seu sonho de ir a Fiji para um eventual encontro com a paixão juvenil Sylvia (Natasha McElhone) também será barrado de todas as formas. E a desconfiança do protagonista só aumentará quando a equipe de produção de Christof cometer alguns lapsos, como na cena em que um holofote cai sobre o cenário ou na sequência em que um backstage é revelado. Isso sem contar o inexplicável reaparecimento do pai de Truman, anos depois de ele ser dado como morto. E será ligando todos esses pontos, que Truman será capaz de reconhecer o tipo de jogo sórdido em que está envolvido.

Equilibrando comédia e humor na medida certa, O Show de Truman trazia, à época, um Jim Carrey pela primeira vez menos engraçado e caricatural - e até mais comovente (sendo praticamente impossível não se emocionar em suas cenas mais redentoras, cheias de metáforas sobre o necessário questionamento a respeito do status quo e também do sistema a que, nós mesmos, estamos presos). Da mesma forma, Laura Linney como a esposa Meryl, entrega uma ótima caracterização. De forma metalinguística, entrega um "papel" de amplo profissionalismo, sendo especialmente divertido ver ela sugerindo uma série de produtos ao marido, com o único objetivo de fazer merchandising. Já Ed Harris, como o vilão onisciente e onipresente, parece ter plena consciência do fato de que o show por ele projetado pode ter, sim, data para terminar. Um tipo de comportamento que o torna um sujeito mais complexo. E menos maniqueísta.


Quase 20 anos após o seu lançamento, O Show de Truman segue sendo uma obra absolutamente saborosa de ser assistida e chega a surpreender o fato de que, em um mundo tão tecnológico (como o que a própria película critica), ela mesma tenha envelhecido tão bem. O filme nunca parece datado ou excessivamente nostálgico. Ao contrário, traz um subtexto tão possível, que não surpreenderia, mesmo nos dias de hoje, o anúncio de um programa que repetisse o formato proposto pela equipe de Christof. Vai saber. Seria mais um reality em meio a tantos. [SPOILER] Nesse sentido, é possível dizer que a cena final, em que uma dupla de espectadores conversa sobre o que "estaria passando em um outro canal" assim que o programa de Truman finalmente termina, nada mais é do que um resumo de nosso comportamento enquanto consumidores, diante da telinha. Essa caixinha mágica que nos faz rir, chorar e se emocionar. E ficar presos, por meses, as vezes anos, a uma mesma atração.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Tesouros Cinéfilos - Adeus, Lênin! (Goodbye, Lênin!)

De: Wolfgang Becker. Com Daniel Brühl, Katrin Sab, Chulpan Khamatova e Florian Lukas. Comédia / Drama, Alemanha, 2003, 121 minutos.

Passados quase quinze anos de seu lançamento, o clássico moderno Adeus, Lênin! (Goodbye, Lênin!) costuma ser muito mais lembrado pelo contexto político - a trama se passa nos dias em que Berlim estava dividida entre os lados ocidental e oriental - do que como uma obra singela sobre a relação entre mãe e filho. A história retorna para o ano de 1989, durante a Guerra Fria, para nos apresentar à senhora Kerner (Katrin Sab). Diplomata e ativista política pelo Partido Comunista ela tem um ataque cardíaco e entra em coma, após presenciar o seu filho Alex (Daniel Brühl) em uma passeata a favor do regime capitalista. Nos meses em que fica desacordada, ocorre a queda do muro que separava a capital alemã, o que representa uma profunda mudança no lado oriental. Só que quando a senhora Kerner acorda do coma, o médico alerta Alexander para os riscos que emoções extremas possam representar para a matriarca. Mas como "esconder" dela os acontecimentos?

A trama é engenhosa e exige de Alex uma sofisticada logística para que ele possa recriar a Berlim Oriental no entorno da mãe, após a queda do muro - o que envolve desde os tipos de móveis e o papel de parede utilizado na casa da família, até a marca de pepino que ela irá consumir. Os programas de televisão, antes exibidos pela TV estatal também serão recriados com o apoio de Denis (Florian Lukas), que sonha em trabalhar atrás das câmeras. E será justamente a farsa alimentada com o apoio de todos da família - a matriarca não pode nem sonhar com o fato de que, após a queda do muro, a filha (Chulpan Khamatova) já começa a trabalhar uma uma filial do Burger King - que renderá uma série de momentos divertidos, como no caso da sequência em que assistimos a um grande banner da Coca Cola ser desenrolado em um prédio vizinho enquanto a senhora Kerner observa incrédula a ocorrência.



É um filme, no fim das contas, sobre o esforço de um filho em dar uma sobrevida para a já calejada mãe - e de seu esforço em manter as crenças da matriarca inabaladas, ainda que de maneira ficcional. Sem tomar partido em relação aquilo que seria melhor para o mundo - capitalismo ou socialismo - o diretor Wolfgang Becker torna o modelo exibido por Alex e seu amigo como uma espécie de ideal do modelo sonhado pelo lado Oriental, capaz de pensar na sociedade como um ente mais justo, igualitário e capaz de respeitar os modelos políticos diferentes (como no caso da fictícia sequência em que o lado oriental recebe refugiados vindos do outro lado da cidade). Já o capitalismo surge como uma novidade oxigenada, capaz de transformar os jovens alemães em uma massa de yuppies alienados, apenas preocupados com o trabalho e com o dinheiro (enquanto os idealistas convivem com o desemprego).

Mas o que se sobressai mesmo é a sequência final [SPOILER] em que a senhora Kerner, ao perceber todo o esforço do filho para manter vivo um mundo que já não mais existia (ao menos na Alemanha), olha para ele com ternura, sem jamais revelar o fato de que ela já tinha conhecimento da farsa. Nesse momento se vão embora as diferenças políticas, de pensamento, de visões de mundo - ainda que, é preciso que se diga, Alex pareça participar do protesto do começo do filme sem qualquer tipo de consciência política, tendo a intenção de apenas se aproximar de uma jovem, comendo uma maçã de maneira despretensiosa. Ao tornar um tema tão pesado como a queda do Muro de Berlim em uma obra leve, divertida, singela, tocante, Becker transforma Adeus, Lênin! em um dos filmes mais queridos pela geração que chegou a fase adulta no começo dos anos 2000.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Músicas Gêmeas - Chuck Berry x The Beach Boys

Mais um daqueles "causos" absolutamente divertidos de Músicas Gêmeas e, devo admitir que já me aconteceu de começar a ouvir Sweet Little Sixteen do Chuck Berry no rádio e me dar conta alguns instantes depois de que se tratava na verdade de Surfin USA dos Beach Boys. O instrumental de ambas é tão parecido que é quase impossível notar a diferença logo de saída (ou estou exagerando?). Bom, polêmicas a parte, as canções são tão semelhantes que o vocalista dos Beach Boys Brian Wilson se viu obrigado a creditar Berry no compacto lançado pelo grupo em 1963, após a ameaça de uma ação judicial - afinal de contas a música era muito conhecida. Em tempo, a canção de Chuck Berry, foi lançada há exatos 60 anos (em 1958).



Disco da Semana - Silva (Brasileiro)

Ainda que a opção pela MPB em seu estado mais puro possa representar uma escolha bastante cômoda na carreira do capixaba Silva, parece ser inegável a sua capacidade não apenas de se reinventar - ainda que em um gênero tão consolidado - mas também de se adaptar bem a qualquer estilo. Se nos dois primeiros registros - Claridão (2012) e Vista Pro Mar (2014) - parecia ser inescapável uma empolgação juvenil que se manifestava por meio de sintetizadores ensolarados e versos primaveris (tão saborosos quanto o final de tarde entre amigos na beira da praia), a partir de Júpiter (2015), o que se convencionou com a adoção de uma eletrônica mais intimista foi o velho refrão que diz que "menos é mais". Silva passou a ser mais direto nos versos sobre o amor - tão caros a qualquer um de nós. E, como numa espécie de contraponto, passou a uma abordagem mais discreta, quase tímida - o que aumentou ainda mais o amor dos fãs por ele.

Agora, com Brasileiro, o artista parece prosseguir com esta proposta - a de tocar o coração do ouvinte, mas com sutileza, com carinho, sem exagero. Partindo das beiradas para chegar no centro, assim como fazemos quando deixamos a melhor parte da nossa refeição para o final. Nesse sentido, o registro se apresenta como uma extensão quase natural do material apresentado nas recentes edições de Silva Canta Marisa (2016) e Silva Canta Marisa Ao Vivo (2017). Ainda assim, é preciso que se diga, Silva se apropria de tudo aquilo que existe de melhor na MPB (e também na bossa nova, do samba e de outras vertentes), mas sem deixar de imprimir a sua personalidade a cada uma das composições. “Acho que o disco reflete a forma como eu me enxergo no mundo, e também a maneira como hoje me enxergo brasileiro, profundamente ancorado na esperança do que surgirá de bom de todo esse caos em que vivemos", explica o artista no material de divulgação, como forma de justificar tanto "brasileirismo" em um só trabalho.



Talvez não seja por acaso o fato de o primeiro single, a grudentíssima Fica Tudo Bem, contar com a participação da cantora Anitta, afinal de contas nada mais brasileiro e contemporâneo do que a fusão entre artistas de vertentes tão distintas como o pop, o funk e a eletrônica. Como ocorre na maior parte do registro, a canção de versos delicados, mergulha descaradamente no romantismo confessional provocando a identificação imediata do ouvinte - Amigo, amar alguém a fundo / É coisa séria de querer (de querer) / Cuide de quem te quer e cuide de você (Cuide de você). O expediente se repete em muitas outras canções, casos de A Cor É Rosa (E sempre que eu pensar no meu bem / Vou colorir o dia), Ela Voa (Quem tentar entender o amor / Corre o risco de enlouquecer / O amor não tem solução, é só viver, é só viver) ou Duas da Tarde (Vem cá / Pra fora da cama / São duas da tarde / Vou ali ver o mar). Tudo emoldurado por um clima agradável, de romance febril (e gostoso), daqueles que a gente deseja que nunca termine.

Ainda que, declaradamente, o cantor não tivesse a ambição de transformar o registro em um painel político, assim como fazem tantos outros artistas, a discussão acaba sempre surgindo, aqui e ali, como no caso da inaugural Nada Será Mais Como Era Antes (que tem um poema de Gonçalves Dias como base para a letra) ou Milhões de Vozes (que não deixa de demonstrar certo desalento com a ignorância que se desnuda todos os dias, especialmente nas redes sociais). Ainda assim, entre batidas eletrônicas minimalistas, percussão bem pontuada, corais de vozes, lalaiás e outros efeitos, Silva quer mesmo é falar de amor. E o faz dialogando com nomes tão distintos como Caetano Veloso (Let Me Say), Chico Buarque (Prova dos Nove) e João Gilberto (Duas Tarde). Ouvi dizer / Que é lugar bem bom pra se morar / Quem mora lá / Não quer nem viajar, encerra Silva na derradeira Brasil, Brasil. Nesse País tão bonito cantado pelo capixaba, de fato, não há vontade de sair.

Nota: 8,8

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Grandes Filmes Nacionais - São Paulo Sociedade Anônima

De: Luís Sérgio Person. Com Walmor Chagas, Eva Wilma, Darlene Glória, Ana Esmeralda e Otelo Zeloni. Drama, Brasil, 1965, 106 minutos.

Existe uma cena emblemática do filme São Paulo Sociedade Anônima e que dá conta da completa alienação política/social/cultural com que convivia parte da população brasileira nos anos que antecederam o Golpe Militar no País - a obra do diretor Luís Sérgio Person se passa entre os anos de 1957 e 1961. Nela, o protagonista Carlos (Walmor Chagas) está em um carro com alguns amigos e familiares, que o convidam para cantar alguma música de que goste. A única que ele consegue se lembrar, na ocasião, é o Hino à Bandeira. "Salve o lindo pendão da esperança...", inicia o sujeito, para surpresa de todos. Bom, qualquer semelhança com essa massa burra, ignorante e estúpida que pede o retorno dos militares nos dias de hoje - a tal da intervenção - numa espécie de ufanismo que beira o delírio, não é mera coincidência. E isso que estamos falando de uma obra com mais de cinquenta anos.

Carlos é o tipo de sujeito niilista e hedonista para o qual só existe uma linguagem: a do capital. Experimentando o período de aceleração econômica vivido pelo País - os "50 anos em cinco" do Governo Juscelino Kubitschek - o homem leva uma vida simplória, ainda que confortável do ponto de visto financeiro (ele é gerente em uma indústria da área automobilística). Vagando pela cidade, parece experimentar uma certa descrença generalizada em tudo, enquanto divaga consigo mesmo sobre os seus relacionamentos fracassados e a rotina estável de sujeito de classe média (ainda que cheia de insatisfações). A propósito disso, costuma despejar as suas frustrações, sendo violento, agressivo, machista, justamente nas mulheres que lhe dispensam alguma atenção - entre elas a esposa Luciana (Eva Wilma) e a amante Ana (Darlene Glória). Aliás, não é por acaso que talvez Carlos seja um dos protagonistas mais desprezíveis da história do cinema nacional.



Person filma a cidade, bem como seus contrastes e contradições, como se ela própria fosse uma personagem viva, orgânica. Se por um lado os yuppies brasileiros são mostrados como sujeitos apressados que andam pelas ruas com suas pastas, ternos bem cortados e gravatas, por outro não são poucas as cenas com operários trabalhando pelo crescimento da metrópole. Mas todos eles amparados pela grande cidade, com seus arranha-céus, trânsito urgente, balbúrdia. Os próprios ângulos de câmera escolhidos pelo diretor em muitos momentos geram um efeito meio hitchcockiano, claustrofóbico, como se as andanças de Carlos pela urbe fossem uma metáfora perfeita para definir um sujeito enclausurado e incapaz de escapar de uma rotina repetitiva, cartesiana e de pouca novidade. Aliás, claramente o protagonista talvez não quisesse esse estilo de vida - uma espécie de modelo importado do american way of life. Mas está grudado nele. De forma inescapável.

Servindo ainda como o preâmbulo perfeito para o sentimento de euforia vivido pela população brasileira nos anos que antecederam o Golpe Militar - são muitas as sequências em que a Classe Média é apresentada como um grupo de pessoas capaz de encontrar prazer nas coisas mais "simples" da vida (mas aquelas que o dinheiro compra, como uma viagem ou um passeio de lancha), São Paulo Sociedade Anônima segue sendo muito atual. Como se fosse um verdadeiro documento sobre a importância da consciência política e da educação para o fortalecimento das ideias que regem uma população, a obra foi escolhida, pela sua relevância, como a sétima colocada em uma lista com os 100 Melhores Filmes Nacionais publicada em 2016 pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine). Person realizaria em sua curta carreira alguns outros filmes. Mas poucos com a importância de São Paulo Sociedade Anônima.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Lançamento de Videoclipe - Father John Misty (Please Don't Die)

Um dos aguardados lançamentos do dia é o novo álbum do Father John Misty, intitulado God's Favorite Customer. Após figurar na nossa lista de 25 Melhores Discos Internacionais do ano passado - na oitava colocação, pelo disco Pure Comedy - o americano tem tudo para, novamente, aparecer nas relações de melhores em 2018. Apostando, como sempre, no folk e no pop verborrágico que são a marca registrada de sua carreira, o artista entrega uma nova leva de canções repletas de letras existencialistas com comentários sociais sarcásticos sobre a condição humana. E, como forma de divulgar o trabalho, o cantor disponibilizou nessa semana um videoclipe para a canção Please Don't Die. Dirigido por Chris Hopewell (que já trabalhou com o Radiohead em Burn The Witch), o vídeo em stop motion mostra o músico confrontando a morte após uma ida ao submundo. Vale clicar e conferir!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Novidades em DVD - O Rei do Show (The Greatest Showman)

De: Michael Gracey. Com Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Zendaya e Rebecca Ferguson. Drama / Musical, EUA, 2017, 104 minutos.

O Rei do Show (The Greatest Showman) é o tipo de filme que facilmente conquista a simpatia do público. Pra começar tem um elenco carismático e bem entrosado capitaneado por nomes como Hugh Jackman, Michelle Williams e Zac Efron. Depois, possui uma história de superação de dificuldades, com um claro subtexto sobre a importância de se respeitar as diferenças. Por fim, tem uma série de canções divertidas, cheias de números contagiantes e bem coreografados. Fora o excelente desenho de produção, a montagem dinâmica e outros atributos que nos fazem abrir um sorriso de satisfação durante a projeção.

Baseado em fatos reais (e com uma série de licenças poéticas), o filme conta a história de Phineas Taylor Barnum, empresário do ramo do entretenimento, famoso por enganar o público com as suas peças e considerado um dos pais do modelo de circo que conhecemos hoje em dia (com lona, na rua e com um picadeiro). De origem humilde e, desde a infância sonhando com um mundo mágico, Barnum (Hugh Jackman) desafia o status quo, se casa com a filha do patrão do pai (Michelle Williams) e inicia um projeto para a realização de seu maior desejo: abrir uma espécie de museu de curiosidades. É claro que nem tudo serão flores na jornada do sujeito, que enfrentará dificuldades após o espetáculo fracassar. Sem deixar de lado o espírito empreendedor ele investirá em um novo show, este estrelado por pessoas a margem da sociedade, rejeitadas ou desfiguradas, podendo ser desde o homem mais gordo do mundo, até a mulher barbada.



E é ao perceber que o cidadão de bem americano do começo do século 19 tem curiosidade pelos freaks, que P.T. Barnum encontrará o seu grande filão, enriquecendo, aumentando seu patrimônio e ficando a cada dia mais ambicioso. Até se perder nas finanças, especialmente após apostar todas as suas fichas na cantora de ópera - e potencial "par romântico" - Jenny Lind (Rebecca Ferguson). É a famosa história de ascensão e queda. De aprendizado. De sofrimento. De arrependimento. De precisar dar um passo atrás para rever aquilo que se fez e tentar consertar os erros e se apegar nos acertos. Mas, afinal de contas, quem nunca? E talvez seja por isso que o público de identifique tanto com a película, afinal de contar, acertar e errar é inerente a qualquer um de nós.

A crítica tem dito que o diretor estreante Michael Gracey "romanceou" demais a história, que foi roteirizada por Jenny Bicks e Bill Condom - e que Barnum seria um sujeito muito pior, mais sacana e fraudulento do que aquele que vemos nas telas, sendo difícil simpatizar com ele. E, nesse sentido, não pode haver ironia maior do que sermos "enganados" por uma trama que apresenta o protagonista como um sujeito cheio de truques, mas absolutamente cativante e agradável. (e não é por acaso que se torna quase impossível não nos emocionarmos com sequências como aquela em que o protagonista leva para uma das filhas um "presente" de aniversário) "A arte mais nobre é fazer os outros felizes", já dizia Barnum. É exatamente o que ocorre no decorrer dessa singela película.

Nota: 8,0

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Pérolas da Netflix - Toc Toc (Toc Toc)

De: Vicente Villanueva. Com Oscar Martínez, Rossy de Palma, Paco León, Alexandra Jiménez, Ana Rujas e Adrián Lastra. Comédia, Espanha, 2017, 99 minutos. 

Antes de começar essa resenha eu preciso ir direto ao ponto: poucas vezes na minha vida eu ri tanto assistindo a uma comédia como no caso desse Toc Toc (Toc Toc). Mas não estou falando de sorriso com o canto da boca - como a gente faz quando assiste aos filmes com o Adam Sandler - e sim de gargalhar de chorar de rir, quase de maneira incontrolável. E, particularmente, fico muito feliz quando posso indicar alguma comédia porque, vamos combinar, do jeito que andam as coisas, com tanta desesperança por dias melhores, com tanto caos instaurado, é quase um alento poder encontrar algum motivo, qualquer que seja, para sorrir. E, quem acompanha o Picanha a mais tempo sabe que, aqui, não falta engajamento ou indicação de obras e artistas que rompam com o status quo, que questionem, que provoquem ou que saiam da zona de conforto. E é justamente por isso que, hoje, abriremos essa exceção, afinal de contas, rir também é bom, faz bem.

Toc Toc é, como o próprio nome sugere, um filme sobre pessoas com transtornos obsessivos compulsivos - tipo de perturbação mental provocada por impulsos que nos geram ansiedade ou mal-estar. Entre as mais comuns estão o medo da contaminação por germes que podem levar a doenças, a necessidade de confirmar repetidamente as coisas, falar mais de uma vez a mesma frase ou a tendência organizar objetos em determinada ordem. E é justamente esse o caso dos seis protagonistas da película que, reunidos na sala de espera de um psiquiatra, se verão forçados a encarar os seus problemas para tentar resolvê-los. Mais ou menos como uma espécie de terapia de grupo, uma vez que o médico que deveria lhes atender está em viagem e, no fim das contas, nunca chega.



A história é simples e se passa sempre no mesmo ambiente - a sala de espera do consultório do psiquiatra. Mas o que a torna absolutamente divertida é a forma com que humaniza as fobias que, por mais sérias que possam parecer, são possíveis de serem tratadas - e podem ser inerentes a cada um de nós. Entre os pacientes está Federico (Oscar Martínez) que, com Síndrome de Tourette, solta palavrões e impropérios nas horas mais inadequadas - e não é por acaso que algumas das sequências mais engraçadas da película são com ele. Blanca (Alexandra Jiménez) com mania de limpeza e a religiosa Ana María (Rossy de Palma), que verifica diversas vezes se desligou o gás ou as luzes antes de sair de casa, também têm ótimos momentos. Só que nada funcionaria se não fosse um roteiro espertíssimo, que aposta em diálogos inteligentes e cheios de comentários sociais valiosos sobre a importância de se respeitar o "diferente". É uma Pérola, sem dúvida.

Outro ponto que merece destaque e que torna o filme diferente de tantos outros do gênero é a ágil edição - e é muito provável que uma montagem preguiçosa não conferisse à obra o "frescor" e a urgência que ela apresenta. Misturando ainda elementos de outros gêneros - suspense, drama -, mas sem se levar a sério demais, Toc Toc ainda tem um outro elemento que o torna uma comédia fundamental: o de nos possibilitar assistir de camarote a tantos atores talentosos - Martínez (de O Cidadão Ilustre), Palma (que integrou o elenco de tantos filmes de Almodóvar) - claramente se divertindo em uma comédia imprevisível, debochada, sarcástica, irônica e que ainda conta com uma pequena (e até previsível) reviravolta no final. Em nossa história cinéfila já assistimos a grandes comédias, como Quanto Mais Quente Melhor (1959) e Apertem os Cintos O Piloto Sumiu (1980), pra ficar em dois exemplos. O tempo dirá se o que falo aqui é exagero: mas Toc Toc é tão engraçada quanto as comédias clássicas aqui citadas.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Disco da Semana - Elza Soares (Deus É Mulher)

Do alto de seus 88 anos de idade, a cantora Elza Soares às vezes parece uma espécie de suntuosa divindade vinda de algum lugar que não sabemos qual com o objetivo de, com a sua música, trazer um pouco de alento para tempos tão cheios de ódio, de preconceitos e de intolerância como os que vivemos. Uma voz amplamente necessária, atual e capaz de fazer ecoar o grito dos oprimidos e de todos aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e mais igualitária para todos. Sim, é música política, engajada, desconstruída e com posicionamento. E ainda feita com elegância - escancarando, mas sem esquecer da sutileza, com raiva mas com igual compaixão. É muito provável que Deus É Mulher, seu recém lançado segundo trabalho de inéditas, permaneça para sempre na memória daqueles que apreciam a arte não apenas como entretenimento, mas como peça disruptiva, capaz de provocar, de fazer questionar o status quo e que represente ainda o espírito de nossos tempos - ou o zeitgeist, pra usar uma expressão que está sempre na moda.

Pra começar há a capa, que mostra o rosto de traços fortes de Elza, uma Nefertiti em tons dourados, trazendo em sua semiótica uma mensagem implícita sobre a valoração do indivíduo para além da sua etnia ou cor da pele. Após, há o provocativo título capaz de fazer as "famílias de bem" franzirem os seus conservadores cenhos. Mas não é só isso. O disco, continuação natural de A Mulher do Fim do Mundo (2015) - nosso segundo colocado na lista de melhores nacionais daquele ano - segue sendo um documento forte e controverso, iconoclasta e ousado, capaz de "discutir" política, religião, empoderamento feminino, racismo, desigualdades sociais e outros temas sem nunca soar cansativamente panfletário ou recheado de um proselitismo inócuo. Ah, e há a voz rouca, lânguida e imprevisível de Elza - cheia de curvas e de nuances surpreendentes. Além do trabalho instrumental incendiário, voluptuoso e intenso, que utiliza a batucada para preencher cada lacuna, na mesma medida em que equilibra elementos diversos de outras vertentes como soul, jazz, rock, trap e música eletrônica.



E há as letras. Aliás, eu poderia fazer essa resenha falando apenas das letras que certamente os tradicionais quatro parágrafos que utilizo em cada texto não seriam suficientes. Exú nas Escolas discute a importância do respeito à diversidade religiosa - As escolas se transformaram em centros ecumênicos / Exu te ama e ele também está com fome / Porque as merendas foram desviadas novamente - narra a artista, acompanhada do rapper paulistano Edgar, sem esconder a crítica ao sistema político falido do Estado. Já a poderosa Língua Solta fala sobre um sistema opressor e sobre a necessidade de encarar os tempos sombrios - É dia de encarar o tempo e os leões / Se tudo é perigoso, solta o ar. O empoderamento feminino e o debate sobre igualdade de gêneros também aparecem, explícita ou implicitamente, em praticamente todo o álbum, como no caso de Dentro de Cada Um - A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio / A mulher de dentro de mim cansou de pretexto.

E há o sexo. Assim como ocorria na ótima Pra Fuder, que integrava o disco anterior, ele é tema recorrente para Elza e seus parceiros. Eu Quero Comer Você utiliza o jogo de palavras para narrar a história de uma mulher e de seus desejos, instintos, vontades. Empoderamento em estado bruto! Já Banho - parceria com a Tulipa Ruiz (que fez a letra) - melhor canção do disco, utiliza metáfora para falar do gozo feminino (Minha lagoa engolindo a sua boca / Eu vou pingar em quem até já me cuspiu, viu?) em uma obra-prima que conta com batucada tribal, eletrônica moderna, coral e vozes e um refrão grudentíssimo. Com um timaço de colaboradores, que conta com Rômulo Fróes (direção artística), Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Mariá Portugal (percussão) e Rodrigo Campos (cavaco), o álbum é todo orquestrado pelo produtor Guilherme Kastrin (que também toca bateria), que faz com que o registro tenha frescor e que seja ao mesmo tempo simbólico, impactante, representativo. Definitivamente, o disco do ano!

Nota: 10

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Tesouros Cinéfilos - Body (Cialo)

De: Malgorzata Szmowska. Com Justyna Suwala, Janusz Gajos e Maja Ostaszewka. Comédia dramática, Polônia, 2015, 89 minutos.

Não é por acaso que o filme da diretora polonesa Malgorzata Szmowska (Elles) se chama Body (Cialo) - uma vez que cada uma das três protagonistas possuem algum tipo de relação com o "corpo". A começar pela jovem Olga (Justyna Suwala), que sofre de bulimia e tem dificuldade de aceitar o seu corpo, especialmente após a morte da mãe. Já o seu pai (Janusz Gajos) é um perito que trabalha com criminalística e realiza relatórios para a polícia - o que faz com que se depare, frequentemente, com mortes (e até mesmo corpos dilacerados). Entre os dois está a terapeuta Anna (Maja Ostaszewka), que mistura técnicas corporais com espiritismo, com a intenção de fazer com que os seus pacientes superem eventuais traumas - tendo ela mesma, no passado, perdido o filho de apenas oito meses de idade.

Ainda que a obra pareça excessivamente pesada ou melancólica, há no conjunto uma mistura meio geral de drama, de comédia e até de suspense - especialmente no que diz respeito ao componente religioso do roteiro. O fio condutor da trama é a relação entre pai e filha que, juntos, tentam superar a dor da perda de um ente querido. Emocionalmente distantes, possuem pouca afinidade, o que se estabelece como um dos principais conflitos da narrativa. Ainda assim, a diretora se mostra pouco interessada em transformar a película em um dramalhão sobre a jornada de duas pessoas em busca da redenção - ainda que isso inevitavelmente ocorra, no terço final - e parece muito mais disposta a costurar a película com uma série de pequenas sequências que podem ser divertidas, excêntricas e curiosas na mesma medida.



Por exemplo, como explicar a presença de um cachorro enorme que convive com Anna em um apartamento diminuto? E o que dizer da sequência em que uma mulher de meia idade dança nua, enquanto o protagonista a observa? E a cena em que um homem se enforca e, depois de dado como morto, levanta e sai caminhando como se nada tivesse acontecido? Aqui e ali estão, novamente, questões relacionadas ao corpo que, jogadas na cara do espectador, tem muito mais a ver com a crença na naturalidade da carne do que na existência de um sentido maior (ou ideológico) do corpo enquanto ente político. (e se há uma grande decepção na obra é o fato de ela jamais se aprofundar nos debates em que ela passa de raspão, especialmente em temas como o aborto e a existência ou não de vida após a morte)

Ainda que nunca soe panfletário, o filme aposta forte no componente espírita, devendo cair nas graças dos espectadores que são adeptos da doutrina - e a citação a Divaldo Pereira Franco (e a sua indefectível frase que diz quem "quem ama não fica doente"), acaba sendo a cereja do bolo. Com boas caracterizações e montagem caprichada, a obra anda conta com uma série de enquadramentos oblíquos e ângulos de câmera curiosos, que contribuem para a sensação de estranhamento que rege a película como um todo. (e ver um liquidificador processando ao mesmo tempo massa parafuso e bolo também é um indicativo dessa proposta mais caótica) Méritos para a diretora, que faturou o Leão de Prata no Festival de Veneza de 2015.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Curta um Curta - A Casa de Pequenos Cubinhos (Le Maison En Petits Cubes)

Multipremiado, o curta franco-japonês A Casa de Pequenos Cubinhos (Le Maison En Petits Cubes), não poderia ser mais tocante. Dirigida por Kunio Kato, essa verdadeira joia em formato de curta-metragem narra a história de um velhinho que vive solitário em uma cidade inundada. À medida que a água vai subindo, o idoso se vê obrigado a elevar a estrutura da casa com pequenos tijolos em forma de cubos, que formarão uma "nova" morada acima do nível do lago sobre o qual vive. Só que, em certo dia, enquanto constrói um novo andar para a casa, seu cachimbo cai e vai parar dentro da água, num nível abaixo de onde ele estava morando naquele momento. Apegado ao objeto, ele resolve ir atrás dele. Só que o mergulho em busca do cachimbo também representará uma espécie de nostálgica volta ao passado, com o reencontro de cômodos, objetos e memórias que o farão reviver a história da família.



Nesse sentido, poucos curtas serão tão comoventes quanto A Casa de Pequenos Cubinhos. Utilizando a água como uma viva metáfora para aquilo que fica no passado e que só pode ser revisitado com um "mergulho" nos meandros da memória, o diretor ainda estabelece uma relação entre o sentimento de finitude - capaz de invadir qualquer um de nós, independente da idade - e a construção em que vive o protagonista, que vai se tornando cada vez menor, conforme se aproxima o ocaso de sua existência. Uma obra de traços simples, mas de estética amarelada, melancólica, comovente - sentimento reforçado pela completa falta de diálogos. Não por acaso essa verdadeira obra-prima - disponível (pasmem!) na Netflix, foi a vencedora do Oscar na categoria Curta-Metragem de Animação, nas premiações de 2008. Merece ser visto e revisto!

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Cinema - Ella e John (The Leisure Seeker)

De: Paolo Virzi. Com Helen Mirren, Donal Sutherland, Will Spencer e Janel Moloney. Comédia dramática / Romance, Itália / França, 2017, 112 minutos.

Ella e John (The Leisure Seeker) é daqueles filmes simpáticos de ver e que são ideais para aqueles dias em que queremos assistir algo mais leve ou descompromissado. Engraçada e dramática na mesma medida, a obra do diretor Paolo Virzi (do ótimo A Primeira Coisa Bela) adota o formato de road movie para narrar a história do casal de aposentados Ella (Helen Mirren) e John (Donald Sutherland). Septuagenários, decidem fazer uma última viagem pelo País, a bordo de seu motorhome - o tal leisure seeker do título (algo que poderia ser traduzido como "caçador de lazer"). A sua intenção será a de chegar à antiga casa em que viveu Ernest Hemingway, na Flórida. Dada a idade avançada de ambos, desafiarão os limites - e também os preocupadíssimos filhos - para tentar concluir a jornada.

Em uma análise mais geral é possível dizer que a obra é feita de pequenos fragmentos que, aqui e ali, vão revelando a real intenção por trás da "aventura" pretendida pela dupla de protagonistas. Já em uma das primeiras cenas, em uma cafeteria, os modos de John - que fala repetidamente sobre o mesmo assunto com uma gaçonete - nos permite constatar que ele, talvez, sofra de Mal de Alzheimer. Já Ella, também parece estar doente, o que é reforçado pelas cenas em que os filhos Christian (Will Spencer) e Jane (Janel Moloney) discutem sofre o fato de a matriarca ter recusado possíveis tratamentos para o mal que lhe acomete. Ainda assim, Ella está lúcida e pretende, ao lado do marido, realizar uma viagem derradeira que possa não apenas simbolizar o resgate das memórias que se vão perdendo, mas também trazer um mínimo de prazer para eles, ao final de suas vidas.



Sim, é uma obra fadada a nos emocionar - e ver o esforço de Ella em fazer com que John se recorde de amigos ou parentes do passado (nas comoventes projeções de slides que ela faz ao ar livre), é algo não menos do que tocante. Por outro lado, as desventuras de ambos, como em uma cena em que Ella embarca na carona de um motoqueiro após John se perder, ou mesmo na sequência em que eles sofrem uma tentativa de assalto pra lá de amadora, são divertidas e nunca exageradas. Nesse sentido, é uma película que alterna a todo o instante momentos mais delicados, com outros mais espirituosos. (e, claramente o fato de a dupla de protagonistas estar quase o tempo todo ao ar livre, com destaque para uma fotografia mais quante, confere a Ella e John um ar naturalmente primaveril, capaz de envolver o espectador com facilidade)

Evidentemente se divertindo na realização do trabalho, Mirren - que já ganhou um Oscar por A Rainha (2006) - e Sutherland entregam uma caracterização correta, contida e, eventualmente, comovente. Como não se emocionar com a cena em que John pede carinhosamente a Ella para que esta jamais lhe abandone, naquela em que, provavelmente, será o seu último momento mais íntimo? Ou não rir das improváveis crises de ciúme de Ella? Com personalidades distintas, eles vão nos conduzindo por cenários multicoloridos em que eles vão vivendo as mais variadas situações - o que certamente lhes fortalecerá ainda mais. [SPOILER ALERT] O controverso final poderá deixar um gosto amargo na boca daqueles que torciam por uma resolução alegre. Mas, numa análise mais fria, a intenção do casal com a atitude tomada, não deixará de ser um gesto final de amor.

Nota: 7,5

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Disco da Semana - Arctic Monkeys (Tranquility Base Hotel & Casino)

Quando começou, ainda na semana passada, o burburinho sobre o quão diferente era a sonoridade do novo disco do Arctic Monkeys - intitulado Tranquility Base Hotel & Casino - se comparado aos seus registros anteriores, fiquei com a impressão de que ia me deparar com, sei lá, uma espécie de Kid A que tivesse sido gestado por Alex Turner e companhia. Aí fui escutar o primeiro single do disco em questão, de nome Four Out Of Five, e me deparei com uma canção semelhante a tantas outras do quarteto - com arranjos bem elaborados, uma eletrônica moderna (e ousada) e um refrão tão grudento que não faria feio em discos como Favourite Worst Nightmare (2007). Até ali, confesso que eu não estava entendendo tanto falatório. Mas aí resolvi encarar a audição do trabalho na ordem, com calma, saboreando o material. E aí sim foi possível compreender a ruptura alcançada pelo registro.

Os fãs dos Arctic certamente se acostumaram com aquela urgência de pista eletrônica empoeirada/retrô/urbana/inferninho que trouxe ao mundo uma infinidade de hits prontos para o consumo imediato como I Bet You Look Good On The Dancefloor, Dancing Shoes, Fluorescent Adolescent e 505. O negócio definitivamente era se divertir - especialmente em 2006/2007 quando o vocalista Alex Turner era um piazote de 20 ou 21 anos. Só que quando o tempo passa, a gente muda. Evolui. Amadurece. Muda as nossas percepções sobre o mundo, sobre a vida, sobre tudo. Amplia a nossa bagagem intelectual e, consequentemente, nossos conhecimentos. Se há dez anos atrás um disco "conceitual" poderia ser tratado como uma ideia absurda não apenas para banda, mas também para os fãs, agora, já caminhando para os 15 anos de carreira, talvez os ingleses se sintam mais seguros em formatar esse tipo de proposta. Ainda mais depois do sucesso estrondoso de crítica e de público que foi o trabalho anterior, AM (2013).



Esse papo todo me fez lembrar outras bandas que, lá pelas tantas, abandonaram as propostas mais juvenis para investir em uma levada mais adulta, não apenas no que diz respeito aos arranjos (as vezes menos elétricos e mais eletrônicos), mas também as letras (e, de sopetão, consigo citar duas: Supergrass e Green Day). Sim, amigos, o que talvez seja um esboço de Kid A de Turner e companhia, nada mais é do que fruto do amadurecimento. Que bom, que bom que somos assim e não ficamos presos no mesmo lugar, fazendo sempre as mesmas coisas, apenas para agradar alguém. Em entrevista a rádio BBC de Londres, Turner afirmou ter vergonha de algumas letras antigas do grupo. Talvez não seja para tanto, mas não podemos negar que uma letra espetacular como a da inaugural Star Treatment, que brinca com as decepções resultantes da fama e do desconforto provocado pelo culto a mídia, é não menos do que sensacional - Todo mundo está em um barco flutuando abaixo do fluxo interminável da grande TV, sussurra Turner.

Assim como na primeira canção, há espalhado por todo o disco, e em seu rico catálogo de letárgicas variações rítmicas, um clima meio futurista, de ficção científica classuda e meio oitentista, guiada por canções que funcionam como divagações verborrágicas e atormentadas na mesma medida. Não, não é um trabalho fácil e quem se arriscar a escutar o disco com as letras a tiracolo encontrará, aqui e ali, uma espécie de crítica generalizada a uma espécie de mal estar da modernidade, com seus excessos consumistas, diferenças sociais, burocracia nas grandes corporações e romances falidos. O tipo de experiência artística que se estende, inclusive, para a capa do disco, uma emulação de um hotel que talvez, de fato, pudesse existir no Mar da Tranquilidade, no lado escuro da lua. Excêntrico, eventualmente indecifrável, frequentemente debochado, mas invariavelmente saboroso. Um disco que cresce a cada audição e que eleva a já conhecida qualidade do quarteto para um outro patamar.

Nota: 8,3

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Pérolas da Netflix - O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre)

De: Mariano Cohn e Gastón Duprat. Com Oscar Martinez, Dady Brieva e Andrea Frigerio. Comédia dramática, Argentina, 2017, 118 minutos.

Daniel Mantovani (Oscar Martinez) é um bem sucedido escritor argentino há 40 anos radicado na Espanha. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, vive uma existência tranquila (e relativamente monótona) em Barcelona, onde, eventualmente, participa de algum evento em algum lugar do mundo. Em um deles, é convidado por representantes de Salas - a sua pequena cidade natal, que serve de inspiração para muitos de seus livros - para receber o honroso título de Cidadão Ilustre. Inicialmente relutante, Daniel vê neste convite a oportunidade de retornar as suas origens e reencontrar pessoas - fora o fato de também aceitá-lo por algum tipo aparente de vaidade. De um lado o intelectual cosmopolita e extremamente cínico. De outro os provincianos e simples moradores do povoado de onde saiu o escritor. Será justamente a dicotomia entre esses dois lados tão opostos, um dos grandes atrativos do impagável O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre).

Não se trata exatamente de uma comédia escrachada e sim de um filme que nos faz rir de situações (quase) improváveis e que nos faz pensar sobre temas diversos, como, culto (vazio) às celebridades, relevância da produção artística e importância do contato com as nossas origens - especialmente na modernidade. A chegada a Salas, com uma série de percalços envolvendo o motorista designado pela Prefeitura para buscar Daniel, já nos deixa em estado de graça (e, vamos combinar, não existe ironia maior do que aquela que envolve o momento em que o sujeito solicita ao escritor uma ou duas folhas de um de seus livros para que possa ir ao mato fazer o "número 2"). A sequência com a recepção pomposa em evento organizado pelas autoridades locais, com carro de bombeiros, participação da soberana do município, estátua e entrevistas a rádio comunitária, transformará a presença de Daniel na cidade em um pequeno "circo midiático" - condição reforçada pela presença de cidadãos que lhe perseguem com câmeras de celulares ligadas ou lhes solicitam algum tipo de caridade, como se o reconhecimento pelo seu trabalho lhe conferisse algum tipo de obrigação social em relação aos moradores dali.



Ainda assim, é importante ressaltar o fato de que a obra de Mariano Cohn e Gastón Duprat (do igualmente ótimo Homem ao Lado) apresenta os dois lados desse choque cultural sem tomar partido. Nesse sentido, por mais que o vídeo promocional sobre a vida de Daniel - uma das melhores sequências, diga-se - pareça, a nossos olhos, o material mais brega da história (a narração em off e as cenas multicoloridas feitas de forma absolutamente amadora são impagáveis), não deixa de ser tocante assistir o escritor genuinamente emocionado ao final da projeção. O que comprova que, mesmo a fama, a vaidade e os convites para eventos luxuosos, não substituem uma existência vazia. E por mais que a permanência em Salas resulte em uma série de conflitos - envolvendo também outros artistas locais - o fato de Daniel sentir a necessidade de se reaproximar de uma antiga namorada (que hoje é esposa de um amigo) se torna o indicativo de uma carência quase desesperadora.

Com elenco afiadíssimo - não é por acaso que Martinez foi premiado em Veneza como Melhor Ator - a película ainda transforma o terço final em uma bem humorada sacada envolvendo a produção intelectual. Ao receber o Nobel, no começo do filme, Daniel faz um melancólico discurso sobre o fato de tal distinção significar o ocaso da existência de um autor, agora incapaz de chocar, de provocar e de incomodar com a sua obra. Com o final ambíguo, e até com algumas reviravoltas, os diretores também provocam ao reafirmarem o fato de que a matéria-prima para a produção cultural - seja ela a literatura, o filme, a música, ou a pintura - pode estar em qualquer lugar.


Na Espera - BlacKkKlansman (Filme)

Curioso notar como, passados pouco mais de dois meses da última edição do Oscar, e os cinéfilos já começam a projetar alguns dos possíveis indicados para a premiação do próximo ano. E um filme que teve o trailer divulgado recentemente e que tem sido muito falado, até mesmo pela relevância do tema proposto, é o BlacKkKlansman, próxima empreitada do veterano Spike Lee (Faça a Coisa Certa, O Plano Perfeito). Com previsão de estreia para o dia 22 de novembro desse ano, a obra retorna para o ano de 1978 para contar a história de um policial negro do Colorado, que consegue se infiltrar na Ku Klux Klan local e se comunicar com os outros integrantes por meio de telefonemas e cartas. Quando ele precisava estar fisicamente presente, enviava outro policial em seu lugar.



A história é real e o trailer tem aquele ar blaxploitation - com fotografia saturada e clima divertido (a despeito do tema pesado). No elenco, nomes com John David Washington (que interpreta o protagonista e que, com sua estratégia, evitou uma série de linchamentos e outros crimes de ódio praticados por racistas), Adam Driver, Laura Harrier e Topher Grace também devem brigar por nominações no Oscar 2019. Assim como Jordan Peele (Corra!), que produz a película. Bom, com Oscar ou sem Oscar, o caso é que já estamos Na Espera, por este que deve ser um dos grandes lançamentos da temporada!




quarta-feira, 16 de maio de 2018

Novidades em DVD - Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha (Victoria and Abdul)

De Stephen Frears. Com Judi Dench, Ali Fazal, Eddie Izzard e Adeel Akhtar. Drama / Biografia, Reino Unido / EUA, 2017, 112 minutos.

Não é de hoje que a realeza britânica parece ser fonte inesgotável para boas histórias. De Elizabeth (1998) a O Discurso do Rei (2010) não foram poucos os diretores que se aventuraram a narrar alguma passagem daquela que provavelmente é a monarquia mais famosa do planeta. Realizador de filmes como Coisas Belas e Sujas (2002) e Philomena (2013), o diretor Stephen Frears tem uma relação de proximidade com esse tipo de material - e não por acaso clássicos modernos como Ligações Perigosas (1988) e A Rainha (2006) são de sua autoria. Com Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha (Victoria and Abdul) ele mergulha em mais uma dessas narrativas que se passam em meio a belas paisagens e que contam com castelos imponentes e uma série de personagens com figurinos e modos impecáveis. E também dispostos a uma boa intriga.

A trama volta no tempo, mais precisamente para o ano de 1887. Partindo da cidade de Agra, na Índia, dois jovens são recrutados para viajar até Londres, com o objetivo de entregar a rainha Victoria (Judi Dench) uma espécie de joia que serviria como honraria pelos serviços prestados - na época ela havia sido proclamada Imperatriz da Índia. No local, Abdul (Ali Fazal) e Mohammed (Adeel Akhtar) devem se adequar aos costumes da realeza - sendo proibidos, até mesmo de olhar a rainha nos olhos. Só que na hora da entrega do presente, Abdul quebra o protocolo. E com uma simples e singela troca de olhares, adquire a simpatia imediata da monarca, passando a conviver com esta, dividindo aposentos (e conselhos). Não é preciso ser nenhum adivinho para imaginar que essa excêntrica amizade será motivo de escândalo dentro da corte - afinal de contas como seria possível um humilde servo conquisar de tal maneira o coração da rainha Victoria?



Nesse sentido, a força do filme reside no fato de podermos assistir de camarote a todos os tipos de preconceitos manifestados por integrantes da realeza - de filhos ou parentes próximos até outros empregados, que tentam entender quais serão os limites dessa amizade. Mas o caso é que, com tanta gente ao seu redor a bajulando, claramente a monarca precisa de alguma novidade em sua tediosa vida de compromissos enfadonhos. E essa "novidade" surge justamente com a presença carismática de Abdul, que traz alguma frescor para a existência de uma senhora que, aos 81 anos, parece apenas aguardar pelo ocaso de sua existência. Não é por acaso que os prazeres mais simples da vida, como comer, são retratados na obra como os momentos altos do dia da rainha - e não chega a surpreender a sua voracidade diante da comida, em uma sequência de jantar que soa quase caricata.

Aliás, se há algum problema no filme, ele seria justamente esse caráter meio exagerado de tudo. Especialmente os integrantes da corte, que surgem sempre como pessoas intolerantes, mesquinhas e pouco profundas - ao passo que os indianos da película são pessoas leves, divertidas e humanas (mesmo no caso do mal humorado Mohammed, que não vê a hora de ir pra casa). Por outro lado, muito do humor involuntário da película é o que torna a obra tão gostosa de assistir - e não é por acaso que simples cenas envolvendo a entrega de uma gelatina e a presença de uma manga podre estão entre as mais divertidas do filme (além de conterem algum sentido metafórico). Sim, Victoria e Abdul está bem longe de ser o melhor filme de Frears - que acaba sendo criticado até mesmo por repetir temas. Mas ainda assim é uma produção acima da média.

Nota: 7,0

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Lançamento de Videoclipe - Violins (Herói Fabricado)

Após um hiato de aproximadamente seis anos desde seu último lançamento, e depois de declarar como encerradas as atividades da banda, os goianos da Violins voltam à ativa com o seu aguardardíssimo álbum A Era do Vacilo, com previsão de chegada às plataformas digitais na primeira quinzena do mês que vem. Capitaneado por Beto Cupertino, o grupo promete neste novo disco uma visão crítica do momento atual no Brasil, com temas polêmicos e custosos a qualquer um que esteja preocupado com a situação do país, repleta de ódio, intolerância e de desrespeito aos direitos mais básicos do ser humano - pelo menos é o que somos levados a crer, a julgar pelo primeiro single da obra, Herói Fabricado.

Produzido e dirigido por Hugo Rezende, o clipe é uma espécie de lyric video executado de forma simples mas repleta de simbolismos. Com uma sonoridade radiofônica e levada por guitarras (característica do grupo), a mensagem tem destino certo - e que não cabe a nós desvendar neste post para não estragar a experiência que é detectar as várias referências. A alegria de ter de volta uma das maiores bandas surgidas por estes rincões já é mais do que motivo para direcionarmos todas as nossas atenções para este quadro, morô?


terça-feira, 8 de maio de 2018

Cinema - Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes d'Ismael)

De: Arnaud Deslechin. Com Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric, Marion Cotillard e Louis Garrel. Suspense / Drama / Romance, França, 2017, 114 minutos.

Finalizada a sessão de Os Fantasmas de Ismael (Les Fantômes d'Ismael) a pergunta que paira no ar é: o que teria levado estrelas do cinema francês, como, Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric, Marion Cotillard e Louis Garrel a aceitarem participar de um projeto tão insosso, confuso e sem fôlego? Apresentada como filme de abertura do último Festival de Cannes, a obra do diretor Arnaud Desplechin (Terapia Intensiva) é uma colagem esquisita de situações, que parte de uma premissa até interessante e que envolve o cineasta Ismael (Amalric). Traumatizado pelo desaparecimento de sua esposa, Carlotta (Cotillard), ocorrido há 21 anos, ele já está em um outro relacionamento com a astrofísica Sylvia (Gainsbourg). Só que Carlotta reaparece. Do nada. Em uma praia. E com uma explicação pouco convincente para os seus atos.

Nesse sentido, o começo da película até é interessante ao mostrar os dilemas e inseguranças do trio. Seria Ismael ainda apaixonado por Carlotta? Como lidar com uma figura que, dada como morta, reaparece sem mais nem menos? É possível conviver juntos, em clima de amizade e de celebração da vida? Talvez se a obra investisse mais nesse ponto, e costurasse com mais inteligência as situações, talvez pudéssemos estar diante de um dos grandes exemplares do cinema francês no ano. Mas o filme se perde em subtramas paralelas que pouco nos envolvem e que enfraquecem a experiência como um todo - uma delas envolve o novo filme que Ismael está produzindo e que conta a abnegada história de seu irmão Ivan Dedalus (Garrel) em uma trama rocambolesca que também não é lá muito fácil de compreender. No fim das contas a metalinguagem, que poderia ser um bem-vindo recurso para a história, também acaba mal aproveitado.



Isto porque, lá pelas tantas, não conseguimos ter a certeza de que as interpretações caricaturais e estereotipadas são propositais ou não - já que a trama salta do filme dentro de um filme para o filme propriamente dito sem muito aviso. E o que dizer da escandalosa trilha sonora sem pé nem cabeça? E os personagens que aparecem e desaparecem sem muita explicação - e se alguém conseguir me explicar quem era o tal do "russo" no terço final da película, já agradeço de antemão. O causo é que, com tantos pequenos defeitos, fica quase impossível de segurar o bocejo durante a projeção. E se a história era pra ser sobre pessoas problemáticas e complexas, com seus defeitos, imperfeições e motivações pessoais - as vezes essa impressão nos é passada, como nas cenas em que Ismael se tranca em casa, se entope de medicamentos, e resolve não terminar mais o seu filme - bom, confesso, que não entendi. E talvez o problema seja eu mesmo, vai saber.

Sem se definir entre comédia, drama, suspense ou mesmo delírio onírico a moda de um Fellini, o filme ao menos tem, entre seus pontos fortes, a fotografia (de Irina Lubtchanksy) as interpretações - já que os atores se esforçam, ao máximo, para entregar o seu melhor. Se Marion Cotillard e seu olhar anguloso consegue transmitir muito com menos diálogo, é sempre prazeroso assistir à Charlotte Gainsbourg em cena (e as suas inseguranças e medos diante da "novidade" que se apresenta, consiste naquilo que de melhor o filme oferece. Já Amalric, sempre tão talentoso, está extremamente forçado parecendo um lunático à moda de um Thom Yorke misturado com Steve Buscemi doidão. Mas é muito pouco. Especialmente para um dos filmes mais aguardados da temporada européia.

Nota: 4,5

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Disco da Semana - Manic Street Preachers (Resistance Is Futile)

Em um cenário de avanço global do conservadorismo de direita - e, consequentemente, do preconceito, do ódio e da intolerância - poucas bandas conseguem se manter mais relevantes do que o Manic Street Preachers. Autoconscientes de seu papel como difusores de boas ideias, utilizam o seu hard rock matador cheio de guitarras pesadas e bateria envolvente para criticar desde sempre o fascismo - ou outros modelos de governo totalitário, que possam representar o rompimento com os ideais de liberdade, de igualdade ou de fraternidade. Não por acaso a banda capitaneada por James Bradfield já tocou em Cuba no começo do milênio em um concerto histórico presenciado por Fidel Castro. Já teve um megahit radiofônico em que refletia sobre o legado que deixaremos para as próximas gerações - no caso, If You Tolerate This Your Children Will Be Next. E teve pelo menos dois grandes álbuns - The Holy Bible (1994) e Everything Must Go (1996) que permanecem até hoje nos corações dos ouvintes. Especialmente os da geração que cresceu nos anos 90.

O mais recente trabalho do trio - completado por Nicky Wire e Sean Moore - se chama Resistance Is Futile. A despeito do niilismo do título (e até da capa), o álbum serve como veículo para novas divagações político-filosóficas-sociais sobre o mundo que vivemos. Não é por acaso que a primeira música do registro, People Give In, já inicia com uma série de versos pessimistas - People get tired / People get old / People get forgotten / People Get Sold - e que, de alguma forma, funcionarão como um guia para as reflexões que serão espalhadas pelo álbum. A sonoridade surge tensa, urgente, melancólica, até explodir no refrão roqueiro com direito e ooo ôs e um indelével otimismo - People stay strong, apesar de tudo. O expediente se repete em outras músicas. Sequels of forgotten wars tem título quase autoexplicativo. Já Hold Me Like a Heaven é quase um manifesto por busca de conforto em meio a uma rotina de desgaste em que o grito já não é suficiente. Candidata a hit, é uma das mais comerciais e já escolhida como uma das favoritas dos ardorosos fãs.



A propósito disso, as temáticas duras, eventualmente ásperas e quase nunca otimistas não significam dificuldade na hora de ouvir o grupo. Desde A Design For Life que o trio se especializou em entregar canções acessíveis, radiofônicas e até, como numa espécie de paradoxo, eventualmente coloridas e ricas em texturas. O que torna a audição de cada registro de Bradfield e companhia em uma experiência não menos do que prazerosa. International Blue, por exemplo, com seu refrão grudento, parece já nascida para ser cantada (ou berrada) em coro nos estádios - a despeito da pinta de rock brega e farofa dos anos 80. O expediente se repete em outras músicas, como Distant Colours, Vivian e na "eltonjohniana" Dylan & Caitlin, que parecem trafegar sempre no limite entre o hard rock de gritado de outrora e o power pop que flerta com o alternativo.

Em entrevista ao site The Guardian, ainda no começo do ano, a banda não pôde deixar de demonstrar um certo pessimismo que dialoga com esse mal-estar que parece existir na já conhecida pós-modernidade. A imagem da capa, um samurai que sabe que com a chagada das armas de fogo sua espada deverá ser aposentada, representa bem essa espécie de ruptura. Para Wire usar a música para como um meio para versar sobre livros filmes e política ou mesmo citar Mao, Maiakovski, Heidegger, Flaubert, Marylin Monroe ou George Best parece algo distante da cultural jovem. "Especialmente nas mídias sociais", afirma. Ainda assim, Wire afirma haver "mágica" quando o trio entra no estúdio, o que seria, quase 30 anos de carreira depois, o combustível necessário. Para nós aqui do Picanha, a mágica dos Manics continua intacta.

Nota: 8,5

sábado, 5 de maio de 2018

Disco da Semana - Dingo Bells (Todo Mundo Vai Mudar)

Se manter relevante em meio a um cenário musical tão amplo, democrático e plural como este que vivemos nos dias de hoje não deixa de ser um desafio para as bandas modernas. Em um mundo tão intolerante as pessoas querem, sim, se divertir, mas também parecem desejar que seus artistas preferidos se posicionem, se engajem em algo, enfim, tenham algo com mais "conteúdo" pra dizer, que não seja o simples blábláblá sobre o amor que ocorre desde sempre. Nesse sentido, poucos coletivos são tão completos como os gaúchos da Dingo Bells que, com Todo Mundo Vai Mudar, chega ao seu segundo (e festejado) registro. Se com o ótimo Maravilhas da Vida Moderna - nosso décimo sétimo colocado na lista de Melhores Discos Nacionais de 2015 - o trio já esbanjava complexidade nas divagações sobre um cotidiano capaz de ser o de cada um nós, o segundo álbum parece ampliar ainda mais este sentimento.

Tomemos a abertura com a música título - uma das candidatas a música do ano, diga-se. Após um começo com bateria ritmada e guitarra bem pontuada, entra a letra, aconchegante e reflexiva, que reflete sobre maturidade e sobre como podemos ser capazes de fazer as mesmas ações de uma forma diferente daquela do passado - As palavras vão e vem / Trocam de lugar / Quanta coisa já pensei / Sem considerar. Essa sensação de que estamos em constante mudança, evoluindo permanentemente - como uma metáfora vivenciada pela própria banda - reaparece aqui e ali em outras canções, como Ser Incapaz de Ouvir, O Que Não Se Vê de Cara e Sinta-se Em Casa. Ainda que, em cada uma delas, este expediente apareça nunca de forma óbvia, num exercício de sutileza que faz o ouvinte sorrir e pensar ao mesmo tempo.



Outra canção que arrebata pela letra bem construída é Tudo Trocado. Reinterpretação de Tô, "clássico" do Tom Zé, ao mesmo tempo que serve como uma alegoria para o mundo em que vivemos - e não está tudo trocado? - ainda funciona como jogo de palavras capaz de representar a intenção de algo, quando na verdade queremos outra coisa. (Briga pra ficar bem / E chora pra secar o rosto). E que, novamente, tem a ver com deslocamento, mudança. "[Nossa intenção foi a de] refletir sobre os diferentes aspectos de mudança que uma pessoa pode viver: seja física, geográfica, imaginária ou espiritual" comentou, em entrevista ao site A Gambiarra, o baixista e vocalista Felipe Kautz. Esse sentimento se espalha por todo o disco que, não por acaso, vai para além da soul music e do groove que emulam os anos 70 da época mais dançante do Tim Maia - uma característica já consolidada do trio - para encontrar em eletronices, barulhinhos, efeitos e sintetizadores uma reinterpretação do próprio cancioneiro da Dingo. "Uma mistura de elementos mais estranhos e interessantes que anteriormente", admite Kautz na mesma entrevista, sem esconder referências que vão de David Bowie a Radiohead.

Uma maior quantidade de elementos de maneira alguma transforma o disco em um produto mais hermético ou difícil. Muito pelo contrário, ao optar novamente por uma atmosfera dançante e radiofônica, o trio - completado por Diogo Brockmann (guitarra e voz) e Rodrigo Fischmann (bateria e voz) - abraça o pop desavergonhadamente, ainda que agora com uma maior robustez. Mesmo músicas recheadas de elementos, caso de Na Carona, com seus repetidos nananás do refrão, são capazes de grudar na primeira audição. Nesse sentido o trabalho, produzido por Marcelo Fruet e resultado de uma imersão de dois meses da banda em um estúdio da Zona Sul de Porto Alegre, tem tudo pra se tornar, com sua mistura multicolorida do cancioneiro nacional, um dos preferidos das listas de melhores de 2018.

Nota: 8,7

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Cinema - Em Pedaços (Aus Dem Nichts)

De: Fatih Akin. Com Diane Kruger, Numan Acar, Denis Moschitto e Johannes Krisch. Drama / Suspense, Alemanha / França, 2017, 106 minutos.

Os filmes do diretor Fatih Akin (Contra a Parede, 2004) nunca são fáceis. Mesmo em obras de temática mais "leve" - caso de Soul Kitchen (2009), por exemplo - sempre parece haver, nas entrelinhas, um certo desencanto com a sociedade em que vivemos, tão individualista, intolerante e, especialmente, preconceituosa. Com Em Pedaços (Aus Dem Nichts), trabalho que faturou o último Globo de Ouro na categoria Filme em Língua Estrangeira, não é diferente. Na obra somos apresentados ao casal Nuri (Numan Acar) e Katja (Diane Kruger), que leva uma vida tranquila e confortável ao lado do filho Rocco, em Hamburgo, na Alemanha. Em um certo dia Nuri está com o filho no escritório em que trabalha, quando sofre um violento atentado: uma explosão criminosa que acaba com a vida dos dois, além de ferir outros tantos. Não bastasse a dor sem sim sofrida por Katja, ela ainda deverá compreender os motivos que levaram ao ato, lutando nos tribunais por justiça.

Em Pedaços é um filme doloroso porque, mais atual do que nunca, traz a baila um dos tantos problemas da modernidade e dessa "crise global" que insiste em permanecer: o do renascimento de uma extrema-direita odiosa e conservadora que, legitimada por aberrações políticas como o presidente norte-americano Donald Trump, faz brotar grupos neonazistas e xenófobos que não hesitarão em levar a cabo seus planos doentios. Nascido na Turquia, Nuri já havia cumprido pena por tráfico de drogas e batalhava para ser reintegrado à sociedade. Para aqueles que tem a intenção de limpar a sociedade e para os quais "bandido bom é bandido morto", Nuri representava um peso. Especialmente para as "famílias de bem germânicas" que, saudosas do modelo Adolf Hitler de gerir, preferem o assassinato daqueles que estão em desacordo com o seu padrão racial. Sim, não demora para que a investigação perceba estar diante de um crime de ódio.


Após alguns dias de investigação, a promotoria acredita ter chegado ao casal que possa estar por trás do crime. Só que provar a culpa dos réus fazendo o júri branco e alemão acreditar na viúva de um estrangeiro com antecedentes criminais, será a segunda parte da dor de uma já inconsolável Katja. E que lhe devastará de forma absolutamente irreversível. Por mais que as evidências sejam muitas - impressões digitais nos artefatos utilizados, ausência de um álibi consistente e a adoração a partidos neonazistas nas redes sociais - tudo é muito nebuloso, por mais que o advogado Danilo (Denis Moschitto) - que auxilia Katja no caso -, se mantenha otimista. Especialmente após o depoimento de Jürgen (Ulrich Tukur), pai de um dos jovens que garante ter cortado relações com o filho, por divergências político-ideológicas.

Não é por acaso que esta é uma das sequências mais interessantes da obra de Akin - uma espécie de "choque da gerações ao contrário". Como entender esse sentimento inexplicável (e violento) que parece mover toda essa nova geração bem alimentada e bem vestida, que tem acesso a tudo (inclusive a educação), mas que não suporta a convivência com negros, pobres, gays ou dependentes químicos - ou, no caso dos neonazistas, qualquer pessoa que não seja da raça ariana? Katja perde o filho (e o marido) em uma explosão orquestrada por um grupo que semeia o ódio. Já para Jürgen, se deparar com os atos praticados pelo filho é sentir como se este também o tivesse perdido. São dois tipos de perdas. Ambas dolorosas. Tanto que a sequência em que  Katja e Jürgen conversam em um dos intervalos do julgamento, na parte externa do tribunal, é uma das mais comoventes da película. Há uma compreensão da dor que chega a ser palpável.


Filmado por Akin com uma fotografia sempre acinzentada, capaz de dar conta do estado de espírito da protagonista e daqueles que estão ao seu redor, a obra ainda conta com excelentes trilha sonora - canções do Queens Of The Stone Age embalam algumas sequências - e interpretações. O ator Johannes Krisch, por exemplo, encarna o advogado de defesa de forma propositalmente rude e descortês, transformando o seu comportamento e a sua expressão dura e asquerosamente caricata em uma espécie de extensão dos modos daqueles que ele defende. Já Diane Kruger está comovente como a protagonista, fazendo com que a gente torça por ela (e por justiça) o tempo todo. Especialmente no terço final, quando ela resolve levar o paradoxo de Karl Popper ao limite, decidindo pelo direito de não tolerar os intolerantes. Arrebatador.

Nota: 8,5

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Curta Um Curta - Recife Frio

Formato muitas vezes ignorado pelos próprios cinéfilos, o curta-metragem, além de porta de entrada para muitos cineastas em início de carreira, pode reservar ótimas surpresas - e, não por acaso, muitas obras chegam a ser superiores a alguns longas. Nesse sentido, o Curta Um Curta - sim, admitimos que o nome não é muito criativo -, visa a apresentar filmes de pequena duração que, eventualmente, foram premiados em festivais e que, de fato, valem a pena ser assistidos. Na nossa estreia, o já clássico Recice Frio. Dirigido por Kléber Mendonça Filho (de O Som ao Redor e Aquarius), o filme é um falso documentário sobre uma abrupta mudança climática, que transforma a capital de Pernambuco em uma cidade fria, permanentemente nublada e chuvosa. "É um lamento de amor por Recife", nas palavras do próprio diretor.



Além das implicações decorrentes da novidade - com comerciantes, trabalhadores e turistas tendo de se adaptar ao novo modelo climático - o diretor ainda utiliza o cenário para tecer uma metafórica crítica as metrópoles frias e individualistas. Não por acaso, os comparativos com obras como Medianeras, especialmente no que diz respeito a arquitetura das grandes cidades, são inevitáveis. Equilibrando momentos de humor - a sequência em que um artesão apresenta as suas "novas" peças é ótimo - com outros mais dramáticos, com pessoas mais pobres sofrendo e morrendo de frio nas ruas de Recife, Mendonça idealiza as capitais nordestinas como lugares naturalmente quentes, tropicais e multicoloridos, conferindo ainda especial importância ao "calor humano" como alternativa para a solução do problema. Com mais de 50 prêmios no Brasil e no exterior, Recife Frio é o curta metragem brasileiro mais premiado desde Ilha das Flores (1989). O que é um bom indicativo de sua importância.

Pérolas da Netflix - Eu Não Sou Um Homem Fácil (Je Ne Suis Pas Un Homme Facile)

De: Eléonore Pourriat. Com Vincent Elbaz, Marie-Sophie Ferdane, Blanche Gardin e Céline Menville. França, comédia, 2018, 98 minutos.

E se, de um dia para o outro, acordássemos em uma sociedade em que homens e mulheres tivessem seus papeis invertidos, com o mundo sendo dominado por elas? Com as mulheres tendo a força física e os melhores cargos no mercado de trabalho - e, consequentemente, mais poder - e aos homens cabendo o papel de submissos e assediados? Essa é a curiosa premissa do ótimo Eu Não Sou Um Homem Fácil (Je Ne Suis Pas Un Homme Facile). Ainda que seja vendida como uma comédia - e, sim, o filme da diretora Eléonore Pourriat tem uma série de sequências constrangedoramente engraçadas - a obra é, na verdade, um drama daqueles que faz pensar muito sobre este tema tão atual. E que nos faz compreender também o fato de que o feminismo nada tem a ver com superioridade e sim com a legítima luta pela igualdade entre os gêneros.

E o caso é que, com o filme, acabamos percebendo esse cenário (se é que alguém, em pleno 2018, ainda não tenha percebido), da forma mais patética possível. Na trama somos apresentados a Demien (Vincent Elbaz), sujeito machista, daqueles que não resistem a um comentário sexista diante de qualquer mulher que lhe dê o mínimo de atenção. Após um acidente em que o sujeito bate a cabeça, ele "acorda" em um mundo em que são as mulheres que andam na rua sem camisa, que assediam os homens na obra, que tecem comentários de mau gosto sobre as roupas que eles estão usando, que são egoístas na hora do sexo e que expressam o mínimo de sentimentos possíveis no que diz respeito aos relacionamentos. E será nesse fantasioso universo, que Damien aprenderá a dura lição de estar do outro lado, passando a ser ele o sujeito objetificado pela sociedade.



Talvez a trama, ainda que relativamente engenhosa, possa ser insuficiente para alguns, no que diz respeito a relevância do debate - especialmente pelo fato de o filme rir de certas situações ou reforçar alguns estereótipos. Mas, ainda assim, a ousadia do roteiro faz com que fiquemos arrebatados. A opção por retratar as mulheres desse novo mundo como pessoas masculinizadas - elas usam ternos, nunca se depilam e abusam de seu poder para conseguir o que querem - pode até parecer estranha em um primeiro momento. Mas, ao perceber com clareza o quão repulsivos são estes mesmos comportamentos, quando praticados por homens, é que constatamos a eficácia da opção. E não é por acaso que a Alexandra (interpretada pela atriz Marie-Sophie Ferdane) é o verdadeiro lugar-comum do "homem" bem sucedido e que se acredita superior. Claro, ela é uma mulher.

Com excelente desenho de produção - no novo mundo são os homens que usam roupas curtas ou excessivamente coloridas ao passo que elas usam figurinos de cores sóbrias e dirigem carros de maior envergadura - essa pequena pérola do cinema francês ainda nos ensina, no terço final, a importância do contexto social em que vivemos para a formação de nossa personalidade, ideias e visões de mundo. Podemos aprender a respeitar a igualdade entre os gêneros. Ou mesmo a lutar por ela, por quê não? Nesse sentido, assistir a Damien ouvindo a mesma frase saída da boca de Alexandra - mas, em um segundo momento, sem qualquer conotação sexista -, é quase revelador sobre o machismo que anda tão enraizado em nossa sociedade. E que, muitas vezes, nos faz ter a impressão de ainda vivermos na Idade Média.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Tesouros Cinéfilos - A Fita Branca (Das Weiße Band)

De: Michael Haneke. Com Christian Friedel, Ernst Jacobi, Rainer Bock e Ulrich Tukur. Drama, França / Itália / Áustria / Alemanha, 2009, 144 minutos.

Não são poucas as vezes em que me pergunto quais as circunstâncias geradoras de sentimentos como o ódio, o preconceito ou a intolerância. Onde é, afinal, que brota tanta raiva - especialmente entre os jovens (essa "nova" e tão assustadora juventude reacionária)? Onde nascem esses meninos e meninas tão bem vestidos e alimentados, tão eloquentes e participantes ativos da vida social que não suportam um negro, um pobre, um viciado, um índio, um deficiente, um homossexual ou um agricultor entre aqueles que estão no seu convívio? De onde vem toda essa hostilidade, essa aversão e essa repulsa que andam a passos galopantes nas redes sociais lotadas de pessoas que parecem até mesmo se orgulhar de seu comportamento discriminatório? Será na mesa de domingo, ao lado do avô de descendência germânica que não hesita em proferir uma piada misógina ou racista? Será na igreja? Na sala de aula? Ou em outras instituições, entre elas a própria família?

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht já dizia que a "cadela do fascismo está sempre no cio" e, é possível afirmar que, mesmo no mais sutil dos tons, a obra-prima moderna A Fita Branca (Das Weiße Band) fala exatamente sobre isso. Indiretamente, sem esfregar na cara de ninguém, ela aborda a origem desse mal. Origem esta que pode estar relacionada a uma educação excessivamente formal e religiosa, que reprime a sexualidade ou qualquer outro tipo de comportamento que fuja do padrão imposto pelos guardiões da moral e dos bons costumes. A trama nos desloca para um vilarejo do norte da Alemanha no ano de 1913. No local vivem crianças, adolescentes e suas famílias - com estas últimas as educando com a pesada mão da repressão e na permanente busca da "inocência e da pureza" como virtudes únicas a serem perseguidas.



Ocorre que, em um certo dia acontece um estranho (e cruel) acidente com o médico local (Rainer Bock), cujo cavalo tropeça em um afiado arame que fora esticado entre duas árvores. Além de desconhecerem os autores da armadilha - que resulta em um cavalo sacrificado e no médico hospitalizado por mais de dois meses com um braço quebrado - os moradores passam a conviver com outros estranhos eventos. Em um deles o filho do Barão local desaparece, sendo encontrado preso e ferido. Uma mulher morre em um acidente de trabalho de difícil explicação. Um incêndio inicia. E uma criança com deficiência tem seus olhos arrancados de forma cruel. Quem estaria por trás de tanta atrocidade? De onde viria esse mal-estar e essa violência que se espalham como se fossem uma grande onda de terror nesta pequena comunidade?

Haneke, como é de praxe em sua filmografia, não oferece soluções fáceis. Mas a partir da narração em off do professor local (Christian Friedel) - e não chega a surpreender o fato de, justamente um educador, ser a voz mais lúcida do filme - é possível montar um pequeno quebra-cabeças histórico, capaz de transformar as oprimidas crianças da película nos futuros monstros que gestariam o holocausto e o nazismo como um todo. É a violência gerando violência e se perpetuando de geração em geração, com nenhum sentimento de culpa ou qualquer tipo de empatia pelo próximo. Uma equação simples demais, mas que ecoa até os dias de hoje, com crianças crescendo em lares frios, nada amorosos e até violentos e que irão reproduzir, no futuro, estes mesmos comportamentos. Sim, o diretor é tradicionalmente pessimista. E, com A Fita Branca, ele parece atingir o grau máximo de niilismo.


Fotografado em um requintado preto e branco pelo diretor de fotografia Christian Berger, a obra, vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 2010, tem clima bergmaniano não apenas pela ausência da paleta colorida s e pelo hábil uso do som diegético (que permite ouvir corredeiras, as folhas das árvores ou o barulho de insetos), mas também pelo ceticismo com que encara instituições conservadoras e retrógradas, como a Igreja. E não é por acaso que personagens como o pastor local (Burghart Klaubner) surgem como se fossem os grandes vilões da história - sempre dispostos a utilizar a violência como medida disciplinatória, por menor que tenha sido a transgressão cometida pelas crianças. Nunca fácil, a obra de Haneke pode chocar pela violência excessiva e até mesmo gráfica. Mas dado o ódio que reina contra as minorias - seja nas redes sociais, seja nas reuniões das "famílias de bem" - o austríaco acerta em cheio em sua triste abordagem de um passado que segue tão atual.