Mostrando postagens com marcador Cinemúsica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinemúsica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Tesouros Cinéfilos - Quase Famosos (Almost Famous)

De: Cameron Crowe. Com Kate Hudson, Patrick Fugit, Billy Crudup, Frances McDormand e Philip Seymour Hoffman. Comédia, EUA, 2000, 122 minutos.

"Blue jean baby, LA lady / Seamstress for the band / Pretty eyed, pirate smile / You'll marry a music man". Existem alguns filmes que possuem algum tipo de mágica meio inexplicável, que faz com que pareçam envoltos em uma névoa nostálgica. Em linhas gerais essas costumam ser obras sonhadoras - mas um tipo de sonho meio vida real, de memória afetiva (ainda que nem saibamos direito o por quê), que vai direto ao coração. Vocês que são fãs de cinema, certamente já sentiram isso. Aliás, hoje em dia no mundo das artes existe todo um mercado que evoca esse tipo de saudade tão carinhosa quanto melancólica. De lembrança sombria, mas que entusiasma. A nostalgia, ao cabo, vende. E devo confessar que é justamente esse o tipo de sentimento que me invade, a cada vez que reassisto o Quase Famosos (Almost Famous), filme de Cameron Crowe que reestreou no Max e que completa 25 anos de lançamento nesse 2025.

Pra quem viria a se tornar jornalista - meu caso -, tendo passado parte da juventude acumulando edições de revistas como Showbizz, SET e Bravo!, o sonho de integrar uma editoria de cultura era quase onipresente. O leitor, em muitos casos, queria ser aquelees repórteres. Estar naqueles ambientes - de bastidores, tensos e vívidos. O tipo de sonho juvenil que é justamente aquilo que motiva o jovem William Miller (Patrick Fugit) a rabiscar os primeiros artigos sobre rock, que enviaria para fanzines locais de San Diego. Aos 15 anos, William sempre foi vigiado de perto por sua mãe superprotetora Elaine (Frances McDormand) - uma viúva metade do tempo conservadora e na outra hippie -, que fica de cabelos em pé com a possibilidade de o caçula bater asas e enveredar por esse universo de cultura pop, de estrada, de turnês, de loucuragem. Só que o caso é que já era tarde. Quando a irmã do rapaz sai de casa para ser aeromoça (fugindo assim das amarras da mãe), ela lhe deixa um pequeno tesouro: sua coleção de discos de vinil, cheios de obras-primas que influenciariam a vida de William (na juventude interpretado por Michael Angarano) pra sempre.

 


O ano é 1973. Época de efervescência cultural, de contracultura e de veículos de imprensa importantes no meio - como no caso da famosa revista Rolling Stone. Aliás, é justamente um artigo sobre um show do Black Sabbath, escrito por William, a pedido de Lester Bangs (o sempre saudoso e ótimo Philip Seymour Hoffman) que chama a atenção dos editores do periódico. Que lhe contratam como freelancer para que ele acompanhe a turnê dos emergentes roqueiros do Stillwater - com quem o protagonista havia tido contato nos bastidores da apresentação da banda de Ozzy Osbourne. Foi a partir da amizade improvisada com a groupie Penny Lane (Kate Hudson) que William consegue entrar no backstage. "Não esqueçam que ele é o inimigo!" brada o vocalista do Stillwater diante da investida do adolescente, que se empenha em juntar material pra reportagem (como que condensando toda a imprensa cultural em um mesmo balaio). É o início de uma relação bonita e complexa não apenas com Penny, mas também com a banda, que tem em seu centro o sedutor guitarrista Russel Hammond (Billy Crudup).

Em linhas gerais esse pode ser considerado o filme de amadurecimento por excelência. Em meio as ligações insistentes da mãe - que tem dificuldade de conversar com o rapaz (resumindo seus recados telefônicos a um comovente, angustiado e engraçado "não use drogas") -, o ônibus da banda percorre uma série de cidades, enfrentando desafios variados, que vão de produtores mal intencionados, públicos nem sempre convidativos e, especialmente, as disputas internas de egos e vaidades, que vão deteriorando aos poucos as relações de todos. Olhando com olhos curiosos de quem vive várias primeiras vezes - beijos, sexo, bebida, show de rock, viagem longa -, William, um sujeito nada cool e com cara de parecer mais velho do que de fato é, empreenderá uma jornada ao infinito na tentativa de entrevistar Russell, que nunca parecerá realmente disponível (com suas oscilações de humor, que vão da instabilidade ao sentimentalismo na mesma sequência).

 

 

E como de praxe nos filmes de Cameron Crowe - e este tem claríssimas tintas autobiográficas -, temos na trilha sonora uma de suas fortalezas, com cada uma das músicas de artistas diversos, como, Velvet Underground, Rod Stewart, The Who, Cat Stevens, Led Zeppelin e Simon & Garfunkel, contribuindo para dar o tom da narrativa. Para explicar, ainda que por linhas menos óbvias, esse ou aquele momento. E é aí que chegamos àquele que é o momento mais comovente da produção, que é o instante em que, depois de um desentendimento homérico e uma noite sem fim de bebedeira e drogadição de Russell, os viajantes se unem no ônibus para cantar, no alvorecer, o clássico Tiny Dancer, de Elton John. Um momento de comunhão que ficaria famoso não apenas por sua beleza lúdica e polida, mas também porque os executivos não concordavam que essa parte, feita meio que no improviso, permanecesse no corte final. Ao cabo esse é uma sequência de união pela música, que reforça esse ideal mesmo nas adversidades. E que nos ajuda, como espectadores, a olhar para todos aqueles sujeitos - desajustados, fraturados, incertos, cheios de medos futuros e anseios presentes - como aquilo que de fato são: apenas humanos. "Você está em casa", diz Penny a William em certa altura. É como todos nós nos sentimos. Comovente.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Cinemúsica - Eduardo e Mônica

De: René Sampaio. Com Alice Braga, Gabriel Leone, Otávio Augusto, Juliana Carneiro da Cunha e Bruna Spínola. Comédia romântica / Drama, Brasil, 2022, 119 minutos.

Em uma das tantas sequências bonitas do ótimo Eduardo e Mônica - adaptação de René Sampaio para a clássica canção da Legião Urbana - está o momento em que Eduardo (Gabriel Leone), em meio a uma "festa estranha com gente esquisita", sobe no palco do karaokê para cantar o hino irresistivelmente brega de Bonnie Tyler, Total Eclipse of the Heart. É um recurso bonito da narrativa porque foge das possíveis armadilhas do filme homenagem e da música tema do filme em si, para derivar para outros campos na hora de aproximar o jovem que jogava futebol de botão com seu avô e Mônica (Alice Braga), uma garota mais velha, estudante de medicina mas totalmente conectada com o mundo das artes - e fã de Godard, de Bandeira, de Bauhaus, Caetano e Rimbaud. E a meu ver esse é um dos grandes méritos da produção: o de que não é necessário ficar lembrando o público o tempo todo, por meio de trucagens baratas, que essa é uma obra baseada em uma música de Renato Russo e companhia.

Nesse sentido, há uma fluidez natural. Tão natural que o fã de cinema desavisado talvez nem notasse esse "detalhe" sobre a matéria-prima do filme. De onde ele se origina. Para o desatento, essa talvez fosse apenas uma comédia romântica por excelência, com dois jovens enfrentando as numerosas diferenças na tentativa de ficar juntos. De fazer acontecer, a despeito de todas os poréns. Mônica e Eduardo, a gente sabe, em um mundo como o nosso, de tão pouca responsabilidade afetiva e em um cenário em que encontrar uma tampa de panela para chamar de sua parece cada vez mais difícil, parecem trafegar no campo do improvável. O que não impede a gente de se conectar. E é justamente isso que, muitas vezes, torna uma comédia romântica eficiente: o quanto a gente se importa. De que maneira mergulhamos naquilo. Claro, há o elemento nostálgico. Há os acenos aos fãs inadiáveis da música da Legião. Mas há também um filmão muito bem sucedido naquilo que se propõe.

 

E, acompanhando a jornada dos nossos protagonistas, eu fiquei com a impressão de que parte do brilho tem a ver com as escolhas da trilha sonora. O filme, como não poderia deixar de ser, se passa nos anos 80. Assim não há celulares, não há Spotify ou Deezer. O que há é uma fitinha cassete com as melhores do rock inglês - aquele tipo de coletânea que os 40+ amavam juntar nas estantes e gavetas da juventude e que será a porta de entrada para um novo universo para Eduardo. Um jovem até então acostumado apenas a uma rotina alienante e sem muitas novidades ao lado do avô, o Seu Bira (Otávio Augusto), um militar da reserva que parece mais orgulhoso do que nunca da Ditadura Militar - provavelmente ele seria um adorador de Ustra e votante do inelegível, que está até agora aguardando mais 72 horas. Esses elementos políticos, culturais e sociais são um outro acerto. Dá pra olhar pro passado sem ignorar o futuro. Dá pra reverenciar os artistas de outrora - da música especialmente - sem deixar de lado o poder transformador e de vanguarda das artes, com sua iconoclastia e consequente quebra do status quo.

Mônica, afinal, é tudo aquilo que Eduardo ainda não é - seja pelo excesso de juventude ou pela imaturidade que respinga pelas frestas, como no instante em que ele genuinamente admite não fazer ideia do que diabos é a Nouvelle Vague (novela?). Uma artista plástica determinada que mora em um galpão espaçoso que também funciona como ateliê, ao mesmo tempo em que faz um turno extra como estudante de medicina - sendo vigiada por sua severa mãe (a sempre ótima Juliana Carneiro da Cunha). Em alguma medida há um choque entre o experimentalismo do cotidiano da Mônica - e suas divagações sobre meditação, fotografia, existencialismo e baladas estranhas - e o conservadorismo do entorno de Eduardo, com sua rotina que varia da escola para casa e da casa para a escola. E em meio a isso tudo há a música. As canções que acompanham. De artistas diversos como Soft Cell, A-Ha, The Pretenders, Titãs, B-52's, Clash, Mutantes, Tim Maia... É um filme baseado numa música da Legião? A gente quase esquece. A arte é maior e une tudo isso. Como comprova o comovente ato final.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Cinemúsica - Filadélfia (Philadelphia)

De: Jonathan Demme. Com Tom Hanks, Denzel Washington, Antonio Banderas, Mary Steenburgen e Jason Robards. Drama, EUA, 1993, 126 minutos.

"I was bruised and battered and I couldn't tell what I felt / I was unrecognizable to myself" / I saw my reflection in a window I didn't know my own face" (Streets of Philadelphia - Bruce Springsteen)

Vamos combinar que basta ouvir os primeiros acordes da melodia de Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen, para que a nossa memória seja invadida por imagens de Filadélfia (Philadelphia), filme estrelado por Tom Hanks e Denzel Washington. Assim como já aconteceu em outras ocasiões - seja com Mrs. Robinson, cantada pela dupla Simon & Garfunkel em A Primeira Noite de Um Homem (1967) ou Everybody's Talkin' interpretada por Harry Nilsson em Perdidos na Noite (1969) -, o fato é que aqui canção e filme se misturam, sendo quase impossível dissociar uma da outra. As ruas da Philadelphia estão lá enquanto a nossa mente vaga pelas suas esquinas, ruas, bairros, cheias de pessoas com suas vidas, rotinas e... preconceitos. Na obra de Jonathan Demme, que recém saía da consagração máxima por O Silêncio dos Inocentes (1991) - onde passou o rodo no Oscar -, o tema era o vírus da AIDS e as formas de lidar com a doença que, se já não era assim uma novidade no mundo, ainda era fruto de muita discriminação.

Uma revisão na obra nos faz perceber que algumas questões talvez não tenham envelhecido tão bem - especialmente no que diz respeito ao esforço do diretor para tornar a história mais palatável para o público médio (estávamos no começo dos anos 90, afinal). O amor entre Andrew Beckett (Hanks) e seu namorado Miguel (Antonio Banderas), por exemplo, é mostrado de forma bastante discreta, sem excessos. Aliás, não há sequer um beijo mais caloroso entre ambos e, certamente, isso teve a ver com a forma de (tentar) gerar total empatia pelo advogado encarnado de forma bastante apaixonada por Hanks. Gay assumido, ele não enfrenta problemas com a amorosa família. Mas no escritório onde atua, ele é demitido no que parece ser uma manobra orquestrada pelos sócios do local, a partir do momento em que percebem que ele é portador do vírus HIV - o que envolve a sabotagem de importantes documentos de um dos principais clientes da empresa. Desligado por suposta incompetência? Ou preconceito em estado bruto?

Aos trancos e barrancos ele contrata o competente advogado Joe Miller (Denzel Washington) para defendê-lo no caso. Só que o problema é que Miller é tão preconceituoso quanto os demais - e é aqui que está um daqueles clássicos arcos narrativos que envolve relacionamentos que iniciam turbulentos mas que, ao cabo, se convertem em uma grande amizade (e não dá pra negar que segue sendo absolutamente emocionante conferir dois atores do calibre de Hanks e Washington em tela, contracenando juntos). Abordado por Demme com delicadeza e arestas bem aparadas, o tema central se torna objeto de reflexão a respeito do absurdo da intolerância. Explicar para o público que a AIDS não era transmitida com apertos de mão, abraços ou beijos era necessário em uma época de pouca informação. E isso o filme faz de forma comovente, ao abraçar Andy de forma carinhosa - com Hanks "retribuindo" com uma de suas mais impressionantes interpretações da carreira (que lhe daria, com justiça, o seu primeiro Oscar como Ator).

A propósito do Oscar, Streets of Philadelphia, encomendada por Demme a Springsteen, também venceria a premiação máxima do cinema na categoria Canção Original. A canção fez tanto sucesso que se tornaria a mais famosa do compositor americano na Inglaterra. Para o clima ao mesmo tempo melancólico e afetuoso do filme, ela cai como uma luva, o que é complementado pelos versos doloridos e levemente enigmáticos - Eu estava machucado e surrado e eu não poderia dizer o que sentia / Eu estava irreconhecível para mim mesmo / Eu vi meu reflexo numa janela, não conhecia meu próprio rosto. No livro Almanaque da Música Pop no Cinema, do jornalista Rodrigo Rodrigues (que infelizmente faleceu de Covid), ele lembra que a música foi incluída no álbum All Time Greatest Songs, o que dá uma dimensão da sua importância. No auge do CD, o disco incluiria ainda outras gemas pop, como Philadelphia de Neil Young, Lovetown, de Peter Gabriel e uma versão de Have You Ever Seen the Rain?, do Creedence Clearwater Revival, interpretada pelos Spin Doctors. Mas é Streets of Philadelphia que se converteria num verdadeiro símbolo de combate ao preconceito contra pessoas contaminadas pela AIDS. Hoje esse tema parece até superado. Parece, vale lembrar. Mas em 1993, não dá pra negar, foi uma ousadia e tanto.


terça-feira, 16 de agosto de 2022

Cinemúsica - As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower)

De: Stephen Chbosky. Com Emma Watson, Logan Lerman, Ezra Miller, Paul Rudd e Melanie Lynskey. Drama / Romance, EUA, 2021, 103 minutos.

Existe uma cena emblemática em As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower) que permaneceria para sempre nos corações cinéfilos. Nela, o trio formado por Sam (Emma Watson), Patrick (Ezra Miller) e Charlie (Logan Lerman) se aventura em uma madrugada a bordo de um carro, atravessando um longo túnel ao som de Heroes do David Bowie. Na sequência, Sam se ergue acima do capô do carro com os braços abertos, enquanto a música sobe - como uma metáfora para o senso de libertação e de busca permanente pela felicidade, que parece mover os jovens de 16, 17 anos. É um período de incertezas. Cheio de dúvidas, de medos, de anseios, de frustrações, de desejos e de traumas. É aquele período em que os adolescentes prestes a entrar na fase adulta não sabem se ainda são crianças ou se já cresceram o suficiente para decisões importantes sobre futuro, carreira, formação e outros. "Nós podemos ser herois / Apenas por um dia" entoa Bowie, como que resumindo aquele instante juvenil.

E vamos combinar que, talvez não fosse a excelente trilha sonora, e o filme dirigido por Stephen Chbosky - que mais tarde filmaria o gracioso Extraordinário (2017) e o sofrível Querido Evan Hansen (2021) - talvez fosse apenas mais uma daquelas obras de formação que tanto vemos por aí. Aqui, a música tem papel fundamental em meio a mixtapes gravadas em que músicas sombrias como Asleep dos Smiths se destacam, conduzindo o trio central por entre os dissabores da adolescência. Charlie é o garoto solitário que guarda segredos do passado que envolvem o falecimento de sua tia Helen (Melanie Lynskey), enquanto tenta se enturmar com os veteranos do Ensino Médio, na Escola. Entre leituras de Scott Fitzgerald, Harper Lee e Charles Dickens - Charlie sonha em ser escritor, sendo apoiado pelo carismático professor Bill (Paul Rudd) -, o jovem se une a Sam e Patrick, passando pelo primeiro amor e por descobertas sexuais, que vem acompanhadas do uso de drogas, da formação da bagagem cultural, entre outros aspectos.

Em relação às citações culturais, não deixa de ser divertido acompanhar as recriações de sequências em que os atores encenam atos do clássico The Rocky Horror Picture Show - em que canções como Rose Tint My World e Touch-A Touch-A Touch-A se sobressaem. E o que dizer então do formidável momento em que, em um baile, todos se divertem ao som do excêntrico megahit Come On Eileen, do Dexys Midnight Runner? Em meio a tantas questões mal resolvidas, à relações complexas, à sonhos concretizados (ou não) e a desejos um tanto incompreendidos, a trama vai sendo costurada por trechos de canções de outros artistas, como Joey Ramone, Young MC, Cracker, L7 e The Samples, só pra citar alguns. Envelhecer não é fácil. Forma casca, nos ajuda a enfrentar o mundo e suas dores. Mas o que o filme de Chbosky nos lembra o tempo todo é que aquela música cantada na hora certa, no momento certo, pode eternizar instantes. Por mais estranho que seja o fato de ninguém saber que Heroes é cantada por Bowie - aliás, descobrir de quem é a música se torna uma das metas do trio central naquele começo dos anos 90.

Repleto de frases de efeito que, em tempos de séries adolescentes vigorosas como Euphoria quase soam datadas - "Não escolhemos o passado, mas podemos decidir sobre o futuro", "Aceitamos o amor que acreditamos merecer" -, a obra é uma experiência leve mas sinuosa, poética mas descolada, melancólica mas esperançosa. Com um aceno especial aos esquisitos, aos introvertidos, àqueles que preferem ficar num canto lendo um livro, do que experienciar o vazio hedonista que muitas vezes dita esta fase (e não há nada errado nisso). Se um filme do John Hughes fosse realizado nos anos recentes talvez ele tivesse essa cara de As Vantagens de Ser Invisível. Aquela cara de tédio meio iludido de quem aguarda uma formatura que parece distante, mas que vê essa eternidade sendo reduzida em meio a recortes aleatórios cotidianos cheios de cor, de vida e de música. De estereótipos que se quebram. E de luzes e de tempo que passam rapidamente a bordo do carro enquanto uma música que amamos toca.


quarta-feira, 1 de junho de 2022

Cinemúsica - Ases Indomáveis (Top Gun)

De: Tony Scott. Com Tom Cruise, Val Kilmer, Kelly McGillis e Anthony Edwards. Aventura / Romance, EUA, 1986, 109 minutos.

Um bando de homens musculosos, permanentemente suados, jogando vôlei sem camisa, dividindo vestiários e dando longos abraços "héteros" em clima de broderagem. Tudo em meio a manobras aéreas arriscadas em um treinamento da Marinha dos Estados Unidos. Sim, pode até parecer um soft pornô gay - aliás, a energia homoerótica da obra é forte -, mas é apenas o clássico Ases Indomáveis (Top Gun), que resolvi revisitar pra poder conferir a releitura, que está em cartaz nos cinemas. Aliás, Top Gun: Maverick (2022) tem recebido muitos elogios do público e da crítica com bilheterias exorbitantes, o que significa que, nesse caso, o reboot pode ter efeito positivo. Sim, porque vamos combinar que a obra dirigida por Tony Scott envelheceu inacreditavelmente mal. Trata-se de uma experiência brega, meio que no limite do mal gosto, que glorifica a guerra e ainda apela o tempo todo para uma certa toxicidade masculina. Parece, inclusive, um produto completamente deslocado de seu tempo, restando apenas um fiapo de nostalgia.

E boa parte desse sentimento brota justamente quando entra em cena o relacionamento de Pete Maverick Mitchell (Tom Cruise) com a astrofísica Charlotte Blackwood (Kelly McGillis) que é instrutora do curso Top Gun na Navy Fighter Weapons School. A cada insinuação que envolve o romance, seja nas tentativas de cortejo meio tortas do protagonista ou nas respostas atravessadas de Charlotte, temos um banho açucarado nas notas kitsch de Take My Breath Away, da banda Berlin. Aliás, a cena em que a dupla consuma o ato pela primeira vez, mais parece uma daquelas paródias que se vê em esquetes de comédia - com o casal agindo de forma absurdamente lenta, em meio a conjunto de luzes meio cafonas, cortinas esvoaçantes, enquanto rola a trilha. Independente disso tudo, para a história ficou o Oscar de Melhor Canção Original para a balada, que certamente foi fundamental para que esta fosse uma das trilhas sonoras mais vendidas de todos os tempos.



É claro que outras canções contribuíram para o sucesso - casos de Danger Zone e Playing With the Boys de Kenny Loggins ou mesmo Great Balls of Fire, de Jerry Lee Lewis (que é citada de passagem no decorrer da narrativa e seria inclusa em uma edição especial do disco com cinco faixas bônus, que chegaria ao mercado em 1999). Mas o tour de force melodramático do Berlin, com sua melodia insidiosamente kitsch e letrinha cafonérrima (Através da ampulheta eu vi você / No momento em que você escapou) alçaram não apenas o filme, mas o próprio coletivo a um inesperado estrelato tardio. No livro Música Pop no Cinema, do falecido jornalista Rodrigo Rodrigues, o vocalista Terri Nunn lembra o fato de o grupo já estar há 13 anos na estrada. "Na época fomos abordados pelo produtor Giorgio Moroder (quem mais?) , que disse que tinha uma grande balada que seria o som do verão e que tínhamos que gravar". "Não era o nosso tipo de som, mas topei na hora", recorda.

Para além da trilha sonora, na trama acompanhamos o jovem Maverick, um piloto que ingressa na Academia Aérea na intenção de se tornar piloto de caça. Intempestivo, ousado, meio inconsequente até, o personagem se apresentará como uma figura controversa, que desafia Charlotte, que é sua superiora, ao mesmo tempo em que se arrisca, desnecessariamente, em manobras perigosíssimas (para alegria dos cinéfilos que apreciam sequências envolvendo aviões zunindo e perseguições aéreas). Após um episódio traumático durante o treinamento, o sujeito precisará provar o seu valor - o que ele fará, evidentemente (e no caminho não faltarão bandeiras norte-americanas tremulando, uniformes em tons camuflados, discursos edificantes e suor, muito suor). É o filme que acerta em cheio o coraçãozinho do cidadão héterotop, que veste sua jaqueta de couro, que monta na sua Harley Davidson e que acredita, ao final do dia, que toda a experiência com o cinema na atualidade, funciona na base da lacração, do globalismo e da subversão de valores. E que talvez nem ache assim tão curioso jogar vôlei sem camisa e de calça jeans. Com gestos afetadíssimos. Ao som de Playing With the Boys. Na real os sinais estavam todos lá. Muitos não perceberam. E a trilha sonora era só um detalhe.


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Cinemúsica - Carruagens de Fogo (Chariots of Fire)

De: Hugh Hudson. Com Ben Cross, Ian Charleson, Ian Holm e Cheryl Campbell. Drama, Reino Unido, 1981, 123 minutos.

Esse é um caso emblemático de filme que, para a história, é muito mais lembrado pela sua inesquecível trilha sonora, composta por Vangelis, do que por qualquer outro motivo. Aliás, muito provavelmente em uma lista com as maiores esquisitices da história do Oscar, a vitória de Carruagens de Fogo (Chariots of Fire) como Melhor Filme, segue como um dos maiores mistérios da maior cerimônia do cinema. Não há nenhuma explicação plausível. A obra é brega, conservadora, com uma mensagem meio ultrapassada que une apoteose esportiva com religião e que, na atualidade, soa apenas datada. Mas eram outros tempos, claro. A Academia evoluiria, deixaria de lado esse ideal do cinema como algo mais tradicional, que manda um afago para o cidadão médio. Só que ficou a música. Replicada, parodiada, imitada. Que surge em esquetes de humor, aberturas de formatura, palestras motivacionais de gosto duvidoso. E em qualquer evento esportivo, claro.

É a trilha sonora oficial de "alguém correndo em câmera lenta". Qualquer que seja o contexto. No filme de Hugh Hudson tudo acontece já na sequência inicial. Um bando de jovens correndo de pés descalços na beira da praia. A câmera vagarosa indo de um rosto a outro, entre sorrisos, caretas e expressões de sofrimento. A música evocativa de Vangelis, surge com sua batida hipnótica, que é invadida pelos sintetizadores grandiosos que fornecem uma espécie de transe para o espectador. Instantaneamente somos catapultados para um filme sobre atletismo. Que é baseado em fatos reais - e que narra a história das primeiras conquistas da equipe olímpica de corrida da Grã-Bretanha, nos Jogos de Paris, em 1924. O período é o entre-guerras. Há muita desconfiança de todos os lados - e até recusas a competir por motivos religiosos (o domingo, pelo visto não foi feito para colocar os tênis e para uma ida no parque).


Na trama somos apresentados a dois velocistas. Um deles, de nome Harold Abrahams (Ben Cross), é um filho de judeu que pretende provar a sua capacidade na corrida - a despeito da desconfiança da família, que possui uma confortável situação financeira. O outro é o devoto cristão Eric Lidell (Ian Charleson), um missionário escocês que acredita que a sua capacidade atlética nata é uma espécie de dádiva divina (e cabe a ele cumprir os desígnios de Deus em Terra, como forma de honrar a sua virtude). Da chegada a Universidade de Cambridge - com as primeiras e divertidas corridas -, até o chaveamento que lhes levará aos Jogos Olímpicos, ambos percorrem caminhos distintos. Lidell possui um talento natural, do qual se sobressai de forma espontânea. Já Abrahams contrata um treinador ítalo-árabe de nome Mussabini (Ian Holm), que também gera dissabores entre os católicos mais fervorosos, com a competição entre a dupla sendo o combustível para que ambos prossigam em seus objetivos.

Em meio a disputas entre eles, que envolvem ainda longos debates com os reitores da Universidade, com líderes religiosos e com familiares - muitos eles desgostosos com o conceito de prática de esportes como um ideal de vida -, o filme funciona como um pequeno libelo sobre triunfo e redenção, com o atletismo permeando a narrativa. E, nesse sentido, não deixa de ser soberbo o trabalho técnico de reconstrução das corridas, com toda a sua emoção, e que testa aqueles que acompanhamos até os seus limites físicos. Nesse sentido, se há alguma beleza em Carruagens de Fogo está na cruzada da dupla central que acaba por confrontar as instituições mais ortodoxas pelo bem do esporte. E sobre como a disputa saudável entre todos eles, se torna estímulo natural para todos os colegas da equipe britânica. Sim, hoje o filme é datado. Quase enfadonho. Mas a imagem de exaltação física e de competividade seguem inabaláveis. Assim como a trilha de Vangelis.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Cinemúsica - Clube dos Cinco (The Breakfast Club)

De: John Hughes. Com Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Molly Ringwald, Judd Nelson e Ally Sheedy. Comédia dramática, EUA, 1985, 97 minutos.

Acho que poucas vezes na história do cinema, um filme ficou tão "amarrado" à sua trilha sonora, como no caso de Clube dos Cinco (The Breakfast Club) - o libelo adolescente dirigido por John Hughes (Curtindo a Vida Adoidado) e que era figurinha fácil na Sessão da Tarde três décadas atrás. Sim, basta que ouçamos os primeiros acordes do clássico Don't You (Forget About Me) do Simple Minds - que até hoje toca com assiduidade nas rádios com programação light -, para que nos recordemos dessa pequena joia sobre cinco adolescentes que, de castigo em um sábado qualquer, precisam escrever juntos uma redação de mil palavras que lhes alivie da punição. Completamente diferentes entre si, os cinco quase não sobrevivem à prova da quebra de estereótipos tão comuns em filmes do gênero, sendo representados pelos arquétipos do atleta (Emilio Estevez), do bad boy (Judd Nelson), da patricinha (Molly Ringwald), do nerd (Anthony Michael Hall) e da esquisitona (Ally Sheedy).

Os problemas de cada um variam das dificuldades de relacionamento com os pais, passando pelas inseguranças típicas da juventude (a longa discussão sobre virgindade dá um indicativo a respeito da supervalorização do tema), até chegar naquele anseio de mudar esse mundo careta, conservador e anacrônico no qual eles estão inseridos (em que adultos com roupas como as do Barry Manilow decidem como eles devem agir). Iconoclasta em muitas etapas - ainda que, atualmente, alguns instantes possam soar meio datados -, o filme já abre com uma inesquecível sequência em que cada um dos cinco jovens chega à contragosto na escola, enquanto a canção que norteia a película vai ocupando nossos ouvidos. Em cada corte da montagem inicial, um pequeno fragmento que dá conta do tipo de vandalismo que o educandário precisa lidar (lixeiras viradas, pichações aleatórias, prédios depredados). E um diretor linha dura (Paul Gleason), que trata de enquadrá-los.

Analistas como a crítica da Revista Empire Joanna Berry destacam que um dos grandes méritos do filme, é o de "finalmente mostrar adolescentes como realmente falam e pensam". Nesse sentido, não há muito espaço para concessões. Para começar o linguajar chega a ser perversamente chulo, com direito a sugestões que aludem a agressões sexuais, que rapidamente derivam para a verbalização generalizada de ressentimentos. Especialmente no início a relação é truncada. E, assim será por um bom tempo, já que cada um deles têm motivo para estar de cara com a situação. Será lá pelo meio do filme, em meio a uma tentativa frustrada de fuga, que culminará em uma sessão coletiva de maconha (o volume de fumaça gerada é típica dos filmes de humor que brincam com a situação), que os ânimos começarão a ser apaziguados. Com cada um ouvindo mais do que falando, compreendendo um ao outro, e percebendo que podem ser muito mais parecidos do que suas vestimentas ou preferências musicais fazem parecer crer.

É uma mensagem simples de aceitação do diferente, que parece ser ecoada pelo lirismo perfeito da música do Simple Minds, com sua costura ambiguamente radiofônica e classuda, que é complementada pela letra etilicamente romântica - Eu estarei dançando sozinho, você sabe, baby / Me conte seus problemas e dúvidas. No livro Música Pop no Cinema, o jornalista precocemente falecido de covid-19 Rodrigo Rodrigues lembra que a canção foi escrita exclusivamente para a obra, após outros artistas como Pretenders, Billy Idol e Brian Ferry declinarem do convite. O resultado? O coletivo inglês que circulava discretamente pelos inferninhos, sem fazer muito barulho, foi catapultado para o estrelato graças ao sucesso comercial da música (tocada à exaustão naqueles efervescentes anos 80). Já, para o público, permanece até hoje na "retina" a imagem esmaecida de Judd Nelson na conclusão da obra, com o braço erguido e óculos escuros - um adolescente vitorioso, que parece ter conseguido levantar a cabeça para encarar o mundo de frente. Inesquecível.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Cinemúsica - O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary)

De: Sharon Maguire. Com Renée Zellweger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones e Jim Broadbent. Comédia romântica, Reino Unido / EUA / França / Irlanda, 2001, 97 minutos.

Mesmo tendo sido lançado há apenas 20 anos - o aniversário foi agora em abril -, é preciso admitir: O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones's Diary) envelheceu muito mal. Aliás, chega a impressionar como podiam ser aceitáveis piadas bastante machistas e flagrantemente gordofóbicas como aquelas que assistimos na obra estrelada por Renée Zellweger. Alguns instantes, como os que envolvem sequências de assédio moral (e sexual) na editora em em que a protagonista trabalha, beiram o constrangimento (caso daqueles que envolvem um colega esquisitão de meia idade que tem uma predileção por olhar para os seios de Bridget, independente do teor da conversa entre ambos). Enfim, duas décadas se passaram. E com o devido distanciamento e reduzindo um pouco a régua das exigências no que diz respeito ao politicamente correto, é possível se divertir bastante com o filme dirigido por Sharon Maguire e que toma como base o livro de Helen Fielding.

Afinal, trata-se ao cabo de uma comédia romântica, com todas as suas idas e vindas, incertezas, personagens inseguras - as femininas, inescapavelmente atribuindo a sua felicidade a presença de um namorado/marido -, arcos narrativos bem arredondados e aquele final feliz em que o casal central se beija, após alguma hesitação, enquanto a câmera se afasta e a trilha sonora sobe. Aliás, sobre a trilha sonora, ela é um capítulo a parte e respeita a tradição do estilo, ao valorizar o cancioneiro antigo como forma de dar um caráter nostálgico e eventualmente kitsch à narrativa. Não por acaso, em uma das primeiras grandes sequências da película, Bridget surge solitária e um tanto neurótica, após ter sido humilhada na festa de Natal da família. Ao som da breguíssima All By Myself, entoada por Jamie O'Neal, a protagonista resolve criar o famoso diário, onde abandonará as músicas de FM light, os cigarros e os quilos a mais, na intenção de surgir como uma nova mulher: mais magra, mais confiante, mais interessante (ou, ao menos, menos desengonçada).

É dessa forma que ela atrai a atenção do chefe cafajeste Daniel Cleaver (Hugh Grant), com quem tem um caso. Enquanto canções diversas, de artistas como Sheryl Crow (Kiss That Girl), Aretha Franklin (Respect), Diana Ross (Ain't No Mountain High Enough) e The Pretenders (Don't Get Me Wrong) dão o tom da narrativa, Bridget aparece oxigenada, vivendo uma vida de sonho. Até o momento em que ela percebe que o candidato a príncipe encantado não era aquela coisa toda: enquanto ela perde a confiança no, agora, ex-chefe (e ex-amante) - que é contragolpeado em uma das melhores sequências, e que culmina numa gostosíssima sequência ao som de I'm Every Woman, de Chaka Khan -, a protagonista se reaproxima, meio que involuntariamente, de Mark Darcy, o amigo de infância responsável pela humilhação na citada festa de Natal. Aliás, Darcy surgirá o tempo todo, em tudo quanto é lugar, e não é preciso ser nenhum adivinho pra entender onde esse vai e vem dos dois vai terminar.

Nesse sentido, O Diário de Bridget Jones é a construção clássica da comédia romântica por excelência, com um sem fim de reviravoltas que chegam a deixar o espectador em dúvidas sobre a possibilidade de que se sobressaia algum tipo de amor verdadeiro, ao final do filme. Divertida, a película utiliza o seu elenco carismático para entregar sequências que beiram o delírio nonsense - como aquela em que Darcy e Cleaver "duelam" por sua amada (o o que ocorre ao som de uma versão oxigenada de It's Raining Men, cantada por Geri Halliwell -, para  no instante nos inundar de amor com uma sequência bastante romântica que ocorre ao som da graciosa Out Of Reach da britânica Gabrielle. Todo esse combo funcionou tão direitinho à época que rendeu duas continuações, que utilizaram o mesmo expediente musical: Bridget Jones No Limite da Razão (2004) e O Bebê de Bridget Jones (2016).

quinta-feira, 18 de março de 2021

Cinemúsica - O Homem do Futuro

De: Cláudio Torres. Com Wagner Moura, Alinne Moraes, Gabriel Braga Nunes e Maria Luisa Mendonça. Comédia / Ficção Científica, Brasil, 2011, 106 minutos.

"Todos os dias quando acordo / Não tenho mais o tempo que passou / Mas tenho muito tempo." Devo confessar a vocês que sou absolutamente fascinado pela mistura de comédia, romance e ficção científica que o diretor Cláudio Torres utiliza em muitas de suas obras e não é diferente com o maravilhoso O Homem do Futuro. Prestes a completar dez anos de seu lançamento, a obra estrelada por Wagner Moura e Alinne Moraes é um tour de force nostálgico em que o tema das viagens no tempo é atualizado para a realidade brasileira, com ótimos efeitos especiais, diálogos espirituosos, piadas divertidas e excelentes escolhas para a trilha sonora. Admito que enquanto revisitava o filme - lembrava da paixão provocada por ele, no agora distante 2011 -, ainda não sabia bem em quadro aqui do Picanha o incluiria. Por estar disponível na Netflix poderia ser uma Pérola do streaming. Ou será que ele ficaria melhor colocado nos Grandes Filmes Nacionais? Só que enquanto acompanhava as desventuras de Zero (Wagner Moura) e Helena (Alinne Moraes), me dei conta do poder da música dentro dessa pequena joia do nosso cinema.

Aliás, talvez seja exagero da minha parte, mas eu arriscaria dizer que a obra conseguiu reposicionar a canção Tempo Perdido da Legião Urbana, quase a elevando a um outro patamar, exatos 25 anos depois de seu lançamento, bem nos anos em que a nossa Pátria se libertava do longo período de Ditadura Militar. Repaginada para o filme, a música - talvez antes imaginada por Renato Russo como um grito de independência de um contexto político que, agora, ficava para trás (era preciso recuperar o "tempo perdido", "olhar para frente" e "deixar a luz ligada mesmo que não tenhamos medo do escuro"), passa a ter ares oníricos, quase de sonho, com ecos, efeitos enfumaçados e outras trucagens que vêm a fortalecer a narrativa do sujeito inteligente, mas, meio sem graça, que é humilhado pela garota mais bonita da faculdade em uma noite despretensiosa de festa, no ano de 1991. Quando "surge" em cena, a canção é evocada de forma meio confusa, entortada, ilusória, fantasmagórica. Lembra quando Non, Je Ne Regrette Rien da Edith Piaf surge nos devaneios do personagem do Leonardo Di Caprio em A Origem (2010)? Pois é, o efeito é mais ou menos o mesmo.

Agora, passados 20 anos do ocorrido, Zero se tornou um cientista arrogante e debochado, que ocupa seus dias como professor de alunos que, ele mesmo, qualifica como "bando de debiloides". Ainda traumatizado pela fatídica noite da festa - onde ele é enganado por Helena e por um certo Ricardo (Gabriel Braga Nunes), que também tem algum tipo de interesse na moça -, o protagonista recebe a notícia de que está prestes a ser demitido. Sem alternativa, ele aciona um acelerador de partículas experimental, que ainda não foi concluído, que será capaz de fundir o espaço/tempo, fazendo com que retorne justamente para a noite da festa em que sofreu a humilhação. Seu objetivo, tal qual um Marty McFly de De Volta Para o Futuro (1985) será alterar o passado, escapando do ultraje sofrido. Mas será que modificar o que já se viveu pode ser a saída para uma vida melhor? Será que os sofrimentos passados, as dores superadas não podem nos ajudar a enfrentar de frente os nossos problemas? Mudar o destino pode ser o sinônimo para uma vida realmente feliz?

Com uma série de lições sobre tempo, memória, experiências e superação, a narrativa é costurada com uma série de gags divertidas, que se alternam com momentos bastante comoventes. Ao voltar para o passado, é uma graça ver o cuidado do desenho de produção, que coloca um telefone celular de proporções enormes na mão de uma pessoa que circula na rua. Em compensação, quando retorna para o tempo "presente", com a alteração concretizada, Zero se depara com uma vida acinzentada e tecnológica, tão luxuosa quanto degradante - como comprovam seus crimes com a Receita Federal. Só que nessas idas e vindas no tempo o destaque mesmo é a música. Além da onipresença de Tempo Perdido, que ressurge um bom punhado de vezes pontuando a narrativa, há ainda By My Side do INXS, Reflections Of My Life do Marmalade e It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine) do REM, além de uma versão bem apropriada de Creep, do Radiohead, cantada pelo próprio Moura. O Homem do Futuro é um filmaço: leve, bem humorado, capaz de gerar saudade de algum tempo que vivemos e não sabemos situar bem. Mas a meu ver a obra se torna ainda melhor e maior pelo bom uso da música. 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Cinemúsica - Alta Fidelidade (High Fidelity)

De Stephen Frears. Com John Cusack, Jack Black, Iben Hjejle, Catherine Zeta-Jones e Lisa Bonet. Comédia dramática / Romance, EUA, 2000, 113 minutos.

Acho que um dos aspectos que mais gosto a respeito da trilha sonora de Alta Fidelidade (High Fidelity) é o fato de ela estar diretamente conectada a história. E quando eu falo conectada, quero dizer que muitas das canções surgem como peças "ativas" da narrativa, o que lhes dá fluência, sugere intertextos e amplia a nossa percepção a respeito daquilo (ou daqueles) que acompanhamos. Como exemplo disso, cito a sequência em que Marie De Salle (Lisa Bonet) faz uma bela interpretação de Baby I Love Your Way, do Peter Frampton, obrigando o cínico e mau humorado protagonista Rob Gordon (John Cusack) a reconhecer o potencial por trás de uma música que ele, aparentemente, não gosta. Em outro momento - este mais divertido - o folgado Barry (Jack Black) reclama do fato de estar tocando uma canção do Belle & Sebastian na loja de discos do protagonista, sugerindo que esta seja substituída por algum material mais visceral, mais enérgico e menos monótono do que o som dos escoceses.

Sim, porque no filme baseado na obra de Nick Hornby, a música não é apenas um elemento que servirá para ilustrar certa passagem da narrativa, ou que servirá para evidenciar, com sua letra, aquilo que está sentindo (ou pensando) este ou aquele personagem. Em Alta Fidelidade a trilha sonora quebra JUNTO a quarta parede, sendo inserida de forma orgânica, praticamente o tempo todo, se misturando as muitas sequências, possibilitando caminhos, sugerindo estados de espírito. Assim, não é por acaso o fato de a movimentada Crocodile Rock de Elton John surgir em um momento em que Rob relata as alegrias de uma paixão da adolescência. O mesmo valendo para o momento em que o introspectivo Dick (Todd Louiso) explica para uma cliente da loja de discos sobre o fato de o Green Day ter se inspirado no hardcore do Stiff Little Fingers para gestar os seus primeiros álbuns. A música tá ali. O tempo todo. A toda hora insinuando caminhos, demarcando territórios.

No livro A Música Pop no Cinema do precocemente falecido Rodrigo Rodrigues (morreu de Covid-19, diga-se), o autor explica que a lista final de 12 canções, que viria a compor a trilha sonora, partiria de cerca de duas mil músicas, o que dá conta do cuidado dos produtores - entre eles John Cusack, que se envolveu nessa empreitada. Isto resultaria em uma coletânea classuda de clássicos do Velvet Underground, do Bob Dylan, do Stevie Wonder e até do Stereolab, sendo o próprio Jack Black, responsável por uma releitura de Let's Get It On, do Marvin Gaye. Aliás, Barry foi escrito pensando em Black e é ele que garante algumas das sequências mais divertidas da película, com seu comportamento abusadamente petulante, presunçoso - o que, de alguma forma, não deixa de ser uma forte crítica àquelas pessoas que se acreditam num plano superior por seu gosto musical (alô, roqueiros!).

Sobre o filme em si, ele vale cada segundo. Tão divertido quanto melancólico, funciona direitinho tanto como feel good movie quanto como romance escapista, com Rob fazendo uma revisão dos principais relacionamentos (frustrados, claro), de sua vida, depois da namorada Laura (Iben Hjejle) lhe dar o fora. Enquanto repassa os acontecimentos para tentar compreender onde as coisas degringolaram em cada um dos cinco namoros - e as listas de "cinco" são um clássico dentro da narrativa -, é acompanhado por reflexões, medos e inseguranças comuns a qualquer um de nós. Não por acaso, uma das sequências mais bacanas é aquela em que Bruce Springsteen em pessoa surge interpretando ele mesmo, na tentativa de "iluminar" os pensamentos do protagonista. Leve, fluído e absurdamente musical, Alta Fidelidade completa 20 anos de lançamento neste 2020, sendo impossível não associar a sua trilha sonora à qualidade - e a capa do disco, que vendeu milhões de cópias mundo afora e que "imitava" o clássico A Hard Days Night dos Beatles, segue como uma das mais memoráveis de todos os tempos. Bom demais!

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Cinemúsica - Três É Demais (Rushmore)

De: Wes Anderson. Com Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams e Luke Wilson. Comédia, EUA, 1998, 93 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Wes Anderson sabe que a trilha sonora, em seus filmes, tem grande importância. E talvez seja TAMBÉM por causa de suas escolhas musicais que a gente tenha aprendido a amar tanto os esquisitões, nerds e desajustados que sempre povoaram as suas histórias. Três É Demais (Rushmore), por exemplo, poderia ser apenas mais um filme de formação boboca, com um adolescente que não vê a hora de efetivamente "crescer", chegar a vida adulta. Mas uma coisa é o espírito juvenil carregado pela força de alguma composição descartável e urgente. A outra são as sequências que dão uma carregada nas tintas da profundidade, algo ampliado pelo nosso tamborilar de dedos ao som de Oh Yoko! de John Lennon, The Wind de Cat Stevens ou ainda A Quick One, While He's Away do The Who. A impressão, com tanta música bacana, é que o fiapo de história que estamos acompanhando se torna maior. Mais relevante. Ainda que inadiavelmente divertido.

Nesse sentido, acho que escolher trilha sonora é algum tipo de mérito que pode ser definidor até mesmo para o futuro de um cineasta. Será que Wes Anderson se sentiria, por exemplo, tão à vontade para escalar o Seu Jorge para recriar canções de David Bowie no absurdamente delicioso A Vida Marinha de Steve Zissou (2004) se não tivesse acertado em cheio da na seleção musical de Três É Demais? A segurança para isso certamente partiu de suas escolhas nessas obras já do final dos anos 90, quando tinha pouco mais do que 25 anos. Período em que seus filmes ainda não tinham o colorido tão ostensivo quase saído de experiências oníricas, abstratas e abundantemente vivas e a excentricidade de seus personagens ainda estava em fase "experimental". Hoje, Anderson é uma verdadeira marca e filmes como A Crônica Francesa (The French Dispatch), que estreia por aqui no dia 15 de outubro, são aguardadíssimos pelos fãs. Por nós, inclusive!

Já em Três É Demais, acompanhamos a rotina do esquisito Max Fischer (Jason Schwartzman), um jovem de quinze anos que possui uma bolsa de estudos no prestigioso colégio Rushmore e que só não é expulso do local porque participa de um sem fim de atividades extracurriculares - que envolvem grupo de prática de esgrima até envolvimento com a associação de apicultores. O caso é que, a despeito da criatividade para se meter em tudo quanto é coisa as suas notas são muito baixas. E a situação piora quando ele se apaixona pela professora Rosemary Cross (Olivia Williams), quase vinte anos mais velha do que ele. Tentando impressioná-la de todas as formas, Max se aproximará ainda do magnata Herman Blume (Bill Murray, quem mais seria?), um homem de meia idade que sofre de depressão e que também tem dificuldade de se "conectar" com outras pessoas. Nesse contexto, Rosemary obviamente considerará Max muito novo para ela. E terá um caso com Blume, o que iniciará uma disputa divertidíssima entre os dois "rivais".

No fim das contas a película é o mais improvável romance de formação que se tem conhecimento e a capacidade de Max em transformar o entorno para tentar chamar a atenção de sua amada renderá alguns dos melhores momentos da obra - como na parte em que ele moverá mundos e fundos para construir uma espécie de aquário junto a um campo de baseball. Incapaz de converter a paixão em algo para além do platônico, o protagonista se desgastará com todos a seu redor - de Blume ao seu melhor amigo, o pequeno Dirk (Mason Gamble). Povoando as sequências com uma série de piadas sobre amadurecimento e sobre a dificuldade de se encaixar em um mundo cheio de padrões, Anderson constrói uma saborosa comédia, que tem uma leveza palpável, que contrasta com o peso das canções escolhidas para a já citada trilha sonora. Não por acaso, será praticamente impossível não abrir um largo sorriso quando Ooh La La dos Faces surgir, já nos créditos finais, com as coisas meio que se "encaixando", de forma quase inesperada. Sensacional é pouco!

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Cinemúsica - E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?)

Por ser um filme mais musical dos irmãos Joel e Ethan Coen, E Aí Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?) pode até passar a impressão de ser um pouco menor do que efetivamente é. Nas aparências, é uma obra sobre três sujeitos que fogem de uma vida de escravidão numa fazenda ao Sul dos Estados Unidos para ir em busca de um suposto tesouro, que lhes possibilitará alguma dignidade na vida. Numa análise mais macro, o filme pode ser considerado um verdadeiro painel da Terra do Tio Sam pós-depressão, período em que a turbulência política se mescla com o aprofundamento do debate de temas como racismo - ao mesmo tempo em que tecnologias como o rádio começam a ocupar os lares americanos. Nesse sentido, a música tem papel central na obra que, ao final, funciona também como uma espécie de ode ao poder das artes. Especialmente pelo fato de a redenção do trio de desajustados vividos por George Clooney, Tim Blake Nelson e John Turturro também passar por isso.

Aliás, as canções que parecem saídas do folclore regionalista norte americano do começo do século passado acabam por fazer um amálgama quase involuntário à jornada dos anti-heróis que acompanhamos. Após escaparem da lavoura de algodão em que pesadamente trabalhavam - e ali a música, com todo o seu simbolismo de resistência já ecoa -, eles encontram em uma encruzilhada o talentoso violeiro Tommy Johnson (Chris Thomas King) que está indo para uma estação de rádio que está aceitando cantores de bluegrass e country que possam, simbolicamente (e talvez até nostalgicamente) trazer algum conforto para os lares americanos daqueles tempos. É nesse momento que Everett (Clooney), Pete (Turturro) e Delmar (Nelson) se juntam ao sujeito para formar o improvisado Soggy Bottom Boys, entoando pela primeira vez a efervescente e rural I Am a Man Of Constant Sorrow, o que lhes rende alguns dólares, lhes permitindo prosseguir em sua jornada.


Enquanto fogem das autoridades que fazem o diabo para tentar capturá-los, os Bottom Boys e sua música explodem no rádio sem que eles saibam. Aliás, nem o dono da rádio sabe quem são, já que ele é cego. Em meio a conflitos políticos com engravatados que começam a perceber o poder da mídia, Everett, Pete e Delmar se verão diante de uma série de confusões, como a fuga alucinada de um celeiro queimado e encontro aleatório com um grupo de supremacistas brancos da Ku Klux Klan, que pretende assassinar Tommy pelo simples fato de ele ser negro. Há ainda um atormentado encontro com sereias a beira de um rio - o que faz com que o folclore saia das canções para chegar, efetivamente, a história -, com tudo saindo meio errado e Pete sendo transformado em um sapo (!). Só que na maioria desses instantes desse road movie meio torto a música, intepretada por artistas variados como os Stanley Brothers, Harry McClintock e The Whites está lá, trazendo algum conforto, abraçando as personagens e nos fazendo, junto com eles, seguir adiante.

De uma forma meio curiosa, essas músicas de sulista norte-americano - aquele country cheio de letras festivas e mundanas - fizeram enorme sucesso, tornando o disco amplamente vendido. Talvez tenha a ver com a nostalgia do sonho americano, ou mesmo como uma forma de recuperar a autoestima no pós 11 de setembro - por mais que o filme tenha entrado em cartaz antes disso -, mas o caso é que a trilha foi bem recebida pelo público, ainda que tenha sido completamente esnobada na edição do Oscar de 2001. Isso não apaga o efeito causado e, a meu ver, a cena final, com o supremacista Homer (Wayne Duvall) caindo em desgraça política TAMBÉM por causa da música, é uma pequena forma de lavar a alma, com o trio de protagonistas sendo redimido pelo governador, que também está encantado com o potencial musical dos Soggy Bottom Boys. Ode a música e elogio ao potencial das artes inclusive do ponto de vista da influência polítca, social e cultural: é isso que essa pequena obra dos Irmãos Coen faz. É divertido, inteligente, subversivo. Do jeito que gostamos.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Cinemúsica - Fantasia (Fantasia)

Hoje em dia essa história é mais do que conhecida: foi uma ideia de JERICO a do Walt Disney a de juntar música clássica e animação no começo dos anos 40, em uma obra que receberia o nome de Fantasia (Fantasia). A intenção era nobre. Nobríssima! Tentar popularizar peças eruditas de Beethoven, Schubert e Stravinsky, juntando-as ao rato mais famoso daquela época - no caso, o Mickey. Foi um fiasco de bilheteria, com os poucos espectadores que se arriscaram, saindo enfastiados da experiência lisérgica, cheia de cores, formas e paisagens que poderiam vir acompanhadas de segmentos do Quebra Nozes, de Tchaikovsky ou de Uma Noite na Montanha Calma, de Mussorgsky. A regência, que ocorria em tempo "real", como parte integrante da película, ficou a cargo do maestro Leopold Stokowsky.

Nas oito histórias, os mais variados "formatos". O mais conhecido, como não poderia deixar de ser é, é aquele que evoca O Aprendiz de Feiticeiro, enquanto o Mickey se esforça para ensinar um grupo de vassouras (!) a levar baldes de água de um lado para o outro. A experiência com magia dá errado, claro, e Mickey quase se afoga enquanto as vassouras vilanescas se replicam de forma intermitente, inundando todo o cenário, ao mesmo tempo em que a música avança, com suas notas cheias de intensidade e volúpia. Aliás, está aí uma das mágicas do filme que contou com um coletivo de diretores e que viria a ser resgatado anos depois, por uma plateia de cinéfilos apaixonada: a de nos fazer pensar em quais as imagens mentais que "enxergamos", ao ouvir certa música. Que formas ou desenhos que se descortinam quando escutamos as notas econômicas da Dança da Fada Açucarada, de Tchaikovsky, por exemplo? Ou a Pastoral de Beethoven?


Bom, no caso da peça que integra o Quebra Nozes, o que vemos é um cenário aquático em que flores, algas e fadas se alternam de forma delicada, em um coletivo de cores reforçado por um brilho impactante. Em outras etapas do balé de Tchaikovsky - aliás, o próprio compositor russo detestava a sua criação, considerando-a excessivamente popularesca -, o que se veem são flores, cogumelos, cachoeiras e peixes, numa dinâmica que equilibra placidez e energia. A suíte se encerra com a primaveril Valsa das Flores, que nos força a um tipo de imagem mental quase óbvia. Já na Pastoral quem invade a tela são personagens da mitologia - de unicórnios a centauros, passando por deuses como Apollo, Baco e Zeus. A suíte, bucólica e onírica, se encerra com querubins de formas bem desenhadas que se misturam com deusas de um paraíso imaginário.

Imaginar. Essa foi a brincadeira de Disney que pretendia fazer um filme por ano nesse estilo, após o lançamento de Fantasia - o que não foi possível, dado o fracasso retumbante de bilheteria e o altíssimo custo de produção. O que ficou da experiência foi o vibrante caráter experimental da iniciativa que, vista hoje com distanciamento, se torna de certa forma compreensível. Disney vinha de dois sucessos, no caso Branca de Neve e Os Sete Anões (1937) e Pinóquio (1940). Se havia hora para arriscar, era aquela. Nunca mais repetiria a ideia. Ao contrário, investiria nos anos seguintes em obras que se tornariam clássicos instantâneos, como Dumbo (1941) e Bambi (1942), que permanecem até hoje no imaginário dos cinéfilos. Já o desfile de paisagens abstratas, com alternância de hipopótamos bailarinos, avestruzes que dançam, flores silvestres, deuses ecumênicos e vulcões que explodem em meio a dinossauros agressivos e danças tribais virou peça de excêntrica curiosidade, mas que foi resgatada em 1999, sendo redescoberta por um séquito de fãs.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cinemúsica - A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate)

É simplesmente impossível pensar no filme A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate) sem associá-lo imediatamente a sua trilha sonora, que contava com canções da dupla Simon & Garfunkel. Da abertura, com o jovem universitário Benjamin Braddock (Dustin Hoffmann) retornando para a casa dos pais após formado e andando pela sala de embarque do aeroporto ao som dos acordes de The Sound Of Silence, até o terço final, que ganha ares de road movie quando o protagonista decide que precisa a todo o custo casar com Elaine Robinson (Katharine Ross), com a melodia febrilmente adocicada e melancólica de Scarborough Fair/Canticle teimando em aparecer, a obra é pura nostalgia sonora. Com, como não poderia deixar de ser, a música Mrs. Robinson aparecendo como peça central - uma vez que a iniciação sexual de Benjamin, se dá a partir de um turbulento relacionamento com uma mulher mais velha, casada e que, no filme, tem o dobro da idade do rapaz (papel de Anne Bancroft).

Bom, a trilha sonora do filme é muito boa, naturalmente. Surge para pontuar momento de delicadeza (e também de incerteza) na vida do protagonista que, de volta para a casa dos pais, não sabe muito bem o que fazer ou o que quer da vida. Sua existência se resume as horas em que fica na piscina e que, lá pelas tantas, passam a se alternar com os encontros fortuitos com a Mrs. Robinson de Bancroft. E, sobre estes encontros, a parte que mais gosto nessa película que, ainda hoje, é considerada um clássico, é justamente o terço inicial. Isto por que poucas o nervosismo e a inexperiência de um homem jovem diante da iminência de fazer sexo com uma mulher bem mais velha, foi tão bem retratado como no segundo filme do diretor Mike Nichols (Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?). Benjamin está SEMPRE suando, tenso, pouco relaxado. E, aparentemente virgem aos 21 anos, inventa uma série de desculpas para consumar o ato. Sim, trata-se de um caso de adultério, mas os motivos das "esquivas" do jovem não parecem estar ligado a isso.


Por que no mais, contando as outras partes do filme, é inacreditável como a obra envelheceu mal. Aliás, eu diria que, nos dias de hoje, o comportamento meio psicótico de Benjamin, um jovem mimadinho pelos pais que se descobre um tipo de hedonismo perdido em algum lugar de sua mente, seria praticamente inaceitável. Bom, como exemplo do que falo, basta lembrar da patética sequência final, em que o rapaz fica gritando para Elaine que nem um maluco, dentro da Igreja em que ela está na iminência de se casar. A própria urgência de consumar um casamento seria algo antiquado, conservador para os dias de hoje. Fora o fato de que Benjamin fica literalmente perseguindo Elaine na faculdade em que ela estuda, estando com ela em todos os ambientes, com todas as outras pessoas (colegas, amigas), insistindo para que ela case com ele. Quase sem lhe dar sossego. Em qualquer outra situação, provavelmente seria recomendada uma medida protetiva a jovem. Mas, no fim, eles ficam juntos. Coisa da época, claro.

Bom, evidentemente vocês se lembram que Elaine era filha da Mrs. Robinson. E esta parte também gera um componente de tensão que é ok para o filme - há uma ótima cena de discussão com o pai da moça, por exemplo. E é na primeira metade que está, por sinal, a sequência mais icônica da obra: aquela em que Benjamin aparece como uma figura "pequena", diante da curvatura da perna da mulher que lhe pretende seduzir. Ah, e como curiosidade Anne Bancroft tinha apenas seis anos a mais do que Hoffmann. Mas um trabalho elegante que somava boa maquiagem e utilização adequada de figurinos, transformou ele em um rapaz de 21 anos e ela numa mulher de 42. No fim das contas o que a crítica em geral considera, é que este é um filme de amadurecimento, sobre pessoas buscando ser felizes em um mundo cheio de inseguranças, de poucas perspectivas e de gritantes conflitos geracionais. O que talvez explique as atitudes extremas daqueles que assistimos.



Indicado a um punhado de Oscar na cerimônia de 1968, a produção viria a faturar a estatueta apenas na categoria Melhor Diretor - este fato pavimentaria a carreira de Nichols, que faleceu há exatos cinco anos, em novembro de 2014, e que nos entregou outras boas produções (como o recente Closer: Perto Demais). E vale lembrar que a película não foi indicada para Melhor Canção Original, por que Mrs. Robinson surge no filme ainda como uma versão inacabada, que mais tarde se tornaria single que bateria recordes (tudo isso depois de a obra ter sido lançado). No mais, ainda que a película apareça em todas as listas de melhores da história, a nostalgia fica mesmo por causa das músicas de Simon & Garfunkel, que funcionam para dar conta da confusão mental estabelecida na figura de Benjamin, suas inseguranças e incertezas.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Cinemúsica - Trainspotting: Sem Limites (Trainspotting)

Impossível pensar em Trainspotting: Sem Limites (Trainspotting) e não lembrar do amontoado de cenas icônicas que essa verdadeira joia do cinema alternativo e da cultura pop possui. Seja o bebê que caminha ameaçadoramente no teto do quarto decrépito de Renton (Ewan McGregor) ou mesmo o clássico "mergulho" em um vaso sanitário naquele que provavelmente é o pior banheiro de bar de Edimburgo (ou da história), o caso é que a película de Danny Boyle é uma verdadeira coleção de sequências delirantes a respeito dos efeitos do uso (e da abstenção) de heroína, por um grupo de desajustados que tem como único propósito de vida levantar, decidir qual vai ser a maracutaia do dia para garantir a manutenção das doses diárias da droga, e seguir a vida. De forma letárgica, torpe, sem propósito. Uma existência vazia, oca, pálida, como é a cara pálida do inesquecível protagonista.

Na época do lançamento do filme houve muita discussão a respeito de uma suposta glamourização do uso de drogas mas, vamos combinar que não. E assistir às doloridas sequências em que Renton está "preso" pelos pais em seu quarto como forma de garantir a sua reabilitação, em completa abstinência, são a prova disso. E nem precisamos comentar a cena em que o já citado bebê morre, resultado da negligência de um grupo de jovens que se entope de drogas, como forma de fugir de um mundo de merda. Por outro lado, é inegável a crítica que a película faz às convenções sociais que exigem das pessoas um bom casamento, uma casa (com hipoteca), uma vidinha ordinária com filhos, uma tevê de tamanho grande, a programação dominical, uma máquina de lavar, boa saúde, colesterol baixo, plano odontológico, salário fixo, Natal em família, tudo de acordo com o script, até o dia da morte. Os "vícios morais" da sociedade, se é possível fazer um trocadilho.


Mas vamos combinar que talvez o filme não funcionasse tão bem, se não fosse a sua inesquecível trilha sonora. Cada momento - divertido, urgente, violento, urbano - é movido por uma trilha sonora quase onipresente, que contribui de maneira genuína para a fluidez narrativa, saltando de uma sequência a outra de forma natural, por mais que o caos esteja estabelecido naquilo que assistimos. Aliás, a película já começa com Renton em fuga enquanto a sinuosa Lust for Life do Iggy Pop ecoa ao fundo com suas letras sobre ter "tesão pela vida" por motivos como trago e drogas - alguma semelhança com o que assistiremos naqueles 90 minutos seguintes? Aliás, nesse sentido, é inacreditável a capacidade que a trilha, selecionada por Tristram Penna, tem de "traduzir", seja com com seus ruídos, sintetizadores, pegada roqueira e letras foderosas, as sensações a respeito daquilo que acompanhamos. É como se fosse um espelho, uma paisagem sonora, permanente, natural, orgânica, diegética. Mas sem ser.

Isso é algo que fica claro, por exemplo, nas emanações etéreas de Deep Blue Day de Brian Eno, que transformam o já mencionado mergulho no vaso em um devaneio transcendental em meio à bosta. No andamento da película, um encontro com artistas variados, como Ice MC, Pulp, Elastica, Lou Reed, Damon Albarn e Underworld - esta última emprestando a sua hipnótica Born Slippy (Nuxx) para uma inesquecível e borbulhante viagem em um clube local. É tudo como se fosse uma aula de música junto com um filme - e é uma verdadeira pena que David Bowie não tenha aceitado participar da trilha, em um filme que combinava tanto com o espírito daquilo que ele pregava (não da apologia ao uso de drogas em si, mas da vida encarada com um espírito mais iconoclasta, subversivo e que questionava o status quo). Uma revisão de Trainspotting faz com que percebamos que a obra de Danny Boyle - que recebeu uma bem-vinda continuação recentemente - não envelheceu nadinha. Assim como não envelhece jamais a crítica a hipocrisia dominante em nossa sociedade.


terça-feira, 19 de junho de 2018

Cinemúsica - Vanilla Sky

Quem acompanha a carreira do diretor Cameron Crowe, sabe a importância que a música tem em seus projetos. E isso não é por acaso, já que o autor iniciou a carreira no jornalismo com apenas 15 anos de idade, escrevendo artigos para publicações como a Rolling Stone - mais tarde ele integraria a equipe de redatores do periódico, assinando matérias sobre a vida e a carreira de artistas diversos, como, Neil Young, Bob Dylan, Eric Clapton e David Bowie. E, de alguma forma, essa "iniciação" no universo musical pôde ser conferida no autobiográfico Quase Famosos (2000), obra, vejam só, sobre um jovem de apenas 15 anos, aspirante a repórter musical, que é incumbido de acompanhar uma banda (no caso a fictícia Stillwater), em turnê. Bom, dá pra perceber que o americano manja de música - mais ou menos como aquele seu amigo que sabe de todas as bandas mais hypadas no momento.

Bom, mas o nosso assunto não é o Quase Famosos - ainda que a obra também mereça figurar no nosso Cinemúsica. Vanilla Sky é o filme seguinte de Crowe. Protagonizado por Tom Cruise, é inspirado na película espanhola Preso na Escuridão (Abre los Ojos), concebida por Alejandro Amenábar, em 1997. A trama se passa em Nova York e é narrada por David Aames (personagem de Cruise) um bon vivant que herdou do pai uma grande editora de revistas. Assim, a vida boa cheia de festas luxuosas, mulheres lindas, figurinos exuberantes e viagens internacionais, faz parte da rotina. Só que uma série de flashbacks mostram Aames na atualidade, sendo investigado por um crime e com o rosto coberto por uma máscara de borracha - sendo que não demora para que percebamos que o recurso serve para encobrir um rosto desfigurado, por conta de um acidente cometido por Julie (Cameron Diaz), em um acesso de loucura motivado por ciúmes.



Bom, esse é apenas um resumo e quem já assistiu o filme lembrará que as idas e vindas no roteiro servirão para apresentar os fatos como ocorreram (e também qual a misteriosa explicação para as aparições de Aames com o rosto reconstruído, tempos depois do acidente). Na verdade o filme costuma dividir opiniões - a crítica não simpatizou muito com o clima excessivamente hollywoodiano, na época do lançamento. Já o público, movido pelo elenco cheio de estrelas - além de Cruise e Diaz, Penélope Cruz, Kurt Russel, Jason Lee, e Tilda Swinton dão as caras-, parece ter tolerado melhor a mirabolante trama. Já quem gosta de boa música, encontrará aqui e ali sequências embaladas por nomes diversos, como, Radiohead, Sigur Rós, REM, Paul McCartney - que fez canção exclusiva pra obra -, Chamical Brothers, Jeff Buckley e Bob Dylan (aliás, a capa do disco Freewheelin' aparece em uma das mais tocantes sequências da película, já no terço final). Um verdadeiro prato cheio!

Em meio a sequências como a de abertura, ao som de Everything In It's Right Place do Radiohead (que com sua excêntrica letra funciona como uma espécie de preâmbulo para uma vida como a do protagonista, que mistura realidade e ficção) ou aquela pós acidente ao som de Sweetness Follows, do REM, há outras, como a absurdamente dramática (e engraçada) cena em que um Cruise já acidentado, canta One Of Us, da Joan Osbourne, em uma maca. É nesse clima meio nonsense, com uma trilha sonora cosmopolita e urbana - que equilibra canções pop, rock e eletrônicas na medida certa - que Crowe transforma o seu filme em um verdadeiro almanaque do cancioneiro de todos os tempos. No fim das contas, falar de Vanilla Sky, na realidade, é lembrar de um filme que não era tão bom quanto a sua trilha sonora, que permanece sendo o seu grande mérito.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Cinemúsica - Encontros e Desencontros (Lost In Translation)

O flerte com a cultura pop - e, consequentemente, com o universo da música - já é uma espécie de tradição no que diz respeito a a filmografia da diretora Sofia Copolla. Desde a estreia com As Virgens Suicidas (1999) até, mais recentemente, em Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013) muitos foram os artistas que emprestaram as suas canções para as películas dela - de Carole King e Phoenix a Kanye West e My Bloody Valentine. O que dá, diga-se de passagem, uma boa ideia da diversidade de estilos e da pluralidade pensada pela filha de Francis Ford na hora de escolher as trilhas sonoras que comporão suas obras. Pois um dos filmes mais queridos da diretora, o ótimo Encontros e Desencontros (Lost In Translation), também tem um repertório inesquecível de canções que vão desde as ambientais - que servem como uma paisagem sonora perfeita para o sentimento de solidão que invade os protagonistas - até chegar em petardos mais intensos, como, God Save The Queen dos Sex Pistols.

B.B. King, Elvis Costelo, Peaches, Nat King Cole, Air e Chemical Brothers e mais alguns outros embalam os momentos que resultarão na aproximação entre Bob Harris (Bill Murray), estrela de cinema que está em Tóquio para fazer um comercial de uísque e Charlotte (Scarlett Johansson), que está na capital japonesa para acompanhar o marido fotógrafo (Giovanni Ribisi), que lhe deixa o tempo todo sozinha no hotel por que só pensa em trabalho. Ambos têm dificuldades para dormir (e até para existir) e, acabam, aqui e ali, se encontrando meio que sem querer no bar do hotel, na piscina ou no elevador. Não demora para que, dali, a despeito da diferença de idade, nasça uma grande amizade entre ambos, que se sentem isolados em relação ao contexto em que estão inseridos - que é o de uma metrópole fria, individualista, apressada, urgente e, invariavelmente, multicolorida (como mostram as sequências nas casas de jogos).



Diga-se de passagem, também nestas cenas, a confusão produzida pelos efeitos sonoros que saem caoticamente de cada aparelho serve como metáfora perfeita para a bagunça interior que parece invadir cada um dos protagonistas. Nesse sentido os encontros, a conversa, a cumplicidade que começa a acontecer, os eventuais silêncios e sorrisos tímidos e até o sentimento de euforia por esta "novidade", formam a representação do acolhimento tão sonhado, da saudade do que não foi, daquilo que era pra acontecer mas não era possível. O Japão urbano e a sua balbúrdia representam a vida daquelas personagens naquele instante que, como se estivessem perdidas no mundo, procuram o aconchego perdido. E tudo isto embalado por uma trilha sonora que mescla na medida certa shoegaze, música eletrônica e pop francês - o que acaba sendo a equação perfeita para uma espécie de nostalgia romântica vivida por qualquer um de nós, seja na memória afetiva da paixãozinha adolescente que não aconteceu, seja nas decepções amorosas que fazem parte da vida.

Mas, numa análise geral, nenhuma passagem musical é mais marcante para mim do que aquela em que Charlotte canta - e a voz rouca e sussurrada de Johansson parece perfeita para isso - o clássico oitentista Brass In Pocket, do The Pretenders. A melancolia onipresente, os olhares trocados, o clima de fim de festa bêbado e entorpecido, uma charmosa desafinação, a letra ousada e provocante - 'Cause I gonna make you see / There's no one else here / No one like me / I'm special so special / I gotta have some of your attention give it to me -, tudo é perfeito nesse instante que, pode-se dizer, resume a obra e aquilo que ela tenta nos mostrar, com precisão. Murray não poderia estar mais perfeito como o sujeito que vivencia aquilo com a consciência de um mundo que não lhe pertence. Scarlett, carismática, magnética e encantadora, é capaz de fazer até a porta do quarto do hotel se apaixonar. Mas não era pra ser, o que, diga-se, não é problema, já que esta é a vida real. E o que nos resta disso tudo? A música, que serve para embalar nossas alegrias e tristezas na medida certa.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Cinemúsica - Forrest Gump: O Contador de Histórias

Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump) é o cinemão por excelência. Se por um lado equilibra a tradição do filme épico - com seus protagonistas heroicos e eventos históricos -, por outro, com estilo fluído e despretensioso, resulta em uma daquelas saborosas obras que conhecemos pela alcunha de Estilo Sessão da Tarde. No auge de sua capacidade de atuação, Tom Hanks, que ganharia o seu segundo Oscar seguido pelo papel (no ano anterior já havia vencido pela comovente caracterização de um jovem advogado diagnosticado com o vírus da AIDS em Filadélfia), interpreta o protagonista. Um sujeito de modos simples, inadvertidamente tímido e inseguro e, ainda por cima, com QI abaixo da média. Mas que, devido a sua quase milagrosa persistência, consegue ser figura onipresente em uma série de acontecimentos reais da história americana recente se tornando, de quebra, um homem de negócios bem sucedido - bem ao modo como amam os americanos, diga-se.

Lembra do Tourist Guy que, após os eventos relacionados ao 11 de setembro, teve uma série de fotos (fictícias, claro), divulgadas em acontecimentos catastróficos históricos? Bom, Forrest teve uma vida parecida e, certamente, menos trágica. Em sua trajetória, que começa com o inevitável bullyng na escola por conta de um problema de coluna que o faz usar um aparelho nas pernas (que milagrosamente desaparece), o jovem ensinará Elvis Presley a requebrar. Após, jogará futebol americano, sendo campeão do Super Bowl. Será combatente na Guerra do Vietnã, recebendo medalha de honra das mãos do presidente Lyndon Johnson pelo resgate heroico de colegas, entre eles o Tenente Dan (Gary Sinise). Conhecerá também os presidentes Kennedy e Nixon, sendo um dos responsáveis diretos pelo escândalo de Watergate. Inspirará John Lennon para a canção Imagine, será fera em tênis de mesa e se tornará magnata da indústria de camarões enlatados. E tudo isso sem esquecer aquela que ele considera o amor de sua vida, Jenny (Robin Wright). Ufa!



Não bastasse a inserção do protagonista em imagens e fotos históricas - em um trabalho bacana e divertido de edição de Arthur Schmidt, que seria premiado com o Oscar - o diretor Robert Zemeckis ainda reforça a ideia do filme enquanto painel semidocumental de um cenário político-ideológico-cultural da segunda metade do século 20, por meio da inserção de um verdadeiro catálogo de clássicos musicais do período. Se as cenas nos fazem rir e chorar numa mescla soberba e orgânica de estilos, a presença de canções de grupos e artistas tão distintos, como, Joan Baez, The Mamas & The Papas, The Doors, Simon & Garfunkel, Aretha Franklin, Beach Boys, The Byrds e Bob Dylan, só torna a experiência ainda mais saborosa. Nesse sentido, não há exatamente um momento que se sobressaia e sim um conjunto capaz de trazer a baila a importância do legado da contracultura - especialmente nas cenas com Jenny - como um contraponto aos valores preponderantes do "sonho americano", como o patriotismo, o consumismo e a importância da ascensão social. (ainda que a morte de Jenny ao final e a exaltação dos "feitos" alcançados por Forrest, vamos combinar, signifique EXATAMENTE o contrário)

Não é por acaso que a presença de canções como Volunteers, do Jefferson Airplane (Look what's happening out in the streets / Got a revolution, got to revolution), Respect, da Aretha Franklin (All I'm askin' (oo) / Is for a little respect when you come home), além da autoexplicativa  What the World Needs Now Is Love, de Jackie DeShannon, são tão representativas para ilustrar um mundo que se mostrava em permanente transformação. E que possibilitava, por exemplo, a ascensão e o reconhecimento por parte da sociedade de um jovem "problemático" como Forrest. Talvez não seja exagero, nesse sentido, entender a jornada de Forrest e o fato deste ter "vencido na vida" contra todas as possibilidades, como uma espécie de mensagem de crença nas potencialidades, independente de cor, raça, credo ou capacidade intelectual. Sim, parece autoajuda, e talvez seja. Ainda que meio difusa, já que o filme parece mais voltado a americanos, brancos, conservadores, religiosos e bem sucedidos.


Bom, talvez Forrest Gump não seja um filme tão profundo. Ou mesmo as canções talvez não quisessem passar toda essa mensagem - há muitas críticas a presença do amigo Bubba (Mykelti Williamsom) como um mero coadjuvante que parece passar pelos mesmos problemas. Mas gosto de pensar na obra de Zemeckis, que no fim faturaria a estatueta dourada máxima daquele ano (injustamente, diga-se: é só ver a lista de indicados), como uma obra de mais envergadura do que parece, mesmo que tenha um pé na aventura e no cinema de ação despretensioso, capaz de resvalar ainda no drama romântico. Intencional ou não o caso é que a trilha sonora, lançada em disco duplo com 34 clássicos do cancioneiro americano, foi uma das mais vendidas da história, com mais de 12 milhões de cópias comercializadas. "O objetivo foi fazer uma linha do tempo através da música sem interferir na história que estava sendo contada", explicou na época o produtor musical Joel Sill, no livro Música Pop no Cinema, de Rodrigo Rodrigues. Mas com tantos clássicos, com tantos petardos inesquecíveis, o que menos ocorre com essa trilha é ela passar despercebida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Cinemúsica - Pulp Fiction: Tempo de Violência

É praticamente impossível falar da equação música + cinema sem pensar em Quentin Tarantino. Muitos diretores utilizaram o expediente com o objetivo de enriquecer as suas experiências cinematográficas, mas, talvez a exceção de Cameron Crowe (de Vanilla Sky e Quase Famosos), poucos tiveram a eficiência desse ex-balconista de videolocadora, que levou a paixão pela sétima arte ao limite, ao se tornar um dos mais importantes realizadores da atualidade. Para Tarantino, muito mais do que a execução do ponto de vista técnico - com enquadramentos precisos, desenho de produção adequado, interpretações impecáveis ou fotografia bem produzida -, o importante mesmo é se divertir. E a música - assim como os videogames, as séries japonesas, os antigos filmes de faroeste spaghetti ou as histórias em quadrinhos obscuras -, é preciso que se diga, tem papel fundamental nesse processo.

Se com o inaugural Cães de Aluguel (1992), o diretor utilizou a trilha sonora de uma maneira digamos, mais econômica, foi com Pulp Fiction - Tempo de Violência (Pulp Fiction), que Tarantino explorou ao máximo as possibilidades do uso da música como parte importante da construção fílmica - capaz de alterar as sensações ou mesmo a nossa percepção sobre aquilo que estamos vendo. Utilizando-se de um verdadeiro caldeirão de referências sonoras, o diretor vai do surf rock - na primeira cena do filme, durante os créditos iniciais quando da execução de Misirlou, regravação de Dick Dale para uma clássica canção grega -, passa pelo boogie woogie do Kool and the Gang - quando vemos Jules (Samuel L. Jackson) e Vincent Vega (John Travolta) conversarem sobre "massagens nos pés" - até chegar ao romantismo lascivo da quente Let's Stay Togheter de Al Green, executada durante a cena em que o boxeador Butch (Bruce Willis) conversa com seu chefe Marcellus Wallace (Ving Rhames), sobre uma luta que ele deve entregar.


Mas é provável que nenhuma canção tenha se tornado tão clássica e referencial, quanto a versão do Urge Overkill para Girl, You'll Be a Woman Soon, regravada a partir do original de Neil Diamond, apresentada pela primeira vez em registro de 1967. Até hoje é praticamente impossível escutar a canção sem lembrar do filme - e da cena em que ela aparece. A sequência ocorre logo após a famosa competição de twist no bar Jack Rabbit's Slim (outra cena clássica!), quando Mia (Uma Thurmann) e Vega dançam ao som de You Never Can Tell de Chuck Berry - é a famosa coreografia da dancinha com os dedos em "V" cruzando o rosto, tão imitada até hoje. Ao chegar em casa, Mia coloca a música em um disco de vinil, enquanto Vega, preocupado com a pouco apropriada aproximação com a "mulher do chefe", vai ao banheiro. É o momento em que Mia praticamente se mata de tanto cheirar e que faz com a trama promova mais uma de suas tantas reviravoltas.

A propósito do roteiro intrincado, a trilha sonora praticamente onipresente - especialmente na primeira metade da película - contribui para criar o clima cool/retrô que serve de amparo para um roteiro que, em linhas gerais, apresenta um panorama sobre a violência em diversas cidades dos Estados Unidos. Utilizando-se de elipses, flashbacks e outras trucagens de edição, Tarantino mantém o espectador ligado em três histórias que ocorrem em paralelo e que serão conectadas, com o desenrolar do filme. Quando Vega aparece, por exemplo, utilizando inexplicáveis calção, chinelo de dedo e camiseta ao estilo "coxinha", no início da projeção, apenas mais tarde entenderemos os motivos disso. Ao brincar ainda com o conceito de "nascer de novo", o diretor ainda subverte a lógica da "segunda chance na vida" para os personagens, apenas para, no instante seguinte, escancarar em nossas telas o fato de que a violência não escolhe nem hora e local.


Abusando, ainda, do charme em diálogos irresistíveis, Tarantino constroi uma obra que utiliza um modelo que, de maneira geral, seria praticamente onipresente em sua filmografia. Os referenciais diversos, recheados de citações a séries, filmes, jogos e HQs de outrora, retornariam ainda em muitas outras ocasiões, talvez atingindo a sua plenitude nesse quesito nos dois filmes da série Kill Bill, lançados em 2003 e 2004. Também nessas películas, o diretor utiliza os temas musicais variados - indo de Quincy Jones a Ennio Morrocone, passando por Johnny Cash e Nancy Sinatra - para ancorar a história sobre a noiva (Uma Thurmann) que praticamente renasce, em busca de vingança. Mas foi com a trilha sonora diversificada, eclética, e com uma indefectível veia pop de Pulp Fiction - Tempo de Violência, que Tarantino pavimentou o terreno para este tipo de abordagem, sentindo-se seguro, a partir dali, para brincar ainda mais com o modelo.