sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Cinema - Ad Astra: Rumo às Estrelas (Ad Astra)

De: James Gray. Com Brad Pitt, Tommy Lee-Jones e Ruth Negga. Ficção Científica, China / EUA, 2019, 123 minutos.

A ficção científica existencialista é um dos subgêneros mais fascinantes do cinema. Por meio de toda a parafernália tecnológica, de efeitos especiais, ação (por vezes), há um enorme potencial humano a ser explorado naquele universo espacial, tão grandioso quanto misterioso. Um dos milagres que uma equipe de filmagem pode (e deve) realizar é a imersão do espectador naquele mundo, tornando o que vemos em tela (grande, de preferência) algo crível. Aquele monte de imagens em movimento, luzes, cores, sons e músicas, por si só devem provocar alguma reação: estranheza, medo, emoção, mesmo que não saibamos exatamente o que estamos presenciando - o que muitas vezes pode ser um revés para aqueles que buscam um entretenimento escapista com algumas explosões e sons mirabolantes, o que definitivamente não é o caso deste maravilhoso Ad Astra, embora algumas cenas certamente deixarão expectadores boquiabertos pelo seu virtuosismo.

Mais recente filme do cineasta James Gray (Amantes, Z: a cidade perdida, Era uma vez em Nova York) em parceria com o astro Brad Pitt, que vem se dedicando a estrelar/produzir cada vez mais projetos autorais/ousados/maduros, Ad Astra (que no português recebeu o subtítulo rumo às estrelas) desde já entra no rol das grandes obras do gênero, e compará-lo a clássicos do cinema como 2001: uma odisséia no espaço, Solaris, e o recente A Chegada, não deve ser encarado como exagero. Partindo de uma premissa simples, com poucos personagens e diálogos, o que importa aqui - para além da resolução - são as questões levantadas e o meio utilizado para nos fazer refletir sobre o que é dito (muito pouco) e mostrado. Adotando um tom sóbrio e minimalista (assim como seu personagem principal), são nas pequenas inflexões e "explosões" que vamos dissecando o enorme conflito interno de Roy McBride (Pitt), astronauta que, num futuro indefinido, após testes psicológicos extremos que provam sua habilidade de não se deixar abater pelo mundo exterior (sua pulsação dificilmente passa dos 60 batimentos por minuto, mesmo em situações de perigo), é enviado para uma missão secreta ao espaço, com escala pela Lua e em direção à Netuno, lugar onde provavelmente se encontra vivo o pai, H. Clifford McBride (Jones), e cujo encontro poderá encerrar uma série de catástrofes que estão afetando o planeta Terra devido à busca de recursos em outros planetas.


Abandonando tudo que o detinha em sua vida terrena, inclusive os afetos, a jornada significaria para o misantropo Roy uma oportunidade ímpar de finalmente se ver livre de tudo aquilo que procurava manter distância: o teatro social ao qual estava, desde o nascimento, fadado a viver - seja num sorriso para um colega de trabalho, num aperto de mão, um esbarrão em alguém, ou em um relacionamento amoroso. Eu não tenho escolha, diz, ao aceitar a missão. Além disso, a possibilidade de um reencontro com o pai, cuja relação pouco se sabe, poderia ser uma forma de encarar traumas passados e fazê-lo compreender o ódio que baseou grande parte de suas convivências, o que talvez justificaria o escudo que Roy vestiu (e continua vestindo) durante a maior parte de sua vida. É interessante como essa carcaça que o envolve nas relações humanas faz com que vidas sejam literalmente sacrificadas naquela missão espacial, em uma irracionalidade comparada ao homem primitivo - algo que levamos milhares de anos para conseguir evoluir mas que ainda deixa resquícios biológicos - impulso este que tentamos manter sob controle mas que talvez explique como, em um mundo pautado pelo individualismo e a competição, tendemos a ficar anestesiados com os maiores absurdos que volta e meia acontecem em nosso entorno - como a morte de crianças inocentes, por exemplo. Nós não temos escolhas, a não ser nos alienar - diria o personagem de Pitt, em uma visível - e covarde - forma de autodefesa.

Mas é no terço final onde a obra atinge o sublime ao lentamente revelar as camadas escondidas, quebrando a parede que isolava o personagem principal durante o tempo que pudemos conhecê-lo. O encontro com o pai revela muito dizendo muito pouco: da cegueira que nos aflige quando, na ânsia em procurar vida inteligente fora da Terra, acabamos por esquecer das pessoas em nosso entorno, "vida inteligente" esta que pode muito bem ser um projeto, a busca de sucesso profissional, de riqueza, que quase sempre relaciona-se à ambição e à vaidade. Ao tentarmos castrar nossos instintos e sentimentos como forma de obter controle sobre a própria vida e sobre as coisas, podemos estar perdendo talvez o que de melhor podemos oferecer, aquilo que nos define como seres humanos. E neste ciclo que se repete indefinidamente não há como escapar da ironia de termos que cortar o cordão umbilical deixando, de forma inversa, aqueles que nos deram a vida partir - como uma cena lindamente sugere e, de forma transformadora, apresenta uma catarse sufocada na qual, como o personagem Chris de Na Natureza Selvagem tragicamente se dá conta, poucos tem o privilégio de reconhecer: de que nem sempre estamos focados somente no que é importante. E é maravilhoso perceber que, em um espaço infinito, há a representação de algo tão universal naquele homem que, representando toda a humanidade, ao ser colocado na escala significaria apenas um grãozinho de areia em um deserto gigantesco. E justamente por sermos tão pequenos é tão incrível reconhecer a probabilidade quase nula de pararmos lado a lado de outros grãos tão pequenos como nós, mas com um universo tão grande para ser explorado dentro de cada um. E é por isso que é um milagre, e um privilégio, conviver com cada pessoa que cruza por nossas vidas, tentando ser alguém melhor e, quem sabe, como a imagem que muito bem podia fechar o filme sugere, se juntar aos bilhões de estrelas em uma paisagem que ecoará por muitas gerações.

Nota: 9,0


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Um Agradecimento aos Nossos Visitantes

O Picanha Cultural está prestes a completar o seu quinto ano de vida - o aniversário é agora em dezembro. E para nós não poderia haver satisfação maior do que abrir o site e perceber que uma média de 500 visitantes diários tem nos acompanhados nas nossas "aventuras" cinéfilas e musicais. O Henrique e eu não recebemos NADA pra fazer a página É tudo na mais pura paixão - o que explica também a nossa completa falta de habilidade para tornar esse espaço mais atrativo. Dificilmente a gente fala de nós aqui, mas o que a gente quer é agradecer vocês que nos acompanham! Quando a gente olha pro Picanha a gente sente que ele é um espaço legal, feito a nossa maneira, na raça, sem patrocínio, sem rabo preso, com muita opinião e tentando elaborar tudo com o menor grau de presunção possível.

De vez em quando algum amigo, colega de trabalho, conhecido comenta sobre algo que leu no Picanha ou que pretende ler e, para nós, vocês nem imaginam, isso nos faz ganhar o dia. É o combustível para que sigamos falando sobre essas paixões que nos arrebatam. Hoje, sabe-se lá por que, o site teve quase dois mil views! E neste mês foram mais de 20 mil views até o momento. É o que nos faz desejar mais dez, quinze, vinte anos de página. Valeu moçada! Voltem sempre!


Palco Picanha - A Mulher Arrastada

De: Diones Camargo e Adriane Mottola. Com Celina Alcântara e Pedro Nambuco. Drama, Brasil, 2018, 50 minutos.

O debate público sobre violência e abuso policial poucas vezes esteve tão em alta. Em praticamente todas as semanas (pra não dizer dias) somos surpreendidos com notícias a respeito de operações militares desastrosas em favelas ou morros, que resultam no assassinatos de civis que, invariavelmente, são pobres e pretos. E em governos autoritários como o de Bolsonaro e de Wilson Witzel, este tipo de prática parece ter sido ampliada. Na chamada guerra contra o tráfico - que também poderia ser chamada de guerra contra o POVO - não há limites para a violência. Vale tudo. Guarda-chuvas podem ser confundidos com armas e trabalhadores com bandidos, com a população vulnerável se transformando no "inimigo" a ser combatido. E assim morrem diariamente Ágathas, Kauans, Amarildos, Lucianos, Evaldos e tantos outros que viram apenas manchete. Estatística. Sem comoção. Sem dor. Apenas mais um que vai, por que assim é a vida, né?

O que a perturbadora peça de teatro A Mulher Arrastada faz é jogar luz sobre um desses tantos episódios de violência envolvendo uma polícia despreparada, que trata pessoas comuns como bandidos, de acordo com a matiz de sua pele. Exibida no Teatro do Sesc na noite de quarta-feira (25/09), como parte da programação do Palco Giratório, a peça resgata a história de Cláudia Silva Ferreira que não apenas foi morta pela polícia num dia qualquer de março de 2014: ela ainda teve o seu corpo praticamente desfalecido arrastado pelo camburão por quase MEIO QUILÔMETRO. E foi justamente por causa desse episódio grotesco - há imagens na internet que eu me recuso a assistir, sinceramente -, que Cláudia, trabalhadora, casada, mãe de família, proprietária de um corpo de todos os seus "pedaços" se transformou, para a mídia, apenas na "mulher arrastada". Sem nome. Coisificada. Como muitas vezes são os pobres e pretos que morrem, reduzidos à condição de objeto. E aí está um dos tantos subtextos possíveis, nessa impressionante obra que, não por acaso, tem sido premiada Brasil afora, desde que estreou no ano passado.


"Competir com a realidade seria muito difícil, então tivemos de reimaginar esse episódio abominável, para tornarmos ele catártico para o público", explicou a atriz Celina Alcântara em um pequeno bate-papo após a exibição da peça. Foi assim que o roteirista Diones Camargo e a diretora Adriane Mottola chegaram ao cenário - composto apenas por alguns biombos e uma espécie de maca usada em necrotérios -, com o público disposto como se estivesse em uma arena. O uso da luz e do som constroem uma ambientação claustrofóbica, incômoda, daquelas que faz o espectador se remexer o tempo todo na cadeira, conforme o episódio é reencenado. Os fatos não são apresentados em ordem cronológica: a peça inicia com o ator Pedro Nambuco, que interpreta o policial, proferindo uma série de frases aparentemente desconexas, que dão conta de sua confusão mental, enquanto trafega nervosamente por um canto do cenário, em meio ao público que está ali confinado - como se estivesse em uma espécie de "ônibus imaginário".

E este, no fim, é um dos tantos méritos da obra. Há muita simbologia. E muita simbologia que até nos escapa. Em dado momento, ainda no preâmbulo, o policial abraça Cláudia (Celina), como se esta fosse uma "refém" dele. E não seriam os pretos, os pobres, o povo, reféns reais desse tipo de política policial que lhes destrói as vidas? Em meio ao espetáculo, Celina realiza uma espécie de comovente monólogo em que chama a atenção para o absurdo do episódio, com o espectador imerso em um ambiente de dor, daqueles em que é difícil não se comover. Tudo ocorrendo com o policial circulando em meio a plateia como se fosse um espectro que reflete cada um de nós que, afinal de contas, pouco fazemos para que o racismo estrutural, institucionalizado, e mesmo a violência contra a mulher ou a misoginia possam ser refutados. Ou minimamente discutidos. Trata-se de uma peça arrebatadora, curta, daquelas que mete o dedo na ferida e que faz todo o mundo ficar paralisado em seu ato final. A pergunta que fica é: até quando? Sem resposta, o que fica é o gosto amargo, enquanto a escuridão (e a inquietação) nos invade.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Grandes Filmes Nacionais - Serras da Desordem

De: Andrea Tonacci. Documentário, Brasil, 2006, 130 minutos.

Não é preciso avançar muito em pesquisas no Google para que se obtenham informações diversas sobre massacres de povos indígenas no Brasil, invasões e tomadas de terras, incêndios em florestas ou assassinatos de líderes de tribos - especialmente em um País comandado por um Bolsonaro. Ainda que a prática não seja exclusividade deste governo, a volúpia com que parecem crescer o número de casos desse tipo em nosso território, dá conta de uma política de exclusão de povos tradicionais ou de famílias em vulnerabilidade social. Sem apoio federal e sem qualquer tipo de proteção, resta aos índios tentar se defender por conta em uma luta que é, por demais, inglória. Bom, o que dizer do atual diretor de Administração e Gestão da Funai, Fernando Carlos Rocha, que considera absurda a ideia de demarcar terras indígenas? O cenário é desolador, de fato.

E é talvez por isso que filmes como Serras da Desordem, do italiano Andrea Tonacci (do premiado curta-metragem Blá Blá Blá), ressurjam como verdadeiros documentos atemporais a respeito dos sistemáticos ataques sofridos pelos índios, vamos combinar, desde o nosso "descobrimento". Durante a Ditadura Militar, muitos fazendeiros se sentiram legitimados para atentar contra os povos tradicionais, tomando suas terras na marra para utilização no agronegócio (nada diferente do que ocorre nos dias de hoje). Foi o que ocorreu com a tribo Awa-Guajá do índio Carapirú, em 1978, quando seu grupo familiar foi atacado e morto por ambiciosos madeireiros. Único sobrevivente, Carapirú foge do local empreendendo uma longa jornada de 10 anos e mais de dois mil quilômetros de distância pela mata, até ser encontrado por moradores de uma pequena comunidade no interior da Bahia.


Acolhido, acaba chamando a atenção de lideranças do Governo Federal, que enviam primeiramente representantes do Incra e, depois, da Funai para recolhê-lo. É assim que Carapirú vai parar em Brasília, levado pelo sertanista Sydney Possuelo para, mais tarde, numa reviravolta "hollywoodiana" envolvendo um filho que ainda está vivo, retornar para o seu antigo "lar". É uma história com começo meio e fim narrada de forma contemplativa, bucólica, num misto de documentário e ficção e que utiliza a pequena tribo do protagonista - bem como suas interações naturalistas com a fauna e a flora local -, como um microcosmo para a questão maior dos indígenas. Há um simbolismo forte em cada sequência, com o tempo passando diferente nesse contexto simbiótico, gerando no espectador um estranhamento natural por aquilo que é considerado culturalmente avesso e que o "homem branco", adepto do colonialismo, fará de tudo para modificar, seja colocando roupas em Carapirú ou ensinando-o a usar talheres e o vaso sanitário.

Com longos planos sequência, Tonacci faz com que sejamos observadores (quase) participantes das vivências e desventuras de Carapirú. Em certo sentido, o formato adotado pelo diretor, a paciência complacente com que narra cada episódio, sem qualquer tipo de explicação relativa a saltos temporais, pode não ser fácil para todos os paladares cinéfilos. Propositalmente longa, a obra versa nas suas entrelinhas sobre passagem do tempo, diferenças culturais, ganância e até amizade - que se sobrepõe de forma comovente às barreiras da língua (e ver um Carapirú amistoso, amoroso e sorridente com todos a sua volta é algo não apenas enternecedor: é cativante, surpreendente, idílico). Nesse sentido, a vitalidade do protagonista (que recria as cenas vividas por ele mesmo, no passado) serve como um contraponto para um universo em que as motosserras, os tiros, o sangue e a brutalidade dos ditos "racionais", fala mais alto. Uma obra ao mesmo tempo econômica e complexa, sobre um tema que segue mais do que atual.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Novidades em Streaming - Keane (Disco)

Finalmente o hiato acabou e os fãs do Keane - nós aqui do Picanha estamos entre eles -, podem comemorar! Os ingleses lançaram na última sexta-feira (20/09) o álbum Cause and Effect - o quinto da carreira e que interrompe um longo hiato de sete anos desde o lançamento do ótimo Strangeland. Sem grandes mudanças na sonoridade, o novo registro deve agradar os adeptos do estilo "sintetizadores melancolicamente bucólicos", que estabelecem o coletivo como um fiel representante da música pop, cruzada com a alternativa. Aqui e ali o amadurecimento do grupo, que já tem mais de quinze anos de carreira, se sobressai, com letras versando sobre relacionamentos que acabam, crises de meia idade e até negligência nos deveres relacionados aos filhos. Tom Chaplin segue cantando como um guri - a despeito da severidade agora alcançada - e, nas recém iniciadas audições, algumas canções já entram para as favoritas do ano - o caso de Phases, I'm Not Leaving e Put the Radio On. Bem-vindos de volta!




Cinema - A Música da Minha Vida (Blinded By The Light)

De: Gurinder Chadha. Com Viveik Kalra, Aaron Phagura, Dean-Charles Chapman e Hayley Atwell. Comédia dramática, Irlanda do Norte / Grã-Bretanha / EUA, 2019, 117 minutos.

Baseado em uma história real, A Música da Minha Vida (Blinded By The Light) é o maior candidato a feel good movie desse ano. O filme não apenas se passa nos anos 80: ele parece dos anos 80, tendo aquele charme brega que faz lembrar os clássicos adolescentes do John Hughes - caso de Curtindo a Vida Adoidado, por exemplo. Na trama acompanhamos o jovem Javed (Viveik Kalra), um adolescente de ascendência paquistanesa que mora em Luton, na Inglaterra comandada com mão de ferro por Margaret Thatcher. De família conservadora, o rapaz sonha em ser escritor, sendo impedido pelo pai de frequentar festas, namorar, ouvir músicas que não sejam as de sua terra natal ou qualquer outra atividade prosaica para um adolescente de 16 anos. Sua vida se resume a ir de casa para a escola e da escola para casa - ele mente que está fazendo disciplinas de economia, quando na verdade está estudando letras e se preparando para entrar para a faculdade.

Mas a sua vidinha vira de ponta-cabeça quando ele conhece o excêntrico amigo Roops (Aaron Phagura). Em meio aos sintetizadores que movimentavam o ano de 1987 - as festas eram regadas a muito Pet Shop Boys, Human League, Level 42, entre outras -, Roops entregará a Javed duas fitas K7 com músicas do Bruce Springsteen. Em uma noite de solidão, de cerceamento da liberdade e de descrença na literatura que produz, Javed coloca uma das fitas para rodar. Ao som de Dancing In The Dark, cantada pela voz gutural do The Boss, uma epifania: ele não pode mais continuar nessa cidade. Precisa alçar outros voos, buscar seus objetivos, desatar o cordão umbilical que lhe une a um modelo de família antiquado e que lhe castra. Você não pode começar um incêndio sem uma faísca, afinal. E será em torno desse arco dramático, que essa história divertida e comovente em igual medida, se desenrolará.


A maioria das pessoas sabe que as canções de Springsteen muitas vezes versaram sobre a frustração da vida nas pequenas cidades, a luta dos operários para pagar as contas - seus pais eram trabalhadores de classe baixa -, seus anseios, motivações e romances de "beira de estrada", em meio a um cenário de instabilidade social. Não por acaso, as classes menos abastadas sempre se identificaram com o estilo direto do compositor, um cronista capaz de confrontar o mainstream ou o status quo. E esse espírito mais "político", de análise mais macro de um contexto social, também é o que move os personagens do filme. Javed precisa, alguns punhados de vezes, driblar os novos (e orgulhosos) fascistas ingleses que investem contra os imigrantes com um tipo de reacionarismo latente. Já a candidata a namorada de Javed, a simpática Eliza (Nell Williams), surge nas ruas se manifestando em defesa da libertação de Mandela. O antagonismo entre racismo e xenofobia e tolerância e empatia está em cada curva da película dirigida pela indiana Gurinder Chadha. E nos faz pensar no contexto político/social/cultural atual que estamos vivendo.

E, vamos combinar que isto, por si só, é um mérito, em um filme que prima pela leveza e que é conduzido sem excessos, comovendo de forma orgânica, natural. A luta de Javed tem a ver com os conflitos entre gerações, mas também joga luz sobre algo maior: a necessidade de superação de preconceitos na busca por espaço. Em dado momento o pai de Javed lhe inquire: quantos escritores existem no Paquiestão? O jovem fica sem resposta. Mas a quebra de paradigma se torna uma meta. Até pouco tempo atrás não havia mulheres, negros ou gays em cargos públicos e isto agora está mudando. Na jornada transformadora de Javed, também está a busca por alterar aquilo que lhe propõe o destino. O que ele faz com sua força de vontade, com seus méritos e também com o apoio de outras pessoas, como a otimista professora Ms. Clay (Hayley Atwell). Um dia, garota, eu não sei quando / Nós chegaremos naquele lugar que tanto queremos ir / E caminharemos sobre o sol / Mas até lá, garota, / Vagabundos como nós, Baby, fomos feitos para fugir canta The Boss em Born To Run. De alguma forma, é o que move as intenções de Javed nesse pequeno grande trabalho.

Nota: 8,0

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Novidades em DVD/Now - O Mistério de Henri Pick (Le Mystère Henri Pick)

De Remi Bezançon. Com Fabrice Luchini, Camille Cottin, Alice Isaaz e Bastien Bouillon. Comédia / Drama, França, 2019, 100 minutos.

Quem gosta de literatura não pode deixar de assistir a esse despretensioso O Mistério de Henri Pick (Le Mystère Henri Pick). Trata-se de uma comédia leve, com algumas pitadas de suspense, em que acompanhamos a jornada de um crítico literário que tenta, a todo o custo, descobrir a verdade por trás de um livro escrito por um pizzaiolo, que se torna um inesperado best seller dois anos após a sua morte. O manuscrito do livro em questão é "descoberto" pela editora Daphne Despero (Alice Isaaz) quando, em uma visita ao seu pai, ela conhece uma biblioteca que abriga publicações rejeitadas por editoras. Fascinada pelo local, ela se encanta com um romance escrito por um certo Henri Pick - que tudo o que havia escrito em sua vida antes do livro, eram receitas que utilizaria em sua pizzaria. Com o apoio da família do falecido e acreditando no talento literário do sujeito, ela resolve publicá-lo. Resultado: o livro vira febre e imediatamente entra para a lista de mais vendidos na França.

O inesperado sucesso da publicação acaba por gerar certo fascínio pelo autor, que se torna famoso de maneira póstuma. Como forma de divulgar o livro, Daphne e a família de Pick - a viúva Madeleine (Josiane Stoléru) e a filha Joséphine (Camille Cottin) -, são convidadas para um talk show em que um presunçoso apresentador e crítico literário chamado Jean Michel (o sempre ótimo Fabrice Luchini), coloca em dúvida a história contada por todos. Pior: acredita que Henri Pick seja uma farsa e que, de quebra, não se trata do verdadeiro autor da obra. O mal-estar exibido ao vivo para a televisão francesa resulta na demissão de Jean Michel. Ao chegar em casa, sua mulher, insatisfeita com o seu comportamento e com a sua petulância, também o abandona. Sem nada para fazer (e pensar), que não seja o mistério envolvendo Henri Pick, ele vai até a pequena cidade francesa em que vivia o pizzaiolo: quer tentar de todas as formas solucionar o caso.


É a partir daí que acompanharemos uma pequena via-crucis de Jean Michel, que visitará não apenas o prédio em que ficava a pizzaria, mas também a casa dos parentes, cartas publicadas, antigos vídeos e até o cemitério em que Pick está enterrado, tentando conseguir alguma pista que denuncie o que está por trás desse escritor tão talentoso, que teria deixado apenas um livro tão genial. Divertido, o filme fará referências a um possível comportamento recluso do candidato a escritor - que faria leituras escondidas do poeta russo Alexandre Pushkin e que escreveria a conta-gotas no andar de cima do prédio da pizzaria (observando a torre da igreja). Algumas reviravoltas farão com que também questionemos a real existência de Pick como um escritor de talento - ainda que o comportamento absurdamente arrogante de Jean Michel, nos faça torcer para que ele, de fato, esteja errado.

Muito menos interessado em comover a plateia com grandes reviravoltas - a desse filme pode até ser previsível para alguns -, o filme do diretor Rémi Bezançon, ainda dá algumas alfinetadas no mercado literário, que é capaz de relegar para segundo plano obras com bom potencial, não tendo ainda escrúpulos em utilizar jogadas de marketing extremas para atrair a atenção de certos autores lançados. Com algumas piadas engraçadas envolvendo títulos de livros perdidos na biblioteca dos rejeitados, a película não julga seus personagens, parecendo compreender as dificuldades que envolvem não apenas o universo daqueles que resolvem se aventurar pelo mundo das letras, mas também dos críticos, que recebem um sem fim de livros novos para ler e que devem, afinal, fazer algum tipo de triagem para que sua atividade se torne, efetivamente, prazerosa. Assim como muitos livros agradáveis, esse não é um filme que vá mudar a nossa vida: mas passará ligeirinho e ainda nos arrancará alguns sorrisos.

Nota: 8,0

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Lançamento de Videoclipe - Elza Soares (Comportamento Geral)

A Elza Soares já é meio hors-concours aqui no Picanha - e é muito provável que seu mais recente disco, Planeta Fome, apareça novamente entre os cinco melhores do ano em nossa lista que será publicada em dezembro (quem já ouviu o trabalho sabe que isso NÃO É um spoiler!). E como forma de divulgar o álbum - o 34º de sua carreira -, a Rainha gravou um clipe para a canção Comportamento Geral (e que, na verdade, é uma regravação do Gonzaguinha que cabe direitinho para os tempos que vivemos). Dirigido por Henrique Alqualo e Marcos Hermes, o vídeo mostra Elza em meio a um desmanche de veículos, estabelecendo um contraste entre a sua figura suntuosamente etérea (e até futurisca) e o local poeirento e sujo que destrói veículos e outros equipamentos. Tudo isso, em meio a versos como Você merece / Tudo vai bem, tudo legal / Cerveja, samba e amanhã, seu Zé / Se acabarem teu carnaval. É pra dar aquela reanimada na quinta-feira!

Disco da Semana - Rosa Neon (Rosa Neon)

Se há algo que a música brasileira é hoje em dia é democrática - e nesse sentido parece não haver limites para a produção artística nacional, especialmente para aquela que está a margem, buscando espaço. Nesse sentido, coletivos como o mineiro Rosa Neon, que chega ao debut com seu disco homônimo, parecem possuir uma capacidade única de brincar com estilos, indo do reggae (Estrela do Mar), passando pelo brega (Vai Devagar), até chegar a, acredite, o freak folk da faixa-título (que não faria feio em algum disco do Dirty Projectors. Com brasilidade, frescor e energia, cada curva desse registro inaugural é um convite para um fim de tarde ensolarado, colorido em que a capacidade de rir de si mesmo e de seguir em frente é o que se sobressai - como comprova a ótima Cê Não Tem Dó de Mim. "É uma vitamina, uma mistura danada de coisas", brincou a vocalista Mariana Cavanellas, em entrevista pra Revista Noize.

Naturais de Diamantina, Marina Sena, Marcelo Tofani e Luiz Gabriel Lopes, além da própria Mariana se aproximaram por afinidade: cada um possuía algum tipo de projeto musical anterior e a vontade de "fazer a história acontecer" - como revelaram na mesma entrevista à Noize -, foi o combustível para que o coletivo ganhasse corpo. "Foi um processo orgânico, a gente já se conhecia, admirava o trabalho um do outro", explicou Mariana. "O Rosa tem a ver com essa configuração da soma de forças, de poderes, de caminhadas e bagagens diferentes. Quando nos encontramos, sabíamos que tínhamos ali uma coisa interessante, uma sintonia", completou Luiz. E talvez a naturalidade desses encontros e o processo colaborativo como um todo - há ainda o produtor Rafael Baka -, transforme o registro em algo que nos soe familiar, meio nostálgico e fortemente orgânico. É atual mas a gente já ouviu.



E talvez isso se chame, afinal de contas, personalidade. Sim, dentro do caldeirão de referências absorvido, misturado e "reprocessado" pelo coletivo há alguma reverberação do novo que se junta ao desgastado, que soa moderno e nostálgico ao mesmo tempo e que nos faz sorrir. É mais ou menos quando a gente compra um abajur vermelho para decorar a nossa sala feita com móveis novos e sob medida. É aquela detalhe kitsch brega - e o brega tá na moda em nosso cancioneiro, nunca é demais lembrar -, que se soma ao formato primaveril das melodias contemporâneas, dos efeitos inovadores, remoçados. E talvez não seja pior acaso que músicas irresistíveis como Ombrim se pareçam ao mesmo tempo com algo que a Tetê Espíndola pudesse ter feito nos anos 70 ou com alguma sobra de estúdio do mais recente registro da Bárbara Eugênia (e está aí outra artista que trabalha muito bem esta dicotomia).

Sacanas, divertidas e nada previsíveis, as letras nos oferecem um verdadeiro panorama dos relacionamentos, suas idas e vindas entregues em pequenas confissões cheias de presença de espírito, que se evidenciam como pequenos "cutucões" no limite entre o debochado e o sério. Por exemplo, na autocomiserativa Cê Não Tem Dó De Mim, um eu lírico que admite algum tipo de desafinação, ao mesmo tempo que tenta chamar a atenção (Quando eu cantava pra você / Você nem me olhava). O expediente se repete em outras, como, Picolé (Desde janeiro não vejo você / Meu coração é um picolé e pode derreter) ou Pirraça (A gente teve boa intenção / Não adianta mais fazer pirraça / Tipo programa de televisão / Você assiste mas não acha graça). Acessível e passando de "raspão" por temas como identidade de gênero, feminismo ou poliamor, o coletivo ainda utiliza os seus diversos videoclipes - coloridos, sensuais, leves - como uma excelente porta de entrada. Difícil resistir.

Nota: 9,0

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Cinema - Yesterday (Yesterday)

De: Danny Boyle. Com Himesh Patel, Lily James, Ed Sheeran, Joel Fry e Kate McKinnon. Comédia / Musical, EUA, 2019, 116 minutos.

A premissa de Yesterday (Yesterday) não poderia ser mais original: e se "acordássemos" em um mundo em que os Beatles nunca existiram? Como seria essa realidade sem os quatro garotos de Liverpool? Bom, o filme dirigido por Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário?) e roteirizado por Richard Curtis (Simplesmente Amor) tenta imaginar esse universo, nos apresentando a Jack (Himesh Patel), um funcionário de supermercado que, nas horas vagas, "ataca" de músico. Com uma carreira de pouco sucesso - nos poucos festivais que participa, acaba relegado aos palcos paralelos -, ele vê tudo mudar após sofrer um acidente envolvendo um ônibus (e um apagão mundial, meio sem explicação). Bom, ao acordar do coma, ele é recebido de volta pelos amigos, que lhe presenteiam com um violão. Para testar o instrumento novo, toca Yesterday. Resultado: todos ficam maravilhados, se perguntando de onde ele tirou aquilo, aquela melodia tão bonita, com uma letra sinuosa.

Sem entender nada, Jack perceberá que, neste novo mundo em que vive, John, Paul, Ringo e George nunca se reuniram para cantar juntos Help! ou Ticket To Ride ou Eleanor Rigby e nem gravaram seus clássicos álbuns. E é aí que, como músico, ele percebe a sorte grande que tirou, já que pode apresentar todas as canções dos Beatles (ou ao menos aquelas que ele se lembra) para o mundo, como se fossem um material completamente original. Não demora para que ele comece a fazer sucesso, atraindo a atenção de produtores e até de outros artistas, como Ed Sheeran, que interpreta a si próprio (e até surpreende em sua caracterização). Há ainda nesse contexto um componente romântico na melhor amiga Ellie (a sempre competente Lily James) e uma série de caricatos personagens secundários, como é o caso da empresária Debra (Kate McKinnon) e do melhor amigo Rocky (Joel Fry), um desastrado roadie. Trata-se de uma comédia romântica, vale lembrar, o que permite mais ou menos imaginar o que vai acontecer.


Sobre o filme em si, trata-se de uma obra divertida mas, eventualmente, irregular. Confesso que quando a sessão começou eu imaginava que o principal arco dramático da película envolveria o esforço de seu protagonista em dar às canções dos Beatles a importância que elas, de fato, mereceriam na História da Música. Pensei que, sozinho, e num mundo como o de hoje (tecnológico e cheio de opções diversas) suas canções demorariam muito mais para "acontecer". E só pensar em quantas bandas alternativas com ótimas canções existem na atualidade e que seguem relegadas a um nicho bem específico ou a uma parcela pouco expressiva de fãs. Imaginava que a luta seria mais no "vejam, que troço genial! ENXERGUEM PELO AMOR DE DEUS". Mas o filme opta pelo respeito ao legado dos fab four, fazendo eles realmente grandes em um universo em que Lady Gaga, Justin Bieber e o próprio Sheeran navegariam em mares consolidados. Aliás, eles existiriam em mu mundo sem os Beatles? Confesso que ver o mundo da música (e cultural como um todo), sem nenhuma alteração aparente sem a existência de John, Paul e companhia também me incomodou um tanto.

Mas, fora estes aspectos o filme tem muitos méritos - especialmente no que diz respeito as sequências de humor (e são várias). A cena em que um coletivo da gravadora apresenta as possíveis capas para o disco de Jack é ótima, o mesmo valendo para o instante em que o pai de Jack diz para o Ed Sheeran que ele parece o Ed Sheeran (e a sequência só se torna divertida porque a gente imagina que um senhor de idade não será capaz de reconhecer tão facilmente o astro). Da mesma forma, também são engraçadas as sequências em que Jack faz buscas no Google, mas sem sucesso - o único beetle que insiste em aparecer é mesmo um "besouro". Além das partes engraçadas, há um tom geral meio solene no tratamento das músicas dos Beatles, sendo difícil não se comover ao assistir a primeira performance de Yesterday - que apresenta essa verdadeira jóia de nossa música "oficialmente" ao mundo. Ao mostrar Let It Be para os pais, que lhe interrompem com conversas, toques de celular e visitas inesperadas, a gente fica com um sentimento amargo pela falta de respeito a um material que é maior do que uma simples música. O que parece oficializar o aspecto suntuoso do quarteto de Liverpool.


Bom, talvez não vá ser o filme mais inesquecível de Danny Boyle, ainda que mesmo as suas obras menores sejam lembradas com carinho pelos fãs (aliás, alguém aí já assistiu Caiu do Céu?). Mas em linhas gerais é um filme bacana que, se peca nesse aspecto da contextualização histórica da indústria cultural, sensibiliza o espectador pelo grande fardo que se torna o conhecimento detido pelo protagonista. E que, pouco a pouco, vai se tornando cada vez mais difícil e lidar (e Patel consegue transmitir muito bem essa angústia, que é fruto de uma mentira que vai se arrastando em apresentações, em programas de televisão, em views na internet). É uma obra que fala ainda de permanência da memória, de relevância musical, de nostalgia. Enfim da importância de valorizarmos a arte e a sua reprodução - e confesso que o filme me fez pensar que nunca, jamais, teremos a oportunidade de ver os quatro ao vivo. Ainda que seu legado permaneça: em discos, em shows disponíveis na internet, em artigos colecionáveis... e esperamos que isso não mude. Com ou sem apagão.

Nota: 7,0

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Curta Um Curta - Vinil Verde

Muitos anos antes de dirigir Bacurau, Kléber Mendonça Filho fez uma poderosíssima fábula sobre amadurecimento chamada Vinil Verde. Adaptado de um conto infantil russo chamada Luvas Verdes, o curta conta a história de uma mãe (Verônica Alves) que presenteia sua filha (Gabriela Souza), com uma caixa cheia de discos de vinil coloridos, com músicas infantis. Junto ao presente, um alerta: de que jamais escute o álbum de cor verde. Evidentemente a menina desobedece a mãe - quem nunca, né? - e coisas estranhas passam a acontecer com a sua genitora. Premiado em diversos festivais, o curta foi feito em stop motion e consegue um impressionante efeito ao misturar o universo onírico das histórias infantis (reforçado pela canção agridoce e pelos brinquedos coloridos) com o macabro - repare como a fotografia ganha outras cores e a tensão aumenta, conforme o filme avança. A trama é simples, mas a mensagem sobre as escolhas que fazemos e sobre como elas nos influenciarão para sempre, também é uma marca deste, que foi escolhido o 13º melhor curta-metragem da história em votação feita pelos integrantes da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine). Vale conferir!

Tesouros Cinéfilos - Os Indomáveis (3:10 To Yuma)

De James Mangold. Com Christian Bale, Russel Crowe, Bem Foster, Logan Lerman e Peter Fonda. Faroeste / Drama, EUA, 2007, 122 minutos.

É muito provável que as palavras "faroeste" e "moderno" quando aplicadas na mesma frase, na atualidade, não façam lá muito sentido. O estilo que consagrou John Wayne, desde o final dos anos 60 soa datado. É sinônimo de um tipo de cinema maniqueísta em que caubóis americanos surgem como a representação do bom moço que defende a propriedade privada, teme a Deus e respeita a família - sendo os índios nativos o oposto disso, retratando a barbárie, a desorganização e a falta de caráter. Bom, o cinema evoluiu e, que bom, deixou algumas conservadoras convenções, que hoje soam quase caricatas, para trás. Mas, ainda assim, láááá de vez em quando, é lançado algum bom filme que rememora o estilo, honrando-o e, por quê não, repaginando-o. É é justamente este o caso desse sensacional Os Indomáveis (3:10 To Yuma).

Os Indomáveis é, na verdade, uma refilmagem que melhora a sua versão original, lançada em 1957 - e que já era muito boa, diga-se (quem quiser procurar, a película se chama Galante e Sanguinário). Na trama, acompanhamos o rancheiro Dan Evans (Christian Bale) que, com sérias dificuldades financeiras, aceita um trabalho meio ingrato: acompanhar um comboio que pretende levar o perigosíssimo bandido Ben Wade (Russel Crowe) até a cidade, onde ele será colocado no trem e enviado para Yuma, onde será julgado e, muito provavelmente, enforcado. Só que Wade não atua sozinho e em seu encalço estará o seu bando que, chefiado pelo nada amistoso Charlie (Ben Foster em impressionante caracterização), fará de tudo para acompanhar cada passo dado pela diligência. Trata-se, portanto, de uma missão bastante arriscada. Ah, e ainda há os índios, claro. Que surgirão para tornar tudo ainda mais difícil.


Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que a jornada de Evans, Wade e os outros que lhes acompanham será complicada, mas também reveladora. Com voz plácida e muito carisma, Crowe transforma seu Wade de figura absurdamente monstruosa capaz de matar sem nenhum conflito moral, em um vilão com motivações convincentes (e até genuinamente "aceitáveis"). Já Bale permanece inabalável como o sujeito que prefere morrer a não conseguir dar conta de "criar" ou "sustentar" a sua família, sendo a relação meio conturbada com o filho mais velho (Logan Lerman), o objetivo que direciona em relação a sua meta. Já Foster, inexplicavelmente esnobado pela Academia naquele ano, surge como o braço direito de Wade: um sujeito de feições suaves (quase afeminadas), mas que guarda diversos tons de ódio em sua alma, não hesitando em matar o que aparecer pela frente para alcançar seus objetivos. E é na força da interpretação da trinca centrar de atores, que está uma das fortalezas da obra do diretor James Mangold (de Johnny e June e Logan).

Equilibrando momentos mais agitados - é óbvio que não faltarão tiroteios e perseguições a cavalo (se trata de um faroeste, afinal) -, com outros mais introspectivos (e que rendem excelentes diálogos entre os homens que integram a diligência), o filme ainda passa de raspão em temas como relação patrão x empregado, luta de classes e enfrentamento ao sistema, especialmente o financeiro. Tensa, a obra levará o espectador ao limite em diversas sequências de suspense, sendo quase sempre imprevisíveis as reações das personagens diante do perigo, o que faz com que tenhamos motivos para "torcer" tanto por mocinhos como para bandidos. Com um final desalentador (em parte), mas inesquecível, a obra nos lembra ainda da importância da honra nesse mundo tomado por homens: talvez nem todas as batalhas sejam vencidas. Mas o importante será levantar a cabeça e conseguir seguir em frente. De preferência com orgulho daquilo que se alcançou.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Pérolas da Netflix - Um Banho de Vida (Le Grand Bain)

De: Gilles Lelouche. Com Mathieu Amalric, Guillaume Canet, Virginie Efira e Benoit Poelvoorde. Comédia, França, 2018, 122 minutos.

Taí um filme completamente despretensioso, daqueles que tu não dá absolutamente nada, mas que te conquista já nos primeiros minutos e vai te ganhando cada vez mais, conforme a projeção avança. Sim, Um Banho de Vida (Le Grand Bain) Pode até ser apenas uma comédia divertida sobre homens de meia-idade que resolvem formar um coletivo de nado sincronizado - e foi justamente a excentricidade do tema que me atraiu para a obra do diretor Gilles Lelouche (do péssimo Os Infiéis). Mas o que parece uma mera bobajada, aos poucos vai se transformando em um filme tocante sobre a importância da amizade e, especialmente, sobre o valor das pequenas coisas. Sabe aquele seu hábito que não tem nenhuma importância para a demais pessoas - pode ser jardinagem, frequentar um clube de mães, andar de bicicleta, ir ao teatro -, mas que para você pode ser TUDO na vida? Ou algo minimamente relevante? Bom, esse pequeno achado perdido lá na Netflix te faz refletir sobre isso.

A ideia de participar de um time de nado sincronizado surge meio que por acaso na vida do desempregado Bertrand (o sempre ótimo Mathieu Amalric) - quando ele vê uma propaganda no clube local. A despeito do suporte de sua devotada esposa Claire (Marina Foïs), Bertrand está deprimido pelos dois anos sem trabalho. Assim, treinar nado sincronizado, fazer algo diferente, gastar energia e extravasar dentro da piscina, se torna uma alternativa para não enlouquecer. No local, conhece seus companheiros de nada sincronizado, sujeitos tão derrotados quando ele. Há um empresário que está indo a bancarrota, um músico decadente que não agrada nem tocando em bingos da terceira idade, um homem de personalidade violenta que está sendo abandonado pela mulher e pela filho, um outro que não leva nenhum jeito com as mulheres. E entre eles, até a professora Delphine (Virginie Efira) tem os seus "demônios": atleta de ponta, se tornou alcoólatra após a separação de sua antiga companheira de esporte, sendo o trabalho como treinadora uma forma de se reconectar ao nado.


Sem soar excessivamente melancólica, a narrativa vai revezando as histórias de cada uma das personagens que assistimos em tela, o que faz com que a gente compreenda a importância do grupo de nado, que torna uma espécie de "rede de apoio" para todos os envolvidos. Apesar das dificuldades (e diferenças de personalidade), todos se apoiam, se sobressaindo o companheirismo que vai sendo reafirmado conforme as aulas avançam - e o número exibido por eles vai ganhando força, especialmente após o "surgimento" da enérgica professora Amanda . Até o momento em que eles decidem participar de uma espécie de campeonato europeu de seleções - um tipo de prova definitiva que, inevitavelmente, servirá como uma metáfora para suas próprias vidas. Em um esporte raramente masculino, afinal, não será necessário superar apenas o preconceito, mas também as demais adversidades, sendo hora de levantar a cabeça e dar a volta por cima.

Com leveza, o filme se vale de sua fotografia levemente granulada para conferir naturalidade ao projeto. Há boas piadas e não serão poucos os momentos em que nos pegaremos rindo do inusitado - como na sequência em que o grupo tenta decidir qual será o nome do time - ou do absurdo da condição humana (há uma ótima e tocante cena de discussão no mercado). Mas há também relevância na abordagem de seus temas. A trilha sonora é apropriada, envolvente e eventualmente nostálgica - como não sorrir ao escutar já nos primeiros minutos Everybody Wants to Rule The World do Tears For Fears -, sendo a película um verdadeiro elogio ao poder da amizade, da perseverança e da força de vontade, que é capaz até de fazer o impossível se tornar possível. Um pino redondo pode entrar em um buraco quadrado e vice-versa? Sim, pode. E você que não duvide disso.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Picanha em Série - Fleabag (1ª e 2ª Temporadas)

De: Phoebe Walter-Bridge. Com Phoebe Walter-Bridge, Bill Paterson, Olivia Colman e Sian Clifford. Comédia, Grã-Bretanha / Irlanda do Norte, 2016 / 2019, 320 minutos (aproximadamente).

Fleabag (Fleabag) é a série mais cinicamente divertida dessa temporada e isso, por si só, já é motivo suficiente para darmos atenção a ela. São apenas duas temporadas que totalizam doze episódios com vinte e poucos minutos cada - disponíveis no serviço de streaming da Amazon. Ou seja, dá pra maratonar de boas em no máximo um fim de semana e ainda por cima sem aquele sentimento de "meu Deus como estou perdendo tempo com essa série arrastada que não avança" como é o caso de MUITAS da Netflix. Dilemas da vida adulta, frustrações, relacionamentos fracassados (ou não), feminismo, luto, quebra de paradigmas e muito sexo descompromissado e descolado poderiam representar uma espécie de resumo das digressões propostas pela série - e pela protagonista -, que é vivida com intenso carisma por Phoebe Walter-Bridge, que também criou o show.

Na trama acompanhamos as desventuras da Fleabag do título. Ela é dona de uma cafeteria que vai mal das pernas, tem um ex-namorado meio grudento, uma melhor amiga que surge em flashbacks e que parece ter morrido, uma irmã que é o completo oposto a ela (certinha, casada e frustrada), um cunhado babaca, um pai separado e uma madrasta de grande sensibilidade artística, mas completamente debochada (interpretada pela Olivia Colman, em papel bem diferente daquele que lhe deu o Oscar por A Favorita). Em meio a corrida rotina de luta pela sobrevivência, a complexidade das relações vai sendo revelada em pequenas doses, com o espectador se surpreendendo aqui e ali com a falta de lógica do comportamento humano - e se reconhecendo, em muitas ocasiões, na tela, afinal de contas também nós estamos em busca de ser felizes, tentando fazer o melhor, errando, acertando, chorando e se reerguendo. E isso a obra de Phoebe faz como poucas.


Principal recurso técnico, a quebra da quarta parede - quando o personagem "fala" conosco -, é utilizado de forma criativa, corrosiva, podendo ser sutil ou expansiva, dentro de contexto ou até fora dele. Não são poucas as vezes que Fleabag nos olha apenas com o canto do olho, como se estivesse buscando o nosso aval em determinada sequência. Em outros momentos, os comentários mordazes da protagonista em relação aqueles que lhe rodeiam, servem como divagações perspicazes que nos transformam em secretos confidentes dela. Mas há ainda outro mérito: Fleabag não se considera alguém superior por suas opções ou estilo de vida. Sabe que tem fraquezas, que há feridas relacionadas ao passado que serão difíceis de ser curadas, mas está ali, de corpo e alma, tentando, persistindo. Aliás, suas escolhas na atualidade também serão reflexo daquilo que ela é - como nos mostrará a sua excêntrica relação com um padre, já na segunda temporada.

Utilizando o sexo como uma forma de tentar superar esses traumas, Fleabag parece não ter ninguém ao seu redor que não seja "nós" mesmos - e seremos nós a tentarmos compreendê-la em suas imperfeições, que riremos, choraremos e nos compadeceremos dela e de suas desesperadas tentativas de sobreviver. É um tipo de vida real mais real que a vida e ainda por cima com um charme inglês que a eleva a um outro patamar. Engraçada, tocante, depravada, a série tem uma coleção de personagens tão detestáveis, que acabamos gostando - talvez porque percebamos um pouquinho de nós em cada um deles. É o tipo de série em que rimos do improvável: seja um homem cheio de dentes, uma estátua que passa por "altas aventuras", um retiro espiritual para reconexão ou uma vernissage em que aparece uma "parede de pênis". É o absurdo do mundo. E nós estamos nele. Que venham mais temporadas!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Cine Baú - Viridiana (Viridiana)

De: Luiz Buñuel. Com Sílvia Pinal, Fernando Rey, Margarita Lozano e Teresa Rabal. Drama, México / Espanha, 1961, 91 minutos.

Em entrevistas, quando perguntado sobre sua religião, o diretor Luiz Buñuel costumava dizer que era "ateu graças a Deus". Nesse sentido, não foi por acaso que diversas de suas obras evidenciaram a hipocrisia dos cristãos que até frequentavam a igreja, mas não abriam mão de ter garantida a manutenção do status quo. Mais ou menos como a lógica que estabelece os bons samaritanos como pessoas caridosas, mas distantes de uma real solução para as questões sociais. Em 1961, quando Buñuel lançou Viridiana (Viridiana), a Espanha ainda padecia da Ditadura Militar do General Franco - que duraria até 1975. A Igreja Católica, como não poderia deixar de ser, estava do lado do Regime. Foi nesse País cheio de contradições, que o diretor encontrou o cenário perfeito para a história de uma jovem prestes a se ordenar freira, que desiste após um episódio trágico.

A jovem em questão é Viridiana (Sílvia Pinal) que, por sugestão de sua Madre Superiora, resolve visitar o tio Don Jaime (Fernando Rey), semanas antes de a religiosa fazer em definitivo os seus votos. A protagonista nunca teve muito contato com o tio, mas é grata a ele por ter sido ele ter lhe ajudado financeiramente em sua formação, no passado. Por conta da semelhança de Viridiana com sua falecida esposa, Don Jaime fica obcecado pela jovem. Mantendo-a presa em sua ampla propriedade - no local vivem apenas uma governanta e sua filha, mais um empregado -, o homem acaba dopando a sobrinha com a intenção de estuprá-la. No último instante ele desiste e, tomado pela culpa, comete suicídio. Incapaz de conviver com o remorso, Viridiana desiste da ordenação e passa a morar na propriedade do tio, que deixou a mansão parte para ela, parte para um filho que teve fora do casamento.


É nesse instante que ocorre uma pequena reviravolta na trama, que mais parece dividida em dois capítulos bem distintos. Disposta a fazer o bem, Viridiana arrecada um grupo de bêbados, prostitutas, mendigos e aleijados para lhe auxiliar em tarefas variadas na propriedade, alimentando-os e preparando-os para a vida em sociedade. Tudo vai por água abaixo quando os novos moradores ocupam a sala de jantar da família, transformando uma noite prosaica em um evento grotesco e caótico, que se transforma em uma iconoclasta releitura de A Última Ceia de Da Vinci. Não bastasse a tragédia da falta de efetividade do programa que buscava assistir os vulneráveis, Viridiana ainda é estuprada pelas próprias figuras sujas e decrépitas que abrigara. A descrença total na vida em sociedade e o mal-estar estabelecido pelas diferenças entre classes se encerra na cena final em que uma Viridiana entorpecida pelo absurdo do comportamento humano, se entrega a uma espécie de "orgia familiar" - com as cartas de um baralho servindo como metáfora.

Proibido na Espanha franquista durante muitos anos, Viridiana ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, sendo lembrado pelos fãs como um dos pontos altos de Buñuel. Rico em imagens icônicas, da jovem que pula corda embaixo da árvore em que Don Jaime se enforcou, passando pela abelha que, dentro de um tonal de água, luta para sobreviver, até chegar ao grosseiro grupo de desajustados que se movimenta como uma massa disforme (e tosca) em direção a mansão - estabelecendo um curioso contraste, o filme é valioso por não fazer concessões naquilo que se propõe. Amarga, eventualmente cínica e inegavelmente bem humorada, a obra permanece como uma das mais importantes na análise psicológica dos personagens, não havendo limites para o conflito deflagrado pelo instinto. Ele surge de forma diferente em cada classe social, mas opera de igual maneira.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Novidades em DVD/Now - Deslembro

De: Flávia Castro. Com Jeanne Boudier, Sara Antunes, Jesuíta Barbosa e Eliane Giardini. Drama, Brasil / França / Qatar, 2019, 95 minutos.

"Aqueles que não conhecem a sua história estão fadados a repeti-la". Não deixa de ser curioso pensar que essa frase, tão relevante nos tempos sombrios que vivemos em nosso País, seja atribuída ao teórico político Edmund Burke, filósofo conservador que foi um grande crítico da Revolução Francesa. Em nosso contexto, especialmente se pensarmos na Ditadura Militar - e no aparente desejo de muitos de simplesmente "deletar" esse período traumático de nossa história recente -, ela soa atualíssima. Nesse sentido, quando nos deparamos com um esforço artístico que, de alguma forma, resgata aquele momento, ele já nasce digno de nota. E é exatamente este o caso de Deslembro, de Flávia Castro - obra que nos joga de volta para o final dos anos 70 (no período que em que foi decretada a Lei da Anistia), para contar a história de uma família de exilados, que está voltando para o Brasil.

Mas o retorno ao nosso País tropical não será fácil. Especialmente para a jovem Joana (Jeanne Boudier) que, após ter passado toda a sua infância e adolescência em Paris, na França, reluta em retornar com a família para a terra natal da mãe. A sensação de desconforto da menina irá para além do estranhamento natural de se estar em um novo lugar em que não se tem amigos e os antigos colegas ficaram para trás: haverá alguma coisa incômoda nesse novo cenário que, aos poucos, virá a tona, revelando traumas do passado que pareciam "escondidos" na memória da adolescente. E é impressionante notar como Flávia é hábil na construção de uma narrativa que sufoca mesmo nas cenas mais prosaicas - como um piquenique em família na floresta (que não dá muito certo) ou em eventuais flashbacks em que seu pai, um ativista de esquerda, reaparece em cenas embotadas, tensas, confusas. E eu fiquei particularmente maravilhado com a habilidade da diretora no uso de vozes, barulhos e outros sons que surgem no formato de sussurros, como rimas sonoras ou zumbidos que ligam um frame a outro, ampliando a sensação de crescente desconforto.



Já que está de volta ao Brasil, Joana encafifa com o passado do pai biológico (Jesuíta Barbosa), sujeito que teria desaparecido e sido assassinado pelo Estado durante o regime. Montando um quebra-cabeças ela reencontra uma antiga casa que era ocupada por um grupo de resistência do qual seu pai fazia parte e entra também em contato com a sua avó - a mãe de seu pai (vivida com ternura por Eliane Giardini). Em meio a um universo de incertezas que geram um tipo de suspense involuntário de que simpatizo muito - será que o pai dela não estaria vivo? Ela poderia encontra-lo até o final da película? - a jovem vai amadurecendo, descobrindo o amor e funcionando como uma adolescente como qualquer outra, que briga com a mãe Ana (Sara Antunes), que sofre, que fuma maconha, que gosta de ir a praia, que absorve a cultura a sua volta e que tem consciência do significado da luta de seu pai (ainda que utilize justamente este fato para "atacar" sua mãe em certa sequência).

É uma obra familiar, que apresenta com eficiência o contexto político da época - ainda que alguns excessos didáticos pudessem ter sido evitados. É o caso dos jovens que, invariavelmente levam o nome de proeminentes figuras políticas de esquerda (Ernesto, Leon, etc) ou mesmo o instante em que Joana chama um vizinho exaltado de fascista, para ele responder um onipresente "vai pra Cuba!". Ainda assim, como diz o Henrique, meu parça aqui do Picanha, as vezes mesmo o ÓBVIO necessita ser esfregado NA CARA - e é por isso que este fato não compromete a apreciação do filme. Colocando volta e meia a luta política e a necessidade de exumar os "esqueletos do armário" como condição básica para a felicidade familiar, a película é hábil ao captar os eventos do período de forma sutil, econômica, mas, altamente relevante. Joana, a seu modo, se esforça para pertencer aquele universo que, agora, lhe é novo. E ela só conseguirá fazer isso se deixar o passado para trás, não desejando JAMAIS repeti-lo.

Nota: 8,5

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Na Espera - Coringa (Filme)

Desde o inesquecível Coringa interpretado por Heath Ledger em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) criou-se uma mística ainda maior pelo perturbador personagem. O nível de interpretação foi tão alto que qualquer um que viesse a encarnar o próximo teria grandes chances de falhar miseravelmente - como aconteceu com Jared Leto no duramente criticado Esquadrão Suicida (2016). Ficou a cargo do polêmico e excelente ator Joaquin Phoenix (Ela, O Mestre, Johnny and June, Vício Inerente, dentre outros) dar vida ao primeiro filme dedicado exclusivamente ao personagem.


Após o lançamento do trailer oficial ficou claro que, muito além de um filme de super-herói, a obra Coringa (Joker) parece mais um drama psicológico com toques de suspense sobre a personalidade do notório vilão. Para completar, a interpretação de Phoenix vem recebendo elogios entusiasmados da crítica que já cogita a sua atuação como uma das favoritas ao Oscar 2020. Dirigido por Todd Phillips (da franquia Se Beber Não Case) o filme venceu o Leão de Ouro em Veneza este ano - algo inédito para um personagem de quadrinhos - o que credencia a película como uma das grandes favoritas às premiações de final de ano. Quanto a nós só resta ficar Na Espera da estreia deste filmaço nos cinemas brasileiros.


10 Filmes com Temática LGBTQI+

Vivemos tempos difíceis, de ódio, intolerância, autoritarismo. A mais nova façanha do ano de 2019 foi do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, que mandou censurar uma HQ da Bienal do Livro onde aparecem dois rapazes se beijando. Então, para auxiliar o prefeito na divulgação de obras com temática LGBTQI+, trazemos uma lista de 10 filmes sobre o assunto que merecem ser vistos. Bora resistir!


#1 Azul é a Cor Mais Quente


Famosa por sua longa e gráfica cena de sexo entre as duas atrizes principais a obra é, muito além da cena citada, uma visceral história de amor e um estudo de personagem sensível que acompanha, ao longo de suas três horas de duração, a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), sua rotina do acordar ao fim do dia, até o momento em que cruza seu caminho Emma (Léa Seydoux) e a inevitável paixão que brotará a partir dali. Com um naturalismo impressionante, o filme faz com que as sensações do amor e as dores decorrentes deste sentimento sejam vivenciados pelo público. Uma experiência ousada, em uma entrega pelas atrizes poucas vezes vistas na história do cinema.


#2 Me Chame Pelo Seu Nome


Baseado no livro homônimo de André Aciman, o filme narra a história de amor entre Elio (Timothée Chalamet), um rapaz de 17 anos, e Oliver (Armie Hammer), um homem mais velho que vai se hospedar na casa do seu pai durante um verão na Itália dos anos 80. Com belas paisagens e de forma muito sensível, a obra mostra a descoberta das inclinações sexuais e amorosas de Elio e, consequentemente, as marcas que um grande amor pode deixar naqueles que o vivenciam. Contando ainda com um monólogo final arrebatador e uma trilha sonora lindíssima (composta pelo músico Sujfan Stevens), Me Chame Pelo Seu Nome é um tratado incrível sobre o amor em todas as suas formas, independente de orientação sexual. Qualquer pessoa que já tenha vivido uma grande paixão certamente irá se emocionar.


#3 Priscilla, a Rainha do Deserto


Filme de muito sucesso nos anos 90, Priscilla, a Rainha do Deserto, é um road movie que mostra a trajetória das personagens Tick (Hugo Weaving), uma drag queen, Bernadette (Terrence Stamp), uma mulher trans, e Adam Whitely (Guy Pearce), drag queen que, a bordo do ônibus Priscilla, atravessam o deserto australiano levando seu show para uma população que, por vezes, os recepcionará de maneira hostil. Apesar de momentos dramáticos, a leveza do filme vem do carisma de seus protagonistas e também da trilha sonora que conta com músicas de Gloria Gaynor, Village People, ABBA, entre outros, o que fez com que diversos espectadores do mundo todo se familiarizassem com a cultura queer.


#4 O Segredo de Brokeback Mountain


Uma das mais tristes e emocionantes histórias de amor do cinema, o premiado filme do cineasta Ang Lee narra a história de dois cowboys que, ao passarem um período na montanha do título afim de trabalhar lidando com um bando de ovelhas, acabam se apaixonando. Sim, o estereótipo do machão americano - que toma um trago e fala grosso - também possui sentimentos. Pra complicar ainda mais ambos são casados e estão vivendo na década de 60. O poder da obra vem da representação deste amor que, mesmo sendo considerado proibido, atravessará o tempo - e as atuações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal são maravilhosas em demonstrar o júbilo e a tragédia deste sentimento inevitável e que será vítima, como tantos outros casos, da intolerância de uma sociedade.


#5 Carol


Premiado em diversos festivais, o filme do diretor Todd Haynes conta a história de duas mulheres: a jovem Therese Belivet (Rooney Mara), que tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos, e a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. As duas se aproximarão em uma época - no caso a Nova York dos anos 50 - em que o papel da mulher na sociedade deveria ser apenas o de esperar o marido no fim do dia com o jantar pronto e a casa arrumada. Absolutamente charmoso, o filme tem a sua força nas sutilezas, nos detalhes, nos gestos e na voz tranquila. E nas interpretações magníficas da dupla de protagonistas.


#6 Moonlight: Sob a Luz do Luar


Película desenvolvida de forma fluída, sem exageros, nos mostra três momentos da vida de Chiron, um jovem negro morador de uma comunidade pobre de Miami. Do bullying da infância, passando pela crise de identidade da adolescência e a tentação do universo do crime e das drogas, essa verdadeira obra-prima moderna, realiza um belo estudo de personagem. Nunca estereotipado, Chiron é mostrado como alguém que alcança certo status, mas que guarda para si uma série de segredos, resultado de uma sociedade preconceituosa e racista. O terço final, absolutamente poético e romântico, está entre os grandes momentos do cinema moderno. Talvez para eternidade o filme sempre seja lembrado pela confusão gerada ao final da cerimônia do Oscar daquele ano. Mas, justiça seja feita, Moonlight é MUITO MAIS FILME que La La Land.


#7 Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


Poucos filmes serão mais tocantes e afetuosos na abordagem do amor do este belo exemplar de nosso cinema. A trama é centrada em Leonardo (Guilherme Lobo), adolescente cego que, ao mesmo tempo em que tenta lidar com a mãe superprotetora, tenta obter a sua independência. A chegada de um outro menino a cidade, de nome Gabriel (Fabio Audi) fará com que novos sentimentos surjam em Leonardo, modificando totalmente a sua percepção sobre a sexualidade. Com ambientação extremamente naturalista, a obra alterna momentos divertidos, dramáticos e românticos em igual medida, transformando a película em um verdadeiro tratado geral sobre a adolescência, apresentando um viés muito mais romântico do que, necessariamente, engajado (o que não é um demérito, nesse caso).


#8 Tudo Sobre Minha Mãe


É até difícil escolher apenas um filme do Almodóvar para figurar nessa lista, já que não são poucos os que, de alguma forma, abordam a temática LGBTQI+ - sendo Má Educação (2003) um dos mais provocativos e o recente Dor e Glória (2019) um dos mais poéticos. Neste, acompanhamos o drama de Manuela (Cecilia Roth), que perde o filho Esteban (Eloy Azorín) na noite do aniversário do jovem. Alguns dias depois, lendo os diários do filho, Manuela encontra um manuscrito que dá conta do desejo do rapaz de conhecer o seu pai. É neste momento que a devastada mãe resolve ir a Barcelona para tentar um encontro com o pai de Esteban, vivido por Toni Cantó. Mas há um problema: o homem atualmente é a travesti Lola. E faz 18 anos que Manuela não lhe vê. O filme é uma jornada divertida e comovente, voltada a "todas as mulheres".



#9 Milk: A Voz da Igualdade



Filme que deu a Sean Penn a estatueta do Oscar na categoria Melhor Ator na cerimônia de 2009, a obra de Gus Van Sant retorna aos anos 70 para contar a história do ativista gay Harvey Milk, primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos. A trama começa com Milk se mudando para San Francisco ao lado do namorado Scott (James Franco), onde abre uma loja para a revelação de filmes fotográficos. Enfrentando o preconceito e a intolerância que marcam o período, o protagonista passa a buscar direitos iguais para todos, sem discriminação sexual. Trata-se de um filme vibrante, que marca o esforço de um sujeito que enfrenta a violência e que conta com o apoio de amigos e voluntários para alcançar os seus objetivos.



#10 Traídos Pelo Desejo



Café da Manhã em Plutão (2005) pode até ser o filme mais contundente do diretor Neil Jordan sobre a temática, mas dificilmente algum será mais surpreendentemente inesquecível do que a obra lançada em 1992. Na trama, um soldado inglês vivido por Forest Whitaker é sequestrado pelo IRA, mas desenvolve uma curiosa amizade com o guerrilheiro (Stephen Rea) encarregado de vigiá-lo. Quando o soldado morre, o guerrilheiro resolve ir atrás de sua ex-mulher para comunicar o ocorrido - mas acaba se apaixonando por ela. Misturando política, ataques terroristas e romance LGBTQI+, o filme reserva para seu segundo ato uma sequência que pegará o espectador de "surpresa", numa obra que subverte estereótipos, sendo extremamente original (não por acaso, seu Roteiro foi o vencedor no Oscar).

Bom, é óbvio que existem muitos outros filmes sobre o tema mas, o que acharam da lista? Deem suas opiniões!

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Cinema - Bacurau

De: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Udo Kier, Sônia Braga, Karine Teles e Barbara Colen. Aventura / Mistério / Ficção Científica / Faroeste, Brasil / França, 2019, 131 minutos.

Eu teria tudo para odiar Bacurau, longa-metragem dos diretores Kleber Mendonça Filho (dos maravilhosos O Som ao Redor e Aquarius) e Juliano Dornelles. Sou homem, heterossexual, branco, de sobrenome alemão, classe média. Moro na região sul do país, que deu aproximadamente 70% dos votos para Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições, uma região que se acha tão autossuficiente que possui um movimento para se emancipar do resto do país. Uma região que recebe aqueles que não deseja na bala e de relho. No meu estado tem "justiça" que prefere retomar antigo nome de uma avenida - que possui termos como "legalidade" e "democracia" - para homenagear general ditador. Como diria o hino riograndense, "sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra" (#SQN). Na minha cidade tem movimento neofascista querendo censurar evento jornalístico, e também tem vereadores destilando desinformação, homofobia, e acusações sem provas. Aqui pertinho tem gente que não respeita a arte e a cultura, que não suporta a livre manifestação e a crítica. Tem gente que se acha superior ao resto do país devido ao suposto sangue europeu de seus antecessores. Tem gente que certamente vai odiar com todas as forças Bacurau. Não foi o meu caso.

Em um futuro não muito distante o povoado da cidadezinha nordestina de Bacurau (cujo nome remete a um pássaro de hábitos noturnos que, quando aparece, significa mau presságio) está velando a avó de Teresa (Colen), que está retornando à localidade para se despedir trazendo consigo um lote de vacinas e medicamentos. A partir da morte da matriarca somos apresentados lentamente aos personagens do vilarejo - cuja maior característica é o senso de comunidade - em toda a sua diversidade e peculiaridade. Tudo muda no momento em que um casal de turistas supostamente fazendo trilha pelo local altera a rotina dos moradores, quando estes descobrem que a cidade não faz mais parte do mapa (mais especificamente, do Google Maps - sim, a cidade é pobre, mas neste futuro a tecnologia está disponível para todos em seus smartphones). A partir daí as tensões aumentam (uma característica do cinema de Mendonça Filho) levando a desfechos violentos e inesperados. Se você é ligado em cinema já deve ter lido muito sobre o filme e até ter sido vítima de alguns spoilers, portanto não nos aprofundaremos na trama visto que a melhor parte da experiência é ir descobrindo o filme aos poucos e, de preferência, na tela grande.


Ao abrir com um plano brilhante em sua ironia junto ao uso da trilha sonora, percebemos que não estamos diante de um filme convencional. Vender o filme como sendo de ação, ficção científica e faroeste foi uma estratégia poderosa para atrair os espectadores ao cinema. Espectadores que, lamentavelmente, ainda enxergam com preconceito as produções nacionais - uma das mais versáteis e originais do mundo. A julgar pela recepção calorosa do público (que vem lotando salas e mais salas) e a empolgação da crítica (quase unânime em reconhecer os méritos da obra), Bacurau já é um dos filmes mais comentados e hypados dos últimos tempos no Brasil - e também no mundo. E não é pra menos: muito além do cinema de gênero, os diretores entregaram aqui um produto que não fica nem um pouco a dever a produções internacionais. Referências mil respingam pela rede, e uma das que me saltou aos olhos foi o faroeste El Topo, de Jodorowsky, pela lisergia e o alto teor alegórico. Mas tem muito mais: tem ação, suspense, terror, tiroteio, efeitos especiais e, principalmente, RELEVÂNCIA.

São raros os filmes que captam o espírito de seu tempo e, a julgar os acontecimentos atuais no país, o B de Bacurau pode muito bem ser, em seu microcosmo, o B de Brasil. O que vemos em tela é uma alegoria perfeita: as escolas sucateadas, os políticos que só aparecem em época de eleição e exploram seu povo, a animalização do diferente, a exploração de áreas pertencentes a outras pessoas em benefício próprio, o extermínio do povo negro e pobre, o abandono das crianças, a legitimação da violência, o entretenimento a qualquer custo, a frustração do homem branco e a fetichização das armas, o fascismo, a RESISTÊNCIA. Resistência esta que brota das minorias, das mulheres, dos homossexuais, dos trans, dos negros, dos nordestinos, de tudo aquilo que mais irrita os reacionários de plantão. Enquanto a escola é o último refúgio das crianças para sobreviver, é no museu da cidade onde repousa a memória do cangaço - e é justamente esta memória que poderá salvar uma população em risco de extinção.


Premiado internacionalmente (o mais notório deles o Prêmio do Júri do Festival de Cannes), Bacurau é uma bofetada bem dada na cara da elite mesquinha brasileira, do vira-lata, daquele que "se acha" mais importante ou superior que o resto do país, dos que perderam a humanidade, dos que avalizaram tudo de absurdo que acontece dia após dia nesse governo imbecil. Daqueles que preferem se anestesiar e continuar (como uma cena brilhantemente sugere) tomando no cu. Porque todos são o povo, quase ninguém é elite - mas tem muita gente que pensa que é. Se alguma cena peca pela falta de sutileza em sua crítica, creio que este seja um dos maiores méritos do filme: vivemos em tempos em que o óbvio PRECISA ser dito. Que as memórias e as feridas do passado precisam ser revistas para que o terror não volte a ocorrer. E se há algo de aterrorizante em sua emblemática cena final é a certeza de nunca estarmos a salvo do gene da barbárie.

Eu teria tudo para odiar Bacurau. Felizmente, desde cedo, minha família sempre me colocou em contato com a arte. O cinema, a música, o teatro, a dança, são as formas mais eficazes de desenvolver a empatia por nossos semelhantes. Quando digo semelhante, quero dizer a humanidade. Que ela possa conviver e aceitar as diferenças entre si é um imperativo do sucesso civilizatório. Todo governo autoritário deixa de financiar a arte, a cultura e a educação pois sabe que não há arma maior contra a tirania do que o conhecimento. E é por isso que todo mundo deve assistir Bacurau. Porque é um filme espetacular, DO CARALHO. E porque está fazendo história. Em tempo real.

Nota: 10

Cinema - Retrato de Amor (Photograph)

De: Ritesh Batra. Com Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra e Farrukh Jaffar. Romance / Drama, Índia / Alemanha / EUA, 2019, 109 minutos.

Retrato de Amor (Photograph) pode até ser um filme de estrutura convencional - talvez até previsível -, mas é contado com tanta sensibilidade e sem floreios, que se torna uma sessão imperdível. E, de quebra, ainda nos faz conhecer um pouco mais da cultura indiana e seus hábitos, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos. Na trama, um homem de trinta e poucos anos, é pressionado pela sua família (materializada por sua avó) a se casar. O homem é o fotógrafo Rafi (Nawazuddin Siddiqui), que passa os dias nos arredores de Mumbai tentando comercializar fotografias da região para turistas ou visitantes. Em uma de suas investidas fotografa a jovem Miloni (Sanya Malhotra). Ao entregar a foto, vem com ele um inesperado convite: fazer de conta que é a sua noiva durante a visita da avó, que está para acontecer. Tímida, a moça reluta. Mas, no fim, aceita a ideia.

Bom, não é preciso ser nenhum adivinho para saber que a aproximação entre Rafi e Miloni, inicialmente completos desconhecidos, se transformará em um algo a mais no decorrer da história. Do silêncio e das poucas palavras iniciais - quando ainda da montagem do estratagema que engambelará a avó - até o final da história, a dupla se tornará mais íntima, encontrará pontos em comum, fará amizade e em algum momento romperá. Aliás, o tipo de estrutura típica das comédias românticas americanas. Poético, o filme utilizará a metáfora da fotografia, o instantâneo que captura a imagem, memorizando-a, para falar de permanência e materialização de uma realidade que dura por apenas um segundo, mas que poderá ser eternizada em um clique. Desajeitada, a dupla sustentará o seu segredo, sendo esta uma das maiores diversões do filme: assistir as interações da avó, que avança sobre a dupla, eventualmente desconfiada, mas invariavelmente divertida.


Não é um filme ostensivo naquilo que ele se propõe. Ao contrário, todas as suas eventuais mensagens são sutis, sugeridas. Miloni, por exemplo, é estudante e de uma família mais abastada, como percebemos nas interações dela com as empregadas da casa. Já Rafi estaria na classe social oposta, com amigos barulhentos, histriônicos, lutando dia após dia para, com as suas fotos, poder botar comida na mesa. Esses contrastes surgem de forma eficiente, no comportamento de cada personagem, sem a necessidade de se esfregar nada na cara do espectador.  E talvez por isso o esforço de Rafi para conseguir um tipo particular de bebida, uma das preferidas de Miloni, como assistimos no terceiro ato, é tão comovente. É o valor das pequenas coisas: um sorvete na rua, uma correntinha dada de presente por um parente, um filme assistido (nem que já se saiba o final).

Divertido, dramático e até romântica em doses parecidas, o filme ainda aproveita ao máximo a presença luminosa da veterana do cinema indiano Farrukh Jaffar que, aos 85 anos, transforma a avó (a Dadi), numa figura ao mesmo tempo histriônica e enigmática, engraçada e sisuda. Seja na cena em que ela tira uma foto do casal, dizendo para eles se aproximarem ("ela não é um arame farpado"), ou nos momentos em que ela se diverte (e é ranzinza) no albergue que Rafi divide com os amigos, cada sequência em que ela aparece, se torna especial. O que faz com que compreendamos, inclusive, a devoção (e o respeito) do neto em relação a idosa. Com um divertido final metalinguístico - um dos melhores do ano, diga-se - Retrato de Amor jamais será aquele filme inesquecível. Mas, tal qual um retrato valioso, deixará a sua marca por algum tempo.

Nota: 8,0

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Novidades em Streaming - Lana Del Rey (Disco)

E eis que temos mais um disco para entrar diretamente na nossa listinha de cinco melhores internacionais do ano, até o momento. Aqui no Picanha a gente sempre gostou da Lana Del Rey e a impressão que temos é de que ela melhora a cada registro. Em Norman Fucking Rockwell o estilo retrô/enfumaçado/romântico/lânguido permanece o mesmo de seus trabalhos anteriores - com o ápice alcançado no disco Lust For Life, não por acaso o nosso terceiro na relação de grandes álbuns de 2017. No novo trabalho, uma elegância elevada, evocativa, que desconstrói o "sonho americano" já no seu título (Rockwell foi retratista de presidentes americanos como Richard Nixon), enquanto Lana sussurra seus versos de forma provocativa, fragmentada. Há espaço para o pop, como comprovam as candidatas a hit California e a irônica Next Best American Record. Mas o álbum é mais do que isso, e quem tiver a paciência de encarar os seus mais de 60 minutos com as letras a tiracolo, se surpreenderá ainda com o refino de seus versos - ao mesmo tempo autoindulgentes e sarcásticos. Vale cada segundo.