segunda-feira, 23 de maio de 2022

Cinema - O Homem do Norte (The Northman)

De: Robert Eggers. Com Alexander Skargard, Nicole Kidman, Anya Taylor-Joy, Willem Dafoe e Ethan Hawke. Ação / Drama / Fantasia, EUA, 2021, 136 minutos.

Existem filmes que, para além da história em si, são uma verdadeira experiência - sensorial, magnética, auditiva e visual. Daquelas capazes de ativar todos os nossos sentidos. Talvez até de alguma forma aguçá-los, ampliá-los. E esse é justamente o caso de O Homem do Norte (The Northman), terceira produção dirigida por Robert Eggers - de A Bruxa (2015) e O Farol (2019) - e que o consolida como um dos grandes realizadores da atualidade. A trama em si é a clássica história de vingança, de um jovem príncipe que presencia o assassinato do próprio pai pelas mãos do tio - que usurpa o trono. Cenários, objetos, símbolos, vestimentas, pinturas, cânticos, religiões, ritos, profecias, superstições, guerra, honra e destino. São muitas as palavras que se confundem, que se misturam, formando um todo coeso, enquanto nós espectadores acompanhamos o desenrolar de olhos meio arregalados, com o desejo de não perder um segundo sequer.

Em resumo, é tudo muito perfeito aqui. É preciso, ao cabo, um esforço homérico para encontrar qualquer desvio, uma incerteza ou algum tipo de excesso. É um tipo de arte soberba, visceral, grandiosa. Há, por exemplo, no início do segundo ato, uma sequência em um barco, que conduz um grupo de selvagens nórdicos que, mais adiante, tomarão um povoado com a intenção de escravizar os locais. De forma tecnicamente impecável, a câmera sai de dentro da floresta para se "instalar" no interior da embarcação, num plano sequência imersivo, que contribui para a construção da atmosfera de pesadelo que acompanhamos (a trilha sonora é uma batucada animalesca, tribal, que remete a algo que vai no limite entre o místico e o macabro). Poderia ser apenas mais uma passagem qualquer. Mas ela mexe conosco. Nos posiciona dentro. Como se fôssemos observadores participantes do absurdo da selvageria de um período - no caso o final do Século 9.


Quando está na aldeia saqueada, o protagonista Amleth (Alexander Skarsgard) - o nome shakespereano não é por acaso - descobre que o algoz de seu genitor é, atualmente, um simples criador de ovelhas na Islândia. Anos se passaram desde o assassinato de seu pai. Mas o seu ímpeto pela desforra permanece. O tio, Fjölnir, o Sem Irmão (Claes Bang) já não é mais "rei" de nada. Nenhuma dinastia. Pouca importância. Para Amleth não há mais trono a ser retomado, monarca a ser deposto. Mas isso não impede o guerreiro de colocar em prática o seu plano de vingança. Especialmente após ser lembrado de seu destino pela bruxa vidente Seeress (Björk), em uma das tantas sequências que mesclam misticismo, folclore e alguma dose de bestialidade. Na propriedade, Amleth se converterá em escravo voluntariamente. Se reaproximará de seus familiares, que o tinham como desaparecido. E se empenhará em sua missão. O que não impedirá algumas reviravoltas interessantes no caminho, daquelas que nos tiram o chão.

Com uma fotografia belíssima - cheia de contrastes entre claro e escuro, vazio e preenchimento - com um ótimo uso dos tons de cinza, especialmente nos momentos em que parece haver uma espécie de transe sobrenatural, a obra ainda é um primor em matéria de paisagens (as locações na Islândia são deslumbrantes). Já a trilha sonora, propositalmente caótica, eventualmente turva, evoca sentimentos distintos como dramaticidade e tensão, sendo comovente e perturbadora em igual medida. Como afirmei acima, é uma obra sensorial, dotada de personalidade, com uma estética e uma atmosfera únicas - o que contribui para a sensação de novidade, mesmo onde poderia prevalecer a mesmice. Muitas pessoas estão comentando que este é o trabalho mais fraco de Eggers - ainda que seja o mais expansivo. A meu ver, o realizador se apropria com maestria dos códigos e da semiologia do período, discutindo nas entrelinhas temas relacionados à masculinidade, ao senso de justiça, à xenofobia e ao preconceito religioso. Não há nada pequeno nesse combo todo. É um dos filmes do ano.

Nota: 9,5


sexta-feira, 20 de maio de 2022

Pitaquinho Musical - Harry Styles (Harry's House)

É certo que não é o objetivo do Harry Styles se reinventar a cada novo disco lançado, mas não deixa de impressionar a capacidade do artista de imprimir a sua personalidade (e até algum frescor) a cada registro disponibilizado ao público. Com Harry's House não é diferente já que parece que a gente nunca tá ouvindo a mesma coisa de antes. Seja na abertura com o funk efervescente de Music for a Sushi Restaurante (adorei esse nome), passando pela guitarrinha à Vampire Weekend de Grapejuice, até chegar ao pop setentista de Satellite, o registro é um verdadeiro passeio magnético por estilos, cores e arranjos quase palpáveis em sua mescla de simplicidade e magnitude.


Um bom exemplo de tudo isso está na envolvente And It Was, o primeiro single e uma das grandes canções do ano, com Styles cantando sobre sentimentos agridoces e nostálgicos, mas "mascarando" tudo com sólidos sintetizadores à moda A-ha, que explodem em um dos grandes refrões do ano (Nesse mundo, somos apenas nós / E você sabe que não é igual a como era antes). Em entrevistas, Styles descreveu-a como uma música sobre "metamorfose, sobre abraçar as mudanças e quem éramos antigamente". De alguma forma, é o que o britânico faz o tempo todo em seu trabalho: chama os ouvintes para que se aprocheguem em sua casa, sentem-se, fiquem à vontade. E que saboreiem o que de melhor pode haver no pop moderno.

 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Novidades em Streaming - Curral

De: Marcelo Brennan. Com Thomás Aquino, Rodrigo García, José Dumont e Carla Salle. Drama, Brasil, 2020, 86 minutos.

Que joia do nosso cinema é esse pequeno filme chamado Curral - primeiro longa-metragem de ficção do diretor pernambucano Marcelo Brennan. Quer dizer, ficção ao menos em partes, já que é simplesmente impossível não identificar uma boa dose de realidade naquilo que acompanhamos. A trama nos joga para a pequena Gravatá, cidadezinha típica do interior onde, às vésperas das eleições municipais, o bicho tá pegando entre dois candidatos à prefeito rivais. Em meio a esse cenário turbulento, somos apresentados a Chico Caixa (Thomás Aquino) um modesto funcionário da Prefeitura, que é o responsável por conduzir o caminhão pipa que levará água às localidades que sofrem com a escassez hídrica. Só que, após bater de frente com o prefeito da situação Vitorino (José Dumont, em participação especial) ele é demitido, sendo recrutado após o episódio por um amigo de infância, no caso o advogado Joel (Rodrigo Garcia), que pretende se eleger como vereador e que, para isso, depende do apelo popular do protagonista na campanha.

Joel é tudo aquilo que esses jovens políticos que surgem meio que do nada, garantem ser: éticos, sem "rabo preso" com nenhuma sigla e interessados em proteger apenas os direitos do povão. "Eu nem precisaria estar na política, sou advogado" defende o sujeito que integra um daqueles partidos da nova (ou nem tão nova) política chamado, Avança Brasil. Acompanhado de Chico Caixa, Joel inicia uma campanha massiva pela cidade, percebendo logo o potencial que terá como moeda de troca, as políticas voltadas à distribuição da água. Acreditando inicialmente em Joel - num misto de ingenuidade com necessidade, já que o homem é pai de família e também precisa pagar os seus boletos - Caixa não demorará para ver as suas convicções sendo confrontadas. Especialmente quando a equipe do candidato passar a fazer promessas claramente vazias, num misto de clientelismo, troca de favores e compra de votos.

E por mais dolorido que seja constatar a falência completa de um modelo de disputa política atual que beira a beligerância, não deixa de ser divertido reconhecer aqui e ali toda a semiótica que envolve o pleito dos pequenos municípios Brasil afora. Estão lá desde os carros de som com grudentos jingles de campanha (Tá nervoso / tome um chá / é galego advogado / ele vem para mudar), passando pelos comícios em que artistas locais se vendem em troca de visibilidade e pelos candidatos vaidosos interessados apenas em si, até chegar ao apelativo papel da imprensa, que costuma se travestir de isenta enquanto funciona como "´pena de aluguel" de um dos lados (e a voz de locutor à moda antiga de um dos radialistas, admito, me fez gargalhar alto, pensando em alguma figuras típicas da nossa mídia local). Nesse sentido, a experiência navega no limite entre o trágico e o cômico, entre a desesperança e a reflexão.

Hábil em construir enquadramentos inteligentes - observe por exemplo o ângulo com que acompanhamos a mangueira sendo desenrolada do caminhão ainda na primeira cena -, Brennan ainda utiliza cenários, figurinos, objetos e outros elementos como forma de se comunicar com seu público. Em certa altura da projeção, Chico Caixa usa uma camiseta em que se lê um Enjoy Coca Cola - o que não deixa de ser uma grande ironia, em um cenário em que a população passa sede por não ter os recursos hídricos básicos. Aqui e ali também há nas entrelinhas um debate sobre temas como machismo, racismo, diferenças de classe e a falta de percepção de onde se está no espectro político (e de quem representa efetivamente o povo). Tudo filmado com um senso de naturalismo tão palpável, que quase me fez lembrar outra maravilha do nosso cinema, no caso o divertidíssimo Narradores de Javé (que, ironicamente, conta com José Dumont em um inesquecível papel). Está na Netflix e precisa ser descoberto.

Nota: 8,5

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Pitaquinho Musical - Girlpool (Forgiveness)

Sexy. Enigmático. Elegante. Expansivo. Quem ouve Forgiveness, quarto disco dos americanos do Girlpool, quase nem reconhece a banda tímida, que surgiu para o mundo em 2015, com o gracioso Before The World Was Big. Do violãozinho introspectivo de notas modestas do começo, aos sintetizadores voluptuosos e as orquestrações reverberantes de agora, o caminho percorrido por Avery Tucker e Harmont Tividad rumo ao amadurecimento, foi como o de qualquer jovem chegando a fase adulta. Então talvez não haja nada mais natural do que a ingenuidade de outrora, dando agora lugar a uma postura mais confiante - mesmo que isso envolva versos sobre decepções amorosas, busca pelo perdão ou sexo descompromissado. 

 

 

Em meio a melodias que vão do hipnótico (e quase robótico) como na abertura Nothing Gives Me Pleasure, passando pelo country cheio de personalidade de Faultline até chegar ao indie pop noventista de Dragging My Life Into a Dream (que não faria feio num projeto paralelo envolvendo o Teenage Fanclub e o The 1975) a dupla é pura personalidade ao mesclar estilos sem nunca descambar pra bagunça. E como se não bastasse tantos predicados, ainda há as letras, cheias de metáforas e sutilezas, que resultam em alguns dos melhores versos do ano, como no caso da absurdamente irresistível Butterfly Bulletholes (E como é dentro do mundo da noite? / Eu quero saber como viver sem medo da vida).

A Volta ao Mundo Em 80 Filmes - Réquiem Para a Sra. J (Sérvia)

De: Bojan Vuletic. Com  Mirjana Karanović, Jovana Gavrilović, Danica Nedeljkovic. Comédia dramática, Sérvia / Bulgária / França / Macedônia / Rússia, 2018, 94 minutos.

Quando Réquiem Para a Sra. J (Rekvijem Za Gospodju J) tem início, a primeira imagem que surge a nossa frente é um plano conjunto de uma sala de estar de ares simples - com mesinha, uma televisão daquelas de tubo meio antiga, objetos empilhados, estantes empenadas, um ar geral de desordem em meio a uma iluminação capenga. Tudo está em silêncio e o único barulho que escutamos sai do canto do quadro onde uma jovem senhora, meticulosamente, maneja um revólver. Há um senso meio palpável de solidão que só piora quando entra em cena uma outra mulher, mais idosa, que cruza pelo caminho rumo a cozinha. Uma troca de olhares e basta para que se estabeleça o esvaziamento de qualquer vínculo mais afetuoso. A residência decadente é, ao cabo, apenas um reflexo daqueles que habitam o local, não demorando para que se instale um senso de desolação, de tédio que, aparentemente, levará a mulher que empunha a arma a pretender o suicídio.

Repleto de sutilezas, o filme de Bojan Vuletic - o enviado da Sérvia para a edição do Oscar de 2018 e que está disponível no Mubi (sempre ele) - é mais um daqueles que parte do microcosmo doméstico para analisar o todo. Não demora para que a gente compreenda que a solitária senhora J. do título (a mulher com a arma, que conduzirá a narrativa e que é interpretada por Mirjana Karanovic) está prestes a completar o primeiro ano como viúva. Em meio a letargia dos dias, ela anda para lá e para cá em busca de encaminhar a documentação que lhe permita ter acesso a uma indenização - ela foi dispensada sem muita explicação da fábrica em que trabalhava, que passará por um processo de privatização. Ao mesmo tempo, organiza todos os preparativos para que possa dar fim a sua existência, indo atrás de balas para o revólver e até da instalação de sua foto na lápide, junto a do marido (o que resulta em um instante ao mesmo tempo comovente e engraçado).


Aliás, a intenção bem clara do diretor aqui não é deixar o espectador necessariamente triste. Sim, estamos diante de uma suicida em potencial que zanza em estado catatônico pelo bairro, em meio a enquadramentos pouco óbvios e planos sequência que estendem ao máximo a sensação de dor na alma. Mas, aqui e ali, a narrativa é salpicada por momentos de um humor cínico, em que a crítica à burocracia estatal e ao absurdo de praticamente ter de encaminhar em cartório a própria morte, se cruza com o histrionismo dos familiares, especialmente da filha mais velha que é incapaz de compreender (ou perceber) a dor da mãe. E a cena em que a protagonista flagra a jovem transando para, mais tarde, revelar que está grávida é tão trágica, quanto cômica. "Que bom", afirma ela, mal movendo os músculos do rosto e nem se mexendo do sofá - onde está deitada -, ao saber da novidade.

São esses detalhes que enriquecem o todo ainda que talvez a obra, propositalmente arrastada - quase como um zumbi daqueles de filmes de morto-vivo -, não funcione para todos os paladares. Nesse sentido não são poucos os momentos em que o diretor enquadra por longos segundos (talvez até minutos) um grupo de pacientes que aguarda em alguma fila. A espera ali parece fazer parte. Mas espera pelo quê exatamente? Quando volta a indústria em que trabalhava para tentar reaver algum tipo de papelada a estrutura está sucateada, decadente (assim como são os remanescentes). As pinturas estão gastas, os galpões esvaziados, o som do vento é só o que se escuta. Mas, por incrível que possa parecer, ainda há espaço para algum otimismo no terço final, quando a trama quase flerta com o realismo mágico. É um fiapinho de esperança. Mas que funciona direitinho.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Novidades em Streaming - Moonfall: Ameaça Lunar (Moonfall)

De: Roland Emmerich. Com Patrick Wilson, Halle Berry, John Bradley e Donald Sutherland. Ficção científica, EUA, 2022, 120 minutos.

Não sei se é a idade que vai deixando a gente mais impaciente pra esse tipo de experiência, mas o caso é que eu não gostei de absolutamente nada nesse Moonfall: Ameaça Lunar (Moonfall) - mais nova bizarrice de Roland Emmerich (de Independence Day e 2012). Tá tudo errado aqui. Tudo. Incluindo os efeitos especiais, que mais parecem coisa de estudante de computação gráfica em início de carreira, do que resultado de um filme que custou quase US$ 150 milhões. Sim, acreditem, quem deposita uma cifra astronômica dessas num projeto tão raquítico, tão inconsistente? Ok, eu sei que o cinema blockbuster tem como princípio básico o entretenimento. Só que o problema é que esse aqui sequer alcança esse objetivo. Pra começar o roteiro é tão desconectado de qualquer sentido, que faz com Não Olhe Para Cima (2021) de Adam McKay, um outro exemplar daquilo que se pode chamar de cinema-catástrofe, pareça uma obra-prima do cinema.

Na trama acompanhamos Brian Harper (Patrick Wilson), um astronauta desacreditado após uma tragédia que destruiu um satélite e tirou a vida de um colega de profissão 10 anos atrás. Aqui, ele volta a ativa para uma missão que visa salvar a humanidade após a Lua sair de sua órbita e entrar em rota de colisão com a Terra - o que começa a gerar um sem fim de problemas. No tal acidente do passado que acompanhamos no começo do filme, Harper se empenha em salvar a vida de sua colega de profissão Jo Fowler (Halle Berry), que hoje é uma "grandona" na Nasa. Paralelamente, um nerdola mais estereotipado que os integrantes de The Big Bang Theory (papel de John Bradley) é o esquisitão conspiracionista, que vê sua teoria esdrúxula sobre o desvio de eixo do satélite confirmar algo sobre a Lua ser, na realidade, um satélite artificial (com direito a engenhocas que fornecem energia a algum tipo de "vida inteligente" em seu interior, que é oco).

Aliás, oco. (ou oca) Taí uma palavra que resume bem a forma como a narrativa vai sendo costurada, por meio de explicações científicas apressadíssimas (e pouco lógicas) e um empenho sôfrego em converter, novamente, os Estados Unidos no salvador da Pátria. Ou "das pátrias". E aí haja bandeira norte-americana tremulando, oficiais em roupas camufladas, diálogos quadrados que parecem saídos de churrascos de clubes de tiro conservadores e personagens tão rasos quanto pratos de buffet que só permitem pegar um pedaço de carne no bandejão (inclusive os secundários, que parecem inúteis basicamente o tempo todo). E o que acontece em um combo tão completo do desastre é que no fim das contas nós, espectadores, que estamos acompanhando o desenrolar, pouco nos importamos. No fim a gente só quer que tudo acabe de uma vez porque esse tipo de filme não colaria nem em meados dos anos 80.

Aliás, até os anos 80 aparecem de forma deslocada no roteiro - a inserção de uma discussão sobre a música África, do Toto, ainda no comecinho pretendia, o quê? Soar nostálgica só porque está na moda? E, aproveitando, porque em filmes desse tipo personagens que supostamente deveriam ser inteligentes tomam decisões tão estúpidas? Ou se comportam como pessoas que parecem ter algum tipo de deficiência cognitiva? Lá pelas tantas, diante de uma grande dúvida, o nerdola se pergunta: o que Elon faria numa situação dessas? É sério? Elon? Ele tá falando de quem eu estou pensando? Com tantos elementos tão terraplanistas tudo se torna triplamente pior quando nos damos conta que a obra não tem sequer a leveza, o senso de humor ou a presença de espírito de não se levar tão a sério. No fim das contas a gente sabe qua o mundo vai ser salvo, com trilha sonora edificante, por algum americano aleatório e meio cínico voltando pra casa como heroi, enquanto a cena o acompanha em câmera lenta. É tudo dolorosamente previsível. Desgraçadamente falho. Tediosamente monótono. Mas vocês podem ir, por conta e risco: tá lá na Amazon Prime.

Nota: 1,0

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Tesouros Cinéfilos - Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August)

De: Joachim Trier. Com Anders Danielsen Lie, Hans Olav Brenner e Renate Reinsve. Drama, Noruega, 2011, 94 minutos.

Existe uma cena silenciosa (e comovente) que dá conta do completo vazio sentido pelo protagonista do inquietante Oslo, 31 de Agosto (Oslo, 31. August), filme que está disponível no Mubi. Nela, o jovem Anders (Anders Danielsen Lie) entra em um clube com três amigos ao final de uma madrugada de festa - o dia está amanhecendo. Os amigos resolvem pular na piscina, insistem para que Anders entre com eles. Ele olha, mas parece olhar para o nada. Sua mente viaja por alguns instantes. Ele levanta e vai embora, afinal, qual o sentido de tudo aquilo? Como fugir do pessimismo, do niilismo que lhe invade diante de tudo? Anders é bem nascido, vem de uma família claramente estruturada, pôde estudar, é branco, hétero. Está longe de ser uma minoria. Mas é um jovem viciado em drogas que está quase concluindo o processo de reabilitação. A madrugada da piscina é a conclusão do dia de licença que ele recebeu para participar de uma entrevista de emprego. Uma tentativa de se recolocar, de tentar se incluir novamente na engrenagem social.

Muito antes de chamar a atenção do mundo nesse ano pelo maravilhoso A Pior Pessoa do Mundo (2021), Joachim Trier converteu esse roteiro em uma verdadeira (e dolorosa) via crúcis de um jovem em busca de um reencontro consigo mesmo - de preferência em um universo livre de cocaína, heroína e outras substâncias. Mas como ter forças para recomeçar aos 34 anos tendo, basicamente, nada? Um encontro com o amigo Thomas (Hans Olav Brenner) quase se converte em uma sessão de terapia improvisada entre os dois. Percorrendo a vizinhança, a dupla submerge em reminiscências, olhando para o passado na tentativa de trilhar o futuro. Anders se lamenta, mas a vida de Thomas está tão melhor assim? Cuidar dos dois filhos pequenos, encontrar outros casais que ele nem gosta tanto assim, a completa ausência de amor (e de sexo), a rotina entediante, algumas sessões aleatórias de Battlefield no videogame e... é isso? É essa a vida que aguarda um ex-hedonista?



Quando vai para a tal entrevista de emprego a situação piora. As coisas até não começam assim tão ruins - o futuro empregador do protagonista parece se afeiçoar dele, sorri, elogia sua produção textual ( é uma vaga para roteirista júnior ou algo do tipo). Mas lá pelas tantas, observando seu currículo, ele pergunta onde estão as informações após o ano de 2005. Ao que Anders responde, com inescapável sinceridade: "eu era um viciado em drogas. Drogas de todos os tipos. Mas estou limpo há 10 meses. Nem álcool eu tomo". Mas não adianta. É como se houvesse um selo em sua testa, uma tatuagem, onde estivesse escrito: "viciado". E aí o rapaz percebe que há ainda o estigma social a s ser superado. O preconceito. A ideia de que um consumidor de drogas sempre será um problema. A entrevista se encerra de forma desastrosa. No dia de folga de Anders não há emprego, somente a dor do passado que lhe assombra. E que parece prontinho a bater novamente na porta.

Hábil na construção da narrativa, Trier adota longos planos sequência com câmera na mão, o que confere um caráter quase documental à experiência. Há um naturalismo palpável, como se nós, espectadores, fôssemos observadores que estão em volta, nas frestas - e a fotografia meio granulada, quase pálida contribui para esse clima próximo, familiar. Os personagens são complexos, não há julgamentos morais. A gente sabe onde aquilo tudo vai dar, mas, é quase como se déssemos algum tipo de razão a Anders. Passássemos pano para ele. Como viver num mundo tão afetado pela mesmice? Com tantos planos óbvios para o futuro? Com tanta coisa meramente ordinária acontecendo? O que pode, afinal, nos comover, em meio a esse mar de monotonia? São questões duras, complexas, que não são respondidas nunca e que nos deixam um travor meio amargo na conclusão. Há instantes de beleza, sim (a cena do bar é bonita, mas carregada de ambiguidade). Mas o marasmo é o que vai definir os próximos movimentos. Que envolverão, inescapavelmente, uma agulha, uma seringa e um braço. Doloroso é pouco.


quarta-feira, 11 de maio de 2022

Pérolas da Netflix - As Boas Maneiras

De: Juliana Rojas e Marco Dutra. Com Isabél Zuaa, Marjorie Estiano e Miguel Lobo. Fantasia / Drama / Terror, Brasil / França, 2018, 135 minutos.

É um drama sobre questões sociais? Um suspense sobre os desafios da maternidade? Ou seria ainda uma experiência de terror que evoca temas folclóricos? É urbano? É rural? É fantasia? Ou realidade? São tantas as possibilidades em uma análise do ótimo As Boas Maneiras, obra de Juliana Rojas e Marco Dutra, que o resultado são mais perguntas do que respostas, ao final da projeção. E não há nada de errado nisso, porque esse é aquele tipo de filme que permanece conosco, nos faz viajar, inferir, discutir. Da indefinição de seu gênero, passando pelo roteiro dividido em duas partes bem delineadas, a obra tem complexidade sem nunca soar excessivamente hermética. Ao cabo trata-se de um resgate da clássica lenda do folclore, mas de um jeitinho bem brasileiro.


Na trama somos apresentados a Clara (Isabél Zuaa), mulher negra que mora em um bairro periférico de São Paulo e que consegue uma vaga como babá do filho da grávida Ana (Marjorie Estiano), em um luxuoso apartamento. A conversa inicial parece cercada de amenidades mas, aqui e ali, já evidencia o contraste entre a dupla de protagonistas: Ana é a burguesa que não é capaz nem de comprar os seus alimentos, ao passo que Clara se empenha em suas funções, por mais que resista à ideia de se tornar também a empregada do local. Em meio a acontecimentos aleatórios - e que são carregados de tensão -, como uma ida até a geladeira de madrugada, ou um passeio pelo bairro no solidão do avançar das horas (Ana é sonâmbula), vai se ampliando a percepção de que algo estranho está prestes a acontecer. Especialmente nas noites de lua cheia, momento em que o mistério aumenta.

 
Enigmática, a "patroa" entrega pouco sobre seu passado. Quando ela encontra uma amiga no shopping esta parece querer evitar ao máximo qualquer contato. Não há namorado ou família presente - o seu aniversário é de uma solidão devastadora. Tanto que Ana convida Clara para uma cerveja nessa noite. Ambas se aproximam, a amizade salta para um algo a mais. É mais um tema que se instala na narrativa. Mais um ponto de quebra de lógica, daqueles em que há confluências entre polos opostos. Como um todo, a obra parece ser uma ampla alegoria sobre distancias que aproximam, sobre segredos que vêm à tona, sobre castelos contemporâneos de conto de fadas urbano. Novamente dá pra se dizer que não há facilidades: há sugestões, gestos, pontas que escapam e que nos encontram. A cena em que Clara vai a um bar, por exemplo, talvez parecesse apenas deslocada se não fosse esse um filme que discute, nas entrelinhas, temas ligados ao trabalho, aos preconceitos por baixo dos panos, ao fluxo geral da vida (quase ordinária em seu cotidiano).

Tecnicamente soberba, a obra é primorosa ao evocar no espectador sentimentos variados - e é incrível como uma simples cena em que Ana está sentada na sala de jantar, com uma ampla janela ao fundo em que se vê uma enorme lua cheia, comunique tanto. A sequência parece uma pintura e há todo um quê de artes plásticas e literatura que saltam da tela a todo instantes - como se estivéssemos em uma espécie de inesperado filme da Disney live action tão nacional quanto peculiar. Outro aspecto relevante diz respeito à trilha sonora, com as composições originais servindo quase como uma expansão do universo onírico da história. O que fica, por fim, é o elogio à capacidade de nossos realizadores de ir além da comédia Globoplay ou do suspense policial, misturando elementos de fantasia e até de sobrenatural para a construção de um universo único que jamais deixa de "conversar" com os tempos que vivemos. Como comprova o mais do que ilustrativo último ato.
 
 

Pitaquinho Musical - Sharon Van Etten (We've Been Going About This All Wrong)

Com a já habitual dramaticidade, Sharon Van Etten converte We've Been Going About This All Wrong - o seu sexto registro de inéditas em um novo veículo para expressar dolorosas confissões sobre relacionamentos, perdas e até coragem de dar a volta por cima. Na realidade, esta é quase uma tradição da artista - e um dos aspectos que mais atraem seus devotos fãs. O sofrimento, afinal, não se restringe apenas aos versos - ela é capaz de dizer coisas como Já faz um tempo desde que nos tocamos / Todas as portas se fecham / Eu vi a queda / Eu vi você desfeito / Estive escrevendo na poeira (na abertura Darkness Fades) da forma mais desavergonhada possível -, mas também às melodias econômicas e ao mesmo tempo expansivas e até a forma de cantar, flexionando as palavras ao máximo como se assim fosse possível ampliar (e tratar) as dores. Ao cabo, esse parece ser aquele disco pra ouvir numa tacada só, como uma espécie de expiação que se revolve entre sintetizadores calorosos, pianos delicados e percussão trovejante. Pode parecer meio desesperançoso para alguns paladares. Mas é tudo muito bonito, elegante, o que torna a experiência tão majestosa quanto honesta. Se preferir comece com Come Back ou Mistakes. Será difícil não mergulhar no resto.


terça-feira, 10 de maio de 2022

Pitaquinho Musical - Criolo (Sobre Viver)

Desigualdade social, violência, pandemia, extremismo religioso, racismo, milícia, destruição da natureza. Tudo ao mesmo tempo e agora - e nesse sentido a impressão que fica é a de que nunca foi tão necessário um novo disco de rap do Criolo como este Sobre Viver. Aliás, há todo um quê de literalidade na obra, a quinta de estúdio, já que o artista perdeu a irmã precocemente para o covid-19 há pouco menos de um ano. "Como a gente se fortalece, como a gente segue em frente? A música consegue tirar o que a gente tem de melhor, a música sempre nos dá uma segunda oportunidade" refletiu, em entrevista recente ao site Tracklist, citando o episódio, que aparece na soberba canção Pequenina (Cuidar da minha irmã, agora só em prece / Ela não tá mais aqui é que esse mundo não te merece). A propósito, o canto vigoroso e poético de Criolo, um verdadeiro mestre em misturar (e até recriar) estilos, surge com contundência em meio ao caos perpetrado por esse atual momento que vivemos - e canções de títulos autoexplicativos como Pretos Ganhando Dinheiro Incomoda Demais, Quem Planta Amor Aqui Vai Morrer e Diário do Kaos funcionam quase um diário de nossos tempos. Com participação de convidados como Milton Nascimento e Liniker, o paulistano mostra que está em ótima forma.



Cine Baú - Fuga do Passado (Out of the Past)

De: Jacques Tourneur. Com Robert Mitchum, Kirk Douglas, Jane Greer e Virginia Huston. Suspense / Noir, EUA, 1947, 96 minutos.

É ainda no comecinho de Fuga do Passado (Out of the Past), que pode ser conferido na HBO Max, que Whit Sterling (Kirk Douglas), um chefão da máfia ligado ao mundo dos jogos, relata ao detetive Jeff Bailey (Robert Mitchum) sobre a vez que apostou em um cavalo e este chegou em último lugar. "Depois disso eu investi 40 mil dólares para comprar esse cavalo e..." - nesse momento a expressão de Jeff se altera pelo que ele imagina ter sido o trágico destino do animal. "Claro, por que ao adquiri-lo eu o coloquei em uma abundante pastagem, longe das disputas, assim ele não mais me atrapalharia". Ocorre que em um filme noir esse tipo de diálogo tão prosaico quanto ambíguo pode ter bem mais do que um significado. Whit está "contratando" Jeff para que ele encontre a jovem Kathie (Jane Greer) que, o homem alega, teria tentado lhe assassinar com quatro tiros, levando-lhe ainda 40 mil dólares (olha a rima aí). "Eu não quero vingança. Eu só a quero de volta", garante o sujeito.

Nessa parte do filme já está em andamento um longo flashback de quase 40 minutos, em que Bailey relata para Ann Miller (Virginia Huston), seu interesse romântico atual, eventos que teriam ocorrido três anos antes. E que dariam conta de seu passado misterioso e cheio de segredos que, agora, parecem prontos à vir à tona. Tentando fugir daquilo que deixou para trás, o protagonista é hoje um dono de posto de gasolina em uma pacata cidadezinha do interior - um cenário tão idílico e silencioso que até o funcionário do posto é um garoto surdo e mudo (Dickie Moore). Só que a calmaria é interrompida com a chegada de um certo Joe Stephanos (Paul Valentine), que será a deixa para um inesperado reencontro com a sua real identidade. Whit pretende não apenas vê-lo - ele está instalado em uma pousada junto ao Lago Tahoe, no limite entre a Califórnia e Nevada -, mas também tem para ele uma nova missão: ajudá-lo a escapar de dívidas com o imposto de renda. O que também lhe possibilitará a solução de uma série de pendências que pareciam enterradas no passado.



No relato de Bailey a Ann entenderemos que o protagonista foi atrás de Kathie, alcançando-a no México. E será lá mesmo que ele se apaixonará por ela - num romance arquetípico clássico de obras do gênero, em que o suposto mocinho se aproxima da vilã. Ou será o contrário? O caso é que no clássico de Jacques Tourneur nada é o que parece e o tempo todo temos a impressão de estarmos sendo passados para trás. Há uma beleza meio bucólica no cenário campestre - suas casas de campo, rios, pradarias e belos cenários - que formam o contraste perfeito com a dureza e a trilha de violência que acompanharemos quando o roteiro chega nos dias atuais. Bailey tentará estar um passo a frente de Whit o tempo todo. E vice-versa. Em meio aos dois Kathie é a figura enigmática, de movimento ambíguo, fazendo com o que espectador trafegue até o último segundo da trama em um universo de incertezas. Ela ama Bailey de fato? Ou está só esperando o momento certo para traí-lo?

Utilizando todos os elementos do noir clássico dos anos 40 - a fotografia escurecida, os diálogos rasgantes, as disputas surpreendentes, o passado obscuro que insiste em reaparecer, a mulher fatal, a nuvem de fumaça provocada pela quantidade absurda de cigarros fumados, as reviravoltas e traições -, o filme nos conduz em uma espiral de eventos fragmentados em que quase perdemos o fio condutor. Hábil em criar instantes de tensão - como aquele em que Whit encontra de forma "inesperada" um Bailey cheio de culpa em um hotel mexicano -, a obra ainda possui aquele senso de humor debochado, que torna a experiência ainda mais gratificante. "Você é uma folha que o vento sopra de uma sarjeta a outra", lembra o protagonista à Kathie em certa altura. O caso é que ele mesmo não percebe que, tão perto que está do objeto de sua ambição, acabará ele próprio indo para o bueiro.


segunda-feira, 9 de maio de 2022

Novidades em Streaming - Great Freedom (Große Freiheit)

De: Sebastian Meise. Com Franz Rogowski, Georg Friedrich e Thomas Prenn. Drama, Áustria / Alemanha, 2021, 118 minutos.

Pode parecer meio estranho pensar que uma Lei tão hedionda como aquela que ficou conhecida como Parágrafo 175 tenha sido revogada somente em 1994 na Alemanha. Instituída em 1871 pelo Código Criminal Germânico, ela criminalizava os atos homossexuais entre homens. Ampliada na época do nazismo, a medida passaria por diversas emendas no transcorrer dos anos, condenando dezenas de milhares de homens, num tipo de perseguição que ainda parece bastante presente, especialmente nos meios mais reacionários (como é o caso daquele churrasco dominical em família, que você participa). E é justamente essa abominação jurídica que serve como pano de fundo para o ótimo Great Freedom (Große Freiheit), filme disponível na plataforma Mubi e que foi o enviado da Áustria na última edição do Oscar. A trama revoltante nos apresenta a Hans (Franz Rogowski, ótimo, como de costume), um sujeito que é preso diversas vezes após a Segunda Guerra Mundial por cometer o "crime" de ser homossexual.

Pouco preocupado em mostrar os bastidores - ou mesmo o lado mais burocrático desses encarceramentos -, o diretor Sebastian Meise centra a narrativa no interior da prisão (nas celas minúsculas, nos pátios pouco convidativos, nos salões cheios de concreto e de estruturas metálicas) e, consequentemente, na completa falta de sentido desse tipo de detenção. Especialmente para quem já vinha de uma longa estada em campos de concentração. Andando aqui e ali em meio aos outros presos, Hans estabelece algum tipo de relação com Viktor (Georg Friedrich), o assassino com quem divide a cela. E por mais deformada que essa amizade pareça, será justamente ela que fará com que o protagonista não perca completamente a sua humanidade. Aos trancos e barrancos, em meio a encontros e desencontros, a dupla se ajudará, seja fornecendo um cigarro ou improvisando uma tatuagem. E, bom, não é preciso ser nenhum adivinho pra saber que essa parceria poderá avançar para algo a mais, especialmente em um contexto de tão profunda solidão.


Ao cabo, trata-se de uma obra sobre empatia. Sobre compreender e respeitar o outro. E até sobre amor. Por maiores que sejam as diferenças. Com sutileza, Meise vai pincelando a experiência com pequenos instantes que denunciam o absurdo do comportamento preconceituoso - e não deixa de ser curioso notar como a prisão por homossexualidade é capaz de provocar reações mais exacerbadas do que aquelas que envolvem crimes reais. Da mesma forma, o diretor pontua os avanços da dupla central de forma econômica, apostando em gestos, em olhares ou em pequenas atitudes que vão clareando o todo - tudo com ambiguidade, sem nunca parecer exagerado. E mesmo os saltos narrativos - o filme se passa em três linhas temporais diferentes, em 1945, 1957 e 1969 -, ocorrem de forma bastante orgânica, com os eventos de cada período servindo para fortalecer a ideia que a obra pretende difundir. E nunca é demais lembrar do quão bizarro é criminalizar alguém por amar/gostar/ter desejo por alguém do mesmo sexo.

Tecnicamente bem executado, o projeto até se arrisca mais em um ou outro plano sequência ou mesmo no uso da luz (ou da falta dela) como um recurso quase sufocante em alguns momentos - embora em linhas gerais tudo seja muito discreto, econômico (a trilha sonora, por exemplo, quase inexiste). Mas o destaque mesmo são as interpretações, a entrega dos atores - e Rogowski mais uma vez dá um verdadeiro show em sua capacidade de comunicar muito com seu esguio corpo ou mesmo com seus olhos oblíquos, o que amplia a percepção acerca de sua versatilidade. No fim esta é uma obra de resistência, de pacificação, uma espécie de ode ao progressismo, que avança para uma nota mais otimista ao final, ainda que não haja exatamente uma grande surpresa nesse contexto. Vencedor do Prêmio do Juri na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, o filme vem para comprovar a qualidade da safra internacional desse ano.

Nota: 8,5


sexta-feira, 6 de maio de 2022

Pitaquinho Musical - Arcade Fire (WE)

Ok, já é possível afirmar com segurança que estamos devidamente "arcadefirezados" com o lançamento do belo WE - que deixa para trás a má impressão provocada pelo anterior Everything Now (2017), que foi uma espécie de nota menor na discografia do Arcade Fire. Com quase 20 anos de estrada é óbvio que os canadenses não são mais os mesmos da época de Funeral (2004) - e essa maturidade parece ser meio palpável na sobriedade das melodias, que talvez estejam um tom abaixo da anarquia evocativa de Rebellion (Lies) ou Neighboorhood #2 (Laika). Só que isso não significa perda de gás ou de personalidade. Aliás, com o mundo como está - com pandemia, guerras, dependência digital, extremismo político de direita e outras dores pessoais dos próprios integrantes -, a banda encontra nessa nova leva de canções o veículo perfeito para discutir as tantas incertezas quanto ao futuro. "Combata a febre com TV / Na idade em que ninguém dorme / E as pílulas não fazem nada por mim /Na era da ansiedade", entoa Win Butler já na fantasmagórica abertura Age of Anxiety I. É só um aperitivo do que está por vir. Até o dia clarear o caminho será tortuoso. Mas com a beleza habitual, o coletivo joga luz até mesmo nos instantes mais sombrios. E nisso, vamos combinar, eles são mestres.


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Picanha em Série - Alguém em Algum Lugar (Somebody Somewhere)

De: Jay Duplass e Robert Cohen. Com Bridget Everett, Jeff Hiller, Murray Hill e Mike Hagerty. Comédia / Drama, EUA, 2021, 190 minutos.

Filmes e séries sobre desajustados sociais tentando se encaixar nesse mundo costumam render ótimas histórias - como comprova Alguém em Algum Lugar (Somebody Somewhere), uma das estreias do semestre na HBO Max. Com apenas sete episódios, a minissérie nos conduz ao coração dos Estados Unidos - mais precisamente no Estado do Kansas -, onde somos apresentados à Sam (a ótima Bridget Everett) mulher de meia idade que vive uma vidinha ordinária em uma cidade pacata, daquelas típicas do interior. De luto pela morte de uma de suas irmãs - em circunstâncias não muito claras -, Sam alterna sua existência entre um trabalho não muito empolgante e os conflitos familiares que envolvem sua irmã mais nova Tricia (Mary Catherine), seu pai Ed (Mike Hagerty) e sua mãe Mary Jo (Jane Drake Brody), gravitando também em seu entorno o cunhado Rick (Danny McCarthy) e outras figuras excêntricas.

Produzida pelos irmãos Jay e Mark Duplass (aliás, foi o que me atraiu para a série), a atração faz lembrar os filmes de Todd Solondz, mas com um pouco mais de otimismo. Sam, por exemplo, a despeito da mesmice e da resignação de seus dias, parece encontrar uma motivação para viver quando faz amizade com Joel (Jeff Hiller), colega de trabalho que se apresenta como um antigo colega de classe da protagonista. Aos trancos e barrancos eles vão vivendo, persistindo e encontrando na paixão pela música um ponto em comum - e não é por acaso que sequências como aquela em que a dupla canta Piece of My Heart da Janis Joplin sejam tão evocativas já que, ao cabo, a série nos faz lembrar que a arte também serve para nos socorrer nos momentos mais desalentadores. Aliás, há no último episódio uma outra sequência daquelas para guardar no coração, com Sam e Joel, acompanhados também de Fred (Murray Hill), entoando mais uma linda canção.

Sim, em um ou outro momento bate aquele sentimento de "ok, pra onde esse negócio vai me levar, afinal?", mas quando a gente percebe está rindo e se emocionando com aquelas figuras tão deslocadas, tão à margem, apenas por não se encaixarem em um certo padrão. Ou, minimamente, por não agirem como o esperado. Tricia, por exemplo, paga vale como representante da família de bem, temente à Deus, empresária de uma pequena loja de quinquilharias, que sequer percebe que o próprio marido (que às vezes mais parece o filho) a trai com a sua sócia. Todos eles arrogados como bastiões da moral e dos bons costumes. É esse tipo de incongruência que denuncia a hipocrisia da pequena cidade, da vida em comunidade, que se sobressai em cada fresta da narrativa, que aproveita seus acontecimentos pouco convencionais para discutir temas distintos, como, poder da amizade, culpa católica, vida de aparências e fuga do passado - com um olhar de incertezas para o futuro.

E, nesse sentido, é difícil não se identificar. Alternando ótimas piadas travestidas de comentários sociais - como na cena em que Sam e Fred estão decidindo em qual igreja entrar, se deparando com quatro opções distintas na mesma quadra -, com fragmentos mais comoventes, como os encontros recheados por música, a série é um prodígio sobre dizer muito, com pouco. Há uma mistura de vidas rurais - e de agricultura mesmo -, que se entranham em famílias conservadoras que vão se colidindo até encontrar força para persistir na amizade, nos encontros inusitados, no aleatório que dá cor a experiência. É algo trágico, sensível, nostálgico e engraçado em medidas iguais, condição ampliada pela fotografia empastelada, pelos figurinos interioranos e opacos e pelo comportamento geral meio torpe. Mas quando a gente vê já tá encantado e torcendo para que todos aqueles desajustados se encontrem no caminho. Nunca é tarde, afinal, para (re)começar. E sair da letargia dos dias.

Nota: 8,0


terça-feira, 3 de maio de 2022

Novidades em Streaming - Nos Corredores (In den Gängen)

De: Thomas Stuber. Com Franz Rogowski, Sandra Hüller e Peter Kurth. Drama, Alemanha, 2018, 126 minutos.

Corredores, empilhadeiras, caixas, estrados. Uniformes, crachás, registros de ponto. É possível encontrar algum tipo de "emoção" na rotina tão repetitiva do dia a dia em um supermercado? Há alguma beleza possível nesses espaços de bastidores de compras? Em pacotes de alimentação e em produtos de limpeza? Bom, por mais paradoxal que isso pareça, o diretor Thomas Stuber prova, com Nos Corredores (In den Gängen), filme baseado em conto de Clemens Meyer, que há. Apostando em ângulos de câmera pouco óbvios, em uma iluminação discreta, em um desenho de produção tão sutil quando grandioso - o que não é afinal um depósito senão um amontoado de objetos agrupados de forma mais ou menos ordenada? - o realizador nos contará a história de Christian (Franz Rogowski), um sujeito taciturno, de poucas palavras, mas bastante observador, que começa a trabalhar no turno da madrugada em um supermercado.

Como em qualquer novo local, ele passa pelo seu "batizado" - as brincadeiras e a impaciência de seus novos colegas, os pequenos ensinamentos -, com uma resignação que parece saltar de seus olhos curiosos. Circulando pelos corredores, aprendendo a dirigir a empilhadeira, se atrapalhando, avançando, pegando um café aqui e ali, a vida ao seu redor vai acontecendo sem grandes novidades. Ao espectador a experiência do tédio e do enfado é consolidada em movimentos que se repetem - como nas sequências insistentes em que Christian veste seu uniforme de forma quase robótica (sensação ampliada pelos cortes secos) -, e pela pouquíssima engenhosidade que envolve o trabalho, afinal, lá pelas tantas o protagonista se familiarizará com aquilo para o qual foi contratado. E, o que mais? Algum segredo sobre o passado? Quais os motivos de tanto silêncio? De tanto ouvir e pouco se manifestar? Pra quê tantas tatuagens? Qual o sentido afinal dessa existência tão ordinária quanto solitária?

Sem muita pressa, Stuber vai entregando as pistas aos poucos, misturando aqui e ali fragmentos de obras distintas como a francesa O Valor de Um Homem (2015) ou a mexicana Almacenados (2015) - ambas sobre o universo do trabalho -, em que não muito acontece, mas quando nos damos conta, estamos diante de uma ampla reflexão sobre ressocialização, relação empregado e patrão, oportunidades, entre outros. Em Nos Corredores há um carismático superior, no caso o veterano Bruno (Peter Kurth), que parece ficar preocupado com a chegada de Christian (estaria ele sendo descartado?), e uma colega de trabalho misteriosa, chamada Marion (a sempre ótima Sandra Hüller), que despertará enorme curiosidade no protagonista. Qual é, afinal, a história da mulher? O que lhe move? Qual o diálogo possível com uma colega? É flerte ou é amizade? São tantas as pequenas perguntas que careceriam de enormes respostas que é praticamente impossível ficar alheio a um projeto desse tipo.

Em entrevistas para o Festival de Berlim, onde o projeto foi exibido, o diretor explicou que a "solidão é um aspecto muito importante no cinema" - e talvez aí esteja a chave. No caso de Christian há um detalhe interessante que é como ele vive a solidão: de forma resiliente, manifestando pouco sobre seus sentimentos, sendo feliz em pequenos instantes, como se tateasse em piso desconhecido. Quem assiste fica meio que no vácuo, mas vai sendo agraciado aqui e ali com um ou outro comentário ou alguma reflexão que contribuirá para fazer o encaixe narrativo. Toda essa intenção sendo ampliada por um ótimo uso da trilha sonora - que em muitos casos surge de forma diegética, o que forma uma espécie de balé mecânico meio aleatório nesse vai e vém cotidiano. Ainda assim, vale mencionar: trata-se de uma experiência absolutamente aberta, o que talvez desagrade alguns paladares. Já quem se aventurar, certamente irá se identificar com essa a dura ideia de que a nossa existência ocorre, em grande parte, em meio a cubículos fechados, equipamentos frios e relações pouco profundas.

Nota: 8,5


Livro do Mês - Herdeiras do Mar (Mary Lynn Bracht)

De: Mary Lynn Bracht. Editora Paralela, 2020, 306 páginas.

O contraste entre a beleza poética da escrita e o argumento comovente é uma das marcas do imperdível Herdeiras do Mar, meu primeiro contato com a obra de Mary Lynn Bracht. Trata-se de um livro duro, quase indigesto, mas que apresenta uma história que é, para muitas pessoas, desconhecida - no caso, sobre as jovens coreanas que, durante a Segunda Guerra Mundial, foram enviadas para regiões longínquas para servirem como "mulheres de consolo" para soldados japoneses. Sim, essa experiência repugnante é vivida por Hana, que é conduzida à região da Manchúria por Morimoto - um soldado japonês linha dura que sequestra a jovem quando ela tinha apenas 16 anos. Sob ocupação japonesa Hana é considera, em sua Coreia natal, uma cidadã de segunda classe, com pouquíssimos direitos. Ainda assim ela orgulha-se em ser uma haenyeo, como são conhecidas as mulheres que trabalham no mar como mergulhadoras marinhas - atividade tão perigosa quanto lucrativa.

Em seu ofício, realizado na Ilha de Jeju, Hana segue de perto os passos da mãe, encarando sua rotina com independência e coragem. Ela também é responsável por Emi, sua irmã sete anos mais nova - o zelo envolve jamais deixa-la sozinha, especialmente em meio às rotinas da praia. Só que em certo dia, um instante de desatenção selaria o destino de Hana que, para proteger sua irmã, praticamente se deixa capturar por Morimoto. Levada ao bordel militar, ela sofrerá as mais duras atrocidades e os mais cruéis abusos sexuais e psicológicos. O sonho de reencontrar sua família é o que a mantém, enquanto encara a seu doloroso dia a dia. Com idas e vindas no tempo, a obra se alternará entre os eventos do passado - no caso o verão de 1943 - e os do futuro, em dezembro de 2011, com Emi, agora aos 77 anos, ainda sonhando com a perspectiva de reencontrar sua irmã. Aliás, por vergonha, ela mantém o ocorrido em segredo dos filhos Hyoung e Yoonhui, o que impactará a vida de todos quando as verdades começarem a vir à tona.


Ao cabo, Herdeiras do Mar pode ser uma jornada tão exaustiva quanto recompensadora. É um livro oportuno sobre o absurdo da guerra, escrito com maestria, e que mantém o suspense até as últimas páginas. Das tentativas de fuga de Hana ao empenho de Emi na busca por informações, a jornada das irmãs é narrada em meio a devaneios febris sobre o passado, num quase flerte com o realismo mágico. Enfraquecida, exaurida, mal alimentada, Hana sofre um processo de desumanização que lhe condiciona a ser "apenas" alguém destinada a satisfazer sexualmente um grupo de boçais. Em trens em que não se sabe o destino e em bordeis, Hana fará amizade - ou algo perto disso - com outras jovens, como é o caso de Keiko. O apoio entre elas, as poucas trocas de palavras, a sororidade, o comportamento empático também contribuirão para que Hana não esmoreça. Com as esperanças sendo renovadas após ela ser enviada para a Mongólia.

Em uma das tantas belas passagens, Hana se isola em sua própria imaginação, se enxergando mergulhada nas profundezas de um oceano, evadindo-se de seu entorno. "Ela aprende a prender a respiração quando um soldado invade seu corpo, e sente como se estivesse lutando para respirar antes de emergir à superfície em busca de ar. Nunca olha os homens no rosto. É melhor nem sequer pensar neles como pessoas. Em vez disso eles são máquinas enviadas a ela ao longo do dia. Ela se concentra na promessa de que tudo vai acabar, porque sempre acaba, e então dorme. Consegue controlar sua mente e escolher o que permite que a invada." São instantes sublimes, quase delicados como este, que servem para evidenciar as contradições entre o evocativo do texto, redigido com grande sensibilidade, e o martírio da história. Uma simples vaca sofrendo em meio ao pasto pode ser uma metáfora para a dor de Hana. Que só será extirpada na marra, à força. Bracht fez um trabalho magnífico em sua estreia. Uma experiência envolvente, inquietante, aflitiva e sensorial, um verdadeiro documento histórico que evidencia a misoginia, especialmente em tempos de guerra, em meio a outros absurdos do processo de colonização.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Cinema - Medida Provisória

De: Lázaro Ramos. Com Taís Araújo, Seu Jorge, Alfred Enoch, Adriana Esteves e Ranata Sorrah. Drama, Brasil, 2021, 94 minutos.

Juro que a expectativa estava lá no alto pra sessão de Medida Provisória - estreia na direção do sempre carismático e competente Lázaro Ramos, a partir da peça Namíbia, Não! de Aldri Assunção. Pra começar a ideia era ótima. Aliás, mais do que isso, num governo tão reacionário, obtuso e retrógrado como o de Bolsonaro, uma premissa sobre um decreto nacional que obriga os cidadãos negros (ou os possuidores de "melanina acentuada") a retornarem pra África, é mais  do que uma distopia futurista: é um verdadeiro aceno aos tempos atuais. A gente não precisa nem mencionar quantos casos de racismo ocorrem diariamente - basta abrir algum site de notícias que estará lá o caso do policial que confundiu um guarda-chuva com uma arma e assassinou um jovem negro, do torcedor que proferiu ofensas raciais em meio a uma partida de futebol, do entregador de aplicativo humilhado pelo playboy, do homem morto em um supermercado, entre tantos outros. Não escapa ninguém. Anônimo, famoso, bem sucedido ou de vida modesta. O Brasil é esse País vergonhoso onde muitas pessoas medem caráter pelo tom de pele.

Então, de novo, estava empolgadíssimo em conferir uma obra com um argumento tão criativo. Com tanto potencial. Mas sei lá, não rolou tão bem sabe? E a meu ver um dos principais pontos foi a completa falta de sutileza da obra. Sim, eu sei que nos tempos que vivemos é preciso esfregar a realidade na cara de quem assiste, sob pena de evitar qualquer tipo de ambiguidade. Lembram dos conservadores adeptos do "bandido bom é bandido morto" celebrando o Capitão Nascimento em Tropa de Elite? Mesmo com a sequência do filme de 2007 deixando absolutamente claro que não é legal um sistema de segurança que flerta com as milícias ou com o fascismo, o personagem de Wagner Moura se tornou uma espécie de objeto de culto, idealizado por essa elite tosca como um verdadeiro símbolo da violência policial. Então o que Lázaro faz aqui é dizer praticamente o tempo todo algo como "ei, vocês tão entendendo, né? Racismo não é legal, perceberam?".



Sim, novamente, talvez seja necessário. E nesse caso aqui eu aguardo MUITO as impressões de vocês sobre o filme. Só que em muitos casos esse excesso pode gerar justamente o efeito contrário, resultando numa perda de força do discurso. Afinal, o filme martela tanto, mas tanto, mas tanto o quão bizarro é estarmos discutindo cor de pele em pleno 2022, que em alguns momentos o negócio quase pende pro caricato. É mais ou menos como na cena em que o tal Ministro Lobato (Cláudio Gabriel) aparece para discursar sobre a medida provisória e, perguntado sobre o tipo de café que ele deseja consumir, ele comenta sussurrando, pra que ninguém lhe ouça, um "o meu pode ser preto". Tipo: como assim? E, nesse sentido, são muitos os instantes que ficam apenas no raso, num tom mais bem humorado do que reflexivo, como forma de expor aquilo que propõe o roteiro. Ok, o diretor explicou em entrevistas que essa opção foi proposital, talvez com a ideia de ampliar o alcance. Mas, de novo: uma experiência mais séria, com menos frases de efeito e mais ideias bem amarradas, talvez desse mais consistência ao resultado final.

É claro que há muitos méritos. Muitos mesmo. O desenho de produção é caprichado e pra quem gosta de easter eggs será certamente uma experiência divertida identificar as citações culturais que povoam os ambientes, seja em murais, em cartazes ou até em nomes de rua. Os figurinos são divertidos, tropicais e o afrobunker construído para que a população negra possa se proteger e se reorganizar, carecia de mais espaço de tela. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Sobre os pontos positivos há ainda um sem fim de participações especiais - de Emicida a Flávio Bauraqui, passando por Conceição Evaristo e Diva Guimarães. Já Elza Soares surge retumbante na trilha sonora, sendo a canção O Que Se Cala um dos momentos mais marcantes - e há outros, entoados por artistas diversos, como, Liniker, Baco Exú do Blues, Flora Matos, Tássia Reis. No combo geral ficou a impressão de que uma aposta maior nas entrelinhas, no dito pelo não dito, na sugestão, talvez conferisse mais relevância ainda ao projeto. Assim ficou aquela sensação de comédia ficcional que materializa uma série de pequenas esquetes diante de um argumento excelente. Por mais encantados que todos nós tenhamos ficado por tudo que envolveu esse filme - entre eles estando o impecável trio central de atores, vividos por Taís Araújo, Seu Jorge e Alfred Enoch.

Nota: 6,5


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Novidades em Streaming - Lingui (Lingui)

De: Mahamet-Saleh Aroun. Com Achouackh Abakar, Rihane Khalil Alio, Youssouf Djaouro. Drama, Chade / Alemanha / Bélgica / França, 2020, 89 minutos.

No ano passado fez burburinho nos meio alternativos o filme Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (2020), sobre uma jovem adolescente que enfrentava uma verdadeira via crúcis para tentar interromper uma gravidez indesejada - que era resultado de um episódio de violência. E se já era difícil pra protagonista de uma obra que se passa nos Estados Unidos - onde as leis sobre o aborto variam de Estado para Estado, evidenciando uma certa esquizofrenia sobre o assunto -, imagina como não é em um País pobre da África. Especialmente em uma nação fortemente influenciada pela religião muçulmana, como é o caso do Chade. Assim, como no citado hit do cinema independente, em Lingui (Lingui) - o enviado do País ao Oscar desse ano -, o tema descriminalização do aborto está no centro da narrativa, colocando novamente os desígnios (ou os supostos planos) de Deus de um lado e a ciência ou mesmo a capacidade de decisão sobre o corpo de outro.

Sim, no Chade a prática do aborto é crime em qualquer circunstância. Até mesmo médicos que facilitam o processo podem ser incriminados, amargando cinco anos ou mais na cadeia. Assim, quando Amina (Achouackh Abakar) descobre que Maria (Rihane Khalil Alio), sua jovem filha de apenas 15 anos está grávida, resta apenas a clandestinidade como caminho. Aqui e ali, Amina percorre as ruas arenosas do subúrbio de N'Djamena determinada a encontrar quem faça o procedimento. Isso sem que os islâmicos que as rodeiam fiquem sabendo. Inconformada por não poder ir a escola a adolescente esconde, inicialmente, o segredo da própria mãe. Por vergonha, por medo - e a violenta reação da mãe ao saber da gravidez talvez explique o receio. Mas, mais adiante Amina e Maria perceberão que somente a partir da uma grande rede de sororidade conseguirão "enfrentar" a questão.

Amina, assim como Maria foi mãe aos 15 anos. Resultado de uma violência que a retirou do convívio da família e da comunidade religiosa. Taxada como impura por ter tido uma filha fora de um casamento - esse tipo de absurdo misógino que só é possível nos países mais conservadores (pra não dizer reacionários) -, a mulher vive à margem da sociedade, em uma habitação modesta, onde empreende produzindo peças de artesanato com restos de pneus. Caminho seguido também pela filha - e as cenas delas perambulando pelas ruas, tentando comercializar uma peça que seja de suas produções, são devastadoras. Buscando reunir o dinheiro para realizar o procedimento às escondidas, a dupla descobre, a muito custo, uma espécie de enfermeira clandestina que pode fazer o aborto. O medo é constante. As dúvidas permanentes. O surgimento de Fanta (Bryia Gomdique), a irmã de Amina, atrapalha. Mas também ajuda. As mulheres unidas, afinal, são a única possibilidade de mudança nesse cenário patriarcal.

Ao cabo trata-se de uma obra dolorida, mas que mantém um certo otimismo ao mostrar qual o caminho. Ou onde reside uma pontinha de esperança, que seja. Dirigido com maestria pelo sempre ótimo Mahamet-Saleh Aroun (do também excelente Um Homem que Grita, de 2010), é um filme que nos faz refletir sobre o absurdo de, em pleno ano de 2022, ainda haver a completa incapacidade de se discutir esse tema como ele realmente é: uma questão de saúde. Que envolve empatia, respeito ao outro, a seu corpo e suas decisões. Especialmente quando estamos diante de casos de violência - não só física, mas psicológica. Há uma cena em Lingui em que um sacerdote se recusa a um simples aperto de mão a Amina. Obrigando-a ainda a se cobrir (ela apenas estava com vestes de "ficar em casa"). O mundo precisa evoluir. E experiências cinematográficas como esta nos ajudam a, nem que seja, refletir. É um mérito da arte. Provocar, ousar, questionar. Pra alegria de quem curte cinema.

Nota: 8,5

terça-feira, 26 de abril de 2022

Tesouros Cinéfilos - Assassinato em Gosford Park (Gosford Park)

De: Robert Altman. Com Helen Mirren, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, Michael Gambon e Emily Watson. Drama / Suspense, EUA, Reino Unido, Itália, 2001, 138 minutos.

Se Luis Buñuel tivesse filmado alguma obra de Agatha Christie é possível afirmar que o resultado, muito provavelmente, seria algo próximo a Assassinato em Gosford Park (Gosford Park) - clássico moderno de Robert Altman, que está disponível na plataforma Mubi. Altman se caracterizou por suas obras de elencos numerosos, tramas múltiplas, roteiros engenhosos e diálogos riquíssimos. Isso sem contar a predileção por reflexões mais existencialistas, ainda que em meio a pequenos microcosmos sociais - seja num cenário de guerra, como no clássico M.A.S.H. (1970), seja nos bastidores de uma rádio que realiza sua última transmissão, como ocorre no divertidíssimo e derradeiro A Última Noite (2006). Assim, para o diretor, um filme sobre um crime ocorrido em uma elegantíssima casa de campo inglesa no começo dos anos 30 do século passado, não é apenas um suspense pelo suspense, em que cabe ao espectador descobrir o assassino. Aqui tem-se uma experiência que desnovela a mesquinharia da aristocracia, ao mesmo tempo em que faz uma crítica corrosiva a essa elite tão ambiciosa quanto patética.

Sim, porque na casa de Gosford Park, cada convidado para o final de semana em companhia dos anfitriões William (Michael Gambon) e Sylvia McCordle (Kristin Scott Thomas) parece ter seu próprio interesse. E interesse financeiro, de preferência - seja a irmã falida que vive de uma pensão (a sempre ótima Maggie Smith), o cunhado totalmente inseguro que deseja ampliar os seus negócios (Tom Hollander) ou o produtor de filmes de Hollywood vivido por Bob Balaban. Nesse sentido, a reunião para luxuosos almoços e jantares e algumas atividades no campo - caso de uma caçada a faisões - parecem apenas desculpa para comportamentos presunçosos e uma existência de aparências, especialmente no que diz respeito à relação com mordomos, governanta, cozinheira e todos os outros criados. Fofocas, segredos prestes a vir à tona e outras intrigas vão dando movimento à narrativa, que flui de forma bem amarrada, mesmo em um universo de tantos personagens.


Aliás, quando o filme começa é quase impossível não ficar confuso com tantos cômodos, escadas e salões e tantas condessas, lordes, baronesas e comandantes circulando em meio a empregados que parecem tão perdidos em suas atribuições quanto o espectador. Mas Altman vai facilitando o nosso trabalho conforme a trama avança, apresentando cada núcleo aos poucos, nos deixando familiarizados com as figuras - e suas personalidades. É o caso por exemplo da ressentida Constance (Smith), que não hesita em reclamar de absolutamente tudo - da música tocada, ao tipo de geleia oferecida no café da manhã -, e do misterioso criado Henry Denton (Ryan Philippe) que, com seu ousado comportamento, trafega com naturalidade em meio aos ambientes que seriam destinados apenas à burguesia. É nesse contexto meio caótico que relações se misturam, pessoas distintas se encontram, classes lutam e interesses colidem. E um assassinato inesperado acontece. Tornando todos que ali se encontram em potenciais suspeitos.

Sim, esse tipo de narrativa até não chega a ser novidade, mas a personalidade que Altman imprime a sua história não apenas lhe concederia o Oscar na categoria Roteiro Original, na cerimônia de 2002, como lhe renderia outras sete nominações - duas delas para Helen Mirren e para a já citada Maggie Smith. É, ao cabo, uma experiência divertida e sinuosa, cheia de curvas meio imprevisíveis em que, para nós, só resta o deleite. Há um componente metalinguístico que costura a narrativa e que envolve o diretor de Hollywood que está acompanhado do astro de cinema Ivor Novello (Jeremy Northam). O que converte a experiência em um filme dentro do filme sobre um sujeito que deseja realizar uma história envolvendo um grupo de aristocratas em um casarão, que precisam lidar com a ocorrência de um assassinato. É só uma pitada a mais do debochado diretor, que entrega uma série de outras inesperadas piadas e comentários sociais sarcásticos, como na sequência envolvendo um prosaico "copo de leite". A quinta série pira. E o cinéfilo vibra. Vale (re)descobrir.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Novidades em Streaming - A Jornada (Proxima)

De: Alice Winocour. Com Eva Green, Matt Dilon, Zélie Boulant e Sandra Hüller. Ficção científica / Drama, Alemanha / França, 2020, 108 minutos.

"Estamos nos preparando para ir. Mas isso não é o mais difícil. O mais difícil é a volta, quando percebemos que vida continua sem a nossa presença." Quem acompanha o Picanha de perto já sabe que a ficção científica com uma pegada mais existencialista costuma nos tocar. E ainda que em A Jornada (Proxima) - disponível na Amazon Prime - a abordagem não seja assim tão filosófica, aqui temos um filme que funciona como uma boa desculpa não apenas para discutir de forma simbólica o rompimento do cordão umbilical entre mães e filhos, mas também como o mercado de trabalho pode ser muito mais difícil para as mulheres. Independente da profissão. E especialmente para aquelas que desejam ser astronautas. E é esse o caso de Sarah, a protagonista vivida por Eva Green, que é selecionada para se juntar a uma missão espacial em Marte. O que a deixará por um período de um ano longe da filha de apenas oito anos Stella (Zélie Boulant).

Sim, porque quando a gente assiste um filme tradicional de astronauta - com homens -, o ambiente doméstico ou a existência de filhos dificilmente se convertem em uma dificuldade. Imbuídos em suas missões, esses sujeitos não tem medo de olhar pra trás, para encarar o futuro. O que importa é a heroica jornada. E o temor real será pelo desconhecido. Pelo que vem pela frente. É diferente do caso de Sarah - e a meu ver está aí a beleza do que a obra de Alice Winocour propõe: enquanto a astronauta está em treinamento na Agência Espacial Europeia de Colônia, as dificuldades vividas pela filha, à distância, lhe atormentam. Como ela conseguirá se focar no rígido treinamento para sobreviver em Marte se a pequena está indo mal na escola? Se ela está com saudade? Se está magoada com a própria mãe, já que talvez considere a escolha pela profissão como uma espécie de abandono?

E não bastasse todas essas dores intermitentes que carrega - físicas e psicológicas -, Sarah ainda precisa conviver com o machismo do meio, simbolizado pelo astronauta americano Mike Shannon (Matt Dillon) que, ao apresentar a tripulante da missão, a elogia afirmando que será bom ter uma mulher no grupo, já que "dizem que as francesas sabem cozinhar bem". É claro que cada personagem possui muito mais camadas num tipo de rara complexidade, mas assistir as reações sutis e cheias de nuances de Green, enquanto evolui dentro do programa, é um pequeno deleite. As suas dores estão todas lá, em cada olhar melancólico, em cada choro solitário. E como externá-las? Com quem? A presença de uma pedagoga (a sempre ótima Sandra Hüller) pode ajudar. Ou piorar tudo, dependendo do ponto de vista, já que quanto mais a criança se aproxima da profissional e se acostuma com a ausência da mãe, mais distante ela fica.

Excelente em utilizar o próprio contexto da narrativa para discutir seus temas, o filme ainda aposta em metáforas meio óbvias, mas que ajudam a consolidar a proposta da obra. Um bom exemplo disso é a existência de uma ferida na perna de Sarah, ocorrida após um acidente em seu treinamento. Uma ferida que custa a cicatrizar - assim como custará a sarar a dor de sua escolha. Mas uma escolha que é vital para o futuro. Especialmente para o futuro de outras astronautas. Outras mulheres, que também queiram dar prioridade para outros aspectos de sua vida, que não apenas a maternidade. Além disso, é uma obra que explora bem o quão exaustivos são esses treinamentos. Algo que, muitas vezes, passa meio despercebido em algumas produções - e que, aqui, ajuda a reforçar a ideia de que as mulheres são tão capazes quanto os homens, na hora de superar desafios. Enfim, A Jornada é uma experiência com pouquíssima nave espacial ou "closes" de planetas imensos. E muita divagação sobre questões terrenas. E é justamente aí que ele acerta.

Nota: 8,0

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pitaquinho Musical - Placebo (Never Let Me Go)

Em uma conversa descompromissada com os amigos Bernardo e Henrique eu tentava explicar o sentimento gerado por The Prodigal, uma das canções do oitavo e mais recente trabalho do Placebo, Never Let Me Go: "é uma música mais Placebo que o Placebo, mas sem que pareça tanto assim com o Placebo". Na hora não sei se me fiz entender, mas isso era uma espécie de elogio à Brian Molko e companhia que, finalmente, deixavam para trás a péssima impressão deixada pelo pouco inspirado Loud Like Love, lançado num agora longínquo 2013. E, vamos combinar que, em tempos tão pesados e sombrios como os que vivemos - de ascensão da extrema direita, de pandemia, de guerra, de espionagem digital e de desastres climáticos, só pra ficar em alguns exemplos - faz todo o sentido os britânicos, que tanto souberam converter as dores do mundo em belas canções, lançarem um novo disco. E ainda oxigenarem ele com criativos instantes melódicos, mas sem deixar de lado a personalidade que foi a marca registrada de hits como Pure Morning, Every You Every Me, Special K e Nancy Boy. "Eu deixo pra este mundo uma canção esperançosa / Sem uma lágrima, vou me prolongar / Minhas dores curadas, minhas cicatrizes não mais ali / E cada batalha me fez forte" canta Molko na citada música que abre esse texto. Enfrentar a paranoia atual se faz também pela arte. E o Placebo fez e muito bem a sua parte.


quarta-feira, 20 de abril de 2022

Tesouros Cinéfilos - Los Angeles: Cidade Proibida (L.A. Confidential)

De: Curtis Hanson. Com Russel Crowe, Kevin Spacey, Guy Pearce, Kim Basinger, Danny DeVito e David Strathairn. Drama / Policial / Suspense, EUA, 1997, 138 minutos.

Policiais corruptos, redes de prostituição, imprensa sensacionalista, crimes misteriosos. Não é por acaso que Los Angeles: Cidade Proibida (L.A Confidential) parece uma grande homenagem aos filmes noir dos anos 50, já que os ingredientes estão todos lá. Dirigida por um Curtis Hanson no auge - é talvez o seu melhor trabalho - a trama é adaptada da obra de James Ellroy, tendo em seu DNA o espírito dos filmes de investigação típicos dos anos 90, daqueles que conduzem o espectador em uma espiral de eventos, muitos deles amparados em reviravoltas surpreendentes. Aqui, a cidade título é muito menos "angelical" do que se imagina que seja a capital mundial do cinema, de Hollywood. A cada possibilidade de diversão, de entretenimento, de encontro com estrelas há todo um submundo dominado por mafiosos, por tráfico, por investigadores de moral duvidosa, por assassinatos de difícil explicação - num tipo de ousadia meio coletiva, um atrevimento que se espalha pelas ruas, pelas calçadas, pelas frestas.

E é nesse complexo ecossistema que entrarão em rota de colisão três policiais que atuam na mesma divisão. O primeiro deles, o detetive Jack Vincennes (Kevin Spacey) é o sujeito corrompido que não tem vergonha de vender informações a céu aberto, sendo um de seus principais contatos um certo Sid Hudgens (Danny DeVito), proprietário do Hush Hush, uma espécie de pequeno tabloide que não resiste a uma capa sensacionalista (de preferência comprada). O segundo é o violento oficial Bud White (Russel Crowe), o tipo de sargento que não hesita em partir para a violência física na hora de obter informações de seus investigados. Entre os dois está o eticamente correto policial Edmund Exley (Guy Pearce) que, com seu cabelo sempre alinhadinho e seu óculos de nerd, tem a pretensão de moralizar uma instituição que parece atolada até o último fio de cabelo em negócios escusos. Isso sem contar a atuação tão violenta que beira o flerte com o fascismo.



E é justamente após uma ação policial truculenta contra um grupo de presos mexicanos, que o bicho pega. Após o acontecido sair na capa dos principais jornais - em mais um episódio desmoralizador para a polícia -, um dos envolvidos no incidente, no caso o policial prestes a se aposentar Dick Stensland (Graham Beckel), acaba morto em um bar no centro da cidade, ao lado de outros clientes, além de garçons e o gerente do local. Com poucas informações, o trio de investigadores tentará, cada um a sua maneira, obter as pistas que possam servir para que o quebra-cabeças possa ser montado. A chave para elucidar o mistério pode estar na elegante Lynn Bracken (Kim Basinger), que trabalha para uma rede de prostituição do submundo, que as converte em sósias de estrelas de Hollywood. Será por meio de Lynn que White chegará a um dos cabeças da rede de operação, um certo Pierce Patchett (David Strathairn), um investidor multimilionário que parece esconder uma série de segredos.

Sim, parece complexo. E talvez seja um pouco. São muitos personagens, idas e vindas, pistas sendo disponibilizadas aos poucos. Mas não deixa de ser absurdamente saboroso conferir um grupo de atores tão talentoso, destrinchando um roteiro tão afiado e tão repleto de diálogos inteligentes e virtuosos. É um deleite que é ampliado pelo charme noventista dos cenários - sejam os cubículos da delegacia, seja os pátios elegantes das casas -, que recriam o período de forma fervilhante, viva. Nesse sentido vale ficar atento aos detalhes, seja o nome de um filme que está em cartaz, seja um objeto cênico qualquer que possa dialogar de forma metafórica com aquilo que acompanhamos (como é o caso do arranha-céu absurdamente fálico que surge no decorrer da narrativa, em meio a mais uma das discussões envolvendo aqueles homens tão masculinizados). Talvez não fosse um fenômeno cultural chamado Titanic e esse clássico moderno teria tido mais "sorte" no Oscar de 1998. Restaram os prêmios de Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante (para Basinger). O que não chega a ser pouco.


terça-feira, 19 de abril de 2022

Na Espera - Elvis (Filme)

Preciso confessar a vocês: o trailer de Elvis (Elvis) me deixou totalmente empolgado. Sim, eu sei que muitas vezes o trailer é pra isso mesmo, mas em se tratando da filmografia do diretor Baz Luhrmann - de Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001) e O Grande Gatsby (2013) - é possível esperar por uma experiência ainda mais fervilhante quando o assunto é o Rei do Rock. E acho que dá pra afirmar sem medo de errar que estava faltando um filme desse tamanho, que honrasse o legado do morador mais famoso da cidade de Tupelo, no Mississipi. Para os fãs da obra musical de Presley, a jornada será, claramente, um prato cheio. E pra quem curte grandes cinebiografias, também.



Com lançamento previsto, inicialmente, para o dia 14 de julho de 2022, o filme contará a história de Elvis (interpretado por Austin Butler) desde a sua infância como um completo desconhecido, passando pelo estrelato, até chegar ao seu precoce ocaso. Como uma espécie de antagonista/rival, o empresário Tom Parker (Tom Hanks) será o narrador da trama, juntando as peças dentro dos contextos histórico, político e cultural que incluem a jornada do astro na Terra. O trailer, como já disse, empolga, havendo uma grande chance de indicações ao Oscar, especialmente nas categorias técnicas. Claro, ainda é cedo. Mas, por aqui, estamos Na Espera!