terça-feira, 31 de julho de 2018

Novidades em DVD - Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

De Martin McDonagh. Com Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell e Peter Dinklage. Comédia dramática, EUA / Reino Unidos, 2017, 115 minutos.

Até a revelação da vitória de A Forma da Água na principal categoria do Oscar desse ano, muitos espectadores acreditavam que Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) poderia ser o grande campeão da noite. E, se fosse, também não seria nenhuma surpresa, já que se trata de um filmaço que, recém-lançado em DVD, merece uma revisão. A trama nos joga para uma pequena cidade no interior do Missouri, onde uma mãe que perdeu a filha brutalmente estuprada e assassinada está inconformada com a ineficácia da polícia local - que não tem uma pista sequer para a resolução do caso. A mãe em questão é Mildred Hayes (Frances McDormand, em papel que lhe rendeu a estatueta dourada na categoria Melhor Atriz), que decide chamar a atenção das autoridades locais alugando três outdoors dispostos em uma estrada de pouco uso, nos arredores da cidade.

Nos anúncios estarão três frases provocativas, remetidas diretamente ao delegado Willoughby (Woody Harrelson, que foi indicado ao Oscar pelo papel), ressaltando o fato de ninguém ainda ter sido preso, com o crime tendo ocorrido há sete meses. Com um roteiro absolutamente original - escrito pelo também diretor Martin McDonagh (Na Mira do Chefe) - a obra bebe na fonte dos filmes dos Irmãos Coen (Fargo) para contar uma história cheia de idas e vindas, com excelente trilha sonora, com ótimas surpresas e recheadas por comentários sociais bem-humorados, debochados e nada sutis. Mildred está definitivamente furiosa com o caso e não hesitará em esbravejar, confrontar autoridades e até agredir pessoas, se assim for necessário, para tentar dar alguma visibilidade para a questão. Com o apoio da mídia, transformará também a vida de Willoughby que, próximo da morte por conta de um câncer pancreático terminal, se esforçará para atender o desejo de uma mãe desesperada (e também arrependida por certos atos, como veremos).



É um embate grandioso e absolutamente prazeroso de se assistir. E, nesse contexto, um dos maiores méritos da película é não transformar os personagens em simples "caixinhas prontas", em que os conceitos de mal e bem estão já pré-estabelecidos. Mildred é a mãe desesperada, mas não é a mãe desesperada padrão. Em cenas de flashback assistimos a brigas com a filha que mais tarde seria morta - o que faz com que Três Anúncios escape da promoção do choro fácil como seu grande trunfo. Já o carismático Willoughby tampouco é um mau sujeito e parece genuinamente empenhado (ainda que isto ocorra em um ritmo mais "provinciano", na busca por alguma pista) no caso. Nesse sentido, não há lado bom ou ruim na história. Sim, alguns integrantes da polícia local são obviamente preconceituosos (e o personagem de Sam Rockwell, que orgulharia qualquer votante do Bolsonaro, não nos deixa nunca esquecer disso). Mas mesmo ele possui um arco dramático "redentor" após tantas derrotas na vida, tendo seu comportamento explicado, ao menos em partes, pela relação edipiana com a mãe - e com a dificuldade em cortar o "cordão umbilical".

Além das interpretações inesquecíveis - Rockwell, diga-se, faturou a estatueta na categoria Ator Coadjuvante pela sua caracterização complexa, furiosa e cheia de nuances -, das personagens e do roteiro intrincado, a obra ainda possui uma verdadeira coleção de sequências memoráveis. Como esquecer, por exemplo, da cena em que Mildred e Willoughby discutem, até o momento em que o detetive é acometido por um "problema" decorrente de sua doença? E a imperdível sequência em que Mildred confronta o padre que lhes vêm visitar com o objetivo de lhe demover da ideia da continuidade dos anúncios, lembrando-o a ele o sem fim de casos de pedofilia envolvendo a Igreja? A propósito disso, a película também passa raspando por diversos temas caros à modernidade, como violência contra a mulher, racismo e outros - e não é por acaso que a chegada de um novo delegado à cidade, no terço final, rende algumas das mais catárticas (e divertidas) cenas. Violento, sarcástico e levemente perturbador, o filme ainda deixa para o espectador a "decisão" sobre os acontecimentos futuros, após o início dos créditos finais.

Nota: 9,0



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Tesouros Cinéfilos - O Sorriso de Mona Lisa (Mona Lisa Smile)

De: Mike Newell. Com Julia Roberts, Kirsten Dunst, Julia Stiles, Maggie Gyllenhaal e Marcia Gay Harden. Comédia dramática / Romance, EUA, 2003, 117 minutos.

De Ao Mestre Com Carinho (1967) a Sociedade dos Poetas Mortos (1989) não foram poucos os filmes que tomaram por base a história de professores com idéias mais progressistas tendo de conviver com ambientes (e alunos) mais conservadores. No caso do belo O Sorriso de Mona Lisa (Mona Lisa Smile) a trama nos joga para o ano de 1953, onde Julia Roberts dá vida a professora Katharine Watson que, recém-graduada, consegue uma vaga para lecionar a disciplina de História da Arte no prestigiado colégio Wellesley. Do estranhamento inicial com o comportamento absolutamente padronizado das estudantes até a tentativa de modificar o modelo estabelecido - com a mulher destinada a casar e ter filhos - Katharine buscará superar a desconfiança inicial de todos (dos diretores da escola às alunas) para tentar fazer com que elas percebam que podem fazer mais do que apenas "esperar o marido com um sorriso no rosto e com a janta pronta às 17h".

Sim, é daquele tipo de filme que deixa as famílias de bem, conservadoras e votantes do Bolsonaro de cabelos em pé mas que, 15 anos depois de lançado, ainda segue tendo um debate mais do que necessário - especialmente em um cenário em que, pasmem, ainda parece não haver um pleno entendimento da importância das discussões sobre o respeito a igualdade de gêneros. Entre as alunas de Katharine há aquelas que estão felizes com o casamento que se aproxima - caso de Betty (Kirsten Dunst) - e há aquelas que estão em dúvidas a respeito do futuro, como é o caso de Joan (Julia Stiles) que, a despeito de amar o noivo Tommy (Topher Grace), parece sonhar secretamente com uma faculdade na área de Direito. Aliás, é um filme sobre um período da vida importante para qualquer pessoa, cheio de dúvidas e de inseguranças que, em 1953, parecem ainda maiores, especialmente para jovens na casa dos 16 ou 17 anos vivendo em meio a um contexto antiquado, anacrônico, retrógrado.



Ainda que erga claramente a sua "bandeira" o filme do diretor Mike Newel (Quatro Casamentos e Um Funeral) sempre o faz com elegância, jamais tentando esfregar na cara dos espectadores os seus objetivos ou jamais exigindo que aquilo que ele sugere seja lei. Por exemplo, em uma das mais tocantes sequências da película, Katharine tem uma longa discussão com Joan, que está disposta a largar a oportunidade de seguir para a faculdade em Yale para realizar o sonho de ser esposa e mãe. Ela garante que, SIM, aquele é o sonho dela, restando para Katharine (e também para o espectador que acompanha muito de perto a sua jornada) a compreensão da situação e o desejo de felicidades. Isto não impede o fato de Katharine tentar expôr, a muito custo, que ela pode ser as duas coisas se quiser - mãe e dona de casa e uma futura e bem-sucedida profissional da área jurídica. E esse é o grande esforço da obra!

Como não poderia deixar de ser, o elenco feminino está simplesmente maravilhoso - ele é completado pelas presenças magnéticas de Maggie Gyllenhaal (como uma jovem libertária), Ginnifer Goodwin (uma garota que sonha em encontrar o seu grande amor) e a "sumida" Marcia Gay Harden (que, interpretando uma amargurada e solitária professora, eleva a obra a um outro patamar). Mas o filme é todo de Julia Roberts que emociona em seu esforço, buscando o equilíbrio entre aquilo que prega e as idas e vindas relacionadas a sua vida pessoal - e a cena em que ela dá uma resposta "na lata" de Bill (Dominic West) sobre homens que "permitem" ou não que suas mulheres façam determinadas coisas, está entre as melhores. Como alegoria de um tempo em que as mulheres lutavam para conquistar mais direitos - mesmo o de estudar, em um ambiente tradicionalmente machista - O Sorriso de Monalisa, com a sua linda mistura de filme de arte (e da arte como metáfora para a desconstrução de idéias) com romance contemporâneo, segue sendo uma história não apenas atual, mas totalmente necessária.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Disco da Semana - Violins (A Era do Vacilo)

As épocas pelas quais passamos têm o poder de influenciar a produção artística de cada momento, sendo esta uma válvula de escape para expurgar sentimentos e conflitos de forma a proporcionar uma catarse que, coletiva ou individual, traz um efeito terapêutico para qualquer pessoa minimamente engajada ou atenta aos eventos que diariamente nos assolam. Golpes de Estado, perda de representatividade política e de direitos, retrocessos humanitários, intolerância, aumento da miséria e ausência de condições mínimas para a manutenção da dignidade dos mais necessitados, são apenas alguns exemplos das trevas a que nos encontramos atualmente submetidos. Para alguns artistas é simplesmente impossível se eximir, e a banda goiana Violins não deixou por menos, retornando à produção de álbuns com o emblemático - e genialmente batizado - A Era do Vacilo.

Se em 2007 o grupo capitaneado por Beto Cupertino já havia mostrado sua força ao abordar temas mais caros e pesados ao ouvinte no já clássico Tribunal Surdo, não é exatamente uma surpresa que nesta nova obra alguns assuntos em comum voltem a aparecer. A diferença crucial é como estes são abordados esteticamente: se naquele a aura era suja e distorcida com o vocal enterrado na mixagem, neste a produção é mais límpida e, embora as guitarras continuem presentes, a voz aparece com maior destaque, assim como as melodias - o que nos remete ao ótimo Direito de Ser Nada (2011), talvez o álbum mais pop do grupo. Em apenas 10 breves canções todas as qualidades apreciadas pelos fãs da banda estão presentes: refrões, quebras de andamento, pequenos truques eletrônicos que colorem as canções (cortesia do tecladista Pedro Saddi), e as letras sempre competentes de Cupertino.


As letras, por sinal, apostam na simplicidade sem cair no lugar comum dos temas tratados, como na faixa de abertura Brigas de Mão (Passei a ser alvo de brigas de mão / sequer tenho tempo de trabalhar mais / Isso é toda hora onde eu estiver) cuja melodia grudenta do refrão contrasta com as mudanças de andamento de suas demais partes. Deu Ruim Pra Gente é mais linear e conta com uma cozinha maravilhosa, com seu riff de baixo e uma bateria matadora (cortesias de Gustavo Vasquez - que também produz o disco - e Fred Valle, respectivamente). Herói Fabricado, o primeiro single, é uma porrada direcionada para a gente sabe bem quem, aquele tipo de figura que surge de tempos em tempos que, sob pretexto de defender os "homens de bem" e a "justiça", causa danos irreversíveis a toda uma sociedade. Um Homem ou um Amém e Plena Anhanguera talvez sejam as que mais lembrem o supracitado Tribunal Surdo em questão de letra e tema, com as melodias mais violinsianas do disco - e dois de seus pontos altos, diga-se de passagem. O potencial pop está muito bem representado nas faixas Gastura e Vidraças, e não será surpresa se você estiver cantarolando seus refrões por aí sem se dar conta. Água e Sal é talvez a faixa mais elaborada do disco, com muitos detalhes na produção e um clima desesperançoso (Somos assim mesmo a gente evoluiu bem mal / Fomos por acaso um pouco inconsequentes? / Não sei dizer, o que sobrou foi água e sal) que desemboca na bela melodia da melancólica faixa de encerramento voz-e-violão Cronômetros

Não há canções da amor aqui, a era do vacilo em que vivemos parece sufocar qualquer tentativa de olhar ao próximo, de ter empatia - o outro muitas vezes é visto como um inimigo. E quem disse que a Arte sempre tem que ser sobre coisas bonitas para ser bela? (E o que eu faço? Exponho como arte o que é feio, canta Cupertino em Desapareceu). Pegue um punhado de ótimas e criativas letras, envolva-as em melodias cantaroláveis e ofereça suas melhores características a ouvidos sedentos por uma canção que represente os seus anseios, compartilhando sua visão e espanto perante o mundo e pronto: você está acompanhado. Ao lançar uma obra ao vento o artista, mesmo sem saber, acaba por gerar uma frequência que nos conecta em algum sentido. E se isso pode ser lembrado por muito tempo como retrato de uma época que não queremos que jamais retorne, é um mérito maior ainda.

Nota 9,0

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Grandes Filmes Nacionais - Arábia

De: Affonso Uchoa e João Domans. Com Aristides de Souza, Murilo Caliari, Renata Cabral e Renan Rovida. Drama, Brasil, 2018, 95 minutos.

No Brasil pós Golpe, em que sujeitos engravatados decidem, dentro de gabinetes bem refrigerados, pela subtração de direitos trabalhistas há muito conquistados ou por reformas previdenciárias que agradam apenas a uma pequena parcela da sociedade, um filme como Arábia se torna ainda mais impactante. A obra dos diretores Affonso Uchoa e João Dumans, exibida nos últimos festivais de Rotterdam e San Sebastián (e premiado em Brasília), é uma verdadeira ode ao trabalhador comum - aquele sujeito fragilizado que anda pelos rincões do Brasil para oferecer a força física e que convive com a insegurança dos precários contratos de trabalho e com "patrões" que lhes sugam até a última gota de suor sem se preocuparem com qualquer tipo de reação daqueles que eles exploram. É uma obra dura, triste, áspera, desalentadora. E inacreditavelmente real e atual.

O filme começa com um longo preâmbulo em que somos apresentados a André (Murilo Caliari), jovem que vive em Ouro Preto e que é responsável por cuidar de seu irmão mais novo, que parece sofrer de severos problemas respiratórios. Quem lhe ajuda nessa tarefa é a sua tia, que trabalha como enfermeira no local, atendendo pessoas humildes. Em certo dia ela é chamada para socorrer o operário Cristiano (Aristides de Souza), que sofreu um acidente na fábrica em que trabalha como operador de máquinas. É no instante em que a tia de André pede que ele vá a casa do sujeito para pegar roupas e utensílios básicos, que há uma ruptura na trama: o rapaz encontra uma espécie de diário que contém as memórias da vida de Cristiano. É o momento em que a história volta alguns anos no tempo para que tomemos conhecimento do conteúdo do caderno. 



A narração em off feita pelo próprio Cristiano é realizada com um palpável tom de melancolia, trazendo à tona uma realidade de opressão que é a de muitos brasileiros - e que, se não estivesse registrada em papel, provavelmente jamais seria rememorada. Dos anos labutando para um grande produtor na colheita de laranjas, passando pelo serviço na construção civil, até chegar a tentativa de tocar a vida na fábrica, todos os eventos descritos no caderno lido por André tomam por base a relação da personagem central com o trabalho - e sobre como as desventuras na tentativa de ganhar a vida de forma honesta, indo de cidade em cidade, são acobertadas pela falta de esperança por dias melhores. Seus poucos momentos de felicidade - como na paixão cheia de inseguranças com a colega de trabalho Ana (Renata Cabral) - jamais conseguem ser celebrados em sua plenitude. Cristiano já esteve preso, está numa posição social mais vulnerável, não tem escolaridade e nem perspectivas. Mas tenta.

Ainda assim, é preciso que se diga que o filme jamais adota uma postura excessivamente autocomiserativa ou dramática - ainda que isso jamais surpreenderia, dada a temática explorada pela película. Ao contrário, nas vivências de Cristiano, os encontros com os amigos, as conversas, as trocas de experiências e as rodas de violão, todos momentos absolutamente verossimilhantes, parecem dar o ânimo necessário para, no dia seguinte, a vida seguir. Entre tantos momentos bonitos envolvendo a música, aquele em que um grupo de amigos canta junto Cowboy Fora da Lei, do Raul Seixas, talvez esteja entre os melhores. As citações a Noel Rosa, Dorival Caymmi e Renato Teixeira servem como o acompanhamento perfeito para este road movie meio torto e absurdamente naturalista, sobre o homem procurando seu lugar no mundo, onde se estabelecer, enfim, como viver. Não há soluções fáceis e, claro, o filme jamais procura isso. Mas a força da imagem - e, neste caso bastante específico, das palavras - torna este um dos melhores exemplares nacionais do ano.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Pérolas da Netflix - Newness (Newness)

De: Drake Doremus. Com Nicholas Hoult, Laia Costa e Danny Houston. Drama / Romance, EUA, 2018, 117 minutos.

"Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino - aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido." Essa frase atribuída ao escritor e filósofo Zygmunt Bauman - autor do livro Amor Líquido - não poderia ser mais adequada para resumir os eventos que assistimos ao ótimo (e surpreendente) Newness (Newness), disponível na Netflix. Ainda que o resumo disponível na plataforma de streaming pouco diga sobre o filme, o caso é que se trata de um verdadeiro manifesto sobre os relacionamentos na modernidade, onde importa menos qualquer tipo de compromisso e mais o hedonismo e a busca pelo satisfação pessoal e pela própria felicidade acima de tudo - ainda que isso signifique um sem fim de amores efêmeros e de muita frustração.

Quem já utilizou aplicativos de relacionamentos como Tinder ou Happn sabe que a oferta é grande (e a facilidade também). Mas como saber se aquela nova pessoa que estamos saindo será A PESSOA em nossas vidas? Bom, não há como saber a não ser conhecendo, tentando, reconhecendo equívocos e tentando novamente, até acertar (ou não). É exatamente este o caso de Martin (Nicholas Hoult) e Gabi (Laia Costa). Ele, um farmacêutico de 30 anos; ela uma estudante de biologia da mesma idade que trocou a Espanha pelos Estados Unidos. No primeiro encontro entre eles, ainda que estabelecidos os mais variados vínculos - eles conversam, bebem juntos, se divertem em uma boa, transam - uma triste (e moderna) constatação: a da necessidade de conhecer coisas novas, o tempo todo. Bom, se as ofertas são amplas e variadas e os jovens são bombardeados o tempo todo por uma grande quantidade de informações, não seria diferente com as relações.



O filme trata tudo da forma mais honesta (e eventualmente melancólica) possível. Há sim espaço para que se constate a importância de se ter alguém para dividir alegrias, dores e anseios, mas há também o desdobramento de um contexto em que jovens na casa dos "trinta e alguma coisa" parecem não saber muito bem o que pensar do futuro. Enquanto o melhor amigo de Martin já está casado, com filho e com uma vida a dois aparentemente sem novidades (e tediosa), este procura oxigenar o seu recém-iniciado namoro com Gabi com uma inesperada sugestão para um relacionamento aberto - que só funcionará se ambos forem sinceros um com o outro o tempo todo. Mas será que ambos estão confortáveis com isso? O que será o certo afinal? Os dilemas dos protagonistas, que querem experimentar, conhecer coisas novas e permanecer curiosos sobre o mundo (e sobre tudo) parecem ser os dilemas descritos por Bauman a respeito dos tempos líquidos que vivemos, em que nada parece duradouro.

Com mais perguntas do que respostas, a obra foge um pouco do convencional ao não oferecer soluções fáceis, nem julgar seus personagens por aquilo que estão fazendo - e que envolve a busca da felicidade acima de tudo (ainda que isso signifique acertos, erros e mágoas). Com excelentes caracterizações da dupla de protagonistas - o naturalismo impressiona -, a obra ainda aposta em sequências singelas e em frases de efeito capazes de arrebatar qualquer espectador, como no momento em que Gabi lembra Martin de que "amor é quando duas pessoas não desistem uma da outra". É nesse retrato da busca por romance em uma era tão tecnológica que Drake Doremus constrói uma película que dialoga diretamente com a Geração Y, escancarando o fato de que os tempos mudaram e que ninguém é obrigado a ficar para sempre com aquela pessoa que não se ama - por medo ou por qualquer outra convenção social. Certo ou errado? Diferente? O espectador decide.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Tesouros Cinéfilos - Simplesmente Amor (Love Actually)

De: Richard Curtis. Com Hugh Grant, Liam Neeson, Emma Thompson, Laura Linney, Colin Firth, Keira Knightley e Bill Nighy. Comédia romântica, França / EUA / Reino Unido / Irlanda, 2003, 130 minutos.

No mundo em que vivemos - tão cheio de ódio, de intolerância e de preconceito - poder assistir a um filme como Simplesmente Amor (Love Actually) é um verdadeiro alento. É filme para ver e rever sempre que quiser (ou sempre que for necessário sorrir descompromissadamente). A trama consiste-se em várias histórias acontecendo ao mesmo tempo e todas elas de alguma forma tem a ver com o amor, a paixão ou as dores e alegrias decorrentes de relacionamentos os mais variados. E como se não bastasse a dinâmica bastante peculiar da obra, o diretor Richard Curtis reuniu um elenco poucas vezes repetido e que conta com nomes de peso como Hugh Grant, Liam Neeson, Emma Thompson, Laura Linney, Colin Firth, Alan Rickman, Keira Knightley, Chiwetel Ejiofor, Bill Nighy e Billy Bob Thornton - além de um Andrew Lincoln (The Walking Dead) em começo de carreira e Rodrigo Santoro. Ufa!

Mesclando histórias mais engraçadas - como a que envolve o decadente cantor de rock Blly Mack (Nighy), que sonha em emplacar um grande hit de Natal - com outras mais melancólicas (e tocantes) - como a que envolve o viúvo Daniel (Neeson), que tenta de todas formas auxiliar o seu enteado de apenas 11 anos a se aproximar de seu "grande amor" - a película constrói um verdadeiro panorama dos relacionamentos em histórias que, de alguma forma se entrelaçam, e que, no fim das contas, dizem respeito a cada um de nós. Quem nunca se apaixonou na escola por aquela garotinha tão especial? Ou viu o amor da sua vida se tornar namorada (ou esposa) do seu melhor amigo? Quem nunca teve alguma insegurança na hora de aproximar daquela pessoa que faz o coração bater num ritmo meio diferente, enchendo nosso estômago de "borboletas"? É ao humanizar todas as suas personagens - tão cheias de anseios, de medos, de incertezas - que Curtis acerta em cheio o coração do espectador, que se identifica com várias situações.



Na trama sai de cena o Hugh Grant permanentemente galanteador para surgir na tela um primeiro-ministro inseguro e que tem dificuldade de lidar com a paixão por uma empregada. O mesmo vale para o escritor Jamie (Firth), que sente um amor incontrolável (e quase improvável) pela portuguesa Aurélia (Lúcia Moniz). O amor não escolhe classe social, raça, tamanho, gênero (aliás, única ausência sentida na película é a o do romance homossexual, o que certamente não iria faltar se a obra tivesse sido feita nos dias de hoje). O amor apenas acontece - imprevisível, inexplicável e é isso que a película se empenha em mostrar. Nesse sentido não são poucas as sequências inesquecíveis, especialmente no terço final, quando ocorre um grande encontro no aeroporto - e a opção por utilizar cenas reais das pessoas se encontrando em tal ambiente não poderia ser mais tocante.

Com trilha sonora imperdível - de nomes como Dido, Maroon 5, Norah Jones, The Calling e Joni Mitchell - a película ainda utiliza as sequências com Nighy para transformar a música Love Is All Around do Wet Wet Wet em uma nova obra - toda esquisita na métrica, mas inacreditavelmente envolvente. (e assistir ao ator claramente se divertindo como o debochado roqueiro, certamente é algo que rende boas risadas). Há um jargão que diz que comédias românticas são todas iguais e que a gente sempre sabe o que vai acontecer no final. Menos com Simplesmente Amor. Tudo é diferente, nada lógico, inexorável. Assim como uma paixão que vem e vai e dura uma temporada, as pouco mais de duas horas passam voando e, quando percebemos, já estamos apaixonados. Um achado.

sábado, 21 de julho de 2018

Na Espera - Glass (Filme)

Que os filmes de M. Night Shyamalan são sempre muito aguardados pelos fãs, ninguém pode negar - e agora que ele resolveu misturar as tramas de Corpo Fechado (2000) e Fragmentado (2017), a expectativa é ainda maior. Quem assistiu a película lançada no ano passado e que tinha James McAvoy como um sujeito com 23 personalidades distintas percebeu, ao final do filme, a surpreendente presença de David Dunn (Bruce Willis), o que indicava a possibilidade de que os dois universos pudessem ser juntados em uma produção futura. E isso não apenas ocorrerá, como a obra ainda contará com a presença de Samuel L. Jackson que revive o papel de Elijah Price, o Mr. Glass do original.



O trailer, levemente sombrio, não revela muito e dá a entender que a trama é conduzida pela figura de Glass, que dá as cartas no jogo de gato e rato envolvendo o único sobrevivente do "famoso" acidente de trem mostrado em Corpo Fechado e a criatura super-humana conhecida como Fera, de Fragmentado. Como em quase todos os filmes do Shyamalan, além do suspense natural, parece haver espaço para o humor - afinal de contas, se trata de uma obra baseada em "quadrinhos". Bom, enquanto o dia 18 de janeiro de 2019 - data do lançamento oficial nos cinemas nacionais - não chega, a gente confere o trailer. Por aqui, já estamos Na Espera!

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Tesouros Cinéfilos - Rebobine Por Favor (Be Kind Rewind)

De: Michel Gondry. Com Mos Def, Jack Black, Mia Farrow, Melonie Diaz, Danny Glover e Sigourney Weaver. Comédia, França / EUA, 2008, 111 minutos.

Não fosse um filme do diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), talvez Rebobine Por Favor (Be Kind Rewind) fosse apenas uma comediazinha boba da Sessão da Tarde sobre dois caras vivendo as mais loucas aventuras dentro de uma locadora de vídeos. Mas, não. A obra é uma verdadeira homenagem a todos aqueles que fazem cinema e que se esforçam para levar para dentro das nossas casas toda a "magia da sétima arte" (sim, parece meio piegas e clichê, mas é exatamente isso). Na trama, Mike (Mos Def) é encarregado pelo seu chefe Elroy Fletcher (Danny Glover) de cuidar de sua antiga locadora de filmes VHS, enquanto ele viaja. Entre o atendimento a um ou outro cliente, Mike recebe a visita de seu melhor amigo Jerry (Jack Black), um veterano de guerra que está decidido a sabotar o sistema de energia elétrica de sua cidade pois, teorias da conspiração a parte, ele acredita que a usina possa estar "danificando" seu cérebro.

Só que após a tentativa de burlar o sistema, Jerry leva um choque que o deixa magnetizado. E, como consequência, a alta carga de energia em seu corpo acaba danificando TODAS as fitas da locadora que, em um movimento inverso, se desmagnetizam. Mas como seguir atendendo a demanda dos clientes, com todos os filmes estragados? Refazendo-os, claro! E de forma caseira, com aquele charme retrô, dos filmes amadores. De Ghostbusters, passando por Robocop, até chegar a Conduzindo Miss Daisy, a dupla vai refazendo os filmes um a um, conforme a demanda aumenta - e a desconfiança inicial diminui. Absolutamente instigados pelos novos, curiosos e "suecados" títulos, os espectadores passam a fazer fila na frente da locadora, anotando pedidos para que os filmes de sua preferência sejam refeitos. Sim, absolutamente nonsense! E lindamente saboroso!



Assistir Black e Def refazendo cada filme - com a ajuda da jovem Alma (Melonie Diaz) -, com recursos totalmente amadores e "efeitos especiais" discutíveis, transforma a obra em um exercício metalinguístico dos mais singelos, engraçados e inesquecíveis. Reconhecendo o esforço da dupla, os clientes não se importam com a precariedade. Eles querem ver filmes! Consumir aquilo que tanto amam e que é feito com coração e alma. E não é por acaso que, quando a fiscalização bate na porta da locadora alegando problemas relacionados a direitos autorais, a comunidade se une para fazer uma película totalmente original - um documentário sobre o pianista de jazz Fats Waller. A propósito, a presença de Sigourney Weaver como a chefe de investigação do caso não deixa de também ser uma ótima sacada (já que a série Alien certamente não seria excluída das novas versões)!

Ainda que se trate de uma divertida brincadeira sobre o fazer cinema, o filme traz outras "rimas" interessantes - como o fato de Mia Farrow ser uma das principais clientes (ela mesma que já sonhou com astros e estrelas saltando da tela de cinema no inesquecível A Rosa Púrpura do Cairo). Da mesma forma, a paranoia americana - uma das principais matérias-primas para filmes de ação em Hollywood - é representada pelo personagem de Black, que acredita piamente na "ameaça comunista". Recheado de pequenos grandes momentos - como não gargalhar em uma cena de beijo que não dá muito certo? - Rebobine Por Favor ainda reserva para a cena final uma das mais tocantes sequências já vistas a respeito do prazer de se assistir um filme pronto. É Hollywood agradecendo (por nós) a estes verdadeiros heróis que se empenham em levar diversão, susto e emoção para as nossas casas, todos os dias.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Cinema - 50 São os Novos 30 (Marie-Francine)

De: Valérie Lemercier. Com Valérie Lemercier, Patrick Timsit, Hélène Vincent e Philippe Laudenbach. Comédia, França, 2017, 95 minutos.

A ideia para o filme 50 São os Novos 30 (Marie-Francine) é ótima - mas é uma pena que ela seja tão mal executada. Na trama a Marie-Francine do título original é uma mulher na casa dos 50 anos (Valérie Lemercier), que acaba de se separar do marido - que a trocou por uma mulher bem mais nova - e de perder o seu emprego em um laboratório de biotecnologia. Como se já não bastasse o abalo natural provocado pela situação, ela ainda passará por dificuldades para conseguir um fiador que lhe possibilite o aluguel de um apartamento, após o divórcio. O resultado? Ela volta a morar, temporariamente, na casa dos pais. Como forma de tentar tocar a vida, ela abre uma loja que vende cigarros eletrônicos. Será no local que ela atrairá a atenção do chef de cozinha Miguel (Patrick Timsit), que trabalha em um restaurante da vizinhança e que, surpresa, após se separar, vive a mesma situação.

Sim, a ideia é boa e rende algumas divertidas piadas - especialmente no começo, com os pais tratando a protagonista de forma infantilizada, com excesso de zelo, como se esta fosse uma criança (a cena do pai de Marie-Francine desesperado, procurando-a dentro do mercado, é uma das melhores)! Da mesma forma, também merece destaque a opção de Lemercier (que também dirige) em não apostar no clichê da mulher madura que, após uma separação, rejuvenesce, reaparecendo muito mais bonita que no passado. Ao contrário, Marie-Francine é uma figura "naturalmente" desleixada, inegavelmente depressiva - como constatam alguns de seus clientes -, e invariavelmente debochada. O que resulta em algumas divertidas sequências (e diálogos), como na parte em que os pais de Marie-Francine tentam lhe arrumar um pretendente. "Um gay, um depressivo e um alcoólatra", constata uma enfadada protagonista, diante das opções oferecidas.



Só que a obra peca ao apostar em alguns arcos dramáticos secundários que jamais se aprofundam. Por exemplo, no começo da película, uma das filhas de Francine faz, para ela, um perfil em uma rede social de relacionamento (com direito a foto feita no parque e tudo). Talvez fosse divertido acompanhar os possíveis pretendentes que pudessem surgir dessa ideia - mas, infelizmente, ela é inexplicavelmente abandonada depois. A pressa da mesma filha em casar, ter filhos e constituir família com o seu "casinho" - mesmo aos 16 anos - também é esquecida depois, assim como a própria filha, que quase some do filme. Outras subtramas, como o caso de traição envolvendo a mãe da protagonista ou mesmo a conturbada relação de Miguel com seu chefe, jamais ganham alguma profundidade, que talvez fizesse com que nos importássemos mais com aqueles que vemos na tela. Ocorre que, assim, a obra se torna meio nonsense e esquisitamente inverossímil - mesmo para uma comédia.

Mas, vá lá, voltamos a dizer: não é ruim. Há boas caracterizações - a veterana Hélène Vincent está absolutamente impagável como a mãe de Francine (que se comporta quase como se fosse a sua filha). Já personagens secundários como a sous chef Nadege (Nadege Beausson-Diagne) roubam a cena, com comentários sociais divertidos e repletos de carisma. No fim das contas é uma película sobre um dos maiores problemas dos adultos de meia-idade - mas que, por optar por um tratamento mais cômico, deixa de lado as naturais angústias, medos e inseguranças que poderiam aflorar em tal situação. E, nesse sentido, por mais que Miguel tenha alguma carisma e Francine seja desajeitadamente engraçada, o caso é que o tempo todo eles parecem muito mais dois amigos, do que dois amantes. O que também compromete o resultado final - já que, em comédias românticas, o desejo do público em ver os protagonistas juntos é aquilo que faz a experiência valer a pena.

Nota: 6,0

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Cinema - Hannah (Hannah)

De: Andrea Pallaoro. Com Charlotte Rampling, André Wilms e Stéphanie Van Vyve. Drama, França / Bélgica / Itália, 2018, 95 minutos.

Filme propositalmente denso, arrastado, lento, cheio de silêncios e de sutilezas, Hannah (Hannah) é o tipo de obra que testa a paciência do espectador até o limite - mas que certamente compensa aqueles que se "aventuram" por ela. Película nada fácil de ser degustada tem, de quebra, uma temática absolutamente dolorosa: a da solidão na terceira idade. Ou mesmo a sensação de isolamento neste período da vida - ainda que haja "companhias". A narrativa nos apresenta à Hannah do título (Charlote Rampling, em papel que lhe deu o prêmio de atriz, no último Festival de Veneza). Aos 72 anos, Hannah mora sozinha em um apartamento recebendo, eventualmente, a visita de seu marido - que está preso em circunstâncias que só ficarão mais claras no decorrer da projeção. Ou ficarão "claras" em partes - um dos grandes charmes da obra, diga-se.

Como forma de afastar o tédio em sua repetitiva rotina, Hannah trabalha como faxineira na casa de uma vizinha, participa de uma espécie de "grupo de apoio" (em que também ocorrem aulas de teatro e de desinibição) e, ocasionalmente, pratica natação em um clube da cidade. Em todas estas situações, a protagonista está acompanhada de outras pessoas, desconhecidas. Mas, como já dizia o filósofo Hermógenes "a pior solidão é aquela que se sente quando se está acompanhado". Nesse sentido, a única companhia real da idosa é o seu cachorro que, a bem da verdade, parece tão infeliz quanto ela. Hannah está sozinha. E se sente muito sozinha. As (poucas) tentativas de aproximação com o filho se mostrarão inócuas, já que ele prefere que a mãe mantenha distância. Condição que adicionará um componente dramático a trama. Além de aumentar a nossa curiosidade em relação aos segredos do passado, guardados por esta família.



Na intenção de tornar a experiência ainda mais sufocante, o diretor Andrea Pallaoro aposta na força do olhar e nos gestos (quase sempre contidos), como forma de manifestar sentimentos - o que Rampling faz de forma soberba, diga-se. Como numa espécie de contraponto a uma obra quase sem diálogos, os únicos momentos em que as pessoas conversam são os que envolvem as encenações para uma suposta peça de teatro ou mesmo em discussões envolvendo terceiros (como na sequência em que um casal briga dentro do metrô). Assim como os contratos sociais que nos obrigam a nos comportar desta ou daquela maneira, ou mesmo a fingir situações, também a obra parece, em alguns momentos, como uma grande encenação em que acompanhamos a vida de uma senhora devastada por anos de sofrimentos. E que tenta, ao menos de forma aparente, suportar isso. Ainda que, internamente, esteja calejada de forma quase definitiva.

Hábil em utilizar o poder da imagem como forma de sugerir ideias ou pensamentos, o diretor abusa de enquadramentos oblíquos que, captando apenas uma parte do corpo de Hannah (ou apenas a metade deste) reforçam a sua sensação de "vida pela metade" ou de "incompletude". Da mesma forma, a fotografia sempre acinzentada e os figurinos sombrios, funcionam como a metáfora perfeita para evocar a tristeza permanente da protagonista - qualquer que seja a atividade que esta realiza. Também a grande quantidade de espelhos e janelas que mostram o reflexo da idosa, parecem reforçar o fato de que, em meio a multidão, ela é apenas mais uma mulher de rosto triste, expressão melancólica, com uma vida que não diz respeito a mais ninguém. Afinal de contas, em um mundo tão individualista como o que vivemos, é assim que somos e pouco nos importamos com as angústias, sofrimentos ou anseios dos outros. "Uma velha de 72 anos? Que viva a sua pobre vida sem atrapalhar os outros."


Absolutamente inesquecível em sua caracterização, Rampling, assim como já fez tantas vezes, dá uma verdadeira aula. O filme é todo dela, que aparece em praticamente TODAS as cenas da película - e se nos assombramos já na primeira cena, em que ela realiza um exercício que lhe faz saltar as veias da testa, não é por acaso. Hannah é a baleia que aparece no filme, encalhada na beira da praia. É gigante, imponente, está viva mas carece de motivação para continuar. Se para nós assistir a rotina inacreditavelmente letárgica da protagonista já se configura como um verdadeiro martírio, imagina viver tal vida. Imagina essa solidão. Essa solidão que não tem cura, enquanto o mundo segue, enquanto o metrô anda e o mundo acontece (e nós sofremos sozinhos com nossos problemas). É sobre isso esse filme tão propositalmente parado, tão vagaroso, tão tedioso. E tão surpreendente ao mesmo tempo.

Nota: 8,5

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - O Banheiro do Papa (Uruguai)

De: Henrique Fernandes e Cesar Charlone. Com César Trancoso, Virgínia Mendez e Virgínia Ruiz. Comédia Dramática, Uruguai / Brasil / França, 2007, 94 minutos.

O filme O Banheiro do Papa (El Baño Del Papa) não poderia ter um argumento melhor: toma por base um evento ocorrido no pequeno município de Melo - na fronteira do Uruguai com o Brasil - no ano de 1988, para traçar um verdadeiro painel social a respeito da luta diária de um povo para garantir o atendimento de suas necessidades mais básicas, ao passo que utiliza a crença na religião como combustível (e metáfora) para a manutenção da esperança por dias melhores. Na trama, a comunidade de Melo - cidadezinha que convive com altos índices de pobreza - está mobilizada: as notícias dão conta de que a comitiva do Papa João Paulo II fará uma parada no local para a celebração de uma missa. Para os moradores, esta parece ser a oportunidade de utilizar o "turismo religioso" como uma forma de ganhar algum dinheiro. Aguardam mais de 30 mil visitantes somente do Brasil.

Enquanto boa parte dos moradores se organiza, nos dias que antecedem ao evento, para a instalação de barraquinhas para a comercialização de chouriços, bolos, pasteis e massas fritas - ou mesmo outros souvenires, como bandeirinhas, pequenas medalhas e outros badulaques -, o contrabandista Beto (César Trancoso) tem a ideia de instalar, no pátio de sua casa, um banheiro. "Depois de se embucharem as pessoas precisarão se aliviar", argumenta com a esposa Carmen (Virgínia Mendez) que, incrédula, passará a acompanhar a verdadeira odisseia do sujeito para a obtenção de todo o material que lhe possibilitará concretizar a obra. Beto vive de pequenos trambiques trazendo, de bicicleta - e percorrendo cerca de 60 quilômetros diários - produtos do Brasil para o Uruguai, onde entrega armazéns em troca de alguns trocados. A rotina claramente sofrida e a oportunidade que representará a vinda do Papa o fará sonhar. Aliás, todos sonharão, conforme os dias se aproximam.



O filme é absolutamente saboroso ao olhar com total ternura para as personagens. Mesmo com as dificuldades que envolvem o cruzamento da fronteira todos os dias (e a perseguição por parte dos aduaneiros que podem lhe confiscar os produtos), ou mesmo as doenças decorrentes do esforço repetitivo, Beto mantém o otimismo e o sorriso no rosto - e que, no fim das contas, é o otimismo que todos nós carregamos. Longe de ser um sujeito correto - Beto é contrabandista, beberrão e eventualmente reage com violência - o protagonista é uma figura complexa, que busca o melhor pra família a todo o custo e que, raramente, se entrega para as frustrações. A filha Silvia (Virginia Ruiz) sonha em ser radialista e é para isso que a mãe Carmen guarda todas as economias. Mas como conseguir guardar algum dinheiro em um ambiente com tanta pobreza, vulnerabilidade social e necessidade como aquele em que todos vivem? Beto quer comprar uma moto pra melhorar o contrabando - e que representa a sobrevivência de todos. Como conciliar isso?

Está nos livros de história o fato de que a vinda do Papa a Melo não foi aquilo que todos esperavam - falava-se em mais de 60 mil pessoas e, contando os próprios moradores do município, o público não teria chegado a oito mil peregrinos. A Prefeitura e suas obras, a mídia e o sensacionalismo, todos contribuíram para um clima de euforia meio exagerado em meio a aridez palpável e a pobreza extrema do local que, do ponto de vista econômico, definitivamente não se altera. Mas ao mostrar a união das pessoas nos pequenos gestos - como naquele em que o vizinho de Beto garante que fará o trajeto até o Brasil de bicicleta por ele, se ele não puder ou ao sorriso dado pela filha durante os "testes" para o uso do banheiro (em uma das melhores sequências) -, a dupla de diretores Enrique Fernandes e Cesar Charlone constrói uma obra singela, divertida, melancólica, pulsante, sobre o poder da crença, sobre a amizade e sobre outros valores (para além dos econômicos).

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Pérolas da Netflix - Anon (Anon)

De Andrew Niccol. Com Clive Owen, Amanda Seyfried e Colm Feore. Suspense / Ficção Científica, EUA, 2018, 100 minutos.

De Gattaca - Experiência Genética (1997) a O Preço do Amanhã (2011), os filmes do diretor Andrew Niccol costumam parecer versões estendidas dos episódios da série Black Mirror. Nesse sentido, o clima de distopia futurista em um mundo tecnológico e individualista também aparece em Anon (Anon), uma de suas mais recentes obras, que está disponível na Netflix. O que para quem gosta de ficção científica com boas doses de suspense, se configura em um prato cheio. A trama nos joga para um futuro onde não existem mais crimes que não sejam solucionados, efeito de um sistema de vigilância extrema que utiliza imagens geradas por uma espécie de chip ou aplicativo implantado nos olhos das pessoas (conhecido como Olho da Mente) - o que permite a gravação e a exibição futura de tudo aquilo que é falado, visto e ouvido por cada indivíduo (falando em Black Mirror, expediente semelhante foi utilizado no episódio The Entire History Of You, da primeira temporada).

Só que um hacker que ataca de assassino em série descobre como burlar o sistema, alterando o campo de visão de suas vítimas para o seu próprio ponto de vista, o que possibilita que ele tenha a sua identidade preservada (parece meio complexo, mas assistindo o filme não é tão complicado entender). É aí que entra em cena o detetive Sal Friedland (Clive Owen), que tentará uma aproximação com uma das principais suspeitas, a misteriosa Anon do título (vivida por Amanda Seyfried). O jogo de gato e rato envolverá encontros com o objetivo de identificar as reais intenções da jovem, que subverteu o sistema e vive no anonimato, recebendo dinheiro para deletar imagens "indesejadas" de seus clientes (seja de crimes cometidos, de uso de drogas, de encontros com prostitutas ou outros). Só que o que Sal pretende descobrir os motivos pelos quais a hacker acaba, invariavelmente, assassinando os seus clientes/vítimas - o que representará um risco, inegavelmente.



Niccol, como é de praxe nos filmes de ficção científica, transforma a cidade - e mesmo seus prédios e apartamentos - em uma metrópole fria e acinzentada (condição que reforça não apenas a sensação de isolamento, mas também a tensão vivida por aqueles que assistimos). Tudo é muito insípido, limpinho, higienizado, não havendo espaço para comportamentos ambíguos, para roupas extravagantes, ou para qualquer tipo de "cor" nesse mundo em que todos sabem o que cada um faz - como se vivêssemos numa versão ampliada de um mundo em que a vigilância extrema e as câmeras de segurança funcionam como parte integrante de nossas vidas. Tudo parece ser mecânico, do figurino econômico (e acinzentado), passando pelas existências vazias, até chegar ao sexo protocolar, o mundo em que o Olho da Mente existe (com seus dados gerados de forma permanente e atualizados), não permitirá qualquer subversão, insubordinação ou desobediência.

Ator talentoso de nossa geração - ainda que meio esquecido - Owen se esforça para entregar uma caracterização de um homem correto, mas que guarda segredos do passado que lhe devastam (e que envolvem, só pra não fugir do clichê, a morte do filho). Já Amanda é a boa surpresa da película, ao aparecer como uma mulher misteriosa, que nos deixa em dúvida o tempo inteiro sobre o seu caráter vilanesco ou não. Não é um filme que vai mudar o mundo ou que será lembrado como uma das grandes ficções científicas da atualidade - ainda que haja boas surpresas no processo. Mas para quem busca uma obra escapista - e que passa de raspão no debate a respeito dessa nossa mania tão moderna de observar o outro ou do voyeurismo (seja no Instagram ou em outras redes sociais) -, esse se torna o filme certo.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Espaço do Leitor - Sexy Por Acidente (por Tati Turatti)

Hoje quem participa do nosso quadro Espaço do Leitor é a nossa querida amiga e leitora Tati Turatti. Ela assistiu ao recém-lançado nos cinemas Sexy Por Acidente (I Feel Preety) e nos passou as impressões dela sobre a obra - o que é possível conferir no texto abaixo!

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Saí de casa hoje com a intenção de assistir a um filme leve, daqueles que esquecemos rápido, sem fins culturais. Foi realmente leve, mas acredito que em termos culturais o filme traz uma crítica um tanto humorada sobre o culto exagerado a aparência física e o efeito que isto tem sobre a autoconfiança e as relações pessoais. O filme I Feel Preety - traduzido para o português como Sexy Por Acidente - tem como protagonista a Amy Schumer, uma mulher comum, sem um corpo de parar o trânsito que, após uma queda, se sente a mulher mais bonita do mundo. Sim, parei... não falarei mais nada específico sobre o filme!



A questão é que o filme mostra exatamente como o culto ao corpo está presente em nossas vidas e como não se encaixar nos padrões impostos pode afetar profundamente as relações com outros indivíduos. Por outro lado, ter autoconfiança, se amar e se valorizar pode criar oportunidades nunca antes pensadas e atrair pessoas ainda mais incríveis. Todos temos muitos defeitos, mas ter autoconfiança para conseguir demonstrar as nossas qualidade parece ser genial. Enquanto tentamos nos encaixar em algum padrão idealizado, ou buscar objetivos que não são exatamente aquilo que faz nosso coração vibrar, podemos estar perdendo a chance de ser feliz. Um filme de comédia romântica trazer uma reflexão nesse sentido me faz pensar que não ser autêntico, genuíno ou espontâneo pode ser o nosso maior defeito!

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cinema - Desobediência (Disobedience)

De: Sebastián Lelio. Com Rachel Weisz, Rachel McAdams e Alessandro Nivola. Drama / Romance, EUA, 2017, 114 minutos.

O conservadorismo da comunidade judaica já foi retratado em diversas produções culturais - de filmes do Woody Allen a obras literárias como o clássico Complexo de Portnoy, do recém-falecido escritor Philip Roth, não foram poucos os que trouxeram à tona os antiquados costumes dos representantes de tal religião. No centro do ótimo Desobediência (Disobedience), a conduta retrógrada dos judeus vêm novamente à tona quando a fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) retorna para a sua cidade natal (no interior da Inglaterra) pela primeira vez em muitos anos para comparecer ao funeral do pai, um respeitado rabino. Ronit é tudo aquilo que abominam os reacionários: é uma mulher independente, que tem o seu trabalho, que não é casada e que sequer cogita a possibilidade de ter filhos. Ao contrário, vive uma vida confortável na Big Apple, rodeada de amigos e de romances eventuais.

Sua chegada a cidade representa, portanto, um choque, sendo natural a desconfiança com que todos a observam - algo agravado pelo fato de ela ter deixado o local no passado, de forma aparentemente abrupta. Acolhida por Dovid (Alessandro Nivola) e Esti (Rachel McAdams) - ambos amigos de infância e, atualmente casados - Ronit passará os dias no local, até o data em que o funeral aconteça e Dovid assuma como rabino a partir de então. Só que há segredos relativos ao passado, que envolvem os três, e que representarão certamente um choque para a comunidade. Homossexual, Esti mantém um casamento de aparências com Dovid, numa existência repetitiva, bem ao estilo daquilo que imaginam as "famílias de bem" para os seus filhos. Não demorará para que percebamos que a chagada de Ronit à cidade tem a ver com uma atitude de Esti. E que há pendências entre as duas - que envolvem muito mais do que uma amizade.



Em sua primeira incursão por Hollywood, após ter ganho o Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira na edição desse ano (pelo soberbo Uma Mulher Fantástica), o diretor Sebastián Lelio conduz a película com grande elegância - fazendo com que o espectador deguste cada sequência da melhor maneira. Em uma cena que envolve um jantar em família, por exemplo, não deixa de ser tocante perceber o fato de que existe uma cumplicidade natural entre Esti e Ronit - algo que pode ser notado apenas com uma troca de olhares entre elas. Da mesma forma, o diretor jamais força a barra nos momentos mais tocantes do filme - fazendo com que as emoções transbordem de maneira bastante natural (e confesso que o fato de torcermos MUITO pelo amor de ambas as personagens, torna a experiência ainda mais especial).

Desobediência dificilmente será lembrado na temporada de premiações, ainda que merecesse. O trio central entrega caracterizações absolutamente verossímeis - e confesso que fiquei assombrado pela interpretação de Nivola (que, mesmo com seu semblante suave, é capaz de demonstrar o quanto a situação vivida pela "família" lhe devasta). O mesmo vale para Weisz que, quase sempre com o olhar triste, transmite também uma insegurança diante daquilo que lhe reserva o futuro. Já a fotografia acinzentada e os figurinos sempre soturnos, são capazes de evocar de forma bastante natural o estado de espírito daqueles que assistimos - melancólicos, fúnebres e com existências opacas. Ousado ao optar pelo olhar feminino em meio a um contexto machista e opressor, Desobediência ainda ganha pontos por seu final em aberto, cabendo a nós, espectadores, um olhar de cumplicidade diante daquilo que presenciamos.

Nota: 8,0

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Na Espera - O Primeiro Homem (Filme)

Ainda é cedo pra falar em Oscar, mas simplesmente não existe bolsa de apostas em que O Primeiro Homem (First Man) não apareça - inclusive com boas chances de faturar algumas estatuetas. Mais recente empreitada de Damien Chezelle (Whiplash, La La Land - Cantando Estações), a obra repete a parceria do diretor com Ryan Gosling para contar a vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong e sua jornada que viria a lhe transformar no primeiro homem a andar na lua. Além da parte mais científica, a trama parece centrar sua força na relação familiar e nos sacrifícios e custos que Neil investiu nesta que é uma das mais longas e perigosas missões da história das viagens especiais.



O trailer mostra toda a tensão e a ansiedade que envolve os momentos que antecedem a partida - e mesmo os momentos que iniciam a jornada. Para Chezelle, ainda um guri no meio, a despeito do prestígio alcançado após La La Land, não deixa de ser um novo e grandioso desafio, que ele se dispõe a realizar com atores não tão conhecidos, mas sempre requisitados (casos de Claire Foy, Kyle Chandler e Jason Clarke). Se o filme - que tem estréia nacional prevista para o dia 11 de outubro - fará bonito na temporada de premiações, ainda é cedo para saber. Mas aqui no Picanha, como é de praxe, já estamos Na Espera!

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cinema - Hereditário (Hereditary)

De: Ari Aster. Com Toni Collette, Milly Shapiro, Gabriel Byrne e Alex Wolff. Terror, Estados Unidos, 2018, 127 minutos.

De tempos em tempos algum filme chega para balançar as estruturas e mobilizar a comunidade cinéfila, polarizando opiniões a respeito da película. Foi assim com Anticristo e Mãe!, para citar algumas obras que, ao fundir o terror com um subtema mais complexo e muitas alegorias, decepcionaram aqueles que buscavam sustos fáceis e uma narrativa mais convencional. Por sinal, criou-se o termo "pós-horror" para enquadrar os filmes que, em detrimento dos jump scares, se preocupavam mais em criar um sentimento de inquietação no espectador, desenvolvendo calmamente um clima de ameaça constante e a identificação com as personagens, de forma a ampliar o sentimento de horror. E é esse o clima do super comentado Hereditário, filme de estreia do diretor Ari Aster.

Pegando carona no sucesso de crítica que obteve no Festival de Sundance e relatos de pessoas que saíram perturbadas das sessões, criou-se um hype que favoreceu a divulgação do filme mas, ao mesmo tempo, fomentou uma expectativa exagerada naqueles que foram ao cinema esperando por uma experiência aos moldes de à época em que O Exorcista ou O Bebê de Rosemary foram lançados - obras a qual é frequentemente comparado. Concomitantemente, a expectativa dividiu opiniões: enquanto a crítica tem tecido diversos comentários elogiosos, o grande público não parece muito contente com a forma pouco convencional que a história é contada e que frustra quem vai ao cinema na busca de um entretenimento escapista. O que temos aqui é grande cinema, meticulosamente planejado em seus detalhes e assombroso (nos melhores sentidos) para um filme de estreia.


Na trama vemos uma família que, sob o luto do falecimento de sua matriarca, passa a ter que lidar com diversos acontecimentos perturbadores ligados a um tipo de ritual satânico. A mãe Annie, representada maravilhosamente por Toni Collete (a mesma de O Sexto Sentido e que, presume-se, tem grandes chances de novamente estar presente na temporada de premiações), trabalha construindo miniaturas para galerias de arte e também representando acontecimentos de sua vida - um recurso narrativo interessante que proporciona transições elegantes em diversas cenas, além de criar novas camadas interpretativas ao que vamos vendo na tela. Collete também vivencia um arco dramático bastante intenso, e em pelo menos duas cenas podemos ter a dimensão exata de seu brilhantismo como intérprete. Enquanto o marido Steve (Byrne) é o porto seguro, os filhos Peter e Charlie (Wolff e Shapiro, respectivamente) são as faces mais vulneráveis e suscetíveis aos terríveis desígnios que lhes serão destinados.

É óbvio que as sensações promovidas pela obra não seriam possíveis se não fosse o brilhantismo técnico de sua produção: seja na direção precisa que soube extrair o melhor das interpretações de seu elenco, na trilha sonora e no design de som que ampliam a imersão naquele clima inquietante (e que é amplificado quando experimentado na sala de cinema), passando pela fotografia e direção de arte que, nos cenários, fornecem diversas pistas sobre o que está por vir, sem subestimar a capacidade de interpretação de seu público. O que não significa que o filme seja hermético, pelo contrário - talvez um dos poucos pecados do filme seja o excesso de expositividade, principalmente em seu ato final. 

Diversos são os vídeos e textos dissecando Hereditário, mas nosso objetivo aqui não é dar spoilers e sim despertar a curiosidade por esse filme que merece muito ser visto. Seja do ponto de vista formal quanto pelo despertar de sentimentos desconfortáveis (estes relacionados à suscetibilidade de cada pessoa), é um filme que não nos deixa indiferente e que ficará na lembrança por muito tempo e que não será surpresa se, aos moldes de Corra!, esteja presente nas principais premiações do ano.

Nota: 9,0.



Cine Baú - A Malvada (All About Eve)

De: Joseph L. Mankiewicz. Com Anne Baxter, Bette Davis, George Sanders, Celeste Holm e Thelma Ritter. Comédia dramática, EUA, 1950, 138 minutos.

Uma das mais corrosivas críticas aos bastidores do show business, o clássico A Malvada (All Abou Eve) não recebeu catorze indicações ao Oscar por acaso, já que se trata de uma obra-prima com um roteiro engenhoso, cheia de diálogos rápidos e inteligentes e um elenco entrosado, que conta com algumas das melhores interpretações da história do cinema. É um filme completo, divertido, debochado, irônico, sarcástico. Histriônico em alguns momentos. E que parece não envelhecer, já que o tema se mantém mais do que atual. A obra começa mostrando os bastidores de uma premiação em que a atriz Eve Harrington (Anne Baxter) está recebendo a distinção máxima da noite, por conta de uma elogiada interpretação no teatro. Tudo ocorre sob os desconfiados olhares dos demais - entre eles o da veterana atriz Margo Channing (Bette Davis), que não parece nada satisfeita com aquilo que testemunha. Os seus motivos, bom, logo saberemos.

A trama então volta no tempo para nos apresentar a uma Eve Harrington ainda longe dos holofotes. Moça humilde, de vestes simples, de voz baixa e doce - e com uma história de dificuldades - ela acompanha todas as peças estreladas por Margo. Em certa noite, se aproxima de Karen (Celeste Holm) - melhor amiga de Margo e esposa do roteirista Lloyd (Hugh Marlowe) - se apresentando como uma curiosa espectadora, que acompanha todos os movimentos de sua atriz fetiche. Não demora para que Eve esteja morando com Margo, onde passará a trabalhar como sua secretária, se tornando também sua protegida. Ainda que outras empregadas desconfiem das reais intenções de Eve - caso de Birdie (a sempre ótima Thelma Ritter) - Margo parece cega neste "novo relacionamento". "Eve é minha irmã, advogada, mãe, amiga, psiquiatra e polícia" chega a dizer em determinado momento, naquilo que considera uma verdadeira "lua de mel".



Só que não demora para que Margo perceba o verdadeiro jogo sórdido em que está se envolvendo ao constatar que Eve, com sua gentileza excessiva, sorrisos fáceis e polidez permanente, não passa de uma figura dissimulada e hipócrita, que não medirá esforços para alcançar aquilo que ambiciona para a sua ainda nem iniciada "carreira". Margo, com mais de 40 anos, já começa a ver rarearem os papeis que exigem mulheres mais jovens - ao passo que Eve, com sua doce juventude, não hesitará em oferecer os seus serviços no teatro (seja no papel de substituta ou mesmo chantageando amigos de Margo para que estes consigam papeis de destaque para ela). De quebra, Eve ainda conseguirá se aproximar do crítico de teatro Addison Dewitt (George Sanders, mais um grande nome do elenco estelar), tornando-se "amiga" dele e fazendo com que ele lhe escreva colunas favoráveis (o que parecia ser fundamental para o sucesso ou o ocaso de qualquer aspirante naquela época).

Nesse sentido, o filme de Joseph L. Mankiewicz é uma verdadeira coleção de grandes sequências - com várias forças trombando de frente e dirigindo-se palavras não menos do que irônicas e zombeteiras. A longa (e bela) sequência do aniversário de Bill, em que Margo diz a clássica frase "apertem os cintos, essa será uma noite turbulenta", é não menos do que memorável, com tantos diálogos e frases inesquecíveis, que seriam necessárias dúzias de parágrafos para honrá-las em toda a sua perfeição. Já a sequência em que Margo perde uma audição, sendo substituída por Eve é dramática e divertida na mesma medida - com Bette Davis afiadíssima na interpretação, dizendo tanto com as palavras cheias de ressentimentos (e escárnio) quanto com o seu indefectível olhar, melancólico, curioso e capaz de mostrar toda a devastação que lhe invade. Os demais astros do elenco não ficam atrás e não é por acaso que foram cinco as indicações para os atores - com Sanders faturando a estatueta como coadjuvante, Baxter e Davis concorrendo na categoria principal e Ritter e Holm como coadjuvantes.


Com quase setenta anos de seu lançamento, A Malvada segue sendo uma obra-prima metalinguística que serve não apenas como uma análise para o teatro, mas também para o cinema - especialmente pela facilidade com que vemos atrizes mais "veteranas", sendo substituídas por outras mais novas, em um implacável sistema de retroalimentação capaz de aposentar ídolos de uma hora para outra, sem muito ressentimento. Outros filmes, como o espetacular Crepúsculo dos Deuses também abordariam o tema de forma magistral - aliás, uma obra lançada inacreditavelmente no mesmo ano, e que perderia a principal estatueta da noite de premiações para A Malvada. Bette Davis já tinha uma longa carreira de acertos e erros quando gravou o filme - e mais tarde trabalharia em outras grandes obras, como o imperdível (e divertido) O que Terá Acontecido a Baby Jane?. Mas como nada acontece por acaso, a película de Mankiewiz também apresenta uma ainda novata Marylin Monroe em uma inesquecível ponta - também como uma atriz iniciante que tenta seduzir produtores em busca de um papel de sucesso. Algo que ela alcançaria mais tarde, afinal de contas, todos sabemos, a vida imita a arte.