quinta-feira, 19 de julho de 2018

Tesouros Cinéfilos - Rebobine Por Favor (Be Kind Rewind)

De: Michel Gondry. Com Mos Def, Jack Black, Mia Farrow, Melonie Diaz, Danny Glover e Sigourney Weaver. Comédia, França / EUA, 2008, 111 minutos.

Não fosse um filme do diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), talvez Rebobine Por Favor (Be Kind Rewind) fosse apenas uma comediazinha boba da Sessão da Tarde sobre dois caras vivendo as mais loucas aventuras dentro de uma locadora de vídeos. Mas, não. A obra é uma verdadeira homenagem a todos aqueles que fazem cinema e que se esforçam para levar para dentro das nossas casas toda a "magia da sétima arte" (sim, parece meio piegas e clichê, mas é exatamente isso). Na trama, Mike (Mos Def) é encarregado pelo seu chefe Elroy Fletcher (Danny Glover) de cuidar de sua antiga locadora de filmes VHS, enquanto ele viaja. Entre o atendimento a um ou outro cliente, Mike recebe a visita de seu melhor amigo Jerry (Jack Black), um veterano de guerra que está decidido a sabotar o sistema de energia elétrica de sua cidade pois, teorias da conspiração a parte, ele acredita que a usina possa estar "danificando" seu cérebro.

Só que após a tentativa de burlar o sistema, Jerry leva um choque que o deixa magnetizado. E, como consequência, a alta carga de energia em seu corpo acaba danificando TODAS as fitas da locadora que, em um movimento inverso, se desmagnetizam. Mas como seguir atendendo a demanda dos clientes, com todos os filmes estragados? Refazendo-os, claro! E de forma caseira, com aquele charme retrô, dos filmes amadores. De Ghostbusters, passando por Robocop, até chegar a Conduzindo Miss Daisy, a dupla vai refazendo os filmes um a um, conforme a demanda aumenta - e a desconfiança inicial diminui. Absolutamente instigados pelos novos, curiosos e "suecados" títulos, os espectadores passam a fazer fila na frente da locadora, anotando pedidos para que os filmes de sua preferência sejam refeitos. Sim, absolutamente nonsense! E lindamente saboroso!



Assistir Black e Def refazendo cada filme - com a ajuda da jovem Alma (Melonie Diaz) -, com recursos totalmente amadores e "efeitos especiais" discutíveis, transforma a obra em um exercício metalinguístico dos mais singelos, engraçados e inesquecíveis. Reconhecendo o esforço da dupla, os clientes não se importam com a precariedade. Eles querem ver filmes! Consumir aquilo que tanto amam e que é feito com coração e alma. E não é por acaso que, quando a fiscalização bate na porta da locadora alegando problemas relacionados a direitos autorais, a comunidade se une para fazer uma película totalmente original - um documentário sobre o pianista de jazz Fats Waller. A propósito, a presença de Sigourney Weaver como a chefe de investigação do caso não deixa de também ser uma ótima sacada (já que a série Alien certamente não seria excluída das novas versões)!

Ainda que se trate de uma divertida brincadeira sobre o fazer cinema, o filme traz outras "rimas" interessantes - como o fato de Mia Farrow ser uma das principais clientes (ela mesma que já sonhou com astros e estrelas saltando da tela de cinema no inesquecível A Rosa Púrpura do Cairo). Da mesma forma, a paranoia americana - uma das principais matérias-primas para filmes de ação em Hollywood - é representada pelo personagem de Black, que acredita piamente na "ameaça comunista". Recheado de pequenos grandes momentos - como não gargalhar em uma cena de beijo que não dá muito certo? - Rebobine Por Favor ainda reserva para a cena final uma das mais tocantes sequências já vistas a respeito do prazer de se assistir um filme pronto. É Hollywood agradecendo (por nós) a estes verdadeiros heróis que se empenham em levar diversão, susto e emoção para as nossas casas, todos os dias.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Cinema - 50 São os Novos 30 (Marie-Francine)

De: Valérie Lemercier. Com Valérie Lemercier, Patrick Timsit, Hélène Vincent e Philippe Laudenbach. Comédia, França, 2017, 95 minutos.

A ideia para o filme 50 São os Novos 30 (Marie-Francine) é ótima - mas é uma pena que ela seja tão mal executada. Na trama a Marie-Francine do título original é uma mulher na casa dos 50 anos (Valérie Lemercier), que acaba de se separar do marido - que a trocou por uma mulher bem mais nova - e de perder o seu emprego em um laboratório de biotecnologia. Como se já não bastasse o abalo natural provocado pela situação, ela ainda passará por dificuldades para conseguir um fiador que lhe possibilite o aluguel de um apartamento, após o divórcio. O resultado? Ela volta a morar, temporariamente, na casa dos pais. Como forma de tentar tocar a vida, ela abre uma loja que vende cigarros eletrônicos. Será no local que ela atrairá a atenção do chef de cozinha Miguel (Patrick Timsit), que trabalha em um restaurante da vizinhança e que, surpresa, após se separar, vive a mesma situação.

Sim, a ideia é boa e rende algumas divertidas piadas - especialmente no começo, com os pais tratando a protagonista de forma infantilizada, com excesso de zelo, como se esta fosse uma criança (a cena do pai de Marie-Francine desesperado, procurando-a dentro do mercado, é uma das melhores)! Da mesma forma, também merece destaque a opção de Lemercier (que também dirige) em não apostar no clichê da mulher madura que, após uma separação, rejuvenesce, reaparecendo muito mais bonita que no passado. Ao contrário, Marie-Francine é uma figura "naturalmente" desleixada, inegavelmente depressiva - como constatam alguns de seus clientes -, e invariavelmente debochada. O que resulta em algumas divertidas sequências (e diálogos), como na parte em que os pais de Marie-Francine tentam lhe arrumar um pretendente. "Um gay, um depressivo e um alcoólatra", constata uma enfadada protagonista, diante das opções oferecidas.



Só que a obra peca ao apostar em alguns arcos dramáticos secundários que jamais se aprofundam. Por exemplo, no começo da película, uma das filhas de Francine faz, para ela, um perfil em uma rede social de relacionamento (com direito a foto feita no parque e tudo). Talvez fosse divertido acompanhar os possíveis pretendentes que pudessem surgir dessa ideia - mas, infelizmente, ela é inexplicavelmente abandonada depois. A pressa da mesma filha em casar, ter filhos e constituir família com o seu "casinho" - mesmo aos 16 anos - também é esquecida depois, assim como a própria filha, que quase some do filme. Outras subtramas, como o caso de traição envolvendo a mãe da protagonista ou mesmo a conturbada relação de Miguel com seu chefe, jamais ganham alguma profundidade, que talvez fizesse com que nos importássemos mais com aqueles que vemos na tela. Ocorre que, assim, a obra se torna meio nonsense e esquisitamente inverossímil - mesmo para uma comédia.

Mas, vá lá, voltamos a dizer: não é ruim. Há boas caracterizações - a veterana Hélène Vincent está absolutamente impagável como a mãe de Francine (que se comporta quase como se fosse a sua filha). Já personagens secundários como a sous chef Nadege (Nadege Beausson-Diagne) roubam a cena, com comentários sociais divertidos e repletos de carisma. No fim das contas é uma película sobre um dos maiores problemas dos adultos de meia-idade - mas que, por optar por um tratamento mais cômico, deixa de lado as naturais angústias, medos e inseguranças que poderiam aflorar em tal situação. E, nesse sentido, por mais que Miguel tenha alguma carisma e Francine seja desajeitadamente engraçada, o caso é que o tempo todo eles parecem muito mais dois amigos, do que dois amantes. O que também compromete o resultado final - já que, em comédias românticas, o desejo do público em ver os protagonistas juntos é aquilo que faz a experiência valer a pena.

Nota: 6,0

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Cinema - Hannah (Hannah)

De: Andrea Pallaoro. Com Charlotte Rampling, André Wilms e Stéphanie Van Vyve. Drama, França / Bélgica / Itália, 2018, 95 minutos.

Filme propositalmente denso, arrastado, lento, cheio de silêncios e de sutilezas, Hannah (Hannah) é o tipo de obra que testa a paciência do espectador até o limite - mas que certamente compensa aqueles que se "aventuram" por ela. Película nada fácil de ser degustada tem, de quebra, uma temática absolutamente dolorosa: a da solidão na terceira idade. Ou mesmo a sensação de isolamento neste período da vida - ainda que haja "companhias". A narrativa nos apresenta à Hannah do título (Charlote Rampling, em papel que lhe deu o prêmio de atriz, no último Festival de Veneza). Aos 72 anos, Hannah mora sozinha em um apartamento recebendo, eventualmente, a visita de seu marido - que está preso em circunstâncias que só ficarão mais claras no decorrer da projeção. Ou ficarão "claras" em partes - um dos grandes charmes da obra, diga-se.

Como forma de afastar o tédio em sua repetitiva rotina, Hannah trabalha como faxineira na casa de uma vizinha, participa de uma espécie de "grupo de apoio" (em que também ocorrem aulas de teatro e de desinibição) e, ocasionalmente, pratica natação em um clube da cidade. Em todas estas situações, a protagonista está acompanhada de outras pessoas, desconhecidas. Mas, como já dizia o filósofo Hermógenes "a pior solidão é aquela que se sente quando se está acompanhado". Nesse sentido, a única companhia real da idosa é o seu cachorro que, a bem da verdade, parece tão infeliz quanto ela. Hannah está sozinha. E se sente muito sozinha. As (poucas) tentativas de aproximação com o filho se mostrarão inócuas, já que ele prefere que a mãe mantenha distância. Condição que adicionará um componente dramático a trama. Além de aumentar a nossa curiosidade em relação aos segredos do passado, guardados por esta família.



Na intenção de tornar a experiência ainda mais sufocante, o diretor Andrea Pallaoro aposta na força do olhar e nos gestos (quase sempre contidos), como forma de manifestar sentimentos - o que Rampling faz de forma soberba, diga-se. Como numa espécie de contraponto a uma obra quase sem diálogos, os únicos momentos em que as pessoas conversam são os que envolvem as encenações para uma suposta peça de teatro ou mesmo em discussões envolvendo terceiros (como na sequência em que um casal briga dentro do metrô). Assim como os contratos sociais que nos obrigam a nos comportar desta ou daquela maneira, ou mesmo a fingir situações, também a obra parece, em alguns momentos, como uma grande encenação em que acompanhamos a vida de uma senhora devastada por anos de sofrimentos. E que tenta, ao menos de forma aparente, suportar isso. Ainda que, internamente, esteja calejada de forma quase definitiva.

Hábil em utilizar o poder da imagem como forma de sugerir ideias ou pensamentos, o diretor abusa de enquadramentos oblíquos que, captando apenas uma parte do corpo de Hannah (ou apenas a metade deste) reforçam a sua sensação de "vida pela metade" ou de "incompletude". Da mesma forma, a fotografia sempre acinzentada e os figurinos sombrios, funcionam como a metáfora perfeita para evocar a tristeza permanente da protagonista - qualquer que seja a atividade que esta realiza. Também a grande quantidade de espelhos e janelas que mostram o reflexo da idosa, parecem reforçar o fato de que, em meio a multidão, ela é apenas mais uma mulher de rosto triste, expressão melancólica, com uma vida que não diz respeito a mais ninguém. Afinal de contas, em um mundo tão individualista como o que vivemos, é assim que somos e pouco nos importamos com as angústias, sofrimentos ou anseios dos outros. "Uma velha de 72 anos? Que viva a sua pobre vida sem atrapalhar os outros."


Absolutamente inesquecível em sua caracterização, Rampling, assim como já fez tantas vezes, dá uma verdadeira aula. O filme é todo dela, que aparece em praticamente TODAS as cenas da película - e se nos assombramos já na primeira cena, em que ela realiza um exercício que lhe faz saltar as veias da testa, não é por acaso. Hannah é a baleia que aparece no filme, encalhada na beira da praia. É gigante, imponente, está viva mas carece de motivação para continuar. Se para nós assistir a rotina inacreditavelmente letárgica da protagonista já se configura como um verdadeiro martírio, imagina viver tal vida. Imagina essa solidão. Essa solidão que não tem cura, enquanto o mundo segue, enquanto o metrô anda e o mundo acontece (e nós sofremos sozinhos com nossos problemas). É sobre isso esse filme tão propositalmente parado, tão vagaroso, tão tedioso. E tão surpreendente ao mesmo tempo.

Nota: 8,5

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - O Banheiro do Papa (Uruguai)

De: Henrique Fernandes e Cesar Charlone. Com César Trancoso, Virgínia Mendez e Virgínia Ruiz. Comédia Dramática, Uruguai / Brasil / França, 2007, 94 minutos.

O filme O Banheiro do Papa (El Baño Del Papa) não poderia ter um argumento melhor: toma por base um evento ocorrido no pequeno município de Melo - na fronteira do Uruguai com o Brasil - no ano de 1988, para traçar um verdadeiro painel social a respeito da luta diária de um povo para garantir o atendimento de suas necessidades mais básicas, ao passo que utiliza a crença na religião como combustível (e metáfora) para a manutenção da esperança por dias melhores. Na trama, a comunidade de Melo - cidadezinha que convive com altos índices de pobreza - está mobilizada: as notícias dão conta de que a comitiva do Papa João Paulo II fará uma parada no local para a celebração de uma missa. Para os moradores, esta parece ser a oportunidade de utilizar o "turismo religioso" como uma forma de ganhar algum dinheiro. Aguardam mais de 30 mil visitantes somente do Brasil.

Enquanto boa parte dos moradores se organiza, nos dias que antecedem ao evento, para a instalação de barraquinhas para a comercialização de chouriços, bolos, pasteis e massas fritas - ou mesmo outros souvenires, como bandeirinhas, pequenas medalhas e outros badulaques -, o contrabandista Beto (César Trancoso) tem a ideia de instalar, no pátio de sua casa, um banheiro. "Depois de se embucharem as pessoas precisarão se aliviar", argumenta com a esposa Carmen (Virgínia Mendez) que, incrédula, passará a acompanhar a verdadeira odisseia do sujeito para a obtenção de todo o material que lhe possibilitará concretizar a obra. Beto vive de pequenos trambiques trazendo, de bicicleta - e percorrendo cerca de 60 quilômetros diários - produtos do Brasil para o Uruguai, onde entrega armazéns em troca de alguns trocados. A rotina claramente sofrida e a oportunidade que representará a vinda do Papa o fará sonhar. Aliás, todos sonharão, conforme os dias se aproximam.



O filme é absolutamente saboroso ao olhar com total ternura para as personagens. Mesmo com as dificuldades que envolvem o cruzamento da fronteira todos os dias (e a perseguição por parte dos aduaneiros que podem lhe confiscar os produtos), ou mesmo as doenças decorrentes do esforço repetitivo, Beto mantém o otimismo e o sorriso no rosto - e que, no fim das contas, é o otimismo que todos nós carregamos. Longe de ser um sujeito correto - Beto é contrabandista, beberrão e eventualmente reage com violência - o protagonista é uma figura complexa, que busca o melhor pra família a todo o custo e que, raramente, se entrega para as frustrações. A filha Silvia (Virginia Ruiz) sonha em ser radialista e é para isso que a mãe Carmen guarda todas as economias. Mas como conseguir guardar algum dinheiro em um ambiente com tanta pobreza, vulnerabilidade social e necessidade como aquele em que todos vivem? Beto quer comprar uma moto pra melhorar o contrabando - e que representa a sobrevivência de todos. Como conciliar isso?

Está nos livros de história o fato de que a vinda do Papa a Melo não foi aquilo que todos esperavam - falava-se em mais de 60 mil pessoas e, contando os próprios moradores do município, o público não teria chegado a oito mil peregrinos. A Prefeitura e suas obras, a mídia e o sensacionalismo, todos contribuíram para um clima de euforia meio exagerado em meio a aridez palpável e a pobreza extrema do local que, do ponto de vista econômico, definitivamente não se altera. Mas ao mostrar a união das pessoas nos pequenos gestos - como naquele em que o vizinho de Beto garante que fará o trajeto até o Brasil de bicicleta por ele, se ele não puder ou ao sorriso dado pela filha durante os "testes" para o uso do banheiro (em uma das melhores sequências) -, a dupla de diretores Enrique Fernandes e Cesar Charlone constrói uma obra singela, divertida, melancólica, pulsante, sobre o poder da crença, sobre a amizade e sobre outros valores (para além dos econômicos).

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Pérolas da Netflix - Anon (Anon)

De Andrew Niccol. Com Clive Owen, Amanda Seyfried e Colm Feore. Suspense / Ficção Científica, EUA, 2018, 100 minutos.

De Gattaca - Experiência Genética (1997) a O Preço do Amanhã (2011), os filmes do diretor Andrew Niccol costumam parecer versões estendidas dos episódios da série Black Mirror. Nesse sentido, o clima de distopia futurista em um mundo tecnológico e individualista também aparece em Anon (Anon), uma de suas mais recentes obras, que está disponível na Netflix. O que para quem gosta de ficção científica com boas doses de suspense, se configura em um prato cheio. A trama nos joga para um futuro onde não existem mais crimes que não sejam solucionados, efeito de um sistema de vigilância extrema que utiliza imagens geradas por uma espécie de chip ou aplicativo implantado nos olhos das pessoas (conhecido como Olho da Mente) - o que permite a gravação e a exibição futura de tudo aquilo que é falado, visto e ouvido por cada indivíduo (falando em Black Mirror, expediente semelhante foi utilizado no episódio The Entire History Of You, da primeira temporada).

Só que um hacker que ataca de assassino em série descobre como burlar o sistema, alterando o campo de visão de suas vítimas para o seu próprio ponto de vista, o que possibilita que ele tenha a sua identidade preservada (parece meio complexo, mas assistindo o filme não é tão complicado entender). É aí que entra em cena o detetive Sal Friedland (Clive Owen), que tentará uma aproximação com uma das principais suspeitas, a misteriosa Anon do título (vivida por Amanda Seyfried). O jogo de gato e rato envolverá encontros com o objetivo de identificar as reais intenções da jovem, que subverteu o sistema e vive no anonimato, recebendo dinheiro para deletar imagens "indesejadas" de seus clientes (seja de crimes cometidos, de uso de drogas, de encontros com prostitutas ou outros). Só que o que Sal pretende descobrir os motivos pelos quais a hacker acaba, invariavelmente, assassinando os seus clientes/vítimas - o que representará um risco, inegavelmente.



Niccol, como é de praxe nos filmes de ficção científica, transforma a cidade - e mesmo seus prédios e apartamentos - em uma metrópole fria e acinzentada (condição que reforça não apenas a sensação de isolamento, mas também a tensão vivida por aqueles que assistimos). Tudo é muito insípido, limpinho, higienizado, não havendo espaço para comportamentos ambíguos, para roupas extravagantes, ou para qualquer tipo de "cor" nesse mundo em que todos sabem o que cada um faz - como se vivêssemos numa versão ampliada de um mundo em que a vigilância extrema e as câmeras de segurança funcionam como parte integrante de nossas vidas. Tudo parece ser mecânico, do figurino econômico (e acinzentado), passando pelas existências vazias, até chegar ao sexo protocolar, o mundo em que o Olho da Mente existe (com seus dados gerados de forma permanente e atualizados), não permitirá qualquer subversão, insubordinação ou desobediência.

Ator talentoso de nossa geração - ainda que meio esquecido - Owen se esforça para entregar uma caracterização de um homem correto, mas que guarda segredos do passado que lhe devastam (e que envolvem, só pra não fugir do clichê, a morte do filho). Já Amanda é a boa surpresa da película, ao aparecer como uma mulher misteriosa, que nos deixa em dúvida o tempo inteiro sobre o seu caráter vilanesco ou não. Não é um filme que vai mudar o mundo ou que será lembrado como uma das grandes ficções científicas da atualidade - ainda que haja boas surpresas no processo. Mas para quem busca uma obra escapista - e que passa de raspão no debate a respeito dessa nossa mania tão moderna de observar o outro ou do voyeurismo (seja no Instagram ou em outras redes sociais) -, esse se torna o filme certo.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Espaço do Leitor - Sexy Por Acidente (por Tati Turatti)

Hoje quem participa do nosso quadro Espaço do Leitor é a nossa querida amiga e leitora Tati Turatti. Ela assistiu ao recém-lançado nos cinemas Sexy Por Acidente (I Feel Preety) e nos passou as impressões dela sobre a obra - o que é possível conferir no texto abaixo!

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Saí de casa hoje com a intenção de assistir a um filme leve, daqueles que esquecemos rápido, sem fins culturais. Foi realmente leve, mas acredito que em termos culturais o filme traz uma crítica um tanto humorada sobre o culto exagerado a aparência física e o efeito que isto tem sobre a autoconfiança e as relações pessoais. O filme I Feel Preety - traduzido para o português como Sexy Por Acidente - tem como protagonista a Amy Schumer, uma mulher comum, sem um corpo de parar o trânsito que, após uma queda, se sente a mulher mais bonita do mundo. Sim, parei... não falarei mais nada específico sobre o filme!



A questão é que o filme mostra exatamente como o culto ao corpo está presente em nossas vidas e como não se encaixar nos padrões impostos pode afetar profundamente as relações com outros indivíduos. Por outro lado, ter autoconfiança, se amar e se valorizar pode criar oportunidades nunca antes pensadas e atrair pessoas ainda mais incríveis. Todos temos muitos defeitos, mas ter autoconfiança para conseguir demonstrar as nossas qualidade parece ser genial. Enquanto tentamos nos encaixar em algum padrão idealizado, ou buscar objetivos que não são exatamente aquilo que faz nosso coração vibrar, podemos estar perdendo a chance de ser feliz. Um filme de comédia romântica trazer uma reflexão nesse sentido me faz pensar que não ser autêntico, genuíno ou espontâneo pode ser o nosso maior defeito!

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cinema - Desobediência (Disobedience)

De: Sebastián Lelio. Com Rachel Weisz, Rachel McAdams e Alessandro Nivola. Drama / Romance, EUA, 2017, 114 minutos.

O conservadorismo da comunidade judaica já foi retratado em diversas produções culturais - de filmes do Woody Allen a obras literárias como o clássico Complexo de Portnoy, do recém-falecido escritor Philip Roth, não foram poucos os que trouxeram à tona os antiquados costumes dos representantes de tal religião. No centro do ótimo Desobediência (Disobedience), a conduta retrógrada dos judeus vêm novamente à tona quando a fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) retorna para a sua cidade natal (no interior da Inglaterra) pela primeira vez em muitos anos para comparecer ao funeral do pai, um respeitado rabino. Ronit é tudo aquilo que abominam os reacionários: é uma mulher independente, que tem o seu trabalho, que não é casada e que sequer cogita a possibilidade de ter filhos. Ao contrário, vive uma vida confortável na Big Apple, rodeada de amigos e de romances eventuais.

Sua chegada a cidade representa, portanto, um choque, sendo natural a desconfiança com que todos a observam - algo agravado pelo fato de ela ter deixado o local no passado, de forma aparentemente abrupta. Acolhida por Dovid (Alessandro Nivola) e Esti (Rachel McAdams) - ambos amigos de infância e, atualmente casados - Ronit passará os dias no local, até o data em que o funeral aconteça e Dovid assuma como rabino a partir de então. Só que há segredos relativos ao passado, que envolvem os três, e que representarão certamente um choque para a comunidade. Homossexual, Esti mantém um casamento de aparências com Dovid, numa existência repetitiva, bem ao estilo daquilo que imaginam as "famílias de bem" para os seus filhos. Não demorará para que percebamos que a chagada de Ronit à cidade tem a ver com uma atitude de Esti. E que há pendências entre as duas - que envolvem muito mais do que uma amizade.



Em sua primeira incursão por Hollywood, após ter ganho o Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira na edição desse ano (pelo soberbo Uma Mulher Fantástica), o diretor Sebastián Lelio conduz a película com grande elegância - fazendo com que o espectador deguste cada sequência da melhor maneira. Em uma cena que envolve um jantar em família, por exemplo, não deixa de ser tocante perceber o fato de que existe uma cumplicidade natural entre Esti e Ronit - algo que pode ser notado apenas com uma troca de olhares entre elas. Da mesma forma, o diretor jamais força a barra nos momentos mais tocantes do filme - fazendo com que as emoções transbordem de maneira bastante natural (e confesso que o fato de torcermos MUITO pelo amor de ambas as personagens, torna a experiência ainda mais especial).

Desobediência dificilmente será lembrado na temporada de premiações, ainda que merecesse. O trio central entrega caracterizações absolutamente verossímeis - e confesso que fiquei assombrado pela interpretação de Nivola (que, mesmo com seu semblante suave, é capaz de demonstrar o quanto a situação vivida pela "família" lhe devasta). O mesmo vale para Weisz que, quase sempre com o olhar triste, transmite também uma insegurança diante daquilo que lhe reserva o futuro. Já a fotografia acinzentada e os figurinos sempre soturnos, são capazes de evocar de forma bastante natural o estado de espírito daqueles que assistimos - melancólicos, fúnebres e com existências opacas. Ousado ao optar pelo olhar feminino em meio a um contexto machista e opressor, Desobediência ainda ganha pontos por seu final em aberto, cabendo a nós, espectadores, um olhar de cumplicidade diante daquilo que presenciamos.

Nota: 8,0

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Na Espera - O Primeiro Homem (Filme)

Ainda é cedo pra falar em Oscar, mas simplesmente não existe bolsa de apostas em que O Primeiro Homem (First Man) não apareça - inclusive com boas chances de faturar algumas estatuetas. Mais recente empreitada de Damien Chezelle (Whiplash, La La Land - Cantando Estações), a obra repete a parceria do diretor com Ryan Gosling para contar a vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong e sua jornada que viria a lhe transformar no primeiro homem a andar na lua. Além da parte mais científica, a trama parece centrar sua força na relação familiar e nos sacrifícios e custos que Neil investiu nesta que é uma das mais longas e perigosas missões da história das viagens especiais.



O trailer mostra toda a tensão e a ansiedade que envolve os momentos que antecedem a partida - e mesmo os momentos que iniciam a jornada. Para Chezelle, ainda um guri no meio, a despeito do prestígio alcançado após La La Land, não deixa de ser um novo e grandioso desafio, que ele se dispõe a realizar com atores não tão conhecidos, mas sempre requisitados (casos de Claire Foy, Kyle Chandler e Jason Clarke). Se o filme - que tem estréia nacional prevista para o dia 11 de outubro - fará bonito na temporada de premiações, ainda é cedo para saber. Mas aqui no Picanha, como é de praxe, já estamos Na Espera!

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cinema - Hereditário (Hereditary)

De: Ari Aster. Com Toni Collette, Milly Shapiro, Gabriel Byrne e Alex Wolff. Terror, Estados Unidos, 2018, 127 minutos.

De tempos em tempos algum filme chega para balançar as estruturas e mobilizar a comunidade cinéfila, polarizando opiniões a respeito da película. Foi assim com Anticristo e Mãe!, para citar algumas obras que, ao fundir o terror com um subtema mais complexo e muitas alegorias, decepcionaram aqueles que buscavam sustos fáceis e uma narrativa mais convencional. Por sinal, criou-se o termo "pós-horror" para enquadrar os filmes que, em detrimento dos jump scares, se preocupavam mais em criar um sentimento de inquietação no espectador, desenvolvendo calmamente um clima de ameaça constante e a identificação com as personagens, de forma a ampliar o sentimento de horror. E é esse o clima do super comentado Hereditário, filme de estreia do diretor Ari Aster.

Pegando carona no sucesso de crítica que obteve no Festival de Sundance e relatos de pessoas que saíram perturbadas das sessões, criou-se um hype que favoreceu a divulgação do filme mas, ao mesmo tempo, fomentou uma expectativa exagerada naqueles que foram ao cinema esperando por uma experiência aos moldes de à época em que O Exorcista ou O Bebê de Rosemary foram lançados - obras a qual é frequentemente comparado. Concomitantemente, a expectativa dividiu opiniões: enquanto a crítica tem tecido diversos comentários elogiosos, o grande público não parece muito contente com a forma pouco convencional que a história é contada e que frustra quem vai ao cinema na busca de um entretenimento escapista. O que temos aqui é grande cinema, meticulosamente planejado em seus detalhes e assombroso (nos melhores sentidos) para um filme de estreia.


Na trama vemos uma família que, sob o luto do falecimento de sua matriarca, passa a ter que lidar com diversos acontecimentos perturbadores ligados a um tipo de ritual satânico. A mãe Annie, representada maravilhosamente por Toni Collete (a mesma de O Sexto Sentido e que, presume-se, tem grandes chances de novamente estar presente na temporada de premiações), trabalha construindo miniaturas para galerias de arte e também representando acontecimentos de sua vida - um recurso narrativo interessante que proporciona transições elegantes em diversas cenas, além de criar novas camadas interpretativas ao que vamos vendo na tela. Collete também vivencia um arco dramático bastante intenso, e em pelo menos duas cenas podemos ter a dimensão exata de seu brilhantismo como intérprete. Enquanto o marido Steve (Byrne) é o porto seguro, os filhos Peter e Charlie (Wolff e Shapiro, respectivamente) são as faces mais vulneráveis e suscetíveis aos terríveis desígnios que lhes serão destinados.

É óbvio que as sensações promovidas pela obra não seriam possíveis se não fosse o brilhantismo técnico de sua produção: seja na direção precisa que soube extrair o melhor das interpretações de seu elenco, na trilha sonora e no design de som que ampliam a imersão naquele clima inquietante (e que é amplificado quando experimentado na sala de cinema), passando pela fotografia e direção de arte que, nos cenários, fornecem diversas pistas sobre o que está por vir, sem subestimar a capacidade de interpretação de seu público. O que não significa que o filme seja hermético, pelo contrário - talvez um dos poucos pecados do filme seja o excesso de expositividade, principalmente em seu ato final. 

Diversos são os vídeos e textos dissecando Hereditário, mas nosso objetivo aqui não é dar spoilers e sim despertar a curiosidade por esse filme que merece muito ser visto. Seja do ponto de vista formal quanto pelo despertar de sentimentos desconfortáveis (estes relacionados à suscetibilidade de cada pessoa), é um filme que não nos deixa indiferente e que ficará na lembrança por muito tempo e que não será surpresa se, aos moldes de Corra!, esteja presente nas principais premiações do ano.

Nota: 9,0.



Cine Baú - A Malvada (All About Eve)

De: Joseph L. Mankiewicz. Com Anne Baxter, Bette Davis, George Sanders, Celeste Holm e Thelma Ritter. Comédia dramática, EUA, 1950, 138 minutos.

Uma das mais corrosivas críticas aos bastidores do show business, o clássico A Malvada (All Abou Eve) não recebeu catorze indicações ao Oscar por acaso, já que se trata de uma obra-prima com um roteiro engenhoso, cheia de diálogos rápidos e inteligentes e um elenco entrosado, que conta com algumas das melhores interpretações da história do cinema. É um filme completo, divertido, debochado, irônico, sarcástico. Histriônico em alguns momentos. E que parece não envelhecer, já que o tema se mantém mais do que atual. A obra começa mostrando os bastidores de uma premiação em que a atriz Eve Harrington (Anne Baxter) está recebendo a distinção máxima da noite, por conta de uma elogiada interpretação no teatro. Tudo ocorre sob os desconfiados olhares dos demais - entre eles o da veterana atriz Margo Channing (Bette Davis), que não parece nada satisfeita com aquilo que testemunha. Os seus motivos, bom, logo saberemos.

A trama então volta no tempo para nos apresentar a uma Eve Harrington ainda longe dos holofotes. Moça humilde, de vestes simples, de voz baixa e doce - e com uma história de dificuldades - ela acompanha todas as peças estreladas por Margo. Em certa noite, se aproxima de Karen (Celeste Holm) - melhor amiga de Margo e esposa do roteirista Lloyd (Hugh Marlowe) - se apresentando como uma curiosa espectadora, que acompanha todos os movimentos de sua atriz fetiche. Não demora para que Eve esteja morando com Margo, onde passará a trabalhar como sua secretária, se tornando também sua protegida. Ainda que outras empregadas desconfiem das reais intenções de Eve - caso de Birdie (a sempre ótima Thelma Ritter) - Margo parece cega neste "novo relacionamento". "Eve é minha irmã, advogada, mãe, amiga, psiquiatra e polícia" chega a dizer em determinado momento, naquilo que considera uma verdadeira "lua de mel".



Só que não demora para que Margo perceba o verdadeiro jogo sórdido em que está se envolvendo ao constatar que Eve, com sua gentileza excessiva, sorrisos fáceis e polidez permanente, não passa de uma figura dissimulada e hipócrita, que não medirá esforços para alcançar aquilo que ambiciona para a sua ainda nem iniciada "carreira". Margo, com mais de 40 anos, já começa a ver rarearem os papeis que exigem mulheres mais jovens - ao passo que Eve, com sua doce juventude, não hesitará em oferecer os seus serviços no teatro (seja no papel de substituta ou mesmo chantageando amigos de Margo para que estes consigam papeis de destaque para ela). De quebra, Eve ainda conseguirá se aproximar do crítico de teatro Addison Dewitt (George Sanders, mais um grande nome do elenco estelar), tornando-se "amiga" dele e fazendo com que ele lhe escreva colunas favoráveis (o que parecia ser fundamental para o sucesso ou o ocaso de qualquer aspirante naquela época).

Nesse sentido, o filme de Joseph L. Mankiewicz é uma verdadeira coleção de grandes sequências - com várias forças trombando de frente e dirigindo-se palavras não menos do que irônicas e zombeteiras. A longa (e bela) sequência do aniversário de Bill, em que Margo diz a clássica frase "apertem os cintos, essa será uma noite turbulenta", é não menos do que memorável, com tantos diálogos e frases inesquecíveis, que seriam necessárias dúzias de parágrafos para honrá-las em toda a sua perfeição. Já a sequência em que Margo perde uma audição, sendo substituída por Eve é dramática e divertida na mesma medida - com Bette Davis afiadíssima na interpretação, dizendo tanto com as palavras cheias de ressentimentos (e escárnio) quanto com o seu indefectível olhar, melancólico, curioso e capaz de mostrar toda a devastação que lhe invade. Os demais astros do elenco não ficam atrás e não é por acaso que foram cinco as indicações para os atores - com Sanders faturando a estatueta como coadjuvante, Baxter e Davis concorrendo na categoria principal e Ritter e Holm como coadjuvantes.


Com quase setenta anos de seu lançamento, A Malvada segue sendo uma obra-prima metalinguística que serve não apenas como uma análise para o teatro, mas também para o cinema - especialmente pela facilidade com que vemos atrizes mais "veteranas", sendo substituídas por outras mais novas, em um implacável sistema de retroalimentação capaz de aposentar ídolos de uma hora para outra, sem muito ressentimento. Outros filmes, como o espetacular Crepúsculo dos Deuses também abordariam o tema de forma magistral - aliás, uma obra lançada inacreditavelmente no mesmo ano, e que perderia a principal estatueta da noite de premiações para A Malvada. Bette Davis já tinha uma longa carreira de acertos e erros quando gravou o filme - e mais tarde trabalharia em outras grandes obras, como o imperdível (e divertido) O que Terá Acontecido a Baby Jane?. Mas como nada acontece por acaso, a película de Mankiewiz também apresenta uma ainda novata Marylin Monroe em uma inesquecível ponta - também como uma atriz iniciante que tenta seduzir produtores em busca de um papel de sucesso. Algo que ela alcançaria mais tarde, afinal de contas, todos sabemos, a vida imita a arte.