sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Foi Um Disco Que Passou em Minha Vida - Nirvana (Nevermind)

He's the one
Who likes all our pretty songs
And he likes to sing along
And he likes to shoot his gun
But he don't know what it means
Don't know what it means
And I say, yeah

(In Bloom - Nirvana)

Eu tinha dez anos quando o Nevermind, do Nirvana, foi lançado. Dez. E apesar de já gostar de muito de música - os Beatles já eram uma paixão herdada, como relatei neste texto - demorei um bom tempo para perceber a grandeza daquilo que havia concebido Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl há exatos 30 anos. E talvez até hoje ainda não compreenda direito - especialmente quando ouço os acordes iniciais de Come As You Are em alguma rádio alternativa aleatória, que parece encravada em uma época que não volta mais. Aliás, uma época em que o rock talvez ainda fosse algo relevante. Foi bem mais tarde que eu fui prestar atenção no famoso disco da capa do bebê pelado perseguindo uma nota de dinheiro. O ensino médio já avançava. Entre uma partida de futebol na escola e a persistência em concluir algum jogo da franquia Streets Of Rage do Mega Drive, fui seduzido pelas imagens do clipe de In Bloom que, sinceramente, eu nem lembro direito de como foram parar na nossa televisão. Algum programa de variedades? Uma semi-embrionária MTV?

Sinceramente até hoje não sei. Existem memórias da nossa juventude que simplesmente se perdem por mais que tentemos evocá-las. Há algum instante meio nebuloso e nostálgico em que alguma coisa acontece mas nunca conseguimos materializa-la de forma palpável. É algo meio abstrato. Tão abstrato quanto assistir a uma banda de rock em um clipe em preto e branco, como se fosse em um programa de variedades, um vocalista loiro com óculos de nerd, todos de terninho cafona, um palquinho meio teatral (que mais tarde seria devastado naquela mistura sombria em caótica), uma guitarra pesada e bem arranjada, uma bateria bem pontuada, um refrão gutural e grudento. Sério, aquilo me fisgou. Eu precisava saber mais sobre essa música, sobre essa letra, sobre esses caras. Lembro que até obter minha edição do Nevermind em vinil - um dos poucos que preservo em minha modesta coleção, mesmo sem ter aparelho de som para ouvi-lo -, foi uma antiga cópia em K7 que movimentaria minhas tardes. Com In Bloom no talo. E todo o resto.

É claro que a fita acabou sendo a porta de entrada tardia para o meu mergulho no grunge - o que transformaria aquele adolescente magrelo de 1997 no excêntrico sujeito que usava uma camiseta xadrez AMARELA  e um All Star surrado. A tiracolo, a nova obsessão se tornaria obter alguns álbuns do Pearl Jam, do Alice In Chains, do Stone Temple Pilots e do Soundgarden (esse último também já devidamente homenageado nesse quadro tão subjetivo). Aliás, sobre o Pearl Jam, um parênteses: um dia ainda relatarei por aqui a EPOPEIA que foi obter o disco Ten, quase ao final dos anos 90. E a emoção que foi tê-lo em mãos pela primeira vez. Assim, nessa época, foi que o "pessoal de Seattle" se tornou parte da minha companhia oficial. Com o Nirvana sempre à frente, numa espécie de obsessão permanente, que tornaria até o Foo Fighters uma das bandas do coração por muito tempo. Como se a onipresença de Dave Grohl fosse capaz de garantir a manutenção do legado do próprio Kurt. Vai saber.

Hoje é o dia em que, de forma justa, os sites especializados em música prestarão a sua homenagem a esse disco que, talvez junto com o Ok Computer do Radiohead forme os dois grandes pontos de ruptura em matéria de rock noventista. Analisarão a importância de Butch Vig na produção e a evolução do coletivo - que inicialmente contava ainda com Pat Smear -, até chegar ao refinamento melódico que encontraríamos em Nevermind. E em canções como Lithium, Polly, Smells Like Teen Spirit, On A Plain e as já citadas Come As You Are e In Bloon. Todas, contra qualquer previsibilidade, hits radiofônicos. Todas nostalgicamente saborosas. Religiosamente ouvidas. Todas com suas letras viscerais e enigmáticas - repletas de metáforas sobre amadurecimento, Deus, violência, amizades, excitações e tristezas juvenis. Sim, hoje é dia de tudo isso para todos as páginas que se dedicam à música - e até para quem não sabe escrever sobre o tema, mas se mete, que é o nosso caso. Porque, aqui entre nós, todo o dia é dia de Nevermind. E isso nem sempre é algo fácil de descrever.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Na Espera - Não Olhe Para Cima (Filme)

Vamos combinar: o teaser de Não Olhe Para Cima (Don't Look Up) é curtinho, não mostra lá grande coisa, mas já é o suficiente para despertar nos fãs de cinema todos os tipos de curiosidade. Afinal de contas estamos falando do novo filme de Adam McKay - dos ótimos A Grande Aposta (2015) e Vice (2018) - que reuniu um elenco de peso de nomes, como, Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchett, Jonah Hill e Timothée Chalamet, entre outros, pra contar a história de uma dupla de cientistas que descobre que um meteoro irá se chocar com a terra em seis meses. No resumo divulgado há a informação de que a notícia é recebida com descrença pelo público. Bom, a gente sabe que cinema-catástrofe não necessariamente é sinônimo de qualidade. Aliás, quase nunca é! Mas aqui dá pra manter a esperança. A obra estreia no dia 24 de dezembro, na Netflix, e estamos mais do que ansiosos! Será que, a tiracolo, vêm as indicações ao Oscar? É aguardar.

Pérolas da Netflix - Febre do Rato

De: Cláudio Assis. Com Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Juliano Cazarré, Conceição Camarotti e Tânia Granussi. Drama, Brasil, 2011, 104 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Cláudio Assis sabe que seu cinema é provocador, iconoclasta e até eventualmente enigmático - como comprovam os ótimos Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006). Bom, não é diferente com o hermético Febre do Rato, que está disponível na Netflix. À moda de um Glauber Rocha urbano - com direito a fotografia em preto e branco (cortesia de Walter Carvalho) - o realizador mistura o caos da metrópole e todos os seus contrastes e complexidades, com o idílio poético que é evocado a partir da margem, do gritos dos excluídos, dos vulneráveis e daqueles que, no cotidiano, não são vistos. Nesse sentido o protagonista Zizo (o onipresente Irandhir Santos) se torna uma espécie de porta-voz dos oprimidos ao editar um periódico que dá nome ao filme. Mais do que isso, portando um megafone, trafega em meio aos desafortunados da periferia como se fosse uma espécie de profeta anarquista, que conclama o indivíduo para refletir sobre a coletividade.

Ao cabo é um filme que nos apresenta uma Recife distante dos cartões postais, entrecortada por casas paupérrimas e úmidas que, paradoxalmente, encontram-se abaixo dos prédios suntuosos que se avizinham. No entorno de Zizo que leva, não por acaso, o apelido de Poeta, o ecossistema é movimentado por outros sujeitos como o gracioso casal Pazinho (Matheus Nachtergaele) e a travesti Vanessa (Tânia Granussi) e o traficante Boca (Juliano Cazarré), que toma de assalto uma fábrica abandonada onde convive com os amigos Rosângela (Mariana Nunes) e Bira (Hugo Gila). Além das vizinhas Dona Anja (Conceição Camarotti) e Marieta (Ângela Leal) que, a despeito da idade mais avançada, "movimentam" a banheira a céu aberto do protagonista - local escolhido para que sejam despejadas as paixões carnais mais desvairadas daqueles que acompanhamos (e, admito, que é simplesmente impossível não rir dos movimentos frenéticos ocorridos nesse prosaico cenário).

Mas quem mexe MESMO com o "coração" - quer dizer, digamos que o coração possa aqui ser uma metáfora para outros órgãos - de Zizo é a jovem Eneida (Nanda Costa) que, a despeito de todos os esforços (e poemas) do protagonista, desvia de todas as suas investidas. Muito mais jovem do que o sujeito, o acompanha a distância em suas andanças, enquanto se diverte com Boca, Rosângela e os demais. Resta a Zizo ir para o bar da esquina, se lamuriar na companhia de Pazinho - que também anda encrencado com Vanessa - e se satisfazer de alguma forma com Dona Anja. Ainda assim a despeito das provocações sexuais diversas - existe uma inesquecível envolvendo uma máquina fotocopiadora - há um ponto em comum que move este coletivo que está a margem: o da luta apaixonada tão anárquica quanto sofisticada, tão violenta quanto engraçada. Todos, afinal, estão do mesmo lado na hora em que a polícia resolve descer a porrada em meio a uma manifestação tão pacífica quanto despudorada.

Em entrevistas, Assis não deixa de denunciar, em algum sentido, a hipocrisia da sociedade - que ele faz questão de avançar para seus filmes. Não por acaso, em entrevista ao Brasil 247 na época do lançamento da obra, ele afirmou que estava tentando alcançar os espectadores mais sensíveis: "não querem que eu diga de uma forma direta, do jeito que é, tudo bem, eu digo com poesia". O que não significa que a provocação não esteja em cada curva da película, seja em um diálogo mais controversamente divertido - como no instante em que Pazinho admite que Vanessa é o homem de sua vida -, seja no instante em que, se empenhando em conquistar Eneida, Zizo assista a ela urinando enquanto estica a mão para o seu mijo. Sim, o cinema de Assis é sobre o que der na telha, é sobre vontades. É sobre paixões, sobre gozos, sobre comportamentos, sobre diletantismo, sobre lutas, sobre sangue, sobre suor e sobre urbes que ardem em meio ao caos social. E talvez seja por isso que seja um cinema tão irresistivelmente nosso.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Cinema - Cry Macho: O Caminho Para a Redenção (Cry Macho)

De: Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Eduardo Minett, Dwight Yoakam, Natalia Traven e Fernanda Urrejola. Drama, EUA, 2021, 104 minutos.

Vamos combinar: toda vez que sai um novo filme dirigido e atuado pelo Clint Eastwood ficamos nos imaginando se este vai ser o seu aceno final rumo a aposentadoria. Difícil saber. Aos 91 anos o veterano ainda parece encontrar prazer não apenas em estar atrás das câmeras, mas também em se desafiar em frente a elas. Sim, não há mais o vigor de outrora. E a a figura máscula e decidida vista em seus grandes clássicos - especialmente os faroestes - deu lugar, definitivamente, ao senhorzinho de olhos cansados, que olha para o passado com nostalgia e um certo saudosismo. E aí o que acontece em suas mais recentes obras parece ser um clima de "tributo constante". E quem analisa cinema também acaba envolvido por essa atmosfera. Não esperamos mais a virilidade e a força daqueles tempos distantes. O que entra no lugar agora é a sabedoria. A experiência a ser repassada. O caráter contemplativo, quase existencial da vida como um projeto em que a missão foi cumprida. E tudo com a certeza, talvez paradoxalmente melancólica, de que o ocaso se aproxima. De que o fim está no horizonte.

E talvez por isso a informação que se tem é a de que a equipe de filmagem teria se emocionado ao ver o nonagenário Clint em cima de um um cavalo - sequência de Cry Macho: O Caminho Para a Redenção (Cry Macho) que ele se desafiou fazer. O mesmo valendo para o instante em que ele esmurra a cara de um bandido que pretende "sequestrar" o seu protegido. O que está em jogo em um filme do tipo é a proteção ao legado. Que vem acompanhado de uma pré-disposição nossa para passar pano para os eventuais equívocos narrativos, com um roteiro que ocorre sem maiores complexidades, com desafios mínimos (e em muitos casos não muito bem explicados). É uma forma de homenagear os esforços daquele que poderia estar na beira da praia, curtindo a família e cuidando da saúde, mas que prefere entregar aquilo que mais ama, no caso a sua arte, para o público que lhe acompanha de forma quase ardorosa.

Nesse sentido parece meio estranho dizer que o roteiro do filme - baseado na novela de Richard Nash - seja o de menos. Só que é difícil analisar uma obra dessas sem dosar as paixões. É como aquele grande jogador de futebol que já foi ídolo de nosso clube e que agora, próximo de pendurar as chuteiras, padece das dores da idade, das dificuldades decorrentes do esforço agora sem resposta. Clint fez tanto pelo cinema que o filmezinho água com açúcar à moda de um "faroeste da Sessão da Tarde" serve para que nos sintamos magnetizados pela sua inebriante presença. Mesmo que com ombros agora arqueados. Mesmo que com movimentos muito mais vagarosos. E com muitas cenas em que ele anuncia para o jovem Rafa (Eduardo Minett) - o qual ele está empenhado em trazer do México para a casa do seu pai, no Texas - que está indo dormir. Miko, o personagem de Eastwood, não esconde, afinal, que está exausto. Que está velho. Não tenta ser o que não é. E talvez seja isso que nos comova. Esse olhar para a realidade que sempre chega. Com a idade, com o peso, com a saudade.

Os obstáculos de Miko e Rafa pelo caminho pouco importam. Em meio as paisagens desérticas do Sul do Texas e do norte do México, o que ficam são as lições de vida. As últimas danças inesperadas. As amizades que surgem de improviso. No road movie que acompanhamos, muito mais do que um tiro bem dado ou um soco bem desferido o que ganha valor é a palavra bem aplicada. É a generosidade transmitida, como no instante em que Miko descreve o absurdo da persistência do "macho" como um valor - o que em uma sociedade tão machista e tão misógina não é pouco. Eastwood não vai ganhar o Oscar por esse papel. Aliás, provavelmente não será sequer indicado. Mas o filme tem belas ambientações, uma fotografia granulada que faz ressaltar o caráter "desértico" daquilo que acompanhamos. E que ainda apresenta um outro lado do México - o que na era pós-Trump não deixa de ser um aceno para o absurdo da xenofobia. Talvez seja insuficiente para muitos. Talvez o público esperasse mais. Mas no finalzinho do feriado essa obra nos abraçou. Nos fez refletir. Sobre tempo, sobre memória, sobre idade. Sobre vida e sobre morte. E isso, pra mim, é também uma experiência arrebatadora de cinema.

Nota: 8,0

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Pérolas da Netflix - Machuca (Machuca)

De: Andrés Wood. Com Ariel Mateluna, Matias Quer, Manuela Martelli, Ernesto Malbrán e Tamara Acosta. Drama, Chile / Espanha / França / Reino Unido, 2004, 116 minutos.

"Um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la". Quando olhamos para o Brasil contemporâneo é simplesmente impossível não pensar na frase atribuída ao filósofo e teórico político Edmund Burke - que, por ironia do destino, era um conservador. E o expediente se repete em toda a América Latina - e o filme Machuca (Machuca), do diretor chileno Andrés Wood, não deixa de ser um curioso exercício cinematográfico banhado em tintas lúdicas, mas que aproveita a história de amizade entre dois meninos que estão em extratos sociais opostos para traçar um painel do Chile nos tempos que antecederiam o Golpe Militar. E que deporia o governo democrático de Salvador Allende para implantar em seu lugar a ditadura de Pinochet. O pano de fundo político é composto por complexidades e ambiguidades que se estendem para essa história de formação que envolve o protagonista Pedro Machuca (Ariel Mateluna) e seu amigo Gonzalo Infante (Matías Quer).

A trama se passa nas dependências do Colégio São Patrício - conceituado educandário que é o escolhido pelos pais das famílias mais abastadas para o estudo dos seus filhos. Só que o governo socialista de Allende inspira os padres da instituição a implantarem uma nova política - tipo uma política de cotas -, que utiliza parte dos impostos dos ricos para que jovens em vulnerabilidade social possam estudar no local. É claro que a chance de não dar certo é grande, dadas as enormes diferenças existentes no miscigenado grupo. E a situação piora quando o grupinho dos ricos resolve fazer bullying com o recém-chegado Machuca. A provocação se estende à Gonzalo, que se recusa a participar dos ataques à Machuca. Em uma sequência tão agressiva quanto poética se forma uma amizade inusitada. Os dois afugentam os valentões e, dali para frente, não se "desgrudam", passando a brincar juntos e a fazer as lições. Condição que também possibilitará a ambos descobrir detalhes da realidade um do outro.

E acredito que justamente nesse ponto que o filme ganhe força, já que as famílias de ambos os meninos não estão em lados antagônicos apenas financeiramente, mas também em termos de política. Sem passar pano para os eventuais equívocos do governo Allende - lá pelas tantas a população passa a sofrer com o desabastecimento, ainda que as reformas propostas pelo presidente tenham sofrido com a estagnação e a falta de avanço perpetradas pelo Congresso -, a obra coloca as famílias mais pobres ao lado de Allende - que é saudado de forma comovente pelos humildes com um sonoro "Allende, Alende, teu povo te defende!". Do outro lado, as classes ricas anseiam pelo Golpe Militar, preocupadíssima com a ameaça comunista que, supostamente, rondava o Chile. A parafernália inclui desfiles em carros luxuosos, com a elite lutando para não perder os seus privilégios, mostrando-se insatisfeita com as reformas, especialmente a agrária, e a estatização. 

Não demora para que a violência se torne uma saída inadiável. Em lados destoantes, Machuca e Gonzalo querem apenas ser amigos. Mas como sustentar isso? Sendo crianças, não compreendem bem a complexidade daquilo que vivem - e a cena em que Gonzalo tenta esconder um panfleto socialista (com direito a foice e martelo desenhados) de sua família é apenas tragicamente divertida. Com ótima edição, que alterna cenas das passeatas, das lutas, com ótimos instantes "domésticos", o filme avança para a convulsão social sem necessariamente tomar partido - ainda que seja inevitavelmente nefasto perceber os efeitos de um governo militarizado, especialmente em uma escola. Aliás, a violência desmedidamente implementada nos faz perceber que, em partes, estamos o tempo todo tentando escapar de algo parecido por aqui - algo que as elites sonham em estabelecer, sempre empunhando as armas e a bíblia como mecanismo de força. A diferença é que, aqui, no momento, não há Allende. O presidente luta contra moinhos de vento, contra ameaças ilusórias, amparado por paranoias conspiratórias. Vamos repetir a história, como afirmou Burke, se assim continuar. E assistir ao povo, tal qual acontece com a família de Machuca, padecendo. É dolorido. Mas serve pra nos dar aquele chacoalhão.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Tesouros Cinéfilos - Carne Trêmula (Carne Trémula)

De: Pedro Almodóvar. Com Liberto Rabal, Francesca Neri, Javier Bardem, Penélope Cruz e Pepe Sancho. Suspense / Drama, Espanha, 1998, 98 minutos.

Não é tarefa fácil apontar o ápice do estilo bastante gráfico e um tanto quixotesco da obra de Pedro Almodóvar. Mas eu afirmaria sem medo de errar que o clássico moderno Carne Trêmula (Carne Trémula) é um dos candidatos a esse título "simbólico". Nessa história novelesca, afinal, encontramos uma série de elementos que marcam a filmografia do espanhol. Pra começar há um romance meio torto, de ares quase patológicos, que vai avançar para algum tipo de violência inesperada (mas nem tanto assim). Aliás, a tragédia humana, bem como suas coincidências desastrosas também é uma das marcas do realizador. Há uma sensualidade latente, que se sobressai em cada frame que, não necessariamente, precisa ser sexual. A profusão de cores, com a prevalência do vermelho, quase sempre transformam a fotografia em um elemento de ambiguidade, que faz a narrativa trafegar no limite entre a paixão intensa e morte iminente. E há por fim as figuras humanas demasiado humanas - que sorriem, choram, sofrem, amam, sentem medo, frustração e dor. Tudo ao mesmo tempo.

E há, como de praxe, o elenco irretocável que confere a tudo uma aura quase mágica. Na trama a gente volta no tempo, para o começo dos anos 70 num contexto em que os muros pichados e as reivindicações televisionadas dão conta dos reflexos da ditadura promovida pelo General Franco. Em meio as tensões é que a prostituta Isabel (Penélope Cruz) dá à luz o pequeno Victor (Liberto Rabal) - o parto ocorre em um ônibus em movimento, em mais uma daquelas sequências com um toque Almodóvar. O filme avança 20 anos no tempo para a Madri dos anos 90. Victor, agora, é um entregador de pizza que se vê apaixonado pela jovem descompromissada Elena (a bela Francesa Neri), que não quer nada com ele. Uma confusão no apartamento da moça resulta em um chamado à polícia, o que faz com que os agentes David (Javier Bardem) e Sancho (Pepe Sancho) sejam destacados para investigar. A ação resulta em tragédia: um tiro acidental torna David paraplégico. Já Victor amargará sete anos na cadeia.


E nesse tempo em que se mantém preso Victor acompanha à distância os acontecimentos que levam David a uma vida feliz - mesmo na condição de cadeirante, conseguiu se casar com Elena e ainda se tornou uma estrela da modalidade de basquete em cadeira de rodas (com direito a medalha olímpica nos jogos de Barcelona 92). A ideia do rapaz é se vingar e, bom, talvez seja melhor nem avançar demais na narrativa que reserva ótimas surpresas e reviravoltas tão desconfortáveis quanto inesperadas. Apostando no estilo novelesco - a obra é adaptada de um romance escrito por Ruth Rendel -, Almodóvar nos conduz por uma Madri em permanente construção em que a casa distopicamente destruída herdade por Victor de sua falecida mãe, contrasta com a construção de prédios em cores vivas do entorno. A metáfora parece óbvia: é hora de juntar os cacos. Mas será possível? O método escolhido não poderá resultar em uma trilha em que tudo (e todos) sairá ainda mais devastado?

Nesse sentido, o diretor não nos poupa de apresentar uma série de figuras ressentidas, desejosas de vingança e que buscam a redenção de uma forma bastante torta. Aliás, é quase difícil se afeiçoar de qualquer um que acompanhamos - todas figuras complexas, ambíguas, que possuem uma moral duvidosa, que dificilmente reconhece seus erros. Ao desejar tanto algum tipo de desforra, a situação se tornará insustentável - ainda mais quando, como parte do plano, Victor se aproximará de Clara (Ángela Molina), mulher do temperamental Sancho. É uma trama engenhosa, tensa, cheia de idas e vindas, que conta com uma trilha sonora envolvente (repleta de canções típicas espanholas), com tomadas de câmera inesperadas (a que nos leva ao ônibus no começo da obra é espetacular) e uma fotografia, como já dito, de cores vivas, quase saturadas. O resultado é um dos grandes filmes de Almodóvar que, não por acaso, pavimentaria o caminho para Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Fale com Ela (2002), duas de suas maiores obras.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Pérolas da Netflix - Crimes de Família (Crímenes de Familia)

De: Sebastián Schindel. Com Cecília Roth, Miguel Angel Solá, Yanina Ávila e Benjamín Amadeo. Suspense / Drama, Argentina, 2020, 99 minutos.

Dirigido por Sebastián Schindel, o argentino Crimes de Família (Crímenes de Familia) é aquele tipo de suspense dramático que coloca o espectador diante de uma espécie de quebra-cabeças que, paulatinamente, será desvendado. Como ocorre com muitos outros filmes que apostam no combo eventos traumáticos + relações familiares conturbadas, vai nos fornecendo pistas do que pode ter ocorrido com aqueles que acompanhamos - o que nos permitirá algumas deduções no decorrer da experiência. Na trama somos apresentados a uma família de alto poder aquisitivo, que vive em um bairro luxuoso de Buenos Aires - naquele estilo em que a perfeição dos moveis bem planejados e a organização tétrica de tudo parece ser inversamente proporcional aos segredos soterrados em cada silêncio mal resolvido, ou em cada olhar de lado diante do incômodo proporcionado por algum assunto que não é tão bem-vindo.

Nesse sentido, o filme já abre com uma sequência de teor entorpecedor, em que uma moça se movimenta vagarosamente por um corredor mal iluminado - ela parece ter sangue em suas vestes. Ela teria cometido um crime? Ou está fugindo de alguém? Não demora para que a gente saiba se tratar da empregada Gladys (Yanina Ávila) - que atende de forma silenciosa (e bastante zelosa) os caprichos dos patrões Alicia (a sempre ótima Cecilia Roth) e Ignacio (o veterano Miguel Angel Solá). Quando o casal recebe uma ligação da polícia, vai ao encontro do filho Daniel (Benjamín Amadeo, em caracterização impressionante), que está preso após violar uma medida protetiva envolvendo a sua ex-mulher Marcela (Sofía Gala) que, acusando o rapaz de uma série de crimes (inclusive de tentar assassina-la), o impede de chegar perto também da filha pequena (no caso a neta de Alicia e Ignacio).


Por ser reincidente, Daniel está em maus lençois. As sessões judiciais são emocionalmente desgastantes e a solução para os pais do jovem - que desconfiam bastante das intenções da ex-nora (que parece exagerar nas suas reivindicações) - envolverá um altíssimo investimento de dinheiro, com a contratação dos melhores advogados possíveis. Em paralelo, enquanto essa história familiar dolorida se desenvolve - muitas sequências são comoventes e nos fazem ter dúvidas o tempo todo (o que é resultado das belíssimas interpretações de todo o elenco) -, temos Gladys. Os flashbacks perturbadores em que ela aparece vão aos poucos formando um arco narrativo paralelo. Grávida, teria sido impedida de ser mãe novamente (ela já tem um filho pequeno), sob pena de perder o emprego. Em um "segundo" tribunal uma outra ação parece estar sendo julgada. Tudo parece nebuloso, complexo, mas o roteiro engenhoso nos deixará de olhos arregalados o tempo inteiro.

E, sinceramente, creio que não valha a pena avançar muito mais na história, sob pena de estragar algumas das boas surpresas que a trama nos reserva - e eu confesso que, como de hábito, fui bastante surpreendido pelas revelações que emergem dessa colcha de retalhos. É um filme na tradição do gênero e que não deixa de colocar o dedo na ferida no que diz respeito a discussões como hipocrisia das classes mais ricas (que acreditam que o dinheiro, ainda, pode comprar praticamente tudo) e como as relações de poder estabelecem alguns tipos de vínculos sociais viciados e que dificilmente são modificados. Em meio a tantos filmes meia bomba saídos da mais famosa plataforma de streaming do mundo, Crimes de Família não pesa a mão ao apostar em uma fotografia de cores palidamente acinzentadas e um desenho de produção correto e econômico - o que faz com que foquemos naquilo que realmente interessa, no caso, a história surpreendente. Vale conferir.


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Picanha em Série - The White Lotus

De: Mike White. Com Sydney Sweeney, Alexandra Daddario, Jake Lacy, Murray Bartlett e Jennifer Coolidge. Comédia dramática, EUA, 358 minutos, 2021.

Após assistir The White Lotus - mais uma dessas joias oferecidas no catálogo da HBO Max -, eu só posso dizer muito obrigado. Muito obrigado à plataforma de streaming por nos possibilitar acesso a tantos conteúdos de qualidade, como essa minissérie dirigida por Mark White. Como em muitos outros materiais semelhantes, o que rege a narrativa aqui é a mesquinharia, a futilidade e a hipocrisia das classes mais abastadas. A trama toda se passa num resort de luxo no Hawai e, de maneira bem resumida, trata das complexas relações - de poder, inclusive - entre os turistas e os empregados do local. E sobre como o privilégio branco se perpetua e se retroalimenta de uma forma praticamente infinita, com os ricos demonstrando uma insatisfação permanente, mesmo quando envolvidos em férias suntuosas, em locais paradisíacos. Sabe o tiozinho classe média que dá carteiraço por ter algum carguinho em algum órgão ou instituição meia boca e que se dá uma importância maior do que realmente tem? Bom, ele faria uma figuração perfeita nessa série.

Aliás, nesse sentido é uma série que nos gera o tempo todo um sentimento de profunda vergonha alheia, especialmente por não estabelecer limites no comportamento desconfortável, individualista e ordinário daqueles que acompanhamos. Por exemplo, um dos personagens, Shane (o ótimo Jake Lacy) está em lua de mel no resort. A despeito de estar bem instalado em um hotel à beira da praia, com piscina e tudo do bom e do melhor - pago com o dinheiro da mãe endinheirada (Molly Shannon) -, Shane não consegue saborear a experiência pelo fato de acreditar estar sendo enganado pela gerência do local (que o teria instalado em um quarto que não estaria plenamente de acordo com aquele que foi contratado). Mas aqui não estamos falando de um quarto ruim, ou mal situado. É um espaço amplo, confortável, com deck e vista para a praia, com mobiliário bonito, roupas e banheiros limpos. Mas o jovem encafifa que a instalação contratada pela mãe foi outra: premium. A mais gold de todas. E que lhe diferenciaria, portanto, em relação aos demais frequentadores do local.

Parece meio bizarro que Shane não consiga relaxar em momento algum e que se comporte dessa maneira por quase a totalidade do tempo? Não. Não, se pensarmos em como se age a nossa elite, que, em muitos casos, é incapaz de pensar no bem-estar coletivo - salvo as raras exceções em que participam de alguma ação de caridade na igreja do bairro (ou no Rotary) e que certamente não passará batida pelos discursos laudatórios da mídia. Acompanhando Shane, a bela esposa Rachel (Alexandra Daddario) se torna uma figura apagada. Jornalista de formação, é proibida pelo marido de trabalhar. Ainda mais como freelancer. Em uma pauta que ele próprio considerava ridícula. Assim, se torna a mera esposa troféu, que é levada pra lá e pra cá, enquanto o marido truculento sapateia pelo local, perseguindo de maneira quase enlouquecedora o gerente Armond (o maravilhoso Murray Bartlett) que, com um sorriso permanente no rosto, parece sempre disposto a atender os caprichos dessa burguesia vazia, infantilóide, solitária e infeliz.

E aqui eu estou falando de um recorte - e um arco narrativo - de uma série que possui ainda muitas outras camadas, e mais um outro tanto de figuras patéticas. Há a solteirona depressiva de terceira idade, que pretende jogar as cinzas da falecida mãe castradora no mar (Jennifer Coolidge), há o casal de meia idade em crise, que parece ser progressista só no discurso (Connie Britton e Steve Zahn) e que está o tempo todo em guerra com os filhos adolescentes (Sydney Sweeney e Fred Hechinger). Há os empregados que precisam lidar com os caprichos - e as loucuras - do local. Colocar em palavras a complexidade dos temas debatidos em The White Lotus é reduzir o impacto de discussões que podem ir de sexualidade reprimida e racismo estrutural, passando por abuso de poder (e de medicamentos) e até a misantropia dos nossos tempos. E tudo ainda embalado por uma trilha sonora maravilhosa, uma edição dinâmica e uma fotografia de cores quentes, que contribuem para a ampliação da sensação "febril" que parece nos envolver enquanto acompanhamos essa trama tão engenhosa. Vale cada fragmento. Cada segundo. Quase esqueço de comentar: ainda há o mistério que envolve uma morte. Pra quem gostou de Big Little Lies e Years and Years poderá ser mais uma ótima sessão. 

Novidades em Streaming - Suor (Sweat)

De: Magnus von Horn. Com Magdalena Kolesnik, Aleksandra Kolieczna e Julian Swiezewski. Drama, Suécia / Polônia, 2020, 106 minutos.

"E fora do story, tu tá bem?". A pergunta que virou meme recentemente nas redes sociais reacendeu a discussão: vestimos máscaras nas redes sociais? Somos nós que aparecemos verdadeiramente nas publicações que fazemos - especialmente as do Instagram, onde a ordem parece ser manter uma atitude permanentemente otimista? Ou é tudo um faz de conta em que "publis" e "recebidos" cheios de sorrisos são substituídos pela vida real? Bom, a intenção desse jornalista que vos tecla nesse modesto site não é apelar pra psicologia barata e sim falar de um filme polonês que trata de forma magistral essa temática - no caso o ótimo Suor (Sweat). Disponível na plataforma Mubi, a obra nos apresenta à influenciadora digital fitness Sylwia (Magdalena Kolesnic), uma verdadeira celebridade das mídias digitais, que atraiu milhares de seguidores postando seus treinamentos e exercícios cheios de energia, de cores e de vida.

Requisitada para participar de programas de TV, reconhecida pelas pessoas nas ruas e amada pelos seus seguidores, Sylwia parece ter uma vida perfeita: tem dinheiro, tem saúde, tem amigos, mas... será mesmo tudo tão bom assim? O que o filme do diretor Magnus von Horn faz, com maestria diga-se, é nos mostrar um outro lado - no caso o lado menos glamouroso dessa rotina. Hábil, o diretor faz com que modifiquemos o tempo todo o nosso pensamento sobre a protagonista que acompanhamos - e, nesse sentido, é bastante natural que façamos um julgamento prévio a respeito da natureza do comportamento da bela jovem, que será substituído mais tarde por uma outra percepção. Especialmente quando percebermos que todas as suas supostas virtudes servem apenas como uma fachada que esconde uma existência solitária e, vá lá, talvez até com alguns problemas de autoestima e autoaceitação.

Vamos combinar que deve ser um saco ter de aparentar felicidade em um dia em que não necessariamente estejamos alegres - e o que essa bela experiência fílmica faz é humanizar o influenciador digital. Sim, pode parecer incrível, mas por trás dos dentes perfeitos e da maquiagem sempre impecável há um ser humano: cheio de falhas, de medos, de inseguranças, de anseios. Aliás, um dos desejos que Sylwia manifesta em uma de suas lives para os seus seguimores tem a ver com a vontade de ter um namorado. Alguém pra amar, simplesmente. Pra lhe acarinhar. Pra assistir Netflix debaixo das cobertas. Só que expor esse tipo de fragilidade (?) nas redes sociais significa desgastar a sua imagem - especialmente em relação aos patrocinadores, aos investidores. Sim, o público pode até eventualmente gostar: o vídeo viraliza, gera engajamento. Mas é um burburinho que, na bolsa de valores das estrela, tem impacto negativo. E como contornar isso? E, pior, todo o santo dia?

Sem fazer julgamentos o filme deixa as conclusões em aberto - sem nos deixar de fazer refletir sobre temas como culto às celebridades, dificuldades de relacionamento e mesmo a necessidade permanente que temos de expor a nossa vida pessoal nas redes. Até que ponto isso é saudável? Quando acompanhamos Sylwia sofrendo para estabelecer qualquer tipo de conexão emocional (ou química) com um candidato a namorado ou mesmo para conseguir sucesso em qualquer conversa com a sua mãe, percebemos que todas essas questões não tem respostas fechadas. Ao mesmo tempo, a jovem não parece genuinamente feliz quando está fazendo aquilo que mais ama - seus exercícios, em rede nacional -, sendo adorada por uma horda de pessoas que sonham em uma vida cor de rosa como a dela? É desse contraste, que se estende aos aspectos técnicos - a fotografia que se alterna entre a riqueza de cores do universo barulhento e fake dos treinos e o cinza dos instantes introspectivos e silenciosos é um achado -, que von Horn extrai a matéria-prima para esse filme imperdível.

Nota: 8,5

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Ar Condicionado (Angola)

De: Fradique. Com José Kiteculo, Filomena Manuel, David Caracol e Adalberto Cawaia. Drama, Angola, 2020, 72 minutos.

Símbolos de status social, os ares-condicionados têm sido motivo de preocupação em Luanda, capital de Angola. É no local que as autoridades investigam um evento insólito: de forma meio inexplicável, os equipamentos estão se desprendendo dos prédios e... caindo. Sim, é essa trama em tom de fábula que rege a narrativa do curioso Ar Condicionado, filme angolano que está disponível na plataforma Mubi. Pouco convencional, o roteiro é costurado por uma série de instantes em que acompanhamos a rotina de Matacedo (José Kiteculo), uma espécie de zelador/segurança de um condomínio em que os aparelhos refrigeradores têm despencado. Orientado pela amiga e faxineira Zezinha (Filomena Manuel), Matacedo deve ir até a eletrônica do Sr. Mino (David Caracol), para tentar reaver o ar condicionado do irritadiço chefe de Zezinha. O calor é escaldante. As ocorrências são exóticas. A imprensa fala em teorias conspiratórias envolvendo acordos bilaterais entre Angola e China. Não há nenhuma certeza.

Em linhas gerais, o filme dirigido por Fradique - e que tem tido ótima recepção da crítica, tendo faturado uma série de prêmios internacionais -, é recheado de camadas e não pretende entregar respostas fáceis. Como um observador do cotidiano, Matacedo circula pelos corredores, escadarias e ruelas que envolvem o condomínio com uma placidez que quase destoa da balbúrdia caótica da capital africana. Há aqui e ali discussões que envolvem problemas ambientais, ausência de uma política Estado que promova a sustentabilidade, contrastes sociais e traumas que aludem à Guerra Civil enfrentada pelo País. O calor claudicante e a reação bizarra dos aparelhos parece ser uma resposta meio generalizada a tudo: no simbolismo da interrupção da geração do condicionamento há também a análise de uma sociedade que se comporta de forma letárgica, paralisada, permanecendo em um meio termo entre passado e futuro.


Nesse sentido, talvez não haja personagem mais envolvente do que o misterioso Sr. Mino, que esconde uma série de segredos em meio aos eletrônicos velhos que ocupam sua oficina. Em uma sequência singular, que mais parece saída das páginas de algum livro tipo Ficções, de Jorge Luis Borges, o veterano de ocupa de construir uma engenhoca que promete "resgatar memórias". Uma vez envolvido com ela, Matacedo passa a ter devaneios cheios de frescor, de cores e de músicas que remetem a algum tipo de período nostálgico que, agora, não mais existe. Matacedo, aliás, parece estar sempre buscando alguma coisa, mas não sabemos exatamente o quê. Em cada beco, nas conversas telepáticas com outros imigrantes, na persistência com que exerce seu ofício, no silêncio diligente com que acompanha os movimentos da vizinhança, em tudo parece haver uma predisposição para continuar. Ainda que não se tenha certeza de para onde.

Ao cabo trata-se de uma experiência cinematográfica de grande riqueza técnica, que aposta em longos planos-sequência e em ângulos de câmera desafiadores, que nos fazem observar o tempo todo o topo, o alto dos prédios (como se aguardássemos a tragédia, a queda inesperada, o acidente de percurso inusitado). Já a trilha sonora tropical, de notas primaveris - cortesia da compositora Aline Frazão -, vai no limite entre o contemporâneo e o ancestral, entre o moderno e o arcaico, contribuindo para o clima geral de estranhamento exercido pela narrativa. Eu confesso que nunca havia assistido um filme angolano e confesso que fiquei impactado positivamente - especialmente por saber que existem outros polos, com realizadores e coletivos que investem em contar histórias locais, que dialogam com temas universais. Além de tudo tem o fato de ser curtinho - pouco mais de 70 minutos, o que também não deixa de ser um atrativo.


segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Cafarnaum (Líbano)

De: Nadine Labaki. Com Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Cedra Izam e Nour El Husseini. Drama, Líbano, 2018, 126 minutos.

Uma pesquisa no Google pelo verbete Cafarnaum nos leva a duas explicações que, de alguma forma, se entrecruzam. De um lado temos o resultado geográfico - uma cidade bíblica que ficava às margens do Mar da Galileia, onde Jesus teria realizado alguns de seus milagres. Já o substantivo masculino tem como sentido "o local onde há tumulto e desordem ou onde objetos diversos são amontoados". Essa sensação de caos permanente, de profunda instabilidade - seja material, emocional ou qualquer outra -, é aquilo que encontramos no ótimo (e dolorido) Cafarnaum (Capharnaüm), obra-prima do cinema libanês, dirigida por Nadine Labaki. Nela somos apresentados ao jovem Zain (Zain Al Rafeea) que, aos 12 anos precisa lidar com tantos problemas ao mesmo tempo - entre eles cuidar dos vários irmãos que vivem em um pequeno cortiço com os pais e ainda trabalhar em um mercadinho próximo -, que é simplesmente impossível não ter empatia quando ele se revolta em relação a esse universo tão duro, tão desalentador, tão injusto.

Quando o filme começa a gente já sabe que houve um crime envolvendo Zain. Pelo pesado sistema judicial do Líbano não parece haver nada de errado em conduzir uma criança de 12 anos algemada, tribunal adentro, pra lhe ouvir sobre suas defesas e lhe conceder algum veredicto. Quando a obra volta no tempo descobrimos que a gota d'água para o pequeno foi o casamento que foi arranjado para a sua irmã Sahar (Cedra Izam), uma pré-adolescente que mal passou pela primeira menstruação que é simplesmente entregue, pela própria família, a um certo Assaad (Nour El Husseini), um homem bem mais velho do que ela. Esse contexto de naturalização da pedofilia, ainda que não totalmente compreendido por Zain (talvez não nesses termos), revolta o garoto. E o faz fugir de casa para morar na rua, junto a outros refugiados. Em um dia qualquer em um parque de diversões, ele conhece a jovem etíope Rahil (Yordanos Shiferaw) que, mãe de um pequeno bebê, acaba "adotando" Zain.

Ainda que o sofrimento seja levemente "amenizado" por essa relação simbiótica entre Zain e Rahil - ele a auxilia com o seu bebê enquanto ela trabalha, ela o alimenta e cuida como se fosse uma mãe emprestada -, a dor do pequeno não se encerra já que a sua via crúcis diária continua. No Líbano de Labaki não há espaço algum para a romantização da pobreza - como costumamos ver naquelas obras estilizadas da Netflix, que embalam os contrastes sociais em um forçado caleidoscópio cultural que serve muito mais para "maquiar" os problemas do que para discuti-los. Na desordenada Beirute, a cidade surge como um conglomerado acinzentado e nada harmonioso de prédios, havendo pouco espaço para a natureza, para as cores, para as artes, para qualquer respiro. O comércio de rua é anárquico, a sensação é de opressão constante, como se observássemos uma verdadeira selva em que um tenta enganar o outro, que tenta enganar o um. Os crimes são a céu aberto: tráfico de crianças, pedofilia, furtos, agressões. Se Zain pudesse, ele jamais teria vindo pra esse mundo. Aliás, ele não queria ter vindo pra esse mundo. E a sua luta nesse sentido é tão comovente quanto surpreendente.

E talvez não seja por acaso que uma das mais doloridas sequências de Cafarnaum seja aquela no parque de diversões. Sozinho, Zein anda na roda gigante com a expressão entediada, desinteressada. Olhar a cidade de cima não lhe surpreende, não lhe amedronta. O que para qualquer outro jovem seria motivo de assombro, para ele é apenas enfado. Não há prazeres na existência miserável. Brincar? Retirar a roupa de um manequim gigante em um dos brinquedos do parque? Correr na aridez da terra? Quando Zain é separado de sua irmã - que também era sua melhor amiga, sua confidente -, ele perde boa parte de sua motivação para continuar. Reencontrando-a aqui e ali, aos cacos - até o momento em que a realidade reaparecerá para lhe dar uma nova porrada. O Líbano parece ter lá as suas belezas - tem história, tem uma cultura milenar, tem atrações turísticas. Mas o que interessa para a diretora é o que ocorre nas vísceras do País. Em suas entranhas. E é por isso que seu cinema é tão vigoroso a ponto de Cafarnaum ter recebido uma indicação ao Oscar e ter recebido o prêmio do Júri no Festival de Cannes.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Tesouros Cinéfilos - No Ritmo do Coração (CODA)

 De: Sian Heder. Com Emilia Jones, Marlee Matlin, Troy Kotsur, Daniel Durant e Eugenio Derbez. Drama, EUA, 2021, 111 minutos.

Em uma das tantas cenas maravilhosamente divertidas de No Ritmo do Coração (CODA), o professor de música Bernardo Villalobos (Eugenio Derbez) lembra a uma de suas alunas a frase dita por David Bowie, na canção Song for Bob Dylan (Escrevi uma canção para você / Sobre um homem jovem e estranho / Chamado Dylan / Com uma voz como areia e cola). Bernardo - ou Sr. V, como gosta de ser chamado -, tenta explicar pra sua pupila o fato de que não basta apenas ter uma bela voz: é preciso também ter o que dizer. Saber o que fazer com ela. Dylan, todos sabemos, sempre soube o que dizer. Com sua voz arenosa, eventualmente claudicante. E a lição que fica para Ruby (Emilia Jones), a protagonista dessa joia dirigida por Sian Heder - e que é uma refilmagem do francês A Família Bélier (2014) -, é a de que há muitas outras formas de comunicar aquilo que desejamos. E que nem sempre uma voz imponente será suficiente para isso. Não que Ruby não soubesse disso. Ela sabe. Especialmente por ser a única pessoa capaz de falar em uma família em que os pais Frank (Troy Kotsur) e Jackie (Marlee Matlin) e o irmão Leo (Daniel Durant) são surdos.

Sim, Ruby pode se expressar com a voz em meio a uma família em que a linguagem de sinais prevalece cotidianamente. Apesar das dificuldades, o quarteto, que trabalha em uma colônia de pescadores em uma pequena cidade da costa dos Estados Unidos, mantém a harmonia. O que não significa que não haja conflitos e não será preciso ser nenhum adivinho para saber que o sonho da jovem em se tornar uma intérprete - com direito a uma bolsa de estudos em um conservatório -, encontrará como principal barreira os próprios pais. Acostumados a uma vida dedicada ao trabalho, Frank e Jackie contam com Ruby quase como uma porta-voz entre os "falantes" que habitam seu universo - sejam eles clientes, fornecedores, empregadores ou os colegas de sindicato. Quando Ruby começa a se destacar em uma atividade extracurricular no coral de escola, o Sr. V percebe o seu imenso potencial. E será necessário explicar aos pais que vivem em um universo ausente de sons, como aquilo pode ser não apenas importante para a jovem, mas também a realização de seu maior sonho.

Nesse sentido, o filme é pródigo em estabelecer um outro contexto para o conceito de "pais castradores", uma vez que Frank e Jackie se comportam dessa maneira muito mais pelas dificuldades em acessar o universo da filha - que mantém algum sigilo, por certo tempo, sobre as aulas de música -, do que por um eventual radicalismo ou por excessos disciplinares. Não por acaso, os pais são retratados como figuras afáveis que possuem uma grande paixão pela vida - e entre si e com os filhos -, o que torna a experiência absolutamente agradável, leve. Condição que garante um bom espaço, inclusive, para risadas - a cena em que Frank explica ao jovem Miles (Ferdia Walsh-Peelo) como utilizar a camisinha (tudo em uma linguagem de sinais bastante exagerada, claro!) é não menos do que ótima. O mesmo valendo para os métodos de aprendizado nada ortodoxos do Sr. V, que estabelece uma química vibrante com a protagonista.

Bem executada também na parte técnica, a obra guarda alguma semelhança com os esforços propostos pelo ótimo O Som do Silêncio (2019), inclusive nas elipses que envolvem a completa falta de "ruídos"  - e há uma sequência, em especial, que não é apenas perfeita nesse sentido, já que ela também é bela ao evocar outras sensações provocadas pela música e que vão para muito além da simples expressão sonora (sim, creiam, vocês se comoverão). Já a paleta de cores é agradável e primaveril, adotando pequenos contrastes entre a enseada cinzenta da orla (e do trabalho com a pesca) e as tonalidades vivas vistas em figurinos e outros adereços que envolvem o universo das artes. E se já não bastassem todos esses predicados, o filme ainda tem como atrativo o fato de que os atores que interpretam surdos serem efetivamente surdos - o que foi uma exigência de Matlin, assim que foi escalda. Ainda é muito cedo pra falar em indicações ao Oscar - o drama venceu o Festival de Sundance. Mas é uma obra tão deliciosamente fantástica, que estamos na torcida!

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Pitaquinho Musical - CHVRCHES (Screen Violence)

Esqueçam o disco de 27 músicas e quase duas horas provavelmente insuportáveis disponibilizado neste final de semana e mantenham o foco naquilo que interessa: os escoceses de CHVRCHES lançaram na sexta-feira (27/08) o seu quarto registro de inéditas. Intitulado Screen Violence o trabalho é, sem sombra de dúvidas, mais um que deverá ser figurinha certa nas listas de melhores do final do ano. Retornando à boa forma mostrada no inaugural The Bones of What You Believe (2013) - álbum que tinha, entre outras, os hits The Mother We Share e We Sink - Lauren Mayberry, Iain Cook e Martin Doherty apostam novamente no synthpop movimentado, eventualmente soturno, recheado por refrãos grudentos, que deixam para trás a má impressão causada pelo pouco inspirado Love Is Dead (2018). Ainda que produzido em um contexto de pandemia, o disco opera no modo "esperamos vocês no estádio pra cantar junto conosco". Sim, as letras podem soar melancólicas, reflexivas - a perfeita Violent Delights fala de morte de uma forma sombriamente romântica (aliás, condição que se estende a capa do projeto) -, mas a dor é convertida em redenção, a cada evolução robótica da melodia. A conclusão é a de que dá pra falar do mal-estar do mundo, da tecnologia empregada de forma difusa, da violência cotidiana e da fragilidade das relações. E ainda fazer um verdadeiro hinário em forma de álbum.


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Cine Baú - Casablanca (Casablanca)

De: Michael Curtiz. Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains e Dooley Wilson. Drama / Romance, EUA, 1942, 102 minutos.

Acho que já podemos deixar uma coisa combinada na abertura dessa resenha: em matéria de cinema, a palavra "clássico", no dicionário, bem que poderia (ou deveria) vir acompanhada de uma foto de Casablanca (Casablanca). Afinal, o filme de Michael Curtiz é o CLÁSSICO por excelência. Com todas as letras! Pra começar, trata-se de uma grandiosa história de amor, em meio a um contexto de guerra. Aliás, a ousadia de falar sobre a perseguição promovida pela Alemanha nazista em meio aos anos em que se desenrolava o conflito, também merece crédito. Há ainda um inesquecível "casal" de estrelas de Hollywood - no caso Ingrid Bergman e Humphrey Bogart. Há o roteiro engenhoso, sinuoso, pontuado pelos diálogos tão envolventes quanto cínicos. Por fim existe ainda a riqueza técnica, que vai da construção do cenário que reproduz a cidade que fica ao Norte do Marrocos, até chegar aos jogos de luzes, passando ainda pelo uso da música e pela edição de uma fluidez comovente. Tudo é engenhosamente perfeito. 

Tão perfeito que Casablanca, quase oitenta anos após seu lançamento, segue sendo uma prazerosa experiência fílmica. Que nos joga para dentro do fervilhante Rick's - o caleidoscópico bar/cassino de propriedade de Rick Blaine (Bogart) -, para nos apresentar um sem fim de figuras que trafegam naturalmente pela boemia, de garçons e músicos passando por jogadores vigaristas e empresários sem muitos escrúpulos. No ambiente que é preenchido pela música quase onipresente, a câmera flana de um lado para o outro, o que nos revelará um outro lado desse contexto, que é quebrado pela guerra que se impõe. Casablanca, a cidade, é uma espécie de rota quase obrigatória para quem pretende fugir da América para a Europa, fazendo uma ponte entre Marselha, no Sul da França, e Lisboa, em Portugal. E, portanto, o município marroquino também é povoado por generais, capitães e outros líderes do conflito que movimentam peças de xadrez, enquanto os oprimidos confabulam pelas frestas em busca do sonho de liberdade.

Um desses sujeitos que pretende empreender uma fuga é um certo Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência tcheca que chega ao bar acompanhado da estonteante Ilsa Lund (Bergman). Uma troca de olhares entre Ilsa e Rick é o suficiente para que saibamos: há algo a mais entre os dois do que o mero flerte descompromissado. Enquanto Laszlo se ocupa em tentar obter os salvos-condutos que, aparentemente, estão perdidos após o trapaceiro Ugarte (o ótimo Peter Lorre) ser preso, Ilsa e Rick apelam a melodramáticas reminiscências ao som da inesquecível As Times Goes By, tocada majestosamente pelo pianista Sam (Dooley Wilson). Em meio a tudo, o terrível major Strasser (Conrad Veidt) estuda a melhor estratégia para executar seus planos em território não ocupado, enquanto o capitão Renault (Claude Rains) se comporta de forma ambígua, tentando estabelecer limites em meio a todas as forças que se interpõem - enquanto escancara o amor oblíquo que parece verter de seu coração, a cada nova paixão que se apresenta.

É um filme tão completo que é costuma ser lembrado pelos mais variados motivos. Entre elas há as frases memoráveis - "estou de olho em você, garota", "nós sempre teremos, Paris", "Louis, acho que este é o começo de uma bela amizade", "reúna os suspeitos de sempre", "toque novamente, Sam" - e, não por acaso, em uma lista com as maiores citações da história do cinema elaborada pela AFI, Casablanca aparece com seis. Há também uma reviravolta impactante, que torna o final paradoxalmente feliz - teria Rick tomado a atitude correta, nos instantes decisivos do filme? Os figurinos charmosos, os jogos de luzes - repare no brilho ofuscante de Ilsa, quando da cena em que ela chega de volta ao bar, na madrugada -, o romantismo quase kitsch, que se repetiria tantas vezes depois (até mesmo em paródias). O filme de Michael Curtiz é tão maravilhoso, que a premiação máxima no Oscar chega quase a ser pouco. A obra integra o cânone das grandes, aparecendo em absolutamente todas as listas de melhores de todos os tempos - na da AFI é a segunda colocada. E pode ser a porta de entrada ideal para quem quer mergulhar no universo dos "filmes em preto e branco". E dele não sair mais.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Novidades em Streaming - An American Pickle

De: Brandon Trost. Com Seth Rogen, Sarah Snook, Carol Leifer e Betsy Sodaro. Comédia, EUA, 2020, 89 minutos.

Devo confessar a vocês que foi a trama excêntrica de An American Pickle aquilo que me atraiu para essa comédia bobagenta da HBO Max. E o melhor de tudo: não me arrependi! E olha que aqui está falando um sujeito que já anda bastante saturado daquele humor meio "mangolão" que costuma ter o Seth Rogen como protagonista. Mas aqui o negócio funciona direitinho - especialmente no que diz respeito aos contrastes existentes entre um judeu do começo do século 20, que precisa (re)aprender a viver no universo tecnológico (e recheado de extremismos) dos dias de hoje. A narrativa nos apresenta a um certo Herschel Greenbaum (Rogen), um operário que migra para os Estados Unidos em busca do sonho americano, depois de os cossacos destruírem o vilarejo em que ele morava, em algum lugar da Rússia Oriental. Tudo corria relativamente bem na fábrica de pepinos em conservas que ele trabalhava até o dia em que, acidentalmente, ele cai em um tanque de picles, permanecendo na salmoura por... 100 anos!

Sim, ninguém percebe o acidente, já que a fábrica é lacrada ainda em 1919 por um problema envolvendo o excesso de ratos no local. Só que 100 anos depois uma dupla de meninos descobre o corpo do homem. Que não apenas está vivinho da silva, como não envelheceu um "milímetro" sequer. Sem se ocupar demais com a curiosidade natural que o fato poderia gerar na comunidade científica - e na imprensa sensacionalista em geral -, o filme do diretor Brandon Trost pula estas etapas indo direto para a parte em que ele encontra um de seus descendentes - no caso o bisneto Ben Greenbaum (também interpretado por Rogen), que trabalha como desenvolvedor de aplicativos. É óbvio que não será necessário ser nenhum adivinho para imaginar que será a partir desses contrastes que emergirão as melhores piadas da obra. Com os dois não apenas tendo dificuldade para se entender como ainda disputando espaço no "mercado".

 
 
A situação se complica verdadeiramente quando o "viajante do tempo" percebe que o cemitério em que estão enterrados seus parentes está abandonado e ainda é ocupado pela iniciativa privada. Uma briga generalizada com operários acaba indo parar nas redes, o que compromete os negócios do jovem Greenbaum. Separado de seu único parente, o veterano resolve investir na única coisa que sabe fazer: pepinos em conserva. Sem capital, ele cata a matéria-prima no lixo, envasa em vidros que não passariam nem perto de uma avaliação positiva da vigilância sanitária e ainda completa o combo, utilizando água da chuva reaproveitada no processo. Nas ruas, o bisavô Greenbaum se torna um sucesso entre os hipsters do Brooklyn, que elevam a sua figura singular - o que se estende a barba farta e ao modo de se vestir -, a uma personalidade hypada do ramo gastronômico. Não demora para que ele figure em sites, blogs, tik toks. Sua fama aumenta, na mesma medida do golpe, que envolve uma balela sobre cultivo de alimentos orgânicos, sem agrotóxicos e adquiridos por meio de produtores locais.

É claro que a gente sabe que essa história toda tem os dias contados, mas até lá temos uma ampla oferta de piadas que envolvem as extravagâncias dos padrões de consumo de hoje - a irritação de Herschel ao perceber que a vodka, nos dias de hoje, é misturada com... baunilha, é ótima -, até a cultura do cancelamento gestada pelas redes sociais. Nesse sentido, não há melhor momento do que aquele em que o veterano começa a colocar as suas "opiniões impopulares" no Twitter, o que faz com que atraia um sem fim de conservadores reacionários americanos - adeptos de Deus, da família e das armas (e muito provavelmente votantes do Trump). Sim, é meio besta. Sim, a lição de moral sobre unir esforços por um bem maior é meio óbvia. Mas faz rir, tem boas referências culturais e ainda é tecnicamente bem feito (o desenho de produção das cenas do passado, é digna de grandes obras de época). O que comprova mais uma coisa: até quando a HBO Max produz algo que teria tudo pra dar errado, ela acerta. 

Nota: 7,0

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Podcast do Picanha Cultural #10 (Segunda Temporada) - Filmes Esportivos

Sim, a gente sabe que está bem atrasado. Aliás, completamente atrasado. E que as Olimpíadas parecem ter acabado, sei lá, no século passado. Tudo é tão rápido nesse mundo que quando a gente pensou em homenagear os Jogos de Tóquio com um episódio especial com filmes esportivos, bem, lá estava a Rebeca Andrade carregando a nossa bandeira na cerimônia de despedida. Com o mundo todo já projetando Paris, em 2024. Mas a gente é assim mesmo: com um "orgulho meio envergonhado" (se é que isso é possível) de estar meio deslocado no espaço-tempo, resolvemos manter o nosso tema. Até mesmo porque o encantamento provocado por Isaquías, Rayssa, Ana Marcela, Abner, Beatriz, Alison, Kelvin, Thiago, Mayra e tantos outros não cessa. Até os "não campeões" - caso do Darlan Romani - tem muito a nos ensinar sobre espírito esportivo, luta, esforço, superação. Então embarque conosco nessa jornada e reverencie essa verdadeira coleção de grandes obras que tem o esporte como pano de fundo. De clássicos como Carruagens de Fogo (1980), passando por alternativos como Febre de Bola (1997) até chegar no recente Raça (2016), a gente promete uma discussão leve, divertida, quase como uma prova de skate park. Bora dar play?


Cinema - Nunca Mais Nevará (Sniegu Juz Nigdy Nie Bedzie)

 De: Margolzata Szumowska e Michal Englert.Com Alec Utgoff, Maja Ostaszewska, Lukasz Simlat e Weronika Rosati. Comédia dramática, Polônia, 2020, 113 minutos.

Foi com o ótimo Medos Privados em Lugares Públicos (2006) que o falecido Alain Resnais elaborou uma verdadeira colcha de retalhos em que a hipocrisia da sociedade era evidenciada a partir da história de seis pessoas - três homens e três mulheres - que tinham suas vidas cruzadas. Na narrativa - meio fria, eventualmente insólita, quase como uma fábula existencialista -, temas como solidão, efemeridade das relações e a instabilidade do amor, eram apresentados de forma primorosa, enquanto a neve que persistia em cair, se apresentava como a metáfora estética perfeita que servia como alicerce para a ideia geral do filme. De alguma forma, é possível afirmar que Nunca Mais Nevará (Sniegu Juz Nigdy Nie Bedzie) - o enviado da Polônia para a mais recente edição do Oscar e que finalmente está chegando aos cinemas - repete esse expediente. Ainda que de uma forma invariavelmente mais hermética.

Trata-se ao cabo de um filme curiosamente agradável de se assistir, ainda que reserve uma boa dose de complexidade para as suas camadas mais interiores. A trama nas aparências é muito simples: nela acompanhamos um imigrante ucraniano de nome Zhenia (Alec Utgoff), que atua como massoterapeuta em um condomínio fechado na Polônia. Indo de casa em casa, sempre com a sua maca portátil a tiracolo, o protagonista tem contato com as mais variadas figuras que habitam esse universo particular - da dona de casa mãe de dois filhos que parece estar insatisfeita com o casamento, passando pelo idoso de comportamento reacionário até chegar a mulher solitária que se ocupa de cuidar de seus cachorros. Em meio a porteiros e vigilantes, a existência pacata do local parece estar sempre no limite do "acontecimento". Por baixo do véu de tranquilidade, um sem fim de angústias que sempre parecem prontas à vir a tona, seja em forma de discussões acaloradas, seja por meio de pulsões sexuais reprimidas.

Bonito e habilidoso no seu ofício, Zhenia vai aos poucos ganhando a confiança de cada uma daquelas pessoas - sejam homens ou mulheres. O que torna a sua presença um veículo para tensões latentes, que são complementadas por gestos econômicos, olhares de satisfação e a busca hedonista por algum prazer que a existência vazia já não parece mais capaz de satisfazer. Aqui e ali em cada diálogo, temas como xenofobia, opressão às minorias e a futilidade dos extratos mais abastados da população, surgem em pequenas pílulas, que nunca soam excessivamente invasivas. O mesmo vale para a curiosa análise da neve como fenômeno natural que está em "extinção" - e que aqui estabelece um diálogo sofisticado com a obra de Resnais. Diante de tudo o que (não) acontece, não demora para que Zhenia se transforme em uma espécie de guru daqueles que atende: condição que é reforçada pelo exercício de habilidades que vão para além da mera massagem.

Em linhas gerais, é um filme que possibilita uma série de interpretações - e que certamente fará sucesso naquele clube de cinema alternativo da faculdade de humanas. Nada é óbvio, por mais que o fio narrativo dificilmente se desvie do prumo. Tecnicamente bem executada, a obra recorre ainda a flashbacks para esclarecer que Zhenia também possui os seus próprios traumas - e a cada ida para esse "canto" do seu inconsciente nos desperta mais curiosidade sobre o que teria ocorrido, no passado, com sua família. Pra quem gosta do estranhamento gerado pelo trabalho da diretora Malgorzata Szumowska - aliás, tem resenha do excelente Body (2015) aqui no Picanha -, encontrará em Nunca Mais Nevará um prato cheio. Místico, soturno, emocionalmente curioso, é aquele filme que não entrega uma solução fácil. Mas que nos tira da zona de conforto. Eu, particularmente, adoro isso.

Nota: 8,0

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Tesouros Cinéfilos - O Conto (The Tale)

De: Jennifer Fox. Com Laura Dern, Ellen Burstyn, Elizabeth Debicki, Isabelle Nélisse e Jason Ritter. Drama, EUA, 2018, 114 minutos.

Filmes como o ótimo A Caça (2011), do dinamarquês Thomas Vinterberg, serviram para nos lembrar: mesmo quando o assunto é daqueles que suscitam reações mais exaltadas, pode haver algum grau de complexidade. Um tipo de contexto que "nubla" a nossa percepção. E que pode fazer com que, mesmo aquilo que possa parecer uma inadiável convicção, seja por nós questionado. Nem tudo é tão oito ou oitenta. Tão isso ou aquilo. Ainda que não seja tarefa fácil, num universo polarizado, pretender elevar o debate para além do mero antagonismo que coloca os bons e os maus em prateleiras bastante óbvias. O excelente O Conto (The Tale), telefilme disponível na plataforma da HBO Max é uma dessas obras. Densa, de fluidez difusa, nos apresenta uma outra visão da temática "abuso sexual contra crianças", a partir da história autobiográfica da documentarista Jennifer Fox (Laura Dern), que aqui estreia na ficção. 

A trama inicia com a mãe de Jennifer, Nadine (a excelente Ellen Burstyn) que, ao ler antigas cartas encontradas em um porão e escritas por sua filha ainda jovem - com cerca de 13 anos -, acredita ter identificado ali, naquelas crônicas cheias de lirismo, naquelas letras tortas e eventualmente poéticas, um caso de abuso sexual. Diferentemente da angustiada mãe de Lolita (a do livro de Nabokov) que é consumida pela culpa ao se demorar em identificar o abuso sofrido pela filha, Nadine empreende uma verdadeira jornada de pressões (algumas podem soar até mesmo exageradas) para que Jennifer, agora uma mulher que se aproxima dos 50 anos, possa lembrar o que de fato teria acontecido, anos atrás, no começo dos anos 70, no haras em que ela teve como tutores a professora de equitação Mrs. G (Elizabeth Debicki) e o instrutor de corridas Bill (Jason Ritter).

Vasculhando os cantos de sua própria memória, recorrendo a trechos das mesmas cartas encontradas pela mãe e fazendo visitas a antigas colegas que frequentavam o mesmo local - casos de Becky (Shay Lee Abeson) e Franny (Isabella Amara) -, Jennifer busca reconstituir os fatos, montando o quebra-cabeças que possa lhe dar a solução sobre o suposto abuso. Bem desenvolvida, a narrativa faz com que fiquemos em dúvida por um bom tempo. Quando Mrs. G e Bill surgem pela primeira vez, se apresentam como figuras afáveis, bem resolvidas, que incluem Jennifer (que na juventude é vivida por Isabelle Nélisse) em um tipo de relação "não convencional" e de aparência segura. A ponto de revelarem à adolescente segredos de suas vidas, possibilitando uma existência plena e livre das amarras de seus conservadores pais. Ao mesmo tempo, cada gesto feito pelos seus tutores, cada insinuação mais "perturbadora", faz com que redobremos a atenção. E nos perguntemos: houve abuso? E na percepção da jovem? Como ela encara tudo que aconteceu, em meio a uma realidade que surge em sua mente de forma meio borrada, difusa? Tudo isso sendo apenas uma adolescente?

Desenvolvida de forma elegante, a obra jamais insulta a inteligência do espectador ou tenta manipula-lo. Quebrando a quarta parede, a jovem Jennifer surge numa espécie de conflito interior, desafiando também a nós, que acompanhamos a sua narrativa em meio a flashbacks embaralhados, que hora sugerem uma coisa para, no instante seguinte, migrar pra outra. Da mesma forma, a a obra jamais exagera na romantização, já que nos lembra o tempo todo do fato de que uma vítima pode jamais ter se percebido como tal em sua infância/juventude - muito pela completa incapacidade de leitura mais ampla do cenário no que diz respeito ao sexo. Por mais que a mente esteja sempre aberta para novas "experiências". Como complemento, Nadine e a própria Mrs. G da terceira idade surgem, quase ao final da vida, como figuras amarguradas, que foram coniventes com um processo de aliciamento quase "normalizado" em uma sociedade patriarcal, e que jamais deve ser suavizado. Sim, é complexo. Nunca fácil. Possibilitará uma série de discussões. Sobre corpo, sobre memória, sobre subjetividade, sobre hipocrisia. Sobre violências. As mais diversas. Em resumo: é uma obra gigante. E fundamental. 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Tesouros Cinéfilos - Locke

De: Steven Knight. Com Tom Hardy, Olivia Colman, Andrew Scott, Ruth Wilson e Tom Holland. Drama, EUA / Reino Unido, 2013, 84 minutos. 
 
[ATENÇÃO: ESSE TEXTO POSSUI SPOILERS]

De clássicos como O Anjo Exterminador (1962), passando pelo suspense noventista Louca Obsessão (1990), até chegar a obras recentes, como o ótimo A Pele de Vênus (2013), não foram poucos os filmes que utilizaram como cenário um único local. Fosse por escolhas estéticas ou por limitações de orçamento - ou mesmo ainda por questões técnicas da narrativa -, o caso é que a sensação de confinamento, a persistência do "ambiente fechado" como parte do contexto, em muitos casos resulta em experiências sufocantes, tensas, daquelas que nos deixam nervosos. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que haja tantos thrillers que concentram suas histórias em espaços limitados. Situação que, convenientemente, busca ampliar a sensação de claustrofobia daqueles que acompanhamos. E, em partes, podemos afirmar que é exatamente isso que ocorre com Ivan Locke (Tom Hardy), o protagonista do curioso Locke - filme dirigido por Steven Knight, que está disponível na HBO Max.

O filme todo se passa dentro do carro de Locke, durante pouco mais de uma hora e vinte minutos, no final de uma noite. O sujeito é um operário experiente da construção civil - aliás, ele é o responsável por receber um grande carregamento de concreto que será entregue em uma obra de grandes proporções, no começo da manhã seguinte. Só que, no interior do veículo, ele deixa tudo para trás: pega a rodovia e parte na direção de um hospital. É lá que está a sua amante, que se prepara para entrar em trabalho de parto. De um filho seu. Na madrugada que se inicia, em meio ao movimento de vai e vem de carros, utiliza o telefone adaptado do painel do carro para (tentar) resolver todos os problemas de sua existência. O que envolve, entre outras decisões, revelar para sua esposa - e filhos -, o episódio isolado de traição, que resultou em uma paternidade não desejada. Ao mesmo tempo, conversa com colegas empreiteiros que tocarão a obra em sua ausência - o que também não é simples -, ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como uma figura presente também para a pessoa com quem teve um relacionamento extraconjugal.


É um contexto complexo, difícil. Locke sai de uma ligação para outra e mais outra e mais outra, emendando uma conversa em outra conversa - e é quase inevitável constatar o fato de que, pouco a pouco, as coisas sairão do controle. Como metáfora óbvia, a própria construção da qual ele é responsável - um empreendimento majestoso, o maior da Europa, como ele mesmo faz questão de ressaltar mais de uma vez -, corre o risco de ruir se não estiver bem alicerçada. Assim como está "ruindo" a sua vida - e não deixa de ser comovente o esforço do protagonista em tentar manter todas as arestas bem aparadas, sem alterar o tom de voz, num desejo íntimo de jamais repetir aquilo que aconteceu com o seu próprio pai (que, aparentemente, abandonou a família após seu nascimento). Na estrada, a sensação de solidão asfixiante, se alterna com os barulhos de veículos da polícia, de ambulâncias, de pedágios e de outros elementos do tráfego, que surgem como forma de ecoar a própria balbúrdia interior vivida por Locke. O trânsito nunca parece excessivamente caótico. Mas ele eventualmente apresenta alguma barreira, alguma limitação, algo que gera dúvida sobre o "destino".

Hábil na construção do roteiro, o diretor Steven Knight jamais deixa a experiência derivar para o tédio. Mesmo quando um instante parece isolado ou meio em sentido, ele surge com razão de ser. É o caso por exemplo das sequências em que vemos os limpadores e para-brisas muito mais "bagunçando" a sua visão, do que clareando aquilo que ele enxerga. O mesmo valendo para as persistentes cenas das estradas vazias, que certamente reforçam, de forma metafórica, o estado de espírito de um sujeito que está colocando em risco não apenas o seu casamento, mas também o seu trabalho - e o seu "destino" como um todo. Carismático, o protagonista nos é apresentado como um homem que tenta manter o controle, mesmo em meio ao caos - condição reforçada pela voz monocórdica adotada, que sempre é precedida por gestos econômicos, discretos. Imersivo, tenso, é um daqueles filmes que a gente nem vê passar. E que, quando acaba, deixa um gostinho de quero mais. O que torna tudo ainda melhor.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Pitaquinho Musical - The Killers (Pressure Machine)

Um The Killers muito mais reflexivo, contemplativo e sutil é aquilo que encontramos no ótimo sétimo disco Pressure Machine, lançado nesta sexta-feira (13/08). Sim, a festa purpurinada, dançante e explosivamente roqueira vista nos trabalhos anteriores dá lugar agora a um registro mais íntimo, de essência nostálgica, que pretende navegar sem pressa em meio a esse contexto urgente, tecnológico, de pandemia e de incertezas que vivemos. E, nesse sentido, confesso que esse álbum faz muito bem. Aliás, talvez seja o melhor de Brandon Flowers e companhia em anos. É da economia, afinal, que brotam as grandes canções do disco - casos de Quiet Town, Cody e a perfeita Runaway Horses, que conta com a participação de Phoebe Bridgers, Isso sem contar a inaugural West Hills, com seu instrumental folk à moda Mutual Benefit que já nos insere naquele clima "cidade pequena do interior que pede para ser abraçada". A crítica, aparentemente, está saudando a mudança de rumo. Aliás, a gente muitas vezes espera isso de uma banda. Alguma alteração, um sopro de novidade. Um algo diferente que saia da mesmice. O Killers conseguiu.


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Na Espera - Casa Gucci (House of Gucci)

A gente sabe que ainda é cedo pra falar em prováveis indicados ao Oscar 2022 - a cerimônia acontece em 27 de março do ano que vem -, mas aos poucos as bolsas de apostas vão sendo ocupadas por obras que, muito provavelmente, deverão figurar na premiação. E esse é o caso de Casa Gucci (House of Gucci), mais recente produção de Ridley Scott (Alien: O Oitavo Passageiro). Com estreia prevista para o dia 27 de janeiro próximo, a trama volta no tempo para contar a história de como Patrizia Reggiani (vivida por Lady Gaga), então esposa do membro da família fundadora da marca italiana Gucci, conspirou para matar o marido Fabrizio (Adam Driver), em 1995. O elenco estelar é completado por Al Pacino, Jeremy Irons, Jared Leto e Salma Hayek e as nominações em categorias como Filme, Roteiro Adaptado, Diretor, Ator (Driver), Atriz (Gaga) e até Ator Coadjuvante (Pacino) são dadas como quase certas.

Sim, a gente não pode esquecer do efeito Era Uma Vez Um Sonho (2020), do Ron Howard, que saiu de favorito ao carecão dourado para candidato ao Framboesa de Ouro, depois que as primeiras exibições começaram a ocorrer. Mas consideramos difícil que isso se repita. O trailer estilizado, cheio de trucagens técnicas e uma trilha sonora cheia de firulas com Heart of Glass do Blondie, sendo entoada quase como um mantra, dão um bom indicativo que vem coisa boa por aí. É aguardar. Por aqui já estamos Na Espera!

Tesouros Cinéfilos - Raça (Race)

De: Stephen Hopkins. Com Stephan James, Jason Sudeikis, Clarice van Houten, William Hurt e Jeremy Irons. Drama, Alemanha / França / Canadá, 2016, 134 minutos.

Vamos combinar, cada edição dos Jogos Olímpicos revela um sem fim de histórias sensacionais envolvendo os atletas - muitas delas com potencial para virar livro, filme, documentário. Sem muito esforço, puxando pela memória, somente na recém finalizada edição de Tóquio 2020, é possível lembrar do arremessador de peso que treinava em um terreno baldio, da ginasta que teve de abandonar os jogos devido à pressão sofrida (e ao trauma decorrente de abusos) e da boxeadora que, após faturar a medalha de ouro em sua categoria, voltará a trabalhar no hospital em que atua como enfermeira. Sim, e isso que nem mencionei a praticante de skate que, com apenas 13 anos, barbariza nas pistas - após ter viralizado há seis anos, fazendo uma manobra impossível, vestida de... fada. Fadinha, no caso. Tem de tudo e acho que a beleza das Olimpíadas está também nisso: ela revela contextos. Sociais, políticos, culturais, religiosos. Esportivos, claro. De cada País envolvido. Sua bagagem, suas tradições. Tudo parece estar lá. Em meio a braços, pernas, dorsos, sorrisos, choros e caretas de cada atleta. Suor e sangue. É algo meio mágico, na real. Até apaixonante.

E, nesse sentido, acho que não existe história olímpica mais inesquecível do que aquela envolvendo o atleta Jesse Owens que, nos jogos de Berlim, em 1936, em plano nazismo, faturaria quatro medalhas de ouro - escancarando o fato de que o alegado (e bizarro) conceito de superioridade racial nada tinha a ver com a cor da pele. Negro, Owens quase não participou daqueles jogos. Havia um impasse envolvendo o Comitê Olímpico Norte Americano que, naturalmente insatisfeito com o modelo político adotado pelo führer, quase boicotou a competição. Esse contexto de bastidores, os preconceitos raciais à época - inclusive nos Estados Unidos -, as discussões e incertezas familiares e o esforço do próprio Owens (Stephan James) em alcançar o lugar mais alto pódio, é o que acompanhamos no agradável Raça (Race), obra disponível no catálogo da HBO Max. Dirigido por Stephen Hopkins (de A Sombra e a Escuridão), essa é aquele filme do subgênero "história de superação" que costuma cair no gosto do espectador.

Em linhas gerais a gente sabe o final da história. Mas ainda assim não deixa de ser valioso conhecer o percurso. Que envolve, por exemplo, a existência do treinador Larry Snyder (o sempre simpático Jason Sudeikis), que sai da desconfiança inicial para o apoio incondicional ao seu principal atleta. Como integrantes do comitê, Jeremiah Mahoney (William Hurt) e Avery Brundage (Jeremy Irons) ficam em lados opostos no que diz respeito às decisões sobre ir ou não aos jogos. Ceder à Hitler não seria uma forma de demonstrar "fraqueza"? Superá-lo em sua casa não poderia se configurar como uma bela lição sobre o conceito de supremacia? Em meio a tudo, figuras conhecidas como a diretora Leni Riefenstahl (Clarice von Houten) e Joseph Goebbels (Barnaby Metschurat) se empenharam em transformar os jogos daquele ano em um verdadeiro circo midiático - e, olhando para as imagens que ficaram para a história, podemos afirmar sem medo: bendita mania de grandeza do führer, que possibilitou que cada detalhe dessa sua pequena humilhação particular fosse filmado.

Como espectador, senti um pouco de falta de um contexto que nos apresentasse um pouco mais a juventude de Owens, e de como seria "formatado" o atleta inigualável, um retumbante recordista mundial, que ele seria. O mesmo valendo para a desastrosa política racial norte-americana que, nos anos 30, até poderia se vender como um espectro mais progressista (ao menos se comparada ao nazismo), mas que também mantinha suas esquisitices pós período escravocrata (caso da política que obrigava negros e brancos a se manterem separados na maioria dos locais). Em geral o tom é otimista. Quase fabulesco. As tomadas são belas - há muito uso de câmera lenta, closes. Assim como o desenho de produção, que recria o período de forma bastante fidedigna. A nota menor no que diz respeito a parte técnica fica com a exagerada trilha sonora, que às vezes mais parece retirada e um filme de ação com o Liam Neeson como protagonista (indo atrás da filha sequestrada). No mais é cinemão que acerta em cheio e faz com que saiamos da sessão com um belo (e esperançoso) sorriso. O que não é pouco, em tempos em que o racismo estrutural segue sendo política pseudo-oficial de tantos governos.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Cinema - Um Lugar Silencioso 2 (A Quiet Place Part 2)

De: John Krasinski. Com Emily Blunt, Cillian Murphy, Millicent Simons, Noah Jupe e John Krasinski. Suspense / Terror, EUA, 2021, 96 minutos.

Infelizmente, a existência de Um Lugar Silencioso 2 (A Quiet Place Part 2) nos faz constatar o óbvio: nem sempre uma continuação de filme é necessária. Aliás, em pouquíssimos casos eu diria. Vale para as séries também, que se repetem indefinidamente, apenas para faturar em cima do hype (um abraço Stranger Things). E pouco acrescentam de novidade, de fato. No caso da obra dirigida por John Krasinkski (o eterno Jim Halpert de The Office), a sensação é a de ficarmos no mesmo lugar no decorrer das pouco mais de uma hora e meia de duração do filme. Ok, passados os eventos da primeira parte, que foi concluída com a morte de Lee (o próprio Krasinski) e com a destruição da propriedade em que moravam, a viúva Evelyn (Emily Blunt) e os filhos Regan (Millicent Simons) e Marcus (Noah Jupe) precisam encontrar um novo lugar para viver. E sem fazer barulho, claro, por mais que, agora, eles saibam como enfrentar as criaturas alienígenas que são "ativadas" por meio do som.

No caminho, quando tentam entrar em um depósito aparentemente abandonado, Marcus acaba pisando em uma armadilha. Com a família sendo socorrida/aprisionada por um certo Emmett (Cillian Murphy), um antigo vizinho dos Abbott. Mais ou menos protegidos, mas ainda inseguros, eles recebem, de uma forma meio inesperada, uma transmissão de rádio em que a canção Beyond The Sea, de Bobby Darin está sendo executada. Não bastasse a letra sugestiva - Felizes nós seremos / Além do mar -, a música pode ser a chave para a existência de algo a mais no entorno (outras pessoas, será?). Intrigada com o caso, Regan parte em uma jornada meio solitária atrás de respostas. Para desespero de Evelyn, que pede socorro para Emmett, que parte atrás da menina, juntando-se a ela em seu objetivo. Tudo isso em meio a um sem fim de sequências de ação, com todos eles, em algum momento, precisando escapar das sangrentas criaturas.


Nesse sentido, os fãs de obras mais movimentadas se deleitarão já que, diferentemente da primeira parte - em que pareciam predominar as sequências silenciosas, em que a tensão era proporcionada pela necessidade plena de não haver barulho, o que tornava sufocante uma simples "caminhada no meio do mato" -, aqui o bicho pega, literalmente, com muito mais correria, perseguições, explosões, e tentativas desesperadas de sobrevivência. A execução técnica segue sendo o ponto alto, com detalhe para a engenharia de som, que muito provavelmente deverá ser lembrada no Oscar do ano que vem. Já o desenho de produção, combinado com a riqueza dos enquadramentos e a trilha sonora econômica, transforma os primeiros quinze minutos em uma experiência não menos do que aterradora em meio a um prosaico jogo de beisebol - o que, para  mim, se constitui no ponto alto. Aliás, eu adoraria ter continuado ali mesmo, sem que o filme avançasse para o dia quatrocentos e alguma coisa.

Só que, no fim das contas, como já dito, a sensação é a de andarmos em círculos. Agora já sabemos que os monstrengos não suportam frequências sonoras mais "agudas", o que oportuniza aos Abbott o contra-ataque. E aí surge uma forma de mostrar, ao menos em partes, que os inimigos podem ser outros (nada que já não tenhamos visto em séries como The Walking Dead quando, lá pelas tantas, os zumbis passam a ser o menor dos problemas). Há todo um esforço do elenco e um certo carinho por aquilo que procuram entregar - e os paralelos com a existência da covid-19 podem até formar uma curiosa metáfora narrativa. Mas ainda assim parece ser pouco. Quando os créditos sobem, fica difícil não se sentir meio frustrado. Especialmente pela expectativa criada. Sabe o Jim Halpert olhando pra câmera, com aquele tom de deboche que lhe é peculiar, a cada tentativa de passar a perna no Dwight (personagem do Rainn Wilson)? Pois é, nesse caso somos tal qual o Dwight. Enganados por um filme.

Nota: 4,5