quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Livro do Mês - Norwegian Wood (Haruki Murakami)

Editora Alfaguara. Tradução Jefferson José Teixeira, 1987, 362 páginas.

Norwegian Wood foi o meu primeiro contato com a literatura fluída do japonês Haruki Murakami. E, admito, devorei as mais de 350 páginas em menos de uma semana, já ficando com aquele gostinho de quero mais. A moda de outros escritores que espalharam dilemas, incertezas, anseios e inseguranças do universo juvenil em suas páginas - casos de J. D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio e F. Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby, pra ficar em apenas dois exemplos -, aqui o autor parte de um evento trágico (no caso o suicídio de um adolescente de 17 anos) para revirar as memórias daqueles que ficaram: no caso, o protagonista Toru Watanabe, que era melhor amigo do jovem e a bela Naoko, a ex-namorada do falecido. Um reencontro entre os dois despertará uma paixão bem ao estilo das paixões adolescentes: difusa, muitas vezes complicada e, neste caso, ainda preenchida por uma espécie de dilema ético. Acolher a ex-namorada do melhor amigo pode ser uma fuga nesse momento. Mas desejá-la como como Watanabe nunca desejou nenhuma outra, será o certo?

Enquanto "enfrenta" o seu dilema, o protagonista vive a vida como um outro adolescente qualquer: estuda teatro, convive com amigos excêntricos da universidade - entre eles o exótico Nazista (sim, o apelido do rapaz é por conta de sua mania de organização), com quem divide o quarto - e trabalha meio período em uma loja de discos. Aliás, um parêntese: o livro é pincelado por um sem fim de referências culturais diversas, de obras e autores famosos, passando por filmes e canções e, sim, o livro leva esse título por causa da canção dos Beatles. E, sinceramente, é uma delícia acompanhar os descaminhos dos personagens, vendo seu estado de espírito sendo traduzido por uma música entoada no violão, ou por uma memória aleatória envolvendo, por exemplo, as letras de People Are Stranger do The Doors ou Up On the Roof dos Drifters. No fim é um elemento que dá cor a narrativa, tornando-a mais sedutora, mais próxima de quem lê.

Em suas andanças, Toru acaba se aproximando de uma encantadora, divertida e sexy colega de faculdade: a jovem Midori. Midori é o completo oposto de Naoko: tudo que a ex-namorada do amigo (e seu maior interesse romântico) tem de, obviamente, taciturna, fragilizada e de introvertida, a colega tem de vibrante, de primaveril e jovial. Sem papas na língua - as sequências em que falam com naturalidade (e curiosidade) sobre sexo, masturbação, fetiches, entre outros, estão entre as melhores -, Midori não tem vergonha alguma em verbalizar a sua paixão pelo protagonista. Aliás, ela dedica um carinho que pega Watanabe de surpresa, deixando-o indeciso entre esses dois "amores". Só que a paixão por Naoko parece falar mais alto, mesmo que ele sequer faça ideia se algum dia será correspondido. Enquanto convive no universo de incertezas, Toru anda pra lá e pra cá com o amigo intelectual Nagasawa, que se ocupa de utilizar sua inteligência para seduzir garotas com o objetivo de levá-las para a cama.

Só que Toru só pensa em Naoko. E depois de um breve envolvimento entre os dois ela some, deixando-lhe uma carta em que explica que está em uma espécie de casa de repouso junto às montanhas de Kyoto. Não é exatamente um hospital, mas um local que poderá contribuir para o tratamento de seus traumas psicológicos. No local os pacientes se ocupam com atividades corriqueiras que vão de cuidados com a horta e com os animais, passando por aulas de música até chegar à caminhadas junto a natureza. Tudo parece leve - sensação ampliada pela atitude amistosa de Reiko, a colega de quarto de Naoko que, a despeito de ter quase o dobro da idade de ambos, deixa ambos à vontade. A cada visita de Toru à Naoko as incertezas aumentarão. Ela se recuperará? Valerá a pena mesmo investir em um relacionamento com a ex-namorada do falecido melhor amigo? Midori não seria uma aposta mais segura? O que fazer afinal da vida, que avança inexoravelmente? Sem respostas fáceis, Murakami nos conduz com maestria por essa narrativa tão fascinante quanto nostálgica. Vale conferir.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Eu Me Importo (I Care a Lot)

De: J. Blakeson. Com Rosamund Pike, Dianne Wiest, Peter Dinklage, Elza Gonzalez e Alicia Witt. Suspense / Comédia, EUA, 2020, 118 minutos.

A despeito do hype preciso ser sincero: não consegui me conectar com esse Eu Me Importo (I Care a Lot) - uma das novidades da semana na Netflix. Sério, não rolou. Não deu mesmo. Aliás, eu tenho um sério problema com aqueles filmes que parecem querer misturar Guy Ritchie com Irmãos Coen de uma forma meio forçada: eu pego ranço já na origem. Aqui, a história rocambolesca - por mais que a premissa até seja divertida - não emplaca. A farsa soa apenas absurda. As situações se tornam apenas extravagantes. O senso de humor é difuso. E as interpretações de praticamente todo o elenco, de quebra, ainda são constrangedoras, beirando a canastrice. Em linhas gerais a obra é quase uma alucinação que se pretende um suspense de "máfia" com boas doses de humor negro. Só que o problema é que você não se assombra - como seria esperado em um thriller - e muito menos dá risada. Aliás, a obra gera um efeito ainda pior no cinéfilo, que é a indiferença: a gente apenas torce pra que tudo acabe logo.

Quem me acompanha aqui no Picanha sabe que eu dificilmente "pego pesado" nas resenhas: sou apenas um jornalista que gosta de cinema, metido a ter um site pra escrever sobre as obras que assisto. Aliás, não são poucos os textos em que, inclusive, tento fazer algum tipo de defesa àquelas películas não tão bem quistas. Mas o caso é que no filme do diretor J. Blakeson (do fraco A 5ª Onda) não há muita salvação. Pra vocês terem ideia, a trilha sonora é ruim. É invasiva, exagerada. Não parece se comunicar decentemente com a narrativa. Às vezes a impressão é a de estarmos assistindo algum tipo de peça publicitária de alguma empresa da área de tecnologia. Até detalhes como o figurino das personagens parecem pensados à moda "miguelão": sequer há uma lógica no estilo de roupas usado, por exemplo, pela protagonista vivida pela Rosamund Pike, que a meu ver não consegue transmitir o suposto poder que ela deveria emanar TAMBÉM pelas suas vestes.

Na trama, Pike é Marla Grayson, uma espécie de trambiqueira que trabalha como guardiã legal de idosos que não podem se cuidar sozinhos. Na realidade se trata de um golpe que ela aplica com o auxílio da namorada Fran (Elza Gonzalez) e da médica dra. Karen (Alicia Witt), que repassa ao Estado os casos desses pacientes - de preferência velhinhos com bastante dinheiro. Uma vez assumida a condição de cuidadora, a picareta organiza todo um sistema em que se apodera dos bens dos idosos, tudo com o aval jurídico, impedindo inclusive, em muitos casos, os próprios familiares de poderem ver as "vítimas". E quando a aposentada de cerca de 70 anos Jennifer Peterson (Dianne Wiest) surge na mira das trapaceiras, ela parece o alvo perfeito: sem marido, sem filhos e com um caso de demência em estágio inicial. Mas o problema é que Jennifer não é o que aparenta: com um passado nebuloso (e criminoso) a velhinha se tornará a antagonista perfeita nesse cabo de guerra entre as duas, com direito a ligações com a Máfia Russa e com crimes diversos como falsificação, roubo e evasão de divisas.

E eu vou ser sincero novamente com vocês: quando vi a trama e as primeiras resenhas (algumas positivas) para o filme, eu fiquei bastante empolgado. Mas a forçação em tudo me jogou lá pra baixo: a indecisão em ser um filme de comédia ou uma obra policialesca - ainda por cima com ZERO charme e carisma -, ajuda a colocar a experiência a perder. A gente não consegue gargalhar, por exemplo, em uma sequência em que Peter Dinklage surge seminu ouvindo música ambiental enquanto se exercita com argolas. Assim como não nos assombramos quando alguma das personagens é atacada por algum mafioso. Isso sem falar no auge do diálogo caricato, quando Pike vira pra sua antagonista para proferir o indefectível "eu nunca perco" em uma discussão. [ALERTA DE SPOILER]: E é ao adotar um desfecho meio O Pagamento Final (1993) - em que um sujeito aleatório em aparição episódica surge no final para assassinar a protagonista à moda Benny Blanco -, que o sentimento fica ainda menos redentor. Fica parecendo aquela coisa meio Deus Ex-Machina de quem não sabia direito como concluir a história. Pra mim foi a mais completa decepção. Em um filme que eu esperava muito mais.

Nota: 2,5

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Relatos do Mundo (News of the World)

De: Paul Greengrass. Com Tom Hanks, Helena Zengel, Elizabeth Marvel e Bill Camp. Drama / Aventura, EUA, 2020, 118 minutos.

Faroeste dirigido pelo Paul Greengrass, protagonizado pelo Tom Hanks e com uma história sobre uma amizade improvável em meio as planícies poeirentas do Texas: assim é Relatos do Mundo (News of the World), que é aquele típico filme de estrutura clássica, que deve agradar cinéfilos de todos os tipos. Aliás, eu gostei demais. Até mesmo porque há um componente de valorização do jornalismo na narrativa, que me pegou de jeito. Na trama, Hanks é o capitão Jefferson Kyle Kidd, um veterano de guerra que ganha a vida percorrendo pequenas cidades do Sul dos Estados Unidos, onde faz leituras de notícias dos principais periódicos do País. Os tempos são turbulentos naquele 1870 pós Guerra da Secessão e tantos os jornais quanto a alfabetização das pessoas não deixam de ser uma espécie de novidade. Em suas andanças ele se depara com uma jovem de nome Johanna (Helena Zengel) que está perdida, após seu comboio ter sido atacado. 

Criada por índios da tribo Kiowa após ter sido raptada anos antes, a menina de cerca de dez anos não fala nada de inglês, não tem memória de sua família biológica e tem um comportamento inicialmente hostil, sempre reativo. Os documentos que estão com ela dão conta da existência de familiares em um povoado cerca de 650 quilômetros distante de onde Kidd se encontra. Após um começo complicado envolvendo as burocracias do Estado para resolução do caso, o capitão resolve assumir a tarefa de conduzir Johanna até o local onde estão seus tios. No meio do caminho seguirá com o seu ofício, enquanto enfrentará obstáculos em sua jornada. Por obstáculos leia-se homens interessados em comprar ou raptar a jovem, o que possibilitará uma boa dose de cenas de ação, que certamente acertarão em cheio os corações dos saudosos fãs de westerns.


Ainda assim, em linhas gerais o clima é muito mais contemplativo do que movimentado. A quase total ausência de diálogos mais fluídos entre a dupla de protagonistas faz com que a evolução da amizade e a aproximação entre eles se dê de forma pouco apressada, com uma evolução tópica, quase episódica. Nesse sentido, a cada vez que Kidd salva a dupla de algum perigo iminente, Johanna vai se afeiçoando de seu bem-feitor - e confesso que fiquei bastante impressionado com a caracterização de Helena Zengel, ainda mais levando-se em conta o fato de que ela está em tela praticamente o tempo todo em tela com um ator da envergadura de Tom Hanks (que, aliás, empresta o seu habitual carisma para a entrega de mais um personagem executado com competência e elegância, o que deve lhe dar mais uma indicação ao Oscar para a coleção).

Abusando dos planos aéreos e de outros recursos técnicos como a fotografia amarelada e a trilha sonora bem pontuada, Greengrass transforma Relatos do Mundo em uma obra de aparência simples, mas de execução eficiente. Discutindo aqui e ali temas que refletem nos dias atuais - caso da polarização política, da luta por direitos e da importância da literatura (e das artes como um todo) como uma espécie de fuga da alienação -, o diretor ainda acrescenta um componente "místico" em uma das mais belas sequências da narrativa, quando um grupo de índios surge em meio a uma tempestade de areia, para subverter a lógica mocinho x bandido que tanto vimos nos clássicos muitas vezes maniqueístas de John Ford. Sim, porque na modernidade, é simplesmente impossível ignorar os avanços sociais alcançados, mesmo na hora de contar histórias que se passam 150 anos atrás. O que faz com que essa obra tão correta, tão bem executada, tão retilínea, ganhe uns pontinhos a mais.

Nota: 8,0

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Tesouros Cinéfilos - Nomadland

De: Chloé Zhao. Com Frances McDormand, David Strathairn, Bob Wells e Linda May. Drama, EUA, 2020, 108 minutos.

Em uma das tantas belas sequências do maravilhoso Nomadland - um dos filmes favoritos a faturar a premiação máxima no Oscar, que ocorre em 25 de abril -, um grupo de pessoas tem uma conversa aleatória sobre assuntos amenos, durante um almoço. Em dado instante uma das participantes mostra à protagonista Fern (Frances McDormand) uma tatuagem em que se lê a frase "lar é só uma palavra ou é algo que você carrega com você?" Extraída da letra da canção Home Is a Question Mark, dos britânicos do The Smiths, a sentença diz muito sobre a opção narrativa da diretora Chloé Zhao. Afinal de contas, seria muito cômodo em um filme sobre nômades involuntários - muitas vezes idosos - a escolha pelo caminho da demonização do capitalismo ou do sistema que exaure o trabalhador até a sua velhice, colocando-o como um refém financeiro de bancos, de imobiliárias e de empresas de seguro. Sim, tudo isso está lá. Mas o que a diretora pretende, com seu belo líbelo sobre a liberdade de escolha - ainda que por linhas tornas -, é questionar esses padrões, essas convenções sociais que nos estabelecem como verdadeiros escravos até o ocaso de nossas existências.

Mesmo para nós brasileiros, não é novidade que a crise imobiliária de 2008 desmantelou o sistema financeiro norte-americano - e filmes como o ótimo A Grande Aposta (2015), de Adam McKay mostram esse evento com um didatismo quase irresistível. Aqui, o ponto de partida é a mesma crise, que fez com que uma indústria com quase 90 anos de tradição, fechasse suas instalações em uma pequena (e gelada) cidade do Estado de Nevada. Isso pra ficar num exemplo. Fern é remanescente dessa "quebra": desempregada, teve que sobreviver a base de bicos e de subempregos (como em um galpão da Amazon), que pudessem garantir o mínimo de renda enquanto os boletos chegavam. Depois de perder o marido, as dívidas com a hipoteca fizeram com que perdesse também a casa. Nada disso aparece no filme com clareza e acho que aí está parte da mágica da obra: vamos descobrindo os detalhes sobre a condição de vida dos nômades aos poucos, em pequenas doses, conforme a narrativa avança. E, curiosamente, sem "coitadismo".

Quando Fern está oficialmente deixando Nevada para trás - mesmo que temporariamente -, há uma melancolia em seu olhar (e admito que dificilmente poderia haver atriz melhor do que a Frances McDormand para encarnar essa mulher de gestos tão duros quanto sutis). Só que a descoberta de um mundo para além do esquema casa/trabalho/filhos/casa/trabalho coloca a película em outra perspectiva. Por que o caso é que muitas vezes a gente simplesmente esquece do valor das coisas simples. De uma boa amizade. De uma conversa aleatória e simpática com um desconhecido. Da nossa plena capacidade de resistir diante das adversidades. Da empatia e do apoio do ombro amigo - mesmo que seja de um estranho. Da natureza e de sua capacidade única de nos arrebatar. Seu verde, os pássaros, o chiado das águas. Quando a protagonista chega ao Arizona, num acampamento mantido por Bob Wells - uma espécie de campo de treinamento para nômades iniciantes -, a sua vida se transforma.

Aliás, há um discurso de Wells sobre sermos escravos do dólar, sobre sermos burros de carga que trabalham até o fim da vida, que demarca bem a posição adotada pelo filme. Naquele local reina o espírito comunitário. Todos se ajudam, se apoiam. E não demora para que nos emocionemos com o relato de uma senhora que afirma ter perdido o marido às vésperas de sua aposentadoria, após ele ter passado a vida juntando dinheiro para adquirir um veleiro que jamais viria a usar. É possível ser feliz com pouco? Ou sem dinheiro? Sem uma vida de luxos, de conforto ou de tecnologia? Sem uma casa? Num universo de incertezas? Por mais que a obra pareça questionar o tempo todo as convenções sociais, ela jamais deixa de reconhecer o valor das memórias afetivas que podem estar relacionadas, por exemplo, aos objetos que temos em nossos lares ou mesmo a importância de uma boa cama ou um chuveiro - ou mesmo uma van bem equipada. Mas o que talvez a gente perceba com o filme são as outras possibilidades. Há uma cena em que a idosa Swankie se maravilha com um por do sol alaranjado em meio ao cenário desértico. Ou que a própria Fern se maravilha em um cenário idílico. Quando paramos, em nossas rotinas, para prestar atenção nisso?

Construindo a obra - que é baseada no livro de Jessica Bruder - como uma experiência nostálgica, bucólica e engrandecedora, Zhao inunda o filme com instantes de grande beleza estética, o que é fortalecido pela fotografia granulada e empalidecida, completada por uma trilha sonora que jamais soa invasiva ou excessiva. Utilizando-se de um coletivo de pessoas que não são atores de verdade, a diretora amplia o caráter documental do projeto, transformando Fern em uma quase observadora participante de um filme que, por um milésimo, não é, de fato, um documentário. É daqueles filmes que, por mais que partam de uma situação desalentadora - no caso o descaso do sistema econômico e mesmo o abandono completo do Estado a sua população -, estamos o tempo todo com um sorriso no rosto, porque há aqui e ali um otimismo palpável, um espírito gregário, um idealismo comovente. Não é que não haja solidão. Não é que não haja frio ou tristeza. Ou saudade e memória. Mas há esperança em meio aos destroços. O que, em tempos tão sombrios como os que vivemos, certamente nos mantém otimistas.

Nota: 9,0

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Malcolm & Marie

De: Sam Levinson. Com Zendaya e John David Washington. Drama / Romance, EUA, 2020, 106 minutos.

Aqueles que tiverem saco pra uma DR de casal de mais de uma hora e meia têm mais chance de gostar desse Malcolm & Marie - filme que estreou na última sexta-feira (05/02) na Netflix. Por se passar em um único ambiente, a obra do diretor Sam Levinson (de Euphoria) depende quase que exclusivamente da força de seus diálogos. E das interpretações de seus protagonistas - no caso Zendaya e John David Washington. Sim, porque fazer filmes em tempos pandêmicos é recorrer a um recurso já muito utilizado no passado, seja em clássicos como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? (1966), seja em projetos mais recentes, caso de Deus da Carnificina (2011). Hoje em dia todo o mundo está confinado. Então há uma identificação quase metalinguística com aquilo que acompanhamos: no caso a ruína de um relacionamento já instável e que parece precisar do menor motivo para desmoronar completamente. Em tempos de covid, o número de divórcios aumentou. Malcolm e Marie poderiam facilmente engrossar essa estatística.

Na trama, o casal que dá nome à obra está retornando de uma bem recebida noite de estreia de um filme dirigido por Malcolm. O que deveria ser uma madrugada de celebração, vai se transformando em um vertiginoso drama em que mágoas e ressentimentos vêm à tona conforme as horas avançam. Marie reclama que Malcolm sequer lembrou de seu nome durante os agradecimentos em seu discurso. Especialmente pelo fato de o seu elogiado projeto ter sido inspirado - ao menos em partes - na vida pregressa da companheira (uma ex-usuária de drogas, que luta diariamente para manter a sanidade mental). Ego? Falta de atenção? Toxicidade? Os argumentos de parte a parte nos levam a uma verdadeira montanha russa de emoções em que, a cada instante, somos jogados para um dos lados - e admito que o roteiro é bastante inteligente ao fazer com que não tomemos partido, necessariamente (por mais que as alegações de Marie quase sempre soem convincentes).

Com uma excelente trilha sonora, uma irresistível e bem adequada fotografia em preto e branco e um ótimo uso dos planos-sequência, a obra aproveita a infinita discussão do casal para tecer uma série de comentários sociais relevantes a respeito do racismo na indústria e sobre o vazio da crítica cinematográfica. Em um dos mais histriônicos momentos, Malcolm lê a crítica (favorável) de um jornal de Los Angeles, ao mesmo tempo em que ataca o texto pelo simples fato de a interpretação dada a sua obra não ser aquela pretendida por ele. Nas entrelinhas, a pergunta que fica é sobre se Barry Jenkings (de Moonlight) seria relevante como um William Wyler, se não centrasse tanto a sua câmera para o preconceito estrutural. As pessoas se importariam? Os filmes seriam elogiados? Seriam considerados autênticos? Por que um diretor negro não pode, simplesmente, fazer um filme sobre uma ex-viciada tentando superar seus problemas? E um diretor branco, pode dirigir negros sem ter "lugar de fala"?

Recheando a obra com estas divagações, Levinson acrescenta um pouco de profundidade a uma interminável discussão que poderia soar apenas ególatra e até irritante. Há, aqui e ali, um pouco de exagero e, confesso, acho que muitos dos espectadores teriam abandonado o barco de uma relação - especialmente após sequências devastadoramente agressivas, como a da banheira. Ninguém suporta tanto ataque. Especialmente se a união é frágil ou rasa. Nesse sentido alguns instantes soam apenas artificiais - e me irritou bastante as idas e vindas, intercalando momentos falsamente amorosos (ou de acolhimento) com outros da mais profunda afronta. Ainda assim, parafraseando a escritora brasileira Elvira Vigna, em tempos pandêmicos foi o "que deu para fazer em matéria de história de amor". Especialmente com duas pessoas confinadas. Discutindo a relação. Tentando superar diferenças. E se suportando. Por mais que na vida real a coisa seja diferente. Se é que é tão diferente assim.

Nota: 7,0

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Picanha.doc - As Mortes de Dick Johnson (Dick Johnson Is Dead)

De: Kirsten Johnson. Documentário, EUA, 2020, 89 minutos.

Em cinema não há o que "não haja" e foi pensando nisso que a documentarista Kirsten Johnson criou essa fábula curiosa, excêntrica e singular que reflete sobre tempo, memória e morte de uma forma estranhamente divertida e invariavelmente melancólica. Imaginar a morte do próprio pai octogenário em situações aleatórias. Várias vezes. E repetidamente. Foi a ideia meio estapafúrdia que resultou em As Mortes de Dick Johnson (Dick Johnson Is Dead), filme disponível na Netflix e fortíssimo candidato a uma das vagas em sua categoria no Oscar desse ano. Há um sentido por trás da ideia. Ou ao menos parece haver. Sofrendo do Mal de Alzheimer, o idoso vê a sua memória esvanecer. Fazer o filme foi a forma encontrada pela filha para expurgar os efeitos da doença, enquanto ele ainda está consciente. Afinal de contas a dolorosa doença degenerativa que deteriora as funções cerebrais fazendo com que haja perda de memória e de linguagem, também promove uma espécie de morte aos que padecem da enfermidade.

Assim, olhando de fora, a trama pode soar apenas esquisita. Mas a ousadia e a leveza com que tudo é conduzido faz com que nos apaixonemos a cada frame. E, por mais que as mortes em si sejam um atrativo a parte - há desde tombos em escadarias até um acidente fatal envolvendo a queda de um aparelho de ar condicionado -, o que faz a película valer a pena é o resgate da importância do cultivo dos laços familiares, especialmente a partir do reconhecimento de que, ao cabo, todos nós chegaremos um dia ao ocaso de nossa existência. Kirsten resolve fazer o filme quando seu pai é diagnosticado com Alzheimer, o que obrigará o idoso a ir morar com ela. Decisão que ela toma após ter também perdido a mãe para essa tão misteriosa doença - e as poucas imagens que a documentarista possui de sua genitora, rendem alguns dos mais emocionantes momentos.

E por mais que não sejam poucos os instantes em que lacrimejamos, o caráter nonsense do projeto faz com que as gargalhadas sejam tão presentes quanto o choro. A bizarra conversa com um dublê que interpretará Dick nas cenas mais perigosas, por exemplo, funciona como uma homenagem ao próprio cinema, ao passo em que transforma as manobras feitas pelo "idoso falso" em verdadeiros exercícios acrobáticos e de ampla elasticidade. Já a morte em que Dick tem seu pescoço acidentalmente perfurado por um operário, no meio da rua, beira o delírio tarantinesco com sangue (falso, claro!) jorrando para tudo quanto é lado pela jugular. Há uma preocupação constante com o bem-estar do ator principal. Um carinho, um afago, uma palavra de conforto. É como se Kirsten fizesse questão de lembra-lo o tempo todo, em meio as memórias esfaceladas, de que aquilo é apenas um filme. Aliás, alguém lembra ainda no começo que "coisas estranhas acontecem em filmes".

Mantendo a câmera sempre próxima do rosto de seus atores, a diretora acaba, assim, captando uma série de sentimentos e emoções que são transmitidos apenas com o olhar, com suspiros desencantados e pela consciência da finitude que se avizinha. Dick, que 30 anos atrás sobreviveu a um ataque cardíaco, jamais esconde que ama viver, por mais que autorize, de forma jocosa, sua filha a lhe aplicar uma eutanásia em caso de invalidez irreversível. São instantes que comovem mas ao mesmo tempo nos arrancam sorrisos pela naturalidade com que o tema da partida é tratado. Não há, assim, motivos apenas para tristezas, o que é comprovado pela deliciosa sequência em que Dick vai ao encontro de uma antiga namorada da infância. O que rende alguns dos melhores e mais divertidos diálogos. As Mortes de Dick Johnson é a prova viva de que qualquer ideia, se bem trabalhada, pode ser convertida em filme. E a leveza comovente do documentário é de lavar a alma. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Novidades no Now/VOD - A Escavação (The Dig)

De: Simon Stone. Com Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Archie Barnes e Ben Chaplin. Drama, Reino Unido, 2021, 112 minutos.

Transformar uma história com ares grandiosos em algo mais íntimo talvez seja a chave para o "sucesso" desse A Escavação (The Dig) - uma das novidades da semana no catálogo da Netflix. É um filme que parte de um grande evento - no caso a descoberta do gigantesco parque arqueológico de Sutton Hoo, na Inglaterra, às vésperas do começo da Segunda Guerra Mundial -, para narrar a trajetória das pessoas envolvidas no episódio. Assim, por mais que o filme se ocupe do esplendor da revelação em si, o que rende ótimas tomadas aéreas e cenas variadas que mostram um barco intacto do Século VI e outros elementos e objetos que compõem a necrópole, interessa muito mais a forma com que escavadores, pesquisadores, museólogos e a família da dona das terras se relacionaram com esse fato. É nos vínculos (afetivos) entre os envolvidos que a obra do diretor Simon Stone ganha força, se tornando uma honesta experiência cinematográfica capaz de amarrar passado, presente e futuro com desenvoltura e elegância.

E eu confesso que não estava esperando muito. Mesmo. Por mais que os nomes de Carey Mulligan e Ralph Fiennes chamassem a atenção, pensava que a sessão pudesse soar meio modorrenta ou excessivamente contemplativa. Mas não. Na trama, Mulligan é a jovem viúva Edith Pretty que, interessada por arqueologia, contrata o experiente escavador Basil Brown (Fiennes) para explorar parte da área localizada em sua propriedade. O que inicia como um descompromissado e modesto trabalho vai se tornando algo maior, conforme as descobertas daquilo que realmente existe no terreno vão se descortinando. Em 1938 o nome da Hitler e os avanços da Alemanha Nazista já eram uma realidade: mas ali, naquele cenário bucólico, idílico, a batalha passa a ser outra quando entram em cena interessados ligados ao Governo, ao Museu Britânico, ao departamento de obras, entre outros. O que resultará em uma série de discussões sobre o destino do material encontrado no sítio arqueológico.

Filmada com grande apuro técnico, a obra faz lembrar um filme do Terrence Mallick sobre arqueologia. E confesso que a "homenagem", com a câmera fazendo idas e vindas em meio ao cenário pastoril, complementada pelas narrações em off, pelas plantações, pelo entardecer, pela chuva e pelo barquinho, com a fotografia da natureza verde-acinzentada sendo palpável - tudo elementos típicos do modus operandi do diretor de Uma Vida Oculta (2020) -, funcionam direitinho. É uma escolha acertada para uma obra que não requer pressa para evoluir, já que as próprias cenas da escavação em si, que sugerem certa delicadeza (observem o uso do pincel, de uma forma quase gentil), não exigem nenhum tipo de urgência. E mesmo os personagens acrescentados à narrativa, vão sendo colocados de forma tópica, orgânica, o que dá fluidez e organiza a obra para que nada pareça desconectado. É, ao cabo, o famoso filme que dá gosto de assistir.

Imprimindo, como já dito, força nos pequenos arcos dramáticos - um grave acidente que ocorre no sítio arqueológico, a severa doença de um dos protagonistas, a relação do filho de Edith com Brown (vivido pelo carismático Archie Barnes) -, a película aproveita o conceito de escavação para estabelecer uma metáfora com a importância da preservação da memória (e da história), cruzando-a com outros temas, como astronomia, fotografia, passagem do tempo e, claro, o absurdo da guerra. Discutindo, aqui e ali, temas como machismo, adultério e homossexualidade, a obra aposta na sutileza para fazer justiça ao nome de Basil Brown, que por muito tempo permaneceu como uma figura abnegada em sua área de conhecimento. Nesse sentido, o filme baseado no livro de John Preston, com toda a sua poesia subjacente, não deixa de ser uma bela homenagem.

Nota: 8,0

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Cinema - Fale com as Abelhas (Tell it To The Bees)

De: Annabel Jankel. Com  Anna Paquin, Holliday Granger, Gregor Selkirk e Kate Dickie. Drama / Romance, Reino Unido, 2018, 107 minutos.

Ainda que o filão do "romance lésbico" possa estar ficando meio batido, admito a vocês que gostei desse Fale com as Abelhas (Tell it To The Bees). Não é um filme inesquecível mas, ok, é uma sessão agradável e bem feita, por mais que não evite alguns clichês do gênero. A trama nos joga de volta para meados dos anos 50, numa pequena cidade da Inglaterra, onde a jovem industriária Lydia (Holliday Granger) se esforça para se manter e para criar seu filho. Um acidente faz com que ela tenha de levar o pequeno Charlie (Gregor Selkirk) para que este receba os cuidados da médica Jean (Anna Paquin), que está retornando a sua terra natal para tocar a clínica de seu pai. Entre as duas nasce uma amizade. Que se transformará em algo a mais quando Lydia for despejada pelo senhorio após perder o emprego, sendo em seguida contratada por Jean para ser uma espécie de governanta improvisada de sua ampla e bela casa.

Mas nós estamos falando dos anos 50, não esqueçamos - e se hoje em dia ainda existe muito preconceito por aí, em meados do século passado era ainda pior. Nesse sentido, a obra da diretora Annabel Jankel nos fará percorrer todas as etapas do enfrentamento à intolerância, vinda de todas as partes. Para a família de Lydia - seu ex-marido e sua ex-cunhada -, a vergonha de criar um filho em um ambiente em que duas mulheres compartilham uma casa, será motivo de desavenças. Para a população em geral, a "má fama" de Jean, que teria se envolvido com outras mulheres no passado, escancarará a hipocrisia das famílias de bem, cheias de segredos obscuros e de comportamentos questionáveis, mas que não hesitarão em direcionar todo o seu ódio ao casal. É bastante melodramático, eventualmente meio excessivo, e por mais que Paquin e Granger não tenham lá tanto carisma, a gente torce para que as coisas deem certo ao final.

Bom, nessas horas talvez vocês estejam se perguntando (ou não) "onde entram as abelhas nessa história"? Bom, as abelhas tem um papel relevante, meio metafísico, que confere à narrativa um componente de flerte com o realismo fantástico. Tendo a apicultura como hobby, Jean possui várias colmeias junto ao pátio de sua propriedade. Em conversas com Charlie - e a amizade de ambos é uma das coisas bonitas da história, o que gerará também boas reviravoltas -, ela revela ser possível "conversar" com esses importantes insetos, afirmando que seus movimentos poderiam ser influenciados por isso. Trata-se na realidade de uma antiga lenda europeia, que dá conta da importância de contar segredos as abelhas, sendo que estes seriam preservados já que elas jamais voam para muito longe. Nesse sentido, aquilo que poderia ser meramente convencional ganha mais força - e as imagens do manejo dos enxames estão entre as mais bonitas e bem fotografadas da obra.

Só que, em meio à beleza, o filme também não abre mão de colocar o dedo na ferida, abordando temas importantes aqui e ali - caso do estupro e até mesmo o aborto, além da homofobia e da misoginia -, sem disfarçar o caráter dissimulado daqueles que se apresentam como bastiões da moral e dos bons costumes. E eu, sinceramente, não me importo quando um filme assim é tão expositivo, porque às vezes o óbvio precisa ser escancaradamente reforçado, especialmente em tempos em que as pessoas ainda tem dificuldade em reconhecer as múltiplas possibilidades de núcleos familiares. Compensando uma ou outra deficiência na atuação - acho incrível como a Anna Paquin não consegue ser "natural" nas suas caracterizações -, a película é primorosa em sua parte técnica, do desenho de produção à fotografia, que é acinzentada naquele estilo Billy Elliot (2000) de melancolia. Com ternura e força em igual medida, a obra ainda aposta em um final meio em aberto, mas que acena para a importância da luta por uma sociedade mais justa, igualitária e que respeite as diferenças.

Nota: 7,5

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Uma Noite em Miami (One Night In Miami)

De: Regina King. Com Kingsley Ben-Adir, Eli Goore, Leslie Odom Jr. e Aldis Hodge. Drama, EUA, 2020, 113 minutos. 

 "Alguns brancos só querem ter a oportunidade de se parabenizar por não serem crueis conosco, como se devêssemos dar graças por eles terem tido a gentileza de nos tratarem quase como humanos. Eu odeio eles mais do que os racistas escancarados".

Vamos combinar que é a forma com que é a tratada a questão do racismo que torna Uma Noite em Miami (One Night In Miami) um filme ainda melhor do que poderia ter sido. Por que não se trata apenas de quatro homens negros confinados em um apartamento, discorrendo sobre como sofrem o preconceito na pele. Há também um debate sobre como cada um deles encara essa realidade: com mais militância? De forma mais resignada? De maneira silenciosa? Com submissão? Com compromisso com a "causa"? Isto porque os quatro sujeitos em questão são famosos - e talvez por isso pudessem usar a fama em seu favor. O primeiro deles é o boxeador campeão mundial Cassius Clay (Eli Goore). Há também o músico de soul Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e o jogador de futebol americano candidato a astro de Hollywood Jim Brown (Aldis Hodge). Fechando o grupo, o ativista político Malcolm X (Kingsley Ben-Adir) serve como uma espécie de amálgama de todos: o ano é 1964 e a luta pelos direitos civis dos negros na Terra do Tio Sam percorreria praticamente toda a década.

Em si o filme, baseado em uma peça de Kemp Powers, é bastante teatral. E é por isso que centra a sua força na potência dos diálogos e nas interpretações bastante expressivas de seu elenco. Não parece haver, nesse sentido, muito espaço para pontas soltas: ao imaginar como seria esse encontro fictício, a diretora Regina King (em sua promissora estreia) escancara o racismo estrutural que, em muitos casos, sequer é claro para os negros que conseguiram superar um sem fim de barreiras para vencer na vida. E "vencer na vida", lembra Jim Brown em certa altura: é TAMBÉM ter estabilidade financeira. Nesse sentido, o filme é um prodígio na discussão do papel dos próprios negros no combate ao racismo - que poderiam (e deveriam?) utilizar a sua voz nas artes, na música, nos esportes e em outros campos para levantar as suas bandeiras. Está em alta, por exemplo, a discussão sobre se atletas profissionais devem ou não encampar essa luta - se deveriam se manifestar ou mesmo deixar de entrar em quadra ou em campo como forma de protesto a cada episódio de racismo que ocorre no esporte. Por que se ele ocorre no esporte, na música e com os famosos, como não estará acontecendo nas frestas?

E é por isso que a "dança" entre esse quarteto de protagonistas é tão elegante quanto potente. Após a luta que dá a vitória a Clay em uma noite agradável de Miami Beach, os quatro se encontram para celebrar essa conquista. Ao invés de saírem para beberem, curtirem e viverem, Malcolm X sugere uma noite diferente para todos: confinados, debaterão os próximos passos de uma discussão de vida ou morte que está em alta e que visa a combater os preconceitos. O ativista, na realidade, reúne a todos para inquiri-los: como jogadores e artistas eles não estariam sendo apenas "brinquedos de corda que tocam músicas para o entretenimento dos brancos"? Não seriam eles, apenas "negros burgueses que se contentam com migalhas?". Quando se veem confrontados os demais recuam: Cooke, empenhado em propagar o romantismo classudo em suas canções é provocado: "como pode um branquelo como Bob Dylan ser mais ativo nesse tipo de batalha do que você?". Trata-se ao cabo de um filme sobre tomada de consciência e sobre o quão complicado deve ser trafegar em meio a equação que coloca no mesmo lado o sucesso e a necessidade de não baixar a cabeça para um confronto permanente de ideias.

E mesmo que a intenção geral da obra seja a de provocar a reflexão, a mensagem não deixa de ser passada com elegância, inclusive intercalando momentos mais leves e bem humorados - especialmente no que diz respeito as diferenças de personalidade entre os quatro -, com outros mais complexos e cheios de significados. Há, por exemplo uma sequência em que assistimos uma exibição ao vivo de Sam Cooke e que dá conta da verdadeira potência que pode haver por trás de um comportamento que sugere união diante da adversidade. É uma metáfora mais do que perfeita. Em outros, há espaço para reconhecer que a militância exagerada - ainda que discutir uma pauta como o racismo JAMAIS deveria sugerir exagero -, talvez possa incomodar certas alas (e, nesse sentido, é quase curioso perceber como Malcolm X se apresenta quase como um "vilão" tão involuntário quanto pessimista). É um filme completo, afinal de contas: é bem feito, bem orquestrado, entretém, diverte, é atualíssimo e ainda nos faz pensar. Em alguns aspectos guarda semelhança com o contemporâneo A Voz Suprema do Blues (2020). Mas, aqui, acho que há ainda mais intensidade. O que não deixa de ser também uma virtude, que faz com que a obra dialogue exatamente com aquilo a que ela propõe discutir.

Nota: 8,5

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - A Assistente (The Assistant)

De: Kitty Green. Com Julia Garner, Makenzie Leigh, Kristine Froseth e Matthew Macfayden. Drama, EUA, 2019, 87 minutos.

Não chega a ser exatamente uma novidade o fato de que o ambiente de trabalho, especialmente para as mulheres mais jovens, pode ser bastante tóxico. Não bastassem os variados tipos de assédio, o machismo e a misoginia, muitas mulheres também convivem com jornadas exaustivas, esgotamento mental, desvios de função e insegurança a respeito do futuro. É um combo que, invariavelmente, ataca a saúde mental, gerando ansiedade, depressão e síndromes como a de Burnout. E, em muitos casos, o assédio em si não chega a ser escancarado, ostensivo. Ele surge nos pequenos detalhes do dia a dia, no acúmulo de situações desgastantes, na sensação de fracasso iminente. Em uma cena do ótimo A Assistente (The Assistant), filme disponível na plataforma de streaming da Amazon, por exemplo, a jovem protagonista Jane (a sempre competente Julia Garner) se confunde na hora de pedir o sabor de sanduíche para um colega de sala. É o suficiente para ouvir contra si uma reação exagerada, pouco amistosa, agressiva. Afinal de contas, hoje em dia parece ser moda ser reativo, intolerante. Ou mal educado mesmo.

Na trama dessa pequena joia que versa, como já falamos, sobre a toxicidade de escritórios mundo afora, acompanhamos um dia inteiro na vida de Jane em um escritório de uma produtora de cinema. "Primeira a chegar e última a sair" como lembra um de seus chefes em certa altura - e é isso mesmo, já que a obra da diretora Kitty Green inicia com a jovem saindo de casa ainda de madrugada, para sair quase ao final da noite do dia seguinte. Em meio a atividades prosaicas da rotina do trabalho - realizar fotocópias, agendar reuniões, distribuir documentos e até fazer pequenas faxinas -, o dia vai se descortinando de forma melancólica, em meio a refeições mal feitas, ligações telefônicas pouco amigáveis e conversas de corredor sobre temas nem tão importantes assim. Em meio a todo o "caos organizado", Jane estranhará a chegada de outra jovem com idade próxima a sua, que pretende uma vaga de assistente - e que marcará uma misteriosa reunião na casa de um dos supervisores.

Como se fosse a personagem de James Stewart em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcok, Jane terá a impressão de ter se deparado, lá pelas tantas, com um crime. E se no caso da obra-prima do Mestre do Suspense o que o protagonista via era um provável assassinato, aqui a jovem aspirante ao cargo de produtora junta os pontos que lhe levam a conclusão de que ela possa estar se deparando com um caso de assédio sexual a uma colega. E será na tentativa de denunciar esse caso, que ela perceberá a barreira infinita que existe entre ela - uma menina de seus 20 e poucos anos em início de carreira profissional -, e os magnatas da companhia, todos homens brancos, héteros, ricos, casados, machistas e sem nenhum pudor em agir como agem. Chantageando-a, ameaçando-a, a farão lembrar que, para a vaga dela, - essa legítima "vaga arrombada", por sinal - existem pelo menos 400 pessoas na fila, dispostas a ocupar esse cargo. Um cargo, não custa lembrar, de jornada exasperante e um provável salário de fome.

Porque infelizmente o que vivemos, especialmente no Brasil (nos Estados Unidos também tem ocorrido), é um cenário de completa precarização do trabalho, com perdas de direitos, revisões de leis sob a desculpa de uma suposta "modernização" e a informalidade que fragiliza, que desgasta as pessoas. E que faz com que elas se submetam, como Jane, a um ambiente de opressão, tão sufocante quanto os corredores apertados da produtora em que ela trabalha. Aliás, não é demais salientar que o desenho de produção se ocupa em tornar as salas fechadas, os cubículos que Jane percorre - com seus tons amadeirados e escuros -, em ambientes claustrofóbicos, sorumbáticos. A gente quase sufoca junto com a protagonista, tanto que quando ela sai para tomar um ar e comer um bolinho quase ao final do dia, no único momento das últimas 24 horas que ela olha para si, com alguma qualidade de vida, a gente sente um certo alívio. Que vem seguido de uma tristeza, quando percebemos que amanhã o dia segue. Provavelmente como se nada houvesse acontecido.

Nota: 8,0

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Lançamento de Videoclipe - Foo Fighters (Waiting On a War)

I've been waiting on a war since I was young / Since I was a little boy with a toy gun. Eu não sei se vocês chegam a se empolgar com a ideia de um novo disco do Foo Fighters, mas o caso é que o décimo álbum de estúdio de Dave Grohl e companhia já tem data de lançamento marcada: 05 de fevereiro. Com o título de Medicine At Midnight, o trabalho contará com nove faixas e explorará de forma mais explícita, ao menos de aparentemente, temas modernos, como a péssima política armamentista dos Estados Unidos - sentimento reforçado pelo videoclipe da canção Waiting On a War, que foi disponibilizado hoje. Funcionando como um pequeno libelo antiguerra - e que vem bem a calhar no final da Era Trump -, a canção tem letra autoexplicativa e uma melodia grudenta que inicia como uma balada evocativa, até alcançar a urgência roqueira de sua parte final. Dirigido por Paola Kudacki, o clipe passa aquele sentimento de conflito permanentemente à espreita, como se a violência estivesse pronta a explodir a qualquer momento - mesmo nos instantes de serenidade. É o Foo Fighters abandonando, ao menos em partes, o componente mais divertido do rock pra falar um pouco mais sério. Legal? Vocês decidem.

Cine Baú - A Longa Caminhada (Walkabout)

De: Nicolas Roeg. Com Jenny Agutter, Luc Roeg e David Gulpilil. Drama / Aventura, EUA, 1971, 100 minutos.

"Na Austrália, quando um aborígene completa 16 anos ele é obrigado a vagar pela terra. Durante meses deve viver dela. Dormir sobre ela. Comer de seus frutos e de sua carne. Sobreviver, ainda que para isso tenha que matar outras criaturas. Os aborígenes chamam isso de 'walkabout'. Essa é a história de um 'walkabout'". Foi uma carreira bastante irregular a do britânico Nicolas Roeg, mas é preciso que se diga que ele alcançou um resultado bastante satisfatório com o enigmático, selvagem e absurdamente sensorial A Longa Caminhada (Walkabout). Partindo da ideia contida na frase que abre essa resenha, o diretor conta a história de dois jovens - uma adolescente de 18 anos e seu irmão que tem cerca de oito anos -, que são levados até o meio do deserto australiano pelo pai que enlouqueceu. Lá, eles sofrem uma frustrada tentativa de assassinato do genitor que, em seguida, comete suicídio. Abandonados, no meio do nada, os irmãos precisarão retornar à civilização. E para isso empreendem o walkabout do título original.

Muito menos preocupado em explicar as motivações do pai suicida, Roeg está mais interessado em narrar as desventuras da garota (vivida por Jenny Agutter) e do menino (Luc Roeg, filho do diretor na vida real), que atravessarão dezenas de quilômetros em meio a aridez do deserto, enquanto se empenham em encontrar água, comida e qualquer coisa que, afinal, possa lhes dar sustento e a possibilidade de sucesso na jornada. Encarando o seu destino com comportamento pouco fatalista - o que não deixa de ser curioso -, a dupla atravessa montanhas rochosas e dunas gigantescas, o que garante um sem fim de lindas tomadas que apenas ampliam a sensação de isolamento. Os animais que aparecem pelo caminho - lagartos, cobras e outros que costumam se dar bem no ambiente árido -, surgem como parte de um cenário ameaçador, mas que também dá a dimensão da distância ocupada por qualquer componente "civilizatório".


E será no encontro com um jovem aborígene que está justamente cumprindo o seu walkabout real, que a dupla mergulhará de vez no ambiente primitivo da selva - com seus ritos, hábitos e comportamentos sendo revelados aos poucos e entrando, de certa forma, em choque com os ideais de desenvolvimentismo urbano. Ainda assim, curiosamente, será o aborígene (interpretado por David Gulpilil), que encaminhará a dupla para as bordas daquele cenário inóspito, deixando a sua marca naquilo que pode ser encarado como um curioso road movie a pé, em que a jornada em si é o veículo para a consolidação de uma grande amizade. Explorando de forma magistral o antagonismo óbvio entre a frieza do concreto e o calor da selva, a obra esbanja naturalismo, equilibrando na medida certa um certo erotismo (repare nos closes gerais dos corpos nus ou não) com um outro tanto de exotismo - sensação ampliada pelas imagens de animais putrefatos, que surgem mescladas com sequências oníricas que parecem resultado de algum sonho alucinatório em meio ao nada.

Nesse sentido, o filme também é um excelente exercício de técnica, com um desenho de produção soberbo - as cenas no meio do nada são claustrofobicamente bucólicas -, que é complementado pela ótima trilha sonora, em que canções como Gasoline Alley, de Rod Stewart, acabam por dar ritmo à narrativa. Já as trucagens utilizadas tanto na edição como na fotografia, também contribuem para o sentimento generalizado de exoticidade que rege essa pequena fábula - o que, em alguns momentos, nos faz imaginar como seria um filme do Godard (aqueles bem cheios de invencionices), no meio rural. Cheio de contrastes, o filme ganha ainda mais força no debate geral sobre a monotonia do capitalismo e as ambições do american way of life, acrescentando ainda um componente nostálgico a respeito de uma vida desejada, mas que seria provavelmente impossível de ser vivida - a menos que houvesse uma inadiável quebra de padrões. É uma obra nem sempre fácil, pouco convencional, mas que passa sua mensagem confiando na inteligência do espectador. Prestes a completar 50 anos de seu lançamento, A Longa Caminhada segue como uma experiência cinematográfica viva e cheia de inspiração, que não hesita em questionar o status quo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Pieces of a Woman

De: Kornél Mundruczó. Com Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn e Molly Parker. Drama, EUA, 2020, 128 minutos.

A premissa de Pieces of a Woman é tão simples quanto dolorosa: um casal prestes a ter o seu primeiro filho opta pelo parto domiciliar, mas as coisas saem do controle durante o procedimento e o bebê morre instantes depois de nascer. Devastados, Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) lutam para tentar retomar a "normalidade" em suas vidas - a rotina, o trabalho, a vida a dois -, ao mesmo tempo em que enfrentam um doloroso processo judicial em que a parteira (Molly Parker) é acusada de negligência criminosa. Sim, é pesado. Bastante pesado. E pode ser contraindicado para aqueles cinéfilos que já estão considerando os tempos pandêmicos um fardo por si só. As dúvidas do casal, afinal, são muitas: se o parto tivesse sido realizado no hospital, o filho teria sobrevivido? E se a emergência tivesse sido acionada mais cedo? Há culpados, verdadeiramente? Colocar a parteira na cadeia amenizará, de alguma forma, a dor? Sem tomar partido, a obra do húngaro Kornél Mandruczó não fornece soluções fáceis, ao mesmo tempo em que mergulha o espectador na rotina excruciante da dupla de protagonistas.

Aliás, mergulha MESMO. Os primeiros 30 minutos de projeção, por sinal, são tão aflitivos, quanto tecnicamente bem executados. Em um longo plano sequência, partimos do casal em aparente tranquilidade enquanto aciona a parteira, após a bolsa se romper. Impedida de vir imediatamente, a parteira manda a sua ajudante. A câmera vai para lá e para cá acompanhando as movimentações angustiantes do trio, de um ambiente para o outro, do quarto para o banheiro e para o quarto novamente. Há um clima de tensão no ar, pesado, incômodo. O ambiente parece mal iluminado, macambúzio. As dores do parto soam ainda maiores do que o normal. O procedimento se torna pesaroso, mais longo do que talvez devesse ser. O apoio de Sean está longe do ideal. Os batimentos cardíacos do bebê parecem palpitar de forma incerta, trôpega. Quando a emergência é chamada já é tarde. Choro, dor, perda. Os créditos iniciais sobem. E nós estamos há uns bons minutos prontos para dizer "chega, já entendemos o que vai acontecer aí". E tudo acontece. Sem muito respiro.


E por mais desolador que seja o arco dramático do filme é preciso reconhecer o esforço dos atores em entregar a melhor interpretação possível - especialmente da Vanessa Kirby, que será figurinha certa entre as indicadas no próximo Oscar. É uma caracterização não apenas de gestos, olhares, silêncios e gritos que parecem prontos a vir à tona. É uma concepção de grande exigência física, mas que também mergulha em nuances para explicitar dores - e, nesse sentido vale observar a sequência em que Martha "tateia" uma maçã no setor de frutas do supermercado. Ou mesmo quando tamborila os dedos das mãos que surgem em close, com o esmalte das unhas agora desgastado, o que poderia sugerir uma espécie de esfacelamento da própria rotina pós-luto. Aliás, hábil na concepção de metáforas, o diretor não hesita em tornar simbólicos os próprios objetos cênicos, podendo ser desde uma bola de pilates que agora murcha no meio da sala, passando pelas flores que estão morrendo nos vasos até chegas nas xícaras sujas que se amontoam na pia. O dia a dia se tornou insustentável e ele é refletido nesses pequenos detalhes, que injetam uma boa carga de simbolismo à dualidade que nos faz lembrar o tempo toda da vida e da morte como espectros opostos.

Nesse sentido, o diretor também é hábil ao possibilitar uma série de debates, sem necessariamente tomar partido. O principal deles coloca em espectros opostos os defensores do parto domiciliar - que visa a tornar o procedimento mais acolhedor e confortável à mulher -, em contraponto aos defensores do parto hospitalar normal, em que a garantia de assistência médica compensaria o caráter mais invasivo da "proposta". E confesso que fiquei muito feliz de ver a forma criativa com que é tratada essa discussão, com as dúvidas sobre o destino "jurídico" a ser dado a parteira surgindo dentro do próprio seio familiar - o que também permitiu à veterana Ellen Burstyn a concepção de boas sequências vivendo a mãe da Martha. Outra bela discussão envolve o destino do corpo da bebê: Martha pretende doá-lo à universidade para estudo, ao passo que sua conservadora mãe deseja um enterro nos moldes tradicionais, religiosos. Em outra parte, a controvérsia envolve "apagar" a existência da filha morta da casa. Martha pretende se desfazer de todas as suas coisas. Roupas, brinquedos, móveis do quarto. Sean está insatisfeito em relação a esta decisão. São instantes que enriquecem a narrativa.

E por mais que o filme não evite alguns clichês batidos - após a morte inesperada de seu bebê, não demora a surgir a cena em que Martha se depara com outras mães extremamente felizes com seus filhos -, a inclusão dessas sequências não chega a comprometer o resultado final. Nem mesmo a tão discutida sequência de tribunal do terço final atrapalha. Há um aceno para o otimismo no desfecho, por mais desalentadora que a experiência como um todo seja - e por mais que isso posso destoar um pouco do conjunto, definitivamente é algo que não atrapalha. É uma obra dura, inescapavelmente melancólica - a neve que insiste em cair reforça isso -, repleta de simbolismos, tecnicamente soberba e ainda com excelentes interpretações. É, até o momento, o grande filme desse começo de temporada. Se terá gás para se sustentar e chegar com força a temporada de premiações, o tempo dirá. Se depender de nós aqui do Picanha, já estamos na torcida.

Nota: 9,0

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Livro do Mês - Sobre os Ossos dos Mortos (Olga Tokarczuk)

Sobre os Ossos dos Mortos foi o meu primeiro contato com a autora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2018 - e, desde já tenho a certeza de que esta será uma das grandes leituras desse ano. Com uma deliciosa mistura de estilos - a obra vai do suspense policialesco, passando pelo realismo fantástico até chegar à comédia de humor negro muitas vezes na mesma página -, o livro nos joga para um vilarejo em uma gelada região ao norte da Polônia, na divisa com a República Tcheca. É nesse local frio, inóspito - o sentimento de desolação por vezes é palpável -, que mora a protagonista Janina Dusheiko, uma professora de inglês aposentada, que ocupa suas horas como caseira em propriedades vizinhas à sua. Atividade que lhe garante uma renda extra, ao mesmo tempo que permite monitorar a movimentação no local.

Só que a obra já inicia com uma certa tensão no ar: acordada de madrugada pelo excêntrico vizinho que leva o apelido de Esquisito, Janina vai até a casa de Pé Grande, integrante do Clube de Caça local, que jaz morto. A cena é aterradora: em meio a uma refeição - o homem se alimentava da carne de uma corça caçada, enquanto outros animais espreitavam do lado de fora -, o sujeito parece ter se engasgado com um osso. Não demorará para que outros homens sucumbam neste local tão gelado e pouco amistoso. A cada morte o mistério aumenta: as pistas parecem indicar uma certa revolta dos animais selvagens do local, normalmente acoados pelo homem. Janina, uma vegetariana que possui um profundo respeito pela natureza, acredita na tese de que hienas, raposas, corças e outros bichos possam estar dispostos a se vingar contra a destruição proposta pelo homem. Só que o argumento meio estapafúrdio da protagonista a transforma, acidentalmente, em uma das principais suspeitas. Sensação ampliada pelo fato de seus próprios cachorros terem desaparecido em uma situação mal explicada.

Já os vestígios encontrados junto a cada cadáver acabam por dar forma à curiosa "teoria conspiratória" da rebelião animal. Em uma das mortes, um guarda florestal responsável por desmatar parte de uma floresta - que, ao cabo, também aniquilaria famílias inteiras de certa espécie de besouro que vivia no interior dos troncos das árvores -, amanhece apodrecendo com o corpo coberto pelo mesmo tipo de besouro que sai pela boca, se esparrama pelas demais partes, formando um mar escuro de insetos, num tipo de ecossistema único, incomum. Sem resposta para cada caso, Janina entope a polícia de cartas onde cobra uma solução da justiça, ao mesmo tempo em que expõe argumentos cada vez mais convincentes sobre o bizarro comportamento da fauna local. Ao mesmo tempo, cruza astrologia - a posição de Saturno ou de Júpiter poderia influenciar nas mortes? - com a poesia de William Blake, que ela traduz todas as sextas-feiras, em companhia de um aluno.

Com um estilo de escrita direto, sem firulas, Sobre os Ossos dos Mortos é subversivo, um tanto macabro e repleto de reflexões sobre a condição contemporânea - especialmente no que diz respeito à nossa relação com a natureza. Sem abrir mão de certo existencialismo, a obra nos faz refletir ao mesmo tempo que nos diverte, passando de raspão por temas como loucura, injustiça, direitos dos animais e hipocrisia das "famílias de bem". Vencedora do Man Booker Prize, Olga tem sido saudada como uma das grandes escritoras da atualidade, especialmente por esta "fábula filosófica sobre a vida e a morte", como destacou o New York Times. Já Janina é a anti-heroína por excelência: meio maluca, um tanto persistente em suas convicções, com um comportamento repleto de atitudes questionáveis, mas com um carisma irresistível.

Curta Um Curta - Umbrella

Há uma boa chance de o Brasil estar representado na edição desse ano do Oscar. E não estamos falando de Bacurau (2019) e, sim, do curta metragem de animação Umbrella, que tem feito um belo papel em festivais mundo afora e chega com fortes possibilidades em sua categoria. A trama do filme de pouco mais de sete minutos é baseada em fatos reais e conta a história de um menino que mora em um orfanato e que sonha em "ter" um guarda-chuva amarelo. Cheia de simbolismos e executada com grande apuro técnico - do traço do desenho a escolha da trilha sonora -, a obra é daquelas que arrancam lágrimas com facilidade. "[...]...eu espero que o Umbrella possa florescer esse sentimento de empatia nas pessoas e esquente um pouco o coração delas. E que as pessoas possam pensar, mesmo, que a gente quer ajudar o próximo e não podemos julgar sem conhecer o que o outro está passando" destacou a diretora Helena Hilario, em entrevista ao site Scream & Yell. Cem por cento brasileiro, ainda que executado em inglês, o projeto levou oito anos para ser concluído e foi realizado pelo estúdio Stratostorm. O curta, que conta com co-direção de Mario Pece está disponível no Youtube até o dia 21 de janeiro. Corre que ainda dá tempo!

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Novidades no Now/VOD - Pacarrete

De: Allan Deberton. Com Marcélia Cartaxo, João Miguel, Soia Lira e Zezita Matos. Comédia dramática, Brasil, 2019, 97 minutos.

Talvez de forma meio involuntária, Pacarrete acaba sendo uma grande homenagem àquelas figuras pitorescas que habitam as pequenas cidades Brasil afora. Cada qual tem a sua - figuras excêntricas, extravagantes, cheias de idiossincrasias que ajudam a formam o folclore municipal. Quem mora aqui em Lajeado, no Rio Grande do Sul, sabe que também temos as nossas - quem não se recorda do falecido Aldino e seu carrinho de mão? Vivida de forma visceral pela premiada Marcélia Cartaxo, a Pacarrete do título é uma professora de dança aposentada, que mora em um casarão cheio de penduricalhos com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e com a empregada Maria (Soia Lira). Maníaca por limpeza, rigorosa e ranzinza, a protagonista passa os dias às turras com os demais moradores - especialmente as crianças da vizinhança de Russas, Ceará (onde se passa a ação) -, enquanto se empenha em manter a calçada de sua casa asseadíssima e as floreiras bem organizadas. É o tipo de figura da burguesia decadente que mantém hábitos elegantes que, para muitos, podem soas apenas arrogantes ou presunçosos.

Mas mesmo estando em constante briga com a comunidade, Pacarrete pretende presenteá-la com uma apresentação de balé que deverá ocorrer (ou deveria, ao menos), durante a ampla agenda que marca as festividades dos 200 anos de emancipação política do município. Só que para conseguir o aval para que o seu show possa ser incluído na "agenda", Pacarrete entrará em uma verdadeira disputa com a Prefeitura local - e com suas lideranças, muito mais preocupadas em entregar espetáculos populares de forró ao seu público (o que é justíssimo, por sinal) do que alguma extravagância cultural que poderia soar apenas como elitismo. Em meio às angústias que marcam a indefinição sobre a inclusão ou não da apresentação - a população também não parece muito interessada em música clássica ou dança -, a protagonista solicitará a confecção de uma nova roupa de bailarina à costureira local, ao mesmo tempo em que retomará os ensaios visando à grande noite.

E a história é basicamente essa e não deixa de ser fascinante como um fiapo narrativo pode se ocupar de desvendar tantos subtextos - que podem ir da infinita discussão sobre os limites da arte (que colocam ainda em lados opostos o popular e o erudito), passando pela velhice, pela solidão e pela necessidade de encarar a inevitável finitude, até chegar na importância de se valorizar as pequenas ações. Sobre este último item, certamente não será difícil de se emocionar em sequências que envolvem um simples bolo de fubá, a adoção de um cachorro ou mesmo escutar uma música nostálgica na companhia de um familiar. Pacarrete pode passar o filme todo aos berros, angustiada - e as inflexões vocais que reforçam o "azedume", feitas por Cartaxo, não são menos do que soberbas -, mas refletem toda a solidão sentida por ela, em um mundo que não parece lhe compreender. E é por isso que os instantes em que o personagem de João Miguel aparece se tornam tão adoráveis, tão leves.

Com excelente desenho de produção - vale a pena observar os detalhes dos cenários (até quadro das "crianças que choram" aparece perdido em uma parede) -, a película de estreia do diretor Allan Deberton bebe na fonte de clássicos como O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) ao retratar uma figura bastante histriônica e muito carismática, que sonha em reviver os tempos gloriosos de um passado que não retorna mais. E, confesso que as incertezas sobre a personalidade complexa de Pacarrete só tornam a experiência ainda mais satisfatória - o que é complementado pela ausência de flashbacks, o que nos deixa meio no "escuro" em relação a sua verdadeira história. E isso é bom. Com Marcélia Cartaxto dando um verdadeiro show - ela aparece em simplesmente TODAS as cenas -, a obra, grande vencedora do Festival de Gramado de 2019, ainda se vale de sua graciosa trilha sonora como mais um trunfo. O que, inevitavelmente, nos retirará da projeção com lágrimas nos olhos.

Nota: 8,5

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Lado B Classe A - Lykke Li (I Never Learn)

Aconteceu uma situação meio curiosa na hora de escrever esse Lado B Classe A. Estava revisitando os discos lançados pela sueca Lykke Li na intenção de produzir um texto sobre o ótimo Wounded Rhymes, o segundo registro da artista, que completa dez anos de vida agora em fevereiro de 2021. Pra quem não está ligando o "álbum à figura", o Wounded Rhymes é o trabalho que conta com o inesquecível hit I Follow Rivers - sim, acredite, já faz uma década que você começou a cantarolar o refrãozinho I, i follow, i follow you / deep sea baby. Eu tenho esse hábito para esse quadro, especialmente pela fato de análise musical não ser o meu forte. Gosto de ouvir e de ouvir de novo. Gosto de perceber as variações do artista ao longo da carreira, quais foram as pequenas alterações, os avanços, como foi o amadurecimento (ou não). Só que nesse processo acabei constatando que o melhor disco da cantora é mesmo o I Never Learn, lançado em 2014. Sim, o que era uma coisa virou outra. E cá estamos pra subverter a lógica.

Com uma nota de aceleração um pouco mais baixa do que no trabalho anterior, em I Never Learn a artista consegue nos transportar como poucas vezes para o cenário gelado de seu País de origem, mas sem abandonar o caráter enérgico da coisa toda. É como se a melancolia da nevasca fria e entristecida à moda do livro A Desumanização do Valter Hugo Mãe, encontrasse as pistas mais dançantes de uma Robyn (se não estou viajando). As variações entre o caráter mais introspectivo e a desinibição podem até ser marcantes, mas em geral o que se sobressai é a ambientação mais reflexiva, ponderada, quase meditativa. O que pode ser percebido pelas melodias que trafegam em meio a acordes econômicos, sintetizadores nunca exagerados e pianos discretos, que se equilibram de maneira perfeita com o vocal que, eventualmente, beira o tímido (ou até o sussurrado). Gestada para as pistas, Li preferiu recuar nesse trabalho: aos 28 anos a gente amadurece e a energia de outrora dá lugar a outras formas de se expressar.

Exemplo desse expediente pode ser percebido, por exemplo, na ótima Silverline - uma das minhas preferidas do disco. Começando de forma bastante discreta, com uma melodia evocativa, etérea, onírica, a canção sobe até uma "leve" explosão no gracioso refrão, com a voz da artista funcionando como uma extensão vocal quase natural. O flerte com estilos como new age - os arranjos, ainda que invernais, soam bucólicos, majestosos -, é replicado em outras músicas como a grandiosa No Rest For The Wicked que, novamente, nos transporta para uma ambientação mais gelada - algo reforçado pela letra que versa sobre solidão. Aliás, sobre as letras, elas representam um grande avanço em relação aos dois trabalhos anteriores, já que os dilemas românticos que resultam de uma dolorida separação, surgem em versos bastante diretos e sem firulas, como por exemplo nos títulos autoexplicativos de músicas, como, Never Gonna Love Again e Love Me Like I'm Not Made Of Stone. Aliás, o próprio título do trabalho dá conta disso.

Nesse sentido, ao mencionar o tipo de arranjo produzido por Li em suas nove músicas e pouco mais de 32 minutos de duração do disco, o crítico da Pitchfork Ian Cohen destacou como a percussão parece, em alguns casos, "bater e bater como um coração defeituoso". Aliás, o quase sempre exigente site concedeu ao trabalho uma honrosa nota 8,4, qualificando como Best New Music e destacando a abordagem da "composição como um teatro musical, que parece ser criado por algo diferente de uma simples banda", algo reforçado pelos "violões dedilhados de maneira incômoda e pelos acordes de piano ressonantes ampliados pela textura e pelo talento dramático". "Graças à produção cavernosa, a imagem mental duradoura de I Never Learn não é Li caindo sobre um copo de uísque, mas sim deixando respirar feridas frescas, checando o som sozinha em uma arena vazia", prossegue Cohen em sua análise. Não é por acaso que o registro foi figurinha fácil nas listas de melhores daquele ano, sendo lembrado nas relações da Billborad, Consequence Of Sound, Vulture, PopMatters e da própria Pitchfork. Uma pena que Li não tenha conseguido manter o alto padrão no irregular So Sad So Sexy (2018). Mas ela continua com crédito.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Na Espera - Kings Of Leon (Disco)

Sim, eu devo ser um dos únicos fãs de música que se empolga genuinamente com um novo disco do Kings of Leon - então, estou animado para o novo registro da família Followill, que está previsto para o próximo dia 05 de março. Com o nome de When You See Yourself, o sucessor do bom WALLS (2016) contará com 11 faixas produzidas por Markus Dravs. Quem acompanha os irmãos Caleb, Nathan e Jared, além do primo Matthew, sabe que o anúncio do novo trabalho já vinha sendo gestado nos últimos meses - e a especulação ganhou ainda mais força já no primeiro dia do ano, quando alguns teasers foram disponibilizados, além da divulgação dos singles The Bandit e 100.000 People, que já se encontram nas plataformas de streaming e que tem aquele tradicional climinha KOL. É óbvio que em se tratando dos norte-americanos não dá pra cantar vitória antes da hora - até mesmo pela discografia bastante irregular produzida pela banda. Mas nós, aqui do Picanha, já estamos aguardando este que pode ser considerado um dos grandes lançamentos desse começo de 2021.

 

Tracklist

01 – When You See Yourself, Are You Far Away
02 – The Bandit
03 – 100,000 People
04 – Stormy Weather
05 – A Wave
06 – Golden Restless Age
07 – Time In Disguise
08 – Supermarket
09 – Claire And Eddie
10 – Echoing
11 – Fairytale

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Lançamento de Videoclipe - The Weeknd (Save Your Tears)

Pelo visto ainda vai dar o que falar essa história do The Weeknd ter sido esnobado no Grammy - tanto que o clipe da maravilhosa Save Your Tears recém foi lançado e os fãs já se apressaram nas "teorias conspiratórias" de que o artista estaria utilizando o vídeo para dar uma cutucada na maior premiação do mundo da música. Presente no ótimo álbum After Hours - nosso 15º Melhor Disco Internacional de 2020 -, a faixa rendeu um vídeo bastante excêntrico em que Abel Tesfaye se apresenta todo "embotocado" em uma bizarra festa sem conseguir animar os participantes, que vestem máscaras (o que seria também uma crítica a indústria e a busca incessante por corpos e rostos falsamente perfeitos). Sobre a indireta ao Grammy, ela surgiria próxima do segundo minuto de projeção, momento em que o artista segura um troféu enquanto entoa os versos Yeah, i broke your heart like someone did to mine / And now you won't love me for second time. Bom, tendo ou não crítica à indústria o fato é que o clipe ficou divertidamente extravagante - uma coisa à moda Annie Lennox -, honrando uma das melhores canções lançadas no ano passado!

Novidades no Now/VOD - Sou Sua Mulher (I'm Your Woman)

De: Julia Hart. Com Rachel Brosnahan, Bill Heck, Arinze Kane e Marsha Stephan Blake. Drama, EUA, 2020, 121 minutos.

Uma das piadas divertidas que tem corrido a internet é a seguinte: se você tem saco para assistir a um filme em que um bebê aparece dois terços do tempo de projeção CHORANDO haverá a possibilidade de você gostar de Sou Sua Mulher (I'm Your Woman), obra disponível na plataforma da Amazon. Tudo bem, há um certo exagero na história do bebê chorando, só que como a película não tem muita pressa em "acontecer", ela acaba sendo marcada por esse tipo de coisa. Na trama, nos deparamos com um outro lado dos filmes de bandidagem, que é o do que acontece com a família do criminoso quando este simplesmente desaparece sem muita explicação. No caso daqui acompanhamos a via crúcis de Jean (Rachel Brosnahan) e de seu filho (o bebê chorão de nome Harry), que salta de estrada em estrada, de hotel em hotel e de casa em casa, num curioso road movie enquanto tenta descobrir o que efetivamente teria acontecido com o seu marido mafioso Eddie (Bill Heck).

Levada pelo braço direito de Eddie, Cal (Arinze Kane), Jean consegue escapar, se estabelecendo em novas moradias enquanto tenta instituir algum mínimo de normalidade em sua rotina que, nada mais é do que esperar, esperar e esperar - assim como esperavam os soldados do livro O Deserto dos Tártaros de Dino Buzatti. A violência iminente pode estar na simpática vizinha que finge um comportamento amistoso ou mesmo num grupo de invasores que busca se vingar. São acontecimentos aleatórios em meio a bocejos infinitos que se misturam ao tempo de espera, aos choros do bebê (que, sinceramente, nem sei porque foi incluído na narrativa) e as escapadas espetaculares com a ajuda de Cal. Sobre o paradeiro de Eddie? Jean está no escuro. Ninguém sabe, ninguém viu. Não há resposta para essa pergunta. A ela só resta fugir, pra lá e pra cá. Sempre com o bebê a tiracolo.

Aliás, eu volto a dizer, eu não tenho nenhum problema com fluxos mais vagarosos, ou introspectivos, se estes tiverem algum propósito narrativo. Mas esse não parece ser o caso aqui. A lentidão é ocupada com sequências bizarríssimas como aquela em que surge, de forma inesperada, a família de Cal. Não bastasse o comportamento excêntrico de todos - vô, esposa, filho -, sem motivo algum, a trama ainda se ocupa de despejar diálogos constrangedores, como aquele em que Teri (Marsha Stephane Blake) explica a Jean o fato de ela ser a "melhor cozinheira do mundo" mesmo sem saber cozinhar NADA. "Você os alimenta? Se sim, você é a grande chef de cozinha desse planeta". Uma conversa que apenas preenche buraco, que não tem razão de existir e que só aborrece o espectador. O mesmo vale para o instante em que Jean descobre que Teri tinha sido casado com Eddie, momento em que ela resolve participar de uma sessão de treinamento de tiro - por que, né, ela tá muito furiosa com essa informação.

E como se não bastassem todos esses problemas que truncam a narrativa, o filme ainda tem sérios defeitos na parte técnica, sendo que poucas vezes vi figurinos e penteados tão descuidados como nesse filme (a obra se passa nos anos 70 e pouca coisa parece nos fazer lembrar que estamos naquele período). Levando-se a sério demais, a obra ainda relaxa na hora errada - fazendo piadocas à moda "tiozão do pavê" em instantes decisivos, como numa parte em que um dos sequestradores de Jean simplesmente atira na cara de um parceiro de crime porque este estava falando demais (um momento Quentin Tarantino wannabe que não tem muita lógica de acontecer). Com tanta lentidão, tanta falta de propósito e tanto choro aleatório de bebê, quem está aborrecido, triste e choroso no final da experiência é o espectador, que sente que as duas horas gastas pra apreciar o filme da diretora Julia Hart não voltam mais. Uma pena, porque Rachel Brosnahan é absolutamente talentosa - vide seu papel na ótima série The Marvelous Mrs. Maisel. Só que lá na série, ela faz rir. Aqui, a gente chora. Tal qual o bebê.

Nota: 3,5

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Picanha.doc - AmarElo: É Tudo Pra Ontem

 De: Fred Ouro Preto. Com Emicida. Documentário, Brasil, 2020, 89 minutos.

AmarElo: É Tudo Pra Ontem não é apenas um documentário sobre o show realizado pelo rapper Emicida em novembro de 2019, no Teatro Municipal de São Paulo: é uma verdadeira aula de história afro nacional e sobre como os movimentos realizados por artistas, ativistas, historiadores, escritores e outras figuras do passado foram fundamentais para a consolidação da cultura brasileira como a conhecemos hoje. Em resumo, o que Leandro Roque de Oliveira quer dizer é que muito provavelmente ele não existiria se não fossem nomes como Lélia González, Leci Brandão, Abdias do Nascimento, Ruth de Souza, Johnny Alf, Mateus Aleluia, Ismael Silva e tantos outros. Nesse sentido, a obra do diretor Fred Ouro Preto é didática mas é também vibrante, colorida, otimista. Daquelas que acredita em dias melhores e em tempos de menos preconceito, ódio e intolerância mesmo que estejamos sob a batuta institucionalizadora do racismo que é o governo Bolsonaro. "Tudo que nóis tem é nóis" lembra, afinal, a letra da inaugural Principia, que abre oficialmente o último disco do paulista.

Partindo da mera existência da "ocupação" preta do Teatro Municipal - reduto utilizado tradicionalmente pela aristocracia paulista - que será simbolizada pela sua vigorosa apresentação, Emicida recua no tempo, entrecortando as histórias antigas que dialogarão com as suas letras e que exemplificarão como a fusão entre o samba (surgido há cerca de 100 anos nos morros, nas periferias), a cultura de rua (que gesta o hip hop) e até movimentos como o antropofágico - nascido dentro da Semana de Arte Moderna de 2022 - formaram o caldeirão que temos hoje. A violência, a opressão, a dor de SER em uma pele preta surge inevitavelmente no racismo estrutural, que faz com que AmarElo funcione quase como um manifesto de orgulho da raça, que inicia nos acordes oníricos do começo do disco, até culminar no libelo multicolorido e efervescente que é a faixa-título, que conta com participação das artistas trans Majur e Pablo Vittar.

Nesse caminho, em meio a imagens de bastidores da produção do show e da composição do próprio disco - que se torna ainda maior com o documentário -, o artista conta histórias interessantes (e até divertidas) como aquela que o fez conhecer a obra do baterista e compositor Wilson das Neves, homenageado na formidável letra de Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo), cantada na companhia do parceiro Zeca Pagodinho. E, juro, a explicação para a existência de versos como "em que altura você mora agora?" arranca lágrimas de forma fluída, orgânica, sem forçação. Outro momento relevante - em meio a tantos, por sinal - envolve o protesto do Movimento Negro Unificado que, em 1978, em meio a brutalidade da Ditadura Militar, ocupou a escadaria do próprio Teatro Municipal, como forma de se insurgir contra a violência policial (e estatal) e o racismo. Aliás, sabe do que foram acusados os ativistas naquela ocasião? Sim, quem respondeu COMUNISMO acertou - e esse foi um dos motivos pelos quais o cantor Wilson Simonal foi detido pelo famigerado Departamento de Ordem Política e Social (Dops). A história se repete.

Bom, daria pra citar uma série de outros trechos históricos e relevantes, mas vale a pena "descobrir" que houve a existência também em meio a ditadura de uma Frente Negra Brasileira, de que houve alguém que desafiou o status quo para fazer o Teatro Experimental do Negro (que provocava a reflexão para além do entretenimento) e sobre como leis bizarras como a da "Vadiagem" foram (e seguem sendo) o instrumento oficial para oprimir pretos, pobres, capoeiristas, músicos, umbandistas, prostitutas, trans e qualquer outra minoria, na realidade. Sim, parece pesado, mas a leveza com que os temas são descortinados, entrecortados pelas lindas canções do rapper e por uma edição dinâmica, que utiliza imagens de arquivo, animações e outras estratégias, tornam a experiência bela, atemporal e inesquecível. Emicida talvez seja um dos principais artistas brasileiros da atualidade, com seus discos marcantes e seu ativismo potente. Fela Kuti, que dizia que "a música é uma arma" sentiria-se orgulhoso. A nós, espectadores, resta sonhar com dias mais justos, mais igualitários, mais empáticos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Novidades no NOW/VOD - Soul

De: Pete Docter. Com Jamie Foxx, Tina Fey, Phylicia Rashad e Angela Bassett. Animação / Aventura, EUA, 2020, 100 minutos.

Impressionante a capacidade da Pixar em fazer um filme infantil, mas que não deixa de promover profundas reflexões sobre temas relevantes, como, sentido da vida, memória, morte, espiritualidade, importância da arte, entre outros. Espécie de cruzamento entre Divertida Mente (2015) e Viva: A Vida É Uma Festa (2017), Soul parte da história de um modesto professor de música do ensino fundamental que sonha em ser reconhecido como um virtuose do jazz. Quando a oportunidade finalmente surge para o educador - seu nome é Joe Gardner (Jamie Foxx) -, ele sofre um acidente que o transporta para um outro plano, colocando-o entre a vida e a morte. Nessa espécie de limbo etéreo, onírico, ele será uma alma que terá como missão auxiliar uma "criança" (Tina Fey) a encontrar o seu propósito de vida para que ela possa ser encaminhada para a Terra, onde assumirá o seu formato humano. E essa jornada poderá ser a saída para que o próprio Joe retorne para cá e consiga alcançar seu tão sonhado objetivo.

Sim, parece meio complexo e é quase impossível falar de Soul sem entregar um ou outro spoiler e o que sempre fascina nas obras do estúdio está de volta aqui: por mais que os filmes sejam recheados de piadas físicas e humor genuinamente voltado para os pequenos, é inacreditável a complexidade da abordagem de temas mais psicológicos - o que confere à experiência um valor inestimável também para os adultos. Sim, porque é inevitável, enquanto acompanhamos a tortuosa jornada de Joe, nos perguntarmos sobre quais as nossas motivações na vida. Ou se temos uma grande missão na Terra. Ou será que o que valem mesmo são as experiências? Que nos permitem saborear pequenos prazeres mundanos como o canto dos pássaros, o vento que nos acolhe em baixo de uma árvore, um banho quente, vestir uma roupa bonita, saborear uma gostosa fatia de pizza ou a alegria de curtir uma música bem tocada - seja no trombone, no piano ou no sax? O mundo é feito mesmo de pessoas notáveis? Ou são nossas ações que darão significado nessa jornada terrena?

E, para mim, só o fato de passarmos boa parte do filme dirigido por Pete Docter pensando nestas questões, já torna Soul uma das mais valiosas obras produzidas pela Pixar - e que, não por acaso, deverá estar entre as indicadas na categoria Melhor Filme, no próximo Oscar. A gente sabe que os filmes da produtora invariavelmente nos fazem chorar, mas o choro nunca é forçado ou não orgânico, já que geralmente a obra nos gera sentimentos conflitantes o tempo inteiro, nos levando da ternura ao sorriso, passando pela dor, em segundos. Algo que pode ser exemplificado pelas contrastantes sequências que nos fazem rir de piadas que envolvem o comportamento de um gato, ao passo que nos instante seguinte estaremos impactados pelo comportamento afetuoso da mãe de Joe. E é nessa alternância de instantes que vamos sendo jogados pra lá e pra cá, imergindo numa história que, do ponto de vista religioso talvez pudesse gerar uma série de questionamentos - tudo isso seria possível no plano espiritual? -, mas que, no formato animação se estrutura na mais formidável das narrativas.

Tecnicamente impecável, a trilha sonora é uma das grandes forças do filme, como não poderia deixar de ser. E nem é tanto pelas elegantérrimas peças de jazz/soul que surgem nos momentos nova-iorquinos da projeção e sim pelo trabalho realizado por Trent Reznor e Atticus Ross que conseguem alternar melodias mais primaveris - no espaço pré-vida -, com outros mais sobrenaturais ou fantasmagóricos, como aqueles que envolvem a proximidade do pós-vida ou, mais especificamente, as notas hipnóticas que são executadas em uma soberba parte que envolve o conceito de "almas perdidas" (e, aqui, fiquei me perguntando como reagirão as crianças em uma etapa do filme que pode ser muito mais assustadora do que engraçada). Atenta aos detalhes, a animação é inacreditavelmente bem feita - perceba como é possível ver o suor no rosto das personagens em certo momento - e ainda estabelece outras pequenas discussões como produção artística x sucesso financeiro e importância do aspecto mais místico em nossas vidas. É um grande acerto, daqueles que nos arranca aquele sorrisão enquanto sobem os créditos. 

Nota: 9,0