terça-feira, 16 de novembro de 2021

Tesouros Cinéfilos - Lamb (Dýrið)

De: Valdimar Jóhansson. Com Noomi Rapace, Hilmir Snær Guðnason e Björn Hlynur Haraldsson. Drama / Suspense, Islândia / Suécia / Polônia, 2021, 108 minutos.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS]

Obra atmosférica, silenciosa, contemplativa e com um pé no realismo mágico. Assim é o ótimo Lamb (Dýrið), filme islandês exibido na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes e que marca a estreia do diretor Valdimar Jóhansson. Na trama somos levados a uma fazenda isolada, erma, local em que o casal Maria (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason) cria carneiros. Em meio ao manejo rotineiro da vida agrícola - levar pastagens para os animais, auxiliar as ovelhas prenhas na hora do parto, arar a terra com o uso do maquinário - um ambiente de calmaria, de quase ausência de qualquer barulho. O sossego só é quebrado por algo que parece inquietar os bichos, que se mostram agitados, receosos. O que seria? Leva quase dez minutos para que ouçamos as vozes de Maria e Ingvar. Há um diálogo aleatório sobre a novidade vista na matéria do jornal e que envolve a possibilidade de viagens no tempo. "Adoraria viajar para o passado", sinaliza Maria.

De alguma maneira é possível afirmar que Lamb ocorre sem nenhuma pressa. As informações nos são entregues em pequenas pílulas. Sempre sutis. Amparadas por algum olhar, ou alguma outra pequena inflexão gestual, de corpo. Cabe a nós tentar juntar os pontos. O casal vive sozinho o seu dia a dia, mas parece haver algum tipo de ferida mal cicatrizada entre eles - a despeito de terem, ao menos de forma aparente, uma boa relação. Em certo dia são surpreendidos por um misterioso bebê recém-nascido - um cordeiro meio humano, meio animal. Mesmo sem compreender muito bem a natureza do acontecimento, Maria e Ingvar resolvem adotar o "bebê", passando a tratá-lo como filha. Ao espectador não há muito espaço para questionamentos, já que o estranhamento vai dando, aos poucos, lugar à normalidade. A vida, afinal, precisa seguir. Só que há um problema: a persistência da mãe biológica da pequena Ada (esse é o nome dado), em se aproximar da filha. O que faz com que Maria tome uma atitude extrema.

Sim, parece tudo meio esquisito nessa mescla de história surrealista e onírica, que busca estabelecer ainda algum tipo de diálogo com a mitologia nórdica - e aqui me escapa esse tipo de conhecimento mais aprofundado. Colocando frente a frente o homem e a natureza, a obra ainda discute as ambições e como estas podem significar a ruína quando decidimos nos apropriar daquilo que, não necessariamente, nos "pertence". Utilizando os cenários inóspitos - reforçados pela fotografia de tons "gelados" meio esmaecida - como forma de gerar algum tipo de opressão, a obra nos passa a impressão de que algo muito grave pode estar para acontecer a qualquer momento - especialmente quando entra na vida do casal o irmão de Ingvar, um certo Pétur (Björn Hlynur Haraldsson). Há uma tensão reforçada pelos persistentes closes nas expressões de seus protagonistas e mesmo dos animais. A ambientação é nebulosa, indefinida - como se estivéssemos no cenário de Sobre os Ossos dos Mortos da Olga Tokarczuk, em uma narrativa tão fantástica quanto aquela, diga-se.

E, nesse sentido, é possível afirmar que talvez Lamb não seja para todos os paladares. É uma obra lenta, que não entrega facilmente aquilo que propõe. E que ainda devasta o espectador com as surpresas reservadas para o terço final, quando temas como superação do luto, preservação da memória e violência são apresentados de forma pouco convencional e sem muitas concessões. É a típica obra, por sinal, da A24 - produtora da experiências cinematográficas ousadas, nunca fáceis, mas que invariavelmente possibilitam as mais variadas interpretações. Eu, particularmente, gosto desses filmes mais experimentais, que apostam no inusitado como matéria-prima. E, aqui, vale lembrar aquela máxima de que não é necessário compreender TUDO quando assistimos a um filme. Há algumas ocasiões em que é muito mais o "sentir" do que o entender. Justamente o que ocorre com essa joia do cinema independente.

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