segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

30 Grandes Filmes Lançados no Cinema ou no Streaming em 2023

Assim como ocorre com as listas de discos, a dos filmes também não costuma ser muito fácil elaborar. Especialmente porque, nos dias de hoje, as formas de consumo e mesmo a disponibilidade de certas obras, parece obedecer mais ainda uma lógica mercadológica. Sim, porque se na era do DVD precisávamos torcer para que a nossa locadora de estimação comprasse essa ou aquela produção, hoje em dia ficamos reféns das plataformas de streaming - e da sua boa vontade em investir em filmes que, vá lá, talvez não deem tanto retorno. Quando o assunto é o cinema, a coisa é ainda pior: primeiro há o atraso da chegada, especialmente de obras que trafegam no circuito alternativo - sejam elas nacionais ou estrangeiras. Nesse sentido não são poucos os filmes produzidos, por exemplo que são exibidos em festivais, mas que chegam ao grande público dois, às vezes três anos depois - um dos casos gritantes, nesse sentido, é o do nacional O Homem Cordial, que foi concluído em 2019, mas que só deu as caras nesse ano.

Depois há a disputa por salas - especialmente em um contexto de audiência infantilizada, que aguarda ansiosamente o mais novo filme da Marvel, com suas máquinas de propaganda poderosas, que renderão milhões aos cofres dos produtores, com a venda de bonequinhos, lanches do McDonalds temáticos e outros badulaques. Todo esse contexto complexo dá conta da dificuldade de organizar uma lista como essa, porque a gente quase se perde na lógica temporal. Lá pelas tantas eu posso estar conferindo um filme lançado na Mubi, ao mesmo tempo em que me questiono: "esse é o lançamento dessa obra?". Ou ela já circulou antes? Esteve em cartaz? Ou foi direto pro streaming? E todo esse preâmbulo serve pra dizer que a nossa lista com 30 Grandes Filmes é um recorte daquilo que de mais recente chegou às telonas ou ao streaming, na tentativa de ser o mais plural e o mais atual possível. Salientando também que este é um pequeno recorte daquilo que tivemos acesso, já que muitas obras que já estão sendo faladas, ainda não deram as caras por aqui - como é o caso do incensado Vidas Passadas, por exemplo, que deve figurar provavelmente na lista do ano que vem. Boa leitura!

 

30) Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness): Em uma das primeiras sequências dessa obra do sempre ótimo Ruben Östlund, o jovem e lindo casal formado pela influencer Yaya e pelo aspirante a modelo Carl discute longamente sobre quem deve pagar a conta de um jantar em um restaurante chique em que estão. Ela, pelo visto, ganha mais do que ele e ele culpa o "feminismo de merda" como uma mera muleta inútil no que diz respeito a essas questões mais práticas do dia a dia. "Se os direitos são iguais, as contas não deveriam ser divididas por igual?" é o que parece haver em seu cérebro ruminante. A cena segue, vai pro táxi onde o debate continua, em meio ao barulho incômodo de um limpador de para-brisas velho - que serve para ampliar o caráter caótico (e até absurdo) daquela conversa. Era pra ser uma noite feliz, que não fosse pautada apenas por dinheiro. Não é o que acontece. Assim, bastam alguns minutos do filme para que percebamos que Östlund aponta sua câmera, novamente, para a natureza mesquinha das classes mais abastadas, para a hipocrisia desses estratos sociais e para o abuso de poder que decorre desse cenário. O resultado é uma obra sórdida, mas bem humorada, que não tem vergonha de colocar o dedo na ferida em relação a temas, como, falhas do capitalismo, inutilidade do debate político e podridão humana. Leia a resenha completa.


 

29) Ela Disse (She Said): "Por quê você tocou os meus seios ontem? Por que eu estou acostumado." Em uma das sequências mais repugnantes desse elogiado drama ficamos chocados com a naturalidade com que Harvey Weinstein assediava suas vítimas. Na gravação vazada pela modelo Ambra Gutierrez transparece toda a angústia de quem, nos jogos de poder dos bastidores de Hollywood, era a ponta mais fraca no que dizia respeito aos casos de violência sexual. Que em 05 de outubro de 2017 viriam à tona no que seria um dos maiores escândalos da história do cinema, encorajando movimentos como o #metoo e Time's Up. Denunciar abusadores, ao cabo, não é tarefa fácil. E é por isso que, ao trazer à tona esse assunto, é preciso valorizar a ousadia não apenas esse filme, mas também quem se debruçou sobre o tema para fazer jornalismo de verdade - caso da dupla de jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do The New York Times. Confrontar poderosos dá trabalho. E exige bravura. Ainda mais quando o que está em jogo é o objetivo de interromper um ciclo quase infinito de violência. De alguma maneira é uma obra dolorida mas inspiradora - assim como são outras experiências viscerais de jornalismo, que fazem emergir escândalos. Leia a resenha completa.

 


 

28) Broker: Uma Nova Chance (브로커): Quem acompanha a carreira do diretor Hirokazu Koreeda sabe que, no cerne de muitas de suas obras, costuma estar a completa desconstrução do conceito de família. Na trama de Broker, uma jovem se aproxima de uma Igreja para deixar useu próprio filho bebê em uma espécie de caixa (um abandono institucionalizado). Junto ao pequeno, apenas um bilhete com a promessa de que ela voltará. Ela volta. Já no dia seguinte, quando ela descobre que o bebê já está em posse de uma dupla de trambiqueiros - um trabalha em uma lavanderia o outro opera um esquema de tráfico de recém nascidos (ambos voluntários da paróquia local). Nesse meio tempo So-young chama a polícia, que passa a investigar o caso nos bastidores. E como se já não bastasse toda a complexidade do caso, a jovem protagonista, sem ter muito pra onde ir, resolve se juntar à dupla na missão de tentar encontrar pais adequados e que estejam dispostos à adotar seu próprio filho. E por mais que no centro da narrativa esteja a ocorrência de um grave crime, o que Koreeda faz, com sua habitual habilidade, é subverter a ordem quando a ideia é apontar mocinhos e bandidos. A trama é intrincada e requer uma boa dose de suspensão da descrença. Mas o resultado compensa. Leia a resenha completa.

 


 

27) Verdades Dolorosas (You Hurt My Feelings): Existe uma cena central nesse filme da diretora Nicole Holofcener que, em alguma medida, fornece um resumo do tipo de dilema que move a narrativa. Nela, a escritora Beth resolve fazer uma surpresa ao marido e ao cunhado em meio a uma tarde de amenidades, em que ela está acompanhada da irmã Sarah. Quando chegam em uma loja meio às escondidas, escutam, por acidente, uma conversa entre Don e Mark - justamente o instante em que Don, o marido de Beth, revela a Mark, que é seu cunhado que, bom, talvez ele não tenha gostado tanto assim do novo livro da esposa que, na realidade é apenas um manuscrito que, mais adiante, talvez se torne o seu primeiro romance. Para Beth, que tem no ofício da escrita algo fundamental em sua vida, não poderia haver maior afronta. Com tudo piorando quando Beth escuta algumas duras verdades de uma editora com quem ela está em contato. Será ela uma farsa? Sim, parece um fiapo de história - um "filme sobre o nada", como brincaram alguns críticos estrangeiros, em uma alusão à antiga série estrelada por Julia Louis-Dreyfuss. Mas ao mesmo tempo é uma obra que faz interessantes divagações sobre temas como incertezas profissionais, autossabotagem, crises de meia idade e até esgotamento e desencanto nos tempos modernos. Não é pouco. Leia a resenha completa.


 

26) O Conde (El Conde): Um filme simples mas, ao mesmo tempo, muito eficiente no retrato dos representantes da extrema direita como essas figuras putrefatas, que insistem em se perpetuar através dos séculos. Mais ou menos assim podemos encarar a experiência com esse ótimo filme do sempre audacioso Pablo Larraín, que converte o general Augusto Pinochet em um vampiro que se arrasta pelos cômodos de seu palácio decadente, como um espectro que é incapaz de, simplesmente, morrer. Algo que, aliás, expressa à perfeição a alegoria do fascismo como uma cadela sempre pronta a entrar no cio, como dizia Bertolt Brecht. Com esse sentimento sendo ampliado justamente pela impunidade, mesmo diante de um sem fim de atrocidades, repressões, torturas, violações dos direitos humanos e assassinatos. Só que, por mais incrível que possa parecer, num mundo que elege Donald Trump e Jair Bolsonaro, e mais recentemente o ultradireitista Javier Milei, na Argentina, esses ideais radicalmente conservadores, intolerantes, excludentes e extremistas, permanecem vivos. Em meio a temores abstratos relacionados a comunismo, Guerra Fria tardia, marxismo cultural e outras variedades de delírios, Larraín constroi uma alegoria sombria mas debochada sobre a natureza recorrente dos sistemas totalitários. De rir de nervoso. Leia a resenha completa.


 

25) Rimini: Se tem um tipo de cinema que me fascina é aquele que adiciona camadas por baixo de uma superfície que parece ser rasa. Em muitos casos o resultado costuma ser um filme que parte de um microcosmo para, aqui e ali, ir nos fornecendo algumas pistas de que há algo maior do que sugere a eventual simplicidade narrativa. E talvez esse seja o caso desse sugestivo drama agridoce, sobre um cantor decadente que sobrevive de apresentações para idosos saudosistas, que é surpreendido pelo ressurgimento de sua filha, anos depois de tê-la abandonado. Só que este é um projeto alemão, dirigido por Ulrich Seidl. O que significa que esse cenário que abarca as tragédias familiares, talvez seja apenas uma boa desculpa para uma análise mais elaborada da própria Alemanha, com suas feridas históricas que, em tempos de ascensão da extrema direita, ainda alcançam a contemporaneidade. Uma memória que, ao cabo, não se apaga tão facilmente. Porque, por mais que o protagonista seja uma figura excêntrica e carismática há que se admitir o fato de ele funcionar como uma espécie de ponte alegórica entre o arcaico e o contemporâneo, entre o antiquado e o moderno. Somos pessoas complexas e esse filme cheio de graça, de poesia e de comentários sociais potentes, amarra todas essas questões a contento. Leia a resenha completa.


 

24) Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin): Vamos combinar que, ainda nos dias de hoje, a gente tende a romantizar as relações de amizade. Como se, uma vez estabelecido esse tipo de vínculo, ele teria de durar a vida toda. Dá pra dizer adeus a um amigo de longa data? Sem remorsos, sem dores, sem rancores? Pois o que o diretor Martin McDonagh pareceu pretender nesse oscarizado projeto foi teorizar um pouco a respeito disso. E se num certo dia o seu melhor amigo acordasse e, ao encontrar você, naquele bar de sempre, dissesse um "deu, não quero mais, daqui pra frente é cada um pro seu canto". É isso que Colm faz com Pádraic em um dia nebuloso qualquer, em uma ilha no costa da Irlanda, em meio à Guerra Civil local. Como sempre faz em sua rotina, Pádraic acorda cedo, faz o manejo dos animais e vai até a casa de Colm para convidá-lo para a taverna do pequeno vilarejo - o que fazem juntos a sabe-se lá quantos anos, religiosamente. Só que Colm cansou dessa rotina. Dessa vidinha vazia. E comunica isso à Pádraic com uma sinceridade excruciante. A partir daí e com esse fiapo de história, temos uma narrativa que se aproveita dessa rotina ordinária de seus personagens para tecer uma teia cheia de simbolismos sobre duas personalidades diametralmente opostas que colidem. Uma preciosidade. Leia a resenha completa.


 

23) Tenho Sonhos Elétricos (Tengo Sueños Electricos): "Tenho sonhos elétricos. Onde meu pai, quando não pode consertar algo, arrebenta-o no chão. Ele fica bravo, grita, xinga. Nos amamos aos gritos, às vezes com golpes. É isso que somos. Uma horda de animais selvagens sonhando com seres humanos. Às vezes é preciso várias vidas pra entender que a raiva que nos atravessa não nos pertence". É quase no final desse filme costarriquenho premiado no último Festival de Locarno, que Martín lê um poema improvisado que, de alguma maneira, resume a sua relação turbulenta com a própria filha, Eva. Ambos parecem estar sempre aos trancos e barrancos, no limite entre o amor e o ódio, entre o carinho amoroso e o conflito cheio de agressividade. É a complexidade do ser humano que parece estar no centro da estreia da diretora Valentina Maurel. Somos imperfeitos, afinal, e que atire a primeira pedra quem nunca exagerou na dose quando o assunto são as relações familiares. E, em alguma medida, esse é um projeto pequeno, que parte de um microcosmo, para uma análise mais ampla desse tipo de vínculo. O resultado é uma obra intimista e naturalista, angustiante mas afetuosa. Um tipo de cinema que não nos deixa alheios. E que reforça a potência da produção latino-americana. Leia a resenha completa.

 


22) Os Cinco Diabos (Les Cinq Diables): Vicky é uma menininha de oito anos com uma habilidade especial: por meio de cheiros, de aromas, ela consegue viajar no tempo. E assim vivenciar experiências do passado de uma forma meio mágica. Quase mística. E, não bastasse esse dom, ela tem um comportamento de verdadeira devoção quando o assunto é a sua mãe Joanne (Adèle Exarchopoulos), uma instrutora de natação. A premissa desse filme, não dá pra negar, é curiosa. E te captura de uma forma quase instantânea. Na trama, mãe e filha residem em uma pequena cidade montanhosa que está ao redor de um enorme lago gelado (o Les Cinq Diables do título original). E é nele que Joanne, acompanhada da filha, tem o hábito de nadar. Para conter os efeitos do frio na pele, a professora utiliza um produto - uma espécie de creme selante. Que é espalhado no corpo da mãe pela filha. A sobra dessa pasta, Vicky coloca dentro de um vidro (uma etiqueta indica que aquele é o frasco com os cheiros da mãe). Após mais algumas alquimias, que envolvem outras misturas, a pequena inala o conteúdo do pote. E desmaia. Sendo justamente esse o instante em que ela consegue viajar para o passado. E será em meio a esses sonhos bastante realistas, que Vicky descobrirá como uma tragédia abalaria a vida de sua família. Impactante. Leia a resenha completa.

 


21) O Cafetã Azul (Le Bleu du Caftan): Em uma das mais belas cenas desse filme marroquino, o casal Mina e Halim está em uma conversa bastante íntima, reveladora daquilo que pode ter sido um importante recorte de suas vidas. Aos prantos, Halim afirma ter tido muito medo de desonrar a esposa, por não ter conseguido superar aquilo que, aparentemente, ele acredita ser uma espécie de "mal". Naquela altura, o espectador já tem ciência da homossexualidade mantida em segredo pelo homem - como revelam os encontros às escondidas em saunas locais. E que se estendem para a forma afetuosa com que ele lida com o seu jovem funcionário, o dedicado Youssef. A resposta de Mina diante da manifestação do marido? O acolhimento. "Eu não poderia ter tido mais orgulho de ter sido sua esposa", retruca, de forma enternecedora. Um direcionamento diferente do previsto. E que eleva a obra a um outro patamar. Como se fosse uma alegoria para os próprios cafetãs - que são túnicas lindamente ornamentadas, com costuras complexas e que costumam ser utilizadas por muçulmanos e judeus -, a obra da diretora Maryam Touzani é pura sutileza e suavidade na abordagem de seu tema. O que dá uma dimensão da potência do projeto, que arrancou aplausos em sua exibição no Festival de Cannes. Leia a resenha completa.


 



20) Still: A História de Michael J. Fox (Still: A Michael J. Fox Movie): Existe uma cena desse valioso documentário que dá uma dimensão da forma como o astro da trilogia De Volta Para o Futuro encara, atualmente, o fato de conviver com a Doença de Parkinson. Nela, é resgatada - de forma muito breve - a participação do ator na série Curb Your Enthusiasm, em 2011. É um instante pequeno em que Fox interpreta a si próprio, entregando uma lata de refrigerante a Larry David (na trama do episódio eles são vizinhos). Quando este tenta abri-la ela simplesmente explode na sua cara - e a sua reação indignada é absolutamente hilária. E nem é necessária uma explicação sobre como os movimentos espasmódicos incontroláveis, que são típicos de quem sofre da doença, devem ter agitado a lata. É claro que até ser capaz de brincar com sua própria condição, o astro que foi um dos mais incensados dos anos 80, viveu um período de profunda dor e, naturalmente, até de negação a respeito do Parkinson. E toda essa trajetória de ascensão como estrela mirim até a impossibilidade de exercer a profissão que ama, formam a matéria-prima do filme dirigido por Davis Guggenheim - uma experiência que nunca minimiza os efeitos devastadores do Parkinson, mas, ao mesmo tempo enche a tela de ternura, de afeto, de bom humor e até de esperança. Leia a resenha completa.

 


19) Passagens (Passages): Quem acompanha a carreira do diretor Ira Sachs sabe que muitos de seus filmes têm como principal matéria-prima a complexidade das relações humanas - e não é diferente com esse. Aqui, a trama versa sobre as nossas incertezas na seara amorosa e sobre como parecemos ser seres eternamente insatisfeitos. Ou que nunca sabem bem o que querem - o que invariavelmente resultará em sofrimento, em irresponsabilidade afetiva e em escolhas nem sempre acertadas. Com aquele senso de urgência metropolitana típico do cinema alternativo, o filme já abre de forma metalinguística: Tomas (o sempre ótimo Franz Rogowski) está concluindo seu mais novo projeto e, em uma festa, conhece a jovem professora de séries iniciais Agathe (Adèle Exarchopoulos, que sempre é uma presença luminosa em tela). Após uma noite de diversão, os dois acabam transando. Só que tem um detalhe: Tomás é casado com o professor de inglês Martin (Ben Whishaw) há quinze anos e, quando chega em casa ao amanhecer não apenas revela o que ocorrera na noite passado, como ainda garante ter sentido algo que não sentia há muitos anos. A partir daí o que vemos é uma série de idas e vindas, de dúvidas e de incertezas, em um caleidoscópio cheio de intensidade, que expande e comprime um dos temas mais universais do cinema. Vale cada segundo. Leia a resenha completa.

 


 

18) Crescendo Juntas (Are You There God? It's Me Margaret): Uma das produções mais carismáticas, cativantes e divertidas da temporada. Assim pode ser resumida a experiência com esse filme de Kelly Fremon Craig. Aliás, essa é a prova viva de que não é preciso muita invencionice na hora de fazer uma obra sobre amadurecimento. Sobre as dores e incertezas que surgem na pré-adolescência. É tudo muito gracioso, singelo, realista - o que também envolve as interpretações de todo o elenco, especialmente da jovem Abby Ryder Fortson. É ela que é a Margaret, do título original. Que, sim, do alto de seus onze anos, evocará Deus de uma maneira meio torta, sempre que tiver alguma dúvida, medo ou anseio. Aliás, a sua primeira angústia real ocorre quando, ao retornar de um passeio de escola, seus pais anunciam que se mudarão de Nova York para Nova Jersey. E quem já teve de se mudar na infância sabe o quão doloroso isso pode ser. Novos amigos, novos colegas de aula, nova vizinhança. Nova casa. Novo tudo, na real - e caberá à nossa simpática protagonista lidar com tudo isso. A gente vê por aí tantas comédias simplesmente forçando a barra na hora de tentarem (em vão) ser engraçadas. Essa aqui consegue naturalmente. Sendo apenas nostálgica e agridoce. Imperdível. Leia a resenha completa.

 


17) Doente de Mim Mesma (Syk Pike): Uma metáfora perfeita para o transtorno da personalidade narcisista - que parece estar bem em alta, especialmente nas redes sociais. Assim podemos resumir a experiência desse filme norueguês, que leva até o limite a ideia de fama e de vaidade a qualquer preço. Misturando a sátira do comportamento mesquinho das classes abastadas de Ruben Ostlund com o body horror de David Cronenberg, a obra nos apresenta ao casal Signe e Thomas - ela funcionária de um bar de Oslo, ele um artista plástico especializado em produzir esculturas feitas com móveis materiais roubados. Só que o problema é que Signe está com ciúmes da atenção que Thomas tem recebido. E a oportunidade de atrair algum "holofote" pra si surge quando uma mulher é atacada por um cachorro, sendo a protagonista a primeira a socorrê-la. Com sua roupa manchada de sangue, a jovem vaga pela cidade, enquanto relata aos amigos a história do salvamento épico - uma narrativa que vai ganhando tintas a cada dia mais exageradas. Em tempos em que influencers fazem de tudo para chamar a atenção pensar em uma alegoria do tipo nem parece ser um exagero. Vale tudo pela fama? Aqui, o que percebemos é que o comportamento perturbado de Signe pode ser ao mesmo tempo repugnante e patético em sua busca desenfreada por migalhas em formato de cliques. Leia a resenha completa.

 


16) Oppenheimer:  Talvez o maior filme do ano. Gigantesco. Contado em três linhas narrativas distintas, que talvez exijam um grau de atenção um pouco maior, para que nenhum detalhe escape. Sim, são três horas que talvez virem seis, pela necessidade de repetir a experiência para uma maior apreciação. A complexidade é um mérito? Não sei. Alguns críticos gastam tempo falando do quão problemático é o caráter excessivamente expositivo das obras de Christopher Nolan. Afinal, não basta apenas apresentar as imagens - sempre exageradas, hiperbólicas. É preciso martelar aquilo que se vê, com um texto. Uma explicação a mais. Um diálogo que reforça. Mas é um filme sobre mecânica quântica! Que volta no tempo para contar os bastidores de um dos mais controversos projetos científicos da história quando, em meio a Segunda Guerra Mundial, um grupo de cientistas conduziria o desenvolvimento das primeiras armas nucleares de destruição em massa. Claro que em meio a discussões éticas e de fundo moral, o caráter questionável do protagonista quase se dilui em meio ao pano de fundo político. Com todas as suas contradições, traições e reviravoltas. Ao cabo, aqui, temos uma obra exuberante também tecnicamente - e que deverá lavar a baia no Oscar. Leia a resenha completa.




15) Alcarràs: Agricultura familiar x agronegócio. Êxodo rural x sucessão. Tradição x modernidade. São muitos os antagonismos que surgem, sutilmente, no filme de Carla Simón, que foi o enviado da Espanha para a mais recente edição do Oscar. Ao cabo esta é daquelas obras em que até parece que não tem muita coisa acontecendo, mas que ganha força justamente por apresentar as complexidades da vida no campo de forma extremamente orgânica, naturalista. Aliás, poucas vezes assisti a um filme sobre as dificuldades (e burocracias) que envolvem a rotina de uma família de produtores - no caso, os Solé - que fosse tão realista. Na trama, a rotina idílica da colheita de pêssegos é quebrada por um problema na documentação das terras que a família arrenda. Sem a formalização eles perdem qualquer possibilidade de barganha quando o filho do dono anuncia o desejo de retomar o terreno (após a morte do pai) para a instalação de uma usina de energia fotovoltaica (com dezenas de placas solares). Contemplativa, vibrante, ensolarada e autêntica, mas que utiliza seu microcosmo para uma análise mais ampla da sociedade, a obra funciona mais ou menos como os painéis solares que geram tanta discórdia - reservam energia, resgatando-a de onde nem parece haver. Um achado. Leia a resenha completa.

 


 

14) Contratempos (À Plein Temps): Em uma das cenas centrais desse filme francês, a protagonista Julie está em uma importante entrevista de emprego. Durante a conversa, a recrutadora estranha o fato de ela morar em um bairro afastado do centro de Paris e, mesmo sendo mãe de duas crianças, estar pleiteando um emprego ali. "Você poderia passar longos dias por semanas por aqui, mesmo morando tão longe?" questiona a funcionária do RH. Julie nem titubeia em afirmar que isso não lhe preocupa. Que está focada na realização de seus projetos a longo prazo. Julie tenta não demonstrar, mas no momento da entrevista ela está devastada por dentro. Está em um trabalho que lhe consome física e psicologicamente - não bastassem as horas e horas dentro de ônibus e trens, ainda precisa lidar com o assédio moral constante de sua chefe e com os caprichos excêntricos dos hóspedes do hotel de luxo em que atua. Depois, há a angústia de, como mãe solo, ter de articular de forma permanente a estada de seus filhos em babás improvisadas. Julie está sempre correndo. Correndo literalmente. Sem dinheiro, sem ânimo, sem forças, sem vida. Ao cabo, esse é um filme pequeno mas de grande força sobre como o capitalismo pode destroçar a cabeça do cidadão comum. Dia após dia, indefinidamente. Dolorido é pouco. Leia a resenha completa.

 

 

13) Tár: Em uma das tantas ótimas sequências do premiado filme de Todd Field, a maestrina Lydia Tár (papel de Cate Blanchett) discute longamente com um dos seus alunos no conservatório Julliard, sobre a possibilidade de reger uma obra de Johann Sebastian Bach. De forma meio envergonhada, tímida, o jovem se enche de coragem para dizer à Lydia que não possui nenhum interesse em Bach. "Honestamente como uma pessoa de cor, não binária, eu diria que a vida misógina de Bach torna meio impossível para mim levar sua música a sério". Lydia na sequência debocha do assunto lembrando que, sim, Bach deixou 20 filhos para o mundo. Assim como um volume considerável de composições. O que a faz questionar em seguida o que as suas prodigiosas habilidades no leito conjugal teriam a ver com sua arte. É possível separar a obra do artista? Pode até soar como tema menor dentro de uma obra tão cheia de floreios, de magnitude e de volúpia como é o caso dessa, mas a atual cultura do cancelamento e as decorrentes campanhas de ódio que se instalam nas redes sociais com o intuito de destruir reputações, parece estar no cerne desse ambicioso projeto. Ao cabo, essa é uma obra que discute a complexidade humana, suas incongruências e virtudes. O que não é pouco. Leia a resenha completa.

 

 

12) Afire (Roter Himmel): Alguém brincou no Letterboxd que esse filme poderia muito bem se chamar "Retrato de Um Incel em Chamas", dado o comportamento ressentido do escritor Leon - personagem central desse filme de Christian Petzold, premiado pelo Júri no Festival de Berlim. Na trama, Leon vai com seu amigo Félix até uma casa de praia junto ao Mar Báltico. A ideia do primeiro é concluir seu segundo romance, enquanto o segundo busca inspiração para construir um portfólio fotográfico. Só que no local se deparam com a inesperada presença de Nadja, uma jovem carismática, de sorriso irresistível que perturbará a rotina de Leon. Pouco habilidoso socialmente, o jovem se incomodará com absolutamente tudo que não lhe diga respeito: idas à praia, transas alheias, ou qualquer atividade cotidiana. Com tudo piorando com a presença do salva-vidas Félix. Utilizando o fogo - simbolizado pela onipresença de incêndios florestais no entorno - como uma alegoria para conflitos internos, Petzold mira nesse microcosmo para um exame do comportamento humano, com seus preconceitos, irracionalidades, incômodos e egocentrismos. Leon, ao cabo, é um narcisista que sequer percebe o mundo à sua volta desabando. "Nem tudo é sobre você" lembra Nadja em certa altura. Uma lição que o hostil Leon, com sua arrogância indecente, levará para a vida.


 

11) Paloma: "Eu num sei nem por onde começar... [...] Seu Papa. Meu nome é Paloma. Vivo e trabalho aqui em Saloá como agricultora e, às vezes, faço bico de cabeleireira. Vivo amigada com o meu marido Zé. Com ele crio a minha filha Jennifer, o presente mais maravilhoso que Deus me deu. Nasci homem, mas sou mulher. Me considero fia de Deus como qualquer outra pessoa. Já me batizei, fiz a primeira eucaristia, a crisma, agora só falta realizar o meu maior sonho que é casar na Igreja. E eu sei que só o senhor pode autorizar isso." Vamos combinar que não poderia ser mais comovente o instante em que Paloma dita à sua amiga Kelly uma carta com esse pedido singelo: o de poder casar. Com véu, grinalda, Igreja decorada e tudo que se tem direito. Como mulher trans, ela já está familiarizada com as barreiras impostas pela própria Igreja e seus dogmas um tanto ultrapassados. Aliás, ela sequer pode entrar na Igreja, numa daquelas contradições legítimas do Brasil - esse País conservador e cheio de fé, capaz de converter pessoas periféricas e minorias em admiradores da extrema direita, das elites e de outras instituições poderosas. Pode ser difícil entender por quê Paloma, como mulher negra, nordestina, trans, analfabeta e pobre deseja tanto se casar da forma mais tradicional possível? Pode. Mas o filme do sempre ótimo Marcelo Gomes ajuda a entender. Leia a resenha completa.


 

10) Holy Spider (عنکبوت مقدس): Vamos combinar que nos últimos anos a gente cansou de ouvir os representantes de extrema direita do País afirmarem que estavam em uma "cruzada do bem contra o mal". Embalados em uma aura supostamente sacra - o que envolveu um verdadeiro aparato religioso de templos evangélicos, pastores e bíblias - os bolsonaristas investiram-se da suposta missão divina de extirpar do País a demoníaca ala de esquerda do Brasil. A mistura de fanatismo religioso e pânico moral retroalimentados por fake news, se consolidaria como uma das principais estratégias dos grupos conservadores no sentido de tentar moldar uma sociedade que estivesse de acordo com suas crenças. Estado laico? Nada disso. O tipo de radicalização que, evidentemente, encontrava eco entre os fanáticos. Sim, a gente sabe que o Irã não é o Brasil - e que lá a obstinação religiosa pode ter desdobramentos ainda mais controversos (pra dizer o mínimo). Nesse sentido, o enviado da Dinamarca no último Oscar é um trabalho poderoso sobre uma jornalista obstinada que chega a Teerã com a missão de investigar uma onda de crimes violentos, que pode ter a ver com intolerância. Fascismo, misoginia, preconceito - às vezes mais perto do que imaginamos. As discussões são amplas nessa obra que lembra que o extremismo tem de ser permanentemente combatido. Leia a resenha completa.

 


9) Sem Ursos (Khers Nist): Um filme sobre alguém tentando fazer um filme em que as coisas dão muito errado, em meio a um contexto político de opressão, de censura e de proibições. Pode até parecer uma distopia crítica ao totalitarismo, mas é apenas a vida do diretor iraniano Jafar Panahi, que segue em sua luta (quase) solitária no sentido de tentar exercer a sua profissão. Preso em 2010 sob a alegação de "cometer crimes contra a segurança nacional do País e propaganda contra a República Islâmica" (também conhecido como tentativa escancarada de silenciamento por parte do Governo), Panahi também foi proibido pelo Tribunal Revolucionário Islâmico de dirigir qualquer obra, escrever roteiros, dar entrevistas e sair do Irã. Por 20 anos. Em meio a respostas internacionais e apoio de organizações, o realizador se empenha em, às escondidas, dirigir filmes. É desse cenário conturbado que resulta essa comovente e provocativa produção, vencedora do Prêmio do Júri no Festival de Veneza. Rodado secretamente no Irã e estrelado pelo próprio Panahi, o filme se aproveita de suas limitações técnicas e geográficas para um exercício metalinguístico e semidocumental poderoso. Fazer filmes é um suplício para Panahi. Mas ele não desiste - o que não deixa de ser um alento. Leia a resenha completa.

 


8) Decisão de Partir (헤어질 결심): Existe uma sequência bastante simbólica desse filme de Park Chan-wook que, instantaneamente, se tornaria uma das minhas preferidas do ano. Nela, um detetive reconstrói o trajeto que, ele supõe, possa ter sido percorrido até a ocorrência de um assassinato - o que envolve a escalada de um rochedo bastante íngreme. Em certa altura ele atinge um local conhecido como Pico do Óleo, um espaldar bastante liso, que o faz escorregar, quase cair. Como uma espécie de Sísifo do Oriente ele persiste, resvalando aqui, avançando ali. Tal qual o personagem do ensaio clássico do existencialista Albert Camus, ele pretende encontrar algum sentido - nesse caso, em um crime sem solução. Mas, ao cabo, parece se deparar apenas com um ambiente desconexo, sem lógica. A escorregada metafórica talvez demore para servir de evidência para algo que parece estar sendo esfregado desde o começo em sua cara. E essa demora em perceber, pode fazer com que seja tarde demais. Sim, pode parecer meio filosófico mas, aqui e ali, isso também é parte da experiência dessa obra que foi a enviada da Coreia do Sul no último Oscar. Um thriller hitchcockiano, fragmentado, enigmático e cheio de ambiguidades, que brinca com conceitos narrativos, aproximando e afastando, confundido e organizando. Filmaço! Leia a resenha completa.

 


7) A Menina Silenciosa (An Cailín Ciúin): Em tempos de tanta brutalidade e violência como os que vivemos, é sempre bom assistir a uma obra tão afetuosa como esta, a enviada da Irlanda ao último Oscar. Aliás, esse é o tipo de produção que nos faz refletir sobre a importância da cortesia e da civilidade como um caminho para nos livrar do ódio. Na trama, a jovem Cáit é uma menina de olhos curiosos, que parece mais acostumada a ouvir do que falar. O que talvez se explique pela existência em meio a turbulência de uma família numerosa, chefiada por um pai negligente e abusivo e por uma mãe estressada e aflita - que está novamente grávida. E, como uma forma de tentar desafogar a casa, Cáit é enviada para a casa da prima da mãe - uma carismática e elegante senhora de nome Eibhlín que, ao lado do taciturno marido Séan, toca uma propriedade de produção de leite. E não demora para que a cautela inicial da pequena, evidenciada pelo seu olhar sempre amplo, ainda que tímido, vá dando lugar à confiança conforme os dias passam naquele verão do começo dos anos 80. De forma hábil, o diretor estreante Colm Bairéad pontua os contrastes entre ambas as casas, mostrando a importância do acolhimento como alternativa para a efetivação da convivência pacífica. Um filme evocativo, singelo. E brilhante. Leia a resenha completa

 

 

6) Close: Léo e Rémi são dois meninos na faixa dos 13 anos, que moram na zona rural da Bélgica. Melhores amigos, fazem absolutamente tudo juntos: brincam, andam de bicicleta, tocam oboé, dormem. Aliás, dormem até na mesma cama. A relação é íntima, cheia de afeto e bastante naturalizada pelas famílias de ambos os garotos. Tudo corre mais ou menos bem até o final do verão, quando eles começam a estudar no Ensino Médio. Novas vivências, experiências. Amizades. Em certo dia uma das colegas pergunta, de forma bastante despretensiosa, se eles estão juntos. Se são namorados, uma vez que o carinho entre eles é palpável. Léo estranha a pergunta. Fica incomodado. Nega veementemente. Tudo piora quando eles passam a sofrer bullying de outros colegas. Comentários homofóbicos. Que brotam do entorno. Léo resolve que, talvez, seja melhor se afastar de Rémi. Uma decisão que, definitivamente, impactará a vida de todos. Poucas vezes a construção da noção de masculinidade na juventude foi abordada de forma tão impactante como nesse ótimo filme do diretor Lukas Dhont. Disponível na Mubi, essa obra comovente e primaveril é cheia de sutilezas, de silêncios e de planos fechados, sendo paradoxalmente potente em sua abordagem. Leia a resenha completa.


 

5) Retratos Fantasmas: Uma obra nostálgica, metalinguística e poética, que funciona como uma espécie de fluxo de consciência sobre uma sociedade em transformação que, ao mesmo tempo que parece evoluir em alguns aspectos - como no caso da tecnologia -, retrocede em outros. Mais ou menos assim é possível resumir - e de acordo com a minha leitura, já que esse é um projeto amplo, cheio de camadas, de caminhos e de possibilidades - a experiência com o documentário de Kleber Mendonça Filho. Enviado para representar o Brasil no Oscar, este é um trabalho evocativo, sensível e bastante autobiográfico não apenas sobre o processo de fazer cinema, mas sobre como a nossa bagagem ou as vivências pessoais influenciam em nossa caminhada. Em alguma medida, compreenderemos como grande parte das obras de Mendonça partem de memórias da sua infância e da juventude no Recife. Sons, cheiros, objetos, luzes, a arquitetura dos espaços, as relações familiares e até mesmo os latidos do carismático cachorro do vizinho, contribuirão nessa colcha de retalhos que formará cada roteiro, cada narrativa pensada pelo diretor. O resultado é uma obra alegórica e afetuosa, que reverencia o passado, ao mesmo tempo em que olha com certo desalento para o futuro. Leia a resenha completa.

 


4) Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon): um épico ao estilo da Hollywood clássica, estilo Assim Caminha a Humanidade misturado com Sangue Negro. Assim pode ser resumida a experiência com o mais recente filme de Martin Scorsese - e um dos grandes favoritos à indicações na próxima edição do Oscar. Imponente, mas sem deixar de ser intimista, a obra volta cem anos no tempo para mostrar como a Tribo Osage, de Oklahoma, se tornou uma das mais ricas do planeta, meio que do dia para a noite, após a descoberta de petróleo em suas terras. E, claro, o óleo que jorra do chão atrairá não apenas trabalho, dinheiro e crescimento, como muita ambição. É nesse contexto do pós Primeira Guerra que chaga ao local um certo Ernest (Leonardo DiCaprio), que passará a trabalhar como motorista de um poderoso proprietário de terras chamado William King Hale (Robert De Niro). Só que os problemas, de fato, iniciam quando Ernest se aproxima de Mollie (Lily Gladstone), se apaixonando por ela. O que, paradoxalmente, resultará em uma sequência inexplicável de mortes entre os Osage. Cheio de ambiguidades, o projeto deixa o espectador em dúvidas sobre a real intenção do protagonista - especialmente diante da voluptuosa herança que está em posse de Mollie. Um filme espectacular, que dá conta da complexidade das relações no nascedouro do Século 20.



3) Anatomia de Uma Queda (Anatomie D'une Chute): "Eu não dou a mínima para a realidade. O julgamento não é sobre a verdade. É sobre o que parece a verdade". A frase dita pelo advogado Vincent surgirá, com pequenas variações, mais de uma vez durante os quase 150 minutos do filme dirigido por Justine Triet, que foi exibido no Festival Varilux. Na trama, Sandra é acusada de, talvez, ter matado seu próprio marido em circunstâncias misteriosas e de difícil explicação para a Justiça. E, depois do surgimento de uma gravação que envolve uma pesada discussão entre o casal, apenas um dia antes da morte de Samuel, o advogado tenta de toda a forma lembrar Sandra que, vá lá, talvez a realidade dos fatos não seja tão importante assim. O que vale mesmo é a aparência da coisa toda. E, em alguma medida, é possível afirmar que é é nesse contexto que reside o brilhantismo da obra, que venceu a mais recente Palma de Ouro do Festival de Cannes. Ao cabo, essa é uma produção que nos arremessa de lá para cá o tempo todo, nos deixando em dúvida sobre os acontecimentos. Sandra é culpada mesmo? Ou a queda que resulta em morte foi um acidente? São muitas perguntas e não haverá respostas óbvias nessa obra cheia de ambiguidades e de um magnetismo irresistível. Leia a resenha completa.

 

 

2) Barbie: Ao sair do cinema a sensação que ficou foi a de que esse era o único filme possível para a boneca mais famosa do mundo. Estamos no final de 2023 e ainda parece meio incrível que pautas feministas ou que envolvam questões ligadas à importância da igualdade de gênero precisem ser permanentemente lembradas, marteladas. Mas o caso é que o óbvio, em muitos casos, precisa ser dito. Reiterado. Que isso seja feito justamente (e paradoxalmente) por meio de um brinquedo que funcionaria, por décadas, como o exemplar máximo do estereótipo feminino fetichizado é algo digno de aplausos. "Ãin, porque a Mattel vai ganhar rios de dinheiro com o hype em cima da obra". Sim, vai. E ela ri meio que na nossa cara dessa contradição. Mas é também preciso elogiar a percepção de que o mundo evoluiu e, vá lá, talvez nos dias de hoje já não faça mais sentido uma comédia agridoce com a Barbie e o Ken feita somente para agradar adolescentes vestidas de rosa. Em meio a tantas discussões de twitter, o caso é que nenhuma obra mobilizou tanto - de tiozões cringe incomodados com o discurso à mães horrorizadas que se identificaram no sigilo com aquilo que viam (por mais que Igreja e a família de bem dissesse o contrário). Barbie foi um evento. Que nós amamos. Leia a resenha completa.

 

1) As Bestas: Vamos combinar que essa joia do cinema espanhol, exibida no mais recente Festival Varilux, não é apenas um filme. É uma aula de cinema. Daquelas que deveriam ser discutidas em cursos superiores para estudantes que se pretendem cineastas. Em alguma medida, e nas aparências, essa poderia ser apenas uma narrativa sobre a desavença entre duas famílias vizinhas com filosofias, ideais e projetos - históricos, de agricultura, institucionais, de vida em sociedade - distintos. E que, não demorará muito, colidirão de maneira inescapável. Em uma análise mais ampla, porém, não deixa de impactar a forma como o diretor Rodrigo Sorogoyen insere temas como, xenofobia, tradições, colonialismo e meio ambiente, tornando aquele microcosmo uma espécie de reflexo do todo. Parece que a cada dia estamos mais dispostos a odiar, a sermos intolerantes. E para, a partir daí, a coisa descambar pra violência, é um passo. E nessa obra cheia de camadas o que temos é a complexidade do sujeito e suas motivações apresentadas nunca de forma maniqueísta. Com longos planos sequência, diálogos íntimos e potentes e uma ambientação cinzenta, essa é uma experiência evocativa, que cresce justamente em suas sutilezas. Ninguém sai igual depois desse filme. Leia a resenha completa

 


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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

30 Melhores Discos Internacionais de 2023

Devo confessar a vocês que esta foi uma das listas de discos internacionais mais complicada de fazer porque, honestamente, achei este um dos melhores anos da última década em matéria de lançamentos! Foi muita coisa boa. Ou vai ver que fui eu que ampliei a minha dedicação em escutar materiais novos - e, num levantamento prévio, contabilizei mais de 150 álbuns de 2023 conferidos, todos eles mais de uma vez. E nunca é demais mencionar que relações do tipo são um pequeno recorte não necessariamente dos "melhores" - ainda que continue nomeando desta forma - e sim daquilo que mais gostei dentro do que foi possível ouvir. É algo meio que de momento. 

 

 

E, mais, mesmo no último minuto dessa compilação, ainda me deixou incomodado o fato de ter de deixar muita coisa boa de fora. Acho que se elaborasse essa mesma lista no mês que vem - ou na semana retrasada -, talvez um terço dos nomes inclusos seria substituído por outro. Porque a música, afinal, é dinâmica e está, assim como outras artes, em movimento. Muitas vezes elas nos pegam por uma "pontinha", por algo que nem sabemos explicar direito. Um refrão, uma melodia pegajosa, uma letra com a qual nos identificamos. O caso é que nunca houve tanta música boa - e democrática - sendo feita no mundo atualmente. E aqui, apresentamos um pequeno recorte daquilo que mais nos impactou em 2023. Que de quebra, ainda tem um componente adicional: as mulheres dominaram tudo! Boa leitura!

 

30) Christine and the Queens (Paranoïa, Angels, True Love): Existe um problema meio inevitável nos discos "inchados", que é o fato de eles não terem como ser 100% bons o tempo todo. É um risco que certos artistas correm. E uma verdadeira ousadia em tempos de consumo rápido, de tik tok, de instantaneidade e de dispersão em meio a tanta oferta. Tudo isso não impediu o Christine and the Queens de lançar o seu mais ambicioso projeto. Dividido em três segmentos, o quarto trabalho de estúdio de Héloïse Letissier possui 20 músicas distribuídas em (quase) inacreditáveis 96 minutos. A empreitada pode parecer meio excessiva, mas quem se aventurar nela encontrará uma coleção de canções magnéticas, divinas, teatrais e operísticas que levam o pop experimental da artista a um limite que avança para além dos sintetizadores transcendentais (e dançantes) testados anteriormente. Aqui, parece haver um diálogo mais permanente com uma atmosfera mais etérea - algo como um encontro entre o trip hop, a new age e o jazz. É desafiador e nem sempre fácil. Mas é completamente satisfatório em seus melhores momentos, como comprovam as espetaculares Tears Can Be Soft e A Day in the Water. Sofisticado mas caótico, artístico mas compreensível, esse é daqueles discos que jamais imaginaríamos precisar em pleno 2023.

 

29) Slowthai (UGLY): A gente está devastado por dentro, mas sorri. Está com a mente desgraçada mas com a terapia em dia. Finge saúde e frequenta a academia. Come mal e sobrevive em empregos infelizes. Nesse mundo cheio de dores e barulhos por todos os lados parece que nunca estamos plenos, por mais que na fachada a gente faça de conta que está. O clima em UGLY, do rapper Slowthai é mais ou menos esse até no título do projeto - um acrônimo para U Gotta Love Yourself (ao mesmo tempo em que a tradução literal da palavra afirma o contrário). Nesse sentido, enquanto o artista evoca uma raiva que parece vir da alma - que é expressada em seus vocais selvagens, eventualmente gritados,com um pé no hip hop e outro no punk -, os versos percorrem os meandros da alma, fazendo escorrer sentimentos ambíguos. "Você é rei / Você é rainha / Você é gênio" afirma na abertura Yum para, já na sequência, explicitar a sua luta interior (Estou sem motivação / Preciso de uma intervenção). E muito da força do trabalho, o terceiro da carreira do artista, emerge desse universo de paradoxos - como comprova, por exemplo Selfish, que fala sobre amor próprio ao mesmo tempo em que divaga sobre o que as pessoas em volta efetivamente pensam de você. Atualíssimo.

 

28) Blur (The Ballad of Darren): Vamos combinar que o efeito causado pelo Blur é meio curioso. Se por um lado, Damon Albarn e companhia são capazes de lotar estádios - como vinham fazendo em apresentações recentes e pós-pandêmicas -, por outro, parecem ser aquela banda ideal pra festa indie alternativa promovida por aquele bar descolado. E talvez seja justamente essa capilaridade, que os torne tão interessantes. Porque se, por um lado, eles são melhores do que ninguém na hora de conceber canções que olham com certo cinismo pra sua Inglaterra natal, por outro eles sempre foram muito hábeis em investigar sentimentos bastante humanos, colocando no "papel" suas dores, incertezas e temores. Agora, já na casa dos 50 e alguma coisa, os integrantes da banda poderiam ficar de boas, nas suas casas de campo, fazendo shows aqui e ali, engordando as suas contas bancárias e replicando padrões que eram motivo de deboche no passado. Mas e as inquietações? Atualmente, as pessoas precisam lidar com pandemia, extrema direita, guerras, tecnologias e outros temas que, aqui e ali, ganham eco na voz agridoce e melancólica de Albarn. Assim, o nono álbum se converte em um projeto maduro, paciente e melódico, como comprovam as ótimas Barbaric, The Narcissist e The Heights.

 

27) Jess Williamson (Time Ain't Accidental): Jess Williamson estava assistindo ao filme Cenas de Um Casamento (1973) de Ingmar Bergman quando pausou o filme porque simplesmente não conseguia parar de chorar: "é uma representação de um relacionamento desmoronando e eu me identifiquei demais com a forma como a protagonista se sente", explicou a artista. O remédio para apaziguar a dor foi migrar para a sala ao lado onde estava o seu teclado - o que faria com que a canção Two Seasons simplesmente brotasse de sua alma. Uma das músicas mais tristes de seu quinto trabalho, talvez ela funcione como um fio condutor da temática que rege o projeto - que no caso, é a separação. Jess foi casada durante nove anos. E agora parece utilizar a sua música como uma forma de tentar juntar os cacos, desobstruir a dor e, ao cabo, continuar. Sim, numa comparação com outros discos, a artista que mescla country, folk e indie parece uma nota mais melancólica. A estrada anda mais empoeirada, o deserto mais seco. E o coração? Bom talvez não seja acaso a artista ter lançado um de seus melhores álbuns justamente após um rompimento. Vai ver seja parte da cura. De superar essas curvas sinuosas e difíceis - que abrem espaço para a esperança. E que fazem com que a gente se identifique tanto.

 

26) The New Pornographers (Coninue as a Guest): mantendo certa regularidade dentro de uma carreira de mais de 20 anos, é meio natural nos perguntarmos se os canadenses ainda têm lenha pra queimar. A resposta é sim - ainda que as coisas possam ter mudado. Com Continue as a Guest é possível perceber que o DNA do coletivo segue todo lá, seja nas guitarrinhas cheias de fuzz, nas melodias efervescentes, nos vocais multiplicados ou nas letras que operam como fluxos de consciência excêntricos e irônicos. Talvez a diferença agora é que Dan Bejar, Neko Case e companhia não sejam mais os jovens de vinte e poucos anos, que tinham aquela pressa graciosa que convertia os aspectos aleatórios do mundo a em canções simplesmente perfeitas. Só que muita coisa aconteceu e segue acontecendo - de pandemia à guerras. Nesse sentido parece haver uma necessidade de reconfigurar a rota . De alguma maneira isso fica bastante claro na faixa-título, que rumina sobre a necessidade de continuar, mesmo em um cenário de desolação (A maioria de nós não pode se dar ao luxo de desistir). Ok, há aqui e ali espaço para algum movimento a mais, como no caso das animadas Bottle Episodes e Really Really Light. Mas em geral há um charme em envelhecer. Que se encaixa direitinho com a proposta do disco.

 

25) Foo Fighters (But Here We Are): Frida Kahlo já dizia que "a arte mais poderosa da vida é fazer da dor um talismã que cura" - e, bom, não dá pra negar que But Here We Are parece ter sido o veículo ideal para que Dave Grohl tentasse exorcizar a tristeza não apenas pelo falecimento do baterista Taylor Hawkins, mas também de sua mãe, Virginia. Foram quatro meses entre uma morte e outra e, pro bem ou pro mal, os episódios trágicos parecem ter contribuído para que viesse à tona o melhor Foo Fighters dos últimos tempos. Não, não há nenhuma revolução aqui. Mas, em alguma medida, essa também parece ser uma forma de afagar os fãs. De lembrá-los de que eles ainda estão ali. E de que talvez continuar possa ser o caminho pra que as perdas sejam superadas. De forma discreta, a banda não concedeu muitas entrevistas sobre o disco ou deu detalhes sobre as letras e seus significados. Mas não é preciso ser nenhum expert pra perceber que temas como luto, memórias, saudade e outros se espalham por todos os cantos, como comprova a ótima Under You, que tem aquele quezinho de Foo das antigas, unindo refrão ganchudo e barulheira agridoce. Talvez desde Wasting Light (2011) a banda não lançasse um disco tão vigoroso, límpido, liricamente belo e até esperançoso - daquele tipo que todos os atos parecem fazer sentido.
 

 

24) Janelle Monáe (The Age of Pleasure): Talvez seja apenas a vida imitando a arte. Ou mesmo a Janelle Monáe "se guardando pra quando o carnaval chegar". E o carnaval, já diria Chico Buarque, há de chegar. No caso da artista americana, esse desejo de libertação de sistemas opressores que parecia estar no centro da narrativa de discos como o elogiado Dirty Computer (2018), aqui dá espaço para um senso de vitória. De exaltação. Sim, é hora de festejar. De deixar para trás a distopia capaz de evocar cenários de ficção científica, para mergulhar em uma temporada de amor, de paixão, de autodescoberta, de tesão, de hedonismo. Sonhar com um mundo melhor em tempos de guerra, de pandemia e de extrema direita sempre rondando? Vem pra cá que Janelle não coloca o cropped e reage. Ela tira o cropped e arremessa pra longe. Se libera dele. Pra iniciar uma era do prazer. Sim, aquela parcela da mídia especializada essencialmente conservadora considerou pouco interessante esse disco justamente pelo que ele tem de melhor: o caráter menos cabeçudo. "Estou me sentindo tão sexy" sussurra ela em Haute para, logo em seguida, na deliciosamente quente Water Slide, ela emendar um "se eu pudesse me comer agora mesmo eu faria isso". O conceito aqui é a safadeza. E a gente adora.


23) Everything But the Girl (Fuse): "Você canta para curar o coração partido? / Ou você canta para começar a festa?". Sim, a letra de Karaokê, canção que fecha Fuse, pode até aludir a uma noite aleatória de um bar de São Francisco, onde os clientes se alternam entre a energia vigorosa de Elvis Presley e a sutileza poética de Bob Dylan. Ainda assim não deixa de ser interessante notar como os versos combinam direitinho com aquilo que encontramos desde sempre nas entranhas da música proposta pelo duo britânico Tracey Thorn e Ben Watt. Inferninhos lotados que contrastam com as esquinas solitárias, uma festa fritada às 17h com o sol a pino paradoxalmente alto, ter alguém em casa pra amar mesmo após uma madrugada intensa e hedonista. Há, ao cabo, um quê de orgânico e tecnológico em igual medida na coisa toda. Nesse sentido, é possível afirmar que as canções da banda evocam justamente essa paisagem contrastante em que a festa acontece, enquanto os instantes de introspecção ecoam internamente. "Eu gosto do escuro / Eu gosto do humor" lembra Thorn nos versos da já citada Karaokê. É a escuridão que se une às melodias hipnóticas. É o movimento e a contemplação. É cantar para sarar as feridas. Ou para celebrar. O EBTG ficou 24 anos sem lançar um novo trabalho. E quando voltou, voltou como se nunca houvesse saído.

 

22) Beach Fossils (Bunny): Existem algumas bandas que a gente não dá muita bola, mas tão sempre ali, fazendo seu trabalho com competência a cada novo disco. E é justamente esse o caso dos americanos do Beach Fossils. Em seu quarto registro, eles preservam a tradição do lo-fi e do dream pop que lhes acompanha desde o começo da carreira, mas agora adicionando uma notinha a mais de melancolia em sua sonoridade primaveril. Talvez seja a maturidade, que vem acompanhada dos quase quinze anos de estrada. Ou mesmo o estado das coisas. Mas a guitarrinha agridoce á moda The Cure, que se junta aos vocais estilo Real Estate de Dustin Payseur, seguem trafegando no limite entre o melancólico e o primaveril, entre o nostálgico e o adocicado. Apostando na força dos refrões, esse é aquele tipo de álbum que pode servir de porta de entrada não apenas para a obra do grupo, mas para todo um estilo. Músicas como Don't Fade Away, por exemplo, são sólidas mas sonhadoras, sendo honestas na abordagem do amor,  das relações humanas e da complexidade de tudo (Disse algo engraçado, mas você não me ouviu / Quando disse de novo, com mais clareza, já era). Há outros momentos de brilho, como em Dare Me, Waterfall e Run to the Moon, nesse disco que, assim que se encerra, a gente já quer ouvir de novo.

 

21) Kelela (Raven): Em tempos de redes sociais e de superexposição permanente é sempre meio estranho quando alguém dá uma "sumida" - e foi justamente esse o caso de Kelela que, depois de furar a bolha com o ótimo Take Me Apart (2017), resolveu tirar uma espécie de período sabático aparecendo menos que o normal. Quando os fãs começaram a ficar um pouco mais ansiosos, a artista americana soltou, no segundo semestre do ano passado, o single Washed Away, que era o indicativo que um novo trabalho estava sendo gestado. Sim, a cantora pode ter tido um pequeno período de bloqueio criativo durante a pandemia, mas, mais do que isso, como mulher negra e queer ela estava ampliando a sua bagagem para poder abordar com ainda mais propriedade questões ligadas à igualdade de gênero, vulnerabilidade e senso de comunidade. É desse cenário que surge Raven. Levemente mais experimental que o álbum anterior, mas sem deixar de acenar para as tradições do R&B e da eletrônica sofisticados, o que se tem aqui é uma coleção de canções que conseguem ser etéreas e introspectivas, magnéticas e aconchegantes. É difícil ficar alheio ao vocal aveludado da artista, especialmente em instantes evocativos, como em Happy Ending, Closure, Enough for Love e Contact. Sedutor, transcendente, hipnótico. Faltam adjetivos.


20) Fatoumata Diawara (London Ko): De vez em quando ocorre de algum artista furar a bolha, sendo capaz de utilizar a sua arte como forma de exortação. No caso de Fatoumata Diawara não é nem preciso compreender totalmente as letras de suas músicas - que misturam ritmos africanos, soul, jazz e eletrônica moderna - para que entremos em contato com o ethos da coisa. Há um sentido semiótico que parte da percussão, dos corais, do canto evocativo, ainda que amplo. Nascida na Costa do Marfim e filha de pais malineses, a artista participou de quase uma dezena de filmes e de peças de teatro, sendo também hábil ao empunhar uma guitarra. "Uma garota do Mali com uma guitarra era apenas uma coisa maravilhosa" comentou, ainda no começo de sua carreira, citando a instrumentista Rokia Traoré, que lhe serve de inspiração. Em seu terceiro trabalho de inéditas, coproduzido por Damon Albarn do Blur, a cantora mescla tradição e modernidade, discutindo lutas das mulheres, fundamentalismo religioso, crises de imigração e outros temas, sempre com a potência e a fúria que caracterizam o seu vocal. Peça central do álbum, a fantástica Massa Den fala justamente sobre respeito às diferenças, exaltando o amor. "O amor é livre, o amor não pode ser forçado por ninguém", comentou no material de divulgação. Assinamos embaixo.


19) Laufey (Bewitched): Musicais de Hollywood, luz do luar suspirante, standards de jazz classudos, dançarinos apaixonados. Vamos combinar que a coleção de imagens mentais possibilitadas pelo segundo disco de estúdio de Laufey é gigante. Como se fosse uma veterana, a estrela saída do Tik Tok apresenta, em alguma medida, para toda uma geração de ouvintes as delícias da música clássica de décadas atrás - mas sem aquele rigor catedrático, que poderia beirar o presunçoso. Ao contrário, a artista nascida na Islândia e que tem ascendência chinesa recupera toda uma influência familiar não apenas de contato com o violino, mas também com discos de vinil de compositoras como Ella Fitzgerald e Billie Holiday. Todo esse cenário aparece em uma coleção de canções oxigenadas, que poderiam muito bem integrar filmes ou animações dos anos 40, sem que nem percebêssemos qualquer diferença. E, mais do que isso, a inspiração não representa uma mera cópia: há personalidade em cada curva, o que confere brilho a um estilo que poderia beirar o anacronismo. O resultado são canções sofisticadas e charmosas, casos de Lovesick, California and Me e From the Start que, de quebra, ainda serão aquela companhia ideal para o jantar romântico, com vinho, luzes baixas, boa gastronomia e lençóis de cetim.


18) Boygenius (The Record): Acho que é possível afirmar que, com o Boygenius, Julien Baker, Lucy Dacus e Phoebe Bridgers atualizaram as definições de "supergrupo". Queridinhas entre os alternativos, as três uniram forças para um trabalho que tem aquele ar intimista de violãozinho no quarto, ao mesmo tempo em que se apresenta como um projeto poeticamente vigoroso, de sólidas composições. Cheio de personalidade, o resultado é um conjunto de canções bastante heterogêneas, que ainda assim estabelecem diálogo entre si. Um bom exemplo disso pode ser visto já na abertura do álbum, onde a suave Without You Without Them, cantada à capella, logo dá espaço a $20, que tem Baker em uma fúria que remete às riot girls dos anos 90, que mais adiante abrirá passagem para a melancólica Emily I'm Sorry, em que a guitarra enevoada de Bridgers brilha. Tudo numa alternância de estilos e de movimentos dentro do disco que podem parecer desconectados, mas que permanecem coesos dentro dos mais de 40 minutos de execução - seja pelo padrão vocal, pela predileção por letras cheias de divagações adultas, sobre medos existenciais ou a respeito das inquietações da alma. E que permitem que qualquer pessoa se identifique. Indo do acústico ao turbulento, o registro ainda reserva como divisor de águas a melhor música do ano: Cool About It. Só resta amar.


17) Sampha (Lahai): Existe um quê de místico, de mágico, de onírico nas sofisticadas composições do músico Sampha. Como se a cada novo contato com esse segundo disco de estúdio, fôssemos levamos a uma espécie de estado de flutuação, que nos possibilitasse observar o todo do alto, a distância, com calma, placidamente. Aliás, a própria capa sugere isso. E os títulos, como na autoexplicativa Suspended. E, mais ainda as letras, como podemos perceber  em Spirit 2.0 (A próxima coisa é que estou vagando pelo céu aberto / E não me sinto tão assustado / Sonhando com os olhos aberto / Estou agarrando o ar). O expediente se repete no single Only (Comecei a olha para baixo / [...] Eu estive nessa rotina como se isso fosse amortecer a minha queda). "Sinto que muito do que escrevi vai entre esse estado de sonho e o desenho de cenários da vida real" resumiu, no material de divulgação. Religião, paternidade, solitude, a importância de um abraço, espiritualidade, metafísica, memórias que esvanecem. Estes e outros temas se equilibram em meio a sintetizadores minimalistas e pianos pulsantes, que se mesclam a ritmos e percussões africanas, unidas a refrãos dançantes. Em alguma medida esse é um disco que cresce a cada nova audição. E sem nunca soar difícil por isso.


16) Tirzah (Trip9love...???): Se tem uma artista que transita bem entre o experimental e o acessível, esta é a inglesa Tirzah. Se em alguns momentos as suas melodias sofisticadas parecem envoltas em névoas intransponíveis, em outros os elementos descomplicados dos versos parecem um convite à simplicidade. Foi assim com os elogiados Devotion (2018) e Colourgrade (2021), com o expediente se repetindo neste recente trabalho. Ao cabo, esse é aquele tipo de disco que vai te ganhando aos poucos, a a cada nova investida ao encontro dos sussurros hipnóticos da artista. Sim, a coisa toda pode parecer meio hermética num primeiro momento, dados os efeitos eletrônicos complexos, as quebras de andamento nunca óbvias ou a condução evidentemente enigmática, que cruzam com naturalidade estilos como R&B, trip hop, bedroom pop e minimal wave. Mas o resultado é palatável, suave, harmonioso - como pode ser percebido na envolvente u all the time, que começa com um pianão classudo que, ali adiante, se encontrará com um sintetizador levemente poluído, que encaixará direitinho com o minimalismo dos efeitos e com o vocal límpido. Atmosférico, sombrio e melancólico. Mas sem deixar de ser aconchegante. É esse o resumo da ópera.

 

15) Mitski (The Land Is Inhospitable and So Are We): Talvez Laurel Hell, o acessível disco anterior, seja uma das raras exceções na carreira da Mitski. Famosa por certo hermetismo que envolve letras bastante poéticas e melodias com menor apelo comercial, a artista se soltaria mais no trabalho lançado no ano passado, flertando em alguma medida com o pop classudo e soturno dos anos 80. Só que com esse sinuoso sétimo álbum, parece haver uma espécie de retorno para uma sonoridade menos previsível. O que não significa que não haja beleza. A canção inaugural, chamada Bug Like an Angel, por exemplo, poderia ser apenas um countryzinho genérico como qualquer outro, tocado ao violão. Nada que não tenhamos ouvido. Mas como se já não bastasse o inesperado coral gospel que invade a canção no meio do caminho, há ainda a letra metafórica em que temas ligados à família e a religião se cruzam em versos cheios de simbolismos (Há um inseto parecido com um anjo preso no fundo / Do meu copo, com um restinho sobrando). O tipo de contraste entre a sofisticação e a suavidade do tom, que parecem colidir o tempo todo com os temas mais pesados, com reflexões e dores cotidianas. Claro que não significa que não haja espaço para um respiro, como percebemos na graciosa My Love Mine All Mine, uma das grandes músicas do ano.

 

14) Allison Russel (The Returner): Aqui temos o famoso caso do "melhor disco do ano que ninguém ouviu". E é uma pena, já que essa artista que mistura folk e country com R&B e soul merecia mais visibilidade. Afinal, nessa sequência do ótimo Outside Child (2021) é tudo muito bem encaixado. Primeiro há o vocal que beira o sublime - naquele tipo de canto evocativo que alude ao sul dos Estados Unidos (ainda que ela seja canadense). Depois, há as melodias envolventes, que podem ir do contemplativo ao dançante às vezes na mesma canção. E, por fim, há as letras. E a própria história de vida da artista, que cresceu sofrendo uma série de abusos físicos, mentais e sexuais de seu pai adotivo. Como mulher negra, foi um caminho quase natural a sua música (e a sua arte) pender para certo ativismo. Demons, por exemplo, com seu coral gospel e instrumental polido, pode soar como uma peça de mera celebração a olhares desatentos. Mas há uma fúria que emerge da letra antirracista (Parada na esquina esperando o ônibus escolar / Ela disse que eu tive muito azar / Em ter o cabelo e a pele ruins / E eu simplesmente não entendi isso). Só que o violino festivo, os sinos que tocam, os barulhos que se expandem e se encolhem, as palmas e outros elementos surgem pra lembrar que há luz no fim do túnel. "Demônios não gostam da luz do sol", lembra a cantora na mesma música. Infalível.


13) The Clientele (I Am Not There Anymore): O estilo encharcado, enevoado, das melodias do Clientele - com referências em suas letras às cidades provincianas e seus subúrbios úmidos, gramados e cerquinhas brancas, pássaros vacilantes e finais de tarde incertos -, vamos combinar, sempre foram uma marca registrada. O bucolismo que se mistura com o concreto, a chuva matinal e a grama cortada, os sonhos cintilantes que se mesclam à realidade, o rádio que toca uma música triste na penumbra da sala - tudo nas canções do coletivo evocam esse sentimento meio mágico, capaz de conferir certo verniz à rotina, às coisas cotidianas. E não é diferente com o excelente sétimo disco. Ninguém afinal fala de fontes de água, de janelas opacas e de luzes furtivas que percorrem vielas, da forma como Alasdair Maclean e companhia - e basta ver os títulos das canções (Chalk Flowers, Through the Roses, Garden Eye Mantra) para que tenhamos a dimensão precisa desse expediente. No limite entre o indie pop nostálgico, o jazz contemporâneo e a eletrônica minimalista, o trabalho é pura personalidade indo do experimentalismo à suavidade dos arranjos em questão de segundos. O que resulta num disco de grande beleza, daqueles que nos fazem formar imagens mentais palpáveis, conforme percorremos suas curvas.


12) Arlo Parks (My Soft Machine): A maciez e a sofisticação dos arranjos. Um jeito de cantar sussurrante, que aconchega. As letras repletas de citações culturais e de histórias cotidianas - de amor, de amizades, de relações familiares - tornam Arlo Parks uma das artistas mais interessantes da atualidade. E ainda que My Soft Machine não tenha o brilho do trabalho inaugural - o ótimo Collapsed in Sunbeans (2021) -, a artista aposta novamente na mistura de R&B, jazz, pop e eletrônica, utilizando sua poética simples e criativa como veículo para íntimas composições, que parecem se revelar aos poucos, sem pressa. O resultado é um trabalho cativante, que se alterna entre sintetizadores primaveris e guitarras eficientes. Um bom exemplo dessa mescla pode ser percebida na saborosa Weightless, uma canção ao mesmo tempo açucarada e dolorosa sobre a experiência de amar alguém, mas receber de volta apenas migalhas de afeto (Você está tão fechado, eu estou esgotada / Mas eu brilho no caso raro / De você me dizer que eu sou seu raio de sol / Eu estou faminta por sua afeição). Ao cabo, é o tipo de música que nos faz abrir um sorriso, mesmo com o coração devastado - tudo isso pela beleza ecumênica dos versos, que se junta a uma melodia estranhamente dançante. É difícil ficar alheio.

 

11) Kali Uchis (Red Moon In Venus): Falar de paixão, de amor (e de tesão) quando o assunto é música pode até ser um lugar comum. Mas não para Kali Uchis. Afinal de contas, tem que ter muita autoestima e senso de preservação para se libertar de uma pessoa sem ficar ressentido ou amargo - como ela faz, por exemplo, no single I Wish You Roses (Mas se você e meu coração algum dia forem em caminhos diferentes / Vou me certificar te dar essas bênçãos, pois elas são tudo o que tenho), que integra esse envolvente terceiro trabalho. Aliás, a lua vermelha em Vênus é a deixa para um registro que mistura desejo, desgosto, fé e honestidade. O resultado é uma diversidade de composições que mesclam dores e alegrias, sempre banhadas em ambientação cósmica, etérea. Misturando R&B, afrobeat, disco music, soul, pop e psicodelia, Uchis é pura classe mesmo quando seus versos soam bastante realistas no que diz respeito aos relacionamentos. Ainda assim, não significa que o amor não está em alta. Ele ondula sempre amparado pela voz sussurrada da artista, como pode ser percebido na noventista Blue. Vulnerabilidade, confiança, desejo, querer escapar para algum lugar onde apenas se possa ficar "chapado" com quem você ama. Para a artista o amor é uma experiência completa. E só se vive ela mergulhando de cabeça.


10) Wednesday (Rat Saw God): Vamos combinar: é nas contradições da vida na pequena cidade que reside a força da poesia ao mesmo tempo turbulenta e contemplativa dos americanos do Wednesday. Nesse sentido, o grupo é capaz de unir a ambientação pacata do povoado poeirento - onde os moradores sentam tranquilos nos alpendres das casas ajardinadas ao entardecer -,com o clima intempestivo da juventude que, nesses mesmo locais, se encontra em postos de gasolina de beira de estrada para cervejadas que avançarão madrugada adentro. Barulho e placidez. Ruído e calmaria. Por vezes se alternando como uma espécie de metáfora da própria existência. Ao cabo, e a despeito das inúmeras semelhanças com bandas alternativas dos anos 90 - e que grupos como Waxahatchee e Hop Along replicam na atualidade, com igual qualidade - aqui temos um conjunto de canções que transbordam personalidade, levando o ouvinte por um caminho incerto. Se Chosen to Deserve é quase um single possível de ser executado no mesmo bloco radiofônico em que estarão o Alvvays e The War On Drugs, em outro instante somos tragados por letras que acenam para uma inesperada ironia "A América é uma criança mimada que ignora o luto", debocha a cantora Karly Hartzman na sinuosa Quarry. É uma forma de resumir a ideia toda.

 

9) Sufjan Stevens (Javelin): "Este álbum é dedicado à luz da minha vida, meu querido parceiro e melhor amigo Evans Richardson, que faleceu em abril. Ele era uma pessoa absolutamente preciosa, rara, cheia de vida, excepcional em todos os sentidos". A mensagem deixada por Sufjan Stevens no Tumblr, no dia do lançamento de seu nono disco de estúdio deu a pista: em meio a beleza quase mística de suas melodias, há uma profundidade poética que emerge da dor. Stevens está de luto e não é a primeira vez. Já havia sido assim no elogiadíssimo Carrie & Lowell (2015), que ele concebeu como uma homenagem à sua falecida mãe. E agora, com o retorno ao que ele sabe fazer de melhor - no caso, as canções contemplativas, de instrumentação simples, acústica - ele entrega uma nova coleção de músicas bastante diretas, sem firulas. E dilacerantes, claro. Evidentemente que se engana quem pensa que economia signifique desatenção. Muito pelo contrário, já que a maioria das canções inicia intimista, com o vocal em um falsete introduzindo temas complexos de amor, de perdas e de sofrimento em meio à incertezas que, mais adiante, crescerão entre corais de vozes, efeitos eletrônicos majestosos e até refrãos grandiosos. Como comprova a bela Will Anybody Ever Love Me?.

 

8) CMAT (Crazymad, For Me): Sempre fico impressionado quando me deparo com algum artista que, aparentemente, não tem a atenção que merece - caso da CMAT. Como assim as pessoas não estão simplesmente falando dela? Segunda colocada na nossa relação do ano passado, com o singular If My Wife New I'd Be Dead, Ciara Mary-Alice Thompson retorna com este registro em que novamente mistura o indie, o folk e o pop colorido, em letras divertidamente cínicas, povoadas por referências culturais diversas e que falam de relacionamentos tóxicos, de tramas mal resolvidas e de dilemas cotidianos de forma afiada, debochada, imprevisível. Preservando a personalidade do trabalho anterior, a irlandesa converte suas composições em hinos cheios de sarcasmo que, com seu apelo comercial irresistível, parecem prontos para serem cantados a plenos pulmões pelo público. Um bom exemplo desse expediente pode ser encontrado na festiva e nostálgica Where Are Your Kids Tonight?, dueto com John Grant em letra que parece olhar para o passado na hora de refletir sobre o futuro. Já quando reduz velocidade, como no caso da espetacular Vincent Kompany, a artista mantém a sua verve que pende pra leve excentricidade na hora de debochar de si própria. Vale ser descoberta.

 

7) Paramore (This is Why): Há um ano o Paramore decidiu trocar a imagem do álbum homônimo de 2013, que mostrava os três então integrantes da banda em uma foto de capa clássica de banda. Se você abrir algum serviço de streaming e procurar o disco, irá encontrar uma foto de Hayley Williams de costas, vestindo uma jaqueta com a frase grow up que, no bom português, significa "cresça". Talvez a cantora e principal nome do trio estivesse nos dando um recado: já estamos com trinta e poucos anos. Mas, se você compartilha os gloriosos trinta ou quarenta e alguma coisa sabe que a vida não é um lugar seguro, confortável e previsível. O capitalismo corrói nossa saúde mental, os relacionamentos acabam e nos deixam ainda mais solitários do que parecia possível, uma pandemia ou mais uma guerra incompreensível podem simplesmente ocorrer e, bem, precisamos lidar com isso. E, discutir todos os processos e traumas desse crescer meio que na marra, é o que o coletivo de pop emo faz com maestria em seu sexto álbum. Levemente mais intimista, com boas doses de melancolia raivosa, ainda que sempre insinuante, o resultado é um conjunto de canções sensíveis, honestas, divertidas e até esperançosas, como comprovam Big Man, Little Dignity, Running Out of Time e Crave.

 

6) Kara Jackson (Why Does the Earth Give Us People to Love?): "Por quê a terra nos dá pessoas para amar? / Para em seguida levá-las embora, para fora de nosso alcance?". A pergunta melancólica feita na faixa-título do álbum de estreia de Kara Jackson não é por acaso. As dores do mundo, ao cabo, formarão a matéria-prima de boa parte das 13 canções do disco. Qual o sentido de tudo isso? "Estamos apenas esperando a nossa vez?". questiona a artista enquanto seu violão flui como uma espécie de extensão evocativa do completo absurdo do luto. Algo que, somado a sua voz angustiada, apenas amplia o sentimento de vazio. Sim, Jackson pode ser apenas uma jovem de 23 anos. O que não significa que ela esteja imune às perdas. E perdas aqui podem também ter um sentido meio literário. E literal. Ou estarem diretamente relacionadas ao amor - e suas desilusões e paixões desastradas. "Quando eu tiver limpado meus lençois / Não venha me ligar para ver que / Não sou tão maternal / Não vou beijar sua bochecha" afirma em Free, num misto de deboche e sobriedade que envolve um aceno a adultos infantilizados. Jackson se apropria desses temas com elegância, mesclando estilos como blues, alt country e folk, reafirmando o poder da mulher. De tirada em tirada, quem ganha é o ouvinte.

 

5) Jessie Ware (That! Feels Good!): Vamos combinar que é muito bom ver um artista da música se reinventando. Afinal, estabelecer diálogo com outras sonoridades ou mesmo percorrer outros caminhos, não deixa de ser uma forma de sair do lugar comum. Nesse sentido, quem acompanha a carreira da Jessie Ware sabe que, da artista que apostava em canções de ambientações mais etéreas, recheadas por melodias mais evocativas, pouco restou. De um certo desgaste do estilo em projetos bastante pessoais como Glasshouse (2017) ao revival da disco music em What's Your Pleasure? (2020), concluído em plena pandemia, o que conferimos foi um processo transformador. Que, agora, com o quinto trabalho de estúdio, parece ser o ponto alto de maturação. Partindo exatamente de onde parou no projeto anterior - que tornavam as pistas de dança com seus globos espelhados, gelo seco e hipnose luxuosa, algo palpável - a cantora e compositora investe numa nova leva de canções que não apenas referenciam artistas do final dos anos 70 e início dos 80, como conferem originalidade a um gênero que, aqui e ali, poderia soar apenas nostálgico. O que pode ser comprovado em gemas como Pearls, Free Yourself e e Beautiful People, que prestam tributo a Chic e a Chaka Khan, sem perder a personalidade.


4) Lana Del Rey (Did You Know That There's a Tunnel Under Ocean Blvd): Vamos combinar que, a cada lançamento da Lana os fãs jamais se decepcionam, porque ela simplesmente entrega tudo - e não é diferente com o oitavo disco de estúdio. E eu não sei se é exagero de minha parte, mas eu fico particularmente feliz em viver em uma época em que posso acompanhar uma artista tão completa. Lana é música, mas também é outras artes. É poesia, cinema, literatura, dança. Suas letras longas, interpretadas de forma lenta, por vezes sussurrada, sem pressa, parecem compor a trilha sonora de algum filme alternativo que será exibido no Festival de Sundance. É romântico, mas elegíaco, sexy, mas vulnerável - às vezes até na mesma música, como fica claro no single A&W, que consegue colocar na mesma letra a inocência da infância e a sensualidade da vida adulta. Com 16 músicas e quase 80 minutos de duração, o álbum pode ser meio excessivo para o ouvinte ocasional. Mas, ao cabo, esse é um disco para quem gosta desse universo de romances estranhos, tortos e ocasionalmente enfumaçados, com a artista posando de femme fatale aqui, para ali adiante ressurgir melancólica e niilista do jeitinho que amamos. Seja refletindo sobre perdas familiares (Fingertips) ou sendo nostalgicamente apaixonada (Sweet). Não há muito o que falar: apenas ouvir

 

3) Olivia Rodrigo (GUTS): Eu preciso ser honesto e dizer que não acreditava que a Olivia Rodrigo pudesse superar a famosa "prova do segundo disco". Depois do sucesso estrondoso de Sour, era meio natural que rolasse certa pressão. Da indústria, dos fãs, da mídia, de todo o entorno. E o que a artista fez diante desse cenário? Não apenas converteu o próprio tema das incertezas diante da fama na matéria-prima ideal para as suas letras, como ainda deu a GUTS um sabor bastante agridoce, com um perfume juvenil à beira da vida adulta. Crescer e amadurecer, vamos combinar, nunca é fácil. E amadurecer nesse ambiente inóspito da fama parece ser ainda mais complexo. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que muitas de suas letras não apenas dialogam com as dores e as incertezas de quem mal está chegando aos 20 anos - seja no campo dos relacionamentos, das amizades, das festas e bebedeiras -, como ainda parecem fazer um permanente aceno para o meio em que ela está inserida. E Olivia tem uma capacidade única de falar de coisas  íntimas, do universo dela, e ainda assim fazer o público de identificar. Tenho 42 anos e terminei o disco berrando que "tudo fica melhor, mas e se não melhorar?". Já faz uns 25 anos que eu não sou adolescente, mas senti que era pra mim. Acho que era pra todos nós.


2) Caroline Polachek (Desire, I Want to Turn Into You): Um conjunto de músicas etéreas, hipnóticas, que parecem produto de uma outra dimensão - mas que, de forma paradoxal, nunca foram tão materiais, tão humanas, tão reais. Mais ou menos dessa forma pode ser definido o segundo trabalho de Caroline Polachek. Dos clipes borbulhantes às produções limpas, dos sintetizadores penetrantes aos efeitos digitais e barulhinhos criativos (estalos de dedos, assovios, zumbidos) que preenchem cada ato, não há nada que pareça deslocado ou fora de tom. Um bom exemplo de tudo isso pode ser observado em Fly to You, que promove um encontro entre Dido e Grimes e que, de alguma maneira, resume o tipo de ambientação encontrada no trabalho - uma união entre a sofisticação da primeira e o experimentalismo estranho da segunda. Do flamenco de Sunset (que parece uma trilha perdida de The White Lotus), passando pela inesperada gaita de foles que dá um clima todo escocês à Blood and Butter, até chegar ao trip hop de Pretty in Possible, a mescla de estilos parece trabalhada de forma orgânica, jamais soando como algo para forçar a barra ou para mero exibicionismo de Tik Tok. Polachek deu um passo largo em relação a estreia solo Pang, de 2019. E se consolidou entre as gigantes.

 

1) Chappell Roan (The Rise and Fall of a Midwest Princess): De um lado a garota provinciana da pequena cidade. De outro, a jovem que sonha ser uma dançarina em uma boate queer de um grande centro. A dicotomia existente entre a jovem do meio oeste americano nascida em uma típica família conservadora do Missouri e esse desejo de voar para longe para viver o sonho urbano pós-adolescente é aquilo que parece guiar, em alguma medida, esse espetacular álbum de estreia da cantora Chappell Roan. Juntando doses dançantes de Katy Perry e Olivia Rodrigo, mescladas com violão country estilo início de carreira de Taylor Swift, a artista prova que quando o assunto é o pop não é necessário reinventar a roda. Com personalidade e muito senso de humor, Roan vai no limite entre a capacidade de rir de si e a autoaceitação, numa mistura absurdamente saborosa de música de balada com tintas sombrias. Um bom exemplo desse expediente pode ser encontrado no divertido single Pink Pony Club, onde Roan imagina um encontro aleatório dela com a sua religiosa mãe em uma casa noturna famosa por acolher gays - E mamãe, todo sábado / Eu posso ouvir o seu canto sulista a mil milhas de distância. "Eu só queria fazer algo simples e bobo" comentou ela em entrevistas de divulgação. Ás vezes é o que basta pra lançar o melhor disco do ano.

 

E pra vocês, galera? Quais foram os grandes discos de 2023? O que faltou? Muita coisa, né, com certeza. Nos ajudem a construir essa relação e bora ouvir o que falta, antes do ano fechar!


quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Grandes Filmes Nacionais - O Cheiro do Ralo

De: Heitor Dhália. Com Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Xico Sá, Silvia Lourenço e Milhem Cortaz. Drama, Brasil, 2006, 101 minutos.

Um dos personagens mais desprezíveis da história da literatura nacional - e do cinema. Assim podemos resumir o narcisista, niilista, egocêntrico e simplório Lourenço, encarnado por Selton Mello em O Cheiro do Ralo com uma naturalidade desconcertante. Esse é o tipo de sujeito que faz com que o espectador só consiga torcer contra e, por mais paradoxal que seja, esse é um elogio. O entorno desse anti-heroi é pornograficamente sem graça. Proprietário de uma espécie de casa de penhores, ocupa seus dias ordinários avaliando objetos e, adquirindo, aqui e ali e de acordo com a cara do interlocutor, aquilo que acredita ter algum valor. Se por um lado, despreza um homem que lhe oferta uma caneta de ouro, de outro considera interessante comprar um olho de vidro. O que adicionará uma pitada a mais de estranheza a essa narrativa putrefata dirigida por Heitor Dhália a partir do livro de mesmo nome, escrito por Lourenço Mutarelli.

Sombrio e cômico em igual medida, esse é aquele tipo de projeto que discute as relações de poder no capitalismo - e como o dinheiro pode determinar os rumos (ou não) dos acontecimentos. Frequentador assíduo de uma lanchonete vizinha, Lourenço meio que se apaixona (ou algo do tipo) pela garçonete do local (vivida por Paula Braun). Quer dizer, não é exatamente uma paixão. Ele está é encantado pela bunda dela, executando malabarismos para que possa enxergá-la em seus melhores ângulos. Só que, incapaz de sociabilizar com ela de maneira decente - um convite pra sair, que seja, um jantar, algo mais rotineiro - comenta com ela que "pagaria para ver a sua bunda". Para quem utiliza a exploração financeira (e mesmo as dificuldades decorrentes desse cenário) de forma perversa com os seus clientes e empilha objetos de forma desvairada, pagar para ver um traseiro poderia ser algo normalizado? Talvez. Mas o caso é que o episódio apenas evidencia a inaptidão social do protagonista.

E há ainda o ralo. E o cheiro. Como uma metáfora para uma existência que fede. Que exala um odor fétido, podre por todos os seus cantos - e nem é preciso ser um especialista em alegorias para captar essa. Em cada negociação, independente do cliente, seja homem ou mulher, Lourenço alertará para o cheiro ruim do ambiente. "É o ralo, o ralinho, ali do banheiro, que tá com problema". Ele parece ter vergonha da coisa toda, ainda que jamais se envergonhe de seu comportamento nauseabundo, arrogante, insensível, torpe. Como forma de tentar conter o problema chama um encanador que, pra surpresa dele, quer cobrar um bom valor pelo serviço. Que ele recusa. Tornando tudo ainda pior quando ele mesmo tenta resolver a questão com um método pouco usual: tampando o ralo com uma mistura de cimento. O que, de forma ainda mais simbólica, evidenciará a perda de controle sobre tudo.

Filmado com uma fotografia em tons pasteis que se somam a figurinos quadrados, o conjunto reforça o aspecto vulgar, rotineiro daquilo que acompanhamos. Não há muito escape, que não seja para a recepção do estabelecimento ou para idas eventuais à lancheria - sendo tudo meio claustrofóbico, limitado geograficamente. Orbitado por diversos personagens, especialmente clientes excêntricos - com suas esquisitices e julgamentos - o dia a dia de Lourenço é o da mais pura alienação (e não chega a surpreender que sua válvula de escape em busca do prazer seja o de pagar um caminhão de dinheiro para que uma jovem fique nua enquanto ele se masturba). Sim, o cinema de Dhália pode ser provocativo, ousado, daqueles que nos deixa meio desconfortáveis. Mas é inegável ver uma obra que examina de forma tão eficiente a condição humana em sua versão mais detestável.

 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Tesouros Cinéfilos - Código Desconhecido (Code Inconnu: Récit Incomplet de Divers Voyages)

De: Michael Haneke. Com Juliette Binoche, Ona Lu Yenke, Luminita Gheorghiu, Thierry Neuvic e Alexandre Hamidi. Drama, França, 2000, 118 minutos.

Já vi muitas pessoas desfazerem o filme Código Desconhecido (Code Inconnu: Récit Incomplet de Divers Voyages) sob o argumento de que não acontece nada nele. Mas é meio curioso: por mais eventualmente arrastada e fragmentada que seja a narrativa da obra de Michael Haneke, é interessante notar como ela permanece atualíssima em seus temas. Racismo, xenofobia, crises envolvendo imigrantes, diferenças sociais e culturais, tudo aparece salpicado aqui e ali - ainda que talvez de forma não tão coesa. Os primeiros quinze minutos, por exemplo, talvez sejam os melhores, quando acompanhamos um longo e bem orquestrado plano sequência pelas ruas de Paris. É nesse cenário que surge Anne (Juliette Binoche), uma atriz que é abordada pelo seu cunhado Jean (Alexandre Hamidi), que precisa urgentemente conversar com seu irmão Georges (Thierry Neuvic), que é o namorado de Anne.

É uma sequência em que muitas coisas acontecem - e que evidenciam em alguma medida o caos, a urgência cotidiana. Jean está pedindo para ficar alguns dias com o casal, já que abandonou o trabalho na fazenda do pai. Ele está meio enraivecido, seu comportamento é intempestivo e, após comprar um lanche, ele simplesmente arremessa os restos daquilo que consumiu em uma moradora de rua, que pedia esmolas junto à calçada. Esse é o estopim para que uma pequena confusão se instaure: insatisfeito com o comportamento de Jean, Amadou (Ona Lu Yenke) o confronta, exigindo que ele peça desculpas à mulher. Amadou é um rapaz negro, um professor de música que se compadece com a injustiça social presenciada ali, em plena luz do dia. Quando a polícia chega, por mais que algumas testemunhas apontem o que realmente ocorreu, Amadou acaba preso. E, pior, Maria (Luminita Gheorghiu), a mulher sem teto, que havia sido agredida é identificada como imigrante ilegal. Sendo, posteriormente, deportada.

Nesse sentido, não é necessária nem meia hora de filme para que percebamos a habilidade de Haneke em sua análise ferina de como operam as estruturas da sociedade. Jean, o agente provocador, sai impune do ocorrido, enquanto um negro e uma imigrante precisam prestar contas à justiça e ao Estado, o que gera um grande clima de instabilidade nas famílias dos envolvidos. A mãe de Amadou (Hélone Diarra), por exemplo, expõe as angústias de ter a sua própria casa devassada pela polícia, após o acontecido. Um constrangimento que nos deixa com a pulga atrás da orelha: não fossem eles negros, a coisa ocorreria dessa maneira? Já Maria, de volta à Romênia, se reconecta com a sua família, que vive em completo estado de precariedade. De degradação. E mesmo ela expõe preconceitos, como no instante em que revela ter lavado as mãos após ter dado dinheiro a uma cigana - o que talvez a tivesse feito pegar alguma doença.

Em alguma medida, a obra também mostra a complexidade da experiência humana, seus acasos, possibilidades e paralelos. Como atriz, Anne encena um filme em que sofre uma violência brutal - ocasião em que é presa em um cômodo fechado, sendo deixada para morrer pelos vilões (que nunca mostram seu rosto). Esse tipo de fetiche pela violência - às vezes institucionalizada, selvagem, que vêm sabe-se lá de onde - e pelo medo como modus operandi do cotidiano se repetiria na filmografia de Haneke, seja em obras como Caché (2005) ou A Fita Branca (2009). Aliás, é justamente quando o espaço entre ficção e "realidade" é burlado, durante uma tensa sequência no metrô é que nos assombramos com as possibilidades da arte como veículo de discussões. Anne tem a impressão de ouvir barulhos quando está em casa, alguém que chora. A instabilidade parece sempre pronta para bater na porta - assim como é a guerra, a doença, o extremismo. É meio brutal e imprevisível. E por isso mesmo tão potente.


segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Novidades em Streaming - Oppenheimer

De: Christopher Nolan. Com Cillian Murphy, Emily Blunt, Robert Downey Jr., Matt Damon, Florence Pugh e Josh Hartnett. Drama, EUA / Reino Unido, 2023, 181 minutos.

Lembro que a primeira vez que ouvi falar de Oppenheimer foi em meio a uma partida do jogo de perguntas e respostas Master, da Grow. A pergunta era sobre o "pai da bomba atômica", aquelas típicas questões que caíam na categoria História. Mas muito mais sobre isso, confesso que não sabia. E como sou fascinado por esses filmes de época que revolvem eventos políticos, sociais, científicos e culturais de certos períodos, foi muito fácil me conectar com a narrativa que volta no tempo para detalhar como o Projeto Manhattan se tornaria um dos maiores empreendimentos da Segunda Guerra Mundial, a partir do desenvolvimento das primeiras armas nucleares de destruição em massa. Claro que no cerne da mais recente obra de Christopher Nolan, baseada na biografia American Prometheus, parece haver algumas outras preocupações que soam até mais prosaicas, se comparada com o dilema moral do protagonista. E que versam sobre o envolvimento ou não de Oppenheimer (Cillian Murphy) com os comunistas e, na esteira disso, com eventuais conspirações que comprometessem a segurança dos Estados Unidos.

E o caso é que Oppenheimer é um filme muito grande. Contado em três linhas narrativas distintas, exigirá do espectador, aqui e ali, um grau de atenção um pouco maior, para que nenhum detalhe escape. Sim, são três horas que talvez virem seis, pela necessidade de repetir a experiência para uma maior apreciação. A complexidade é um mérito? Não sei. Alguns críticos gastam tempo falando do quão problemático é o caráter excessivamente expositivo das obras de Nolan. Afinal, não basta apenas apresentar as imagens - sempre exageradas, hiperbólicas. É preciso martelar aquilo que se vê, com um texto. Uma explicação a mais. Um diálogo que reforça. Mas é um filme sobre mecânica quântica, ora bolas! Eu, ao menos, faço questão de todas as explicações, todos os detalhes. E talvez ainda assim alguma coisa escape - e tá tudo bem, porque importante é ter em mente que Oppenheimer era um físico teórico acima da média, controverso, e que seus escritos, bom, se converteriam anos depois em artefatos bélicos que devastariam Hiroshima e Nagasaki. Promovendo uma de suas maiores tragédias.

Ainda assim é meio curioso notar como o caráter questionável das atitudes de Oppenheimer, se torna diluído diante das maracutaias políticas, que envolvem especialmente a sua relação com o almirante Lewis Strauss (Rober Downey Jr.) que, após a Segunda Guerra e, com todos os eventos já ocorridos, sondará o físico para a direção de um Instituto sobre iniciativas ligadas à energia atômica (em um espaço em que a Guerra Fria começa a tomar corpo e o nazismo dá lugar à "ameaça vermelha" e à União Soviética como campo de disputas). Naquele ponto, Oppenheimer já tinha saído dos Estados Unidos para uma temporada de estudos na Europa, retornando para sua terra natal para integrar o grupo que desenvolveria o artefato. A ideia era se antecipar à Alemanha de Hitler - o que parecia ser a desculpa ideal para que não houvesse qualquer empecilho moral (para além do simples ego). A guerra poderia ser encerrada com uma bomba? Parece uma espécie de utopia. Que jamais sairia do campo de visão do protagonista - mesmo quando ele percebe, de forma embasbacada, os resultados de suas ambições na prática.

Orbitado por uma série de figuras - como o general Leslie Groves (Matt Damon), e cientistas como Ernest Lawrence (Josh Hartnett), além da esposa Kitty (Emily Blunt) e a amante Jean Tatlock (Florence Pugh), ambas ligadas ao Partido Comunista -, Oppenheimer converterá Los Álamos, no Novo México, em uma cidade a parte, em que focará nos seus estudos. Ressentido por um episódio de humilhação pública ocorrido anos antes, Strauss será o responsável, durante uma audiência privada com o Conselho Nacional de Segurança em desacreditar Oppenheimer - o que será visto em uma segunda linha narrativa. Já a terceira, que se distingue por sua exuberante fotografia em preto e branco, envolve o interrogatório dos senadores que poderia conduzir Strauss ao cargo de Secretário do Comércio em 1954 - ocasião em que traições e distorções vêm à tona. Pode parecer complexo mas é tudo elaborado de forma a fazer com que não nos percamos em meio à questões políticas, diplomáticas e científicas daqueles tempos. Tudo com fotografia, desenho de produção, edição, figurino e som, exuberantes - o que talvez dê a obra, agora disponível pra aluguel em diversas plataformas, um sem fim de indicações ao Oscar.

Nota: 8,5