quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Um Poeta (Un Poeta)

De: Simón Mesa Soto. Com Ubeimar Rios, Rebeca Andrade e Guillermo Cardona. Comédia / Drama, Colômbia / Suécia / Alemanha, 2025, 120 minutos

Devo confessar que poucas vezes nos últimos anos, vi um filme escalar de forma tão desvairadamente engraçada como neste Um Poeta (Un Poeta) - pequena joia do cinema colombiano (aliás, foi o enviado do País para o Oscar 2026). Ao cabo, esta parece ser uma obra que tem em seu cerne uma questão bastante simples: quem ainda lê (ou mesmo se preocupa) com poesia nos dias de hoje? Muitas vezes relegada a saraus acadêmicos performáticos e presunçosos, essa manifestação artística que legou ao mundo nomes como Carlos Drummond de Andrade, Gabriela Mistral e Pablo Neruda (só pra ficar nos sul-americanos) ainda mobiliza Oscar Restrepo (o ótimo Ubeimar Rios), com sua roupa troncha e óculos feios de homem de meia idade que, na juventude, quando lançou dois livros, sonhava com uma espécie de estrelato literário que, verdade seja dita, nunca foi alcançado.

Falido e ainda tendo de cuidar da mãe doente, Oscar zanza pela cidade como uma Baby Jane (1962) das letras - ressentido por não ter reconhecimento, sendo integrante de uma espécie de segunda divisão da poesia (ninguém sequer se lembra exatamente de quem é ele, o que é reforçado pelos livros carcomidos e desgastados que ele carrega à tiracolo e que são um detalhe do desenho de produção não menos do que genial). Assim como já dito, é seu figurino desastrado que reforça sua imagem como um sujeito quadrado, sem nenhum carisma, mas que talvez tenha algum talento médio para os versos ou as reflexões cotidianas - e nem temos como saber direito, fora os encontros verborrágicos com os doidinhos de bairro que trafegam pelas ruas, após as madrugadas frustradas de bebedeira em que o protagonista vai parar na sarjeta.

 


Depois de relutar em sair da pindaíba para ministrar aulas - sua família já não aguentava mais a sua arrogância pseudointelectual de um homem infantilizado, choroso e cheio de dívidas -, ele topa, a contragosto, ser professor de um grupo de alunos de uma escola de poesia local. Isso após ter se humilhado perante o escritor Efrain Mendoza (Guillermo Cardona), um dos diretores da Instituição, que chega ao ridículo de lhe enviar a um bizarro canal de TV local, como estratégia para atrair possíveis leitores para as suas mofadas obras (sequência que integra a primeira parte que, não por acaso, recebe o nome de O Fracasso). Como professor, ele se encanta pela jovem Yurlady (Rebeca Andrade), que parece ter um talento não apenas nato, mas, orgânico para a poesia, com sua fruição de frases, liberdade e sensibilidade saltando os olhos. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira via-sacra para ampliar a visibilidade da adolescente que, aos 15 anos, parece ter outros interesses, como unhas com esmaltação em gel e mesmo ficar com as amigas. Ou, vá lá, no mínimo, não frequentar encontros culturais de gosto duvidoso, que reúnem idosos decrépitos da área de humanas, capazes de tornar os cubículos da universidade em espaços em que reinam o egocentrismo. 

[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] E tudo se torna ainda mais complexo, no (des)encontro com a numerosa família de Yurlady, que conta com um tio trambiqueiro que acredita na possibilidade de sucesso da sobrinha por seu talento. Aliás, o próprio Oscar se ressente do distanciamento de sua filha, que parece ter vergonha dele (Você me odeia? Não, eu tenho é pena de você. Parece uma criança.) A despeito de todo esse conjunto, a pupila aceita participar da abertura de um sarau, que conta com a presença da embaixadora da Holanda, que destina recursos para o evento (a parte dois recebe o nome de Magnus Opus). E é próximo da terceira parte - A Arte Vai nos Salvar -, que a coisa escala. Yurlady passa mal após beber pela primeira vez, e Oscar é acusado de abuso de forma um tanto inusta, o que resultará em um sem fim de sequências inesperadamente engraçadas - como a da perseguição do irmão furioso da jovem. Com uma energia que lembra as obras da dupla de realizadores Gaston Duprat e Mariano Cohn - como O Homem ao Lado (2009) e Cidadão Ilustre (2017) - essa é uma experiência que diverte e emociona, com seu anti-heroi atípico, errático e completamente f*dido, mas que nos apaixona inesperadamente. Tá no Telecine Play e vale demais.

Nota: 9,0 

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Primavera (Primavera)

De: Damiano Michieletto. Com Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi e Stefano Accorsi. Drama, Itália / França, 2025, 111 minutos.

Vamos combinar que talvez eu não tenha sido o único a cair em um clickbait cinematográfico. Afinal, um filme chamado Primavera (Primavera), que tem como um de seus personagens centrais justamente o compositor Antonio Vivaldi (Michele Riondino), por óbvio, deveria ter alguma menção que fosse a respeito do clássico concerto para violino ou mesmo sobre os bastidores de sua criação? Bom, não no filme do diretor Damiano Michieletto - e, verdade seja dita, para além da obra que eu esperava encontrar há aquela que existe e, aqui, talvez a primavera tenha mais a ver com alguma metáfora para o florescer, ou algum tipo de simbolismo relacionado à libertação das amarras patriarcais. Ainda mais em um ambiente tão fechado e conservador como o de um orfanato exclusivamente voltado a meninas, o Ospedalle Della Pietá, situado na Europa do começo do século 18.

É nesse ambiente invariavelmente hostil para as mulheres - e que é conduzido com rigidez por uma madre superiora não muito amistosa (papel de Fabrizia Sacchi) -, que um grupo de adolescentes, estando entre elas a jovem talentosa Cecília (Tecla Insolia), ocupa seus dias em aulas de música. Com a instituição perdendo patrocinadores - normalmente representantes da elite econômica que possuem outros interesses nesses locais (como casamentos arranjados com as garotas) - para outros educandários, a diretoria dá um ousado passo: recontratar justamente Vivaldi, que já havia trabalhado na Pietá. E que, na realidade, atuaria por décadas no convento. Em uma das primeiras audições, o compositor se impressiona com a habilidade e virtuosismo de Cecília, selecionando-a como spalla (a primeira violinista, um papel nobilíssimo em uma orquestra).

 


Mas esse é um filme em que as oportunidades financeiras ou artísticas para as mulheres entram em choque com a possibilidade de bons matrimônios - e Cecília está prometida para um certo Sanfermo (Stefano Accorsi), um oficial do exército que está para retornar da Guerra Otomano-Veneziana (1499-1503), tanto que sequer faz objeção quanto a isso. Aliás, como órfã que não está autorizada a exibir o rosto para homens desconhecidos (tanto que as apresentações dominicais são feitas em mezaninos da igreja, com as jovens distantes da balaustrada), ela acredita que a união com um homem mais velho possa lhe garantir não apenas o seu futuro. Mas também o da Pietá, que receberia um valor em dinheiro em troca. Todas essas elucubrações, essas divagações, Cecília faz em cartas que direciona a uma mãe que ela sequer sabe se está viva - e que lhe abandona no educandário na juventude. Talvez ela seria uma prostituta. O que, na época, seria um crime. Aliás, hoje em dia, pra extrema direita raivosa, talvez seja crime também.

Ainda assim, Cecília segue estudando com Vivaldi e auxiliando-o na preparação de um concerto para o Rei da Dinamarca - e não é preciso ser um cinéfilo veterano para saber que a coisa vai escalar, ainda mais quando certos segredos íntimos envolvendo a protagonista virem à tona. Com excelente desenho de produção que faz com que nos sintamos, de fato, em um ambiente suntuoso e áspero como o dos corredores da Pietá; trilha sonora de notas de violino meio onipresentes e fotografia acinzentada, puxando pra um azul escuro que acentua a melancolia geral já que o sol quase nunca aparece, essa é uma produção bem ao estilo das de época, com seus figurinos e maquiagens empoladas e uma discussão embrionária sobre independência feminina, sororidade e busca por emancipação - emocional, financeira, social. Sobre a concepção da Primavera que se daria na própria Pietá? Fica para um outro filme. A despeito do título, que nos enganou.

Nota: 7,0