De: Cyril Aris. Com Mounia Akl, Hasan Akil e Tino Karam. Drama, Líbano / EUA / Qatar / Alemanha / Arábia Saudita, 2025, 110 minutos.
Vamos combinar que, no estado atual das coisas, é meio que impossível não ser eventualmente invadido pelo pessimismo ou pela desesperança em relação ao futuro. Guerras, pandemias, crises imigratórias, avanço da extrema direita, meio ambiente em colapso, tecnologia utilizada com objetivos escusos por poderosos, enfim, é tanta coisa que a vontade que dá é de se refugiar em uma ilha isolada - um espaço idílico qualquer - e nunca mais voltar. Em Um Triste em Belo Mundo (Nujum Al'amal w Al'alam), o representante do Líbano para a última edição do Oscar (não se classificou para a final), essa ilha é um tipo de metáfora para um ambiente utópico e, de preferência, distante da turbulência de um País marcado por uma sucessão de crises políticas, sociais e religiosas recentes, que decorrem de uma guerra civil que deixou uma série de feridas para a população.
Em geral esse é um contexto que, para o espectador mais desavisado (que era o meu caso), talvez exija um pouco de pesquisa para compreender as motivações das personagens centrais - sendo elas o casal Yasmina (Mounia Akl) e Nino (Hasan Akil) -, que tentam o tempo todo recolher os cacos do caos que os rodeia, em uma nação que parece em permanente busca por reconstrução. E, em alguma medida, não é difícil se identificar com Yasmina, uma consultora do governo que não esconde, nas entrelinhas (reforçadas pelas oníricas narrações em off), certo pendor à misantropia, o que explica seu comportamento taciturno, desconfiado e até solitário. Em contrapartida, Nino é o sócio de um restaurante de família tradicional, que busca superar o trauma da morte trágica dos pais em um atentado, vendo sempre o copo cheio. Esperançoso, acredita na construção de um mundo melhor, na permanência no País, na formação de uma família.
Quando crianças, ambos eram colegas de aula e, em meio a um ensaio de primeiro amor típico das séries iniciais, eles acabam separados (quase) para sempre nesse contexto de instabilidade do Líbano - e que também perpassava o foro íntimo de Yasmina, com a separação dos pais (e esse microcosmo do conflito interno, em muitos casos, funciona também como uma alegoria para o todo). Aguardando por muito tempo a sua companheira de escola para migrarem para a tão sonhada "ilha" (e toda a vez que a obra do diretor Cyril Aris viaja para esse espaço sonhador e abstrato ela se fortalece), Nino se frustra pelo reencontro nunca acontecido e sempre idealizado. Até um salto de quase trinta anos no tempo quando, após um excêntrico acidente de carro - Nino invade o escritório da mãe de Yasmina, após um instante de desatenção -, eles se reencontrarão. No restaurante do protagonista. Como forma de compensar parte dos danos.
Em suma, o comportamento de Nino pode ser estranhamente irritante - sempre com alguma chantagem psicológica ou com demonstrações de amor meio assustadoras, que fazem pensar nele como um stalker desesperado (como no momento em que ele simplesmente persegue Yasmina de carro, quando ela já está de malas prontas para migrar para a Alemanha a trabalho). Permanecendo no local, a dupla acaba cumprindo todos os rituais familiares típicos do conservadorismo: casam, tem uma filha, tentam recolher os cacos. "Você sabe que o País está desmoronando, né?", divaga Yasmina, que parece contrariada de uma forma meio permanente. No centro de tudo está uma obra que questiona o tempo todo, com sensibilidade e rudeza, se é possível ter qualquer tipo de ânimo. Com fotografia melancólica e acinzentada e trilha sonora existencialista, essa é uma experiência que não resolve para muito além do "é preciso sair daqui imediatamente para onde quer que seja". A gente pode até estranhar o que é a ilha no final. Mas ela é só um símbolo. Ainda mais em uma sociedade marcada pela diáspora.
Nota: 8,0

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