De: Rafaela Camelo. Com Laura Brandão, Serena, Larissa Mauro, Camila Márdila e Aline Marta Maia. Drama, Brasil, 2025, 90 minutos.
É uma sequência quase despretensiosa do ótimo A Natureza das Pequenas Coisas aquela em que a pequena Sofia (Serena) revela à sua nova melhor amiga Glória (Laura Brandão) que ela é uma menina trans. Um instante de grande naturalidade e extremamente afetuoso - talvez como devesse ser na vida real. Aliás, verdade seja dita, talvez um dos grandes méritos dessa pequena joia do nosso cinema - e que é uma das pré-indicadas ao Oscar 2027 -, seja a capacidade de tratar dos grandes assuntos (luto, formação da identidade, rede de apoio feminina, crenças populares, medos infantis) de uma forma bastante sutil e, ainda assim, muito impactante. Até aquela altura, havia uma desconfiança de que Sofia pudesse ser trans - especialmente pela forma com que ela trata o falecido irmão Bento, sempre envolto em mistérios, como numa névoa que evaporou, para reaparecer reconfigurado. Ou reconfigurada.
Sim, a pequena ousadia da diretora Rafaela Camelo - de tratar de temas que ainda são considerados tabus em uma sociedade essencialmente conservadora como a nossa (ainda preocupada, em pleno 2026, com o pânico moral generalizado de um kit gay) -, já foi vista em outras produções, como no casso da tocante Close (2022). Todo o mundo deveria saber saber que esconder crianças (e adolescentes) LGBTQIA+ no armário, não vai fazer com que elas simplesmente desapareçam. Pior, vai fazer com que elas encarem a própria sexualidade com vergonha, reforçada por um ambiente de opressão e de preconceitos. Mas, ao cabo, esse não é um filme sobre uma grande revelação de uma criança trans. Como comentei, esse é um dos assuntos. Mais um. Em uma experiência magnética e de grande sensibilidade. Com uma mensagem maravilhosa sobre autoaceitação. E a respeito da importância de nos mantermos civilizados acima de tudo.
Na trama, Glória é a menininha que passa os dias zanzando no hospital, ao lado da enfermeira Antônia (Larissa Mauro), sua mãe solo que se exaure de tanto trabalhar, o que impede a pequena de poder viver suas férias como uma criança - tanto que ela vai parar com Antônia no hospital, onde interage de forma amistosa com os idosos atendidos (o que faz com que percebamos que sua presença ali pareça ser constante). Nesse contexto, Sofia chega ao local após um pedido de socorro: sua bisavó sofreu uma queda em casa e teve de ser levada às pressas ao pronto atendimento. Sem ter muita solução, Antônia sugere à Sofia uma aproximação de Glória, enquanto a dupla simplesmente espera. O que resultará em uma amizade comovente entre duas meninas perdidas em um ambiente essencialmente de adultos (e muitas vezes de velhos), tendo de lidar com perdas inesperadas, temores aleatórios e alterações de rota não calculadas.
Cheia de simbolismos, a obra aposta em pequenas alegorias que fortalecem a ideia de uma narrativa em que às personagens estão em permanente movimento e que as leva a novas configurações. Lá pelas tantas, sabemos que Glória passou por uma grave cirurgia no coração quando tinha apenas dois anos - e que quase a levou à morte. Ou descobrimos que Antonia, que é convidada pela mãe de Sofia, Simone (Camila Márdila, de Que Horas Ela Volta?, 2015), para um forró, não sai para dançar há anos - o que evidencia a sobrecarga das mulheres no que diz respeito à maternidade. Sobre a bisavó (a sempre ótima Aline Marta Maia, de Pedágio, 2023), que surge como um espectro que conecta passado e futuro - com uma presença fantasmagórica e carismática - sabemos que ela sofre de demência. E que pode estar sempre entre a vida e a morte, entre o real e o abstrato, entre a luz e o crepúsculo. Resumir um filme como esse, tão repleto de possibilidades em suas minúcias, não é tarefa fácil. A boa notícia é que ele está disponível na Netflix. É só dar o play.
Nota: 8,5

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