segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Novidades em Streaming - Uma Infância Alemã (Amrum)

De: Fatih Akin. Com Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister e Diane Kruger. Drama, Alemanha, 2025, 93 minutos.

Existe um filme da diretora australiana Cate Shrotland chamado Lore (2012), que conta a história de uma adolescente criada nas entranhas da ideologia nazista e que precisa atravessar uma Alemanha devastada após a guerra, com seus irmãos mais novos à tiracolo. Naquela obra, a protagonista se vê obrigada a encarar o abismo entre o mundo em que ela foi obrigada a acreditar - seu pai, um oficial nazista, e sua mãe, fogem após a queda de Adolf Hitler - e a realidade que ela encontra pelo caminho. Especialmente após o surgimento de um misterioso judeu em fuga, pelo caminho. Em alguma medida, esse nazismo lateralizado, que surge menos como o espetáculo histórico visto em tantos clássicos do cinema, mas mais como uma presença que mina as relações familiares, o cotidiano, e mesmo a formação moral e ética das pessoas, reaparece no excelente e recém lançado para aluguel nas plataformas de streaming Uma Infância Alemã (Amrum).

Com um fiapo de história que quase alude ao cinema iraniano - o que distancia, aliás, o sempre versátil diretor Fatih Akin dos dramas intensos sobre identidade e pertencimento, como Contra a Parede (2004) ou Em Pedaços (2017); da comédia calorosa de Soul Kitchen (2009) e da brutalidade suja e quase insuportável de O Bar Luva Dourada (2019) -, aqui, acompanhamos o adolescente integrante da juventude hitlerista Nanning (o ótimo Jasper Billerbeck) em uma peregrinação particular, em busca de pão branco, manteiga e mel. Um conjunto alimentar difícil de ser encontrado - ainda mais na isolada aldeia de Amrum, na costa norte de Alemanha, em um contexto de escassez gerada pelo conflito -, mas que permitirá alimentar a sua severa e ideologicamente fanática mãe Hille (Laura Tonke), que acaba de dar à luz, mas que está em uma espécie de greve de fome pessoal desde que a morte do führer foi anunciada no rádio. Um luto que ela ela tem dificuldade em aceitar.

 


Em suas andanças, Nanning vaga pela ilha, atolando os pés em bancos de lama, costeando o litoral e percorrendo estradas de terra em encontros espaçados com vizinhos, tios e outras figuras adultas que lhe permitam acessar os ingredientes que atendam os anseios gastronômicos da mãe. Como o menino que realiza uma jornada solitária pelo Irã rural de Onde Fica a Casa de Meu Amigo (1987) de Abbas Kiarostami, aqui temos um jovem em conflito entre as crenças familiares que formarão sua identidade e o entorno tensionado por outros pontos de vista políticos, sociais e culturais. Sendo a vizinha Tessa (Diane Kruger), uma produtora de batatas para quem Nanning trabalha, a representante máxima desse ponto de vista divergente. "A maldita guerra de Hitler está finalmente acabando" brada ela ao se deparar com a passagem de um grupo de refugiados poloneses que margeia a sua horta. Para desespero de Hille, que denuncia a mulher para os militares.

Apostando na sutileza, Akin constroi uma obra de fluidez narrativa lenta, em que a temática é tratada com grande sensibilidade e sem excesso de maniqueísmo - a ponto de nos comovermos e até torcermos, em alguma medida, não pelo pequeno nazista em si, mas para que o mundo seja capaz de moldá-lo para que ele tenha uma atitude positiva em relação a ele (como, inclusive, parece desejar seu pai, em uma carta direcionada ao jovem, após a tomada de Berlim). Em contrapartida, Hille é a figura histriônica que verbaliza um patriotismo de araque e um orgulho da "linhagem" da família, que não faria feio nas fileiras dos bebedores de Ypê (aliás, quando o assunto é o extremismo de direta e o comportamento das famílias de bem só muda o País - ou o século). O auge do auge é a mulher reprimindo o menino choroso, com um "seja homem", seguido de um "perdemos a guerra por causa de fracos como você". Quando a gente vive em uma bolha - seja uma ilha no norte da Alemanha ou uma comunidade rural do interior do RS - talvez seja difícil olhar para além do que ocorre a um palmo do nariz. Ainda mais quando o processo educacional familiar se retroalimenta em humilhação, violência, autoritarismo patriarcal e repressão emocional. Isso sim capaz de produzir sujeitos particularmente vulneráveis (pra não dizer fracos) à lógica fascista. 

Nota: 8,5