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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Disco da Semana - Emicida (AmarElo)

Uma pesquisa rápida sobre a cor amarela no Google nos oferece vários significados: luz, calor, descontração, otimismo alegria, podendo simbolizar ainda o sol, o verão, a prosperidade e a felicidade. Analisando estes sentidos e tomando por base o "conceito" do mais recente trabalho do rapper Emicida, talvez não tenha sido por acaso que ele tenha sugerido, em sua conta no Twitter, que as pessoas ouvissem AmarElo, o seu mais recente registro, na parte da manhã. "É como um filme sonoro, é outra brisa louca", sentenciou. Trata-se de um disco cheio de vida, cheio de cor, que tem um otimismo comovente, mas sem ignorar os tempos sombrios que vivemos. É um álbum que vai do conforto matinal à frieza escura da noite, nos pegando pelo braço e nos afagando. É um disco que tem uma "positividade inconformada, uma rebeldia otimista", como resumiu brilhantemente outro rapper, o Rashid.

Acho que faz muito sentido que Emicida aposte numa abordagem diversificada, que mescla o colorido sinuoso das conquistas e da vida simples em comunidade - seus amores, gostos, histórias -, com um contraponto que persista em lembrar que estamos num País violento, que mata pessoas por ódio, por preconceito, por intolerância. Por cor de pele. E talvez não seja por acaso que o artista abra o seu trabalho com uma "música" que se chama Silêncio: um minuto para a pausa, para a reflexão, para a preparação. Um minuto de respeito, assim como ocorre nos jogos de futebol quando morre alguém importante, antes do espetáculo de fato começar. E quando o espetáculo começa, ele surge acenando para as mais variadas bandeiras, para os mais variados sons - da MPB, passando pelo samba até chegar ao hip hop. Com letras que podem versar sobre amizade (Quem Tem Um Amigo), o "desafio" de ser pai (Pequenas Alegrias da Vida Adulta), rotina dura do trabalhador (Ordem Natural das Coisas) ou o absurdo do racismo estrutural na sociedade (Ismália).



Em entrevista para o site Uol, o artista explicou que desejava fazer um disco que transcendesse a "política panfletária". e que pudesse ser direcionado para aquela pessoa para quem a perda do bilhete único é mais desesperadora do que uma canetada do presidente. "Eu queria fazer um disco para essa pessoa. Para ela abraçar aquelas palavras e se sentir abraçada por elas. Usar calma como uma estratégia para as pessoas fazerem essa reflexão, para a partir disso se levantar unido", resumiu, reforçando que é um álbum para devolver a calma para as pessoas. "Mas não a calma de uma forma apática e sim o extremo oposto", afirmou. E esse sentimento geral talvez possa ser melhor explicado pela lúdica introdução de Cananéia, Iguape e Ilha Comprida, quando Emicida brinca com a sua filha sobre como a sociedade espera que seja o comportamento de um rapper: sem risadinha porque aqui é o rap, onde o povo é mau. MAU!, sentencia em meio a graciosas risadas de bebê.

Com participações especiais de artistas variados como Nave, Fabiana Cozz, Mc Tha, Zeca Pagodinho, Drik Barbosa, Larissa Luz, Fernando Montenegro, Ibeti e Pablo Vittar, entre outros, o registro é pura luminosidade, consciência e maturidade, tendo como um de seus pontos fortes as letras, as rimas, o flow - aliás, uma tradição na discografia do paulistano, desde as mixtapes de origem, como, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe... (2009). "Tenho sangrado demais / Tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri / Mas esse ano eu não morro", abre a faixa-título, que se apropria da canção do Belchior que, sempre atual, resume o espírito do álbum (e do nosso tempo), para lembrar mais adiante, na mesma música que "Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes / Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes / É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir". Acho que, no fim, era sobre isso que Emicida pretendia nos fazer pensar. Bravo!

Nota: 9,5





terça-feira, 15 de outubro de 2019

Disco da Semana - Big Thief (Two Hands)

Existem coisas que raras vezes acontecem no mundo da música e das artes em geral. Um artista no topo de sua habilidade criativa de alguma forma amplia sua capacidade de produzir, potencializando características esboçadas em seus trabalhos anteriores e desenvolvendo uma identidade incrivelmente própria. E mais: em um período menor que seis meses consegue trazer ao mundo duas obras que estão entre os mais impactantes lançamentos do ano! Esse é o caso da banda americana Big Thief que, após o incensado e elogiadíssimo U.F.O.F. nos brinda agora com este maravilhoso Two Hands. Se no primeiro havia um clima mais "espacial" no indie/folk/rock praticado pelo grupo, no segundo a banda capitaneada por Adrianne Lenker recorre à simplicidade como grande trunfo de suas poderosas canções.

Como nos grandes discos que conseguem captar a atmosfera do local onde a banda se encontra, em Two Hands vemos uma banda em plena capacidade de execução e expressão dos sentimentos decorrentes das composições. Ao optar por um som cru sem muitas aparas e imperceptíveis overdubs, a sensação é a de estarmos assistindo ao ensaio de dentro do estúdio. E é aí que a mágica acontece de verdade. Bateria, baixo, violão, guitarra, o vocal peculiar de Lenker, são fatores a princípio pequenos mas que em conjunto resultam em algo difícil de explicar em palavras. E sabemos que quando nos maravilhamos com algo palavras geralmente nos faltam. Se no anterior sons nos remetiam a uma certa estranheza, como se estivéssemos em um lugar desconhecido, é no clima de familiaridade que somos acolhidos neste mais recente lançamento. E sabemos que a simplicidade requer muito trabalho para ser atingida.


Na introdução com Rock and Sing já podemos sentir a tristeza característica da voz de Lenker, bem como sua letra melancólica que nos convida a fazer exatamente o que o título diz. Funciona como uma leve (e breve) introdução preparando o terreno para a fabulosa Forgotten Eyes, cujas guitarras lembram um pouco Neil Young and Crazy Horse, onde Lenker brilha com sua voz ao mesmo tempo poderosa e vulnerável que contrasta com doçura no refrão. Uma das grandes canções do ano. The Toy é triste e climática enquanto Two Hands é formidável em sua execução - a maneira como a percussão, os instrumentos dedilhados e o vocal se encaixam é algo que beira o sublime em seu desabafo agridoce sobre um relacionamento difícil. Those Girls segue com delicadeza instrumental e vocal frágil enquanto Shoulders e a seguinte, Not, trazem as guitarras novamente à tona dando um clima mais roqueiro e intenso ao disco num de seus melhores momentos, peso esse que é complementado pelas letras viscerais de Lenker. Wolf ainda traz guitarras dedilhadas e a dupla final, Replaced e Cut My Hair, encerram o álbum em uma nota mais calma e melancólica.

O finado (e saudoso) Jeff Buckley certa vez declarou: "Ser sensível não é o mesmo que ser fraco. Significa estar tão dolorosamente atento que mesmo uma pulga pousando sobre um cão soaria como uma explosão". Ao nos depararmos com obra de tamanha sensibilidade é importante algo que chamo de contexto musical: sabe quando você ouve o disco certo no momento certo? Quando parece que alguma força além da compreensão te faz entrar em contato com aqueles sons, melodias, e parece que você está na companhia de amigos que te afagam mas ao mesmo tempo te jogam verdades doloridas (e purificadoras) na cara? Que você sente que amadureceu um pouco mais ao final da jornada? Pois é exatamente isso que aconteceu comigo durante a audição deste soberbo Two Hands. Uma obra difícil de se livrar e quando você se dá conta já colocou no repeat, ouviu dezenas de vezes, e aquilo foi se entranhando no inconsciente num crescendo cada vez maior. É algo raríssimo de acontecer - e muito especial. O disco do ano até agora.

Nota: 10


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Disco da Semana - Elza Soares (Planeta Fome)

Quando da ocorrência de governos opressores acaba havendo um movimento quase natural que coloca em lados opostos o Estado e os artistas. Podem observar. Foi assim na Ditadura Militar, com compositores e músicos como Geraldo Vandré e Chico Buarque de Holanda ecoando a voz dos oprimidos, que ansiavam pelo "carnaval" que parecia nunca chegar. É assim na atualidade, com um grande número de escritores, cantores, artistas plásticos utilizando a sua arte para se defender, para soltar o grito daquilo que não pode, que não é de Deus, que desrespeita a moral e os bons costumes e a "família tradicional", conservadora e hipócrita, claro. Bom, não é novidade que a Elza Soares sempre foi a representação de tudo aquilo que o homem branco, hétero e antiquado, abomina. De família simples, preta, mulher, sempre usou sua aveludada voz e seu talento musical para fazer um contraponto da lógica estabelecida pelo mercado certinho, quadrado.

E o que mais impressiona é o fato de os anos passarem, com Elza permanecendo ativa, prolífica. Com uma média de quase um disco por ano - ao menos nos últimos anos -, tem sido a voz que representa as minorias, os vulneráveis, aqueles que precisam falar, gritar, mas não sabem como. Bolsonaro, todos sabemos, é o inimigo público número um das artes. Aliás, não só das artes, do POVO. Elegeu a Lei Rouanet como uma espécie de "bode expiatório" do mau uso do dinheiro público na cultura, que seria povoada por pessoas peladas, depravadas, ofensivas. Ignorou assim a importância do papel da arte, da transformação que ela é capaz de promover, se bem conduzida, inclusive como política pública. E talvez seja por tudo isso que Elza sinta tanta necessidade de se expressar. E por nós que ela se expresse, já que cada disco é melhor que o outro. Cada petardo é certeiro, dito de forma sinuosa, lânguida, de uma forma que jamais conseguiríamos, na lata, sem medo.



"O Brasil está doente mas estou avançando", disse a artista em uma entrevista à Folha de São Paulo. Ela está lançando o seu 34º disco da carreira, que leva o título de Planeta Fome - que alude a resposta que ela deu a Ari Barroso quando tinha apenas treze anos e se atreveu a cantar em um programa de calouros da extinta Rádio Tupi. Esse atrevimento glorioso permanece embotado em Elza, no novo material em que ela nos entrega. A palavra zeitgeist é utilizada hoje em dia sem nenhuma parcimônia para resumir o "espírito de nosso tempo". Mas é que Planeta Fome traduz justamente esse sentimento. "Nos anos 60 eu via muita gente na rua. Chico, Caetano, aquelas composições fortes. Sofreram, claro, por toda a rebeldia. Mas hoje, está todo mundo com medo de falar. É por isso que uso a minha voz, para falar o que se cala", afirma a artista na mesma entrevista, garantindo, metaforicamente, que está com FOME. "De saúde, de respeito, de amor, de um País melhor".

No repertório do álbum, produzido por Rafael Ramos, do Selo Deck, há regravações como o clássico Comportamento Geral de Gonzaguinha, que nunca soou tão atual (Você deve rezar pelo bem do patrão / E esquecer que tá desempregado) e Pequena Memória de Um Tempo Sem Memória de Seu Jorge. Em Não Tá Mais de Graça, um dos hinos de Elza, A Carne, é recuperado com uma pequena mudança que celebra as conquistas da comunidade negra (A carne mais barata do mercado / Não está mais de graça). Nas inéditas, uma mistura de ritmos regionalistas (Libertação), MPB (Menino), rock (Bla Bla Bla) e música brega (Tradição). Em todas elas uma visceralidade, uma crueza que exala por cada "poro", exaltando um povo que não baixará a cabeça sem lutar, como comprova País do Sonho, uma das tantas candidatas a música do ano (Eu preciso encontrar um país / Onde a corrupção não seja um hobby / Que não tenha injustiça, porém a justiça / Não ouse condenar só negros e pobres). A Rainha do Samba definitivamente não existe mais. Virou a Rainha de Tudo. E de todos.

Nota: 9,0

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Disco da Semana - Rosa Neon (Rosa Neon)

Se há algo que a música brasileira é hoje em dia é democrática - e nesse sentido parece não haver limites para a produção artística nacional, especialmente para aquela que está a margem, buscando espaço. Nesse sentido, coletivos como o mineiro Rosa Neon, que chega ao debut com seu disco homônimo, parecem possuir uma capacidade única de brincar com estilos, indo do reggae (Estrela do Mar), passando pelo brega (Vai Devagar), até chegar a, acredite, o freak folk da faixa-título (que não faria feio em algum disco do Dirty Projectors. Com brasilidade, frescor e energia, cada curva desse registro inaugural é um convite para um fim de tarde ensolarado, colorido em que a capacidade de rir de si mesmo e de seguir em frente é o que se sobressai - como comprova a ótima Cê Não Tem Dó de Mim. "É uma vitamina, uma mistura danada de coisas", brincou a vocalista Mariana Cavanellas, em entrevista pra Revista Noize.

Naturais de Diamantina, Marina Sena, Marcelo Tofani e Luiz Gabriel Lopes, além da própria Mariana se aproximaram por afinidade: cada um possuía algum tipo de projeto musical anterior e a vontade de "fazer a história acontecer" - como revelaram na mesma entrevista à Noize -, foi o combustível para que o coletivo ganhasse corpo. "Foi um processo orgânico, a gente já se conhecia, admirava o trabalho um do outro", explicou Mariana. "O Rosa tem a ver com essa configuração da soma de forças, de poderes, de caminhadas e bagagens diferentes. Quando nos encontramos, sabíamos que tínhamos ali uma coisa interessante, uma sintonia", completou Luiz. E talvez a naturalidade desses encontros e o processo colaborativo como um todo - há ainda o produtor Rafael Baka -, transforme o registro em algo que nos soe familiar, meio nostálgico e fortemente orgânico. É atual mas a gente já ouviu.



E talvez isso se chame, afinal de contas, personalidade. Sim, dentro do caldeirão de referências absorvido, misturado e "reprocessado" pelo coletivo há alguma reverberação do novo que se junta ao desgastado, que soa moderno e nostálgico ao mesmo tempo e que nos faz sorrir. É mais ou menos quando a gente compra um abajur vermelho para decorar a nossa sala feita com móveis novos e sob medida. É aquela detalhe kitsch brega - e o brega tá na moda em nosso cancioneiro, nunca é demais lembrar -, que se soma ao formato primaveril das melodias contemporâneas, dos efeitos inovadores, remoçados. E talvez não seja pior acaso que músicas irresistíveis como Ombrim se pareçam ao mesmo tempo com algo que a Tetê Espíndola pudesse ter feito nos anos 70 ou com alguma sobra de estúdio do mais recente registro da Bárbara Eugênia (e está aí outra artista que trabalha muito bem esta dicotomia).

Sacanas, divertidas e nada previsíveis, as letras nos oferecem um verdadeiro panorama dos relacionamentos, suas idas e vindas entregues em pequenas confissões cheias de presença de espírito, que se evidenciam como pequenos "cutucões" no limite entre o debochado e o sério. Por exemplo, na autocomiserativa Cê Não Tem Dó De Mim, um eu lírico que admite algum tipo de desafinação, ao mesmo tempo que tenta chamar a atenção (Quando eu cantava pra você / Você nem me olhava). O expediente se repete em outras, como, Picolé (Desde janeiro não vejo você / Meu coração é um picolé e pode derreter) ou Pirraça (A gente teve boa intenção / Não adianta mais fazer pirraça / Tipo programa de televisão / Você assiste mas não acha graça). Acessível e passando de "raspão" por temas como identidade de gênero, feminismo ou poliamor, o coletivo ainda utiliza os seus diversos videoclipes - coloridos, sensuais, leves - como uma excelente porta de entrada. Difícil resistir.

Nota: 9,0

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Disco da Semana - Karina Buhr (Desmanche)

Não sei como acontece para vocês, mas para este jornalista que vos tecla muitas das manifestações artísticas e culturais da atualidade funcionam como uma espécie de refúgio onde podemos encontrar disposição para a luta e para resistir a tudo que está aí. São muitos os absurdos e a vontade de gritar por vezes parece abafada, como se fôssemos invadidos por uma espécie de letargia propagada pelo entorno, pela falta de força, pela descrença generalizada nas instituições ou naqueles que nos governam. Bom, e aí restam a música, os livros, os filmes, as séries. Aquilo que, por vezes, parece colocar um pouco a nossa cabeça no lugar para que percebamos que não estamos sozinhos nesse mundo de trevas. E que pode haver algum fiapo de esperança em meio ao niilismo, a angústia e a desolação. Bom, o trabalho da artista Karina Buhr, desde sempre nos auxilia nesse processo - e com o recém-lançado Desmanche, não é diferente.

Essa percepção da artista como uma voz que ecoa o grito dos oprimidos em um contexto de ódio e intolerância não é algo observado apenas nas letras, mas também nas melodias eventualmente selvagens, caóticas, cruas. Como se na balbúrdia sonora pudesse estar representada a angústia de quem não se cala. Como se em cada guitarra mais nervosa, ou numa percussão mais animalesca, tribal, Karina surgisse como uma espécie de porta-voz que te resgata, que te reergue. Sim, a gente sabe que ouve música para se divertir, para descontrair. Mas a cantora parece saber que em tempos como os que vivemos - que legitimam, inacreditavelmente, o machismo e a homofobia pelo voto -, não dá pra ficar só no "tchurururu, como é lindo o seu amor". Ainda em 2017, quando do lançamento do furioso Selvática, seu trabalho anterior, Karina disse a revista Noize que "tudo o que faz na vida é no sentido de viver em paz e isso inclui o feminismo".


Daquela vez a artista apareceu sem camisa na capa do álbum e, bom, vocês podem imaginar a comoção que foi - com direito ao Facebook censurando a imagem que ilustrava o trabalho. "É ridículo ninguém poder ver peito de mulher sem ser num contexto de objetificação machista", comentou ela na mesma entrevista para a Noize. E se de lá para cá, com a eleição de Bolsonaro e com a desculpa da "polarização política" a opressão às mulheres só aumentou, nada mais natural do que a artista voltar com um disco que atualiza os temas que lhe são caros. E, assim, Desmanche, surge como um álbum de versos políticos, urgentes e de rápida compreensão. Basta ouvirmos a artista repetir como num mantra que o "Exército tá matador" na inaugural Sangue Frio, que já compreenderemos o seu propósito.

Alternando momentos mais "poéticos", caso de Amora, com outros de maior intensidade, como Temperos Destruidores, a compositora constrói um painel que resume a atualidade - com o sujeito trafegando no limite, amando, lutando, persistindo, trabalhando. Na grudenta Lama, uma batida regionalista, que lembra o manguebeat de Chico Science, o eu lírico suplica: De ação em ação vive a besta em cada um / Sem raiva padece nenhum. O expediente se repete em Filme de Terror que, em meio a citações a Alfred Hitchcock e a melancolia generalizada lembra: "Ânimo, valentia, coragem". Eventualmente herméticas, as letras se apresentam como pequenos fragmentos recheados por figuras de linguagem, metáforas, paródias. O óbvio não sendo o óbvio em meio ao caos estabelecido. Mas em meio à tanta secura, ainda há espaço para a esperança, como comprova a adocicada Peixes Tranquilos, quase ao final do registro. Uma obra forte, empoderada. E necessária.

Nota: 8,5

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Disco da Semana - Marcelo Jeneci (Guaia)

Ser artista também é ter responsabilidade. É ter consciência daquilo que se representa para os fãs ou para aqueles que acompanham o seu trabalho. E não estamos apenas falando de expectativas musicais, de sonoridade, de melodia, mas também de comportamento, de "voz", de ser alguém que esteja alinhado aquilo que ocorre em seu tempo. E esse contexto talvez explique a pequena mudança de rumo adotada por Marcelo Jeneci com o lançamento de Guaia, seu terceiro disco de estúdio e que interrompe um hiato de seis anos desde o espetacular De Graça (2013). Jeneci amadureceu - são mais de dez anos de carreira -, ainda canta sobre a beleza da vida, sobre a graciosidade das coisas simples, sobre busca pela felicidade em relacionamentos aconchegantes. Mas também parece mais consciente de seu papel como artista, em um contexto político/social de censura às artes, de caçada ás manifestações culturais e, consequentemente, de alienação.

Nesse sentido, talvez não seja por acaso que este trabalho soe um pouco menos acessível que os anteriores - como se nas entrelinhas de canções um pouco mais herméticas e eventualmente mais densas, também houvesse "embutido" um convite à reflexão um pouco mais aprofundada sobre o mundo, sobre dores e também sobre desilusões, quaisquer que sejam. Sim, ainda dá pra apreciar o dia ensolarado, o clima primaveril e cantar junto - como já fizemos em Felicidade, Pra Sonhar e De Graça. Mas o Brasil está ficando mais sério, mais "pesado", sendo inevitável que não fechemos os olhos para aquilo que nos define, para as nossas origens ou para aquilo que nos preservará em todos os sentidos. Talvez seja por isso que a ambígua Emergencial - que abre o disco coladinha com o canto inicial Ikashawhu da tribo indígena Yawanama -, conclame: É emergencial a gente se conectar com a terra. Emergencial. De forma repetida. Quase como se fosse um mantra.



Corroborando com essa tese, no pequeno material de divulgação que acompanhou o lançamento do registro, o artista explicou que Guaia tem a ver com o fato dele ter nascido no bairro de Guaianazes, na periferia de São Paulo, local que é "construído por trabalhadores do Brasil profundo que espalham afeto, resistência, dança, cores e cultura". É lá que Jeneci alega ter recebido a chama e o chamado para romper com música o escuro do futuro. "Trago na alquimia desse álbum a rua onde cresci, o agreste do Pernambuco e a grande metrópole que se fundiram em mim". E não é por acaso que, conforme se descortinam as canções, percebemos um equilíbrio quase perfeito entre tradição e modernidade, entre memória e contemporaneidade, entre o velho e o novo. O que pode ser constatado pelo contraste entre os ritmos regionalistas e eletrônicos, que se complementam, se fundem, formando uma musicalidade curiosa e até mesmo mais ampla do que aquela vista nos maravilhosos trabalhos anteriores.

Como exemplo disso, podemos citar a assimetria existente na trinca formada por Oxente, Vem Vem e O Seu Amor Sou Eu. Enquanto a primeira, gravada em parceria com Chico César, é quase uma ode ao Nordeste, seus ritmos e gírias, a segunda, concebida num dueto com a encantadora artista Maya, é uma Jovem Guarda que recebeu um banho de modernidade, estando prontinha para tocar nas rádios mais descoladas. Já a terceira é pura beleza orquestral, com a voz em falsete de Jeneci amparando os delicados versos em forma de carta de amor. Esse tipo de contraste, de justaposição, se repetirá diversas vezes durante o registro, sem que isso signifique necessariamente heterogeneidade excessiva ou algum tipo de falta de lógica. Se Melodia da Noite mantém a batida sutil, a melodia sinuosa, Aí Sim aparecerá para colorir o dia, com versos sobre mudança, transformação. Se Redenção é provocativa, Saudade do Meu Pai será nostálgica. E por aí vai, afinal de contas, assim é a vida: cheia de idas e vindas.


Produzido por Pedro Bernardes em parceria com Lux Ferreira, o álbum é cheio de participações especiais, como a de Lucas dos Prazeres na percussão, mestre Adelson Silva na beteria de frevo, Robinho Tavares no baixo de Vem Vem e até a Filarmônica de São Petersburgo nas cordas de O Seu Amor Sou Eu. Essa multiplicidade de artistas, de gêneros - há ainda o já citado Chico César, por exemplo -, pode ser um dos motivos de o trabalho soar tão universal, tão perfeitamente preenchido, tanto nas letras, como na sua musicalidade. Difícil saber qual o caminho a ser adotado pelo artista daqui pra frente, mas a desconstrução do menino que aos sete anos já tocava acordeão, para o homem capaz de lidar de forma mais madura tudo que lhe rodeia, parece ser uma realidade. O baile vai acontecendo / A gente se toca / Sem se tocar, canta o músico na saborosa Vem Vem. É uma das formas de ditar o ritmo, nesse trabalho imperdível.

Nota: 8,5

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Disco da Semana - Bárbara Eugênia (TUDA)

Escutar qualquer disco da Bárbara Eugênia é como abrir um armário em que estão empilhadas roupas levemente empoeiradas, docemente amarrotadas e talvez até com algum cheiro nostálgico de "guardado". Mas são peças que você ainda deseja usar, que sabe que se der uma repaginada nelas, lavar, passar, elas ainda servirão. Terão lá seu charme. Enfim, funcionarão. Essa metáfora, meio boba até, serve para estabelecer a artista carioca como uma das que melhor dialoga com a música feita no passado, mas que nem por isso deixa de envernizar os seus trabalhos com uma personalidade própria, cheia de vigor. O que é capaz de conferir certo frescor até mesmo a covers do cancioneiro (brega?) nacional, como é o caso de Por Que Brigamos?, lançada em 1972 pela Diana, e que no álbum É O Que Temos (2013) reaparecia com uma bem-vinda energia, uma intensidade ao mesmo tempo lânguida e voluptuosa.

O expediente agora se repete com Sol de Verano, lançada em 1983 pela britânica radicada na Espanha Jeanette, e que figura entre as canções do mais recente registro da compositora, o maravilhoso TUDA. Funcionando como uma espécie de "deslocamento temporal", as canções lançadas em décadas distintas também parecem servir para reposicionar Bárbara musicalmente, que deixa para trás o flerte com a sonoridade setentista e mais amplamente romântica, para investir ainda mais no diálogo com os anos 80, bem como seus sintetizadores, batidas mais eletrônicas e um clima mais festivo. "Não sei se [era] mais doce...mais anos sessenta certamente! Acho que desde sempre foi pop, só era mais vintage mesmo. Agora dei uma modernizada. Fui lá pros anos 80, 90. As influências continuam muito as mesmas, só dei mais espaço para coisas que não chegavam no resultado final. Como, por exemplo, a musica eletrônica ou ritmos mais especificamente brasileiros, como o ijexá, samba-reggae, e outras cositas más", revelou em entrevista ao site Omelete.


Nesse sentido, interessante notar como o trabalho dialoga de forma natural com os mais variados estilos. Se as regionalistas Saudação e Eu Vim Saudar abrem e fecham o disco respectivamente, como se fossem cânticos folclóricos, Perdi e o single Bagunça, são as músicas dos anos 80 por excelência. Mas não os anos 80 óbvios, de toneladas de sintetizadores e sim aqueles que trafegam livremente sem vergonha de adicionar outros elementos, como pequenos fragmentos e colagens instrumentais capazes de retirar as mesmas músicas de uma caixinha fechada de definições. As Maçãs que Vêm é MPB indie com base eletrônica que não faria feio no álbum Tropix (2016) da Céu. Já Querência é um surpreendente reggae, ao passo que a ótima Confusão é o cancioneiro popular que também tem espaço entre os fãs da artista. E há ainda Perfeitamente Imperfeita que, com clima de axé, surge como uma das melhores canções desse ano.

Contando com uma série de participações especiais - do Bloco Pagu a Tatá Aeroplano, passando por Zeca Baleiro (que participou da composição de Bagunça) e o coletivo Onda Vaga, na linda Por La Luz Y Por Tierra - Bárbara ainda alcança com suas letras absurdamente confessionais e poéticas, a maturidade de quem já está há dez anos na estrada, tendo trabalhado com, entre outros, Edgard Scandurra, Otto, Karina Buhr, Tom Zé e Heitor Dhalia, em projetos distintos como um tributo ao cantos francês Serge Gainsbourg ou a websérie Absurda: Lado A. Eu só vou fazer / Daqui pra frente / O que me faz bem / Me faz bem, canta a artista na já citada As Maçãs Que Vêm, como se resumisse o espírito que provavelmente vai reger, daqui pra frente, as suas escolhas artísticas. Os fãs agradecem!

Nota: 8,8


terça-feira, 14 de maio de 2019

Disco da Semana - Tiago Iorc (Reconstrução)

Pessoal, vamos deixar uma coisa combinada quando o assunto foi o Tiago Iorc: nem oito nem oitenta. Nem tanto ao céu nem tanto ao inferno. Nem o "novo Belchior" como chegou a ser sugerido - muito mais por conta de seu sumiço antes de ressurgir com um novo álbum, do que pelos seus dotes artísticos -, nem um compositor meia boca que não lança nada que presta. Acho que é possível um meio termo. Mas um meio termo que olhe com carinho para o artista que, com Reconstrução lança, disparadamente, o seu melhor trabalho. Trata-se de um registro maduro, mas nem por isso quadrado. Que flerta com os mais variados estilos - indo da eletrônica, ao indie, passando pelo samba com escala na MPB - mas de uma forma dinâmica, coesa, heterogênea. A cada canção que se descortina uma nova possibilidade para o ouvinte, um caminho diferente em um álbum que, vamos combinar, cresce a cada audição.

O mistério sobre o lançamento bom, esse pelo visto continuará sendo um mistério. Fora os sites de fofocas que falam sobre mensagens enviadas por Bruna Marquezine ao cantor na noite de lançamento do registro, poucas informações. O ano sabático, de acordo com matéria do Globo teria começado ainda lá em janeiro de 2018. Uma troca de gravadora, a saída das redes sociais, uma ou outra aparição pública tornaram Iorc uma figura quase excêntrica, aumentando o culto dos fãs que, desde sucessos como Amei Te Ver e Coisa Linda, o perseguiam como se este fosse algum tipo de divindade religiosa. Só que trabalhando assim, meio mocozeado - como se diz aqui nos pampas - o artista pôde entregar um trabalho totalmente novo, todo de uma vez, com videoclipes para todas as canções. Se a estratégia de marketing funcionou? Bom, as treze canções do disco entraram TODAS DE UMA VEZ, no Top 50 do Spotify Brasil. Não é pouco.



Aliás, uma audição do trabalho permite perceber que este é, literalmente, um álbum de reconstrução. De ruptura. De algo que fica para trás e que representa, a partir de agora, um recomeço. E isso fica ainda mais claro quase no final do disco, quando na 12ª canção - a inacreditavelmente linda Bilhetes - o astro canta repetidamente, como se fosse um mantra "tudo vai recomeçar" - não sem antes falar, metaforicamente, em chuvas que passam e erros que servem de aprendizado. O expediente da renovação surge em outras músicas como em Laços (Gota de lágrima, trovão que vem do mar / Revolução e a chance pra recomeçar / Quero a sorte / De reaprender / Essa vida) ou na sinuosa A Vida Nunca Cansa (Quero viver, quero mudar, motivo não há / E lá fora o mundo volta a girar / Se é só o tempo, então releva / Já não há nada que possa evitar).

Livre das amarras de gravadoras ou de outros produtores, Iorc pôde também experimentar no que diz respeito à sonoridade. Se Faz, com sua letra sexy, mais parece um encontro do Muse com o St. Vincent, Nessa Paz Eu Vou é a música que o Armandinho adoraria ter feito na última década. A candidata a hit Hoje Lembrei do Teu Amor tem refrão tão grudento e pop, que mais parece uma canção do Troco Likes perdida nesse trabalho. Já Fuzuê é o artista tentando fazer uma espécie de samba rock com letrinha sapeca, batida rápida, urbana, urgente. Há ainda outros momentos sublimes, em que os temas preferidos do compositor - romances urbanos, existencialismo em meio ao caos da modernidade e reflexões cotidianas sobre paixão e sexo - reaparecem com força, equilibrando caos e lucidez, desordem e clareza em igual medida, é o caso de Tangerina e Tua Caramassa. É um disco muito legal. Acima da média. E que reposiciona Iorc como um dos grandes nomes de sua geração.

Nota: 8,0


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Disco da Semana - O Terno (atrás/além)

Tenho de confessar uma coisa a vocês: não pude esconder uma certa surpresa nas primeiras audições do novo disco d'O Terno, afinal, onde estava aquela banda descaradamente juvenil dos trabalhos anteriores? Onde teria ido parar aquele coletivo que desavergonhadamente misturava Jovem Guarda, eletrônica, samba e música alternativa nos mesmos registros? Sim, tive dificuldade em aceitar que, em seu quarto trabalho, Tim Bernardes, Gabriel Basile (bateria) e Guilherme d'Almeida (baixo) amadureceram. Cresceram. Já não são mais aqueles guris que pareciam debochar do MUNDO em digressões divertidas como Zé, Assassino Compulsivo, Bote Ao Contrário ou até Culpa - pra citar canções que se espalham pelos três discos anteriores. E quando finalmente eu entendi isso, bom, eu consegui apreciar com um pouco mais de calma esse novo (atrás/além), percebendo que é um disco tão (ou até mais) relevante, que os anteriores.

A verdade é que, vamos combinar, não tá tendo muita graça o tal do Brasil. Tá meio difícil até de se divertir descompromissadamente ou de rir de qualquer situação que não seja de nós mesmos e da nossa existência patética nesses anos de Bolsonaro, de cortes em todas as áreas e de predileção pelo ódio, pelo preconceito e pela intolerância. E, nesse cenário, é muito provável que O Terno não visse mais sentido em fazer música mais engraçadinha - ainda que, paradoxalmente, esse tipo de material possa servir para que nos sejam amenizadas as dores da vida. Do mundo. "É a conclusão de um grande ciclo, o fim de uma juventude", relatou Bernardes, em entrevista ao jornal O Globo. A saída da casa dos pais, o fim de um relacionamento, as responsabilidades da vida adulta, também parecem ter pesado nesse processo. "É um disco de desapego do que passou e de um salto para o que pode vir", salientou em outra entrevista, esta para o Correio Braziliense.



E junto com este amadurecimento - que claramente tem início no trabalho solo de Bernardes, o delicado Recomeçar (2017) - há também a proposta de trabalhar o álbum com um conceito bem definido, de idas e vindas, de folhas a serem preenchidas e de ideias que devem ser maturadas e que flanam de forma natural, quase orgânica, em cada melodia minuciosamente arranjada pelo coletivo. Há uma riqueza de detalhes que parece flutuar em meio a justaposição dos versos claramente existencialistas e na disposição instrumental limpa e sutil, que nos fazem compreender esse outro (e novo) momento, absorvendo-o com mais calma - como se o disco clamasse por um pouco menos de pressa, ou de urgência. "(O álbum) é sobre essas vontades contrastantes do jovem que hoje quer tudo e que, de alguma forma pode tudo, mas está meio saturado. Sabe aquele cardápio da Netflix que você fica duas horas para escolher alguma coisa, mas não quer começar um filme de uma hora e meia porque é muito longo? É isso. A música é sobre esse cabo de guerra interno", compara Bernardes na mesma entrevista a O Globo.

Talvez não seja por acaso que já na abertura, com Tudo Que Eu Não Fiz, o compositor lembre a todos de que "Eu não sou mais criança, eu não sou mais adolescente / Eu quero me sentir exatamente onde eu estou". O expediente do ponto de "ruptura" que celebra um fim e um reinício repete-se em outras canções, como no caso do grudento single Pegando Leve: Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim / Recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu / Quero me encontrar, mas quero deixar fugir. Todo esse clima de nostalgia do que não foi, da imaturidade em contraposição a vida adulta, de descansar, mas sair, de trabalhar e se divertir, surgem como minuciosos antagonismos que reforçam as ideias espalhadas pelo registro. No meio do caminho, músicas que exalam otimismo (Eu Vou), saudade (Atrás/Além), amor idealizado (Pra Sempre Será) e aflições do mundo moderno (a ótima Volta E Meia, em parceria com Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto). Minucioso e agridoce do primeiro ao último instante, o registro percorre cada uma de suas esquinas sem medo de encarar a vida adulta, de fazer a crítica à geração millenial e de simplesmente se modernizar em relação ao material anteriormente apresentado. Um dos discos do ano.

Nota: 8,5



quinta-feira, 25 de abril de 2019

Disco da Semana - Djonga (Ladrão)

Recentemente o rapper Djonga esteve envolvido em uma polêmica: se recusou a fazer uma apresentação em Vitória, no Espírito Santo, após descobrir que integrantes da produção do evento estavam supostamente envolvidos em um caso de estupro. O artista soube da história por meio dos fãs. E tomou a sua decisão, sem pensar nos prejuízos acarretados por ela. Porque acima da figura que precisa ganhar dinheiro para se sustentar, está o sujeito, suas convicções, suas visões de mundo - e a visão de mundo de Djonga é aquela mesma que olha com carinho para a periferia, para as minorias ou para aqueles que vivem à margem da sociedade ou em vulnerabilidade (como é o caso das pessoas que sofrem violências de todo o tipo). É o rapper, com seus três assombrosos álbuns, que dá voz à comunidade, suas conquistas (ainda pequenas mas importantes), seus anseios, suas angústias e seus medos. E a comunidade negra, pobre e pouco assistida tem sim muito medo em um País em que o racismo estrutural é a ordem do dia. Ordem agora lamentavelmente legitimada pelo voto e pela ascensão de um reacionarismo descabido, quase pornográfico.

Mas a força da arte de Djonga está nas palavras - e ele certamente tem muito a dizer. Ele precisa dizer. São elas que cortam, oferecem resistência e que, eventualmente gritadas, ecoam a voz daqueles que nem sempre falam. Que se resguardam. Que se resignam. Desde pequeno geral te aponta o dedo /  No olhar da madame eu consigo sentir o medo / Você cresce achando que é pior que eles / Irmão quem te roubou te chama de ladrão desde cedo narra o artista na autorreferencial Hat-Trick, que abre o disco Ladrão. Mas o tom nesse terceiro trabalho dificilmente será de autopiedade ou de excessos comiserativos. Djonga certamente tem consciência de seu papel nessa luta e não por acaso lembra do porvir da resistência como algo real e palpável em Deus e O Diabo Na Terra do Sol, feita em parceria com Felipe Ret: As grades prendem homens, não ideias / E a ideia certa chefe até nas ruínas floresce.


Estou mais preocupado em ser ouvido pelas pessoas e que meu trampo dê vontade a elas de falar. Acho que todo mundo está precisando falar bastante, pois estamos cheios de coisa no peito. Então, se meu trampo for ouvido e der vontade do cara falar, nem que seja para discordar de mim, já está bom, destacou o rapper em entrevista ao site Reverb, como que resumindo o conceito central do registro, que dá sequência aos soberbos Heresia (2017) e O Menino Que Queria Ser Deus (2018). Não é por acaso que as canções do mineiro abordam não apenas as questões raciais como uma ferida histórica, mas também celebra as conquistas dos negros, a superação das dificuldades do dia a dia - não apenas do artista e ela está espalhada por toda a parte (Você piscou e eu já tô no terceiro), mas do trabalhador que tem ônibus pra pegar, conta pra pagar e filho pra criar. Eu tiro onda, porque mudo paradigmas / Meu melhor verso só serve se mudar vidas / Pois construi um castelo vindo dos destroços narra na ótima Ladrão.

Musicalmente o registro é um verdadeiro caldeirão de referências culturais com citações a Pantera Negra, Che Guevara, Queen Latifah, Oscar Niemeyer, Malcom X, Mickey, Antônio Conselheiro e Kendrick Lamar e sonoras, numa mescla absurdamente fluída de trap, hip hop, R&B, jazz e música urbana. Djonga está atento ao mal estar da modernidade e por mais que isso seja clichê, representa um reflexo de nossos tempos. Nesse sentido, não são por acaso que menções a Sérgio Moro como um falso justiceiro ou a famosa facada que elege presidente. É claro que em meio ao engajamento, ao espírito de empoderamento, também há espaço para o amor, para o sexo e para o corpo como processo de desconstrução - como comprovam as sinuosas Leal e Tipo. Com estilo mais cru e um flow com pequenas variações em relação aos registros anteriores, Ladrão, com seu ainda impressionante projeto gráfico, consolida Djonga como um dos mais importantes nomes do rap nacional. E o principal: sem a necessidade de precisar mudar para agradar alguém. Abram alas pro Rei!

Nota: 9,3


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Disco da Semana - Matheus Brant (Cola Comigo)

Quando lançou o disco Assume Que Gosta (2016), o musico Matheus Brant deu carta branca para que os hipsters tivessem um disco "carnavalesco" para chamar de seu. O registro, divertido até dizer chega, era um convite nostálgico para um encontro entre a música alternativa e ritmos como o arrocha, o axé, a marchinha, o sertanejo universitário e o pagode. Sim, em cada coraçãozinho indie que pulsa a cada novo lançamento da Grimes ou do Arcade Fire há alguém disposto a cantar a plenos pulmões o refrão de Abandonado, do Exaltasamba (que o artista incluiu naquele trabalho). Sim, o encontro entre ritmos mais comerciais com violõezinhos estilo MPB, alguma dose de psicodelia e toneladas de sintetizadores resultou em músicas que caíram no gosto tanto do fã do programa do Rodrigo Faro, quanto do admirador de cada episódio do Greg News.

Assim, havia muito expectativa para o novo registro de Brant que, intitulado de Cola Comigo, chega dando aquela abraço carinhoso no pagode dos anos 90 - sim, aquele mesmo que crescemos escutando nas tardes do Domingo Legal, onde uma dúzia de pagodeiros cantavam sorridentes, enquanto estalavam os dedos e faziam dancinhas estranhas, em meio aos piores playbacks da história. Só Pra Contrariar, Soweto, Negritude Junior, Karametade, Os Travessos, Katinguelê... há uma pitada de cada um desses coletivos no trabalho que exala um frescor impressionante, jamais parecendo apenas uma simples homenagem ou uma mera caricatura. Com personalidade, Brant se leva a sério - sem perder o senso de humor, claro -, dialoga com o lirismo poético do samba e perfuma cada canção com cores próprias e com um verniz que revitaliza o estilo que se desgastou, assim que o novo milênio surgiu.



Em entrevista concedida ao site Revista Arte Brasileira, o instrumentista disse sentir falta na nova MPB, no samba e nos artistas indie em geral de uma certa vitalidade nas composições - uma comunicação direta com o público. "Essas eram justamente as características presentes no pagode. Assim, pensei que aproximar esses dois universos poderia resultar em algo interessante. De um lado o pagode com a coloquialidade e a espontaneidade muitas vezes consideradas de mau gosto e de outro o indie, a nova MPB, com seu apuro técnico, arranjos e sonoridade contemporâneos, muitas vezes definidos como bom gosto" enfatizou. Não é por acaso que ele mesmo, ao definir o seu estilo musical, o classifica como "pagode indie" - um tipo de música espontânea, sem qualquer trava intelectual e recheada por emanações vivas, cotidianas e eventualmente sofisticadas.

Saboroso de ouvir, o registro tem produção limpa com a voz do artista - que também é advogado e escritor - se sobressaindo em meio a ruídos eletrônicos, cavacos, surdos, pandeiros e muito lalaiá, palminhas e outros efeitos. Basta ouvir o refrão grudentíssimo de Preta (executado num daqueles típicos coros do pagode que não fariam feio em algum registro do Chico Buarque) ou letras irrepreensíveis como a de Tudo no Menu - Eu quero ter uma caminha bem macia / E a gente deita junto nela todo dia / Fim de semana até parece com a Bahia / A gente pode se encontrar - para ficarmos absolutamente arrebatados. Não demora e o preconceito vai se embora num instante. Brant tem dito em entrevistas que Assume Que Gosta e Cola Comigo integrarão, futuramente, uma trilogia. Não faria mal se ele adotasse um estilo tão saturado, cansativo e marcado pelo hedonismo como o sertanejo universitário para jogar alguma luz. É possível falar de amor, sexo e vida cotidiana sem tanto ranço, como comprova esse gracioso álbum.

Nota: 8,5

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Disco da Semana - Terno Rei (Violeta)

Não são todas as bandas que conseguem colocar as suas referências/influências no "liquidificador" para retirar de lá uma sonoridade nova, criativa, cheia de personalidade - e é preciso que se diga, o Terno Rei faz isso com FOLGA. Não por acaso, assim que tem início os primeiros acordes da adocicada Yoko - canção que abre Violeta, o terceiro registro do coletivo paulistano - já nos sentimos absolutamente familiarizados com aquilo que ouvimos. É como se o grupo nos afagasse com o perfume nostálgico das emanações oitentistas, capazes de equilibrar um instrumental eminentemente primaveril, com as letras sobre desilusões amorosas, relacionamentos tensionados ou mesmo saudade daquilo que não foi - enfim, os dilemas afetivos modernos traduzidos à perfeição.

Continuidade natural do material apresentado no igualmente belo Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016), o presente disco limpa um pouco mais arestas - parecendo ser melhor produzido e menos enfumaçado. Não que essa seja necessariamente uma qualidade, mas o caso é que Ale Sater (voz e baixo), Greg Vinha (guitarra), Bruno Paschoal (guitarra) e Luís Cardoso (bateria) parecem assim dialogar mais facilmente com o ouvinte, seja nas melodias harmoniosas prontinhas para tocar nas rádios mais descoladas, seja na naturalidade com que os versos românticos escoam pelo registro, de forma fluída, orgânica. Às vezes até parece que Sater está conversando com quem ouve. Uma conversa franca, nem sempre fácil, eventualmente pessimista (ainda que haja luz no fim do túnel).


"Cansamos bastante da estética dos últimos dois discos, então (mudar) foi uma vontade natural. Buscamos mais elementos e mais repertório", explicou Sater em entrevista à Rolling Stone Brasil. O abandono da estética mais lo-fi (ou shoegaze) também passa pela adição de sintetizadores e teclados que surgem de maneira luminar em canções como São Paulo e Roda Gigante. O abraço ao pop (algo que só foi possível agora, que a banda parece ter encontrado definitivamente o seu caminho, como eles mesmos admitiram em entrevistas), também passa pelas letras diretas e pelos refrões grudentos, como no caso da soturna 93 (Quanto tempo faz que eu esperei? / Vou aceitar / As flores entreguei lá no seu prédio /No primeiro andar).

Ainda que a cada audição seja absolutamente impossível não pensar em bandas como The Cure e The Smiths ou mesmo artistas recentes como o Real Estate, o caso é que Violeta é um trabalho que foge da simplificação. É o rock nacional reivindicando espaço em um registro que é pequeno apenas em seu formato - são 11 músicas e pouco mais de 30 minutos -, mas que é grande como experiência criativa de um coletivo em franco amadurecimento. A estrada é generosa e você não quer ver / Que eu já não tenho medo de voar canta Sater na libertadora e viciante Medo. Os relacionamentos que não funcionaram ficam pra trás em meio a sintetizadores bem encaixados. Mas a metáfora para uma banda que já olha pra frente, é inevitável.

Nota: 9,0

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Disco da Semana - Carne Doce (Tônus)

Aviso aos navegantes: o novo disco dos goianos do Carne Doce - intitulado Tônus - não é daqueles para escutar de forma desatenta enquanto realiza atividades domésticas ou descompromissadamente entre uma tarefa e outra no trabalho. Definitivamente não! O registro requer, pelo menos, um bom sistema de som ou, na ausência destes, um razoável fone de ouvidos para que, somente assim, se consiga perceber todas as nuances do registro. De espírito intimista, o terceiro trabalho - que dá sequência ao inaugural registro homônimo (2014) e ao inesquecível (e figurinha fácil entre os melhores do ano) Princesa (2016)- é rico em detalhes, em encaixes bem pensados, em curvas etéreas e nunca óbvias e em versos sussurrados que parecem se grudar a porção instrumental. É portanto um trabalho amplo e maduro que, sugere-se, não seja ouvido de forma displicente.

Por meio de entrevistas dadas a imprensa, a própria banda admite que, se comparado ao disco anterior, o novo trabalho olha mais "para dentro do que para fora", extraindo uma parte do compromisso político/ideológico/social - ainda que, jamais ignorando-o. "Não sou exatamente uma artista militante", afirmou a vocalista e compositora Salma Jô, em entrevista a Revista Isto É. "Parece paradoxal, mas acho que consigo emocionar mais quando olho para dentro, já que assim as pessoas se identificam", reforçou. Ainda assim, mesmo que num espectro menos amplo se comparado ao trabalho anterior - e a canções que viraram hinos feministas, como Falo e Cetapensâno - a banda, completada por João Victor Santana (guitarras e sintetizadores), Macloys Aquino (guitarra), Ricardo Machado (bateria) e Aderson Maia (baixo), segue erguendo bandeiras, como a autoexplicativa Golpista (que fecha o registro), deixa claro.



Mesmo "menos feminista" se comparado ao trabalho anterior, o disco parece manter a pegada do empoderamento (ô palavrinha que a gente não consegue um sinônimo decente) e da discussão sobre importância do respeito a igualdade entre gêneros, por meio de letras que falam de forma natural sobre a identidade feminina e sobre a sexualidade da mulher. Isto fica claro em letras como a de Amor Distrai (Durin) (E não apaga a luz / E nem fecha a porta / E vamo descobrir o que me excita / O que te excita / O que fazer pra ser mais foda), Tônus (Um corpo jovem / Aquele tônus / Aquele brilho / Um corpo pronto pro verão / É ofensivo ao coração) e Irmãs (Dos diários que eu roubei pra ler / Pra aprender as femininas invenções / Pra feminina ser como você / Blush nas bochechas e na zona T / Homem se cata pelo estômago / E se devora pelas beiradas). Aliás, a própria capa do disco, um trabalho visual estilizado feito de forma caseira, traz um tanto dessa ideia.

Com uma sonoridade capaz de nos fazer lembrar de coletivos nacionais como Boogarins e Terno Rei em uma mistura com estrangeiras como The War On Drugs, os goianos parecem a cada dia mais confiantes no que diz respeito a personalidade da banda, bem como os caminhos a serem seguidos - e apreendidos pelo público. Eventualmente melancólico, invariavelmente provocativo e de essência extremamente poética, o registro parece trafegar num limite entre a música alternativa mais íntima (com batidas, guitarras e sintetizadores econômicos) - como em Besta e Brincadeira -, com outros mais expansivos - como na já citada Tônus. "Esse é um sentimento que também reflete a nossa postura de não jogar com sentimentos óbvios, imediatos", analisa Aquino. Definitivamente, pra que tudo isso seja percebido da melhor maneira, somente sem distrações, com plena atenção aquilo que se faz - mais ou menos como o sexo, direto, cru e sem firulas sugerido pelo grupo em suas letras.

Nota: 8,3


quinta-feira, 26 de julho de 2018

Disco da Semana - Violins (A Era do Vacilo)

As épocas pelas quais passamos têm o poder de influenciar a produção artística de cada momento, sendo esta uma válvula de escape para expurgar sentimentos e conflitos de forma a proporcionar uma catarse que, coletiva ou individual, traz um efeito terapêutico para qualquer pessoa minimamente engajada ou atenta aos eventos que diariamente nos assolam. Golpes de Estado, perda de representatividade política e de direitos, retrocessos humanitários, intolerância, aumento da miséria e ausência de condições mínimas para a manutenção da dignidade dos mais necessitados, são apenas alguns exemplos das trevas a que nos encontramos atualmente submetidos. Para alguns artistas é simplesmente impossível se eximir, e a banda goiana Violins não deixou por menos, retornando à produção de álbuns com o emblemático - e genialmente batizado - A Era do Vacilo.

Se em 2007 o grupo capitaneado por Beto Cupertino já havia mostrado sua força ao abordar temas mais caros e pesados ao ouvinte no já clássico Tribunal Surdo, não é exatamente uma surpresa que nesta nova obra alguns assuntos em comum voltem a aparecer. A diferença crucial é como estes são abordados esteticamente: se naquele a aura era suja e distorcida com o vocal enterrado na mixagem, neste a produção é mais límpida e, embora as guitarras continuem presentes, a voz aparece com maior destaque, assim como as melodias - o que nos remete ao ótimo Direito de Ser Nada (2011), talvez o álbum mais pop do grupo. Em apenas 10 breves canções todas as qualidades apreciadas pelos fãs da banda estão presentes: refrões, quebras de andamento, pequenos truques eletrônicos que colorem as canções (cortesia do tecladista Pedro Saddi), e as letras sempre competentes de Cupertino.


As letras, por sinal, apostam na simplicidade sem cair no lugar comum dos temas tratados, como na faixa de abertura Brigas de Mão (Passei a ser alvo de brigas de mão / sequer tenho tempo de trabalhar mais / Isso é toda hora onde eu estiver) cuja melodia grudenta do refrão contrasta com as mudanças de andamento de suas demais partes. Deu Ruim Pra Gente é mais linear e conta com uma cozinha maravilhosa, com seu riff de baixo e uma bateria matadora (cortesias de Gustavo Vasquez - que também produz o disco - e Fred Valle, respectivamente). Herói Fabricado, o primeiro single, é uma porrada direcionada para a gente sabe bem quem, aquele tipo de figura que surge de tempos em tempos que, sob pretexto de defender os "homens de bem" e a "justiça", causa danos irreversíveis a toda uma sociedade. Um Homem ou um Amém e Plena Anhanguera talvez sejam as que mais lembrem o supracitado Tribunal Surdo em questão de letra e tema, com as melodias mais violinsianas do disco - e dois de seus pontos altos, diga-se de passagem. O potencial pop está muito bem representado nas faixas Gastura e Vidraças, e não será surpresa se você estiver cantarolando seus refrões por aí sem se dar conta. Água e Sal é talvez a faixa mais elaborada do disco, com muitos detalhes na produção e um clima desesperançoso (Somos assim mesmo a gente evoluiu bem mal / Fomos por acaso um pouco inconsequentes? / Não sei dizer, o que sobrou foi água e sal) que desemboca na bela melodia da melancólica faixa de encerramento voz-e-violão Cronômetros

Não há canções da amor aqui, a era do vacilo em que vivemos parece sufocar qualquer tentativa de olhar ao próximo, de ter empatia - o outro muitas vezes é visto como um inimigo. E quem disse que a Arte sempre tem que ser sobre coisas bonitas para ser bela? (E o que eu faço? Exponho como arte o que é feio, canta Cupertino em Desapareceu). Pegue um punhado de ótimas e criativas letras, envolva-as em melodias cantaroláveis e ofereça suas melhores características a ouvidos sedentos por uma canção que represente os seus anseios, compartilhando sua visão e espanto perante o mundo e pronto: você está acompanhado. Ao lançar uma obra ao vento o artista, mesmo sem saber, acaba por gerar uma frequência que nos conecta em algum sentido. E se isso pode ser lembrado por muito tempo como retrato de uma época que não queremos que jamais retorne, é um mérito maior ainda.

Nota 9,0

terça-feira, 5 de junho de 2018

Disco da Semana - Silva (Brasileiro)

Ainda que a opção pela MPB em seu estado mais puro possa representar uma escolha bastante cômoda na carreira do capixaba Silva, parece ser inegável a sua capacidade não apenas de se reinventar - ainda que em um gênero tão consolidado - mas também de se adaptar bem a qualquer estilo. Se nos dois primeiros registros - Claridão (2012) e Vista Pro Mar (2014) - parecia ser inescapável uma empolgação juvenil que se manifestava por meio de sintetizadores ensolarados e versos primaveris (tão saborosos quanto o final de tarde entre amigos na beira da praia), a partir de Júpiter (2015), o que se convencionou com a adoção de uma eletrônica mais intimista foi o velho refrão que diz que "menos é mais". Silva passou a ser mais direto nos versos sobre o amor - tão caros a qualquer um de nós. E, como numa espécie de contraponto, passou a uma abordagem mais discreta, quase tímida - o que aumentou ainda mais o amor dos fãs por ele.

Agora, com Brasileiro, o artista parece prosseguir com esta proposta - a de tocar o coração do ouvinte, mas com sutileza, com carinho, sem exagero. Partindo das beiradas para chegar no centro, assim como fazemos quando deixamos a melhor parte da nossa refeição para o final. Nesse sentido, o registro se apresenta como uma extensão quase natural do material apresentado nas recentes edições de Silva Canta Marisa (2016) e Silva Canta Marisa Ao Vivo (2017). Ainda assim, é preciso que se diga, Silva se apropria de tudo aquilo que existe de melhor na MPB (e também na bossa nova, do samba e de outras vertentes), mas sem deixar de imprimir a sua personalidade a cada uma das composições. “Acho que o disco reflete a forma como eu me enxergo no mundo, e também a maneira como hoje me enxergo brasileiro, profundamente ancorado na esperança do que surgirá de bom de todo esse caos em que vivemos", explica o artista no material de divulgação, como forma de justificar tanto "brasileirismo" em um só trabalho.



Talvez não seja por acaso o fato de o primeiro single, a grudentíssima Fica Tudo Bem, contar com a participação da cantora Anitta, afinal de contas nada mais brasileiro e contemporâneo do que a fusão entre artistas de vertentes tão distintas como o pop, o funk e a eletrônica. Como ocorre na maior parte do registro, a canção de versos delicados, mergulha descaradamente no romantismo confessional provocando a identificação imediata do ouvinte - Amigo, amar alguém a fundo / É coisa séria de querer (de querer) / Cuide de quem te quer e cuide de você (Cuide de você). O expediente se repete em muitas outras canções, casos de A Cor É Rosa (E sempre que eu pensar no meu bem / Vou colorir o dia), Ela Voa (Quem tentar entender o amor / Corre o risco de enlouquecer / O amor não tem solução, é só viver, é só viver) ou Duas da Tarde (Vem cá / Pra fora da cama / São duas da tarde / Vou ali ver o mar). Tudo emoldurado por um clima agradável, de romance febril (e gostoso), daqueles que a gente deseja que nunca termine.

Ainda que, declaradamente, o cantor não tivesse a ambição de transformar o registro em um painel político, assim como fazem tantos outros artistas, a discussão acaba sempre surgindo, aqui e ali, como no caso da inaugural Nada Será Mais Como Era Antes (que tem um poema de Gonçalves Dias como base para a letra) ou Milhões de Vozes (que não deixa de demonstrar certo desalento com a ignorância que se desnuda todos os dias, especialmente nas redes sociais). Ainda assim, entre batidas eletrônicas minimalistas, percussão bem pontuada, corais de vozes, lalaiás e outros efeitos, Silva quer mesmo é falar de amor. E o faz dialogando com nomes tão distintos como Caetano Veloso (Let Me Say), Chico Buarque (Prova dos Nove) e João Gilberto (Duas Tarde). Ouvi dizer / Que é lugar bem bom pra se morar / Quem mora lá / Não quer nem viajar, encerra Silva na derradeira Brasil, Brasil. Nesse País tão bonito cantado pelo capixaba, de fato, não há vontade de sair.

Nota: 8,8

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Disco da Semana - Arctic Monkeys (Tranquility Base Hotel & Casino)

Quando começou, ainda na semana passada, o burburinho sobre o quão diferente era a sonoridade do novo disco do Arctic Monkeys - intitulado Tranquility Base Hotel & Casino - se comparado aos seus registros anteriores, fiquei com a impressão de que ia me deparar com, sei lá, uma espécie de Kid A que tivesse sido gestado por Alex Turner e companhia. Aí fui escutar o primeiro single do disco em questão, de nome Four Out Of Five, e me deparei com uma canção semelhante a tantas outras do quarteto - com arranjos bem elaborados, uma eletrônica moderna (e ousada) e um refrão tão grudento que não faria feio em discos como Favourite Worst Nightmare (2007). Até ali, confesso que eu não estava entendendo tanto falatório. Mas aí resolvi encarar a audição do trabalho na ordem, com calma, saboreando o material. E aí sim foi possível compreender a ruptura alcançada pelo registro.

Os fãs dos Arctic certamente se acostumaram com aquela urgência de pista eletrônica empoeirada/retrô/urbana/inferninho que trouxe ao mundo uma infinidade de hits prontos para o consumo imediato como I Bet You Look Good On The Dancefloor, Dancing Shoes, Fluorescent Adolescent e 505. O negócio definitivamente era se divertir - especialmente em 2006/2007 quando o vocalista Alex Turner era um piazote de 20 ou 21 anos. Só que quando o tempo passa, a gente muda. Evolui. Amadurece. Muda as nossas percepções sobre o mundo, sobre a vida, sobre tudo. Amplia a nossa bagagem intelectual e, consequentemente, nossos conhecimentos. Se há dez anos atrás um disco "conceitual" poderia ser tratado como uma ideia absurda não apenas para banda, mas também para os fãs, agora, já caminhando para os 15 anos de carreira, talvez os ingleses se sintam mais seguros em formatar esse tipo de proposta. Ainda mais depois do sucesso estrondoso de crítica e de público que foi o trabalho anterior, AM (2013).



Esse papo todo me fez lembrar outras bandas que, lá pelas tantas, abandonaram as propostas mais juvenis para investir em uma levada mais adulta, não apenas no que diz respeito aos arranjos (as vezes menos elétricos e mais eletrônicos), mas também as letras (e, de sopetão, consigo citar duas: Supergrass e Green Day). Sim, amigos, o que talvez seja um esboço de Kid A de Turner e companhia, nada mais é do que fruto do amadurecimento. Que bom, que bom que somos assim e não ficamos presos no mesmo lugar, fazendo sempre as mesmas coisas, apenas para agradar alguém. Em entrevista a rádio BBC de Londres, Turner afirmou ter vergonha de algumas letras antigas do grupo. Talvez não seja para tanto, mas não podemos negar que uma letra espetacular como a da inaugural Star Treatment, que brinca com as decepções resultantes da fama e do desconforto provocado pelo culto a mídia, é não menos do que sensacional - Todo mundo está em um barco flutuando abaixo do fluxo interminável da grande TV, sussurra Turner.

Assim como na primeira canção, há espalhado por todo o disco, e em seu rico catálogo de letárgicas variações rítmicas, um clima meio futurista, de ficção científica classuda e meio oitentista, guiada por canções que funcionam como divagações verborrágicas e atormentadas na mesma medida. Não, não é um trabalho fácil e quem se arriscar a escutar o disco com as letras a tiracolo encontrará, aqui e ali, uma espécie de crítica generalizada a uma espécie de mal estar da modernidade, com seus excessos consumistas, diferenças sociais, burocracia nas grandes corporações e romances falidos. O tipo de experiência artística que se estende, inclusive, para a capa do disco, uma emulação de um hotel que talvez, de fato, pudesse existir no Mar da Tranquilidade, no lado escuro da lua. Excêntrico, eventualmente indecifrável, frequentemente debochado, mas invariavelmente saboroso. Um disco que cresce a cada audição e que eleva a já conhecida qualidade do quarteto para um outro patamar.

Nota: 8,3

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Disco da Semana - Manic Street Preachers (Resistance Is Futile)

Em um cenário de avanço global do conservadorismo de direita - e, consequentemente, do preconceito, do ódio e da intolerância - poucas bandas conseguem se manter mais relevantes do que o Manic Street Preachers. Autoconscientes de seu papel como difusores de boas ideias, utilizam o seu hard rock matador cheio de guitarras pesadas e bateria envolvente para criticar desde sempre o fascismo - ou outros modelos de governo totalitário, que possam representar o rompimento com os ideais de liberdade, de igualdade ou de fraternidade. Não por acaso a banda capitaneada por James Bradfield já tocou em Cuba no começo do milênio em um concerto histórico presenciado por Fidel Castro. Já teve um megahit radiofônico em que refletia sobre o legado que deixaremos para as próximas gerações - no caso, If You Tolerate This Your Children Will Be Next. E teve pelo menos dois grandes álbuns - The Holy Bible (1994) e Everything Must Go (1996) que permanecem até hoje nos corações dos ouvintes. Especialmente os da geração que cresceu nos anos 90.

O mais recente trabalho do trio - completado por Nicky Wire e Sean Moore - se chama Resistance Is Futile. A despeito do niilismo do título (e até da capa), o álbum serve como veículo para novas divagações político-filosóficas-sociais sobre o mundo que vivemos. Não é por acaso que a primeira música do registro, People Give In, já inicia com uma série de versos pessimistas - People get tired / People get old / People get forgotten / People Get Sold - e que, de alguma forma, funcionarão como um guia para as reflexões que serão espalhadas pelo álbum. A sonoridade surge tensa, urgente, melancólica, até explodir no refrão roqueiro com direito e ooo ôs e um indelével otimismo - People stay strong, apesar de tudo. O expediente se repete em outras músicas. Sequels of forgotten wars tem título quase autoexplicativo. Já Hold Me Like a Heaven é quase um manifesto por busca de conforto em meio a uma rotina de desgaste em que o grito já não é suficiente. Candidata a hit, é uma das mais comerciais e já escolhida como uma das favoritas dos ardorosos fãs.



A propósito disso, as temáticas duras, eventualmente ásperas e quase nunca otimistas não significam dificuldade na hora de ouvir o grupo. Desde A Design For Life que o trio se especializou em entregar canções acessíveis, radiofônicas e até, como numa espécie de paradoxo, eventualmente coloridas e ricas em texturas. O que torna a audição de cada registro de Bradfield e companhia em uma experiência não menos do que prazerosa. International Blue, por exemplo, com seu refrão grudento, parece já nascida para ser cantada (ou berrada) em coro nos estádios - a despeito da pinta de rock brega e farofa dos anos 80. O expediente se repete em outras músicas, como Distant Colours, Vivian e na "eltonjohniana" Dylan & Caitlin, que parecem trafegar sempre no limite entre o hard rock de gritado de outrora e o power pop que flerta com o alternativo.

Em entrevista ao site The Guardian, ainda no começo do ano, a banda não pôde deixar de demonstrar um certo pessimismo que dialoga com esse mal-estar que parece existir na já conhecida pós-modernidade. A imagem da capa, um samurai que sabe que com a chagada das armas de fogo sua espada deverá ser aposentada, representa bem essa espécie de ruptura. Para Wire usar a música para como um meio para versar sobre livros filmes e política ou mesmo citar Mao, Maiakovski, Heidegger, Flaubert, Marylin Monroe ou George Best parece algo distante da cultural jovem. "Especialmente nas mídias sociais", afirma. Ainda assim, Wire afirma haver "mágica" quando o trio entra no estúdio, o que seria, quase 30 anos de carreira depois, o combustível necessário. Para nós aqui do Picanha, a mágica dos Manics continua intacta.

Nota: 8,5

sábado, 5 de maio de 2018

Disco da Semana - Dingo Bells (Todo Mundo Vai Mudar)

Se manter relevante em meio a um cenário musical tão amplo, democrático e plural como este que vivemos nos dias de hoje não deixa de ser um desafio para as bandas modernas. Em um mundo tão intolerante as pessoas querem, sim, se divertir, mas também parecem desejar que seus artistas preferidos se posicionem, se engajem em algo, enfim, tenham algo com mais "conteúdo" pra dizer, que não seja o simples blábláblá sobre o amor que ocorre desde sempre. Nesse sentido, poucos coletivos são tão completos como os gaúchos da Dingo Bells que, com Todo Mundo Vai Mudar, chega ao seu segundo (e festejado) registro. Se com o ótimo Maravilhas da Vida Moderna - nosso décimo sétimo colocado na lista de Melhores Discos Nacionais de 2015 - o trio já esbanjava complexidade nas divagações sobre um cotidiano capaz de ser o de cada um nós, o segundo álbum parece ampliar ainda mais este sentimento.

Tomemos a abertura com a música título - uma das candidatas a música do ano, diga-se. Após um começo com bateria ritmada e guitarra bem pontuada, entra a letra, aconchegante e reflexiva, que reflete sobre maturidade e sobre como podemos ser capazes de fazer as mesmas ações de uma forma diferente daquela do passado - As palavras vão e vem / Trocam de lugar / Quanta coisa já pensei / Sem considerar. Essa sensação de que estamos em constante mudança, evoluindo permanentemente - como uma metáfora vivenciada pela própria banda - reaparece aqui e ali em outras canções, como Ser Incapaz de Ouvir, O Que Não Se Vê de Cara e Sinta-se Em Casa. Ainda que, em cada uma delas, este expediente apareça nunca de forma óbvia, num exercício de sutileza que faz o ouvinte sorrir e pensar ao mesmo tempo.



Outra canção que arrebata pela letra bem construída é Tudo Trocado. Reinterpretação de Tô, "clássico" do Tom Zé, ao mesmo tempo que serve como uma alegoria para o mundo em que vivemos - e não está tudo trocado? - ainda funciona como jogo de palavras capaz de representar a intenção de algo, quando na verdade queremos outra coisa. (Briga pra ficar bem / E chora pra secar o rosto). E que, novamente, tem a ver com deslocamento, mudança. "[Nossa intenção foi a de] refletir sobre os diferentes aspectos de mudança que uma pessoa pode viver: seja física, geográfica, imaginária ou espiritual" comentou, em entrevista ao site A Gambiarra, o baixista e vocalista Felipe Kautz. Esse sentimento se espalha por todo o disco que, não por acaso, vai para além da soul music e do groove que emulam os anos 70 da época mais dançante do Tim Maia - uma característica já consolidada do trio - para encontrar em eletronices, barulhinhos, efeitos e sintetizadores uma reinterpretação do próprio cancioneiro da Dingo. "Uma mistura de elementos mais estranhos e interessantes que anteriormente", admite Kautz na mesma entrevista, sem esconder referências que vão de David Bowie a Radiohead.

Uma maior quantidade de elementos de maneira alguma transforma o disco em um produto mais hermético ou difícil. Muito pelo contrário, ao optar novamente por uma atmosfera dançante e radiofônica, o trio - completado por Diogo Brockmann (guitarra e voz) e Rodrigo Fischmann (bateria e voz) - abraça o pop desavergonhadamente, ainda que agora com uma maior robustez. Mesmo músicas recheadas de elementos, caso de Na Carona, com seus repetidos nananás do refrão, são capazes de grudar na primeira audição. Nesse sentido o trabalho, produzido por Marcelo Fruet e resultado de uma imersão de dois meses da banda em um estúdio da Zona Sul de Porto Alegre, tem tudo pra se tornar, com sua mistura multicolorida do cancioneiro nacional, um dos preferidos das listas de melhores de 2018.

Nota: 8,7

terça-feira, 3 de abril de 2018

Disco da Semana - Kacey Musgraves (Golden Hour)

Existem alguns discos que estabelecem uma conexão imediata com o ouvinte. Uma sensação de bem-estar e de satisfação quase semelhante ao que acontece quando liberamos ocitocina após alguma atividade estimulante e prazerosa - e vai ver também somos inundados por hormônios do tipo, quando escutamos músicas agradáveis. Há também uma certa familiaridade, como se fizéssemos parte daquilo. Como se o artista estivesse dialogando diretamente conosco. Já estivemos em contato com isso. Já vivemos algo parecido. E se pensarmos na música pop como um todo - matéria-prima de 90% do disco Golden Hour, terceiro trabalho da americana Kacey Musgraves (os outros dez por cento são folk/country) - essa impressão parece se ampliar a cada curva ensolarada, a cada verso aconchegante, a cada melodia assobiável.

É um álbum simplesmente irresistível, envolvente, gostoso de ouvir. Assim como já era Pageant Material, trabalho anterior de Kacey, tão rico quanto este. E, aqui, é preciso ressaltar a ousadia da texana: se no registro anterior predominava um country eventualmente estereotipado - ainda que legitimamente saboroso - agora a artista parece disposta a flertar diretamente com uma música mais radiofônica, o que provavelmente significará a porta de entrada para que um público ainda maior a conheça. Ainda assim, é preciso que se diga, um material acessível ou comercial jamais significa, no caso de Kacey, um cancioneiro óbvio ou previsível. Ao contrário, ao imprimir o seu vocal limpo, melodioso e afinado aliado aos arranjos eletrônicos e coloridos que emanam de cada uma das treze canções, a cantora transforma Golden Hour em um verdadeiro "caldeirão da música moderna", mas tudo sem deixar de lado a sua personalidade.



Tomemos como exemplo Butterflies - terceira canção do disco e primeiro single. Ao utilizar a figura da borboleta (e sua metamorfose até chegar a vida adulta) como metáfora para os relacionamentos consistentes que ganham força com o passar do tempo, Kacey apela para versos de grande riqueza e que fogem do lugar comum. Now you're lifting me up instead of holding me down / Stealing my heart instead of stealing my crown / Untangled all the strings round my wings that were tied (algo como Agora você está me erguendo, em vez de me conter / Roubando meu coração em vez de roubar minha coroa / Desenrolou todas as cordas em torno de minhas asas que estavam amarradas), narra a artista com naturalidade apaixonante. E como se não fosse suficiente, no esperto, multicolorido e divertido refrão, ainda brinca com a expressão "borboletas no estômago", fechando o ciclo para aquela que, muito provavelmente deverá ser a música do ano para diversas publicações.

O expediente se repete outras vezes em músicas que falam sobre existencialismo (Oh, What a World), solidão (Lonely Weekend), liberdade nos relacionamentos (Space Cowboy) e sentimentos ambíguos (Happy and Sad). Aqui e ali é possível perceber como o registro alterna momentos mais sorridentes (a já citada Butterflies) e outros mais reflexivos (como no caso da inaugural Slow Burn). Mas o sentimento que temos ao escutar o disco é o de que as canções parecem estar conectadas como se formassem, juntas, um panorama dos relacionamentos, suas idas e vindas, da euforia a tristeza, da alegria a lamentação, numa espécie de "tecido" que forma a existência de cada um de nós. E que dialoga de maneira fácil, direta, descomplicada. Escutar Golden Hour é, verdadeiramente, experienciar uma "hora dourada". Assim como são aqueles momentos únicos com quem gostamos ou em que fazemos aquilo que nos dá prazer. É o tipo de sentimento que nos ocorre ao ouvir um dos discos do ano. Justamente o caso deste.

Nota: 9,3

quinta-feira, 15 de março de 2018

Disco da Semana - Buffalo Tom (Quiet and Peace)

Se existe um sonho para os fãs de música que tornou-se realidade nos últimos anos foi poder ter literalmente na palma da mão a possibilidade de ouvir e adquirir praticamente toda a música produzida por seus artistas favoritos. Além do mais, uma enxurrada de descobertas dia após dia de novos artistas e uma imprensa musical online fervilhante sedenta por novidades, torna a experiência de quem acompanha a cena ainda mais intensa - e, por vezes, agoniante: como ouvir tudo que é lançado? O tempo disponível é suficiente para uma imersão adequada à cada obra trabalhada com tanto esmero e por tanto tempo? Tais pensamentos me vieram à cabeça durante a audição de Quiet and Peace, nono e mais recente lançamento dos veteranos do Buffalo Tom.

Lembro com carinho quando, em meados dos anos 90, ficávamos vidrados assistindo à MTV esperando o clipe de nossas bandas favoritas - isso muito antes de o Youtube existir. Como não lembrar do reverendo Fábio Massari e seu programa Lado B, que viria a me apresentar muitas bandas que ainda hoje me inspiram a consumir e fazer música? Como esquecer da primeira vez que vi o clipe de Taillights Fade, do Buffalo Tom, com toda a sua energia e emoção? E da experiência que o trio de Boston me proporcionou com a beleza da balada Wiser? Que dificuldade que era para obter os discos sem ter que recorrer aos altos valores de importação ou achar o mesmo em uma cesta esquecida e ignorada por muitos - um tesouro ali escondido.


Faço todo esse preâmbulo saudosista para justificar a inclusão de Quiet and Peace em nosso Disco da Semana. O que me levaria a indicar esta obra para alguém, visto que não é um "retorno triunfal" da banda (que nunca deixou de lançar bons discos), é justamente sua capacidade de evocar lembranças, um conforto de pisar em terreno conhecido mas amadurecido pelo passar do tempo. Se o título refere a "silêncio" e "paz", para um grupo que sempre fez uso do rock com uma intensidade poucas vezes vista, isso não significa que Bill Janovitz, Chris Colbourn e Tom Maginnis tenham pisado no freio desta vez - pelo menos, não da forma sugerida. Violões quase onipresentes em companhia das guitarras, algumas baladas a mais do que o usual, backing vocals femininos, um pianinho e teclados aqui e acolá, realçam ainda mais a beleza das canções que valorizam a identidade sem camuflar o estilo peculiar do grupo.

All Be Gone inicia o álbum com um rock direto e empolgante, uma estrutura familiar aos fãs da banda, com o vocal de Janovitz emulando (embora de forma não intencional, creio eu) um Bob Mould (ex Husker Dü) em sua carreira solo e uma letra agridoce que valoriza a vida ao pensar na morte - um tema comum à obra e a todos aqueles que já viveram por um bom tempo nesse planeta. Overtime é daquelas canções atemporais e lindas que parecem passar tão rápido que nos fazem querer não sair mais de lá. Roman Cars traz o baixista Chris Colbourn nos vocais, sempre mais doces, o que torna possível a comparação com Teenage Fanclub. CatVMouse e a balada See High the Hemlock Grows também trazem os vocais do baixista com a habitual delicadeza - principalmente nesta última. Freckles é Buffalo Tom na sua melhor forma, canção que vai crescendo até seu clímax bastante intenso, lembrando clássicos do grupo como Mineral e Larry. Janovitz mostra não ter perdido a energia com Lonely Fast and Deep, um rockão direto e acelerado, e inclusive naquelas com andamento mais lento, caso das belas In the Ice e Least That We Can Do. Para fechar temos a melancólica Slow Down, com sua letra edificante, e a cover Only Living Boy in New York (de Simon & Garfunkel) que mantém a pegada acústica da original.

Um presente para os nostálgicos, um acalanto para as novas gerações que vem testemunhando uma crescente de ódio e intolerância, Quiet and Peace é uma obra que nos entrega um lugar familiar ao qual sempre poderemos retornar - empolgante e reconfortante na medida certa, agridoce como só o passar do tempo e a experiência é capaz de nos tornar. Amadurecer sem perder a ternura jamais, em uma caminhada onde não estamos sós, é o que torna a arte e obras como essa tão essenciais.

Nota: 8,5