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quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Pitaquinho Musical - Big Thief (Double Infinity)

"Essa música surgiu como tantas outras, sem pensar muito". Vamos combinar que se fosse outra artista falando essa frase, que não a Adrianne Lenker, e ela poderia soar apenas presunçosa. Mas não é o caso da vocalista do Big Thief, porque é simplesmente impressionante a capacidade dela - e de sua banda - de simplesmente produzirem grandes canções, sem que haja um grande esforço. Com o resultado sempre sendo uma coleção impecável de discos, que tem por marca aquele indie folk encharcado, meio diluído em névoa, que se torna gigante não pelo grande aparato tecnológico, mas sim pela sua total discrição. Tudo soa moderado, mas rigoroso. "É uma canção espiritual sobre fazer amor. É sobre tirar essa vergonha dos nossos corpos, do nosso sexo, da nossa cultura", comentou ao site inglês INews, a respeito de All Night All Day, a tal canção feita sem "muito pensar", que integra o recente Double Infinity.

 


Ainda assim, é importante reiterar que simplicidade - talvez pudesse ser chamado também de conforto - nunca significa negligência. Em momento algum a sonoridade soa opaca demais, sem brilho ou personalidade. Ao contrário, mesmo quando o agora trio (após a saída do baixista Max Oleartchik), formado ainda por Buck Meek e James Krivchenia, fala de temas cotidianos e nostálgicos, como no single Incomprehensible, que aborda o medo de envelhecer e a efemeridade da juventude (Daqui a dois dias vou fazer aniversário e vou fazer trinta e três / Isso realmente não importa diante da eternidade), tudo soa maior, mais estofado. Com um toquezinho de psicodelia meio mágica, reforçada pela cítara que aparece um canções como Grandmother, o álbum poético até dizer chega, é daqueles que cresce a cada audição. Evidentemente, sem que haja qualquer esforço.

Nota: 9,0 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Pitaquinho Musical - Big Thief (Dragon New Warm Mountain I Believe In You)

Existe algo mágico na hora de ouvir os discos do Big Thief que torna a experiência com a banda meio celestial, quase mística. E não é que haja grande elaboração nos arranjos ou nas melodias - ainda que estas sejam executadas de forma soberba. Ou que as letras sejam concebidas como se estivéssemos diante de uma espécie de Walt Whitman da nova geração. Não. Mas ainda assim a força de um trabalho como Dragon New Warm Mountain I Believe In You - o quinto de estúdio - parece estar na simplicidade semi-acústica de quase tudo, no instrumental econômico e direto e na perfumaria nostálgica encontrada nesse roteiro meio bucólico, meio transcendental. Sim, porque de alguma forma não deixa de ser impressionante a forma bastante descritiva que Adrianne Lenker e companhia promovem uma viagem que divaga sobre recordações de infância, amores mal resolvidos, ciência de almanaque, ETs, riachos, átomos, cachoeiras, criaturas aladas, luas e estrelas, sangue, febre, árvores, prismas, cavalos e anjos. Durante as 20 faixas o que encontramos é uma enxurrada que verte de forma tão aleatória quanto calorosa, enquanto o vocal excêntrico e quase no limite da desafinação da vocalista nos envolve, nos abraça. Em meio a tudo parece que nos reencontramos com algo meio sem saber direito o quê. Se está na dúvida experimente Red Moon, Wake Me Up to Drive ou No Reason. Você vai querer ouvir o resto, pode ter certeza.



terça-feira, 15 de outubro de 2019

Disco da Semana - Big Thief (Two Hands)

Existem coisas que raras vezes acontecem no mundo da música e das artes em geral. Um artista no topo de sua habilidade criativa de alguma forma amplia sua capacidade de produzir, potencializando características esboçadas em seus trabalhos anteriores e desenvolvendo uma identidade incrivelmente própria. E mais: em um período menor que seis meses consegue trazer ao mundo duas obras que estão entre os mais impactantes lançamentos do ano! Esse é o caso da banda americana Big Thief que, após o incensado e elogiadíssimo U.F.O.F. nos brinda agora com este maravilhoso Two Hands. Se no primeiro havia um clima mais "espacial" no indie/folk/rock praticado pelo grupo, no segundo a banda capitaneada por Adrianne Lenker recorre à simplicidade como grande trunfo de suas poderosas canções.

Como nos grandes discos que conseguem captar a atmosfera do local onde a banda se encontra, em Two Hands vemos uma banda em plena capacidade de execução e expressão dos sentimentos decorrentes das composições. Ao optar por um som cru sem muitas aparas e imperceptíveis overdubs, a sensação é a de estarmos assistindo ao ensaio de dentro do estúdio. E é aí que a mágica acontece de verdade. Bateria, baixo, violão, guitarra, o vocal peculiar de Lenker, são fatores a princípio pequenos mas que em conjunto resultam em algo difícil de explicar em palavras. E sabemos que quando nos maravilhamos com algo palavras geralmente nos faltam. Se no anterior sons nos remetiam a uma certa estranheza, como se estivéssemos em um lugar desconhecido, é no clima de familiaridade que somos acolhidos neste mais recente lançamento. E sabemos que a simplicidade requer muito trabalho para ser atingida.


Na introdução com Rock and Sing já podemos sentir a tristeza característica da voz de Lenker, bem como sua letra melancólica que nos convida a fazer exatamente o que o título diz. Funciona como uma leve (e breve) introdução preparando o terreno para a fabulosa Forgotten Eyes, cujas guitarras lembram um pouco Neil Young and Crazy Horse, onde Lenker brilha com sua voz ao mesmo tempo poderosa e vulnerável que contrasta com doçura no refrão. Uma das grandes canções do ano. The Toy é triste e climática enquanto Two Hands é formidável em sua execução - a maneira como a percussão, os instrumentos dedilhados e o vocal se encaixam é algo que beira o sublime em seu desabafo agridoce sobre um relacionamento difícil. Those Girls segue com delicadeza instrumental e vocal frágil enquanto Shoulders e a seguinte, Not, trazem as guitarras novamente à tona dando um clima mais roqueiro e intenso ao disco num de seus melhores momentos, peso esse que é complementado pelas letras viscerais de Lenker. Wolf ainda traz guitarras dedilhadas e a dupla final, Replaced e Cut My Hair, encerram o álbum em uma nota mais calma e melancólica.

O finado (e saudoso) Jeff Buckley certa vez declarou: "Ser sensível não é o mesmo que ser fraco. Significa estar tão dolorosamente atento que mesmo uma pulga pousando sobre um cão soaria como uma explosão". Ao nos depararmos com obra de tamanha sensibilidade é importante algo que chamo de contexto musical: sabe quando você ouve o disco certo no momento certo? Quando parece que alguma força além da compreensão te faz entrar em contato com aqueles sons, melodias, e parece que você está na companhia de amigos que te afagam mas ao mesmo tempo te jogam verdades doloridas (e purificadoras) na cara? Que você sente que amadureceu um pouco mais ao final da jornada? Pois é exatamente isso que aconteceu comigo durante a audição deste soberbo Two Hands. Uma obra difícil de se livrar e quando você se dá conta já colocou no repeat, ouviu dezenas de vezes, e aquilo foi se entranhando no inconsciente num crescendo cada vez maior. É algo raríssimo de acontecer - e muito especial. O disco do ano até agora.

Nota: 10