segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Pra Ouvir - Violins

Hoje, no quadro Pra Ouvir, vamos falar de uma das melhores bandas que já passaram aqui pela redação. A Violins, formada em 2001 em Goiânia, mesmo com mais de dez anos de carreira, teve uma divulgação modesta frente ao público - reflexo da produção totalmente independente e a ausência de um marketing mais agressivo - o que não diminui de forma alguma a qualidade de sua extensa e variada obra. Originalmente batizada como Violins and Old Books, a banda, liderada por Beto Cupertino, compunha em inglês. Porém, não tardou para que houvesse a transição das letras para o português, com o nome sendo reduzido para apenas Violins, o que criou uma identificação maior para com o público brasileiro.
Resumir a obra do grupo é extremamente difícil, dada a variação temática e sonora de cada álbum. Dá pra dizer que cada disco é, desde a arte, produção, sonoridade e conteúdo, uma obra conceitual, que deve ser absorvida como um todo. E as letras então são um espetáculo a parte, estando sem dúvida entre as melhores da música nacional em todos os tempos! Por isso, faremos abaixo uma breve retrospectiva de sua discografia (que pode ser baixada gratuitamente no site oficial).


Aurora Prisma (2003)

O primeiro disco foi produzido inteiramente pela própria banda. E por sinal é bem ambicioso, com orquestrações, músicas longas, que devem ter dado um trabalhão na mesa de edição. Como disse Cupertino em uma entrevista: "a gente desistiu da mixagem", de tantos detalhes a acertar para uma banda relativamente inexperiente com o trabalho em estúdio. Apesar do vocalista não aprovar totalmente o resultado final, o mesmo impressiona, apesar das óbvias limitações sonoras que seriam corrigidas nos discos posteriores. De temática lírica, é um disco que fala de amor e possui uma melancolia típica da passagem pra fase adulta. Os vocais são sinceros e, embora ainda um tanto exagerados em alguns momentos, há de se admirar a entrega de Beto às interpretações. Não sei porque o álbum não está disponível para download no site oficial, visto que até hoje é o favorito de muitos fãs. Ouça: Auto-Papparazzi, Feche seu Corpo, Deus Você, Ocidente/Oriente.


Grandes Infiéis (2005)

Produzido pelo gaúcho Iuri Freiberger, é um disco que dá uma guinada considerável em temática e sonoridade. Com maior ênfase nas guitarras - porém sem perder o senso melódico - trata de um tema mais delicado, como o próprio título indica: a infidelidade. Não somente a amorosa, mas sob uma perspectiva mais ampla. Os vocais aqui estão mais contidos, os timbres mais trabalhados, e as letras melhores do que nunca. Não à toa, o álbum foi considerado por diversas publicações independentes como um dos melhores discos brasileiros do ano de seu lançamento. Contando com um excelente trabalho gráfico (a capa é belíssima), pode ser considerado um clássico do rock nacional, introduzindo as letras polêmicas que seriam exploradas com maior intensidade no álbum seguinte. Ouça: Il Maledito, Atriz, Ensaio Sobre a Poligamia, Vendedor de Rins.


Tribunal Surdo (2007)

O disco mais polêmico da banda. De temática "pesada", narra personagens em situações bisonhas da vida sob a ótica dos mesmos - sem julgamentos. Criminalidade, violência doméstica, preconceitos, ódio, guerras, acidentes automobilísticos, tudo faz parte do cardápio de temas abordados aqui. As letras mudam drasticamente em relação aos trabalhos anteriores, aparecendo aqui de forma crua, direta e, por isso mesmo, mais provocativas. Nem todo mundo entendeu a ironia das canções: reza a lenda que o primeiro hit do disco, "Grupo de Extermínio de Aberrações" foi censurada em uma rádio goianense por suposta apologia da violência. A produção ajuda a dar a roupagem "suja" tão necessária ao conceito do disco: guitarreira, timbres vintage e vocal enterrado na mixagem - aposta inteligente, contrastando o vocal doce de Cupertino com o conteúdo chocante das letras. Um disco ousado, provocador e, por isso mesmo, um clássico sem precedentes no rock nacional. Ouça: Anti-Herói pt. 1, Campeão Mundial de Bater Carteira, Grupo de Extermínio de Aberrações, Manicômio.


A Redenção dos Corpos (2009)

Baixando um pouco a bola em relação ao disco anterior, aqui a banda explora uma temática mais filosófica, reflexiva, barroca. A questão religiosa está bem presente na grande maioria das letras que, através de metáforas, questionam a presença (ou ausência) de Deus e nossas motivações na busca por ele. Dividido em duas partes, é um álbum bonito e rico liricamente: a primeira parte consiste em composições com violões e teclado, já a segunda tem a presença da banda inteira, com as músicas mais roqueiras tão características - embora sem o peso e sujeira dos dois discos anteriores. Contando ainda com reflexões sobre o fazer artístico, é um disco desafiador que merece uma audição cuidadosa e paciente, de preferência com as letras, para uma recompensa maior. Ouça: Rei Pornô, Manobrista de Homens, Entre o Céu e o Inferno, O Fim da Música como Arte.


Greve das Navalhas (2010)

Segundo palavras do próprio vocalista, Greve das Navalhas é um disco sobre "o fim do mundo, mas de forma otimista". Novamente a banda alcança aqui um tema não abordado anteriormente, o apocalipse, neste que é o seu trabalho mais super produzido. Com uma sonoridade "grande", dá ênfase ao trabalho de estúdio, com guitarras bem dosadas e melodias que remetem às características dos outros trabalhos, além de alguns efeitos eletrônicos. Mas temos novidades aqui também: alguns vocais gritados e até frases em inglês em algumas canções chamaram a atenção dos fãs. A faixa Tsunami narra o desastre igualmente demonstrado no filme O Impossível, sendo um dos destaques mais originais do disco. Ouça: Um Só FatoComercial de Papelaria, Tsunami, Morte da Chuva


Direito de Ser Nada (2011)

Se eu tivesse que escolher apenas um disco pra que as pessoas conhecessem o Violins, seria este: é a prova cabal de que menos pode ser mais. Redondinho, breve, direto ao ponto, radiofônico, Direito de Ser Nada é um álbum extremamente agradável de se ouvir. Os possíveis excessos de trabalhos anteriores foram aparados aqui, gerando um trabalho impecável que inexplicavelmente não alcançou os grandes veículos de comunicação. É mais variado tematicamente e as letras continuam com a qualidade conhecida. Dia desses soube que até a Rádio Univates estava tocando músicas deste álbum, o que me deixou muito feliz. Uma excelente porta de entrada para toda a complexidade que o grupo tem a oferecer, preparando o terreno para os desafios subsequentes. Um discaço! Ouça: É Como Está, Rumo de Tudo, Do Combate, O Grande Esforço.


Violins (2012)

Canto do cisne do Violins, o álbum homônimo deu por encerrada as atividades de um grupo que deixou uma série de fãs, que esperavam ansiosos pelos seus frequentes lançamentos, órfãos. A divulgação foi escassa e não houve aqui sequer lançamento de disco físico, tendo sido logo disponibilizado para download no site oficial. A temática principal aqui é a política, com um retorno sensível às letras ácidas que fizeram parte do segundo e terceiro álbuns. Embora a qualidade não seja a mesma dos trabalhos anteriores, a audição ainda reserva diversas pérolas que certamente agradaram aos ouvintes. Uma despedida digna de uma banda que deixou (e deixará) saudades. Ouça: A Questão do Chão, Nenhum Johnny Depp, A Marcha, Pra Testar os Dentes.

Felizmente, Beto Cupertino e Pedro Saddi (tecladista da Violins) estão com um novo projeto na praça: a banda Tonto. Uma proposta diferente, sem guitarras - a formação consiste em bateria, baixo, e dois teclados - e que certamente agradará aos fãs da boa música. Fica a dica!

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