quinta-feira, 30 de julho de 2015

Disco da Semana - Kacey Musgraves (Pageant Material)

Quando se faz a análise de um produto cultural, qualquer que seja, é preciso que se separe, fundamentalmente, o gosto pessoal do resultado daquilo que está sendo avaliado. Por exemplo, eu não gosto de heavy metal. Mas nem por isso eu ignorarei as virtudes de algum eventual novo disco do Megadeth ou do Slayer, apenas por não apreciar o estilo. O mesmo vale para o cinema. Sempre fico com um pé atrás em relação aos filmes de terror. Não sou muito dessa categoria, apesar de saber da existência de excelentes obras no segmento. Mas vou avaliá-las mal por isso? A nota será menor do que cinco, invariavelmente? Evidentemente que não e eu até nem procuro fazer muitas análises do gênero por aqui, justamente para que o produto final não fique comprometido pela subjetividade que, vamos combinar, pouco contribui nesse processo.

Bom, e o que todo esse blablablá - até parece que quem está falando aqui é um crítico DE VERDADE - tem a ver com o novo disco da cantora americana Kacey Musgraves - segundo, depois do elogiado Same Trailer Diferent Park, de 2013 -, intitulado Pageant Material? Bom, trata-se do mais puro sertanejo - ou country, se preferirem - americano. E não é só isso: de quebra, a texana ainda é resultado de um reality show para escolher artistas novatos (nos moldes do tal Superstar da Rede Globo), no caso o programa Nashville Stars, exibido pelo canal USA Networks. Bom, dado todo esse contexto, você, leitor médio (um dos seis) do Picanha já deve estar pensando: deve ser uma M****, certo? Errado. Aliás, muito errado! Kacey não apenas envolve e aconchega com sua voz doce, com seu canto melodioso e de refrões fáceis, como ainda concebe um daqueles discos que, sem exagero, tem tudo para figurar em listas de melhores do ano.



E, vejam bem, aqui está falando alguém que não é lá muito chegado no estilo (brasileiro), hoje conhecido por sertanejo universitário. Mas o que Kacey faz está muito distante daquele clima "vou pra balada pegar (e beber todas), tô solteiro mas tô feliz, não me quis, tem quem queira" - por favor, não me levem a mal os amigos que gostam! Digamos que  a artista estaria muito mais uma Paula Fernandes. Mas com MUITAS doses a mais de Johnny Cash, Loretta Lynn, Emmylou Harris ou mesmo Bob Dylan (não conjunto da obra, mas nos detalhes). Ou, até mais recentemente, nomes Shania Twain, Taylor Swift e Lady Antebellum, da qual Kacey abriu shows, em início de carreira, quando da realização de turnês pelo Reino Unido. Como boa texana, a compositora não apenas se apropria das referências, como as transforma em um produto absolutamente irresistível, daqueles capazes de te acompanhar por horas e horas de audições.

Faça um teste: pegue uma canção como Biscuits - a primeira de trabalho - que tem aquele clima de rodeião do interior, com letra divertida e esperta e experimente ficar alheio. É absolutamente impossível. Musgraves abraça o ouvinte. O convida a participar, alternando momentos mais melancólicos ou reflexivos, como em Fine ou Family is Family, com outros mais movimentados e igualmente belos e magnéticos, como Dime Store Girl, Late to the Party e a já citada Biscuits. O clima rural - que chega a fazer lembrar algumas composições de veteranos como John Denver ou Neil Young - está presente não apenas nos violões, mas em todos os arranjos, letras e trabalho vocal. É divertido, leve, radiofônico e sem perder a elegância. E tem sido bem recebido pela crítica em geral - o Pitchfork, sempre tão exigente, deu nota 8,0. O Miojo Indie, 8,5. E, nós, aqui no Picanha, assinamos embaixo.

Nota: 8,5

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