sábado, 29 de abril de 2023
15 Filmes Sobre Questões de Trabalho ou de Relações Entre Patrão e Empregado
sexta-feira, 28 de abril de 2023
Tesouros Cinéfilos - Phoenix
De: Christian Petzold. Com Nina Hoss, Ronald Zehrfeld e Nina Kunzerdorf. Drama, Alemanha, 2014, 98 minutos.
"O tempo é tão antigo e o amor tão breve / O amor é ouro puro e o tempo um ladrão / Estamos atrasados querido, estamos atrasados / A cortina desce, tudo termina cedo demais". É simplesmente impossível não abrir um largo sorriso enquanto assistimos à cantora Nelly (Nina Hoss, vista recentemente em Tár), em uma interpretação da canção Speak Low, escrita por Kurt Weill e Ogden Nash, em 1943, já nos instantes finais de Phoenix - essa pequena obra-prima do cinema moderno dirigida por Christian Petzold (do ótimo Em Trânsito, 2018), e que está disponível no Mubi. Esse, ao cabo, é um daqueles momentos de elevação, capazes de converter o cinema em arte. Tudo se fecha, afinal, com a enigmática letra da música servindo não apenas como um mero acessório sem função, mas como uma metáfora mais do que perfeita para tudo aquilo que assistimos até então. "Fale baixe enquanto você fala amor / Nosso dia de verão murcha muito cedo". É um aviso. Um alerta.
Até aquela altura da trama, tudo parecia ser apenas ambiguidade dentro daquele contexto de pós-guerra. Nelly é uma jovem que sobreviveu aos campos de concentração, mas teve o seu rosto desfigurado durante um ataque. Ela não morreu, mas seu marido Johnny (Ronald Zehrfeld) pensa que ela não está viva, enquanto serve uma ou outra garrafa de bebidas na boate que dá nome ao filme. Determinada à retornar à Berlim, Nelly passa por um severo procedimento cirúrgico que reconstrói sua face. O objetivo é o de tentar ficar o mais próximo possível de como era a sua aparência. O médico alerta de que talvez essa seja a oportunidade para um novo rosto, que deixe as marcas - da guerra, dos preconceitos - para trás. Tudo é acompanhado de perto pela leal amiga Lene (Nina Kunzerdorf), que funcionará também como uma conselheira, que a adverte sobre os riscos que envolvem um reencontro com o, agora, ex.
Vagando como um fantasma ressuscitado por Berlim, a protagonista reencontra Johnny, que não a reconhece - mas acha curioso o fato de ela ser muito semelhante à sua "falecida" esposa. E, diante desse fato, resolve bolar um plano à moda dos filmes de Hitchcock que, aqui, têm a adição de uma pitada meio noir, e que envolve a grana que Nelly tem para receber como uma espécie de benefício/herança (da sua casa só restaram escombros). A ideia é fazer com que Nelly se passe por... ela mesma, para que o dinheiro possa ser obtido. Sendo posteriormente dividido entre os dois. E, nesse cenário, não deixará de ser comovente o esforço de Nelly em reencontrar o amor, essa paixão perdida pelo ex-marido (com quem dividia a vida e os palcos, já que ele era pianista e ela cantora), ao passo em que o sujeito só enxergará nela a oportunidade de faturar uma grana.
Misterioso, o filme nos conduz para uma experiência que nos confunde e nos deixa em dúvidas com as suas idas e vindas. Com a situação chegando ao limite conforme Nelly avança de forma gradativa na construção da personagem dela mesma - e não deixa de ser impressionante notar o fato de que, quanto mais iluminado seu rosto fica, mais próxima de subverter suas decisões para bem longe de certa lógica, ela parece estar. É um rosto que brilha externamente, enquanto internamente algo esvanece. Ela está murchando, mas crescendo em igual medida. Em certo momento surge sedutora. Mas indecifrável. Esse vai e vem de incertezas é apenas a cereja do bolo de uma obra que brilha ao, nas suas entranhas, discutir a independência da mulher e a capacidade de seguir seu caminho sem necessariamente estar atrelada a um homem. O filme é feminista? Não sei dizer. Mas o final, sem romantismo exacerbado, é de uma delicadeza e de um vigor inebriantes. Que tornam impossível ficar alheio.
quarta-feira, 26 de abril de 2023
Novidades em Streaming - Minhas Férias com Patrick (Antoinette Dans les Cévennes)
terça-feira, 25 de abril de 2023
Novidades em Streaming - Um Filho (The Son)
De: Florian Zeller. Com Zen McGrath, Hugh Jackman, Vanessa Kirby, Laura Dern e Anthony Hopkins. Drama, EUA, 2022, 123 minutos.
Em uma das raras cenas efetivamente bonitas - na falta de outro adjetivo - de Um Filho (The Son) o jovem Nicholas (Zen McGrath) dança junto com seu pai Peter (Hugh Jackman) e com sua madrasta Beth (Vanessa Kirby) ao som de It's Not Unusual de Tom Jones. O cenário é o apartamento de Peter e ali está rolando uma tentativa meio desajeitada de aproximação entre os três - naquele ponto a relação já está um tanto complicada, por conta da sensação de abandono e da consequente depressão severa que assola a alma de Nicholas. Aliás, uma grave doença que, em muitos casos, é difícil determinar exatamente de onde vem. Na mesma cena a câmera lenta foca Peter e Beth bastante animados enquanto movem o corpo para, imediatamente após, um travelling colocar Nicholas em primeiro plano, paralisado, com os olhos fixos em lugar indefinido. É a forma criativa que o diretor Florian Zeller encontrou para dizer ao espectador que o jovem pode até estar ali. Mas somente de corpo. Sua mente, ao cabo, está em outro lugar.
E é justamente o dilema de como lidar com um filho com um grave problema psicológico, que está no centro da narrativa dessa espécie de continuação de Meu Pai (2020) - ambas adaptações de peças teatrais do próprio Zeller (a primeira, aliás, vale lembrar, rendeu o Oscar de Roteiro Adaptado e de ator para o veterano Anthony Hopkins). Só que tudo que a experiência anterior parecia ter de empática e compreensiva com a doença do idoso à beira da demência vivido por Hopkins, se dilui em um caleidoscópio de tentativas e erros que parecem apenas frustrantes ao tentar apontar quais as origens da depressão do jovem. E eu não sei, sinceramente, se isso é muito saudável para quem está do lado de cá da tela. Conforme o filme avança, descobrimos que Peter trocou a ex-esposa Kate (Laura Dern) pela jovem Beth. Uma tentativa de dar um novo rumo pra própria vida e tentar ser feliz? Ou apenas egoísmo de um pai de família, que se refletirá em uma carga de dor sem fim nos ombros do filho (como por vezes a obra parece direcionar)?
Ainda assim, ao menos o filme foge do clichê totalmente formulaico do péssimo pai - não que Peter seja um exemplo em tudo -, que resultará em um filho traumatizado. Nos flashbacks não há cenas de agressões físicas ou psicológicas, de bebedeiras ou de qualquer sequência derivativa de instabilidade parental que é típica do gênero. Ao contrário. Em certa altura somos brindados com um belo instante onde o trio está em um passeio de barco em um dia ensolarado - o chapéu de Kate, que surge exuberante na proa, voa para longe. Todos riem. Na sequência, Peter está com o filho que não deve ter mais do que seis anos dentro da água, ensinando-o a nadar. Um esforço bonito, comovente. Um momento alegre de pai e filho, no estilo daquele meme do pai que fica genuinamente feliz ao ver o seu pequeno dar as primeiras pedaladas de bicicleta. Alegrias, tristezas, anseios, sonhos, decepções. A vida é um turbilhão e ninguém nunca estará efetivamente preparado para os acontecimentos. E um dos acontecimentos é que Peter e Kate se separam sem muita explicação. E mais adiante Nicholas para de ir às aulas. O que se soma ao fato de não ter amigos, não ter interesses. "A vida está me pesando. Quero que algo mude mas não sei o quê", clama em certa altura o adolescente.
Ok, se o objetivo do filme era chamar a atenção (ou horrorizar) os pais para os perigos da depressão adolescente e da necessidade de uma permanente "vigilância" pautada pelo diálogo e, especialmente, por tratamentos terapêuticos e com medicamentos, dá pra se dizer que a obra tem seu ponto. Não dá pra virar as costas e achar que é apenas mimimi - e a cena em que Anthony Hopkins aparece, quase resvala no chavão do "na minha época era bem pior e olha como estou agora". Mas ao mesmo tempo me deixou meio incomodado a persistência da ideia do trauma impossível de lidar, ser oriundo de um divórcio entre pais que eram felizes juntos e, agora, não são mais. Reduzir a existência de qualquer fiapo de felicidade de Nicholas a condição de ver os pais casados me parece pequeno. E quase injusto com todos ali. Mas o caso é que a depressão muitas vezes não têm muita explicação, sendo capaz de assolar mesmo aqueles que consideraríamos estar em uma vida boa, confortável. Fazer filme sobre o tema é difícil. É um assunto tabu. E nem sempre o resultado será totalmente a contento. E aqui temos um meio termo: nem o desastre que parte da crítica está apontando. Nem a exuberância da obra anterior de Zeller. Vocês, como sempre, estão convidados a assistir - está disponível no Now e em outras plataformas. E a dar o veredicto.
Nota: 6,5
Pitaquinho Musical - Kara Jackson (Why Does the Earth Give Us People to Love?)
"Por quê a terra nos dá pessoas para amar? / Para em seguida levá-las embora, para fora de nosso alcance?". A pergunta melancólica e de tom filosófico feita durante a execução da faixa-título do álbum de estreia de Kara Jackson não é por acaso. As dores do mundo - aquelas dores mais cotidianas e que em muitos casos não nos parecem ser objeto de uma reflexão mais consciente - formarão a matéria-prima de boa parte das 13 canções de Why Does the Earth Give Us People to Love? Qual o sentido de tudo isso? "Estamos apenas esperando a nossa vez?". questiona a artista enquanto seu violão flui como uma espécie de extensão evocativa do completo absurdo do luto. Algo que, somado a sua voz angustiada, apenas amplia o sentimento de vazio. Sim, Jackson pode ser apenas uma jovem de 23 anos, nascida em Illinois. O que não significa que ela esteja imune às perdas.
E perdas aqui podem também ter um sentido meio literário. E literal. Ou estarem diretamente relacionadas ao amor - e suas desilusões, paixões desastradas estrada afora ou sentimentos desajeitados cidade adentro. "Quando eu tiver limpado meus lençois / Não venha me ligar para ver que / Não sou tão maternal / Não vou beijar sua bochecha" afirma em Free, num misto de deboche e sobriedade que envolve adultos infantilizados e, aparentemente, incapazes de entregar uma paixão mais madura. O expediente se repete em Therapy ("Todo homem pensa que eu sou a porra da mãe dele"), o que dá uma dimensão da quebra de expectativas que envolvem histórias do tipo. Como se fosse uma poeta já experiente, Jackson se apropria desses temas com elegância, mesclando estilos como blues, alt country e folk, reafirmando o poder da mulher - e da mulher negra. "Todas as pessoas com quem namorei / Me dizem que sou intimidante" resume de forma espirituosa em no fun/party. De tirada em tirada, quem ganha é o ouvinte.
Nota: 8,5
segunda-feira, 24 de abril de 2023
Cinema - Broker: Uma Nova Chance (브로커)
De: Hirokazu Koreeda. Com Lee Ji-Eun, Song Kang-Ho, Gang Dong Won e Bae Doona. Drama, Coréia do Sul, 2022, 129 minutos.
Quem acompanha a carreira do diretor Hirokazu Koreeda sabe que, no cerne de muitas de suas obras, costuma estar a completa desconstrução do conceito de família - ao menos num sentido mais tradicional do termo. Foi assim com os premiados Ninguém Pode Saber (2004), Pais e Filhos (2013) e Assunto de Família (2018). É assim também com o recente Broker: Uma Nova Chance (브로커), que está em cartaz nas salas do País. A trama não poderia ser mais intrincada, se espalhando como um emaranhado que, no fim das contas, nos deixa num universo de incertezas em relação ao que seria a decisão correta a se tomar em determinadas circunstâncias. Tudo começa em uma noite chuvosa, sombria. A jovem So-young (Lee Ji-Eun) se aproxima de uma Igreja para deixar um bebê - seu próprio filho - em uma espécie de caixa (algo tipo um abandono "institucionalizado"). Junto ao pequeno, apenas um bilhete com a promessa de que ela voltará.
Ela volta. Já no dia seguinte, quando ela descobre que o bebê já está em posse da dupla Sang-hyun (Song Kang-Ho, visto em Parasita, 2019) e Soo-dong (Gang Dong Won). O primeiro é o proprietário de uma lavanderia que, nas aparências, atua como um voluntário da paróquia. O segundo é o responsável por um esquema que rola por baixo dos panos e que envolve o tráfico de bebês - com o conhecimento e a conivência do primeiro. Nesse meio tempo So-young chamou a polícia, que passa a investigar o caso nos bastidores. E como se já não bastasse toda a complexidade do caso, a jovem protagonista, sem ter muito pra onde ir, resolve se juntar à dupla na missão de tentar encontrar pais adequados e que estejam dispostos à adotar seu próprio filho. A ideia por trás é de que os investigadores possam efetuar o flagrante. Enquanto acompanhamos a peregrinação do trio e do bebê, que mais adiante passarão a ter a companhia ainda do pequeno Hae-jin (Im Seung-soo), um órfão fã de futebol que se junta a eles.
E por mais que no centro da narrativa esteja a ocorrência de um grave crime - o tráfico de seres humanos -, o que Koreeda faz, com sua habitual habilidade, é subverter a ordem quando a ideia é apontar mocinhos e bandidos. Quando tomamos contato com o passado da dupla central de trambiqueiros, descobriremos que eles também são órfãos. No mesmo orfanato em que esteve Hae-Jin. "Depois dos seis anos ninguém quer te adotar", lembra alguém. Nesse sentido, está totalmente equivocado o ideal de tentar encontrar pais amorosos e dispostos à criação de um filho, ainda que isso seja feito do ponto de vista completamente ilegal? Sim, é estranhíssimo pensar sobre isso, mas enquanto acompanhamos a aventura desse quinteto improvável, vamos nos dando conta de que família, talvez não necessariamente tenha a ver com laços de sangue. Aliás, uma ideia batida que, aqui, volta à baila, quando vemos todos ali se apoiando a partir do que lhes impôs o destino. Ainda mais em um mundo tão complicado como o que vivemos.
Ok, ninguém esqueceu da gravidade do assunto que acompanhamos no filme. Mas as circunstãncias não podem ser ignoradas - o que também determina, em partes, as ações de So-young, que envolvem ainda um outro crime cometido, este contra um homem que, muito provavelmente, teria abusado dela. Ao cabo, essa é uma obra que nos faz pensar sobre todas essas questões, mas de uma forma curiosamente leve - sem uma mão pesada, excessivamente moralista ou necessariamente panfletária por trás. Ao contrário, são tantos os momentos tocantes envolvendo aquele coletivo de desajustados que, no fim das contas, nos vemos torcendo para que todos ali possam ter o melhor destino. Do bebê ao dono da lavanderia - sem esquecer que todos ali são vítimas de um sistema maior. Em um momento em que reacionários insistem em desqualificar o ideal de família mais plural (ou menos convencional), o clamor por empatia parece falar mais alto nessa experiência ao mesmo tempo melodramática e inovadora. Quem conseguir quebrar os protocolos do julgamento pelo julgamento encontrará aqui um filmão. Que talvez até nos faça repensar a nossa visão sobre as famílias "improvisadas".
Nota: 8,5
terça-feira, 18 de abril de 2023
Novidades em Streaming - Até os Ossos (Bones and All)
De: Luca Guadagnino. Com Taylor Russel, Timothée Chalamet, Mark Rylance, Chloë Sevigny e Michael Stuhlbarg. Drama / Terror / Romance, EUA / Itália, 2022, 131 minutos.
Uma alegoria sobre pessoas à margem da sociedade que lutam para sobreviver? Ou "apenas" um romance de tintas gore sobre um casal que tem o canibalismo como estilo de vida? Metáfora para uma sociedade doente que tem por hábito excluir aqueles que considera diferentes (ou que não se encaixam em certo padrão)? Ou road movie sobre dois desajustados num esforço tão desesperado quanto poético - mais ou menos como o da dupla central de Assassinos por Natureza (1994), de Oliver Stone? Um pouco de cada coisa talvez. E é por isso que a arte é tão linda. Porque enquanto assistia Até os Ossos (Bones and All) ficava o tempo todo me perguntando "o que diabos o Luca Guadagnino tá querendo dizer?" Ali pelas tantas surgia algum discurso meio perdido de Ronald Reagan na TV - a trama se passa nesses desolados anos 80 de completo esfacelamento do sonho americano - e mentalmente eu já pensava "tá aí, é um filme político".
Só que ali adiante esse ideal já parecia ser quebrado, especialmente pelo comportamento excessivamente desequilibrado de certos errantes. Ok, o sistema é bruto e ele isola as minorias, sejam eles pretos, pobres, gays. Mas então qual é o sentido de converter, por exemplo, o personagem Sully (o sempre ótimo Mark Rylance) em uma espécie de vilão involuntário? Que resolve caçar a dupla de protagonistas - no caso Maren (Taylor Russel) e Lee (o onipresente Timothée Chalamet) - até o final? Ele também não é um excluído? Isso fez com que eu me desse conta de que talvez a coisa não fosse tão complexa assim. Ou era? No começo do filme, entendemos Maren como uma jovem recém-chegada à Virgínia. Está fazendo novas amigas, frequentando as aulas. A gente estranha quando seu pai tranca a sua porta à noite. A jovem foge e vai ao encontro das meninas, que estão fazendo uma reuniãozinha. A conversa é amena: música, festas, interesses juvenis e, bom, "você fez de novo" é a reação do pai ao saber o que Maren havia feito. É preciso fugir. Novamente.
Em linhas gerais, Guadagnino não se ocupa em tentar explicar por que Maren, Lee, Sully e outros são o que se chama de "comedores". Sim, comedores de carne mesmo. Carne humana, no caso. Eles apenas existem como desajustados que vagam de uma cidade para a outra, sendo capazes de se reconhecer pelo cheiro - que é justamente a forma com que o excêntrico Sully se aproxima da protagonista. Eles até podem se alimentar de comida normal. Mas não demora para que o desejo de ser uma espécie de Drew Barrymore em Santa Clarita Diet - aliás, uma das mais divertidas e inusitadas séries da Netflix - fale mais alto. Só que pra comer um ser humano é preciso, inevitavelmente, matá-lo. E aí, como faz? Tentando manter a coisa mais ou menos dentro de um código de honra, a dupla central adota o modo Yellowjackets somente quando acreditam estar diante de alguém que possua um código de conduta minimamente questionável. Mas e se a leitura for equivocada? Assim, é preciso fugir. Praticamente o tempo todo. De Estado em Estado da Costa Leste americana.
Abandonada pelo pai, Maren tem o sonho de conhecer a mãe Janelle (Chloë Sevigny) que, mais tarde, ela descobrirá estar passando por sérios problemas. E quem ali não está? Adotando uma fotografia levemente granulada que parece combinar à perfeição com os cenários bucólicos de estados como Ohio, Indiana, Missouri e Iowa, Guadagnino converte Até os Ossos em uma experiência sobre sobrevivência em meio a um contexto difícil, que escancara (ainda) de forma quase literal o ideal que envolve uma de nossas necessidades mais básicas como ser humano: a de comer. Visceral, o filme talvez exija um pouco de força de vontade do espectador, dadas as sequências com corpos mutilados, ossos expostos, bocas e roupas sujas com sangue e vísceras. Animalesco, selvagem, de certa forma grotesco, esse é um filme que mistura gêneros e que permanece conosco, após os créditos finais subirem. E que ainda possui uma excelente trilha sonora. O que o diretor de Me Chame Pelo Seu Nome (2017) quis dizer? Não consigo dizer com certeza. Só sei que a jornada é prazerosa. Aliás, estranhamente prazerosa.
Nota: 8,0






















