quarta-feira, 22 de maio de 2019

Tesouros Cinéfilos - O Corte (Le Couperet)

De: Costa-Gavras. Com José Garcia, Karin Viard e Ulrich Tukur. Comédia / Drama, Bélgica / França / Espanha, 2005, 117 minutos.

Quem acompanha a carreira do grego Costa-Gavras já sabe que o cinema político é o seu forte - como atestam obras fundamentais como Z (1969) e Estado de Sítio (1972). Com O Corte (Le Couperet) o diretor realizou uma debochada comédia, que leva ao limite o conceito de capitalismo selvagem, que faz com que as pessoas briguem o tempo todo pelos melhores postos de trabalho. A ideia de "eliminar adversários" na busca por uma vaga de emprego adquire, nesta ótima película, um tom literal quando o protagonista Bruno Davert (José Garcia) resolve que a solução para voltar ao mercado é assassinar os potenciais concorrentes para o mesmo cargo. Sim, é bastante nonsense, com a película flertando com o absurdo a todo momento. Mas a intenção é a de, metaforicamente, fazer a crítica a um sistema que se apresenta extremamente competitivo, fazendo com que as pessoas tomem medidas desesperadas na busca por um novo posto de trabalho.

Quem já esteve desempregado - alguém não esteve? - já sabe o quão desgastante é essa situação. Bruno, um executivo da área de produção de papel, está sem trabalho há mais de dois anos. E quanto mais o tempo passa sem algum retorno positivo das entrevistas que participa, mais o sujeito vai ficando amargo, desgostoso, ranzinza - a despeito do apoio incondicional que recebe da família, simbolizado pela esposa Marlene (Karin Viard). Quando a oportunidade real aparece, Bruno descobre uma brecha no sistema dos correios para desviar os currículos de outros candidatos à mesma vaga para a sua casa. Após analisar os documentos, ele percebe que concorre de forma real com outras cinco pessoas, que possuem capacitação parecida. É a partir disso que ele elabora o seu maquiavélico plano, que dará cabo de cada um de seus "adversários".


Em suas andanças, o protagonista perceberá que o mercado não anda fácil pra ninguém - e desde o começo dos anos 2000 não são poucas as notícias sobre o desemprego na Europa e que, na França, ultrapassa os 10% da população ativa. Um dos concorrentes de Bruno está trabalhando de garçom. Outros seguem buscando. E, aqui, Costa-Gavras também faz a crítica a uma classe média letárgica, que acredita que só pode trabalhar naquilo em que é hiperespecializado (e repare como Marlene se vira em diversos subempregos para tentar dar o mínimo de sustento para a casa e para os dois filhos). Bruno zanza pela cidade se transformando em um improvável assassino em série - com direito as surreais cenas em que testa armas que utilizará mais adiante -, mas não baixa a guarda para admitir que, bom, talvez seja necessário recomeçar um pouco mais de baixo em um cargo de menor expressão.

Divertido na sua abordagem do consumismo - observe os ostensivos cartazes e outdoors que insistem em reaparecer, sugerindo objetos caros e de apelo quase "pornográfico" -, o filme ainda diverte ao apostar na casualidade, como forma de Bruno se livrar de seus crimes. O que não ocorre com o seu filho, por exemplo, que vai parar no xadrez após alguns episódios de roubo de materiais de informática. Os fins, afinal, justificam os meios? A pergunta que rege toda a película, serve apenas para nos mostrar que estamos em um círculo vicioso: quem tem emprego sempre se empenhará para mantê-lo, num universo em que as pessoas parecem sempre prontas a puxar o tapete umas das outras (o que não deixa de ser algo a se lamentar). Alegórico, quase à moda de um Tarantino francês, Costa-Gavras faz a crítica necessária a tempos tão competitivos - isso que naquela época não ouvíamos falar em empreendedorismo de palco, em coach, em coworking, em startups e em outros termos da área -, extrapolando qualquer limite de lógica, de coerência e de ética. Vale conferir.


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