segunda-feira, 15 de maio de 2023

Tesouros Cinéfilos - Lucky

De: John Carrol Lynch. Com Harry Dean Stanton, David Lynch, Tom Skerritt, Ed Begley Jr. e Yvonne Huff. Drama, EUA, 2017, 88 minutos.

 

- As amizades são essenciais para a alma.

- Mas elas não existem.

- Amizades?

- Não. Almas.

 

Uma homenagem em vida, que quase funciona como um justo obituário. É mais ou menos esse o sentimento quando assistimos Lucky - único filme até hoje dirigido por John Carrol Lynch e que está disponível na Mubi. Estrelada por Harry Dean Stanton na borda dos 90 anos a obra possibilita, sem apelar para sentimentalismos ou excessos, uma reflexão sobre a finitude. Ao cabo, o fato de que vamos morrer talvez seja a nossa única certeza. E como se lida com isso quando já vivemos o bastante? Como encaramos de frente o inevitável ocaso de nossa existência? Para Lucky, o protagonista dessa pequena joia do cinema alternativo, a resposta talvez esteja em sessões de ioga matinais, palavras cruzadas para exercitar o cérebro e programas de variedades na TV. Mente sã em corpo são? Talvez, já que Lucky fuma uma carteira de cigarros por dia desde a juventude e não abre mão de sua dose diária do drink Bloody Mary no boteco local, onde ele coloca as conversas em dia com os amigos.

Só que em certa manhã, essa rotina cheia de afeto consigo mesmo - Lucky é um solteirão solitário, afinal, como muitas vezes lembra no decorrer da história (o que não significa que não tenha se apaixonado) - é quebrada, quando o protagonista, de forma meio inesperada, desmaia. O médico lhe prescreve uma bateria de exames que lhe fazem constatar: a saúde não poderia estar mais em dia. "Aliás, para alguém que fuma aos 90 anos e há tanto tempo, é uma surpresa que o seu pulmão esteja intacto", afirma o Dr. Christian (Ed Begley Jr.). Coração? Qual nada, se fosse pra ter um infarto, ele já teria acontecido quando mais novo. Pressão arterial? De um guri. O caso é que Lucky, um veterano de guerra, está apenas ficando velho. Cada vez mais velho. E algumas funções poderão falhar aqui e ali. E, é isso mesmo. Não tem muito o que fazer que não seja aceitar esse diagnóstico. Essa sina.

 


A meu ver esse não deixa de ser um dos aspectos mais criativos da obra de Lynch - que mesmo não tendo nenhum parentesco com David Lynch (Veludo Azul, 1986) recrutou o segundo, que dirigiu Stanton em Twin Peaks, para integrar o elenco da obra -, já que poucas vezes se assistiu a um filme sobre a perspectiva da morte não por doença, por tragédia ou por qualquer outro colapso. E sim da morte pela morte, porque, ao cabo, ela vai acontecer. E a Lucky restará viver enquanto é tempo, fazendo aquilo que lhe dá prazer - sejam às conversas jogadas fora no bar, as longas caminhadas em direção ao mercado e até os atos de impaciência que são legítimos para um idoso um tanto ranzinza. Simples em sua estrutura, tecnicamente econômica, direta em sua mensagem, a produção não pretende nenhum tipo maior de revolução. Há aqui e ali metáforas sobre a longevidade das tartarugas (ou cágados?) ou sobre a solidão na terceira idade. Pequenas alegorias que reforçam aquilo que está sendo dito (sem dizer).

Com mais de 100 obras no currículo, entre filmes e séries, Stanton talvez não tivesse a fama de outros gigantes contemporâneos octogenários ou nonagenários. Mas sempre representou, para quem lhe dirigiu, uma presença sólida de elenco - com suas feições rudes, sua polidez seca, seu comportamento imprevisível, enigmático. De Alien: O Oitavo Passageiro (1979), a Paris, Texas (1984), passando ainda por um sem fim de faroestes de início de carreira, o ator viria a falecer, numa daquelas coincidências do destino, poucos dias antes de Lucky estrear nos cinemas. Há um quê de comovente naquilo tudo, que se amplia quando ele dá uma espiadinha final para o público, numa inesperada quebra de quarta parece nos últimos segundos. Sentimento que é ampliado conforme se espalham os melodiosos acordes de I See a Darkness, de Johnny Cash, que estabelecem um diálogo orgânico com a trama. Profundo, delicado, debochado, até comovente. Esse filme é diminuto apenas no tamanho. Por que ele é maior do que parece.


terça-feira, 9 de maio de 2023

Tesouros Cinéfilos - O Piano (The Piano)

De: Jane Campion. Com Holly Hunter, Anna Paquin, Sam Neill e Harvey Keitel. Drama / Romance, Nova Zelândia / Austrália / França, 1993, 121 minutos.

Filme que romantiza um aparente caso de abuso sexual? Ou obra sobre uma jovem em busca de emancipação - o que ela fará por meio de sua paixão pela música? Produção machista que apenas perpetua o ideal do patriarcado? Ou longa feminista sobre uma mulher que não aceita a condição que lhe foi imposta? Confesso a vocês que é meio difícil ser definitivo, quando o assunto é o clássico moderno O Piano (The Piano), lançado em 1993. Dirigida por Jane Campion - do recente (e ótimo) Ataque dos Cães (2021) - a obra costuma dividir opiniões na hora de uma análise mais atualizada de suas temáticas. Trata-se ao cabo de um filme dos anos 90, com o DNA daquela década e que, de quebra, ainda tem a sua trama ambientada no começo do Século 19. Era um período certamente difícil para as mulheres. E, de uma forma meio inevitável, essa condição é evidenciada em sua narrativa. Para o twitter, talvez seja passível de cancelamento. Um tipo de incômodo que talvez se estenda para parte da audiência.

De qualquer maneira não se pode negar que se trata de uma grande produção. Que é, do ponto de vista técnico, praticamente impecável. Cenários, fotografia, figurino, trilha sonora. Tudo funciona para essa espécie de imersão em uma Nova Zelândia absolutamente rural bucólica, úmida, lodosa (a terra pantanosa se espalha por toda a parte) - local para onde está migrando a viúva Ada McGrath (Holly Hunter). Acompanhada da filha Flora (Anna Paquin), a moça foi vendida pelo pai em um casamento arranjado com um certo Alisdair Stewart (Sam Neill), um negociante endinheirado com mais ou menos ZERO atrativos. Traumatizada por eventos ocorridos em sua infância, Ada se recusa, desde os seis anos de idade, a falar. Sua "língua oficial" é a música. A arte. Que é expressada por ela por meio de um antigo piano de madeira feito a mão. E que, na chegada ao País da Oceania será motivo de discórdia: afinal, como carregar um enorme piano mata adentro?



Como forma de conseguir levar o instrumento até a propriedade onde residirá, Ada faz uma oferta ao misterioso vizinho de Alisdair, George Baines (Harvey Keitel) - operando no modo sedutor de meia idade. Influenciado pela cultura maori da ilha, George é o sujeito de modos embrutecidos, mas de coração bondoso - com direito a tatuagens típicas das tribos da região no rosto. O homem se oferece para trazer o piano, mas com uma condição: a de que Ada seja sua professora de música. E é claro que não é necessário ser nenhum adivinho para saber que essa relação próxima, meio que aos trancos e barrancos, resultará não apenas em uma bela amizade. George ficará fascinado com a música tocada por Ada. Na realidade ele ficará fascinado por Ada como um todo. Como parte da negociação entre eles está a promessa de que ele lhe devolverá o piano. Mas desde que ela ceda aos seus encantos. Cada vez mais. Indo de um mero toque de peles descompromissado ao encontro fortuito na cama. Pelados. O ponto que, enfim, gera tanta polêmica. E que poderia deixar o militante do twitter de cabelos em pé.

Ao cabo, eu não estou aqui pra passar pano e confesso que também me incomodei com algumas sequências. Mas tentei não perder de vista que George estava realmente apaixonado por Ada. E que talvez fizesse tudo por ela. Duzentos anos atrás, na Nova Zelândia rural. E, como disse alguém em um fórum da internet, entre um casamento forçado com uma pessoa que não se ama e a paixão tórrida e controversa com um homem que parece estar comprometido emocionalmente - e não apenas sexualmente - fica-se com o segundo. Entre o péssimo e o ruim, enfim, vocês sabem. Talvez hoje em dia, O Piano fosse um filme que não funcionasse tão bem, carecendo de alguns ajustes na narrativa - especialmente para contemplar o povo disposto a achar misoginia e machismo em tudo quanto é canto (não dá pra relaxar). Mas como obra de época, o filme de Jane Campion segue como uma experiência classuda, sensual e poderosa sobre uma mulher hesitante, enigmática e habilidosa que procura o melhor não apenas para si, mas para sua filha (que aliás, tem papel fundamental na trama). Holly Hunter e Anna Paquin receberiam, com justiça, o Oscar por suas caracterizações. Tornando uma série de momentos - especialmente os do impactante terço final - inesquecíveis. Vale demais recordar.


segunda-feira, 8 de maio de 2023

Tesouros Cinéfilos - Dogville

De: Lars Von Trier. Com Nicole Kidman, Paul Bettany, Lauren Bacall, Chloë Sevigny, Patricia Clarkson e Stelan Skarsgard. Drama, Dinamarca / Reino Unido / Suécia / França / Alemanha, 2003, 178 minutos.

All the way from Washington
Her bread-winner begs off the bathroom floor
We live for just these twenty years
Do we have to die for the fifty more?

All night
He wants the young American
Young American, young American, he wants the young american

(Young Americans - David Bowie)

"Uma explosão ideologicamente apocalíptica contra os valores americanos". Foi dessa forma que a revista Variety resumiu a experiência com Dogville, do dinamarquês Lars Von Trier, na época de seu lançamento, em 2003. Divisivo quando exibido no Festival de Cannes, excêntrico em sua forma, mas potente na análise da natureza humana eventualmente violenta, que muitas vezes emerge de uma sociedade hipócrita, mesquinha e intolerante, o filme romperia com qualquer lógica, sendo amado e odiado em igual medida. Filmada em um único cenário - totalmente teatral, com direito à chão preto, pinturas e letreiros com giz no chão e paredes e portas de mentirinha - a obra acompanha a rotina modesta dos provincianos moradores de Dogville, uma cidadezinha do interior do Colorado, que fica na encosta de uma montanha.

Esse cotidiano ordinário entre plantações de maçãs, sino da igreja que toca, mineração e produção de artesanato é quebrado com a inesperada chegada de Grace (Nicole Kidman) uma jovem que está fugindo da máfia, que estava em seu encalço. No local Grace é recebida por Tom (Paul Bettany), um aspirante a escritor que nunca concretiza a sua obra e que, aparentemente, funciona como uma espécie de líder espiritual do povoado. É ele o responsável por reunir os moradores em encontros para tomadas de decisão coletivas. E uma delas envolve um grande dilema: dar abrigo a Grace ou não? Protegê-la daqueles que lhe perseguem? Grace até sugere seguir pelas montanhas mas é impedida, sob alegação de o caminho ser espinhoso demais. Sem muita alternativa ela fica no local. É acolhida pelo "amável" povo de Dogville - apesar de seu ceticismo. A ideia é promover uma experiência de duas semanas com a jovem para, então, uma decisão final: ela vai ou fica. Enquanto isso, ela aproveitará o tempo ocioso para uma espécie de contrapartida: oferecer serviços aos cidadãos.




Ok, tudo começa mais ou menos bem nesse ideal imaginado. Grace trabalha para os moradores, recebendo abrigo e comida. Só que quanto mais a polícia se aproxima do povoado interessado em saber do paradeiro da jovem, mais incomodados os habitantes de Dogville - tão corretos, tão honestos, tão íntegros, tão decentes - ficarão. E, consequentemente, maior será o preço para que ela permaneça. O que envolverá uma série de violências que passarão a ser perpetradas - de abusos psicológicos e sexuais, até escravagismo e tortura. Não haverá chance de escapatória para Grace e quanto mais ela tentar fugir daquele ambiente inóspito, pior será. E mais agressivos se tornarão os "honrados" moradores de Dogville. O que, ao cabo, levará todos ali a uma espécie de degradação moral e coletiva, que coloca o dedo na ferida do imperialismo, funcionando justamente como uma metáfora que quebra o ideal do sonho americano, ao passo que faz a crítica das relações dos Estados Unidos com países estrangeiros.

Sim, a xenofobia pode ser o aspecto mais gritante em tempos de ex-presidente que pretendia construir um muro para que mexicanos não alcançassem a Terra do Tio Sam. Mas das questionáveis políticas de guerra, passando pelo patriotismo e pela religiosidade difusos, até chegar ao comportamento conservador e patriarcal do cidadão de bem norte americano, nada parece fugir do radar de Von Trier - por mais controverso que ele seja. Ou, vá lá, talvez justamente por ser tão controverso. Vinte anos depois, com reestreia no Mubi, a obra segue sendo uma experiência rica, curiosa, iconoclasta e provocativa, que bebe na fonte do teatro de Bertolt Brecht e que leva ao limite os ideais do Movimento Dogma 95 - que buscava um cinema puro, orgânico, sem usos de truques de imagens, luzes artificiais e outras supostas superficialidades. Vale resgatar.


sexta-feira, 5 de maio de 2023

Pitaquinho Musical - Everything But The Girl (Fuse)

"Você canta para curar o coração partido? / Ou você canta para começar a festa?". Sim, a letra de Karaokê, canção que fecha Fuse do Everything But the Girl, pode até aludir a uma noite aleatória de um bar de São Francisco, onde os clientes se alternam entre a energia vigorosa de Elvis Presley e a sutileza poética de Bob Dylan. Ainda assim não deixa de ser interessante notar como os versos combinam direitinho com aquilo que encontramos desde sempre nas entranhas da música proposta pelo duo britânico Tracey Thorn e Ben Watt. Inferninhos lotados que contrastam com as esquinas solitárias, uma festa fritada às 17h com o sol a pino paradoxalmente alto, ter alguém em casa pra amar mesmo após uma madrugada intensa e hedonista. Há, ao cabo, um quê de orgânico e tecnológico em igual medida na coisa toda.

 


Nesse sentido, é possível afirmar que as canções da banda evocam justamente essa paisagem contrastante em que a festa acontece, enquanto os instantes de introspecção ecoam internamente. "Eu gosto do escuro / Eu gosto do humor" lembra Thorn nos versos da já citada Karaokê. "Eu sinto sua falta / Como os desertos sentem falta da chuva" já cantava a dupla na dançante (dançante?) e triste (triste?) Missing, seu maior hit. É a escuridão que se une às melodias hipnóticas. É o movimento e a contemplação. É cantar para sarar as feridas. Ou para celebrar. O EBTG ficou 24 anos sem lançar um novo trabalho - o último havia sido Temperamental (1999). E quando voltou, voltou como se nunca houvesse saído. Sem afetações. Sem invencionices. Sem forçar a barra tentando soar como algo que eles nunca foram. Apenas fazendo música. Mesclando gêneros. De forma orgânica. Fluída. Linda como sempre. Os fãs agradecem.

Nota: 8,5


Cine Baú - A Noite (La Notte)

De: Michelangelo Antonionni. Com Jeanne Moreau, Marcelo Mastroianni, Monica Vitti e Vincenzo Corbella. Romance / Drama, Itália / França, 1961, 122 minutos.

Vamos combinar que se há um sentimento que pode ser bastante incômodo quando o assunto são os relacionamentos, este é a indiferença. É a gente simplesmente não se importar mais com o outro, independente do que aconteça. E esse parece, ao cabo, ser o trágico destino do casal central que protagoniza o clássico de Michelangelo Antonioni, A Noite (La Notte), que estreou recentemente na Mubi. Segunda parte daquela que se tornaria conhecida como a Trilogia da Incomunicabilidade Humana - completada por A Aventura (1960) e O Eclipse (1962) -, a obra ampliaria o aspecto agonizante de uma relação amorosa desgastada. Condição reforçada pelos silêncios doloridos, pelos desencontros permanentes e pela tentativa desesperada de se reconectar a uma paixão que parece ter se perdido na rotina, no tédio e no vazio existencial. Mais difícil do que encerrar etapas talvez seja persistir em algo que, intimamente, todos sabem já ter chegado ao fim.

E é por isso que a obra de Antonioni talvez seja tão comovente. E tão incômoda. Quem já conviveu com algum casal que já acabou mas ainda não percebeu - daqueles que insistem em ficar juntos, mesmo sabendo que separados talvez fossem mais felizes - sabe como é. Pode ser que você mesmo seja essa pessoa. Que tentou até onde foi possível, sendo infeliz na companhia de alguém. Aqui o casal central é vivido por Marcelo Mastroianni e Jeanne Moreau. Ele, um escritor de certo renome chamado Giovani Pontanno, que está lançando um novo romance, que parece ter sido bem recebido pela crítica. Ela, a filha de um sujeito abastado, uma enigmática mulher chamada Lidia, que lhe acompanha em sessões de autógrafos enfadonhas e em outras atividades intelectuais. E conforme os eventos do filme - muitos deles pequenos, fortuitos - forem se descortinando, perceberemos cada vez mais a falta de conexão. O que os afasta de forma irremediável.

Lídia, por exemplo, não consegue sentir prazer genuíno em apenas acompanhar Giovani em seus compromissos. Num deles foge e, após vagar meio aleatoriamente pelas ruas, vai parar no bairro de Milão onde moravam como recém-casados. O silêncio é interrompido quando ela presencia uma briga sangrenta de gangues. Que é seguida por uma série de lançamentos de pequenos foguetes em um campo. É tudo bastante alegórico, sendo possível estabelecer nessas ocorrências ocaionais, uma correlação com o que a jovem sente. Onde ela busca algum tipo de fiapo de nostalgia, talvez estejam apenas os sentimentos conflitantes. Não há mais nada ali. O dia prossegue com o casal indo parar em um bordel onde assistem a uma hipnotizante performance erótica. Mas não há tesão que una os dois. Não há aquela conversinha safada que poderia derivar da experiência. Alguma promessa de calor que avance pela madrugada. Há apenas o enfado, a melancolia, a monotonia e o aborrecimento.

Na tentativa de conferir algum movimento a sua noite, a dupla vai parar em uma festa de um ricaço, um certo senhor Gherardini (Vincenzo Corbella). Afastados, cada um vai para um lado. Giovani se aproxima da insinuante filha do anfitrião, no caso a jovem Valentina (Monica Vitti) - ambos flertarão sobre um enorme tabuleiro de xadrez improvisado, em mais uma daquelas metáforas quase óbvias que envolvem o jogo das paixões. Em outro ponto, Lídia, talvez meio oprimida pela solidão vagueia como um espectro, se aproximando aqui e ali de outros convidados, dançando, tomando banho de chuva, vivendo. O beijo de Giovani em Valentina pouco lhe mobilizará - ela o flagra de uma estrutura elevada da casa. Ela mesma parece ter segredos que envolvem um homem moribundo em um hospital (que talvez fosse seu amante). De alguma maneira muita coisa acontece, com os personagens saltando de eventos em eventos, de encontro em encontro, como se estivéssemos em uma espécie de A Doce Vida (1960) - com toda a mesquinharia das elites -, só que num espectro muito mais sombrio.

Paradoxalmente charmosa e sexy, esta é uma obra sobre um casamento próximo do fim, que aposta muito mais no não dito do que no dito. A chave está nas sutilezas, nos olhares discretos, nos movimentos de corpo econômicos, ondulantes, pouco expansivos. Tudo parece comunicar nesse universo de incertezas que só será plenamente revelado quando do raiar do dia, na clássica sequência no campo de golfe. A banda toca um sinuoso jazz à distância que preenche todo o ambiente. "Tenho vontade de morrer porque já não te amo mais", comenta uma Lídia suplicante, antes de iniciar a leitura de uma carta de amor em voz alta. "Quem escreveu?" pergunta Giovani. "Você", responde Lídia consternada, naquele instante que eternizaria a dor de um casal sôfrego que passa uma madrugada de prazer hedonista, estando quilômetros de distância separados. Esnobado em premiações como o Oscar ou o Festival de Cannes, o filme ressurgiria mais tarde como a ponte perfeita entre A Aventura e O Eclipse, inclusive antecipando temas atualíssimos, que envolvem desde a fugacidade do amor, passando pelo sentimento de solidão (mesmo acompanhado) até mesmo a futilidade da burguesia. É impecável.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Cine Baú - Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios)

De: Pedro Almodóvar. Com Carmen Maura, Antonio Banderas, María Barranco, Rossy de Palma e Julieta Serrano. Comédia dramática, Espanha, 1988, 89 minutos.

O estilo multicolorido, histriônico e farsesco de Pedro Almodóvar talvez tenha tido o seu primeiro grande ato com o clássico moderno Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios). A obra, afinal, com sua narrativa novelesca e verborrágica, pendendo para o absurdo, daria fama internacional ao espanhol - especialmente após a indicação ao Oscar na categoria Filme em Língua Estrangeira, na cerimônia de 1989. Ok, o filme até não faturaria a estatueta dourada - naquele ano havia um certo Pelle, O Conquistador (1988), melodrama que estava cativando o mundo -, mas pavimentaria o caminho para que Almodóvar se estabelecesse como um dos mais originais realizadores do cinema. Suas produções, atualmente, são aguardadas, comentadas. Atraem fãs no mundo todo. Costumam ser pontos altos em festivais. Aqui no Picanha mesmo esse já é o sexto texto sobre um filme do diretor. Um dos favoritos da vida, enfim.

Mulheres... é baseada, como não poderia deixar de ser, em uma peça de teatro - no caso, A Voz Humana, de Jean Cocteau. E isso explica também os motivos de grande parte da ação se passar no espaço imenso da luxuosa cobertura onde reside Pepa (Carmen Maura, que trabalharia um sem fim de vezes com Almodóvar). Na obra, Pepa atua como dubladora de filmes estrangeiros - é mais ou menos famosa no seu meio, a ponto de ser reconhecida nas ruas. Ainda no começo do filme, ela recebe um recado por telefone do seu amante Ivan (Fernando Guillén), que é seu colega de trabalho. Ele a está abandonando, pede para que ela arrume as malas dele, sem muita explicação. O que fará com que ela se desespere e tente, de todas as maneiras, descobrir os motivos disso. O que envolverá um sem fim de esforços entre ligações telefônicas, andanças pela cidade, recados e outras tentativas. Todas elas frustradas, em alguma medida.

E como se já não bastasse a tragédia particular que envolve a vida de Pepa, ela ainda receberá em sua casa a visita de sua amiga Candela (María Barranco), que está em fuga após ter descoberto que seu namorado teria ligações com grupos terroristas xiitas. Temendo ser presa ela pede asilo. Só que Pepa está colocando o apartamento à venda. Sendo que um dos interessados é justamente Carlos (um jovem Antônio Banderas), filho de Ivan, que aparece acompanhado de Marisa (Rossy de Palma, outra colaboradora habitual do diretor). O rebu todo se torna ainda maior quando a protagonista descobre a existência de uma terceira mulher na vida de Ivan, no caso a advogada Paulina (Kiti Manver), sendo que é com ela que o sujeito pretende fugir para Estocolmo. Com o caos sendo completo com o surgimento de Lucía (Julieta Serrano), ex-mulher de Ivan que está em um hospital psiquiátrico e, bem, aparentemente planeja matá-lo.

Bom, é claro que todos esse contexto bizarro de idas e vindas e de uma profusão imensa de personagens e de personalidades são apenas uma boa desculpa pra um sem fim de situações bizarras, excêntricas e engraçadas envolvendo todos ali. Apostando em coincidências como forma de unir os pontos - pessoas que se conhecem, eventos aleatórios que aproximam uns aos outros -, Almodóvar converte a obra em uma experiência tão anárquica quanto humana. De uma entediada Marisa que descobre um gaspacho na geladeira e resolve beber o produto - sem saber que ele está "batizado" com soníferos -, chegando ao instante em que um técnico que conserta telefones e um policial se confrontam, nada parece apenas jogado no roteiro, sem que haja um propósito. E é justamente esse senso de organização da narrativa que a torna tão única, bem ao estilo intenso que marcaria a obra do diretor. Pra quem ainda não está tão familiarizado com a filmografia do espanhol, esta pode ser uma bela porta de entrada. Só que se prepare: uma vez acessada essa porta, não haverá mais volta!


terça-feira, 2 de maio de 2023

Novidades em Streaming - Império da Luz (Empire of Light)

De: Sam Mendes. Com Olivia Colman, Colin Firth, Micheal Ward e Toby Jones. Drama / Romance, EUA / Reino Unidos, 2022, 114 minutos.

Em uma das cenas mais constrangedoras de Império da Luz (Empire of Light), Hilary (Olivia Colman) é chamada por seu chefe Ellis (Colin Firth) de esquizofrênica. O que se segue é uma sequência meio Oscar bait, com a personagem em surto - o que envolve uma série de revelações comprometedoras. Só que, enquanto assistia ao mais recente projeto do diretor Sam Mendes - do excelente 1917 (2019) - tinha a impressão de que esquizofrênico era o filme. Afinal, é uma obra sobre racismo? Sobre machismo? Ou ela versa a respeito da política desastrosa de Margaret Thatcher? Estão no centro da narrativa os riscos do extremismo de direita? Ou é um filme que está falando sobre empatia na hora de conviver com pessoas com problemas psiquiátricos? E se já não bastasse a tentativa de meio que abraçar esse amontoado de assuntos de inegável importância, ainda tem o pano de fundo sobre a importância do cinema. Das artes. E das possíveis transformações possíveis por meio dela.

Vejam bem, eu não tenho nenhum problema com filmes que tentam capturar a nossa atenção, inserindo uma quantidade maior de temas em sua estrutura. Isso pode ser bom, se bem executado. Só que se você quer falar de racismo, me parece um pouco rasa uma sequência em que Hilary entrega à Stephen (Michael Ward), após este ter sido brutalmente agredido por um grupo de skinheads que participavam de uma motociata (sim, a vida imita a arte), um disco dos britânicos do The Specials, banda famosa por ter integrantes brancos e pretos. "Brancos e pretos se juntando, é o que torna tudo normal", comenta a personagem de Colman enternecida. É sério mesmo que uma discussão tão importante vai ser reduzida ao chavão do "eu não enxergo cor aqui"? E, ok, esse poderia ser um recorte dentro da narrativa, mas o problema é que o assunto praticamente some no restante do tempo. É sobre isso que estamos falando? Sobre skinheads, Margaret Thatcher e os tempos de intolerância?



Alguém poderá afirmar - e tudo bem quanto a isso - que tanto Hilary quanto Stephen são almas isoladas em busca de algum tipo de conforto mútuo, de empatia, até de amor (ou de amizade). O que torna compreensível a aproximação entre ambos. Ela é a gerente do cinema, que á abusada sexualmente (e psicologicamente) por seu chefe. Uma mulher solitária que, entre uma consulta e outra com o psiquiatra, tenta se adaptar aos medicamentos com lítio. Os motivos de ela lutar contra o uso dos fármacos? Talvez o momento. Os motivos de ela se insurgir contra a misoginia em um ato meio isolado durante a narrativa? Não sei, pareceu mais um elemento perdido lá no meio. É um filme sobre o machismo? Ou foi só a inserção de mais um assunto importante no meio do nada? Qual a história, afinal, de Hilary? Qual o seu passado? O que lhe move? São temáticas e contextos importantes que parecem estar sempre no meio do caminho. Do quase.

Em mais uma sequência meio constrangedora ela tem um surto quando está passando um dia na praia com Stephen. Aos berros ela destroi os castelos de areia construídos por eles. É um projeto que discute a fragilidade do ser humano - sua solidão, suas dores nunca pronunciadas, seus segredos dificilmente verbalizados -, a partir da alegoria do castelo que, tão facilmente, cai? Sei lá, a meu ver esse é um filme apenas estranho - como é estranho o comportamento de Hilary que, sim, talvez tenha esquizofrenia, tenha transtorno bipolar ou outro problema psicológico qualquer e que talvez seja resultado do ambiente tóxico que a envolve. Mas, não sei, é uma obra sobre isso? Sobre pessoas com gostos musicais questionáveis? Sobre pais que abandonam filhos (mais um tema que surge meio perdido lá no meio)? E se não bastassem tantas decisões questionáveis, o filme ainda se encerra com a leitura de um poema. Enquanto os créditos subiam só conseguia pensar no desperdício generalizado de talentos - do diretor aos atores, passando pelo diretor de fotografia (o oscarizado Roger Deakins) até chegar a dupla Trent Reznor e Atticus Ross, responsáveis pela trilha sonora. Não é à toa que flopou na temporada.

Nota: 3,0


Pitaquinho Musical - Jessie Ware (That! Feels Good!)

Vamos combinar que, quando o assunto é música, poucas coisas podem ser mais prazerosas do que ver um artista que gostamos se reinventando. Afinal, estabelecer diálogo com outras sonoridades ou mesmo percorrer outros caminhos, não deixa de ser uma forma de sair do lugar comum ou da zona de conforto. Nesse sentido, quem acompanha a carreira da Jessie Ware sabe que, da artista que apostava em canções de ambientações mais etéreas, recheadas por melodias mais evocativas - quase num encontro entre o pop e o new age - pouco restou. De um certo desgaste do estilo em projetos bastante pessoais como Glasshouse (2017) ao revival da disco music em What's Your Pleasure? (2020), concluído em plena pandemia, o que conferimos foi um processo transformador. Que, agora, com That! Feels Good!, o quinto trabalho de estúdio, parece ser o ponto alto de maturação. Quase como se fosse um renascimento.



Partindo exatamente de onde parou no projeto anterior - que tornavam as pistas de dança com seus globos espelhados, gelo seco e hipnose luxuosa, algo palpável - a cantora e compositora investe numa nova leva de canções que não apenas prestam tributo a artistas do final dos anos 70 e início dos 80, como conferem personalidade a um gênero que, aqui e ali, poderia soar apenas nostálgico. Promovendo um encontro entre o Chic e a Chaka Khan, Ware converte músicas como Pearls em verdadeiras joias - com o perdão do trocadilho -, com direito a letrinha debochada (Agite até que as pérolas caiam / Deixa pra lá, deixa eu dançar) e refrão extremamente pegajoso. O expediente se repetirá em diversos outros momentos mágicos como Free Yourself, Beautiful People e Begin Again sempre com aquela pegada leve, divertida, sem se levar a sério demais. "Eu ouvi meus fãs e meus novos fãs e quis levar esse universo de groove adiante" comentou no material de divulgação. Os fãs agradecem!

Nota: 9,0