De: Julio Medem. Com Ana Rujas, Javier Rey, Alvaro Morte e Carla Díaz. Drama, Espanha, 2025, 126 minutos.
Quando concluí a sessão de 8 Décadas de Amor (8), o mais recente projeto do espanhol Julio Medem e que está disponível na Reserva Imovision, resolvi, de curioso, revisitar a resenha escrita por mim para Os Amantes do Círculo Polar (1998) - talvez o filme do diretor mais querido pelo público cinéfilo. Na primeira frase do texto, a seguinte sentença: "Coincidências, acontecimentos aleatórios, situações inesperadas. O mundo que parece às vezes dar uma volta inteira pra retornar ao mesmo lugar" - e, verdade seja dita, não deixa de ser interessante perceber como essas ideias seguem em vigor, quase 30 anos depois, nas obras do realizador. Em 8 Décadas de Amor - uma generosidade de quem concedeu o título em português, porque o correto seria nomear o filme de 8 Décadas de ÓDIO -, um casal tem suas vidas atravessadas por mais de oitenta anos de conflitos políticos, sociais, culturais, religiosos. Que nunca parecem solucionados - especialmente quando se está em espectros ideológicos (por assim dizer) opostos.
O amor nos tempos do cólera pode ser bastante complicado, já diria Gabriel Garcia Marquez. Mas não é diferente do amor nos tempos de guerra - ainda mais no caso da Espanha que, após a proclamação da Segunda República veria o País entrar em uma dura guerra civil que, de forma muito resumida, culminaria na ascensão ao poder do general Francisco Franco, que governaria a nação com mão de ferro de 1939 à 1975 (em uma ditadura complexa e repleta de controvérsias). Na trama, os personagens centrais Adela (Ana Rujas) e Octavio (Javier Rey) nascem no mesmo dia 14 de abril de 1931, uma data bastante simbólica já que esta marca justamente a proclamação da Segunda República Espanhola. Em lados políticos opostos - ele de família abastada e militar (que se tornaria adepta do franquismo), ela filha de professor e de origem humilde -, ambos terão seus destinos cruzados ainda na infância, quando o pai de Adela, integrante de um grupo revolucionário, assassina o pai de Octavio, durante uma pescaria.
Aliás, a frase dita pelo pai de Octavio - "para pescar algo bom é preciso paciência e esperança" -, meio que funciona como uma guia mestra para a narrativa. Uma metáfora para a nossa própria existência, com suas vicissitudes, medos, incertezas, desejos, anseios, coisas que ficam pelo caminho e sonhos que se concretizam ou não. Em linhas gerais um projeto que poderia ser cansativo e até confuso, dada a grande quantidade de saltos temporais, acontecimentos e reviravoltas, nunca deixa a peteca cair. Um mérito que também envolve o belo aparato técnico, com seus longos planos sequência, fotografia que se alterna entre o preto e branco dessaturado do passado e as cores vivas quase almodovarianas do presente, e o desenho de produção que parece bastante adequado a cada década apresentada. Com saltos no tempo entre os anos 40 até a atualidade, as vidas de Adela e Octavio se mesclarão em meio às feridas da ditadura franquista, traumas familiares que se espalham, transformações políticas e suas consequências e arrependimentos no que diz respeito à decisões tomadas.
E vale comentar que é só na quarta parte, já na década de 70, que o casal de conhece verdadeiramente, ainda que suas vidas já tenham sido cruzadas antes. Ela, em um casamento meio de fachada com um militar machista, ensaia uma outra vida possível em um trecho que, simbolicamente, é marcado por um momento em que ela dirige livremente ao som de uma versão de Be My Baby, das Ronettes, após fugir da Igreja (o feminismo se espalha em tempos de minissaia como alegoria para a revolução sexual). Ele, também insatisfeito com os rumos da vida, tenta de toda a forma se desvencilhar do militarismo tão traumático (ele estava no pátio de arma em punho no dia do fuzilamento do pai de Adela, em mais uma das tantas coincidências) e da ideologia de extrema direita com pendor reacionário, que tanto devasta sua família (sua mãe, por exemplo, tem um treco quando o rádio anuncia a morte de Franco). E sempre que tentam seguir em frente, o destino parece aproximá-los - com direito a um filho juntos, que também terá sua vida afetada por disputas políticas dos anos 90, que alcançam até ambientes supostamente lúdicos, como os do futebol. A cena final, em um almoço de família que termina em uma longa (e até engraçada) discussão, é a cereja do bolo de uma produção que aponta que, quando o assunto é o debate político, talvez só mude o País. Ou a década. Ou o século. E assim será eternamente.
Nota: 7,5

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