De: Steven Spielberg. Com Emily Blunt, Josh O'Connor, Colin Firth e Colman Domingo. Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 146 minutos.
Sabe quando você está vivendo o seu dia normalmente e um colega de trabalho, um familiar ou mesmo um amigo, empunhando um celular, te convida a assistir um vídeo - um conteúdo qualquer - que você tem a mais absoluta certeza que não te impactará, mas você aceita ver para não fazer a desfeita? E que quando o conteúdo é finalizado você fica com aquela cara de "legal, vai avisando qualquer coisa" porque o troço não te pegou de nenhuma maneira? Confesso a vocês que foi exatamente esse o meu sentimento assistindo ao tão falado Dia D (Disclosure Day), talvez um dos piores filmes já concebidos por Steven Spielberg - que, todos sabemos, tem uma carreira sólida e uma excelente reputação entre público e crítica. Só que é sério mesmo que o grande tema central desse retorno do diretor aos filmes de extraterrestres envolve uma teoria da conspiração requentada e que já foi tema de produções do próprio Spielberg no passado?
Quando iniciou o falatório sobre o filme, que estreia para aluguel no streaming nesta segunda-feira, com direito a conjurações envolvendo o próprio Spielberg e o retorno de uma conspiração estranha que volta e meia reaparece, de que o realizador teria tido acesso sem precedentes a arquivos confidenciais do governo (e que talvez até filmasse, pasme, com ETs de verdade), as plateias mundo afora ficaram em choque. E empolgadas com a possibilidade de poder rever um Spielberg ativo, e próximo dos 80 anos, revivendo os anos de ouro do cinema de Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs), e que entregou ao mundo clássicos como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), ET: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005). Só que o resultado geral alcança o auge do cringismo na sequência em que takes variados da população paralisada diante das telas (ou monitores de TV) reagindo às supostas imagens chocantes de seres de outro planeta são, enfim, depois de mais de duas cansativas horas de perseguições genéricas e de uma salada de roteiro mal engendrada, reveladas.
É sério mesmo que, em um mundo em que teorias da conspiração à moda chip chinês na vacina são meio que uma tarde de terça-feira qualquer do incel médio que se alimenta todos os dias de 4Chan, de Cheetos e de Coca Cola, devemos nos animar com a reativação dessa história de décadas atrás, que mais parece saída de um filme de espionagem e de ação que ficou meio perdido entre as décadas de 80 e 90? E que talvez também combinasse mais com o Spielberg de outrora, que ainda acredita que as grandes revelações do planeta serão televisionadas? Talvez os doidinhos de bairro loucos pra farmar seus canais com listas ao estilo "10 Sinais de que Spielberg acessou arquivos secretos da FBI (o sétimo é inacreditável)" talvez se animem com a história toda mas, no meu caso, eu só consegui sentir foi tédio. Vamos ver o novo filme do Spielberg? Sim, claro. Mas a minha reação ao final foi como se tivesse assistido ao pior videozinho do perfil de gosto duvidoso do amigo que te estende o celular e que jurava que tu ia gostar do conteúdo daquele humorista de stand up que finge neutralidade, mas que se destaca em um nicho bem específico (o dos reacionários de extrema direita que verbalizam todos os tipos de preconceitos por metro quadrado).
Não bastasse a frustração pelo ponto central da obra ser a mais batida das histórias de conspiração que se tem conhecimento e que, em geral, não acrescenta nada de novo, ainda vivi uma sensação meio vazia no transcorrer, enquanto acompanhava a movimentação daqueles sujeitos. Sujeitos, aliás, que não poderíamos nos importar menos, já que eles não têm história, não têm passado, não têm família, não comem e não dormem. E, como se desgraça pouca não fosse bobagem, essa é uma obra que, enquanto coloca no micro-ondas o tema dos segredos de Estado governamentais da terra do Tio Sam - que esconderia informações preciosas e relevantes da população durante décadas de presidentes republicanos e democratas (por que, né, nem esquerda nem direita) -, ainda reaproveita, como se ainda vivêssemos os anos de Guerra Fria e de corridas tecnológicas, narrativas paranoicas sobre ameaças comunistas (com citações à Rússia, à Coreia do Norte e até à crise dos mísseis em Cuba sendo resgatada como um paralelo com os tempos confusos que vivemos). "Não tenha medo do que você não conhece", lembra o especialista em cibersegurança Daniel Kellner (Josh O'Connor), em certa altura, como parte de um conjunto de revelações. O problema é que a gente conhece esse modus operandi do imperialismo até demais - e por isso o tememos.
Kellner é o sujeito que trabalha em uma corporação ligada ao Governo - seu nome é Wardex - e que rouba não apenas documentos e discos rígidos com revelações bombásticas que remontam ao famoso incidente de Roswell, ocorrido na década de 40, como também furta um dispositivo extraterrestre da instalação - dispositivo este, que permite comunicação telepática e outras habilidades psíquicas (inclusive com animais) e que nem sempre são simples de compreender. Sua história se cruzará, mais adiante, com a da apresentadora de TV Margaret (Emily Blunt), que também passa a ser perseguida após viralizar um vídeo em que ela fala uma língua estranhíssima ao vivo - o que fará com que a Wardex desconfie de suas habilidades de comunicação extraterrestres. Durante duas horas integrantes da tal companhia, liderados pela pouco convincente figura do CEO Noah (Colin Firth, canastríssimo), tentarão de forma remota localizar a dupla. O que resultará em algumas das mais repetitivas perseguições do cinema moderno. Enquanto os mocinhos tentam encontrar Hugo (Colman Domingo), outro desertor da companhia, um sem fim de discussões pouco aprofundadas sobre conspirações corporativas, papel da Igreja nas dinâmicas de poder, uso da tecnologia para fins escusos e crises políticas da modernidade (vem aí a terceira guerra, viu?) se intercalarão, em uma experiência que, sinceramente, nunca decola. É um filme que roda em torno de si e que sequer tem graça ou charme - e até as tentativas de humor são furadas (como na cena em que há uma longa tentativa de "atropelamento" de um celular). Eu juro que abri o vídeo do amigo Spielberg achando que vinha coisa boa. Mas talvez eu só tenha virado o tiozão que desconfia que tudo é IA e que tem pouco saco pra acreditar que algo do tipo faria o mundo parar. Provavelmente no mercadinho da esquina só se falaria de outra coisa.
Nota: 2,5

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