De: David Lynch. Com Naomi Watts, Laura Harring e Justin Theroux. Suspense / Drama, EUA / França, 2021, 146 minutos.
Vamos combinar que, em muitos casos ficamos tão focados em tentar entender o que acontece no terço final de Cidade dos Sonhos (Mullholand Drive), que quase esquecemos o básico: de que o clássico moderno de David Lynch, que completa 25 anos de lançamento em 2026, é um excelente suspense romântico, com um roteiro instigante e repleto de surpresas inesperadas. Hoje em dia os finais em aberto e até certa falta de lógica narrativa parecem rotina no cinema mais experimental, com suas pontas soltas, alegorias e significados nem tão óbvios. E por mais que certo hermetismo sempre tenha feito parte das produções de Lynch - como no caso de Veludo Azul (1986), por exemplo -, o público ficou tão desesperado em compreender os eventos que rondam a dupla central Betty (Naomi Watts) e Rita (Laura Harring) que o diretor chegou a lançar um famoso extra na edição em DVD do filme, em que citava Dez Pistas para Desvendar Mullholand Drive.
De coisas como prestar atenção a um abajur vermelho recorrente, reparar no local do acidente e até descobrir o título do filme dentro do filme que Adam (Justin Theroux) está produzindo, estas eram apenas algumas pistas que poderiam conduzir o espectador a solução - no que foi um exercício divertido e legítimo de um tempo em que a internet ainda engatinhava e as redes sociais sequer existiam. Aliás, Cidade dos Sonhos é tão um produto do seu tempo - daquela virada de milênio ainda incerta em que o atentado ao World Trade Center acabara de acontecer -, que a dinâmica de quebra-cabeças cheio de peças espalhadas pedindo para serem encaixadas (chaves, cinzeiros, espelhos, xícaras de café e até moradores de rua sujos e inesperados) pareceu um atrativo a mais em uma experiência noir polida que, por si só, talvez já fosse envolvente o suficiente. Sem que precisássemos de uma resposta exata sobre os eventos vistos no Clube Silêncio, com a excêntrica e já falecida cantora Rebecca Del Rio entoando a mais melancólica das canções antes de simplesmente desmaiar.
Sim, hoje em dia não são poucas as teorias já consolidadas em fóruns do Reddit a respeito desse romance de estrutura circular que conta a história de uma deslumbrada aspirante a atriz de nome Betty Elms, que chega à Hollywood para tentar uma carreira no cinema. No local, ela se estabelece na casa de uma certa tia Ruth que, a bem da verdade, nunca aparece. Mas as coisas não serão tão simples já que ela se depara com a inesperada presença de Rita na residência, que afirma ter sofrido um acidente na Mullholand Drive do título, sem se recordar de mais nada que envolva o acontecimento (a não ser o fato de que ela sente estar em perigo). Para o espectador, o impacto da primeira meia hora é ondulante, quase amortecedor. Com a trama bebendo na fonte dos clássicos de Alfred Hitchcock, com Rita escapando da morte - dois homens (que não sabemos quem são) em um carro lhe apontam uma pistola, com a intenção de assassiná-la -, após uma batida de outro carro em altíssima velocidade, guiado por jovens desvairados e bêbados. Uma ocorrência que, em alguma medida, a salva.
Em linhas gerais parece haver um mistério que ronda esse conjunto todo - o que é reforçado pelo clima onírico da fotografia excêntrica, ao mesmo tempo opressiva mas primaveril que orna essa cidade fervilhante e pela trilha sonora de notas cortantes de Angelo Badalamenti, que emula as melodias lentas e frias vistas na série clássica, cult e noventista Twin Peaks (outro trabalho do maestro com Lynch). Há também um certo maravilhamento pela própria experiência de cinema (e de arte em geral), com uma série de instantes metalinguísticos que parecem brincar com o senso de realidade - o que é a verdade quando tudo o que assistimos está sendo filmado? -, e conforme entendemos que talvez Betty já tenha conhecido Rita anteriormente. Ou talvez uma projeção dela, por quem ela se apaixona não apenas por sua elegância à femme fatale da Hollywood clássica, mas também pela ideia do que ela representa como artista inalcançável (não por não ser capaz, como fica claro em uma sequência de ensaios, mas por ela não ser a pessoa indicada para este ou aquele papel, em uma máquina em que cartas marcadas parecem ter acesso facilitado no almejado panteão de estrelas da capital do cinema).
A presença de um volume inesperado de dinheiro, a existência de uma chave que não se sabe muito bem qual o uso, ou mesmo a aparição de pessoas estranhas e enigmáticas que parecem ter informações a mais sobre os envolvidos ali - como no caso do misterioso Cauboi (Monty Montgomery), os nada amistosos irmãos Castigliane ou mesmo a onipresente Diane Selwyn, que ressurge como num susto na memória de Rita, adicionam uma pimenta a mais em uma experiência cheia de tensões sexuais, de realidades alternativas e de um submundo de fantasias pomposas que se corroem e nem sempre se confirmam. E isso sem falar na misteriosa Camilla Rhodes que, aos poucos vai ocupando lugar de destaque na narrativa. Sedutor, estranho, assombroso, tenso e comovente, esse é daqueles filmes que não se resolvem após a subida de créditos, praticamente exigindo do espectador uma conversa de bar para teorias mais elaboradas, que burlem os limites entre fantasia e realidade. Ainda que o próprio Lynch tenha admitido em entrevistas, que se trata, como mencionamos lá no começo, apenas de uma história de amor. O que também é parte da beleza.
