terça-feira, 3 de novembro de 2026

Pitaquinho Musical - Ibibio Sound Machine (Chopping Mountain)

"As palavras têm um jeito / De propor uma mudança / Nesse mundo em que vivemos". Se existe uma fórmula para transformar o caos do mundo em pista de dança, o Ibibio Sound Machine parece ter encontrado o caminho em Chopping Mountain, sexto trabalho de inéditas do coletivo londrino liderado pela cantora filha de nigerianos Eno Williams. Mesclando o afropop de tintas futuristas que já virou uma espécie de marca registrada da banda, com boas doses de jazz, afrobeat, eletrônica e soul setentista, além de grooves irresistíveis, sintetizadores borbulhantes e vocais calorosos, o álbum passeia por diferentes épocas e geografias sem jamais perder a identidade. Nesse sentido, canções como Burning in Lagos (a efervescente abertura), When You Want to Dance e Concept of Love dão uma boa dimensão dessa mistura, enquanto a faixa título reforça a capacidade do grupo de transformar referências tão distintas em algo surpreendentemente coeso, dançante e propulsor.

 


Ainda assim, é importante não se deixar enganar pelo convite quase irresistível de mexer os quadris: por trás de toda essa arquitetura sonora ensolarada e cativante, existe um disco bastante atento aos tempos turbulentos de guerras, avanço da extrema direita, tecnologia cada vez mais invasiva e desastres ambientais que vivemos. Não por acaso, as mensagens de união, resistência, liberdade e esperança ganham contornos ainda mais interessantes. Não que o Ibibio Sound Machine esteja interessado em transformar a pista de dança em palanque - até porque os versos muitas vezes são mais sugestivos do que explícitos -, mas existe algo bastante significativo nessa escolha de responder a um mundo tão instável com música, afeto e celebração coletiva. Citada no começo desse textinho, Give Me Peace, ajuda a evidenciar esse lado mais reflexivo e político do trabalho. No fim das contas, Chopping Mountain é um daqueles discos que conseguem fazer pensar sem exigir que ninguém abandone a pista. Afinal, diante de tanta coisa fora do lugar, dançar também pode ser uma forma de resistência.

Nota: 9,0 

Novidades em Srreaming - Michael

De: Antoine Fuqua. Com Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long e Miles Teller. Drama / Biografia, EUA, 2026, 127 minutos.

Vamos combinar: a gente sabe que não é tarefa fácil condensar uma vida tão complexa e tão cheia de acontecimentos como a do astro Michael Jackson em um filme de apenas duas horas - e talvez seja esse o sentimento ao final dessa cinebiografia tão, mas tão chapa branca, que vai no limite do insosso. Sim, o mundo todo está se perguntando os motivos de temas espinhosos relacionados ao Rei do Pop - como as acusações de abuso sexual infantil, as mudanças em sua aparência (inclusive no que diz respeito à cor da pele) ou mesmo o abuso de medicamentos após o fatídico acidente que quase o levou à morte (o da queimadura na cabeça, durante a gravação de um comercial para a Pepsi) - terem sido simplesmente ignorados em Michael, mas o caso é que pega meio mal fingir que a coisa toda não existe, por mais que haja implicações jurídicas que impeçam certas abordagens. 

E o fato de a obra do diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, 2001) ter sido, em grande parte, produzida, roteirizada e até estrelada por familiares - o protagonista é vivido por Jaafar Jackson, sobrinho de Michael -, torna tudo ainda pior. A completa ausência da irmã Janet, por exemplo, parece ter a ver com esse contexto, já que mesmo ela teria ficado incomodada com o estilo absolutamente laudatório e apologético da produção. E eu já sabia que a crítica estava meio que descendo a lenha na obra, que estreou recentemente na plataforma da Amazon Prime, mas quis ver com os meus próprios olhos. E, bom, se no começo parecia ruim - e eu já revirei os olhos nos primeiros quinze minutos, quando o pai de Michael, Joe Jackson (um esforçado e maquiado Colman Domingo), solta uma frase de efeito à moda livro de autoajuda de "na vida só se pode ser vencedor ou perdedor" -, no final, quando assistimos 15 minutos de apresentação masturbatória em um suposto epílogo heroico, parecia o começo.

 


Porque o problema é que o filme termina na metade dos anos 80, quando o artista se recupera da tragédia que resulta em queimaduras de terceiro grau, talvez em um dos únicos momentos mais intensos da trama. Ou que nos conecte um pouco mais com o humano Michael - que nem percebe que seus cabelos estão queimando depois que uma fagulha de fogo pousa em sua cabeça. O caso é que, de maneira geral a impressão que dá é que não estamos diante de um cantor, por maior que fosse o dono dos hits Beat It, Thriller e Billie Jean, mas sim de um ser elevado, quase celestial. E que não é apenas dono de uma voz angelical, mas que também, nas horas vagas, abriga bichos de estimação excêntricos, visita crianças acamadas em hospitais e assiste a uma série de filmes conforto, como Cantando na Chuva (1952) ou obras de Charlie Chaplin, com a mãe Katherine (Nia Long).

O grande conflito? Apenas com o autoritário Joe, que queria controlar todos os aspectos da carreira do filho, não abrindo mão do coletivo. Especialmente nos momentos em que ele se sente estimulado a dar seus voos solo - que resultariam nos clássicos álbuns Off The Wall (1979) e Thriller (1982). Entre conversas de bastidores com empresários, como John Branca (Miles Telles, de mullets) ou produtores e executivos da indústria musical, como o fundador da Motown Berry Gordy (Larenz Tate) e Quincy Jones (Kendrick Sampson), o patriarca da família - integrada ainda pelos outros quatro irmãos e pela flexível mãe Katherine (Nia Long) -, se impõe como uma barreira onipresente, sempre com cara de poucos amigos e feições carrancudas. O que não impede Michael de ir construindo sua carreira de forma quase absolutamente natural, dado o seu raro timbre vocal e habilidade na construção de hits (e confesso que senti falta de saber mais detalhes de como clássicos como Heal the World ou Smooth Criminal brotaram para o mundo). No mais fica uma sensação de incompletude e até de mais do mesmo, que talvez um documentário como Finding Neverland (2019) possa suprir.

Nota: 2,0