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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero)

De: Julia Jackman.Com Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry e Charli XCX. Fantasia / Romance, Reino Unido, 2025, 91 minutos. 

Era uma vez três irmãs - Rosa, Mina e Caterina -, que viviam com o pai, um capitão do mar. Após a morte da mãe das jovens, o pai prepara-as para aquilo que a sociedade patriarcal espera delas: ser boas esposas e mães, obedientes e com habilidades domésticas. Só que o homem não sabe que, em segredo, o trio aprendeu algo proibido nesse universo alternativo: ler e escrever. Quando o pai retorna de viagem com um comerciante rico a tiracolo, Rosa é escolhida para casar-se com o rapaz, acreditando no fato de ela ser dócil, virtuosa e santa. Só que essa não é a personalidade real de Rosa, uma moça inteligente, extrovertida e dotada de habilidades artísticas. E mesmo que o matrimônio pareça feliz em um primeiro momento, com as convenções estabelecidas, a confiança é quebrada quando Rosa, num instante afetivo, escreve I love you, em uma janela embaçada. É o suficiente para que o marido surte com a ideia de a própria esposa ser capaz de escrever seus próprios pensamentos. Sim, escrever. Ela se torna uma ameaça, uma bruxa, impura, vadia.

Vamos combinar que a história dentro da história narrada por Hero (Emma Corrin) à Cherry (Maika Monroe), em 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero), parece ainda dizer muito sobre os tempos sombrios atuais - em que políticos de extrema direita nutrem um desejo nem tão secreto assim de que suas esposinhas de bem sejam apenas donas de casa submissas, do modo mais tradicional possível. De preferência sem independência, sem vontades, sem desejos pessoais. Sem voto. Sem ideias (subversivas). Sem leitura e escrita. Enfim, vocês sabem como opera esse campo. Ao cabo, a obra dirigida por Julia Jackman e que é inspirada na graphic novel de Isabel Greenberg, é um conto de fadas esteticamente belo, que pega algumas ideias de As Mil e Uma Noites, para contar a história de Cherry, que é deixada em seu castelo por seu marido negligente Jerome (Amir El-Masry), que resolve testar sua fidelidade após a chegada do sedutor Manfred (Nicholas Galitzine) ao local.

 


Caso Cherry ceda às investidas de Manfred, Jerome lhe concederá direito sobre o reino. Restando à adúltera Cherry o destino inevitável das bruxas desviantes do período: a morte. De preferência de alguma forma bem cruel. Só que Hero, para além de criada de Cherry, é uma amiga pessoal. Uma amiga talvez até demais - e são várias as sugestões homoeróticas do filme que estreou na última semana na Mubi. Não apenas entre a dupla central de mulheres, mas também entre Jerome e Manfred - o que é reforçado pelo fato de o primeiro ser simplesmente incapaz de confirmar uma noite de núpcias adequada, como prevê a tradição. "Quero ser tocada, pra gerar um filho, claro", verbaliza à jovem de forma meio desajeitada, em certa altura. Mas Hero parece estar um passo à frente dessa ameaça que parece se espalhar de todas as formas nos corredores desse universo gerido por homens velhos e cheios de códigos morais rígidos. É por isso que ela mesma sugere contar a história de Rosa (vivida por Charli XCX) e suas irmãs. Como uma forma de reter meio que eternamente por esses três meses e pouco, as investidas de Manfred.

Em geral, o que temos aqui é uma produção que consegue ser ao mesmo tempo modesta, mas também sofisticada - além de cheia de metáforas e simbolismos que apontam os dedos para o absurdo da dominação dos homens, com o uso da religião como veículo. Nesse mundo alternativo, o idílio pacífico pensado por Kiddo é quebrado quando seu pai, um certo Birdman (Richard E. Grant) resolve criar um código rígido, especialmente no que diz respeito à gênero. Para Cherry, ter um filho pode até ser um objetivo - até mesmo para que ela sobreviva nesse espaço em que mulheres parecem ter apenas uma "utilidade" -, mas essa ideia vai sendo meio que dissipada, conforme ela mergulha no universo fantástico de Hero (que, sim, tem esse nome não por acaso). Com ótimos figurinos e desenho de produção, esse é aquele tipo de narrativa cheia de carisma, que não carece de grandes acontecimentos ou reviravoltas para passar o seu recado. Talvez em tempos tão brutos, um pouco de realismo fantástico não faça mal. 

Nota: 7,0 

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Novidades em Streaming - Ágon: O Corpo e a Luta (Agon)

De: Giulio Bertelli. Com Alice Bellandi, Sofija Zobina e Yile Yara Vianello. Drama, Itália / França / EUA, 2025, 100 minutos.

Ágon: O Corpo e a Luta (Agon) trata de um assunto que, aqui e ali, a gente vê pincelado, especialmente em tempos de Olimpíadas: o treinamento para atletas de elite, independente da modalidade, é pesado. Num nível quase excruciante de exigência. E de abnegação. Participar desse tipo de disputa, afinal, exige foco. Seja no judô, na esgrima ou no tiro de carabina. Alcançar uma medalha é para poucos. Lidar com a  derrota - ou pior, a dor de uma lesão, de um cancelamento (algo típico dos nossos tempos) ou de um trauma profundo - é para menos pessoas ainda. Ao cabo, quando a gente assiste aos Jogos Olímpicos em toda a sua beleza e exuberância, dificilmente a gente imagina o que acontece por trás. Quais as cobranças. Quais as pressões exercidas - por governos, por patrocinadores, pelo público. E o que a estreia de Giulio Bertelli faz, é nos jogar para esse ambiente. Mas nunca de uma forma cômoda.

"Como velejador offshore, eu sei como é passar pela dor das lesões e da recuperação, lidar com a mídia ou simplesmente com a complexidade de administrar essa máquina que é o esporte profissional. Mas também havia a vontade de contar o lado B, a solidão, a espera", comentou Bertelli, um privilegiado herdeiro da Prada - ele é filho da designer de moda Miuccia Prada -, em entrevista ao site Harper's Bazaar. E, evidentemente, como fica claro na obra que chega à Mubi, a sua condição de nepobaby não significou acomodação. Ou achar que o jogo já estava ganho. Com elegância e até quebrando uma certa lógica do que se espera de um cinema mais óbvio, o diretor adota um estilo quase documental - de fotografia granulada, ângulos oblíquos e câmera no rosto (ou em close até mesmo de partes mais "desconfortáveis") -, pra registrar a preparação de três atletas para os fictícios jogos de Ludoj, de 2024.

 


Inspirado no terrível acidente ocorrido com o esgrimista da União Soviética Vladimir Smirnov, em 1982, o filme recupera essa história para contar o drama de outra atleta, a esgrimista Giovana Falconetti (Yile Yara Vianello), quando seu florete perfura a máscara de uma adversária em meio às oitavas de final dos Jogos. Em meio a explicações sobre padrões de segurança da malha metálica dos equipamentos e sobre regulamentos técnicos gerais - em um tipo de detalhamento dificilmente visto em uma produção de cinema (talvez em documentários) - a atleta vive o dilema de prosseguir ou não na disputa. Tudo enquanto, óbvio, nas redes sociais, ela sofre todo o tipo de pressão em comentários sempre bem ponderados (contém ironia), por prosseguir mesmo frente ao dilema ético gerado pelo acidente. Na década vigente isso é parte da engrenagem, diga-se.

Aliás, as redes sociais e toda a distração proporcionada por elas na era moderna parecem parte intrínseca da narrativa - não sendo poucos os momentos em que sequências reais de treinamentos, se mesclam com jogos de videogame, conversas em redes sociais ou disputas online, que meio que burlam os limites entre a realidade e a ficção. Afinal, o que é real ou mesmo viver, existir, para alguém que tem como única rotina treinar, treinar e treinar? Não é por acaso que, em certa altura, uma das atletas está em uma boate, sendo praticamente impossível ouvir qualquer tipo de conversa no ambiente. Como se estivessem mudas para suas próprias vontades e desejos, recebendo todo o tipo de atenção e pressão por performance, as protagonistas parecem se ver como bonecos de ventríloquos alienados e manipulados por todos os lados. O que é reforçado pela burocracia que envolve meio que tudo, como na parte em que a judoca Alice Bellandi (que interpreta ela mesma, ampliando o naturalismo da experiência) precisa entregar uma série de documentos pra participar de uma competição. 

 
 
 
No filme, por sinal, Alice sofre uma grave lesão que lhe obriga a correr contra o relógio para a próxima competição e a cena em que ela passa por uma invasiva cirurgia no joelho é meio que gráfica até demais - sendo parte das formas com que Bertelli encontra para evidenciar as agruras das jovens, que contrastam com as capas de revistas e as expectativas geradas ao serem alçadas ao posto de "próxima promessa" do esporte. É o caso, por exemplo, da atiradora de carabina Alex Sokolov (Sofija Zobina) que, a despeito do seu discurso pacifista, vê sua vida virar de cabeça para baixo, quando tem um vídeo viralizado em que ela aparece em uma caça à animais selvagens. Espada, luta, tiro. Certamente não é por acaso que o realizador centra essas histórias em esportes de de força. De exigência e disciplina quase militares. É preciso superar muita coisa. Ainda mais sendo mulher. Os gritos de felicidade - ou por um golpe bem dado - podem facilmente se converter em urros de desespero. E pouca gente estará do outro lado para acolhê-las. 

Nota: 8,0 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Novidades em Streaming - Inverno em Sokcho (Hiver a Sokcho)

De: Koya Kamura. Com Bella Kim, Roschdy Zem, Ryu Tae-Ho e Park Mi-Hyun. Drama, França, 2024, 104 minutos.

Vamos combinar que a trama do estrangeiro que visita um outro País e se encanta pela sua cultura, gastronomia, arquitetura, história e gente - em muitos casos até estabelecendo laços sólidos no local -, é meio que um lugar comum. Um clichê. Ainda mais em obras literárias ou filmes românticos. Afinal, firmar raízes em outra nação - o que abre possibilidades para novas amizades e amores -, talvez seja uma das grandes alegorias para os recomeços. Onde o passado fica para trás em prol de um futuro muitas vezes idealizado (mas que na tela sempre parece perfeito). Só que nem sempre a vida é tão óbvia como muitas vezes é no cinema - por mais paradoxal que isso seja -, e é por isso que é tão interessante o arco narrativo visto no tocante Inverno em Sokcho (Hiver a Sokcho), produção inspirada em livro da autora Elisa Shua Dusapin, que estreou recentemente na plataforma Mubi.

Aliás, o filme já começa com uma série de paisagens geladas e enevoadas que, somadas à trilha de notas tristes, já identifica aquele espaço como um local isolado, dotado de uma estética em que a melancolia geral prevalece. É nesse contexto - o da pequena Sokcho do título, uma cidadezinha pesqueira da Coreia do Sul, quase no limite coa vizinha Coreia do Norte -, que vive a jovem Sooha (Bela Kim), uma funcionária de uma pousada que tem a sua rotina alterada pela chegada do misterioso escritor Yan Kerrand (Roschdy Zem), que ocupará um dos quartos justamente nesse meio de temporada, em que a quantidade de turistas do lugar reduz drasticamente. Yan parece estar ali por certo interesse que tem a ver com seu trabalho. Talvez esteja buscando inspiração para um novo romance. "Gosto de ir a lugares movimentados, mas quando estão vazios", comenta ele em uma das caminhadas ao lado de Sooha, que funcionará como uma guia improvisada do local.

 


A protagonista inicialmente estranha certos comportamentos do estrangeiro. Ele não parece tão encantado assim com a culinária local, como deveria ser o caso - em certa altura dá preferência para um pacote de Cheetos do que para uma saborosa sopa de rabanete branco. Pior, ele parece sempre disposto a recusar qualquer tentativa de inclusão nos hábitos do pequeno povoado - o que também tem a ver com as refeições nunca aceitas (ele prefere ir a um restaurante genérico). Sooha considera tudo um tanto enigmático, ainda que nunca enfrente uma barreira linguística, já que tem o francês como segunda língua. Seu pai, que ela nunca chegou a conhecer, era de Paris - e sua mãe (Park Mi-Hyun) não parece muito disposta a contar a história real a respeito do sujeito. E não deixa de ser curioso perceber como, quanto mais Yan parece distante e apenas conectado com seu trabalho (sempre recluso em seu cubículo), mais Sooha parecerá encantada. Talvez até apaixonada. Por um homem que, vejam bem, tem idade para ser seu pai.

Aproveitando a narrativa para uma série de outros comentários sociais - os mais aprofundados envolvendo o culto à imagem e à necessidade de, nos tempos atuais, as mulheres recorrerem a procedimentos estéticos que quase nunca precisam -, a obra de Koya Komura ainda utiliza uma série de animações tão oníricas quanto transcendentais, como forma de reforçar as suas ideias. Nesse sentido não deixa de ser comovente o instante em que o sexo é "desenhado" como uma profusão carnal de traço sofisticado, capaz de ampliar a sensação de busca por algo que talvez nunca seja alcançado (por mais bonito e interessante que seja o namorado de Sooha, um jovem modelo). Sim, há uma fantasia ali que talvez seja quase óbvia sobre a idealização de um amor que jamais se concretiza, o que não reduz a surpresa do ato final quando Yan é franco de uma forma quase dolorosa demais. Isso não é um filme, afinal. Quer dizer, até é. Mas não do jeito que estamos acostumados.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Novidades em Streaming - The Code

De: Eugene Kotlyarenko. Com Dasha Nekrasova, Peter Vack, Ivy Wolk e Vishwam Velandy. Comédia / Drama, EUA, 2024, 100 minutos.

"Certamente sairemos melhores da pandemia". Quantas vezes não ouvimos - ou mesmo falamos - frases parecidas com essa nos tempos de confinamento. Nos meses intermináveis em que nos trancamos em casa com medo de um vírus que parecia que ia matar todo o mundo, sem poder ter contato com o mundo real, o quanto não prometemos ser mais empáticos, menos individualistas, mais tolerantes? Sim, o mundo da covid-19 parece agora meio distante e, o que ficou? Medo, vigilância permanente, guerras, inteligência artificial, avanço da extrema direita, xenofobia, crises e mais crises - políticas, sociais, religiosas, culturais. Em certa altura do excêntrico The Code, que acaba de chegar à plataforma Mubi, a documentarista Celine (Dasha Nekrasova) explica ao seu namorado Jay (Peter Vack) que a ideia de fazer um filme sobre os tempos pandêmicos é mais simples do que parece: "em breve tudo isso aqui vai acabar e ninguém mais vai se lembrar de como era".

E, vamos combinar, a gente quase não lembra mais como que era. Usar máscara, evitar aglomerações, não compartilhar utensílios e alimentos. "O que aquele cara está fazendo de máscara dentro de um carro conversível?". Na câmera onipresente de Celine tudo parece ser matéria-prima para o documentário que ela está gravando. E que ela mesma pretende editar. Mas será que esse é, de fato, um filme sobre os tempos pandêmicos? Ou é mais um registro autobiográfico sobre uma relação que parece ruir? Com dois jovens bonitos que parecem não apenas incapazes de amar, mas também de transar. Em tempos em que diversos estudos evidenciam a incapacidade dos millennials de se conectarem, de estabelecerem relações sólidas, responsáveis do ponto de vista afetivo, poucas vezes uma obra será tão realista no exame dessa era turbulenta que vivemos - insana, urgente, intensa, febril e cronicamente online - do que nesse projeto de Eugene Kotlyarenko. 

 

 

E devo confessar a vocês que não é todas as vezes que dou play em projetos do tipo - desses metidos a moderninhos, que fazem sucesso em festivais alternativos, como o de Sundance -, sem dar uma boa torcida de nariz. Mas há algo envolvente aqui, que conecta o público, por mais que a realidade apresentada pareça meio distante. Na trama, estamos em março de 2021 e Celine e Jay alugam uma casa no Airbnb para tentar se reconectar de alguma maneira. "Não lembro a última vez em que fiz sexo com a minha namorada" comenta Jay em uma gravação que deve virar conteúdo ali adiante. Talvez um viral. Assim como parece ser a série de vídeos para o Tik Tok criados por Celine em que ela aparece em edições extremamente dinâmicas amassando comprimidos de Viagra, que ela misturará com o almoço pra ver se as coisas se movimentam um pouco. Talvez movimentem. Ainda que, se tudo for forçadamente filmado, a coisa possa soar um tanto fake. E a graça se perde.

Com uma montagem ágil e tecnicamente impecável que se utiliza de todo e qualquer equipamento capaz de filmar, o filme de Kotlyarenko, que parte de uma citação de Orson Welles para enveredar pra um comentário metalinguístico que se estenderá por toda a narrativa, funciona como uma grande colagem de fragmentos em que temas, como, solidão, problemas sexuais, pornografia, onipresença de aplicativos, criptomoedas, medo do cancelamento, autoestima hétero, ausência de privacidade e incelismo cultural se descortinam de forma intensa, alternando momentos ágeis, com outros mais contemplativos. Em geral, a chance de perdermos algum detalhe pode ser real naquele universo caótico que nos bombardeia de informações e que também é coabitado por um excêntrico host de nome Parthik (Vishwam Velandy) que se junta à prima de Celine, Colette (uma ótima Ivy Wolk), que surge para subverter a lógica da existência millennial (em geral frustrada, melancólica e sem perspectivas). Ainda assim o que fica é o caráter cômico da performance permanente na modernidade, em que a hipervigilância parece servir pra mascarar a paranoia e a completa falta de autoestima. Um achado.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Novidades em Streaming - Blue Jean

De: Georgia Oakley. Com Rosy McEwen, Kerrie Hayes e Lucy Halliday. Drama, Reino Unido, 2022, 97 minutos.

Vamos combinar que se tem uma coisa que a extrema direita é especialista é em vigiar a sexualidade alheia. Resultado de uma provável série de frustrações nesse campo, os reacionários são hábeis em colocar uma suposta decadência social e moral nas costas de gays, lésbicas, trans e outros grupos minoritários, como se fossem estes os responsáveis diretos pela depravação, pelo desvio de padrão e, pasmem, até por uma certa ditadura que visa a normalizar comportamentos que, para eles, são disfuncionais. Você já viu essa pessoa por aí. Na família, no trabalho, na vizinhança, sempre com algum comentário ou piadinha de mau gosto na ponta da língua, o que evidencia a sua completa incapacidade de encarar a sociedade como um organismo em transformação, empenhado em naturalizar toda e qualquer forma de amor. E basta ver o apelo que figuras como Trump, Bolsonaro e, agora, Milei, tem como essa parcela retrógrada e bolorenta da sociedade, pra entendermos que o pânico moral segue em alta como moeda de troca.

Sim, e se hoje em dia o campo progressista ainda tem que gastar longas horas em discussões nas redes sociais afirmando que não vai haver kit gay, que a mamadeira de piroca é só um delírio de zap e que debater sexualidade na juventude não converte educadores em pervertidos pedófilos - aliás, muito pelo contrário -, em décadas passadas a situação era ainda pior. E no ótimo filme Blue Jean, premiada estreia da diretora Georgia Oakley que está disponível na Mubi, o contexto é o final dos anos 80, na Inglaterra ultraconservadora de Margareth Thatcher. Com uma ampla campanha que envolvia peças publicitárias e políticas de supressão de direitos - como a tal Cláusula 28, que visava a reduzir o campo de ação de coletivos e de ativistas das causas LGBTQIA+ -, o que se viu foi um encolhimento do debate. E, como não poderia deixar de ser, o aumento do ódio, da intolerância e da perseguição. É nesse cenário complexo e de controvérsias que tenta sobreviver a professora de educação física Jean (Rosy McEwen).


 

Ainda que frequente uma boate gay, tenha uma namorada, Viv (a ótima Kerrie Hayes), e esteja habituada aos ambientes mais plurais, Jean tem dificuldade em expressar sua sexualidade mais livremente. Em, efetivamente, sair do armário. É uma situação complexa, inegavelmente, já que a protagonista prefere manter uma vida mais reservada até mesmo para preservar o seu emprego. A sociedade, com todo o seu preconceito, a gente sabe, pode reagir mal ao saber da simples existência de uma professora lésbica atuando em um educandário repleto de filhos das "famílias de bem" inglesas. Que sob o jugo de Thatcher se sentem autorizadas a combater a indecência, a "ditadura gayzista" e a exercer livremente sua homofobia. Para Viv, tudo isso é uma grande decepção. Sensação ampliada pelo comportamento meio alienante de Jean, que ocupa suas noites com programas de TV antiquados em que jovens héteros tentam encontrar um relacionamento. "Nem tudo precisa ser político", argumenta Jean à namorada. "Tudo é político", retruca Viv.

E uma atração televisiva que replica tanto machismo e misoginia certamente é parte da campanha que visa a disseminar o pânico moral - e de ampliar a ideia da homossexualidade (e também do feminismo), como algo em desacordo ao padrão. Para Jean, a coisa muda de figura quando entra em sua vida a jovem Lois (Lucy Halliday), que sofre bullying na escola por preferir o futebol com os meninos ao netball (uma variação do basquete) com as meninas. Em certo dia, Jean encontrará Lois na mesma boate gay que ela frequenta, o que as aproximará, inevitavelmente. Só que o problema é o estilo de luta de Jean: silenciosa, discreta, evitando chamar a atenção em um contexto de opressão. É claro que as coisas, mais adiante, irão descambar no educandário. Verdades virão à tona. E decisões mais complexas precisarão ser tomadas. Ao cabo, esse é um filme em que nada é tão simples e o tempo todo somos convidados a refletir sobre decisões tomadas - especialmente pela protagonista. É uma obra que ecoa nos dias de hoje. E que é bela como um sorriso de alívio - especialmente quando a consciência está tranquila.

Nota: 8,5


segunda-feira, 1 de abril de 2024

Novidades em Streaming - Os Colonos (Los Colonos)

De: Felipe Gálvez. Com Camilo Arancibia, Mark Stanley, Benjamin Westfall e Alfredo Castro. Drama / História, Chile, 2023, 100 minutos.

Um soldado britânico, um cauboi americano e um mestiço chileno entram num bar e, bom, pode parecer começo de uma anedota de mau gosto, mas é uma excelente maneira de recontar um tipo de história que, em muitos casos, foi apagada. Ou que talvez seja desconhecida pra muitos. E esse é só um dos muitos méritos de Os Colonos (Los Colonos) - o enviado do Chile à última edição do Oscar e que chegou na última semana à plataforma Mubi. A obra de estreia do diretor Felipe Gálvez tem aquela cara de faroestão clássico, como se fosse uma mescla de No Tempo das Diligências (1939) - especialmente do ponto de vista dos cenários grandiosos (e abertíssimos) - com o tipo de descrição que encontramos em obras literárias estilo Todos os Belos Cavalos, de Cormac McCarthy. Só que a diferença aqui é que estamos na América do Sul, mais precisamente no Sul do Mundo - espaço conhecido como a Terra do Fogo.

É o começo do Século 20 e nesse ambiente inóspito que é meio que terra de ninguém, um certo estancieiro de nome José Menendez (Alfredo Castro) envia uma expedição em direção ao Atlântico para não apenas delimitar, mas talvez recuperar terras concedidas pelo Estado. Claro que no caminho há uma grande chance de eles se depararem com tribos indígenas - os Onas habitam a região e se houver qualquer tipo de dificuldade com eles, a regra do homem branco é clara: matar se for preciso. Nesse comboio partem apenas três homens, no caso o tenente inglês Alexander MacLennan (Mark Stanley), o pistoleiro saído dos Estados Unidos Bill (Benjamin Westfall) e o criador de ovelhas Segundo (Camilo Arancibia), um nativo da região, que é recrutado por ser um excelente pistoleiro. À cavalo, o trio cruzará um cenário absolutamente isolado nos confins da Terra, não apenas trabalhando para um empresário explorador que mal conhecem, mas com a missão de exterminar indígenas (tidos como selvagens).


 

Revisionista, a trama baseada em fatos reais retira certo romantismo que pode pautar os relatos de colonizadores - e, consequentemente, do lado que costuma aparecer nos livros de história -, para tratar de um passado de violência, de morte, de sangue, de abusos e de mais forte oprimindo o mais fraco (como em muitos casos costuma ser). Em alguma medida, em tempos em que tribos indígenas seguem sendo suprimidas institucionalmente, especialmente em um cenário de políticas desastrosas de extrema direita, não deixa de ser interessante notar como a produção olha para o passado, mas sem ignorar o presente. Há uma crueza meio brutal que assombra - e mesmo uma disputa de queda de braço pode vir carregada de certo simbolismo que acena à atualidade, com nações disputando territórios ou entrando em guerra umas com as outras, seja por motivos geográficos, políticos, religiosos, culturais. "Nada de bom pode ocorrer quando os militares estão entediados", resume alguém em certa altura.

[ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] Em alguma medida o combo de militarismo com religião como um suposto caminho para a "domesticação" de povos, também aparece aqui e ali, especialmente no terço final, quando a trama dá uma guinada, com o Governo chileno aparentemente disposto a uma autoanálise e uma reparação de seus equívocos. Mas a que preço? Fazer parte de um País na marra? Uma nação que massacra seus povos originários, mas que quer incluir esses mesmos povos à sua maneira? Suprimindo culturas, tradições, folclore, religião, modo de vida? Em certo momento, Segundo está dormindo quando acorda com os cavalos agitados. Ele avança em direção à floresta, na madrugada escura, onde tem uma espécie de revelação. Tão alegórica quanto surpreendente. Que mais adiante fará com que ele reflita sobre o que é ser chileno. "Você é branco, ele não é" relembra Bill à Maclennan, como forma de lembrar como funcionam as dinâmicas de poder locais. Baseadas em preconceitos e em estereótipos. A gente sabe como a história termina e o último instante do filme mostra que a construção de um Chile (e de uma América) para todos, unificada, não se deu sem que o massacre ocorresse nas entranhas, nas artérias, nas veias. Suprimindo não apenas os povos, mas os seus ideais. Filmaço.

Nota: 9,0


quarta-feira, 28 de junho de 2023

Tesouros Cinéfilos - Entre Tempos (Ricordi?)

De: Valerio Mieli. Com Linda Caridi, Luca Marinelli e Giovanni Anzaldo. Drama / Romance, França / Itália, 2018, 106 minutos.

"Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!". A frase é antiga, atribuída ao escritor Miguel de Cervantes, mas encaixa como uma luva na narrativa que acompanhamos em Entre Tempos (Ricordi?) - um romance de estilo meio "pastoso" que segue disponível na Mubi (é a última semana em cartaz). Na trama temos uma experiência labiríntica, caleidoscópica, de idas e vindas e de como podemos ser traídos pelas nossas lembranças. Especialmente quando o assunto são os relacionamentos. Basta pensar como parece agir o nosso cérebro diante de um iminente rompimento: as recordações parecem floreadas, vívidas, primaveris. Como se houvesse um embate, uma luta capaz de apagar os piores momentos, fazendo com que nos foquemos nos instantes mais belos do amor. Sim, tudo pode estar desabando. Mas será que ainda assim não valeria a pena tentar? Quem nunca? A exceção de quem viveu grandes traumas quando o tema é a paixão, a impressão que temos é a de nos enganarmos por vezes. Ou não?

Quem não se lembra, por exemplo, do esforço homérico do personagem de Jim Carrey no ótimo Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) para simplesmente deletar de sua memória a sua tão amada Clementine (Kate Winslet)? No filme delirante, surrealista e divertido de Michel Gondry tudo corre mais ou menos bem na cabeça do protagonista. Ao menos até chegar a hora de apagar as primeiras memórias. Que nesse caso são as últimas. Como a engenhoca opera de trás pra frente, ela começa na pior parte de uma relação em frangalhos. Para retroceder até o princípio idílico onde rolam os primeiros encontros, a paixão, os pontos em comum, o tesão. No caso da obra italiana de Valerio Mieli a vida real não envolve tecnologias avançadas de apagamento de memórias. E elas estarão lá. Boas, ruins, nos atormentando ou nos fazendo sorrir. Mexendo conosco, com o nosso íntimo. Expondo as nossas fragilidades, com a sua completa falta de lógica.

Aqui, acompanhamos duas pessoas de personalidades completamente opostas que se aproximam em uma festa ao ar livre daquelas tipicamente bucólicas (e inadvertidamente italianas). Lui (Luca Marinelli) é o sujeito introspectivo, que parece ter uma predileção pela melancolia, pelo niilismo e até por certo pessimismo. Já Lei (Linda Caridi) é a jovem cheia de vida, sempre com um sorriso magnético no rosto, daquele tipo de garota que, por onde passa, parece contaminar a todos com seu otimismo irresistível. Duas almas tão distintas podem se apaixonar? Podem se amar e ter planos? Bom, não é preciso ser nenhum especialista pra saber que essas coisas não se escolhem. Elas simplesmente acontecem. Ainda que o que vá determinar a solidez ou não de uma relação sejam outros aspectos. Uma paixão pode esvanecer com o passar dos anos. Empalidecer. Pessoas podem deixar de amar. Mas não de gostar. Mieli, em sua narrativa fracionada, fragmentada, trata de todas essas complexidades. De uma forma pouco convencional.

Intercalando uma série de flashbacks com cenas mais atuais, assistimos as várias etapas que compõem a vida de um casal - a relação com as famílias, os planos juntos, mudanças, risos e choros, perdas, dores, anseios, sonhos compartilhados. É um filme bonito e triste e que jamais idealiza o amor ou olha para o passado com uma esperança inevitável de salvação. Utilizando uma série de recortes, de pequenas peças, o diretor forma uma verdadeira colcha de retalhos ao mesmo tempo em que brinca com a fotografia (que pode ir de ensolarada a acinzentada em segundos), com os figurinos (que se modificam às vezes na mesma cena) e até com as memórias em si - que podem ter seu ângulo alterado, de acordo com quem está narrando a história. Pode ser uma experiência não muito fácil e pouco convencional, mas que funciona por possibilitar um olhar carinhoso para as marcas deixadas por aqueles que percorrem as nossas existências - e não é por acaso que a dupla central também parece guardar na memória fragmentos de outras relações (que, inclusive, lhes confundem). Intensa, insinuante, não muito lógica, essa é daquelas produções eventualmente filosóficas e levemente experimentais, que tentam tratar seu tema para além do óbvio. É um mérito, inegavelmente.