sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - O Fim da Rua (The End of Oak Street)

De: David Robert Mitchell. Com Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella e Cristian Convery. Aventura / Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 99 minutos.  

Vamos combinar que talvez tudo aquilo que A Última Casa (2026) desejasse ter sido, em termos de "filme sobre uma família em busca da sobrevivência após eventos estranhos começarem a acontecer", O Fim da Rua (The End of Oak Street) é. Sim, a obra de David Robert Mitchell (do estranho O Mistério de Silver Lake, 2018), que chegou nesta semana para aluguel nas plataformas, tem aquele típico cheirinho de nostalgia, não apenas pelo fato de a ação se passar no ano de 1982, mas também pela mistura meio Jurassic Park (1993) se tivesse sido dirigido, sei lá, pelo John Hughes, que recupera o subgênero dos dinossauros que, ao menos na minha bolha cinéfila, andava meio esquecido. E, assim como acontece, por exemplo, em uma comédia romântica, nos filmes de ação e de aventura a coisa tende a funcionar mais se nos importamos com aqueles que vemos em tela. E, não sei se são os tempos brutos, truculentos em que vivemos, mas eu torci para um caralho para que todos ali tivessem um final feliz.

Afinal, obras desses segmentos costumam ter também em seus DNAs algum tipo de metáfora sobre dar a importância para as coisas simples, respeitar as diferenças, abraçar oportunidades ou mesmo acreditar na força dos vínculos entre seres humanos diferentes. Na potência da coletividade, enfim. É um filme que não poderia ser mais distante de qualquer tipo de panfleto - e, que bom, como havíamos falado na resenha de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), nem tudo precisa ser sobre política o tempo todo -, mas capaz de estabelecer forte vínculo com o espectador. Os dinossauros aqui podem até não ser alegoria simbólica para o capitalismo tardio, para o aquecimento global, para pandemias ou o avanço da extrema direita em todos os seus preconceitos. Mas ainda assim opera como uma ameaça mobilizante, capaz de tirar a família liderada por Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), no auge de seus carismas, da zona de conforto.

 


Na trama, a dupla vive uma vida mais ou menos confortável, ao lado dos filhos Brian (o excelente Cristian Convery) e Audrey (Maisy Stella), em um bairro de classe média de uma cidadezinha do Michigan. Nas aparências pode estar tudo meio perfeitinho, com seus gramados e cerquinhas brancas, mas tanto Denise quanto Greg têm os seus segredos. Ela tem escrito às escondidas, no porão da casa, um livro de autoficção em que verbaliza a insatisfação de uma dona de casa em sua vidinha ordinária - o material bruto é acompanhado por uma vizinha veterana, espécie de conselheira de Denise. Já Greg perdeu o emprego há mais de uma semana e finge estar fazendo um bico numa pizzaria para levantar uma grana extra, quando na realidade este é o único trabalho no momento - ofício, aliás, que envergonha a esposa. Para os filhos, a instabilidade dos pais se espalha pelas frestas, gerando tensões domésticas antes que tudo piore, verdadeiramente.

Em linhas gerais por mais que essa seja uma experiência que vai desembocar em uma séria tragédia - depois que o bairro entra em uma espécie de looping temporal ou buraco de minhoca que o leva meio que para a pré-história, de forma inesperada (e não esperem muitas explicações científicas sobre, que aqui não é o caso) -, não são poucos os instantes leves, de humor e afeto e feitos com equilíbrio. O que permite que o ânimo do espectador flutue de forma imprevisível - e que faz com que num momento estejamos rindo quando uma enorme pilha de cocô de dinossauro meio que brota na casa do vizinho; em outros entremos em pânico com, sei lá, um estegossauro ameaçador que surge do nada; para mais adiante nos comovermos quando todos se salvam no último segundo. Com tudo virando com a inesperada cena de uma dupla de dinossauros, digamos... acasalando - instante em que Greg pede para Denise tirar uma foto (antecipando os influencers de tragédias que habitam nossos tempos). Divertido, tenso, emocionante, por vezes até meio bobo e ainda uma espécie de homenagem a um cinema que rondava as telonas há cerca de trinta ou quarenta anos. Podem ir na fé.

Nota: 8,0