segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Grandes Filmes Nacionais - O Céu de Suely

De: Karim Aïmouz. Com Hermila Guedes, João Miguel, Georgina Castro e Zezita Matos. Drama, Brasil, 2026, 88 minutos.

"Compra minha rifa. E é uma rifa de quê? De uma 'noite no paraíso.". Existe uma expressão que cunhei para definir o tipo de experiência vista em filmes como O Céu de Suely, que é a do Brasil do Asfalto. É aquele tipo de narrativa de calor escaldante, da beira da estrada, do posto de gasolina, do trilho do trem, do caminhão barulhento que passa e das cidades milimetricamente periféricas, pequenas e urbanas, que a gente vê não apenas no cinema, mas também em obras literárias, como as do Marçal Aquino, ou em músicas populares, radiofônicas, bregas e sentimentais que vemos justamente na trilha sonora - como é o caso da versão de Everything I Own, da Diana, que em português recebeu o título de Tudo Que Eu tenho. No caso, esse espaço rodoviários, isolado costuma fugir um pouco do estereótipo do Nordeste arenoso, agreste, que povoa nosso imaginário, sendo próximo de urbe popular da praça, do motel, do karaokê, da rádio, da pirataria.

Disponível na Netflix e vencedora de diversos prêmios, a produção de Karim Aïnouz remonta a um período supostamente feliz do Brasil - o dos primeiros governos Lula, com certa esperança por um futuro melhor, mas que nem sempre parece alcançar aquela parcela mais vulnerabilizada da sociedade que, longe dos herdeiros, bem nascidos e endinheirados, luta uma luta meio que diária. Sim, se pra nossa esquerda mais caviar o Flávio Bolsonaro parece um filme de terror catastrófico de extrema direita, pras pessoas que acompanhamos nesse pequeno clássico moderno, esse fascismo tropical parece ser meio que parte do cenário há uns 500 anos. E é justamente a desesperança, o abandono e a busca por condições melhores de vida, que faz com que Hermila (Hermila Guedes), rife o próprio corpo na tentativa de comprar uma passagem de ônibus para Porto Alegre, no eterno sonho do Sul do Brasil como um idílio de riqueza, de abundância e de trabalho a ser alcançado.

 


Quando a obra começa, Hermila está retornando para a sua cidade natal, a pequena Iguatu, no interior do Ceará. Acompanhada do seu filho, Mateuzinho, a jovem de apenas 21 anos aguarda a chegada de Mateus, seu namorado e pai do menino, visto em uma imagem borrada e dessaturada do casal em clima de romance, na abertura do filme. Na chegada, a protagonista é recebida de forma carinhosa pela tia Maria (Maria Menezes) e pela avó Zezita (Zezita Matos). No local, Hermila reencontra antigas amizades, como João (João Miguel), um motoqueiro apaixonado que ronda a jovem em suas andanças, além da divertida prostituta Georgina (Georgina Castro), que será uma espécie de conselheira para a tal "noite no paraíso" - o ambicioso prêmio da rifa que Hermila resolver organizar com os locais, após tentativas pouco efetivas de comércio de números com outros prêmios, como garrafas de uísque, e do sumiço sem muita explicação de Mateus, que mal atende suas ligações (feitas num orelhão, só pra adicionar uma pitada a mais nessa semiologia urbana).

Quando a notícia da rifa de Hermila se espalha, as famílias de bem ficam meio que em choque - especialmente após as compras movimentarem a cidade. Ao descobrir o segredo do dinheiro que aumenta, Zezita inquire a neta: a esbofeteia, obrigando-a a se desculpar (e, verdade seja dita que se essa fosse uma produção dos dias de hoje, muito provavelmente o componente Igreja Evangélica, com todo o seu conservadorismo sombrio, seria ainda mais forte). Afetuosa, divertida e naturalista, essa é uma obra que comove, nos fazendo refletir sobre um dos tantos Brasis que está longe demais das capitais, dos nossos olhos, ouvidos, tato. Um dia após a completa derrota do campo progressista nas eleições 2026, O Céu de Suely, que completa 20 anos de lançamento em novembro, é um lembrete: uma vida melhor se faz resolvendo questões práticas. Diárias. Ter o que comer, onde dormir, um trabalho que permita empreender. Acolhimento em alguma medida. Qualidade de vida. Não pensava que uma obra desse tipo, um das 100 melhores da lista da Abraccine, funcionasse também como parte do processo de autocrítica. Mas funciona.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Novidades em Streaming - O Fim da Rua (The End of Oak Street)

De: David Robert Mitchell. Com Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella e Cristian Convery. Aventura / Ação / Suspense / Drama / Ficção Científica, EUA, 2026, 99 minutos.  

Vamos combinar que talvez tudo aquilo que A Última Casa (2026) desejasse ter sido, em termos de "filme sobre uma família em busca da sobrevivência após eventos estranhos começarem a acontecer", O Fim da Rua (The End of Oak Street) é. Sim, a obra de David Robert Mitchell (do estranho O Mistério de Silver Lake, 2018), que chegou nesta semana para aluguel nas plataformas, tem aquele típico cheirinho de nostalgia, não apenas pelo fato de a ação se passar no ano de 1982, mas também pela mistura meio Jurassic Park (1993) se tivesse sido dirigido, sei lá, pelo John Hughes, que recupera o subgênero dos dinossauros que, ao menos na minha bolha cinéfila, andava meio esquecido. E, assim como acontece, por exemplo, em uma comédia romântica, nos filmes de ação e de aventura a coisa tende a funcionar mais se nos importamos com aqueles que vemos em tela. E, não sei se são os tempos brutos, truculentos em que vivemos, mas eu torci para um caralho para que todos ali tivessem um final feliz.

Afinal, obras desses segmentos costumam ter também em seus DNAs algum tipo de metáfora sobre dar a importância para as coisas simples, respeitar as diferenças, abraçar oportunidades ou mesmo acreditar na força dos vínculos entre seres humanos diferentes. Na potência da coletividade, enfim. É um filme que não poderia ser mais distante de qualquer tipo de panfleto - e, que bom, como havíamos falado na resenha de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), nem tudo precisa ser sobre política o tempo todo -, mas capaz de estabelecer forte vínculo com o espectador. Os dinossauros aqui podem até não ser alegoria simbólica para o capitalismo tardio, para o aquecimento global, para pandemias ou o avanço da extrema direita em todos os seus preconceitos. Mas ainda assim opera como uma ameaça mobilizante, capaz de tirar a família liderada por Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), no auge de seus carismas, da zona de conforto.

 


Na trama, a dupla vive uma vida mais ou menos confortável, ao lado dos filhos Brian (o excelente Cristian Convery) e Audrey (Maisy Stella), em um bairro de classe média de uma cidadezinha do Michigan. Nas aparências pode estar tudo meio perfeitinho, com seus gramados e cerquinhas brancas, mas tanto Denise quanto Greg têm os seus segredos. Ela tem escrito às escondidas, no porão da casa, um livro de autoficção em que verbaliza a insatisfação de uma dona de casa em sua vidinha ordinária - o material bruto é acompanhado por uma vizinha veterana, espécie de conselheira de Denise. Já Greg perdeu o emprego há mais de uma semana e finge estar fazendo um bico numa pizzaria para levantar uma grana extra, quando na realidade este é o único trabalho no momento - ofício, aliás, que envergonha a esposa. Para os filhos, a instabilidade dos pais se espalha pelas frestas, gerando tensões domésticas antes que tudo piore, verdadeiramente.

Em linhas gerais por mais que essa seja uma experiência que vai desembocar em uma séria tragédia - depois que o bairro entra em uma espécie de looping temporal ou buraco de minhoca que o leva meio que para a pré-história, de forma inesperada (e não esperem muitas explicações científicas sobre, que aqui não é o caso) -, não são poucos os instantes leves, de humor e afeto e feitos com equilíbrio. O que permite que o ânimo do espectador flutue de forma imprevisível - e que faz com que num momento estejamos rindo quando uma enorme pilha de cocô de dinossauro meio que brota na casa do vizinho; em outros entremos em pânico com, sei lá, um estegossauro ameaçador que surge do nada; para mais adiante nos comovermos quando todos se salvam no último segundo. Com tudo virando com a inesperada cena de uma dupla de dinossauros, digamos... acasalando - instante em que Greg pede para Denise tirar uma foto (antecipando os influencers de tragédias que habitam nossos tempos). Divertido, tenso, emocionante, por vezes até meio bobo e ainda uma espécie de homenagem a um cinema que rondava as telonas há cerca de trinta ou quarenta anos. Podem ir na fé.

Nota: 8,0