segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Grandes Cenas do Cinema - Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings)

Cena: aprendendo uma valiosa lição sobre a importância de competir.

Eu devia ter uns doze ou treze anos quando assisti o Jamaica Abaixo de Zero (Cool Runnings) pela primeira vez e eu simplesmente nunca mais esqueci do filme. Muito menos da mensagem final deixada pela obra dirigida por Jon Turtletaub - a meu ver o feel good movie por excelência. E o que ele nos ensina é que, no fim das contas, a vida vai nos dar muita porrada. Muita mesmo. A toda hora a gente vai sofrer derrotas. Mas vai PRECISAR levantar a cabeça para seguir adiante. Parece um papinho meio de autoajuda, mas creio que filmes como esse nos ajudam um tanto a retirar aquela ideia de que mundo pertence exclusivamente aos vencedores. Aliás, reformulando a frase: há, por incrível que pareça, outras formas de vencer que não sejam apenas subir no "lugar mais alto do pódio". E assistir a sequência final da película, com o improvável time jamaicano de trenó na neve concluindo a sua prova com o trenó nos ombros, após a equipe sofrer um grave acidente que elimina qualquer chance de medalha, nos faz refletir sobre isso.

A sequência é bonita, redentora e tem todos aqueles elementos bem típicos dos filmes do começo dos anos 90 - com direito a trilha sonora grandiloquente (feita pelo sempre ótimo Hans Zimmer) e uma reviravolta que nos faz olhar o lado positivo, em meio a um cenário desastroso. Até chegar aos Jogos Olímpicos de Inverno de Calgary, no Canadá, o distinto grupo composto por Derice (Leon), Sanka (Doug E. Doug), Junior (Rawle L. Davis) e Yul (Malik Yoba) passa por poucas e boas em seu próprio País. Na realidade, Derice, Yul e Junior são corredores de 100 metros rasos - muitos anos antes da existência de um Usain Bolt - que, por causa de um acidente, são desqualificados para as Olimpíadas de Seul (o filme ocorre antes de 1988). Para não deixar de competir, Derice vai atrás de um certo Irwin Flitzer (John Candy, lamentavelmente em seu último filme), medalhista olímpico que tem pendências com o passado, mas que pode ser o único treinador possível para o coletivo.

Nesse processo de chegada do técnico, escolha dos "esportistas", primeiras tentativas de andar de trenó na própria Jamaica, sem nenhum sinal de neve, sobrarão boas piadas e muito humor físico, com acidentes, quedas e muita persistência. A sequência em que Irwin apresenta um vídeo de demonstração do esporte - cheio de acidentes, alguns até fatais -, é hilária: ao final da sessão a sala está vazia, restando apenas aqueles que serão os nossos carismáticos heróis. E por quem torceremos MUITO - a despeito das diferenças de personalidade entre eles (há um mais rico, outro mais turrão, há o porra louca). A chegada no Canadá após uma pequena epopéia para conseguir patrocínio também será engraçada, com muitas piadas surgindo a partir do caráter contrastante entre o calor escaldante da ilha que fica na América Central, o e o frio congelante de uma cidade que pode chegar a temperaturas abaixo de -25 graus celsius! O fato de serem, oficialmente, corredores de 100 metros rasos, ajuda o improvável time a se qualificar, ainda que aos trancos e barrancos. E quando a sequência final chega, com o grupo derrotado por um defeito técnico do trenó velho que ocupavam, só nos resta enquanto espectadores, esboçar um grande sorriso. 

A conquista deles, afinal, foi a jornada. Foram as amizades feitas, a superação de obstáculos, a despeito da desconfiança de todos - de familiares, de amigos, do próprio treinador. Foi acreditar num sonho que parecia impossível se tornando realidade. Sabe aquela história da Islândia - um País com 300 mil habitantes - levando uma seleção de futebol à Copa do Mundo? É mais ou menos isso. E o que torna essa história ainda mais gloriosa, é o fato de ter sido MESMO baseada em fatos reais. Ainda que não seja escancaradamente um filme político ou de grandes discussões sociais, também não deixa de ser interessante perceber a importância do debate, ainda que nas entrelinhas, de temas como racismo, xenofobia e respeito às diferenças. Aparecendo como vilões bastante maniqueístas - à moda dos filmes antigos -, os alemães são retratados como sujeitos frios, que utilizam o deboche como arma para, ao final, se dobrar ao esforço dos jamaicanos. Aliás, a meu ver Jamais Abaixo de Zero poderia ser um dos raros casos que uma atualização faria bem. Talvez uma minissérie, algo assim, especialmente pelo fato de a história real ser bastante diferente daquela retratada pelo bem humorado, colorido e musical filme de Turtletaub!

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