quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Grandes Filmes Nacionais - O Palhaço

De: Selton Mello. Com Selton Mello, Paulo José, Giselle Motta, Teuda Bara e Larissa Manoela. Comédia dramática, Brasil, 2011, 90 minutos.

Existe uma cena que gosto demais em O Palhaço e que, de alguma forma, representa o elogio ao poder transformador da arte que, ao cabo, não deixa de ser um dos arcos narrativos da película. Após se desligar da companhia circense por uma temporada para alcançar o seu grande objetivo de vida - no caso, comprar um ventilador -, o palhaço Benjamin (Selton Mello) resolve retornar para o grupo. Em um caminhão de boias frias - cheio de pessoas entristecidas, certamente pela brutalidade daquele ambiente que as oprime -, ele inicia uma pequena sessão de palhaçadas, que arrancará uma doce risada de uma das passageiras. É ali, naquele pequeno instante tão singelo que, para nós, espectadores, rola uma espécie de epifania: é quando percebemos a essência daquilo que estamos acompanhando. Qual a ideia central por trás da história da trupe do Circo Esperança. Um coletivo provavelmente muito parecido com tantos outros que percorrem o Brasil. Aos trancos e barrancos, tentando levar um pouco de cor para as comunidades. De vida. De alegria mesmo. Retirando-as, nem que seja por uma hora, da dureza dos dias.

Falando em cor, é preciso que se diga que o filme as utiliza de forma soberba. Nos rincões empoeirados, tudo é quente, sufocante, desértico. O amarelo do sol parece ocupar todos os cantos, quando os caminhões do circo aparecem pela primeira vez em cena. Mas quando a primeira sequência no picadeiro aparece há uma palpável vivacidade, as cores são nítidas, fortes, vibrantes. A cada comentário jocoso dos palhaços Pangaré (Mello) e Puro Sangue (Paulo José), a plateia se extasia em uma meio a uma "névoa" quase mística, uma aura de sonho, onírica, à moda de um cinema tão felliniano quanto regionalista. É bonito de ver esse contraste porque ele estabelece já na origem aquilo que mencionei no parágrafo acima: em meio a apresentação do circo a alegria é transmitida em todos os detalhes: nos curiosos objetos cênicos, no excêntrico figurino, na trilha sonora curiosa e divertida, na agudeza do olhar dos que assistem... é nesse instante que as dores do mundo ficam lá fora. Distantes da lona do circo.

Mas é claro que nem tudo são rosas para a trupe. Aliás, bem pelo contrário: nos bastidores, sai a alegria e a jovialidade para entrar a descrença (e a pindaíba). Com o público contado praticamente nos dedos - e um grupo de mais de dez pessoas para se alimentar, viver, mandar dinheiro para parentes -, a escassez tem aumentado. O que tem sido um peso para Benjamin que, acumulando um cargo estilo "gerente geral", tem tido dificuldade de organizar o todo. Sequer um sutiã novo para a Dona Zaira (Teuda Bara) ele é capaz de providenciar. Isso pra falar de algo simples. Já o calor sufocante, faz ele praticamente delirar com o sonho do ventilador próprio - o que se torna uma espécie de propósito de vida, como já comentado. Bom, não vai demorar para que Benjamin se sinta efetivamente sobrecarregado - o que ocorre em meio a uma apresentação em que as coisas saem do controle - e ele realmente resolva dar um tempo para tudo. Sim, o tempo. A gente sabe: também costuma dar aquela força.

Em linhas gerais o filme é de uma simplicidade quase modesta demais - e talvez a ausência de uma maior densidade narrativa incomode alguns espectadores. Acompanhamos o grupo, suas dificuldades financeiras, a tentativa de levar alegria às pequenas comunidades, em um contexto de pobreza, quase de desilusão. No meio do caminho, uma parada na casa de um prefeito para um jantar opulento - uma das cenas mais divertidas, por sinal -, um problema no caminhão do grupo que os fará desviar da rota e as paradas aleatórias em bares, fazendas e outras instalações pelo caminho. Como andarilhos, o grupo vai desbravando o mundo, enquanto se empenha naquilo que ama. E, pra mim, sinceramente, não precisa muito mais do que isso. Há ainda um sem fim de participação especiais - do falecido Jorge Loredo, passando por Moacy Franco, Ferrugem, Fabiana Karla -, além da jovem Larissa Manoela que, aos nove anos de idade, representa o sonho do futuro fazendo aquilo que ama: no caso ARTE. No ano em que foi enviado para o Oscar sequer chegou aos finalistas. Mas, aqui no Brasil, é um dos 100 Melhores Filmes Nacionais da História, de acordo com lista elaborada pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Uma boa credencial.

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