sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - Jenny On Holiday (Quicksand Heart)

Não sei se é o ano musical que ainda não começou direito, mas eu admito que ando me empolgando com uns projetos meio aleatórios e que podem passar batido pelos ouvintes mais descompromissados - e esse é justamente o caso do excelente álbum Quicksand Heart da Jenny On Holiday, projeto em carreira solo de Jenny Hollingworth conhecida por dividir o comando do Let’s Eat Grandma. O disco mergulha sem pudor numa estética oitentista, com sintetizadores ensolarados e melodias que parecem saídas de fitas VHS gastas pelo tempo, mas sem soar datado. Aliás, pelo contrário: há um cuidado moderno na produção que mantém tudo arejado, fresco e alinhado com o pop alternativo atual, o que lhe permite ainda brincar com uma faceta mais leve e direta da composição.

 


Nesse sentido, a atmosfera do álbum transita bem entre o retrô e o nostálgico, evocando aquela sensação agridoce de lembrança boa, enquanto flerta com um indie pop etéreo, enfumaçado, que pode agradar fãs de Alvvays ou Snail Mail. Não à toa, Jenny já comentou que algumas músicas nasceram a partir das memórias de idas ao karaokê com amigos - e isso se reflete em refrãos simples, cativantes e fáceis de cantar junto. Um bom exemplo desse expediente pode ser percebido na irresistível These Streets I Know, uma baladona que homenageia sua cidade natal e de como nos conectamos com esse espaço em que crescemos - com seus lugares, pessoas, vivências (E todo o meu coração / Está nestas ruas que conheço / Movendo-se a cada dia mais rápido). Ao cabo trata-se de um registro despretensioso no melhor sentido: acolhedor, honesto e perfeito para ouvir com um sorriso no rosto.

Nota: 8,0

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cinema - Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You)

De: Mary Bronstein. Com Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald e A$AP Rocky. Drama, EUA, 2025, 114 minutos.

Em uma das primeiras cenas de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You), a psicoterapeuta Linda (Rose Byrne, em papel que lhe deu uma indicação ao Oscar), está chegando em seu apartamento com a sua filha pequena. Linda pede à pequena que vá ao banheiro lavar as mãos para que possam comer a pizza que encomendaram, quando vem a surpresa: o apartamento está, inexplicavelmente, alagado. Pior do que isso, quando chega à sala para tentar verificar de onde vem o vazamento, o susto: o teto cede abrindo uma enorme cratera escura que une um andar ao outro. Um buraco imenso que servirá como uma espécie de alegoria permanente para uma mulher que se esforça para ser a melhor mãe, mas que nunca parece se considerar suficiente. O buraco em seu peito, metafórico, talvez represente algum tipo de vazio. Uma ausência. Uma sensação de dívida que não se sabe bem qual. Uma carga que faz com que ela chore para, ali adiante, seguir em frente.

Em linhas gerais a obra de estreia de Mary Bronstein é riquíssima em simbolismos que emergem em meio a sentimentos de culpa, de sonhos reprimidos e de inseguranças ligadas à maternidade. Na sociedade há uma cobrança para que uma mãe - que, importante que se diga, não deixou de ser também mulher - esteja inteira para o cumprimento de seu propósito. Mas e se ela estiver despedaçada, fragilizada, quem a acolhe? Um marido muitas vezes ausente? Uma rede de apoio quase inexistente? Um terapeuta que oferece seus serviços de forma excessivamente racional e com pouca empatia? Linda precisa tomar decisões complexas, como se mudar temporariamente para um motel decadente enquanto o reparo do apartamento acontece. Um reparo que demorará mais do que o necessário por conta de burocracias diversas e uma certa má vontade de empreiteiro. O buraco permanece. Como uma lembrança do caos que está instaurado.

 


E como se problema pouco não fosse bobagem, a pequena filha que nunca aparece fisicamente - apenas como uma voz em desespero alternando momentos de infantilidade de alta demanda (como quando deseja um hamster) com outros de temores legítimos de meninice (quando questiona a todo o momento se ela vai morrer, por qualquer que seja o motivo) - padece de uma severa doença, que faz com que ela necessite de alimentação por sonda. O que exige de Linda uma atenção permanente. Nos poucos instantes de "folga", quando a menina dorme, por exemplo, a protagonista tenta com algum esforço comprar uma simples garrafa de vinho - barrando na má vontade da atendente. Ou mesmo sendo socorrida pelo amigo terapeuta, vivo por Conan O'Brien. O marido conversa com ela apenas por ligações telefônicas espaçadas feitas de sabe-se lá onde. Sendo as demais interações feitas com pacientes e seus distúrbios irritantes, mesquinhos, dos quais nem sempre ela consegue prestar atenção completa.

Uma dessas pacientes é uma jovem mãe de nome Caroline (Danielle Macdonald) que toma uma atitude extrema que movimenta a narrativa - e que dialoga com os assuntos da obra. "Sou o tipo de pessoa que não deveria ser mãe", comenta Linda em certa altura, enquanto revela aquele que talvez seja o grande trauma de sua juventude. O buraco, aquele do apartamento, ganha outros contornos que quase levam a experiência para o campo do realismo fantástico depois da segunda metade, quando o sentimento de culpa se amplia. Ao cabo essa pode ser uma experiência meio dolorosa, ainda que bastante realista, e que trata com uma boa dose de franqueza o processo de romantização da maternidade. A terapia em grupo não funciona. O mesmo valendo para qualquer tentativa de relaxamento. Ou mesmo de flerte, como no caso das desajeitadas investidas do superintendente do motel James (A$AP Rocky). "Eu vou melhorar", balbucia ela à filha de forma quase comovente no ápice do sofrimento. É difícil ficar alheio.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cinema - Sorry, Baby

De: Eva Victor. Com Eva Victor, Naomi Ackie, Lucas Hedges, Louis Cancelmi e John Carroll Lynch. Drama / Comédia, EUA / França, 2025, 103 minutos.

"É preferível que você vá direto ao pronto atendimento quando isso acontecer. Certo, lembrarei disso da próxima vez". Talvez só o deboche para que se consiga encarar uma segunda violência, depois que ocorre a primeira. Ou vai ver nem ele. Na cena em que ocorre o diálogo acima, Agnes (Eva Victor, que também dirige), a protagonista do ótimo e impactante Sorry, Baby, está em um hospital para ser examinada, após ter sido estuprada pelo próprio professor. Frente a uma série de protocolos e burocracias que envolvem não apenas a exposição de algo bastante íntimo e traumático, mas também a necessidade de falar meio que o tempo todo sobre o assunto, a jovem parece meio que de saco cheio. Saco cheio de tudo. De não ver uma solução possível ou satisfatória para o seu caso, de ter de rememorar a situação, ou mesmo de ver a condescendência das pessoas - inclusive de outras mulheres, mais preocupadas com a preservação de certa imagem, do que por algum tipo de compensação mais justa.

Sorry, Baby é um filme de impacto, mas que discute o tema do abuso sexual num tom tão irônico, quanto naturalista. Aliás, a obra evidencia algo quase óbvio: a maioria dos casos desse tipo de violência ocorre com pessoas próximas, na maioria dos casos de confiança. No caso de Agnes, ela é uma professora de Artes de uma faculdade do interior da região de New England que, ainda no começo do filme, recebe a visita da amiga Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. Aproveitando a estada da amiga, a dupla participa de um jantar meio desconfortável com alguns colegas que integram um programa de pós-graduação coordenado pelo professor Preston Decker (Louis Cancelmi). De modo aparentemente afetuoso, Decker elogia o trabalho de Agnes - ela está desenvolvendo uma tese sobre Virginia Woolf. Em um dia de estudos na casa do docente, a protagonista sai do local correndo. Aos prantos. Quem assiste já sabe o que aconteceu. Mesmo que tudo que se veja seja a fachada da casa do sujeito.

 

 


Quando descreve o ocorrido à Lydie - o que envolve as tentativas do professor de tocá-la de forma nada consensual -, ela chega até a ficar insegura sobre como falar. "Isso parece 'aquilo'" comenta ela num tom incrédulo. Na universidade, o conselho disciplinar oferece um suporte de fachada a alguém que inicia uma jornada que lhe deixará emocionalmente exausta. Em resumo, não há muito o que fazer já que, diante do cenário, Decker pediu desligamento da Instituição. Não há como formalizar uma denúncia. Pior, não há nada que necessariamente prove o ocorrido. E pra piorar mais ainda do que tudo, Agnes parece não ter a certeza tão absoluta de desejar, ao cabo, que o sujeito seja punido. Que sua reputação seja comprometida - o que diz muito sobre o sistema patriarcal que vivemos e o medo das vítimas, que são a ponta frágil em uma estrutura de poder. Isso sem falar os protocolos irritantes, como no caso das perguntas do médico ("ele ejaculou em você?").

Sim, isso pode parecer necessário, mas tudo soa ainda mais frio. A burocracia da coisa - da denúncia ao suporte médico e emocional -, tudo parece cansativo, exaustivo. De forma inteligente, a obra realiza idas e vindas no tempo, o que envolverá ainda a presença de outras figuras, como o vizinho Gavin (o sempre inexpressivo Lucas Hedges) e o carismático Pete (John Carroll Lynch), o proprietário de uma lancheria de beira de estrada, que socorre Agnes após uma severa crise de pânico. Um tanto desalentador, o filme evidencia o fato de não haver muita solução em um mundo em que coisas do tipo podem acontecer, inclusive de forma recorrente (o que é reforçado pela sequência em que a protagonista conversa com o bebê da amiga). Mas ainda há espaço pra esperança. Afinal, pode parecer um comportamento meio resignado pensar que a vida continua, em um cenário em que "aquilo" acontece. Em que feridas são abertas e dificilmente curadas. Mas esse talvez seja um filme de sobrevivência e de suavidade nesse mundo tão bruto.

Nota: 8,0 

 

Novidades em Streaming - Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon)

De: Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley e Bobby Cannavale. Drama / Biografia, EUA, 2025, 100 minutos.

"Ele era alerta, dinâmico e divertido". "O homem mais triste que já conheci". Vistas nos letreiros iniciais do ótimo (e verborrágico) Blue Moon: Música e Solidão (Blue Moon), que está disponível pra aluguel nas plataformas da Amazon e da Apple TV, as frases acima podem passar meio despercebidas pra quem acaba de dar o play no mais recente filme do diretor Richard Linklater. Ditas, respectivamente, pelo diretor e produtor de teatro Oscar Hammerstein e pela cantora de cabaré Mabel Mercer, as contraditórias sentenças referem-se a mesma pessoa - no caso o letrista e compositor da Broadway Lorenz Hart que, aqui, ganha vida em interpretação marcante de Ethan Hawke, que foi indicado ao Oscar pelo papel. Hawke encarna Hart como a figura ao mesmo tempo amargurada e ressentida, genial e debochada - o que o coloca como um sujeito ao mesmo tempo carente e sem autoestima, mas também confiante e irônico.

Hart por muito tempo foi parceiro do compositor Richard Rogers, com quem escreveu, entre os anos 30 e 40, uma série de peças musicais de sucesso, como The Lady Is a Tramp, My Funny Valentine, Babes In Arms e a canção que dá título à obra de Linklater - aliás, a melodia tristíssima da composição, somada a letra melancólica sobre solidão, parecem ser bastante significativas. Não por acaso, a produção começa pelo final - e até onde se pode depreender do filme, a morte trágica de Hart, após complicações decorrentes de uma severa pneumonia, ainda é envolta em certo mistério. Alcoolista e com forte propensão à depressão, Hart tinha comportamento errático. Sumia por semanas sem dar notícias, o que deixa Rogers (Andrew Scott) exasperado. Tendo de buscar outras alternativas de parceiros criativos, como o jã citado Hammerstein (Simon Delaney).

 


Aliás, a madrugada em que toda a ação de Blue Moon se passa é justamente a da noite de estreia de Oklahoma! - uma peça nostálgica (de um tempo que supostamente nunca existiu), agridoce e ingênua que, nos anos posteriores à depressão estadunidense parece pronta pra cair nas graças do público. E até da crítica. Só que Hart está irritado. Esse é o primeiro material entregue por Hart e Hammerstein, o que deixa o homem amargurado. Melindrado. E até rancoroso. O que não o impede de ir até o Sardi's, restaurante de Manhattan famoso por receber figuras ilustres ligadas ao cinema e ao teatro, onde haverá uma celebração por conta da noite de abertura. Hart chega antes de todo o mundo e, familiarizado com o local, troca figurinhas com o carismático barman Eddie (Bobby Canavalle), alternando assuntos aleatórios sobre a sua própria (e difusa) sexualidade - "sou um omnisexual" -, a respeito de sua nova musa inspiradora, uma estudante de teatro de nome Elizabeth (Margaret Qualley), que tem um rosto "etéreo" (de acordo com sua descrição) e sobre o seu próprio futuro no mundo das artes.

Não é por acaso que esse preâmbulo que antecede a chegada de Rogers, Elizabeth, Hammerstein e os demais - que converterão aquela madrugada em uma espécie de noite da festa de aniversário de A Malvada (1950) - seja tão saboroso. A coisa quase beira ao cringismo, com Hart colocando a jovem Elizabeth em um pedestal, ao alegar que tem uma relação extrassensorial com a jovem, que bem podia ser sua filha. "É o prelúdio de uma transa", argumenta, enquanto se comporta de forma desajeitada frente aos encantos de sua mais nova amada. Com 1,50m de altura, uma semicalvície e uma arrogância que denuncia certa ausência de dignidade, o protagonista ocupa basicamente todos os frames, indo e vindo pelo ambiente, conversando com outras figuras conhecidas e contemporâneas, como no caso do escritor E. B. White (Patrick Kennedy) ou o futuro diretor de cinema George Roy Hill (David Rawle) - e não deixa de ser interessante descobrir os easter eggs que podem estar presentes nos diálogos descompromissados deles. Aliás, o diálogo é o forte aqui. É ele, basicamente, que faz a coisa escalar. E quase fugir do controle. É ele que inicia e termina. Mais ou menos como foi a vida de Hart. Que tinha na palavra o seu maior trunfo.

Nota: 8,0 

 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - Madison Beer (Locket)

Pra alguém tão jovem - apenas 26 anos -, já dá pra dizer que Madison Beer viveu bastante coisa. O que lhe permite ser, sem maiores dificuldades, uma das estrelas pop mais promissoras dessa década. Descoberta por Justin Bieber aos 13 anos após postar uma cover no Twitter, a nova iorquina só lançaria seu primeiro registro em 2021, o respeitável Life Support. Antes disso, ainda na adolescência sofreu com cyberbullying (com vazamento de fotos não autorizadas), passou por decepções com pessoas ligadas à indústria e foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline e depressão. E talvez não seja por acaso que, diante desse contexto de vida complexo - que inclui aí um recente e meio traumático término de relacionamento -, as canções do terceiro registro de inéditas, o ótimo Locket, soem tão maduras e tão "adultas", mesmo quando expõem inseguranças e vulnerabilidades.

 


Pra quem acha que pode haver algum exagero, pode começar pela espetacular Bittersweet - que soa como uma coisa meio Taylor Swift no começo dos anos 2000, com sintetizadores suaves, melodia grudenta e letra maravilhosa sobre o processo de encontrar a paz, mesmo em um contexto de mágoas e de altos e baixos de um relacionamento (Agora que acabou, você vai culpar a mim por tudo / Eu sei que eu deveria estar amargurada, mas, meu bem, estou agridoce). Unindo o vintage e o futurista, o retrô e o contemporâneo, Beer consegue soar em alguns momentos quase como uma FKA Twigs de tintas mais pop e dançantes (nas movimentadas Yes Baby e Make You Mine), e em outros como uma Ariana Grande contemplativa (na magnética Bad Enough). Sim, pode parecer apenas mais um disco pop de arrancada de ano. Mas é interessante como ele cresce a cada reencontro. 

Nota: 9,0 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Sete Considerações Sobre os Indicados ao Oscar 2026

1) Antes de mais nada, saudar aquele que deve ser o maior Oscar da história para o Brasil - não apenas em número de indicações, mas também em termos de chances para o nosso País (para desespero dos patriotas bolsonaristas da Shopee). Além das aguardadas nomeações para O Agente Secreto em Melhor Filme Internacional e para o Wagner Moura na categoria Melhor Ator - com a campanha sendo fortalecida após as vitórias no Globo de Ouro e em outras premiações internacionais, como no Festival de Cannes -, o filme de Kléber Mendonça Filho teve destaque nas categorias categorias Melhor Direção de Elenco e Melhor Filme (e em tempos em que tudo parece tão disputado e diluído no que diz respeito aos votantes da Academia, não custa sonhar).

 

 

2) Aliás, as quatro indicações de O Agente Secreto fazem com que ele empate em número de nomeações com Cidade de Deus, que em 2004 recebeu o mesmo número de indicações. Claro que, naquele ano absolutamente TUDO foi uma surpresa, porque o Brasil até enviou a obra de Meirelles ao Oscar de Filme Internacional - mas teve algum atraso na exibição, o que comprometeu a janela de lançamento, sendo recuperado no ano seguinte. Só que esse ano a situação é totalmente diferente. Com a campanha forte do filme - algo que o Brasil parece ter finalmente entendido - a gente meio que sonha com absolutamente tudo. E só saberemos dos resultados em 15 de março de 2026.

3) Mas não vou negar que tava meio ambicioso com o Brasil no Oscar - especialmente com O Agente Secreto. A expectativa era a de que pudéssemos figurar em outras categorias, como Atriz Coadjuvante (como que esnobam a Tania Maria?), Edição ou Roteiro Original. Mas faz parte, a disputa é grande e, aparentemente, a Academia abraçou com força o Valor Sentimental (veja a resenha logo abaixo), que parece ser o nosso grande rival nas disputas. Especialmente em Filme Internacional. A briga promete! 

4) Falando em ausências doloridas, não vou negar que fiquei triste pelo fato de o documentário da Petra Costa, Apocalipse nos Trópicos ter sido esnobado. Ele estava na short list, o que deu visibilidade (e torcida). Mas acabou ficando de fora, numa categoria que nem sempre tem muita lógica - com muitos filmes bem contados ficando ausentes da relação final. 

 


 

5) Ainda sobre Brasil, mais uma grande notícia! Após o crescimento na reta final - especialmente após o acolhimento do público, que adorou o filme - Sonhos de Trem foi lembrado não apenas na categoria principal, mas também em Fotografia. O que, mais uma vez, significa o nosso País na disputa, já que o diretor de fotografia é o brasileiríssimo Adolpho Veloso, que tem um trabalho magnífico na construção do cenário de completo desalento na produção da Netflix. E vale comentar que o sujeito não veio só pra cumprir tabelam já que, nas bolsas de apostas há boas possibilidades de ele sair com o carecão dourado na mão! 

6) Eu tinha ignorado completamente os filmes Frankenstein e F1 por motivos de, sei lá, muita gente falando mal, reclamando, a crítica não comprando. Agora estão lá, cheios de indicações importantes em categorias relevantes, o que me obriga a assistir ambas as produções. Não sem certo ranço. Ah, sobre os indicados "estrangeiros" (como comentou o Wagner no Critics), adorei as várias nomeações de Bugonia. É um filmaço inexplicavelmente criticado.

7) Graças a Deus que Wicked foi completamente ignorado. O primeiro já era uma xaropice da porra, imagina ter que assistir a um segundo dessa filme, só pra estar em dia com o Oscar? Afe! 

 

Indicados

Melhor Filme

    Bugonia
    F1: O Filme
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    O Agente Secreto
    Valor Sentimental
    Pecadores
    Sonhos de Trem

Melhor Ator

    Timothée Chalamet (Marty Supreme)
    Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
    Ethan Hawke (Blue Moon)
    Michael B. Jordan (Pecadores)
    Wagner Moura (O Agente Secreto)

Melhor Ator Coadjuvante

    Benicio del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
    Jacob Elordi (Frankenstein)
    Delroy Lindo (Pecadores)
    Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
    Stellan Skarsgard (Valor Sentimental)

Melhor Atriz

    Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
    Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria)
    Kate Hudson (Song Sung Blue)
    Renate Reinsve (Valor Sentimental)
    Emma Stone (Bugonia)

Melhor Atriz Coadjuvante

    Elle Fanning (Valor Sentimental)
    Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
    Amy Madigan (A Hora do Mal)
    Wunmi Mosaku (Pecadores)
    Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)

Melhor Direção

    Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
    Josh Safdie (Marty Supreme)
    Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
    Joachim Trier (Valor Sentimental)
    Ryan Coogler (Pecadores)

Melhor Roteiro Original

    Blue Moon
    Foi Apenas um Acidente
    Marty Supreme
    Valor Sentimental
    Pecadores

Melhor Roteiro Adaptado

    Bugonia
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Uma Batalha Após a Outra
    Sonhos de Trem

Melhor Filme Internacional

    O Agente Secreto (Brasil)
    Foi Apenas um Acidente (França)
    Valor Sentimental (Noruega)
    Sirat (Espanha)
    A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

Melhor Documentário

    The Alabama Solution
    Come See Me in the Good Light
    Cutting Through Rocks
    Mr. Nobody Against Putin
    The Perfect Neighbor

Melhor Documentário em Curta-Metragem

    All the Empty Rooms
    Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
    Children No More: “Were and Are Gone”
    The Devil Is Busy
    Perfectly a Strangeness

Melhor Animação

    Arco
    Elio
    Guerreiras do K-Pop
    Little Amélie or the Character of Rain
    Zootopia 2

Melhor Animação em Curta-Metragem

    Butterfly
    Forevergreen
    The Girl Who Cried Pearls
    Retirement Plan
    The Three Sisters

Melhor Curta-Metragem

    Butcher’s Stain
    A Friend of Dorothy
    Jane Austen’s Period Drama
    The Singers
    Two People Exchanging Saliva

Melhor Trilha Sonora Original

    Bugonia
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores

Melhor Canção Original

    “Dear Me” (Diane Warren: Relentless)
    “Golden” (Guerreiras do K-Pop)
    “I Lied To You” (Pecadores)
    “Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!)
    “Train Dreams” (Sonhos de Trem)

Melhor Direção de Elenco

    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    O Agente Secreto
    Pecadores

Melhor Fotografia

    Frankenstein
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores
    Sonhos de Trem

Melhor Design de Produção

    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores

Melhor Edição

    F1: O Filme
    Marty Supreme
    Uma Batalha Após a Outra
    Valor Sentimental
    Pecadores

Melhor Som

    F1: O Filme
    Frankenstein
    Uma Batalha Após a Outra
    Pecadores
    Sirat

Melhores Efeitos Visuais

    Avatar: Fogo e Cinzas
    F1: O Filme
    Jurassic World: Recomeço
    The Lost Bus
    Pecadores

Melhor Figurino

    Avatar: Fogo e Cinzas
    Frankenstein
    Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
    Marty Supreme
    Pecadores

Melhor Maquiagem e Cabelo

    Frankenstein
    Kokuho
    Pecadores
    Coração de Lutador: The Smashing Machine
    A Meia-Irmã Feia 

  

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cinema - Valor Sentimental (Affeksjonsverdi)

De: Joachim Trier. Com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas. Drama, Dinamarca / Noruega / Alemanha / França / Reino Unido / Suécia, 2025, 133 minutos.

Existe uma cena pequena em Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), que talvez dialogue diretamente com as ideias centrais do filme dirigido por Joachim Trier - do excelente A Pior Pessoa do Mundo (2021). Nela, durante um jantar, o veterano diretor de cinema Gustav Borg (Stellan Skarsgård) teoriza sobre a produção cultural nos tempos de hoje, tendo como argumento o fato de os artistas atuais serem excessivamente "pequeno burgueses". "Não se escreve 'Ulysses' levando um pirralho pro futebol, ou pagando o seguro do carro" - comenta o sujeito, no limite entre o pedantismo e o elitismo. "Um artista verdadeiro deve ser livre e deve permanecer livre", afirma, deixando em choque as suas duas filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Sim, a fala pode soar excessivamente pragmática, direta e até insensível - ainda mais saindo da boca de um senhor de mais de setenta anos, que é cobrado por ter sido, durante grande parte de sua existência, um pai ausente.

Para aqueles que se impactam com aquilo que é dito de forma bastante racional por Gustav, é preciso que se diga que, na mesma sequência, ele garante às filhas incrédulas que elas foram a melhor coisa que lhes aconteceu. Ainda que, como renomado diretor de cinema, ele tenha estado em qualquer outro lugar do que a sua casa. Aliás, é justamente a casa centenária da família, com suas rachaduras, marcas do tempo e até um certo afundamento no solo - numa metáfora bastante clara pra certa decadência do todo -, que é o ponto de encontro de todos ali depois que a mãe de Nora e Agnes e, portanto, a ex-esposa de Gustav, morre. A casa, que atravessa gerações, histórias e memórias - boas ou ruins - e que são evidenciadas em uma bela sequência inicial, pertence ao pai. Que, fugindo de qualquer lógica, resolve que quer utilizá-la como cenário para um próximo filme. Desejando contar com Nora, uma respeitada atriz de teatro, no elenco.

 


Não é uma equação simples de ser resolvida. Nora pode não ser tão famosa, mas tem seu trabalho - aliás, acaba de estrear uma série que parece ter ido bem junto à crítica. E abomina com todas as forças a ideia de trabalhar com Gustav, seu pai, que meio que é redescoberto pela crítica, após a realização de uma retrospectiva de sua obra, exibida na França - o que inclui a reapresentação de um filme sobre a Segunda Guerra, inspirado na história trágica de sua mãe. E mesmo com seu último projeto tendo sido lançado quinze anos atrás, o trabalho do diretor chama a atenção da jovem Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz estadunidense da geração Tik Tok, que, por fim, é convidada por Gustav para protagonizar o filme que é recusado por Nora. Entre idas e vindas e diálogos cheios de ressentimentos, a obra se converte em uma experiência familiar complexa sobre um pai ausente que pode ter sido, em sua juventude, um espírito excessivamente livre. Ainda que pai. Ainda que nada perfeito. Ausente. Mas dedicado ao trabalho. O que também possibilitou a criação das filhas.

Em linhas gerais essa é uma obra que utiliza os ambientes apertados da casa da família para reforçar o sentimento de claustrofobia que guia a todos ali - ainda que haja, aqui e ali, espaços para respiro, especialmente na relação tanto de Nora quanto de Gustav com o pequeno filho de Agnes, Erik (Øyvind Hesjedal Loven). A metalinguagem do filme dentro de um filme, sobre uma mãe que se suicida - e que faria alusão à história da própria mãe de Gustav -, pode ser uma alegoria nem tão criativa assim a respeito de luto, memória e algum tipo de busca por conexão. E por mais simples e naturalista que tudo seja, o que é reforçado pela quase ausência de trilha e por uma fotografia acinzentada, de tintas melancólicas, o filme permite uma série de reflexões bastante humanas sobre escolhas, erros, acertos, sonhos que ficam pelo caminho, frustrações e outros temas. "Sou muito sensível e somos muito parecidos", garante Gustav à Nora, no mesmo jantar que cito no começo dessa resenha. Aqui parece que um espírito livre reconhece outro. E, para que ele vá adiante, talvez seja preciso deixar certas coisas pra trás.

Nota: 8,5


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren)

De: Emilie Blichfeldt. Com Lea Myren, Thea Sofie Loch Næss, Ane Dahl Torp e Isac Calmroth. Terror / Drama / Comédia, Dinamarca / Noruega / Polônia / Suécia / Romênia, 2025, 109 minutos.

Vamos combinar que, talvez para os padrões atuais, os contos de fadas sejam um tipo de história um tanto antiquada. Jovens virginais excessivamente belas e bondosas, em conflito com entidades malignas quaisquer, aguardando por um príncipe encantado que vai salvá-las em um cavalo branco, com ambos sendo felizes para sempre, pode até ter lá sua mágica em termos de um ideal a ser almejado - pelo menos nas páginas dos livros. Na vida real, em um tempo de avanço da extrema direita, de redpills e de incels violentos que desejam mulheres belas, recatadas e do lar - de preferência a tradwife que passa o dia na cozinha, atendendo com afeto os desejos do marido que mais parece um filho - esse papo não cola mais. E talvez seja justamente por isso que obras como a excelente A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren), que chega agora à plataforma Mubi, sejam tão instigantes. Tão subversivas.

Afinal de contas, no filme de estreia da realizadora Emilie Blichfeldt, temos uma quebra completa da lógica existente na história da Cinderela, com a narrativa sendo deslocada para Elvira (Lea Myren), a tal meia-irmã feia, que entra em uma espécie de competição pelo amor do príncipe Julian (Isac Calmroth) com a lindíssima Agnes (Thea Sofie Loch Næss). Se no clássico de Charles Perrault temos uma Agnes pura, incorruptível e de moral inabalável, que é maltratada pela madrasta e pelas duas meias-irmãs - num daqueles casos clássicos de maniqueísmo que envolve a dualidade entre o bem e o mal -, aqui temos a adição de uma boa dose de complexidade no que diz respeito ao comportamento de todos naquele microcosmo. Elvira pode ser feia, mas jamais será tratada como a coitadinha, que agora passa a ser a mocinha. Em igual medida, Agnes também tomará atitudes eticamente questionáveis. Mas a pergunta que fica é, até que ponto vale o esforço para se encaixar em certo padrão de beleza, para atender aquilo que é esteticamente aceitável?

 


A um amigo, cheguei a afirmar que A Meia-Irmã Feia era quase como um A Substância (2024) dos contos de fadas. O body horror aqui é inserido no comportamento pouco convencional de Rebekka (Ane Dahl Torp), que talvez seja a grande vilã da história. Como a mãe de Elvira - e de Alma (Flo Fagerli) -, Rebekka teme pelo futuro financeiro da família ao se ver falida depois de um casamento arranjado justamente com o pai de Agnes. Na tentativa de manter as aparências, a ideia é arranjar o casamento do príncipe Julian com Elvira, que precisa passar por uma recauchutagem - o que envolverá cirurgias plásticas primitivas no nariz, aplicação de cílios postiços com técnicas rudimentares e até a ingestão de larvas de tênia (a solitária), que lhe possam fazer emagrecer na marra. De forma concomitante, Agnes será impedida a ir a um baile promovido pelo Rei, e que poderá selar o destino do filho a partir da escolha de sua noiva.

Chocante e repulsiva, a obra não alivia nas cenas em que partes do corpo são marteladas, costuradas, cortadas - tudo na busca pelo corpo idealizado, que poderá então ser digno de receber amor (e não deixa de ser interessante perceber como o subtexto serve justamente como alerta em tempos em que debates atuais sobre autoestima, inclusão e diversidade estão tão em alta). Beleza, todos sabem (ou deveriam saber), não é definidora de caráter e os esforços comoventes de Elvira - o que envolve ainda aulas de etiqueta básica -, gerarão mais e mais sofrimento conforme os dias passarem. E, consequentemente, mais ressentimento - o que poderia ser central na explicação de seu comportamento no conto original. Buscando quebrar estereótipos, a o filme busca uma leitura à luz dos nossos tempos, expondo como as exigências estéticas podem ser violentas, excludentes e crueis. E tudo elaborado de forma tecnicamente impecável, o que envolve ótimos efeitos, desenho de produção convincente e trilha sonora incômoda. Blichfeldt afirmou em entrevistas que algumas de suas inspirações são Julia Ducournau e David Cronenberg. Acho que dá pra dizer que os mentores ficariam orgulhosos.

Nota: 8,5 

 

Novidades em Streaming - The Mastemind

De: Kelly Reichardt. Com Josh O'Connor, Alana Haim, Bill Campo, Hope Davis e Gaby Hoffmann. Policial / Drama, EUA, 2025, 111 minutos.

Um filme sobre roubo de obras de arte moroso, letárgico e sem nenhum espaço pra catarse. E que, ainda assim, parece ser revelador de certo período nos Estados Unidos - no caso, os anos 70 da Guerra do Vietnã e do governo de Ronald Reagan. Assim é o recente The Mastermind, obra dirigida por Kelly Reichardt - do ótimo First Cow (2020) -, que está disponível na Mubi. Na trama acompanhamos o carpinteiro desempregado e trambiqueiro nas horas vagas J. B. Mooney (Josh O'Connor), que engendra um plano nem tão elaborado assim para roubar quatro quadros do pintor Arthur Dove, que estão dispostos em um museu do subúrbio da região de Massachusetts. Sem muita pressa para a execução, Mooney é paciente na hora de examinar como opera o local, com seus guardas que poucos inspiram segurança, caixas de vidro facilmente violáveis e rotas de fuga bastante plausíveis.

Aliás, quando o filme começa a gente até demora um pouco a perceber que ele já está fazendo algum tipo de estudo. Observando por cima de mesas e por entre corredores - enquanto um de seus filhos propõe charadas aleatórias que só servem de distração. Em certo momento ele recua uma pequena gaveta que exibe uma peça de arte que replica um cenário de guerra, de onde furta um "bonequinho" - tipo um soldado. Ninguém percebe a ação que é completa, ao estilo do protagonista do clássico Pickpocket: O Batedor de Carteiras (1959) de Robert Bresson: a peça vai parar dentro de um estojo de óculos e dali para a bolsa da esposa Terri (uma Alana Haim pouco aproveitada aqui), que sequer percebe a ação. Mooney já está trabalhando e o próximo passo envolve contratar três capangas que possam executar o plano. A grana pra pagar o trio será fornecida pela mãe Sarah (Hope Davis), sob uma desculpa qualquer que envolve um futuro projeto de decoração. 

 


Não é preciso ser muito ligado para perceber que esse certo desencanto coletivo - ou mesmo a desesperança por um futuro melhor -, se espalha pelas frestas. Não é apenas o exigente pai de Mooney, Carl (Sterling Thompson) que o cobra pra que ele tome jeito na vida. As perspectivas parecem convincentemente desanimadoras em um País em que mães protestam nas ruas contra a Guerra da Vietnã e em que cartazes do Tio Sam espalhados pela cidade convidam para o alistamento e para um certo espírito de luta pela Pátria. Meio alienado, o protagonista faz seu corre - quer dizer, corre é modo de dizer -, numa tentativa meio desajeitada de furto, enquanto o sistema de segurança falha miseravelmente. Após ser enganado por um dos capangas, Mooney precisa atuar diretamente no roubo. Na fuga. E em uma tentativa desesperada de fazer com que os quadros meio que sumam de vista - em uma época em que câmeras de segurança a cada esquina ainda não eram uma realidade.

Ao cabo, um filme com esse tema poderia ter mais ação, mas aqui a ideia é proporcionar uma experiência contemplativa, excêntrica e até engraçada - como no instante em que Mooney leva os quadros para uma fazenda, derruba uma escada de madeira e quase se machuca. Parece bobo, quase banal em alguma medida, mas é uma evidência generalizada do despreparo em uma antecipação de suspense que meio que nunca se consolida - por mais que a trilha percussiva e jazzística invasiva insista em direcionar para o outro lado. Tecnicamente bem executado, o projeto conta com excelente recriação de época - dos figurinos ao desenho de produção -, com a fotografia dessaturada, entre o azulado e o amarelado, reforçando o caráter arenoso e o retrô. O sonho americano falhou novamente. Por mais que as figuras marginalizadas insistam em encontrar seu rumo em um ecossistema que desmorona.

Nota: 8,0 

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Pitaquinho Musical - The Cribs (Selling a Vibe)

Vamos combinar que o The Cribs é aquele tipo de banda que dificilmente erra e, em seu nono registro de estúdio, Selling a Vibe, o trio formado pelos irmãos Gary, Ryan e Ross Jarman reafirma uma de suas maiores virtudes: a capacidade de envelhecer com dignidade sem abrir mão da identidade. A banda continua fiel ao seu DNA indie, com algumas pinceladas de power pop e pós punk, mas agora soando menos impulsiva e mais consciente de cada escolha. Mais ou menos como se tivesse trocado a urgência juvenil do trabalho anterior, o frenético Night Network (2020), um dos nossos favoritos daquele ano, por um refinamento emocional - o que vá lá, certamente tem a ver com a maturidade de quem já está há mais de 20 anos na estrada. Em resumo, as guitarras seguem lá, mas aparecem menos nervosas, abrindo espaço para melodias que respiram e crescem com o tempo.

 

 

Esse novo momento fica evidente em canções como a faixa-título, Never The Same e Self Respect, que apostam em arranjos mais contidos e em um lirismo direto, quase confessional. Expediente que se repete em outras canções majestosas, como na ótima Distractions, que parece unir Beach House e Weezer em uma letra sobre a busca de significado nas coisas simples, e uma certa inconformidade que emerge do sentimento de vazio na rotina (Nestes dias de excesso / As histórias mais curtas são as mais doces / Agora as coisas que me fizeram distrair / Podem distrair alguém novo). Não é um disco que busca impacto imediato, mas sim permanência - daqueles que vão se revelando aos poucos, sem alarde. Ao cabo, Selling a Vibe mostra um The Cribs confortável com sua trajetória, seguro o bastante para desacelerar e, justamente por isso, continuar acertando.

Nota: 8,5 

Picanha.doc - A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor)

De: Geeta Gandbhir. Com Ajike Owens e Susan Lorincz. Documentário / Drama / Policial, EUA, 2025, 96 minutos.

Vamos combinar que em um País em que é possível comprar, no mercadinho da esquina, um pacote de Doritos e uma pistola, situações como a vista no assombroso documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), não chegam à surpreender. Some-se a isso a ascensão desvairada de uma extrema direita preconceituosa em todas as frentes - representada pelo ditador Donald Trump e o seu discurso de ódio a absolutamente todas as minorias (negros, imigrantes, latinos, periféricos) - e o estrago parece inevitável. E se ter um vizinho, qualquer que seja, já pode ser problemático em vários sentidos - com privacidades invadidas e desrespeito generalizado ao outro -, ladear a porta com uma idosa de tendência fascista pode ser ainda pior. E é justamente isso que acompanhamos na obra dirigida por Geeta Gandbhir, que está disponível na Netflix, e deve ser figurinha fácil em sua categoria no Oscar desse ano. 

A história é real e meio que se repete, em matéria de escalada de violência. O filme começa com a polícia sendo acionada em um caso de assassinato, em uma pequena cidade do Condado de Marion, no Sul da Flórida. Voltando no tempo, compreenderemos as motivações (bizarras, por sinal) do crime, que vitimou Ajike Owens, que foi assassinada a sangue frio por Susan Lorincz, uma daquelas tias branquelas do ZAP que, na falta do que fazer - um bingo, crochê, hidroginástica ou qualquer outra coisa -, resolve encrencar com a vizinhança inteira, depois de se mudar para o bairro, ocupado em sua maioria por uma comunidade negra. Sem esconder o racismo entranhado em suas vísceras podres - o que faz com que uma mulher de 58 anos pareça muito mais velha do que, de fato, é -, Susan começa a, paulatinamente, acionar a polícia local para se queixar de crianças que jogam bola e brincam perto de seu pátio.

 


Sim, meio que basicamente é isso: Susan, que reside ao lado de um terreno baldio, se ressente que a garotada utilize o gramado pra jogar futebol americano, correr, agitar. O que fará com que ela chama a polícia não uma, mas dez, quinze, trinta vezes. Cinquenta vezes, talvez. Com as tensões escalando a cada novo chamado e um mal-estar coletivo emergindo do lugar. Como se fosse uma espécie de Bruxa dos 71 da vizinhança - mas sem o charme da Dona Clotilde -, Susan é a tia chata, solitária e mal amada, que implica com todo mundo, não se furtando em utilizar xingamentos cheios de preconceitos. Na tentativa de proteger as crianças, mães e pais formam uma barreira de contenção. Às vezes até contragolpeiam de forma mais forte - como no episódio em que uma delas arremessa uma placa em direção a casa de Susan. O que resultará em repetidos constrangimentos - e fica claro que até mesmo os policiais percebem onde está o verdadeiro problema. Que parece meio que sem solução, já que a véia jura que vai mudar dali - mas nunca muda.

Tenso e de suspense crescente, o documentário é hábil em utilizar, em grande parte, as próprias câmeras corporais dos policiais para contar a história - o que resulta em uma experiência bastante naturalista e orgânica, com cenas que mesclam discussões de meio de rua, em meio a presença ingênua das crianças que, sim, podem ser meio sapecas (como no instante em que uma delas tem a ideia de colocar um cachorro dentro da caçamba da caminhonete de Susan). Aproveitando ainda pra discutir o absurdo de leis como a Stand-Your-Ground, que possibilita a alegação de legítima defesa em caso de uso de força na propriedade privada, a obra ainda evidencia como, em casos envolvendo violência cometida por brancos contra pretos, a ponta fraca sempre parecerá evidente. E, por mais revoltante que o projeto seja, já que uma mãe de quatro filhos é simplesmente assassinada a sangue frio por causa da bagunça feita pelos pequenos, fica a lição quando o assunto é a busca por justiça: o povo jamais deve se calar. Sob pena da normalização desse tipo de agressão.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - Eddington

De: Ari Aster. Com Joaquin Phoenix, Emma Stone, Padro Pascal, Deirdre O'Connell e Austin Butler. Comédia / Drama / Faroeste, EUA / Reino Unido / Finlândia, 2025, 150 minutos.

Há algo que precisa ser dito sobre os filmes do Ari Aster: ninguém passa por eles e sai da mesma forma. Para o bem ou para o mal, as obras do diretor de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (2019) e Beau Tem Medo (2022) costumam suscitar horas de debates sobre seus temas - quase sempre psicológicos, contemporâneos, políticos. Ou ao menos parece ser assim pra quem não acompanha suas produções esperando sempre um novo Hereditário (2018). Talvez à exceção do igualmente ótimo Bugonia (2025) - leia a resenha abaixo -, poucos projetos traduzirão tão bem os tempos turbulentos e caóticos, em que todo mundo grita, mas ninguém escuta, como em Eddington. Vendido como uma espécie de faroeste pós-pandêmico, o filme coloca em lados opostos um xerife local e o prefeito de uma minúscula cidade do Novo México. Ambos desejando o poder acima de tudo, com Deus acima de todos. Ou algo do tipo.

Sim, eu já estou tomando consciência de que as obras que não tomam um partido ou que erguem uma bandeira panfletária mais clara, tem se tornado recorrentes. E eu acho isso ótimo para que possamos refletir um pouco melhor e que não seja apenas confirmando aquilo que pensamos ser o certo. Em uma narrativa como a de Eddington eu nem acho que o centro da disputa esteja entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, ou, vá lá e em última medida, republicanos e democratas. É isso também, mas mesmo sabendo pra onde apontaria o nosso radar nesse embate, não deixa de ser divertido se deparar com as contradições da província. E de como opera a Síndrome do Pequeno Poder em um município de pouco mais de dois mil habitantes, que é afetado não apenas na esfera local pelo comportamento excêntrico de seus habitantes, mas também em âmbito federal em um contexto de covid que avança e da explosão de movimentos como o Black Lives Matter.

 


E, sinceramente, é tudo muito saboroso e muito atual - e mais ainda, talvez, para os cronicamente online. Na primeira cena do filme, um mendigo meio noiado - aquele doidinho de bairro que toda a cidadezinha do interior tem - cruza o asfalto enquanto, ao fundo, um enorme outdoor anuncia uma obra que deverá movimentar a economia local: no caso a construção de um data center (daqueles que, daqui pra frente, consumirão toneladas de recursos naturais sob a desculpa de não frear a revolução tecnológica). Tentando a reeleição, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal) é um entusiasta da ideia. Mas, claro, como bom democrata, não ignorando as compensações ambientais, como a implantação de usinas eólicas e outras medidas, e que são solicitadas pelo conselho local. E que deverão ser respeitadas, assim como devem ser respeitadas as medidas que marcaram aquele maio de 2020 que já parece tão distante, como o uso de máscaras em estabelecimentos fechados ou o respeito ao distanciamento social (quase como uma alegoria para o afastamento meio natural em tempos de niilismo e misantropia forçada).

Ainda na primeira hora, o xerife local Joe Cross (Joaquin Phoenix sendo o esquisitão que adoramos, não adianta) trava um embate com Ted em um mercadinho, justamente pela necessidade do uso de máscara. No caso, um idoso, que se recusava a vestir a peça. Assim como Joe também se recusa - e, mais adiante, entenderemos suas motivações, ao conhecer a sua sogra Dawn (Deirdre O'Connell), uma daquelas tias do ZAP que passam as tardes se alimentando de teorias conspiratórias diversas na internet (e que podem variar de clonagem de líderes políticos, até chegar a existência de uma enorme rede de pedófilos ligada aos democratas estadunidenses) -, o que faz com que ele tome uma drástica decisão: se candidatar para enfrentar Ted nas eleições municipais que se aproximam. As suas bandeiras? Aquelas que costumam atrair os extremistas de direita mais desvairados, claro.

 

 

Em paralelo a tudo isso, os locais precisam lidar com a explosão de casos de violência policial - como no caso do chocante assassinato de George Floyd -, e do avanço de grupos contrários a atuação das forças estatais, como os Antifas (que, de acordo com o sonho mais molhado do ditador Donald Trump, deveria ser enquadrado como terrorista). Todas essas questões respingam na cidadela, com jovens brancos e com sentimento de culpa realizando protestos antirracistas. Assim como adentram por aquelas estradas poeirentas à moda A Última Sessão de Cinema (1971) da atualidade podcasts de gosto duvidoso localizados na antessala do fascismo, fóruns de chans e de incels sobre a queda da moralidade e o retorno do sonho americano - com Vernon, o personagem de Austin Butler soando como um Tom Cruise de Magnólia (1999), mas em uma roupagem meio Luciano Cesa das ideias (se ele fosse bonito) -, colidindo com progressismo de boteco que leva loiras jovens à se sentirem como uma Rosa Parks contemporânea. Sim, parece difícil percorrer todos esses temas e ainda dar uma lógica pra tudo. Mas a tentativa de Aster de tratar de paranoia, conspiração, alienação, coincidências, protestos, vidas expostas, campanhas políticas rasas, traições, lavagem cerebral e convulsão social funciona direitinho. E com direito a um dedinho colocado nas nossas feridas, nos fazendo pensar no nosso papel em meio a tudo isso. Ignore a crítica dita especializada. E só vá!

Nota: 8,5 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Garota Canhota (左撇子女孩)

De: Shih-Ching Tsou. Com Nina Ye, Ma Shih-Yuan e Janel Tsai. Drama, Taiwan / EUA / França / Reino Unido, 2025, 108 minutos.

Em uma das tantas cenas comoventes do tocante A Garota Canhota (左撇子女孩) - obra enviada por Taiwan para a próxima edição do Oscar e que está na short list -, a pequena I-Jing (Nina Ye) fica exasperada após a morte de seu suricato de estimação. O animalzinho cai da sacada do prédio em que sua família reside, colidindo com um motoqueiro - em uma tragédia que poderia ser maior, mas que ganha tintas cômicas da produção de Shih-Ching Tsou. I-Jing se sente responsável pelo ocorrido. É ela, afinal, que arremessa uma bolinha de plástico para o bichinho que, tentando ir atrás do objeto, despenca das alturas. Mais do que isso, ela atira a bolinha com a mão esquerda - a "mão do diabo", como havia alertado o seu severo avô, algumas vezes. Aludindo a uma tradição antiquada de certas religiões, em que a mão esquerda (e seu uso), seria sinônimo de impureza, de azar ou de outros estigmas.

Claro que as motivações das dores vividas pela pequena protagonista nada tem a ver com isso - por mais que seu conservador avô brigue com ela para que ela coma ou escreva com a mão direita. De qualquer maneira, a vida de I-Jing, de sua irmã I-Ann (Ma Shih-Yuan) e de sua mãe Shu-Fen (Janel Tsai) não é nada fácil. Perambulando por uma Taipei fervilhante e caótica - cheia de luzes e de brilho, mas também de pobreza e de urbanidade -, o trio se instala na capital taiwanesa abrindo uma barraquinha para comercialização de macarrão instantâneo. A ideia parece envolver algum tipo de recomeço, já que o patriarca da família padece em um hospital, tendo as custas do tratamento mantidas por Shu-Fen - o que, aliás, torna difícil ela honrar os próprios compromissos financeiros. Para obter uma renda extra, I-Ann trabalha também em uma pequena loja de periferia que comercializa nozes de areca, espécie de estimulante local. Ah, I-Ann transa com o chefe e mantém uma disputa com uma colega de trabalho.

 


Nesse cenário frenético, I-Jing opera como uma espécie de elo, a unir certa ingenuidade infantil que envolve seu universo ainda minúsculo, com a aspereza da vida adulta. Se em um instante ela está brincando ou tentando se divertir naquele cenário neon esmaecido - resultado, inclusive, do estilo de filmagem à Sean Baker (que produz) -, em outros ela tá ouvindo esporros diversos de sua ansiosa mãe, ou ajudando um carismático vendedor de uma barraca vizinha, a tentar empurrar as suas quinquilharias goela abaixo de qualquer cliente que passe pelo local. Quando a mão esquerda se torna uma "ameaça", I-Jing passa a operar pequenos furtos - talvez de forma inconsciente, ou com algum propósito mais nobre. Em outro momento mais tenso, ela chega a pegar uma faca gigante de cortar carne, com uma intenção que quase não combina com seus olhos doces. O avô lhe vendeu as ideias erradas. Aliás, o que é um problema em sociedades patriarcais, machistas, preconceituosas e cheias de ideias torpes e retrógradas.

Em linhas gerais esse é um daqueles filmes tipicamente asiáticos - em que a aspereza da cidade, com seus barulhos e movimentos incessantes, contrasta com instantes afetuosos de um microcosmo familiar que luta para sobreviver, que briga, mas também se une na dor. De forma despretensiosa a obra, que está disponível para a Netflix, ainda reserva para os minutos finais uma das maiores surpresas da temporada, escancarando ainda a hipocrisia da suposta perfeição doméstica e a complexidade que envolve ser mãe solo. Vergonhas, traumas, memórias doloridas, esperança por um futuro melhor, uma scooter que roda entre a liberdade e certa adrenalina, tudo é descortinado com impacto e leveza em igual medida, com a mão esquerda de uma criança sendo apenas uma desculpa cômoda para os esqueletos que estão no armário de adultos.

Nota: 8,0 

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Longa Marcha (The Long Walk)

De: Francis Lawrence. Com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Ben Wang, Judy Greer e Charlie Plummer. Ficção Científica / Terror, EUA, 2025, 108 minutos. 

Vamos combinar que não deixa de ser meio curioso pensar que Stephen King escreveu o primeiro rascunho de A Longa Marcha (The Long Walk) no mesmo ano em que Sidney Pollack lançaria o clássico A Noite dos Desesperados (1969). Ainda assim, em em contexto em que a Guerra do Vietnã escalava empilhando corpos e um certo desencanto capitalista parecia rondar o mundo na entrada de década de 70, a coincidência não chega a surpreender. Em ambas as obras acompanhamos um grupo de pessoas participando de um jogo macabro em que os vencedores sairão com uma boa quantia de dinheiro, além de certo prestígio meritocrático. Na obra de Pollack, casais sem perspectivas financeiras reúnem-se em um salão para dançar infinitamente, numa espécie de prova de resistência à moda de um Big Brother do capitalismo tardio. Já na produção dirigida por Francis Lawrence, a partir do livro de King, vence quem for capaz de superar os demais em uma interminável caminhada.

E não é preciso nem ser muito politizado para perceber como a obra funciona como um panfleto de denúncia de contrastes sociais em uma era de vigilância, de espetacularização e de avanço da extrema direita e de outros regimes opressores mundo afora. E basta ver o discurso tão inflamado quanto limitado cognitivamente do major interpretado por um caricato Mark Hamill para perceber que, naquele cenário distópico, figuras ao estilo de um Donald Trump se divertiriam verdadeiramente, ao ver jovens lutando (literalmente) por suas vidas. Aliás, a coisa quase beira o arremedo, quando assistimos aquele sujeito de óculos escuros e de roupa militar por sobre um tanque, enquanto sinaliza aos participantes os objetivos daquela competição torpe - usando lugares-comuns à moda neofascista conclamando um retorno a tempos gloriosos, de esperança e de coragem. "Há uma epidemia de preguiça que precisa ser combatida", alega o major - e não seria nenhuma surpresa se ele vestisse um boné do Maga em meio ao seu discurso.

 


A óbvia referência a Trump funciona como um lembrete de que mudam os tempos, mas a retórica segue a mesma - e o caso é que mesmo as ficções científicas mais distópicas nunca parecem capazes de superar a realidade. Na trama, após uma Guerra Civil devastadora em um período de tempo que não se sabe qual, os Estados Unidos passam por um período econômico deprimente. Como forma de tentar resgatar valores como o patriotismo (sempre ele) e a ética laboral, o governo totalitário convoca cinquenta adolescentes, um de cada Estado, para participar da disputa que envolve uma série de regramentos - de velocidade mínima permitida à impedimento de desistência. A escolta ao grupo é feita por um grupo militar armado que não hesitará em executar os "frágeis" ou desistentes - e não deixa de ser assombrosa a naturalização da desumanização nesse cenário distópico, já que, lá pelas tantas, ninguém mais parece se impactar tanto com os corpos sendo empilhados pelo caminho. Num mar de sangue nem tão alegórico assim, que alude ao pior do capitalismo tardio, com o sonho de uma vida melhor passando pela sujeição às maiores humilhações. Aliás, os jovens participantes sequer podem parar para fazer suas necessidades, sob pena de levar um tiro. É grosseiro, torpe, vil, cruel. E aparentemente divertidíssimo - o suco do entretenimento -, para aqueles sádicos que comandam o espetáculo.

Já os jovens daquele microcosmo funcionam como eventuais estereótipos - o nerd, o destemido, o valentão, o atormentado, o taciturno, o malvado -, o que faz com que a experiência carregue uma energia cinéfila meio anos 80, ainda que a fotografia esmaecida, de tons desbotados e o cenário bucólico recortado pelo asfalto interminável, sugiram o inverso. Como uma espécie de líder involuntário (ou talvez bússola moral) do grupo, o carismático protagonista Raymond (Cooper Hoffman, de Licorice Pizza) conduzido ao local por sua chorosa mãe (Judy Greer), logo faz amizade com Pete (David Jonsson), compartilhando dores, traumas passados, desejos, anseios. Aliás, amizade ou qualquer tipo de sentimentalismo nessa corrida nunca parece uma boa ideia já que naquela competição perversa apenas um sobrevive. Mas servirá para que eles se estimulem a prosseguir - com os três mosqueteiros (sim, são quatro) sendo completados pelos esperançosos e inocentes Hank (o ótimo Ben Wang) e Arthur (Tut Nyuot). Ao cabo, a obra é cheia de diálogos, percalços e dores que servem para lembrar que, em um mundo tão individualista como o que vivemos, o senso coletivo ainda pode ser a resposta no combate à tirania. Por mais paradoxal que isso possa ser em uma produção do tipo.

Nota: 7,0 

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Cinema - Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh)

De: Jafar Panahi. Com Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari e Mohammad Ali Elyasmehr. Drama / Comédia, Irã / França / Luxemburgo, 2025, 103 minutos.

Quando a gente assiste a um filme como Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), é meio que impossível não associá-lo à situação vivida pelo próprio diretor da obra, o iraniano Jafar Panahi. Perseguido pelo governo há quase duas décadas por atividades supostamente subversivas - com o seu cinema provocativo sendo veículo para críticas ao regime em vigor no País -, o realizador tem empreendido verdadeiros calvários para concluir cada um de seus projetos. E para tentar driblar a censura e as barreiras impostas pelos aiatolás e seu conservadorismo atroz. De histórias mirabolantes, como a do envio de uma cópia de Isso Não É Um Filme (2011), para o Festival de Cannes, em um pendrive escondido em um bolo, ao uso de metáforas e de metalinguagem em Sem Ursos (2022), suas produções têm sido um símbolo de resistência e de enfrentamento, enfim, um engenhoso exercício criativo em meio à proibição.

E talvez por isso, mesmo filmes que não pareçam assim tão inspiradores como este, que está em cartaz nas salas do Brasil e deverá ser figurinha certa na próxima edição do Oscar, faz com que passemos pano para as eventuais imperfeições. Afinal, frente a um cenário de ameaças - Panahi chegou a ser preso em 2022, passando sete meses encarcerado, sendo libertado após uma greve de fome -, uma obra que é uma alegoria para o medo e de como agir quando o algoz é confrontado, é, enfim, um ato de coragem. Na trama, o mecânico de automóveis Vahid (Vahid Mobasseri) é surpreendido pela chegada à oficina mecânica em que trabalha de um certo Eghbal (Ebrahim Azizi), sujeito que, no passado, teria lhe torturado por conta de diferenças étnicas em um flagrante caso de xenofobia. Vahid identifica o sujeito pelo barulho característico da perna mecânica de seu algoz, que perambula pelo ambiente acompanhado da esposa e da filha, após um acidente em que atropelam um cachorro.

 


Com medo e meio que sem saber direito o que fazer, Vahid resolve seguir Eghbal até a sua casa, encontrando o momento certo para abordá-lo, agredi-lo e conduzi-lo até uma isolada região desértica com o objetivo de enterrá-lo vivo. O ódio que carrega, resultado de uma sequência de humilhações vividas por ele, justificaria essa Lei de Talião improvisada (do "olho por olho, dente por dente?"). Em desespero, Eghbal garante haver um engano. Não tendo sido ele o carrasco que o manteve enclausurado - e Vahid não consegue ter certeza, porque tudo o que ele tem é o barulho da perna mecânica e a voz. Receoso de estar cometendo uma injustiça, ele desiste do seu intento, colocando o homem em um caixão à moda Festim Diabólico (1948), na intenção de descobrir se Eghbal é, de fato, quem é. O que resultará em um excêntrico road movie pelas ruas de Teerã, com a entrada em cena de outras figuras como a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), um empregado de uma farmácia local. Todos previamente flagelados (ou não) por Eghbal.

Em linhas gerais, o que a obra - que venceu a Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes - parece questionar por cada um de seus poros é como fazer, em um cenário de tantas diferenças políticas, sociais, culturais (ou de polarização), para simplesmente tolerar o outro. A sua existência. Claro que se um lado é o violento e age com raiva, truculência e intolerância, o outro também deveria agir assim? É por esse caminho que resolvemos os problemas e pacificamos uma sociedade? Em longos diálogos, o quinteto completado pelo noivo de Goli, Ali (Majid Panahi, filho do diretor) vai pra lá e pra cá tentando tomar algum tipo de decisão. Para Hamid é matar, enterrar e pronto. Para os demais, como no caso da própria Shiva que, claramente, só quer seguir em frente com a sua profissão, a dúvida pairando no ar parece ser uma barreira. 

 

 

Em meio a choques e pequenas colisões, o grupo passará por outros suplícios urbanos, como propinas policiais, subornos aleatórios, a turbulência do trânsito, o capitalismo tardio ostensivo, um carro que entra em pane e até uma inesperada gravidez, com as implicações doentias de uma sociedade patriarcal - e tão guiada pela religião. Árida, excêntrica, caótica e inacreditavelmente divertida, essa é uma obra que repete os temas usuais de Panahi, que permanentemente precisa driblar as restrições, para a construção de uma experiência fragmentada, que olha para os traumas coletivos do Irã sem apontar um vilão em específico, já que o problema está no todo. No tecido. Nas entranhas. Com vidas - trabalho, relacionamento, famílias - sendo afetadas. Todos os dias. Com a coletividade meio que em pane, confusa, sem saber como agir. E sendo atropelada sem nem perceber.

Nota: 7,5 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu)

De: Delphine e Muriel Coulin. Com Vincent Lindon, Bejnamin Voisin e Stefan Crepon. Drama, França, 2024, 118 minutos.

"Quando dizem que não é político, é aí que você deve se preocupar". Ainda no começo de Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu) a primeira vez em que Pierre (o sempre ótimo Vincent Lindon) inquire seu filho Fus (Benjamin Voisin) a respeito de suas amizades, ele é incisivo. "Não quero você andando com fascistas", ele argumenta, com seu olhar forte mas melancólico, que transmite medo, mas ternura. "Perder" um jovem para um grupo masculinista de extrema direita - normalmente aqueles incels frustrados, consumidores de conteúdo red pill -, que compensa o seu fracasso na base do ódio, da violência e da truculência contra tudo e contra todos, especialmente minorias, afinal, não deve ser fácil. E parece ser justamente o que está acontecendo com Pierre, um trabalhador ferroviário que vê o seu filho mais velho a cada dia mais fascinado por esses ideais. O homem chega a ser alertado por um colega de trabalho, a respeito da presença de Fus tumultuando um protesto de operários, que desejam entrar em greve.

Em linhas gerais a obra das diretoras Delphine e Muriel Coulin aborda um certo desencanto com os tempos atuais - de avanço de ideais racistas, xenófobas, misóginas -, com o campo contrário tendo de funcionar como uma zona de contenção. Como se fosse uma espécie de Otávio, o personagem de Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Black Tie (1982), Pierre é o socialista mais ou menos desiludido, que opera em um modo meio letárgico, quase no piloto automático em relação a sua vida. Prestes a se aposentar, deseja cuidar dos filhos - o mais novo, o afetuoso Louis (Stefan Crepon) está prestes a conseguir uma vaga no curso de Letras na prestigiada Sorbonne. "Ela ficaria orgulhosa", lembra o menino aludindo à falecida mãe, que padeceu aparentemente de um câncer. À Pierre, em meio a turnos de trabalho exaustivos na madrugada, restou cuidar dos meninos. O que ele tenta fazer da melhor forma.

 


Só que em certo dia, Pierre abre o notebook de Fus e fica estarrecido com o que vê. Não apenas ele está em perfis de grupos de extrema direita, como se se vangloria de compartilhar vídeos em que violências diversas ocorrem, especialmente contra imigrantes - com gritos nacionalistas e toda uma estética radicalista, que vai das cabeças raspadas às tatuagens tribais. Após uma discussão mais forte entre os dois, Pierre persegue Fus, ocasião em que descobre um gigantesco galpão abandonado que funciona como ponto de encontra dessa unidade neonazi. Lá dentro, um bando de machinhos tentam compensar a micropenia coletiva com sessões de brigas estilo Clube da Luta (1999), o que envolve gritedo, baba e suor. "Somos só bucha de canhão", "não é uma questão de esquerda ou direita", "estamos cansados do sistema", são frases prontas que Fus espalha, como se fosse um gerador de lero-lero do chatGPT, que só formula textos prontos e vazios que busquem amparar suas motivações.

Sem ofender a inteligência do espectador a obra é hábil em construir uma atmosfera de tensão crescente, mas sem ser necessariamente maniqueísta.  Estamos, afinal, falando de uma família, que cresceu indo a jogos de futebol, ou batendo bola no pátio de casa. Alternando instantes de amor e de ódio, como em qualquer relação de pai e filho. Então, é bastante natural que Pierre tente investir, ao menos até onde dá, no caminho do amor. Ao passo que Fus também é afetuoso à sua maneira com o irmão e com o próprio pai, o que faz com que percebamos o óbvio em uma produção como essa: o ser humano é um sujeito complexo e cheio de nuances. Pode ser bom ou mal ou os dois. O seu tio bolsonarista que cuida tão bem de sua tia não é a pior pessoa do mundo. Ao mesmo tempo em que alguém do campo progressista não está livre de falhas ou de dilemas éticos. Só que o que parece ser meio infalível é o destino de quem adere tão cegamente e de forma tão alienante a ideologias tão extremas. E exemplos nesse sentido, lamentavelmente, não faltam.

Nota: 9,0 

 

Cinema - Bugonia (Bugonia)

De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis. Drama / Ficção Científica / Comédia, EUA / Canadá / Coréia do Sul / Irlanda / Reino Unidos, 2025, 118 minutos.

Teorias conspiratórias, crises climáticas, CEOs performáticos, tecnologia difusa, trabalho precarizado, incelismo cultural, distorção da realidade, corporações que vendem a doença e a cura, podcasts e opiniões sobre basicamente tudo. Vamos combinar que todo esse mal-estar contemporâneo, com suas divisões políticas, sociais e culturais, parece condensado nas irresistíveis cerca de duas horas de Bugonia (Bugonia). No novo filme de Yorgos Lanthimos - se você acompanha a carreira do diretor sabe que seu "método" é meio que o do estranhamento e o do choque - não parece haver mocinhos a quem possamos nos apegar ou mesmo torcer. Se por um lado o seboso Teddy (Jesse Plemons) parece um channer anárquico e alucinado que frequenta fóruns de internet em que doidinhos de bairro divagam sobre os mais aleatórios tipos de terraplanismo, por outro a empresária Michelle (Emma Stone) não fica atrás, com sua cultura corporativa de aparências e enriquecimento com base no sofrimento alheio.

Ao lado do primo autista Don (Aidan Delbis), Teddy elabora um audacioso plano: o de sequestrar Michelle, que ele acredita fielmente não apenas ser uma alienígena do galáxia de Andrômeda - numa clara alegoria sobre dominação - mas também a responsável direta por toda a dor causada a sua família. Teddy e Don são dois solitários que trabalham com apicultura e parecem ter genuíno apreço pelo meio ambiente, ao passo que Michelle é justamente uma das diretoras de um conglomerado farmacêutico de nome Auxolith, que fabrica inseticidas que, justamente, tem aniquilado as colmeias de abelhas. Uma ameaça, aliás, bastante real. Quando esses dois universos tão distintos colidem, o resultado é uma experiência provocativa que não alivia para as tragédias decorrentes do capitalismo, que parece não ter limites em sua sanha desenvolvimentista - mesmo que alguns fiquem pelo caminho -, nos fazendo também questionar se o caminho adotado pela dupla de abilolados representa é o ideal para a resolução dos problemas.

 


E, em alguma medida, creio que seja exatamente aí que o filme se torna mais profundo. Mais complexo. Ao mostrar que as pessoas podem ter nuances e traços distintos de personalidade. Afinal, seria muito cômodo e um tanto maniqueísta tornar Michelle a pobre sofredora sequestrada - meio como no caso do escritor de Louca Obsessão (1990) -, que está nas mãos de dois malucos do ancapistão que, se for preciso, vão praticar as piores torturas para alcançar seus objetivos, seja lá quais sejam exatamente. Tanto que antes de ela ser levada por Teddy e Don, já entendemos que ela é uma arrombada manipuladora, que se incomoda com a sua equipe ao gravar um vídeo institucional sobre diversidade (ela reclama do excesso do uso da palavra, o que parece deixar brecha pra outras interpretações), ao mesmo tempo em que soa como uma falsiane ao divulgar à nova política da empresa, que permite aos empregados saírem às 17h30. Mas desde que não haja pendências, claro! "Vocês decidem", sorri ela cativante, com seus olhos angulosos, que estampam uma série de capas de revistas do universo corporativo.

Com a mãe em coma - mais um efeito colateral das políticas literalmente tóxicas da Auxolith -, e uma fúria masculinista que vai no limite da metáfora, quando ele mesmo se aplica um medicamento redutor de libido, Teddy é retratado sim como o esquisitão de cabelos compridos, meio hippie sujo, meio troll de segunda categoria, mas que também parece ter sua parcela de razão ao evidenciar que o colapso ambiental global, se não for refreado, pode ser o símbolo do desastre futuro. À uma acuada Michelle, ele pede que retorne à Andrômeda. E simplesmente pare com essa devastação. O sentimento geral de paranoia decadente do mundo parece ampliado pela trilha sonora de cordas incômodas - cortesia do compositor Jerskin Fendrix, que deve ser nominado ao Oscar - e por um espírito bélico que escala, sem termos a certeza de onde tudo aquilo vai parar. O final, criticado por alguns, amado por outros (meu caso), é a cereja do bolo: seguimos disputando espaço, brigando (inclusive na internet) e tentando marcar posição, enquanto que manda no capital e toma as decisões nos aniquila pelas entranhas. Pode parecer meio niilista no geral. Até meio misantropo em alguns casos. Mas esse é o cinema de Lanthimos. Para o bom ou para o mal.

Nota: 8,5