De: Eva Victor. Com Eva Victor, Naomi Ackie, Lucas Hedges, Louis Cancelmi e John Carroll Lynch. Drama / Comédia, EUA / França, 2025, 103 minutos.
"É preferível que você vá direto ao pronto atendimento quando isso acontecer. Certo, lembrarei disso da próxima vez". Talvez só o deboche para que se consiga encarar uma segunda violência, depois que ocorre a primeira. Ou vai ver nem ele. Na cena em que ocorre o diálogo acima, Agnes (Eva Victor, que também dirige), a protagonista do ótimo e impactante Sorry, Baby, está em um hospital para ser examinada, após ter sido estuprada pelo próprio professor. Frente a uma série de protocolos e burocracias que envolvem não apenas a exposição de algo bastante íntimo e traumático, mas também a necessidade de falar meio que o tempo todo sobre o assunto, a jovem parece meio que de saco cheio. Saco cheio de tudo. De não ver uma solução possível ou satisfatória para o seu caso, de ter de rememorar a situação, ou mesmo de ver a condescendência das pessoas - inclusive de outras mulheres, mais preocupadas com a preservação de certa imagem, do que por algum tipo de compensação mais justa.
Sorry, Baby é um filme de impacto, mas que discute o tema do abuso sexual num tom tão irônico, quanto naturalista. Aliás, a obra evidencia algo quase óbvio: a maioria dos casos desse tipo de violência ocorre com pessoas próximas, na maioria dos casos de confiança. No caso de Agnes, ela é uma professora de Artes de uma faculdade do interior da região de New England que, ainda no começo do filme, recebe a visita da amiga Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. Aproveitando a estada da amiga, a dupla participa de um jantar meio desconfortável com alguns colegas que integram um programa de pós-graduação coordenado pelo professor Preston Decker (Louis Cancelmi). De modo aparentemente afetuoso, Decker elogia o trabalho de Agnes - ela está desenvolvendo uma tese sobre Virginia Woolf. Em um dia de estudos na casa do docente, a protagonista sai do local correndo. Aos prantos. Quem assiste já sabe o que aconteceu. Mesmo que tudo que se veja seja a fachada da casa do sujeito.
Quando descreve o ocorrido à Lydie - o que envolve as tentativas do professor de tocá-la de forma nada consensual -, ela chega até a ficar insegura sobre como falar. "Isso parece 'aquilo'" comenta ela num tom incrédulo. Na universidade, o conselho disciplinar oferece um suporte de fachada a alguém que inicia uma jornada que lhe deixará emocionalmente exausta. Em resumo, não há muito o que fazer já que, diante do cenário, Decker pediu desligamento da Instituição. Não há como formalizar uma denúncia. Pior, não há nada que necessariamente prove o ocorrido. E pra piorar mais ainda do que tudo, Agnes parece não ter a certeza tão absoluta de desejar, ao cabo, que o sujeito seja punido. Que sua reputação seja comprometida - o que diz muito sobre o sistema patriarcal que vivemos e o medo das vítimas, que são a ponta frágil em uma estrutura de poder. Isso sem falar os protocolos irritantes, como no caso das perguntas do médico ("ele ejaculou em você?").
Sim, isso pode parecer necessário, mas tudo soa ainda mais frio. A burocracia da coisa - da denúncia ao suporte médico e emocional -, tudo parece cansativo, exaustivo. De forma inteligente, a obra realiza idas e vindas no tempo, o que envolverá ainda a presença de outras figuras, como o vizinho Gavin (o sempre inexpressivo Lucas Hedges) e o carismático Pete (John Carroll Lynch), o proprietário de uma lancheria de beira de estrada, que socorre Agnes após uma severa crise de pânico. Um tanto desalentador, o filme evidencia o fato de não haver muita solução em um mundo em que coisas do tipo podem acontecer, inclusive de forma recorrente (o que é reforçado pela sequência em que a protagonista conversa com o bebê da amiga). Mas ainda há espaço pra esperança. Afinal, pode parecer um comportamento meio resignado pensar que a vida continua, em um cenário em que "aquilo" acontece. Em que feridas são abertas e dificilmente curadas. Mas esse talvez seja um filme de sobrevivência e de suavidade nesse mundo tão bruto.
Nota: 8,0

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