De: Delphine e Muriel Coulin. Com Vincent Lindon, Bejnamin Voisin e Stefan Crepon. Drama, França, 2024, 118 minutos.
"Quando dizem que não é político, é aí que você deve se preocupar". Ainda no começo de Brincando com Fogo (Jouer Avec le Feu) a primeira vez em que Pierre (o sempre ótimo Vincent Lindon) inquire seu filho Fus (Benjamin Voisin) a respeito de suas amizades, ele é incisivo. "Não quero você andando com fascistas", ele argumenta, com seu olhar forte mas melancólico, que transmite medo, mas ternura. "Perder" um jovem para um grupo masculinista de extrema direita - normalmente aqueles incels frustrados, consumidores de conteúdo red pill -, que compensa o seu fracasso na base do ódio, da violência e da truculência contra tudo e contra todos, especialmente minorias, afinal, não deve ser fácil. E parece ser justamente o que está acontecendo com Pierre, um trabalhador ferroviário que vê o seu filho mais velho a cada dia mais fascinado por esses ideais. O homem chega a ser alertado por um colega de trabalho, a respeito da presença de Fus tumultuando um protesto de operários, que desejam entrar em greve.
Em linhas gerais a obra das diretoras Delphine e Muriel Coulin aborda um certo desencanto com os tempos atuais - de avanço de ideais racistas, xenófobas, misóginas -, com o campo contrário tendo de funcionar como uma zona de contenção. Como se fosse uma espécie de Otávio, o personagem de Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Black Tie (1982), Pierre é o socialista mais ou menos desiludido, que opera em um modo meio letárgico, quase no piloto automático em relação a sua vida. Prestes a se aposentar, deseja cuidar dos filhos - o mais novo, o afetuoso Louis (Stefan Crepon) está prestes a conseguir uma vaga no curso de Letras na prestigiada Sorbonne. "Ela ficaria orgulhosa", lembra o menino aludindo à falecida mãe, que padeceu aparentemente de um câncer. À Pierre, em meio a turnos de trabalho exaustivos na madrugada, restou cuidar dos meninos. O que ele tenta fazer da melhor forma.
Só que em certo dia, Pierre abre o notebook de Fus e fica estarrecido com o que vê. Não apenas ele está em perfis de grupos de extrema direita, como se se vangloria de compartilhar vídeos em que violências diversas ocorrem, especialmente contra imigrantes - com gritos nacionalistas e toda uma estética radicalista, que vai das cabeças raspadas às tatuagens tribais. Após uma discussão mais forte entre os dois, Pierre persegue Fus, ocasião em que descobre um gigantesco galpão abandonado que funciona como ponto de encontra dessa unidade neonazi. Lá dentro, um bando de machinhos tentam compensar a micropenia coletiva com sessões de brigas estilo Clube da Luta (1999), o que envolve gritedo, baba e suor. "Somos só bucha de canhão", "não é uma questão de esquerda ou direita", "estamos cansados do sistema", são frases prontas que Fus espalha, como se fosse um gerador de lero-lero do chatGPT, que só formula textos prontos e vazios que busquem amparar suas motivações.
Sem ofender a inteligência do espectador a obra é hábil em construir uma atmosfera de tensão crescente, mas sem ser necessariamente maniqueísta. Estamos, afinal, falando de uma família, que cresceu indo a jogos de futebol, ou batendo bola no pátio de casa. Alternando instantes de amor e de ódio, como em qualquer relação de pai e filho. Então, é bastante natural que Pierre tente investir, ao menos até onde dá, no caminho do amor. Ao passo que Fus também é afetuoso à sua maneira com o irmão e com o próprio pai, o que faz com que percebamos o óbvio em uma produção como essa: o ser humano é um sujeito complexo e cheio de nuances. Pode ser bom ou mal ou os dois. O seu tio bolsonarista que cuida tão bem de sua tia não é a pior pessoa do mundo. Ao mesmo tempo em que alguém do campo progressista não está livre de falhas ou de dilemas éticos. Só que o que parece ser meio infalível é o destino de quem adere tão cegamente e de forma tão alienante a ideologias tão extremas. E exemplos nesse sentido, lamentavelmente, não faltam.
Nota: 9,0

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