quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - A Longa Marcha (The Long Walk)

De: Francis Lawrence. Com Cooper Hoffman, David Jonsson, Mark Hamill, Ben Wang, Judy Greer e Charlie Plummer. Ficção Científica / Terror, EUA, 2025, 108 minutos. 

Vamos combinar que não deixa de ser meio curioso pensar que Stephen King escreveu o primeiro rascunho de A Longa Marcha (The Long Walk) no mesmo ano em que Sidney Pollack lançaria o clássico A Noite dos Desesperados (1969). Ainda assim, em em contexto em que a Guerra do Vietnã escalava empilhando corpos e um certo desencanto capitalista parecia rondar o mundo na entrada de década de 70, a coincidência não chega a surpreender. Em ambas as obras acompanhamos um grupo de pessoas participando de um jogo macabro em que os vencedores sairão com uma boa quantia de dinheiro, além de certo prestígio meritocrático. Na obra de Pollack, casais sem perspectivas financeiras reúnem-se em um salão para dançar infinitamente, numa espécie de prova de resistência à moda de um Big Brother do capitalismo tardio. Já na produção dirigida por Francis Lawrence, a partir do livro de King, vence quem for capaz de superar os demais em uma interminável caminhada.

E não é preciso nem ser muito politizado para perceber como a obra funciona como um panfleto de denúncia de contrastes sociais em uma era de vigilância, de espetacularização e de avanço da extrema direita e de outros regimes opressores mundo afora. E basta ver o discurso tão inflamado quanto limitado cognitivamente do major interpretado por um caricato Mark Hamill para perceber que, naquele cenário distópico, figuras ao estilo de um Donald Trump se divertiriam verdadeiramente, ao ver jovens lutando (literalmente) por suas vidas. Aliás, a coisa quase beira o arremedo, quando assistimos aquele sujeito de óculos escuros e de roupa militar por sobre um tanque, enquanto sinaliza aos participantes os objetivos daquela competição torpe - usando lugares-comuns à moda neofascista conclamando um retorno a tempos gloriosos, de esperança e de coragem. "Há uma epidemia de preguiça que precisa ser combatida", alega o major - e não seria nenhuma surpresa se ele vestisse um boné do Maga em meio ao seu discurso.

 


A óbvia referência a Trump funciona como um lembrete de que mudam os tempos, mas a retórica segue a mesma - e o caso é que mesmo as ficções científicas mais distópicas nunca parecem capazes de superar a realidade. Na trama, após uma Guerra Civil devastadora em um período de tempo que não se sabe qual, os Estados Unidos passam por um período econômico deprimente. Como forma de tentar resgatar valores como o patriotismo (sempre ele) e a ética laboral, o governo totalitário convoca cinquenta adolescentes, um de cada Estado, para participar da disputa que envolve uma série de regramentos - de velocidade mínima permitida à impedimento de desistência. A escolta ao grupo é feita por um grupo militar armado que não hesitará em executar os "frágeis" ou desistentes - e não deixa de ser assombrosa a naturalização da desumanização nesse cenário distópico, já que, lá pelas tantas, ninguém mais parece se impactar tanto com os corpos sendo empilhados pelo caminho. Num mar de sangue nem tão alegórico assim, que alude ao pior do capitalismo tardio, com o sonho de uma vida melhor passando pela sujeição às maiores humilhações. Aliás, os jovens participantes sequer podem parar para fazer suas necessidades, sob pena de levar um tiro. É grosseiro, torpe, vil, cruel. E aparentemente divertidíssimo - o suco do entretenimento -, para aqueles sádicos que comandam o espetáculo.

Já os jovens daquele microcosmo funcionam como eventuais estereótipos - o nerd, o destemido, o valentão, o atormentado, o taciturno, o malvado -, o que faz com que a experiência carregue uma energia cinéfila meio anos 80, ainda que a fotografia esmaecida, de tons desbotados e o cenário bucólico recortado pelo asfalto interminável, sugiram o inverso. Como uma espécie de líder involuntário (ou talvez bússola moral) do grupo, o carismático protagonista Raymond (Cooper Hoffman, de Licorice Pizza) conduzido ao local por sua chorosa mãe (Judy Greer), logo faz amizade com Pete (David Jonsson), compartilhando dores, traumas passados, desejos, anseios. Aliás, amizade ou qualquer tipo de sentimentalismo nessa corrida nunca parece uma boa ideia já que naquela competição perversa apenas um sobrevive. Mas servirá para que eles se estimulem a prosseguir - com os três mosqueteiros (sim, são quatro) sendo completados pelos esperançosos e inocentes Hank (o ótimo Ben Wang) e Arthur (Tut Nyuot). Ao cabo, a obra é cheia de diálogos, percalços e dores que servem para lembrar que, em um mundo tão individualista como o que vivemos, o senso coletivo ainda pode ser a resposta no combate à tirania. Por mais paradoxal que isso possa ser em uma produção do tipo.

Nota: 7,0 

 

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