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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Cinema - Bugonia (Bugonia)

De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis. Drama / Ficção Científica / Comédia, EUA / Canadá / Coréia do Sul / Irlanda / Reino Unidos, 2025, 118 minutos.

Teorias conspiratórias, crises climáticas, CEOs performáticos, tecnologia difusa, trabalho precarizado, incelismo cultural, distorção da realidade, corporações que vendem a doença e a cura, podcasts e opiniões sobre basicamente tudo. Vamos combinar que todo esse mal-estar contemporâneo, com suas divisões políticas, sociais e culturais, parece condensado nas irresistíveis cerca de duas horas de Bugonia (Bugonia). No novo filme de Yorgos Lanthimos - se você acompanha a carreira do diretor sabe que seu "método" é meio que o do estranhamento e o do choque - não parece haver mocinhos a quem possamos nos apegar ou mesmo torcer. Se por um lado o seboso Teddy (Jesse Plemons) parece um channer anárquico e alucinado que frequenta fóruns de internet em que doidinhos de bairro divagam sobre os mais aleatórios tipos de terraplanismo, por outro a empresária Michelle (Emma Stone) não fica atrás, com sua cultura corporativa de aparências e enriquecimento com base no sofrimento alheio.

Ao lado do primo autista Don (Aidan Delbis), Teddy elabora um audacioso plano: o de sequestrar Michelle, que ele acredita fielmente não apenas ser uma alienígena do galáxia de Andrômeda - numa clara alegoria sobre dominação - mas também a responsável direta por toda a dor causada a sua família. Teddy e Don são dois solitários que trabalham com apicultura e parecem ter genuíno apreço pelo meio ambiente, ao passo que Michelle é justamente uma das diretoras de um conglomerado farmacêutico de nome Auxolith, que fabrica inseticidas que, justamente, tem aniquilado as colmeias de abelhas. Uma ameaça, aliás, bastante real. Quando esses dois universos tão distintos colidem, o resultado é uma experiência provocativa que não alivia para as tragédias decorrentes do capitalismo, que parece não ter limites em sua sanha desenvolvimentista - mesmo que alguns fiquem pelo caminho -, nos fazendo também questionar se o caminho adotado pela dupla de abilolados representa é o ideal para a resolução dos problemas.

 


E, em alguma medida, creio que seja exatamente aí que o filme se torna mais profundo. Mais complexo. Ao mostrar que as pessoas podem ter nuances e traços distintos de personalidade. Afinal, seria muito cômodo e um tanto maniqueísta tornar Michelle a pobre sofredora sequestrada - meio como no caso do escritor de Louca Obsessão (1990) -, que está nas mãos de dois malucos do ancapistão que, se for preciso, vão praticar as piores torturas para alcançar seus objetivos, seja lá quais sejam exatamente. Tanto que antes de ela ser levada por Teddy e Don, já entendemos que ela é uma arrombada manipuladora, que se incomoda com a sua equipe ao gravar um vídeo institucional sobre diversidade (ela reclama do excesso do uso da palavra, o que parece deixar brecha pra outras interpretações), ao mesmo tempo em que soa como uma falsiane ao divulgar à nova política da empresa, que permite aos empregados saírem às 17h30. Mas desde que não haja pendências, claro! "Vocês decidem", sorri ela cativante, com seus olhos angulosos, que estampam uma série de capas de revistas do universo corporativo.

Com a mãe em coma - mais um efeito colateral das políticas literalmente tóxicas da Auxolith -, e uma fúria masculinista que vai no limite da metáfora, quando ele mesmo se aplica um medicamento redutor de libido, Teddy é retratado sim como o esquisitão de cabelos compridos, meio hippie sujo, meio troll de segunda categoria, mas que também parece ter sua parcela de razão ao evidenciar que o colapso ambiental global, se não for refreado, pode ser o símbolo do desastre futuro. À uma acuada Michelle, ele pede que retorne à Andrômeda. E simplesmente pare com essa devastação. O sentimento geral de paranoia decadente do mundo parece ampliado pela trilha sonora de cordas incômodas - cortesia do compositor Jerskin Fendrix, que deve ser nominado ao Oscar - e por um espírito bélico que escala, sem termos a certeza de onde tudo aquilo vai parar. O final, criticado por alguns, amado por outros (meu caso), é a cereja do bolo: seguimos disputando espaço, brigando (inclusive na internet) e tentando marcar posição, enquanto que manda no capital e toma as decisões nos aniquila pelas entranhas. Pode parecer meio niilista no geral. Até meio misantropo em alguns casos. Mas esse é o cinema de Lanthimos. Para o bom ou para o mal.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Cinema - Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness)

De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons, Willem Dafoe, Margaret Qualley e Hong Chau. Drama / Comédia, EUA / Reino Unido / Irlanda, 2024, 164 minutos.

Devo confessar a vocês o fato de ser bastante tolerante quando o assunto são os filmes esquisitões. Tenho paciência para as excentricidades. E para diretores que utilizam suas obras para provocar as mais variadas sensações - inclusive a repulsa ou o nojo. Ainda assim, tenho uma espécie de balizador: a produção precisa fazer um mínimo de sentido dentro daquilo a que se propõe. Senão a sensação de vazio será meio inevitável. E admito que, ao chegar ao final da terceira história de Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness) - especialmente em uma sequência em que a personagem de Emma Stone dança freneticamente (e inexplicavelmente) diante de seu carro, que ela costuma pilotar em altíssima velocidade -, tive a impressão de estar sendo feito de bobo. Naquela altura do campeonato já se iam mais de duas horas de projeção do novo projeto do grego Yorgos Lanthimos - do ótimo e ainda recente Pobres Criaturas (2023) - e foi o momento em que me deu esse "ruim".

Em geral eu gosto da filmografia do diretor. Dente Canino (2009) já foi devidamente recomendado aqui. Assim como A Favorita (2018). Da mesma forma gosto demais de obras como O Lagosta (2015) e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), que parecem devidamente empenhadas em criticar a hipocrisia da classe média e as falhas morais da sociedade americana (e grega), sempre dispostas a parecer eticamente infalíveis. Como disse no primeiro parágrafo, por baixo das extravagâncias e dos personagens caricatos, exóticos, sempre pareceu haver algum significado. E, não, a arte não necessariamente deve prescindir de algum tipo de intenção para funcionar. Ou para ser considerada satisfatória. Muito pelo contrário, ela deve ser aberta. Possibilitando ao espectador interpretá-la a partir de sua bagagem. Daquilo que lhe forma. Só que o problema foi não sentir nada com esse filme. Nada. Nem o suposto nojo. Nem ranço. Acho que eu estava apenas indiferente. E, evidentemente, o problema bem poderia ser eu.


 

Na já citada parte final desse trinca de histórias aleatórias que não possuem muito em comum que não seja a presença de um único personagem, Emily (Emma Stone) e Andrew (Jesse Plemons) são membros de um tipo de culto good vibes, naquele estilo que mistura sexualidade difusa com crentismo freestyle, e que costuma ocupar o dia a dia das famílias brancas e mais abastadas. Nessa história de axilas e suores sendo lambidos (sim) como parte de um processo de purificação há uma busca desenfreada por uma jovem mística capaz de fazer os mortos ressuscitarem. E, bom, as premissas podem soar interessantes, mas o todo se torna apenas banal. E chato. Emily dança animadamente porque encontrou a tal jovem. Que reanima um homem para a vida, após mostrar suas habilidades com um cachorro. Isso depois desta sofrer um estupro. E ser expulsa do culto por não ser mais alguém "pura". A religião e os dogmas sendo utilizados como subterfúgio para o controle de corpos? Talvez seja isso. Sei lá, só queria que acabasse o suplício.

E, admito que a coisa toda não começa tão mal, até mesmo porque a primeira história - seu título é A Morte de RMF - é excelente. Nela, um sujeito chamado Robert Fletcher (também o Jesse Plemons) é o funcionário exemplar de um escritório, que atende basicamente a todos os pedidos feitos pelo seu chefe dominador (Willem Dafoe). Ocorre que não demora para que percebamos que o homem controla obsessivamente toda a vida de seu empregado: com quem ele se relaciona, se vai ou não ter filhos, qual a bebida que toma, como age. Como um adulto infantilizado, Robert obedece, garantindo seu cargo. Ao menos até ocorrer uma solicitação excêntrica do patrão: a de que ele atropele um outro homem! O abuso de poder nas corporações e as críticas ao capitalismo tardio parecem estar no cerne dessa história, que descamba para o humor negro inesperado quando as coisas saem do controle. É disparadamente a melhor das três fábulas. 

 

 

E há ainda a história do meio, sobre um policial (Plemons) que está de luto por causa do desaparecimento de sua esposa Liz (Stone) em um acidente em alto mar - ela é uma bióloga marinha -, que é surpreendido pelo retorno de sua amada, meio que do nada. Só que o problema é que Daniel tem a impressão de que aquela não é Liz, por mais semelhante a ela que seja - especialmente pelo seu comportamento oposto ao padrão a que ele estava acostumado. Sim, é uma narrativa de paranoia que descamba para a violência policial e para o cinema de corpo - e, obviamente que Lanthimos não ia conseguir concluir um filme sem dar uma de David Cronenberg das ideias (especialmente no instante que envolve um fígado extraído do corpo de Liz). Sério, pessoal, lá pelas tantas eu cansei. Cansei do aleatório, do comportamento ilógico dos personagens, da misantropia irritante, das decisões sem pé nem cabeça. É muito personagem exaustivo junto. O que me fez pensar que um pouco de normalidade talvez não seja tão ruim.

Nota: 5,0