De: Mary Bronstein. Com Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald e A$AP Rocky. Drama, EUA, 2025, 114 minutos.
Em uma das primeiras cenas de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You), a psicoterapeuta Linda (Rose Byrne, em papel que lhe deu uma indicação ao Oscar), está chegando em seu apartamento com a sua filha pequena. Linda pede à pequena que vá ao banheiro lavar as mãos para que possam comer a pizza que encomendaram, quando vem a surpresa: o apartamento está, inexplicavelmente, alagado. Pior do que isso, quando chega à sala para tentar verificar de onde vem o vazamento, o susto: o teto cede abrindo uma enorme cratera escura que une um andar ao outro. Um buraco imenso que servirá como uma espécie de alegoria permanente para uma mulher que se esforça para ser a melhor mãe, mas que nunca parece se considerar suficiente. O buraco em seu peito, metafórico, talvez represente algum tipo de vazio. Uma ausência. Uma sensação de dívida que não se sabe bem qual. Uma carga que faz com que ela chore para, ali adiante, seguir em frente.
Em linhas gerais a obra de estreia de Mary Bronstein é riquíssima em simbolismos que emergem em meio a sentimentos de culpa, de sonhos reprimidos e de inseguranças ligadas à maternidade. Na sociedade há uma cobrança para que uma mãe - que, importante que se diga, não deixou de ser também mulher - esteja inteira para o cumprimento de seu propósito. Mas e se ela estiver despedaçada, fragilizada, quem a acolhe? Um marido muitas vezes ausente? Uma rede de apoio quase inexistente? Um terapeuta que oferece seus serviços de forma excessivamente racional e com pouca empatia? Linda precisa tomar decisões complexas, como se mudar temporariamente para um motel decadente enquanto o reparo do apartamento acontece. Um reparo que demorará mais do que o necessário por conta de burocracias diversas e uma certa má vontade de empreiteiro. O buraco permanece. Como uma lembrança do caos que está instaurado.
E como se problema pouco não fosse bobagem, a pequena filha que nunca aparece fisicamente - apenas como uma voz em desespero alternando momentos de infantilidade de alta demanda (como quando deseja um hamster) com outros de temores legítimos de meninice (quando questiona a todo o momento se ela vai morrer, por qualquer que seja o motivo) - padece de uma severa doença, que faz com que ela necessite de alimentação por sonda. O que exige de Linda uma atenção permanente. Nos poucos instantes de "folga", quando a menina dorme, por exemplo, a protagonista tenta com algum esforço comprar uma simples garrafa de vinho - barrando na má vontade da atendente. Ou mesmo sendo socorrida pelo amigo terapeuta, vivo por Conan O'Brien. O marido conversa com ela apenas por ligações telefônicas espaçadas feitas de sabe-se lá onde. Sendo as demais interações feitas com pacientes e seus distúrbios irritantes, mesquinhos, dos quais nem sempre ela consegue prestar atenção completa.
Uma dessas pacientes é uma jovem mãe de nome Caroline (Danielle Macdonald) que toma uma atitude extrema que movimenta a narrativa - e que dialoga com os assuntos da obra. "Sou o tipo de pessoa que não deveria ser mãe", comenta Linda em certa altura, enquanto revela aquele que talvez seja o grande trauma de sua juventude. O buraco, aquele do apartamento, ganha outros contornos que quase levam a experiência para o campo do realismo fantástico depois da segunda metade, quando o sentimento de culpa se amplia. Ao cabo essa pode ser uma experiência meio dolorosa, ainda que bastante realista, e que trata com uma boa dose de franqueza o processo de romantização da maternidade. A terapia em grupo não funciona. O mesmo valendo para qualquer tentativa de relaxamento. Ou mesmo de flerte, como no caso das desajeitadas investidas do superintendente do motel James (A$AP Rocky). "Eu vou melhorar", balbucia ela à filha de forma quase comovente no ápice do sofrimento. É difícil ficar alheio.
Nota: 8,0

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