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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Pérolas da Netflix - Querido Ex (Shei Xian Ai Shang Ta De)

De: Chih-Yen Hsu e Mag Hsu. Com Hsieh Ying-xuan, Roy Chiu e Joseph Huang. Comédia dramática, Taiwan, 2018, 100 minutos.

Vamos combinar: histórias sobre desventuras amorosas são universais e fazem com que nos identifiquemos facilmente. Sejam elas do Brasil, dos Estados Unidos ou de Taiwan - e é justamente esse o caso do excêntrico e comovente Querido Ex (Shei Xian Ai Shang Ta De), que está disponível na Netflix. Enviado pelo País asiático ao Oscar de 2020, o filme dirigido por Chih-Yen Hsu e Mag Hsu consegue ser engraçado e tocante em igual medida, alternando, em meio a cores quentes, quase saturadas, duas narrativas que correm em paralelo e que envolvem três personagens em meio a uma espécie de disputa judicial. A primeira dessas figuras é Liu San-lian (Hsieh Ying-xuan ), uma viúva que tenta entender os motivos pelos quais o seu falecido ex-marido teria deixado o seu seguro para Jay (Roy Chiu) - a segunda pessoa relevante nessa trama -, e não para ela ou para o seu filho Song (Joseph Huang), que também tem papel importante nesse contexto.

Sem espaço para muitas divagações ou para qualquer tipo de enrolação, o casal de diretores nos apresenta já de saída a uma Liu absolutamente estressada, ainda que um tanto metódica. Com mania de limpeza, hipocondríaca e, aparentemente, bastante conservadora, a protagonista bate de frente com Jay, um diretor de teatro de espírito livre, arejado, ligado as artes e bastante desleixado - em resumo o completo oposto de sua antagonista. Cada encontro entre os dois - e no decorrer da trama há vários - é explosivo, com descargas de raiva de parte a parte, o que faz com que Song tome uma atitude extrema: ele foge de casa e começa a se aproximar, de forma meio inesperada, de Jay. Sua intenção inicial é entender o que aconteceu entre o seu pai e o jovem. O que, afinal, teria feito com que o genitor se aproximasse daquele sujeito tão mal vestido, tão displicente. Aos poucos, ele compreenderá que as aparências podem enganar e que há mais por trás do artista endividado, que passa seus dias bebendo e fumando.


[ATENÇÃO: HÁ ALGUNS SPOILERS A PARTIR DAQUI] Nesse sentido, é um filme de boa fluência, que estabelece os seus "encaixes" sem deixar pontas mal explicadas. Para o pai de Song não deve ter sido fácil se descobrir apaixonado por um homem na vida adulta - ainda mais em uma sociedade conservadora. Mas será nos braços de Jay que Song pai (Spark Chen) encontrará o carinho necessário para enfrentar um câncer terminal. E será nesse momento que a obra se tornará enérgica, com o uso de recursos técnicos bastante gráficos e de uma trilha sonora não menos do que inebriante (daquelas que fica na cabeça, mesmo após a conclusão do filme). Aliás, o que temos aqui é uma experiência de rara beleza, bastante vigorosa, que utiliza justamente a metalinguagem (durante a projeção acompanhamos o esforço e Jay para a conclusão de uma peça) como forma de estabelecer diálogo com o que vemos. E não será exagero afirmar que precisei enxugar as lágrimas ao final da projeção.

Vale destacar que para os fãs de um cinema mais linear, a obra não deixa de ser satisfatória. Com as informações sendo despejadas em pequenas doses, caberá ao espectador ir montando o quebra-cabeças que configurará a realidade beligerante do trio central. E na real não há "mocinhos e bandidos" bem definidos, já que é possível compreender as motivações de todos. Da mãe que deseja um futuro melhor para o filho. Do amante, que empreendeu uma verdadeira via crúcis pra tentar salvar seu amado. E do filho, que mais parece uma bola de pinball perdida em meio aos dois. Discutindo de raspão temas como preconceito e xenofobia, a obra aposta no amor como solução - o que a transforma quase em uma utopia, especialmente no mundo duro em que vivemos. Bom, sonhar não custa nada. E muitas vezes o que fica é isso mesmo. Esse clima de sonho, meio tropical, meio urbano, que deixa para trás aquilo que foi, nos permitindo finalmente olhar para frente.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - O Buraco (Taiwan)

De: Tsai Ming-lian. Com Kang-sheng Lee, Kuey-mei Yang e Huy-xun Lin. Drama / Fantasia, Taiwan / França, 1998, 95 minutos.

Vamos combinar que o cinema oriental é especialista na produção de alegorias capazes de refletir o mal estar dos tempos que vivemos. Repletas de simbolismos, muitas obras de lá nos alcançam pelo não dito, pelas frestas ou pela sutileza na hora de falar de temas como incomunicabilidade humana, tecnologia, individualismo e solidão. E poucos filmes conseguirão ser tão representativos nessa abordagem, quanto o imperdível taiwanês O Buraco (Dong), do diretor Tsai Ming-ling. Tão minimalista quanto úmido, o filme transparece um sentimento permanente de melancolia, que é determinado já na narração em off inicial, que dá conta da existência de uma nova epidemia que tem assolado a população - que se vê "transformada" em algo parecido com baratas humanas. Mesmo com a indicação da necessidade de evacuação, dois jovens residentes de um condomínio (parece mais um cortiço), recusam-se a sair. São vizinhos: o homem mora no andar de cima, a moça no de baixo.

Mas não é que as condições de moradia sejam precárias: elas são fétidas, sujas. Chove sem parar, de forma intermitente e esta é a única água disponível, já que o fornecimento será cancelado. Por todos os lados há goteiras, infiltrações - na casa da jovem a água escorre por todos os cantos, fazendo-a secar as paredes e o chão na marra, com baldes e mais baldes de líquido sujo sendo juntados. Já no apartamento do rapaz, um encanador inicia um trabalho para reduzir as goteiras, mas o deixa pela metade. O resultado? Fica um pequeno buraco no meio da sala, que interliga ambos os ambientes, deixando a mostra a sala do andar de baixo. Mesmo sem ter nenhum contato com a sua vizinha, nenhuma conversa, nenhuma troca, o homem pode espiá-la. O que incomodará a moça, evidentemente: ela tentará fechar o buraco com fita crepe e espalhará veneno quando se sentir ameaçada.


É um filme simplíssimo, mas que quer dizer muito nas entrelinhas: em primeiro lugar estamos as vésperas da virada do milênio, período marcado por fortes incertezas, especialmente no que diz respeito ao futuro das relações, das tecnologias e de como isto nos afetará socialmente, politicamente, culturalmente. Segundo, é uma obra que torna literal o sentimento de solidão sufocada, como se aquele monte de água, o encharcamento coletivo, relegasse cada sujeito a uma existência enfadonha, excessivamente rotineira e sem grandes novidades. O homem vai trabalhar, volta. A mulher sai durante o dia, retorna. A vida é mesquinha, simplória, dolorida. Restando os sonhos pra sonhar: coloridos, vibrantes, sensuais, cheios de vida. E talvez não seja por acaso que, mesmo em meio ao absurdo da maçante, claustrofóbica e opressiva vida cotidiana, a jovem encontre tempo para a pequena busca de prazer (representado por um fragmento em que ela, sutilmente, se masturba).

Pois no meio das nossas enxurradas, das nossas cachoeiras, das nossas torrentes que nos afogam, nós não estamos afinal de contas tentando apenas ser felizes? E essa felicidades não se estabelece com o sentimento de troca, de ter alguém para dividir e que nos permita fugir do vazio dos dias? Instantes de cumplicidade - como na sequência em que o homem urina na pia (quem assistir vai entender) -, aos poucos vão dando forma à proximidade do casal central, que talvez no seu íntimo se deseje, mas que motivado pelo entorno absurdo, talvez se afaste. Com uma magnífica trilha sonora, um figurino cheio de contrastes e uma fotografia esverdeada que torna tudo ainda mais nauseante, o filme nos fazer perceber que, para sair das prisões que nós mesmos nos colocamos, talvez tenhamos que passar por alguns "buracos" - por mais apertados que eles sejam. Talvez isso signifique sair da zona de conforto. Ou tentar viver, minimamente, outra vida, aquela que está nos sonhos, doidinha para sair.