quarta-feira, 25 de março de 2015

Cinemúsica - Desejo e Reparação

É sempre fascinante quando uma trilha sonora consegue impor ritmo a um filme e ao mesmo tempo trazer uma mensagem que, para os espectadores mais atentos, pode revelar muito sobre a trama. É o caso da bela trilha do filme Desejo e Reparação, de 2007, composta pelo italiano Dario Marianelli, que lhe rendeu o Oscar de melhor trilha sonora original (único prêmio da obra que contou, ainda, com outras 6 indicações - incluindo melhor filme).



Na trama dirigida por Joe Wright, baseada no premiado livro do cultuado escritor britânico Ian McEwan, somos apresentados à Briony Tallis (Saoirse Ronan), uma pré-adolescente rica e mimada que tem como passatempo escrever peças de teatro e encená-las para a família. Sedenta por atenção, Briony tem uma paixonite pelo jovem, porém mais velho, Robbie (James McAvoy) que, de família humilde, presta serviços na mansão da rica família Tallis. No entanto, o objeto da atenção de Robbie é a irmã mais velha de Briony, Cecilia (Keira Knightley). Ao visualizar determinada cena entre Cecilia e Robbie, Briony acabará por criar uma mentira cuja consequência afetará a vida de todos de maneira trágica - incluindo a ida de Robbie para participar da Segunda Guerra Mundial (a cena do enorme plano sequencia na praia já vale o filme, e é uma das cenas mais impressionantes da história do cinema) . Acontece que, até a velhice, a sombra do remorso por uma atitude até então infantil (na época) continuará ecoando na mente de Tallis que, de alguma forma, buscará a reparação (Atonement, no título original) por seus atos.

O que torna esta uma trilha altamente original é o uso dos sons de digitação em uma máquina de escrever que, junto dos instrumentos tradicionais, dão ritmo a diversos momentos da narrativa. Já na apresentação de Briony temos esta ilustração, visto que a menina adora escrever peças de teatro, como podemos observar no vídeo abaixo. Porém, em vários outros momentos, a mesma característica acaba por perpassar a obra. E a grande jogada da inteligente opção por este tipo de "comentário" musical só será totalmente entendida ao final do filme.


SPOILER ALERT! (Recomenda-se continuar a leitura somente quem já assistiu)

Ao encontrarmos Briony já na velhice (Vanessa Redgrave) descobrimos que a mesma é uma escritora de sucesso e que estávamos assistindo à SUA versão dos fatos, narrada então em seu novo livro. Nesta versão, o final de Robbie e Cecilia era feliz, ao contrário do acontecido na vida real - muito mais trágico. A "reparação" seria feita então em forma de palavras em uma obra de arte, no caso um livro, o que torna a reflexão proposta pela obra (fielmente adaptada do complexo livro de McEwan) fascinante: Poderia a arte reparar danos passados? Quem nunca cometeu um deslize do qual se arrependeu? Há perdão para um erro cometido por uma menor de idade, mesmo que as consequências tenham sido trágicas? No fim, o que Briony quer é poder estar em paz com sua consciência, e esta catarse terapêutica em forma de arte seria a sua "auto-reparação".

Aí então que a "pegadinha" pregada pelo roteiro e pelo diretor Joe Wright passa a fazer sentido. Ao modificar a lógica da trama em seus minutos finais, entendemos que o que estávamos assistindo até então era a versão de Briony, que estava sendo escrita em seu livro através da máquina de escrever - cujos sons estavam presentes na trilha sonora desde o início. Não é fantástico quando uma obra consegue nos envolver desta maneira, sem subestimar a inteligência do espectador? O que em um primeiro momento parecia ser apenas um filme de época e de guerra, acabou por ganhar contornos metalinguísticos e apresentar uma temática muito mais complexa, com discussões filosóficas sobre amor, culpa, ciúme, redenção, entre outros, tornando a experiência de se assistir ao filme (e ouvir sua música) muito mais enriquecedora.

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