De: Jafar Panahi. Com Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari e Mohammad Ali Elyasmehr. Drama / Comédia, Irã / França / Luxemburgo, 2025, 103 minutos.
Quando a gente assiste a um filme como Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), é meio que impossível não associá-lo à situação vivida pelo próprio diretor da obra, o iraniano Jafar Panahi. Perseguido pelo governo há quase duas décadas por atividades supostamente subversivas - com o seu cinema provocativo sendo veículo para críticas ao regime em vigor no País -, o realizador tem empreendido verdadeiros calvários para concluir cada um de seus projetos. E para tentar driblar a censura e as barreiras impostas pelos aiatolás e seu conservadorismo atroz. De histórias mirabolantes, como a do envio de uma cópia de Isso Não É Um Filme (2011), para o Festival de Cannes, em um pendrive escondido em um bolo, ao uso de metáforas e de metalinguagem em Sem Ursos (2022), suas produções têm sido um símbolo de resistência e de enfrentamento, enfim, um engenhoso exercício criativo em meio à proibição.
E talvez por isso, mesmo filmes que não pareçam assim tão inspiradores como este, que está em cartaz nas salas do Brasil e deverá ser figurinha certa na próxima edição do Oscar, faz com que passemos pano para as eventuais imperfeições. Afinal, frente a um cenário de ameaças - Panahi chegou a ser preso em 2022, passando sete meses encarcerado, sendo libertado após uma greve de fome -, uma obra que é uma alegoria para o medo e de como agir quando o algoz é confrontado, é, enfim, um ato de coragem. Na trama, o mecânico de automóveis Vahid (Vahid Mobasseri) é surpreendido pela chegada à oficina mecânica em que trabalha de um certo Eghbal (Ebrahim Azizi), sujeito que, no passado, teria lhe torturado por conta de diferenças étnicas em um flagrante caso de xenofobia. Vahid identifica o sujeito pelo barulho característico da perna mecânica de seu algoz, que perambula pelo ambiente acompanhado da esposa e da filha, após um acidente em que atropelam um cachorro.
Com medo e meio que sem saber direito o que fazer, Vahid resolve seguir Eghbal até a sua casa, encontrando o momento certo para abordá-lo, agredi-lo e conduzi-lo até uma isolada região desértica com o objetivo de enterrá-lo vivo. O ódio que carrega, resultado de uma sequência de humilhações vividas por ele, justificaria essa Lei de Talião improvisada (do "olho por olho, dente por dente?"). Em desespero, Eghbal garante haver um engano. Não tendo sido ele o carrasco que o manteve enclausurado - e Vahid não consegue ter certeza, porque tudo o que ele tem é o barulho da perna mecânica e a voz. Receoso de estar cometendo uma injustiça, ele desiste do seu intento, colocando o homem em um caixão à moda Festim Diabólico (1948), na intenção de descobrir se Eghbal é, de fato, quem é. O que resultará em um excêntrico road movie pelas ruas de Teerã, com a entrada em cena de outras figuras como a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), um empregado de uma farmácia local. Todos previamente flagelados (ou não) por Eghbal.
Em linhas gerais, o que a obra - que venceu a Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes - parece questionar por cada um de seus poros é como fazer, em um cenário de tantas diferenças políticas, sociais, culturais (ou de polarização), para simplesmente tolerar o outro. A sua existência. Claro que se um lado é o violento e age com raiva, truculência e intolerância, o outro também deveria agir assim? É por esse caminho que resolvemos os problemas e pacificamos uma sociedade? Em longos diálogos, o quinteto completado pelo noivo de Goli, Ali (Majid Panahi, filho do diretor) vai pra lá e pra cá tentando tomar algum tipo de decisão. Para Hamid é matar, enterrar e pronto. Para os demais, como no caso da própria Shiva que, claramente, só quer seguir em frente com a sua profissão, a dúvida pairando no ar parece ser uma barreira.
Em meio a choques e pequenas colisões, o grupo passará por outros suplícios urbanos, como propinas policiais, subornos aleatórios, a turbulência do trânsito, o capitalismo tardio ostensivo, um carro que entra em pane e até uma inesperada gravidez, com as implicações doentias de uma sociedade patriarcal - e tão guiada pela religião. Árida, excêntrica, caótica e inacreditavelmente divertida, essa é uma obra que repete os temas usuais de Panahi, que permanentemente precisa driblar as restrições, para a construção de uma experiência fragmentada, que olha para os traumas coletivos do Irã sem apontar um vilão em específico, já que o problema está no todo. No tecido. Nas entranhas. Com vidas - trabalho, relacionamento, famílias - sendo afetadas. Todos os dias. Com a coletividade meio que em pane, confusa, sem saber como agir. E sendo atropelada sem nem perceber.
Nota: 7,5


