Hoje quem participa do nosso quadro Espaço do Leitor é a nossa querida amiga e leitora Tati Turatti. Ela assistiu ao recém-lançado nos cinemas Sexy Por Acidente (I Feel Preety) e nos passou as impressões dela sobre a obra - o que é possível conferir no texto abaixo!
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Saí de casa hoje com a intenção de assistir a um filme leve, daqueles que esquecemos rápido, sem fins culturais. Foi realmente leve, mas acredito que em termos culturais o filme traz uma crítica um tanto humorada sobre o culto exagerado a aparência física e o efeito que isto tem sobre a autoconfiança e as relações pessoais. O filme I Feel Preety - traduzido para o português como Sexy Por Acidente - tem como protagonista a Amy Schumer, uma mulher comum, sem um corpo de parar o trânsito que, após uma queda, se sente a mulher mais bonita do mundo. Sim, parei... não falarei mais nada específico sobre o filme!
A questão é que o filme mostra exatamente como o culto ao corpo está presente em nossas vidas e como não se encaixar nos padrões impostos pode afetar profundamente as relações com outros indivíduos. Por outro lado, ter autoconfiança, se amar e se valorizar pode criar oportunidades nunca antes pensadas e atrair pessoas ainda mais incríveis. Todos temos muitos defeitos, mas ter autoconfiança para conseguir demonstrar as nossas qualidade parece ser genial. Enquanto tentamos nos encaixar em algum padrão idealizado, ou buscar objetivos que não são exatamente aquilo que faz nosso coração vibrar, podemos estar perdendo a chance de ser feliz. Um filme de comédia romântica trazer uma reflexão nesse sentido me faz pensar que não ser autêntico, genuíno ou espontâneo pode ser o nosso maior defeito!
O nosso brother e músico de alta qualidade Tonho Soares prestou a merecida homenagem ao terceiro e homônimo disco do Alice In Chains. Pegue a sua camisa de flanela e o seu All Star de cano longo e embarque diretamente à metade dos anos 90! Alice in Chains é o terceiro álbum de estúdio da banda Alice in Chains. O disco também é conhecido como Tri Pod devido as artes de capa (um cão de três pernas), e da parte de trás (foto de Frank Lentini, um homem de três pernas).O álbum - último de estúdio lançado pela banda com Layne Stanley nos vocais -é um dos mais melancólicos do grupo, o que não chega a ser novidade. Temas pesados como depressão, isolamento, uso de drogas, raiva e morte sempre fizeram parte do contexto do Alice In Chains Apesar de não tão bem sucedido quanto Dirt, o álbum chegou a dupla platina nos Estados Unidos e vendeu mais de três milhões de cópias pelo mundo, mesmo não tendo suporte através de turnês. O registro é considerado pelos fãs o trabalho mais depressivo da banda, devido a seu estilo lento e mórbido, mas pesado, principalmente nas letras de canções como Grind, Head Creeps e Frogs.
Com exceções da já citada Grind, de Heaven Beside You, e de Over Now, as letras são todas escritas por Layne Stanley, fazendo deste álbum sua maior contribuição lírica para banda. Faixas como Shame In You e Nothin Song trazem a tona toda melancolia que Layne vivia e que Jerry Cantrell sempre soube musicar com talento ímpar. De riffs pesados a melodias tranquilas o diferencial do Alice In Chains sempre foi a mescla entre a energia de alguns sons e a depressão de outros.Tri Pod é um daqueles discos que se aprende a ouvir com o tempo, descobrindo a cada audição um detalhe novo, uma nova forma de ser impactado pela obra do artista. A música melancólica nos leva a reflexão, seja por suas letras profundas, seja pelo transe proporcionado por seus acordes e melodias. Num tempo em que a música parece estar se perdendo em meio a melodias plastificadas e criadas em softwares de computador, o deleite que um disco feito de corpo e alma nos proporciona, não tem preço. Resta a nós, saber dar o devido valor e continuar consumindo música - ou mesmo outras formas de arte - que sejam verdadeiras.
Georgia e Caleb Nott, irmãos, compõem o que, musicalmente, conhecemos como Broods. A dupla, de Nelson, na Nova Zelândia, vem de um lugar que surpreendeu o mundo na história recente do pop: basta lembrar que Kimbra e Lorde também são de lá. Broods, pra quem não conhece, é bastante semelhante a uma banda que caiu no gosto de quem curte essa vertente mais alternativa e heterogênea do pop: faço da escocesa CHVRCHES.
Neste segundo material, os irmãos Nott entregam um disco diferente do primeiro registro da banda, lançado há dois anos. Atuando desde 2013, após o reconhecimento internacional com o primeiro disco, a dupla já esteve em tour com Sam Smith, Ellie Goulding e as irmãs Haim, além de ter ganhado diversos prêmios da cena musical. Antes do primeiro álbum completo de estúdio, a dupla lançou um EP homônimo no qual trabalhou com Joel Little, produtor da já citada Lorde. O material foi lançado no início de 2014. Mais recentemente, com o Broods, Joel Little se envolveu na canção 100x do australiano Jarryd James. Os vocais claros e leves de Georgia estão bem evidenciados neste featuring.
Evergreen é o nome do debut, que chegou ao público mais tarde naquele mesmo ano, trazendo canções muito conhecidas de quem curte o streaming e extremamente populares em plataformas como Spotify e o Youtube. Entre os registros de destaque desse primeiro material, temos Bridges e Never Gonna Change. Em Conscious, o segundo álbum, a melancolia dos composições do material de 2014 fica para trás e somos surpreendidos com músicas mais enérgicas, de batidas radiofônicas, feitas aparentemente sob medida para conquistar a audição. O material conta novamente com a produção de Joel Little, do trio Captain Cuts (que já trabalhou com Grouplove e Halsey) e de Alex Hope (envolvida com o Blue Neighborhood, do Troye Sivan). O único featuring do álbum é Freak of Nature, na qual os Nott dividem as estrofes com a sueca Tove Lo.
Muito bem equilibrada nos vocais, no Broods, Georgia empresta a voz principal às canções e Caleb, multinstrumentista, faz os vocais de apoio. Os timbres agudo e grave, sobrepostos, criam uma atmosfera épica para as canções que, não raro, explodem em refrões agitados. Letras fáceis e refrões grudentos fazem com que o material caia facilmente no gosto dos fãs de música pop. Os elementos de indietrônica (música eletrônica independente) e de eletropop são muito bem misturados em cada uma das 13 faixas do Conscious. Free, Couldn’t Believe e Heartlines (coescrita pela Lorde) foram os singles do álbum antes do lançamento oficial, no último dia 24 de junho. Neste material os destaques ficam por conta de Full Blown Love, Are You Home e as já citadas Couldn’t Believe e Heartlines: talvez as músicas mais radiofônicas
Pra que gosta de: CHVRCHES, Troye Sivan, Banks, MØ, Oh Wonder e Betty Who.
Como ocorre eventualmente aqui no Picanha, hoje o quadro Disco da Semana é misturado com o Espaço do Leitor! Isto porque o nosso amigo, leitor e grande parceiro aqui do site Lucas George Wendt - que trabalha no Centro Cultural da Univates, aqui em Lajeado - é o responsável por falar sobre o novo disco da dupla sueca Niki & The Dove, o sensacional Everybody's Heart Is Broken Now - desde já um dos prováveis candidatos e figurar na nossa lista de melhores do final do ano. Boa leitura!
Niki & The Dove é, na verdade, como conhecemos os músicos suecos Malin Dahlström e Gustaf Karlöf. A história musical de Gustaf e Malin inicia em 2010 e, em 2012, o mundo conhece
o trabalho de dupla quando a BBC Radio 1 seleciona-os para concorrer no Sound Of The Year: competição que escolhe as grandes apostas da emissora anualmente. Em seu segundo álbum, a dupla aposta no groove e nas batidas oitentistas para trazer ao público um registro muito peculiar e diferente daquilo que nos acostumamos a ouvir quando pensamos neles. Everybody's Heart Is Broken Now sucede o primeiro álbum do duo, Instinct, lançado em 2012.
Essencialmente diferente desse primeiro registro completo de estúdio, que nos trouxe um debut repleto de batidas explosivas e atmosfera pop frenética, como nos casos dos singlesTomorrow e DJ, Ease My Mind, o segundo álbum é repleto de ecos e batidas distantes, mais ritmado, e um convite à dança. Um claro regresso aos anos 1980, a disco music e ao groove que reinavam na época. Everybody's Heart Is Broken Now foi lançado em abril pela TEN Music Group, e as canções do álbum versam sobre temas como o futuro, o cotidiano, e sobre término de relacionamentos.
Nesse sentido, temos canções mais tristes como Lost Ub, que aborda o senso de perda e falta de chão que prevalece quando o amor finda. É um disco nostálgico e sutil, de toques leves. Nesse novo material entregue aos fãs, riffs de guitarra substituem as batidas eletrônicas do disco anterior e, somadas a voz bastante singular de Malin, convidam para uma viagem sonora às décadas passadas. Aliás, o potencial vocal da performer é explorado de maneira magistral na canção Everybody Wants To Be You, quando o álbum já vai se encaminhando para o fim. Antes do lançamento em abril, os singles, para o promoção do registro, foram as canções So Much It Hurts e Play It On My Radio, que caracterizam bem a estética musical proposta no novo material.
Destaques do álbum ficam por conta de canções como Scar For Love, com refrão grudento no qual Malin versa sobre as marcas que nossos amores deixam nos corações alheios e Pretty Babies, que fala sobre promessas e futuro. Ode To a Dance Floor é a música de maior duração, com quase oito minutos, e versos longos: é uma história que Malin canta e que passa por altos e baixos. Shark City (Tropico X) é a mais dançante e também a mais inusitada, com uma letra que diz que em uma cidade de tubarões você precisa de dentes afiados. Desde o lançamento e ao longo das últimas semanas, as canções da edição especial estão sendo disponibilizadas. Até o momento chegaram a público Lady Friend e Sunset Tyger. A edição especial ainda conta com mais duas faixas não reveladas, Sister Brother Mother Father e Empires.
Pra quem gosta de Vanbot, Lykke Li, Austra, Oh Land e St. Lucia.
Já fazia algum tempo que o Espaço do Leitor - um de nossos quadros preferidos aqui do Picanha - não dava as caras. E, a convite da nossa produção (este jornalista que vos tecla, no caso) a querida amiga, parceira, leitora e estudante de jornalismo Tammy Moraes - que faz um belíssimo trabalho no diário A Hora, aqui em Lajeado - resolveu escrever sobre um de seus filmes preferidos, no caso o arrebatador Encontros e Desencontros (Lost In Translation). Com vocês o imperdível - e apaixonado e sincero - texto da Tammy sobre a bela obra, que também é uma das favoritas aqui da casa!
Encontros e Desencontros (Lost In Translation)
De: Sofia Copolla. Com Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovani Ribisi e Anna Faris. Comédia dramática / Romance, EUA / Japão, 2004, 102 minutos.
Conheci Sofia Coppola muito por acaso. Foi em meados de 2005, depois de uma habitual ida à locadora. Na ocasião, ao colocar o disco no aparelho de DVD, pela primeira e única vez o menu brilhando na tela não correspondia ao nome da capa. Estranhei mas resolvi dar uma chance. Tratava-se de um tal Encontros e Desencontros. Apesar de eu não passar de uma criança à época, a identificação com o filme foi imediata. Em poucos minutos, soube que seria um de meus favoritos.
Conta a história de dois americanos no Japão, que se conhecem no hotel onde estão hospedados. Muito solitários na ocasião, acabam criando relação baseada na companhia, onde conversar e simplesmente estar junto é o mais importante. O que mais me chamou a atenção de início foi a sensibilidade de condução da história. Somente anos mais tarde eu viria a descobrir que Sofia consegue transpassar isso a todos os seus filmes, independentemente da história. Também só depois soube que o nome original do longa é Lost in Translation, ou algo tipo "perdidos na tradução”, o que faz muito mais sentido pois os personagens se viram como podem sem falar japonês.
O roteiro tem premissa simples e a história é conduzida cheia de silêncios e melancolia em meio aos ares urbanos de Tóquio. Tudo para retratar o vazio existencial pelos quais os personagens passavam, mesmo em fases muito diferentes da vida. Scarlett Johansson e Bill Murray, que interpretam os protagonistas, estão em total sintonia, tanto entre si quanto com a premissa do filme. A fala mansa e os gestos comedidos traduzem muito disso.
Confesso que ao ver o filme pela primeira vez, fui conquistada pela imparidade. Com o passar dos anos, cada vez mais entendia pelo que os personagens passavam: a solidão, sensação de estar “emperrado”, vontade de mudar velhos hábitos e se conectar verdadeiramente com as pessoas. Não há nada como uma obra que ganhe novo significado toda vez que contemplada. É a magia do cinema em sua mais pura forma.
Quanto mais você sabe quem é e o que quer, menos deixa as coisas te chatearem. – Bob Harris (personagem de Bill Murray)
Acho que vamos mudar o nome desse quadro para Coluna da Rosane ou algo com algum outro título tão criativo quanto este! Bom, o fato é que a professora e querida amiga Rosane Cardoso mandou mais um daqueles textos absolutamente f**** (dá pra falar palavrão?) para o quadro Espaço do Leitor, que sempre dão um ganho de qualidade no nosso Picanha velho de guerra. Dessa vez ela falou de um filmaço, no caso o ótimo GarotaExemplar, lançado no ano passado - aquele com a Rosamund Pike surtada -, comparando-o com outro filme mais antigo de Hollywood, que possui alguma semelhança em seu roteiro. Boa leitura!
Garoto, amar foi tua ruína...
Muito se falou no excelente Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), dirigido por David Fincher e escrito por Gillian Flynn. O filme não deixa pedra sobre pedra: discute o alvoroço da mídia, a hipocrisia social e, sobretudo, avança sem dó nem piedade para dentro da casa, seja entre as quatro paredes de um casamento, seja nas controladas relações familiares. De fato, não saberia dizer onde residem mais não ditos. Os pais, entre falas mansas e taças de champanhe, exploram a imagem que criaram da filha. A filha, por sua vez, ataca ao marido, na sua frustração diante do cotidiano e de um casamento que a decepciona. Em sua vingança, ela assume a apatia que sente em relação a todos e destrói o que pode em seu caminho. Ainda que, ao final, siga aprisionada no casamento medíocre, seu marido é a vítima maior e, pior de tudo, ciente do poder de destruição da “patroa”. Rosamund Pike, por sua vez, consegue mostrar a que veio, saindo do limbo das belas loiras coadjuvantes de Hollywood que ninguém sabe muito bem o nome.
No entanto, o que mais me chamou a atenção no filme, foi a semelhança com Amar foi minha ruína (Leave her to heaven), de 1945, dirigido John M. Stahl, e estrelado pela belíssima Genne Tierney e o pouco expressivo Cornel Wilde. Como o filme de Fincher, também nasceu de um livro homônimo. A película tem uma aura noir, embora, em alguns momentos, se perca no dramalhão. Mas é uma delícia.
Helen Berent, a protagonista, é a típica femme fatale, mas com um tempero a mais. Misteriosa, obcecada pelo pai já falecido, encontra o amor de sua vida no escritor interpretado por Wilde. Na trama, a presença do ex-noivo, personagem de Vincent Price, é uma força decisiva para o desenrolar do filme. Mas o que interessa aqui não é contar o enredo, mas pensar na riqueza com que esta mulher é construída. Incapaz de pensar além de si, o ciúme a corrói, deixando um rastro de crimes hediondos por onde ela passa.
Édipo, Hamlet, Medeia, Fedra são alguns dos personagens clássicos que perfilam a protagonista. Como em Garota exemplar, o silêncio da família joga o marido na cilada amorosa sem retorno. Claro que, sendo um drama dos anos de 1940, tudo dá certo no final. Mas a gente esquece com facilidade do novo e feliz casal. É a imagem de Tierney que permanece, com o seu olhar gélido e implacável.
Enredo recheado de Shakespeare, o título do filme em inglês, Leave her to heaven, é uma referência a uma conversa entre Hamlet e o fantasma de seu pai, que pede ao filho que não se vingue da mãe traidora, pois o céu irá julgá-la. Em minha opinião, no caso de Helen Berent, não creio que o Céu tenha coragem para tanto.
Já fazia algum tempinho que o quadro Espaço do Leitor não dava as caras por aqui e o retorno é em grande estilo! A nossa querida amiga, professora, mestre em Cinema/Gastronomia/Blues/Literatura, Rosane Cardoso fala do arrebatador Miss Violence, do grego Alexandro Avranas. A análise apuradíssima feita por ela resulta, seguramente, em um dos melhores textos já publicados até hoje, aqui no Picanha!
Filme: Miss Violence Texto: Rosane Cardoso
Sabe aquele filme que a gente começa a olhar tendo a certeza que não vai ver até o fim? Pois é, foi o que me aconteceu com este Miss Violence, drama dirigido por Alexandros Avranas, de 2013. A película levou dois prêmios no Festival de Veneza, de direção e de ator para Themis Panou. Voltando à minha descrença quanto ao filme, levei menos de cinco minutos para saber que não conseguiria levantar da poltrona antes do fim. E garanto que não é só pelo suicídio de uma criança logo na primeira cena.
O espectador até sabe o que está acontecendo naquela casa sombria, de pessoas quietas e assustadas. Mesmo assim, não estamos preparados, creio, para a dimensão da violência que ocorre interna e externamente às paredes da casa. Se o incesto é referido frequentemente como o tema da narrativa, do meu ponto de vista ele é só a ponta do iceberg. A mim impactou, sobretudo, as gerações que vão se formando na casa sob o signo da violência silenciosa. Trata-se de uma família formada pelo patriarca que dirige com mão de ferro a vida da esposa, das filhas e dos netos. Poucas palavras são ditas e cinco mulheres denotam cada fase do silenciamento.
Nas mais jovens, ainda se percebe a inocência e certa rebeldia. Mas em Eleni, a mais velha, que sobrepõe uma gravidez a outra, já se apresenta a submissão absoluta, o aprisionamento que os anos de abuso impuseram. Na mãe, a mesma violência toma forma de cegueira voluntária. O melhor é assistir à TV enquanto o marido fecha a porta do quarto das filhas.
Li alguns comentários que criticam o fato de o espectador logo saber o que se passa na casa. Não vejo problema na dita previsibilidade do filme. O diretor comentou, em diversos momentos, que sua proposta era justamente discutir o que acontece, muitas vezes, dentro dos lares sem que ninguém supostamente, veja. Então, de certo modo, saber o que acontece coloca o espectador próximo aos investigadores, professores, vizinhos que percebem algo estranho na casa, mas nada fazem. Em minha opinião, o choque está em perceber que o óbvio pode ser ainda mais horrível do que se supunha. Enfim, uma pena que tenha passado batido pelos cinemas brasileiros. Felizmente, vivemos tempos de arte online e TVs que não nos desligam diante das tragédias cotidianas.
Hoje, no Espaço do Leitor, temos a ilustre participação do amigo e escritor Juliano Heinen. E não é que o Juliano deu um tempo nos livros relacionados à sua área de atuação (o direito, no qual é autor de vários volumes) para discorrer um pouco sobre a obra vencedora do prêmio Pulitzer 2015, Toda Luz Que Não Podemos Ver. A obra de Anthony Doerr, best seller nos Estados Unidos e bastante elogiada, é uma bela dica que você pode conferir no texto abaixo:
"Já nas primeiras páginas somos capturados pela obra de Anthony Doerr. E, a partir deste ponto, não há mais como parar de ler. Não saberíamos ao certo se é por conta do estilo objetivo e descritivo do seu texto, pelo enredo inesquecível, pela fascinação de uma história que se passa em um momento dramático da humanidade (a 2ª Guerra Mundial), por seus personagens serem demasiadamente humanos, enfim. O certo é que demora pouco para nos darmos conta de que não é à toa que o livro recebeu tantos prêmios (livro do ano pelo New York Times, em 2014; indicado ao National Book Award; aclamado pela crítica de inúmeros periódicos no mundo; culminando, de quebra, em 2015, per receber o prêmio Pulitzer). E demora menos ainda para compreender a facilidade com que atingiu um milhão de exemplares vendidos só em 2014.
'Toda luz que não podemos' ver conta a história de duas crianças que crescem aos horrores da guerra. E no meio de tantas privações, conseguem, cada qual ao seu mundo, escavar perante os escombros, e, no meio da lama, encontrar as suas “flor de lótus”. Duas histórias que são contadas alternadamente, em capítulos de duas ou três páginas, cuja linha de tempo o autor consegue impressionantemente também modular, cativando ainda mais o leitor.
Não há como não sentir afeto pela menina francesa Marie-Laure, cega desde a infância, que recompõe um mundo tão próprio em Paris e em Saint-Malo; que nos demonstra que a beleza do mundo é criada pela nossa mente, e não necessariamente pelos nossos olhos. Como não se ser tocado pela pureza de Werner, um órfão de pai e mãe, crescido em um orfanato alemão e incorporado no exército do Reich. Duas histórias que se alternam, dando verdadeira pulsação ao livro.
Esta obra nos presenteia com tantas e tantas reflexões por demasiadas humanas. Brinda-nos com mensagens por deveras tocantes. Eleva-nos a um mundo realmente imaginário. Um belo livro para ser sorvido!"
E você, tem algum livro, filme, disco que marcou sua vida? Mande para nós!
Um abraço e até o próximo Espaço do Leitor!
Hoje, no Espaço do Leitor, quem participa é a super talentosa e querida repórter do Jornal A Hora, Tammy Moraes. A Tammy, além de escrever matérias incríveis no veículo em que trabalha, também é cinéfila de carteirinha - assim como a gente.
E a escolha de filme não poderia ser mais peculiar: o cultuado e complexo Waking Life, do diretor Richard Linklater, responsável por outras obras bem conhecidas e diversas, tanto em tema quanto estilo, como Boyhood e Escola de Rock.
"Uau, como é difícil falar de um filme só! Confesso que essa escolha é completamente baseada no momento em que estou passando agora. O nome Linklater foi bastante falado nos últimos meses por conta de Boyhood. Porém, antes do resultado desses 12 anos de gravações, veio Waking Life. Para mim, essa é a obra prima do diretor. O filme divide opiniões. Muitos o acharam um tanto difícil de acompanhar, pois não segue uma história contínua, e sim várias cenas “aleatórias” de pessoas conversando, filosofando e contando histórias sobre os mais variados temas. Apesar de usar atores reais, é como uma animação, tudo para dar a sensação de sonho. Fala muito sobre a forma que assumimos enquanto dormimos, e como a separamos de quem somos enquanto estamos na vida “desperta”. É uma viagem do começo ao fim, que rende muita reflexão."
Então, não deixem de conferir essa e outras dicas aqui no Picanha.
E continuem participando do nosso Espaço do Leitor. Uma boa semana a todos!
Hoje o espaço do leitor é um pouco diferente do habitual. A amiga, professora e doutora em literatura Rosane Cardoso nos mandou um texto falando não de um filme apenas, mas fazendo um verdadeiro tratado sobre uma atriz que marcou a sua vida. E a escolhida foi a consagradíssima Bette Davis!
A diva Bette Davis
"Não escrevo sobre um filme que marcou minha vida, mas sobre uma atriz: Bette Davis. Bette não se destacou no cinema pela beleza ou pelo corpo curvilíneo. O talento era pedra lapidada na vida mesma, nunca fácil para as mulheres, certeza decorrente, imagino, da infância e juventude difíceis. Quando olho para os filmes dela que revi inúmeras vezes, é difícil dizer qual deles prefiro. Alguns são deploráveis, é verdade. Mas como fã sempre arranja justificativas, acho que os ruins mostram que até os deuses são mortais, com o perdão do paradoxo. Arrisco-me a fazer uma pequena categorização, muito particular e nada cronológica:
No ranking Estou chegando, destaco Escravos do desejo, de 1934, dirigido por John Cromwel e coestrelado por Leslie Howard, ator que estouraria em 1939, como o chatíssimo Ashley, em E o vento levou, Bette encarna Mildred, uma garçonete sem escrúpulos ou ilusões, mas que justamente por isso engrandece o filme. Ela é, provavelmente, a primeira sociopata narcisista da telona. Uma delícia.
Do grupo Bette Diva despontam Jezebel, Perigosa e Perfídia. Como a “categoria” indica – e a crítica também – são as primeiras obras-primas de Davis. De fato, as três personagens são bem parecidas. Egocêntricas ou altruístas, geniosas ou calculistas, as protagonistas não fazem concessões diante do que querem. Um verdadeiro MBA.
O Chorem comigo compreende Tudo isso e o céu também, A estranha passageira e A solteirona. São grandes melodramas que, consequentemente, exigirão muitas lágrimas. O amor impossível e o sacrifício rondam a mulher misteriosa, distante, com um passado que a sociedade não perdoaria. Diante desta tríade, a cena que vale todos os ingressos do mundo: Bette e Claude Rains dividem um cigarro, sabendo que não podem ficar juntos: Don't let's ask for the moon. We have the stars. Maravilhoso...
Na sessão Poderosas e sozinhas coloco Vitória amarga, Mulher maldita, A carta, A grande mentira e A rainha tirana. Comentário? Bom, há coisas que queremos fazer, há outras que temos de fazer. Meu preferido? A carta: “Com todo o meu coração, eu ainda amo o homem que matei”.
Em Tarde de sábado se destacam A noiva caiu do céu, Dama por um dia e, o melhor, Satã jantou lá em casa. Valem cada minuto e são do tempo em que comédia romântica fazia algum sentido.
Em Fuck you, show business! estão três obras-primas da Bette, já no seu momento fênix, com muitos altos e baixos, tanto na carreira quanto na vida pessoal. Em A malvada (1950), Lágrimas amargas (1952) e O que terá acontecido a Baby Jane? (1962) a atriz dá o sangue e representa com conhecimento de causa os bastidores do entretenimento, em três fases da decadência artística. Clássica a cena da protagonista de Lágrimas amargas dirigindo bêbada por Beverly Hills, tendo um Oscar por companheiro. Detalhe: o prêmio pertencia, de fato, a Miss Davis. Outro presente do filme é a frase: Um bom filme é a única coisa de que preciso. Na mosca!
Da fase Ruim mesmo, só que é Bette: dá para comentar Nas garras do ódio, O aniversário, Com a maldade na alma e Alguém morreu no meu lugar? Melhor não. Há momentos realmente constrangedores... mas, se olharmos bem, sempre tem uma pérola escondida. Filmes para reavaliar. Mais ou menos.
O crepúsculo da deusa está de acordo com a cena: Baleias de agosto, história terna sobre a velhice e a solidão, filme quase bergmaniano. Tenho vontade de chorar de pena o tempo todo. Pena de mim e do cinema: ali estão três ícones: Bette, Price e Gish dando tchau. Lindo demais."
Então, difícil escolher um filme só não é mesmo?
Continuem participando aqui no Espaço do Leitor. Boa semana a todos!
Hoje quem fala sobre o seu filme favorito é a jornalista, atriz, artista plástica, fotógrafa, instrumentista - sim, a moça toca algum badulaque na música Nado, que está no último disco da Apanhador Só - e amiga Tuane Eggers. A nossa querida Tutu, como a conhecemos, selecionou um simpaticíssimo filme, explicando abaixo os motivos de ele estar entre os seus favoritos.
"É difícil pensar em um único filme entre um universo de tantos que amo, mas um que me tocou muito foi Eu, Você e Todos Nós (Me and You and Everyone We Know), da cineasta, escritora e artista plástica norte-americana Miranda July, lançado em 2005. Além do meu encantamento por ela, adoro esse filme porque não mostra amores nem ideais conquistados, mas sim universos peculiares de personagens de diferentes idades, em uma atmosfera muito delicada. Com cenas cotidianas que poderiam ser consideradas até mesmo banais, é um filme que traz a poesia que envolve os relacionamentos humanos. Vale a pena conhecer - essa e as demais obras da Miranda!"
E então, gostaram da sugestão da Tuane? Participe você também do nosso Espaço do Leitor. Escreva pra nós sobre o seu filme ou disco favorito que publicamos por aqui!
Hoje quem fala sobre o seu filme favorito, é o colega de trabalho e, mais do que isso, grande amigo Derli Bonine que, como engenheiro agrônomo da Emater, é um especialista em temas como fruticultura e olericultura. Mas aqui, ele mostrou saber muito também sobre cinema. É preciso que se diga que, nós, aqui do Picanha, concordamos em gênero, número e grau com a sua escolha!
"Filme da vida é um título muito forte para um simples filme, mesmo para um cara como eu que sou cinéfilo. São tantos filmes e tantas épocas, e cada filme tem um significado conforme a época. Mas, um filme que me marcou quando assisti pela primeira vez, e me emociona a cada vez que revejo é o Um Estranho no Ninho. Foi o filme com que inaugurei meu videocassete. Não passava mais no cinema, na época. E eu tinha uma enorme vontade de assisti-lo, pois sempre figurava na lista dos melhores de todos os tempos. Além do quê, sou fã de carteirinha de Jack Nicholson, que neste filme tem uma atuação soberba. Aliás, todo o elenco está brilhante: a enfermeira sádica, os “loucos” e Chief, o índio. Uma das cenas mais memoráveis do filme, e, de resto, do cinema, é quando a enfermeira não permite que os internos assistam ao final do campeonato de beisebol, e McMurphy (Nicholson) narra um jogo imaginário com a TV desligada, com os loucos torcendo. E a música com temática indígena ainda está nos meus ouvidos..."
Participe você também do quadro mais democrático do Picanha! Todas as segundas-feiras a gente coloca as preferências da moçada por aqui.
Hoje, no espaço do leitor, temos a participação da nossa amiga, escritora (e leitora), poeta e futura bióloga, Fran Spohr! E falando de um filme que marcou a vida dela... uma baita dica pra todo mundo.
"Muito difícil isso de pensar num filme que marcou a minha vida...são tantos e de tantas formas...há filmes que chocaram, que inspiraram, que ensinaram, que transtornaram....a lista é imensa e vai de clássicos da sessão da tarde até Incêndios, El Topo, Dançando no Escuro, Os famosos e os duendes da morte, Carrie, a estranha (o original é meu "filme de garota" predileto). Mas um filme que eu assisti há uns 20 anos atrás e me marcou muito - assisti ele umas 4 vezes em dois dias, levei pra escola pra mostrar pros colegas e tudo - é O Profissional (Leon, the professional, Luc Besson, 1994). Apesar de toda a violência, pra mim o filme sempre foi sobre a capacidade de sobreviver ao que de pior puder acontecer e ainda manter a humanidade de criar laços, mesmo contra teus próprios instintos. Os personagens principais fogem dos esteriótipos e foi um dos primeiros – senão o primeiro filme da Natalie Portmann (incrível como Matilda) e o primeiro filme que eu vi com o Jean Reno (por quem me apaixonei a partir daí). É um filme muita ação mas é ao mesmo tempo delicado e as vezes quase silencioso. Fiquei até com vontade de assistir outra vez :)".
Curtiram?
Não esqueçam de participar do quadro, escrevam pra gente!
Nós, aqui do Picanha, valorizamos muito a interação com os leitores - a razão para o qual o site foi feito. Pensando nisso, lançamos a pergunta a vocês: Qual foi o filme que marcou a sua vida?
Obviamente, são diversos os filmes que marcaram a vida de cada pessoa, mas desafiamos os amigos que nos acompanham a escolher um deles para discorrer sobre. O texto pode ser bem curtinho mesmo, coisa de um parágrafo, para publicarmos aqui no site.
E a participação na estreia do quadro é do nosso amigo Rodrigo Brod, publicitário, professor, músico, pai e muitas coisas mais! ;)
"Um filme que me marcou foi Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000), do Lars Von Trier com a Björk. Eu gosto de dramas que tratam da natureza humana e esse filme é arrebatador. Por ser um musical, o desfecho se torna ainda mais impactante e violento. Em um momento como o atual, cheio de ódio e intolerância, uma dica para abrir os olhos de quem assiste. Ou fechá-los de vez."
E você, qual filme marcou a sua vida? Conta pra gente! Semana que vem tem mais!